O que é a Resistência em Psicanálise? Como vencê-la?

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Der WiderstandA Resistência

O Conceito

Na Arte da Guerra, falaríamos do ato de ocupar e contra-ocupar determinadas posições estratégicas para vencer um inimigo; na Física, o campo da eletricidade – mais especificamente o da eletrostática – fará menção à capacidade de um corpo se opor à passagem de uma corrente elétrica, ou ainda como: uma dificuldade para que haja passagem de corrente elétrica por um condutor submetido a uma determinada tensão. Já no Direito, falaremos de uma certa oposição a cumprir um ato legal, enquanto na Ecologia, da capacidade de um ecossistema manter sua estrutura e funcionamento diante de um distúrbio.

Até na Política encontraremos este termo. Nela, falamos do movimento de um povo contra um poder ilegítimo, ou seja: num conjunto de iniciativas postas em prática por pessoas que, unidas por uma causa comum (libertar seu território de alguém considerado um invasor), irão lutar contra uma imposta dominação e, consequentemente, pelo restabelecimento da ordem anterior das coisas. Charles de Gaulle e Jean-Paul Sartre são exemplos de pessoas que, de maneira diferente, exerceram um papel de resistência política na França da Segunda Guerra Mundial.

O Dicionário Aurelio, muito popular no Brasil, nos complementará:

1 – Força por meio da qual um corpo reage contra a ação de outro corpo.
2 – Defesa contra o ataque.
3 – Oposição.
4 – Delito que comete aquele que não obedece à intimação da autoridade.

Até às mentes menos focadas na física, na guerra de infantarias, na política, no direito, na medicina, etc. a palavra resistência tem seu significado bem compreendido. E digo isso pois, de alguma forma, até sua definição acordada num senso (em) comum poderá obter proximidade à representação deste conceito noutras áreas. Mesmo o mais leigo saberá que se trata de algum tipo de imposição à mudanças e influências externas, de um certo impedimento ou tentativa deste perante algum fenômeno. Seja na prevenção de danos ao chuveiro elétrico, no tratamento de infecções bacterianas com antibióticos ou em grandes revoluções, o conceito de resistência traz nestas e noutras áreas do conhecimento e até no imaginário popular palavras que, em uma cadeia sinônima, carregam em sua denominação um comum objetivo: barrar/bloquear, se opor e impedir.

Mas e na Psicanálise?

O Início

Vasculhando a obra de Sigmund Freud, podemos entender que seu deparar-se com o fenômeno da resistência de seus pacientes aos tratamentos foi algo que, em certo momento, começou a captar uma maior parte de sua energia e atenção. Mais especificamente quando Freud passou a trabalhar com Breuer seus Estudos sobre a histeria (Breuer, J., & Freud, S. 1895/1987).

Em um dos cinco casos clínicos descritos na obra, foi justamente no caso da Srta. Elizabeth que Freud começa a se interessar pelo mesmo fato que, mesmo mais de um século depois, ainda continua sendo grande responsável por uma elevada taxa de evasão de pacientes em consultórios de psicologia, psiquiatria e psicanálise: a resistência.

O caso que Freud descreve como “a primeira análise integral de uma histeria” teria seu início marcado pela dificuldade que Freud encontrara para conduzir a paciente a um transe hipnótico (método que, à época, era considerada uma forma de acessar conteúdos alheios à consciência). Mesmo com algum sucesso temporário, utilizando a chamada “técnica de pressão“, onde um toque à testa do paciente acompanha a informação de que, a partir daquele momento as lembranças “esquecidas” poderiam ser lembradas, Freud começa a ficar inquieto, já que, segundo o psicanalista: “parecia haver impedimentos de cuja natureza eu não desconfiava na época” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 166).

Segundo o Pai da Psicanálise, a forma encontrada para que sua “técnica de pressão” voltasse a oferecer o resultado desejado, foi informar verbalmente à paciente “saber muito bem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando […], mas que jamais se livraria de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 167).

A partir daí, o neurologista mais famoso do ocidente nos informa que passou “a atribuir maior importância à resistência oferecida pela paciente na reprodução de suas lembranças e a compilar cuidadosamente as ocasiões em que era particularmente acentuada” (ibid., p. 167). Sua subsequente conclusão teve o caminho de entender que: existiria alguma correspondência entre a energia com que uma representação incompatível às suas associações atuais fosse refutada de sua consciência e sua resistência em reproduzir cenas vividas de maneira traumática (ibid. p. 170). Portanto, houve, da parte da paciente, uma “forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência” (ibid. p. 177).

Em seu Vocabulário da psicanálise, Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. (1988), apontam que a resistência à hipnose e à sugestão foi, inclusive, uma razão pela qual Freud desistira destas em seus pacientes, uma vez que “a resistência maciça que lhes apunham certos pacientes lhe parecia ser por um lado legítima, e, por outro, não poder ser superada nem interpretada” (p. 596).

Tipos de Resistência

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Já sendo um termo mais frequente em A interpretação dos sonhos (Freud, 1900/1987), o nosso primeiro psicanalista fala da resistência como algo a impedir lembranças, a chegada de conteúdos à consciência e, mais ainda: a resistência à interpretação.

Para Freud, se havia na irracionalidade dos conteúdos presentes nos sonhos algum propósito, este só poderia ser: “[…]escapar da censura imposta pela resistência” (Freud, 1900/1987, p. 297). A justificativa do psicanalista era que o aparelho psíquico precisaria de algum tipo de descarga de energia que trouxesse satisfação, mesmo que mínima, à mente que estaria privada de realizar seus desejos inconscientes incompatíveis com as normas sociais vigentes. Desta forma, haveria sucesso se aqueles conteúdos viessem, quase que incompreensíveis, à consciência (através do sonho) e carregassem apenas fragmentos daqueles desejos – através de representações feitas pelo similar som das palavras; por sinônimos; por alusões e associações realizadas no que Freud chamara de Trabalho do Sonho, regidas principalmente pelos mecanismos de defesa da Condensação e do Deslocamento.

O psicanalista, segundo Freud, teria a singela missão de ajudar o paciente a realizar as associações necessárias para, de alguma forma, interpretar a mensagem que é transmitida a partir das associações presentes no sonho. Aquela mesma mensagem que seria barrada da própria consciência por conta ser considerada, por algum motivo, ameaçadora a integralidade psíquica daquele sujeito. Naturalmente, as interpretações do analista ofereceriam certo risco às verdades carregadas durante uma vida inteira, uma vez que poderiam revelar desejos jamais antes permitidos à consciência em forma outra senão a de Tabu, como por exemplo, o incesto e o parricídio. Era de se esperar que houvesse, também, uma resistência à interpretação.

Para Freud “Sua opinião de que o sonho é absurdo significa apenas que você tem uma resistência interna contra a interpretação dele” (p. 154).

Talvez a resistência esteja mais centrada no Supereu, quando a análise está prestes a apresentar um forte conflito dos desejos inconscientes do analisando com suas crenças, a moral vigente e seus valores; possivelmente estará mais focada no Eu quando se evita falar para não causar problemas, conflitos e julgamentos a respeito daquela imagem idealizada que se tem de si mesmo, principalmente daquela que se imagina que os outros tenham, mas certamente também será possível encontrar morada para a resistência em nossa dificuldade de sermos transparentes em relação ao nosso inconsciente. De toda forma, ela existe para preservar a organização psíquica anterior a uma análise, uma vez que por algum tempo esta trouxe ao paciente grande satisfação – posta em cheque pela investigação de seu inconsciente.

Você poderá conhecer melhor os conceitos sobre a Interpretação dos Sonhos e os Mecanismos de Defesa dentro da obra de Freud nos textos a seguir, também publicados na Sociedade dos Psicólogos:

– Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: A Interpretação dos Sonhos e a Primeira Tópica Freudiana
– A Interpretação dos Sonhos
– Reflexões sobre o Aqueronte: Como alcançar o inconsciente em uma análise.
– O Que São Mecanismos de Defesa do Eu

A Definição

Por conta disso, é comum que entendamos hoje a resistência perante interpretações, associações e junções de representações, como uma certa força de expulsão para proteger o eu e o núcleo patógeno da lembrança e do acesso. Uma vez que o sintoma, a repetição e o sonho, mesmo que hoje tragam sofrimento, foram já um dia uma forte maneira de obter acesso a uma fração de seus desejos inconscientes – conforme visto na obra de Freud, que na mesma obra já nos diz que “A quantidade de afeto que devotamos à primeira associação de um objeto oferece resistência a que ela entre numa nova associação com outro objeto […]” (Freud, 1893/1987, p. 190).

E qual seria o papel da análise senão o da ressignificação, a formação de novas associações e, eventualmente, a interpretação de representações do inconsciente? Sabendo disso, não é incomum que o próprio fato da análise em si também seja alvo da resistência.

Referências no assunto nos dirão que se poderá definir a resistência como:

“o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise” (Roudinesco & Plon, 1998, p. 659)

Ou ainda:

“[…] tudo o que, no actos e palavras do analisando, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente” (Laplanche & Pontalis, 1988, p. 595-6).

Mas será na página 475 de sua Obra Magna, A Interpretação dos Sonhos, que Freud baterá o martelo:

“A psicanálise é justificadamente desconfiada. Uma de suas regras é que tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência (Freud, 1900/1987, p. 475).

Portando, para Freud, até as melhores justificativas para atrasos, faltas, remarques e refutações de interpretações ou até pontuações de atos falhos e lapsos, são uma forma de resistência. É claro que a palavra do analista não é Lei, este também poderá se enganar. Mas, via de regra, com o devido estudo, análise e supervisão do analista, será mais fácil se deparar com a resistência do paciente do que um erro de cálculo.

A Resistência é do Analista? Como Lidar com a Resistência ao Tratamento?

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Em tradução livre: “Você realmente pensa que é uma resistência?”

Em sua Introdução Clínica à Psicanálise Lacaniana (Zahar, Rio de Janeiro, 2018), Bruce Fink consegue trazer partes da obra de Jacques Lacan e Sigmund Freud a respeito do assunto. Leitura recomendada para quem deseja iniciar uma imersão neste tema.

O começo de seu primeiro capítulo é o refutar de uma antiga piada sobre psicólogos e psicanalistas:

“Quantos psicólogos são necessários para trocar uma lâmpada? Um, mas a lâmpada realmente precisa querer mudar”.

A crítica do psicanalista é exatamente sobre o ato de responsabilizar o paciente pelo tratamento inteiro. Ora, se a resistência interage com a relação transferencial e os mecanismos de defesa do Eu, o tratamento deixará de dar certo, caso o paciente continue com suas projeções, deslocamentos, racionalizações, falte às sessões, chegue atrasado, ataque o analista, correto? Correto. Mas o paciente realmente quer mudar? O paciente realmente quer se livrar de seu sintoma? É o paciente que deverá se livrar da resistência?
É óbvio que sim, mas é claro que não.

“O simples fato de as pessoas lhe pedirem algo não significa que elas realmente querem que você lhes dê”. LACAN, Seminário 13, 23 de março de 1966.

Se a resistência, conforme vimos anteriormente, tem fortes influências inconscientes, como poderá o paciente se livrar dela apenas com sua consciência? A própria ferida narcísica introduzida à humanidade por Freud já nos mostrava que existiria uma força muito maior no inconsciente.

Os franceses vão chamar Jouissance [gozo], aquele “barato”, aquela “onda” que se tira de situações dolorosas. Seja um castigo ou uma autopunição. É como se de tanta dor houvesse de sair algum prazer. Mais ainda: como se de tanto prazer vazasse dor. E isso, a psicanálise já nos diz: há ou houve nos sintomas, nos sonhos e na repetida e desejada vontade de certa ignorância sobre os aspectos do inconsciente uma dose de satisfação, de gozo, que permitia aos sujeitos um leve acesso aos seus desejos recalcados e/ou reprimidos, por que então o sujeito iria aceitar de prontidão uma mudança?

É natural que na clínica busque-se apenas uma manutenção do sintoma, ou, como diria Fink:

“em meio a uma crise de gozo esperam que o terapeuta a resolva, faça o sintoma funcionar como funcionava antes [gerando satisfação, gozo, de maneira paralela]. Não pedem para ser livrados do sintoma, e sim de sua recente ineficácia, de sua recente insuficiência. Sua demanda é que o terapeuta restabeleça sua satisfação no nível anterior” (2018, p. 19).

E não será responsabilizando imediatamente o paciente pelo que ocorre, denunciando explicitamente seus mecanismos de defesa a partir de uma interpretação precoce ou, ainda culpabilizando o paciente pela própria resistência e, consequentemente, pela ineficácia do tratamento, que irá haver sobreposição a este fato.

O analisando resiste porque quer seu gozo de volta, resiste porque decifrar seu inconsciente ameaçará muito do que se acredita; resiste porque teme, lá no fundo, ficar sem nada em que até hoje se escorou para suportar as exigências do inconsciente versus exigências da sociedade. Se tirarmos, de prontidão, as fontes de gozo do analisando, o que poderemos oferecer em troca para que este diminua sua resistência ao tratamento? Porque já sabemos: se o sintoma tem seu papel, sua ausência abrupta poderá trazer demandas piores. O que será oferecido ao sujeito no processo de análise?

Fink vai nos dizer que:

“uma satisfação substituta diferente: o estranho tipo de satisfação que vem da relação transferencial e da decifração do inconsciente” (ibid).

“Haverá uma nova abordagem das coisas, uma nova maneira de lidar com pessoas, um novo modo de funcionar no mundo” que poderão e deverão trazer mais satisfação que o antigo sintoma, pois só assim haverá engajamento na análise ao invés de abandono.

E este processo só poderá ser vencido se for vencida a única resistência que pode ser vencida de fato: a resistência do analista ao seu desejo.

A Resistência e o Desejo do Analista

Se não é possível ao paciente entender a troca que fará, muito menos a resistência que enfrentará, é esperado que seja ao analista. Se alguém procura terapia porque houve uma dificuldade em obter satisfação, gozo, da maneira que lhe era possível anteriormente (sintoma), caberá ao analista se esforçar para que esta pessoa obtenha algum resultado, ou seja, alguma satisfação ao se livrar gradativamente deste antigo modo que lhe servia (quase) muito bem.

No Seminário I (1953-54), Lacan explica que a Transferência (sobre a qual farei um texto em breve), é o motor da análise. E como já sabemos que é dela que vem algum tipo de satisfação substituta àquela do sintoma, essa informação se torna importante para que entendamos que o estabelecimento desta ocorrerá simultaneamente à uma pequena superação da resistência.

Lacan revisita Freud em seus Escritos Técnicos mostrando que tudo que intervém suspendendo, destruindo ou interrompendo a continuidade do tratamento é uma resistência do analista.

Para Lacan, se o analista não atentar à realidade do discurso, ou seja, da ordem do Simbólico, sua atenção à realidade factual, da ordem do Imaginário, irá empurrar o analisando para os chamados acting outs, ao invés de iniciar uma verdadeira análise. Ex: pedidos de demissão repentinos; bruscas rupturas em relacionamentos estáveis. Portanto, se há uma resistência, Lacan vai nos dizer que ela é sempre do analista.

Isso quer dizer que não há, portanto, uma resistência do analisando para com seu desejo inconsciente? Há sim. Mas a resistência ao tratamento faz parte de uma resistência do analista para com seu único desejo que deverá ser explicitado ao analisando: o chamado desejo do analista – o desejo para que o analisado continue análise. O desejo de que ele compareça à próxima sessão.

O analista não desejará nada senão o retorno do analisando. O analista desejará, unicamente, que análise aconteça. Quer que o analisando conte seus sonhos, faça associações, entenda seus lapsos e atos falhos, critique suas relações estabelecidas e questione os padrões que regem suas escolhas antes mais inconscientes. Consequentemente, nasce aqui a transferência que, em sua essência, é a força motriz de toda análise.

A Análise nasce do desejo do analista e mora no desejo do sujeito

A análise se move a partir da transferência que, por sua vez, é o que ocasionará uma trégua à resistência. A relação transferencial tem origem no próprio desejo do analista de que o analisando continue a análise. Esta mesma relação transferencial é o motor da análise e também aquilo que vence a resistência ao substituir o que é trazido pelo sintoma. Ela dificilmente existirá se o desejo do analista resistir a aparecer. Quando o analista expressa seu desejo, ele permite o aparecimento do desejo do sujeito em análise, mesmo de maneira não explícita. Portanto, se há resistência do analista em mostrar seu desejo, esta, por osmose, também será transferida ao analisando.

Seja realizando uma ligação perante um atraso de mais de 15 minutos, ou até insistindo para que o analisando venha, mesmo que restem apenas poucos minutos de análise; seja cobrando sessões em que houve faltas sem um aviso com 24 horas de antecedência, seja mostrando ao analisando que a análise deverá tomar o lugar de um compromisso inadiável em sua vida; seja exigindo reposições ou ainda solicitando uma sessão extra; seja valorizando na sessão o conteúdo que traga realmente o discurso do inconsciente; seja tolerando toda a resistência que supostamente seria do paciente: o analista expressará sempre o desejo de que o analisando se analise. O desejo de que ele venha, o desejo de que a análise continue. Assim será vencida a resistência, cremos hoje.

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Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERÊNCIAS:

BREUER, J., & FREUD, S. (1895/1987). Estudos sobre a histeria. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 2) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1900/1987). A interpretação dos sonhos. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vols. 4-5) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1905/1987). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 7) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
LACAN, J. Seminário I Escritos técnicos 1953-1954. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1986.

LAPLANCHE, J., & PONTALIS, J.-B. (1988). Vocabulário da psicanálise (10a ed.). São Paulo: Martins Fontes.

ROUDINESCO, E., & PLON, M. (1998). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

(TODAS AS IMAGENS UTILIZADAS NESTE TEXTO FORAM OBTIDAS NA INTERNET. CASO VOCÊ DETENHA OS DIREITOS DE ALGUMA DELAS, ENTRE EM CONTATO COM A SOCIEDADE DOS PSICÓLOGOS IMEDIATAMENTE).

As 3 Grandes Forças em Psicologia

Psicologia? Psicanálise? Behaviorismo? Gestalt-Terapia? Perls? Skinner? Freud? Como é estruturado o saber psicológico? O que é o que?

O texto de hoje visa explanar sobre as chamadas 3 Grandes Forças em Psicologia, a fim de traçar uma organização teórica e cronológica acerca do behaviorismo, psicanálise e das linhas humanistas-existenciais.

A Psicologia enquanto ciência

Wundt e estudantes de psicologia em Leipzig

1879 é considerado o ano de nascimento da psicologia. Naturalmente que já se falava de psicologia e de temas como mente, comportamento, felicidade, sofrimento, percepção, inteligência, emoção, saúde, doença, entre outros tópicos basilares, desde a antiguidade, porém, 1879 é o ano em que W. M. Wundt (1832-1920) funda o 1º laboratório de psicologia experimental (Psychologische Institut, na Universidade de Leipzig – Alemanha). É a partir dessa data que a psicologia começa a criar um campo de conhecimento próprio, com metodologia própria e separada do saber filosófico.

Esta ciência tem de investigar os fatos da consciência, suas combinações e relações, de tal modo que possam, finalmente, descobrir as leis que governam tais relações e combinações.

(Wundt, 1912/1973, p. 1)

Os primeiros psicólogos experimentais (além de Wundt vale citar Ernst Heinrich Weber [1795-1878] e Gustav Theodor Fechner [1801-1889]) se debruçaram sobre temas como consciência, introspecção, sensação e percepção, limiares de percepção, atenção e emoções, por exemplo e utilizaram, principalmente, técnicas da chamada psicometria e psicofísica, para analisar e medir esses fenômenos.

A partir dessas investigações surgem ramificações, movimentos e escolas próprias como o estruturalismo, o funcionalismo, o behaviorismo (1ª grande força), a psicanálise (2ª grande força) e a psicologia humanista-existencial (3ª grande força). Essas correntes psicológicas são arcabouços teórico-práticos que influenciam a forma com que o psicólogo compreende e intervém sobre as questões humanas.

1ª Grande Força em Psicologia: o Behaviorismo

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(Skinner, Watson e Pavlov com um cão, respectivamente)

O behaviorismo (ou comportamentalismo) nasce como uma crítica ao introspeccionismo e às teorias mentalistas (como a psicanálise), isto é, quando o indivíduo busca acessar, se conscientizar e relatar seus estados internos. Para os behavioristas, o introspeccionismo é falho e, além de fornecer informações errôneas, afasta a psicologia do seu verdadeiro objeto de estudo – o comportamento.

O problema mentalista pode ser evitado com procurarmos diretamente as causas físicas anteriores, desviando-nos dos sentimentos ou estados mentais intermediários. A maneira mais rápida de fazer isto consistem em limitarmo-nos àquilo que um dos primeiros behavioristas, Max Meyer, chamou de “a psicologia do outro”; considerar apenas aqueles fatos que podem ser objetivamente observados no comportamento de alguém em relação com a sua história ambiental prévia. Se todas as ligações são lícitas, não se perde nada por desconsiderar uma ligação supostamente imaterial.

(Skinner, 1974/2006, p. 16)

Dessa forma, essa corrente da psicologia se debruçou sobre o que pode ser observado e mensurado diretamente, isto é, o ambiente e o comportamento da pessoa, ou seja, as contingencias ambientas e comportamentais (estímulos anteriores e posteriores referentes à uma ação).

Podemos entender estímulo como “uma alteração detectável no meio em que o indivíduo está inserido” (Lombard-Platet, Watanabe & Cassetari, p. 37, 2008), o que compreende, por exemplo, alterações na luminosidade, temperatura, sons, cheiros e qualquer coisa captada pelos órgãos sensoriais. O comportamento, em um primeiro momento, tem ser uma ação observável e mensurável, isto é, o behaviorista não analisa o “sofrer” ou a “diversão”, mas pode analisar, em intensidade e frequência, o chorar, a diminuição da fala, a mudança na postura, o gritar, o sorrir, o pular, o correr…. Também falamos de comportamentos involuntários (respondentes, como alteração de pupila, sudorese, salivação, erubescer…) e voluntários (operantes, como acender a luz, pegar uma revista, andar até a padaria…). De uma forma resumida, os comportamentos involuntários são eliciados pelos estímulos antecedentes (condicionamento clássico, pavloviano ou respondente) enquanto os comportamentos voluntários são emitidos, reforçados, punidos ou extintos pelas suas consequências – o estímulo posterior (condicionamento operante). Com o avanço da corrente behaviorista passou-se a falar também dos chamados comportamentos encobertos, isto é, aqueles que não são observados diretamente por outrem (como pensar, sonhar, imaginar…). É importante dizer também que seu desenrolar/legado fez nascer a TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental.

Autores do Behaviorismo

Os 3 principais e “clássicos” autores do behaviorismo são I. Pavlov (1849-1936), responsável pela descoberta do comportamento respondente; J. B. Watson (1878-1958), considerado o fundador da corrente, pai do behaviorismo metodológico e famoso pelo experimento do pequeno Albert; e B. F. Skinner (1904-1990), pai do behaviorismo radical, que ampliou as “Leis do Efeito” (de E. L. Thorndike) enquanto compreensão do comportamento operante, grande autor sobre processo de aprendizagem, criador da Caixa de Skinner, famoso pelos experimentos e demonstrações com ratos e pombos.

2ª Grande Força em Psicologia: a Psicanálise

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(Representação da compreensão Freudiana sobre o aparelho psíquico humano: 1ª e 2ª tópica)

Aqui temos o papel do influente Sigmund Freud (1856-1939) e a importância da vida psíquica inconsciente, onde emergem temas como psicossomática, desenvolvimento psicossexual, neurose, histeria, mecanismos de defesa, sonhos, desejos e censuras. A psicanálise nasce na psicologia e dialoga, principalmente, com a psicologia clínica, todavia, hoje ela está para além da questão clínica, aparecendo como uma forma de estudar os aspectos dinâmicos da sociedade, economia, política e pensamento. Dessa forma, hoje temos muitos psicanalistas que não são psicólogos, mas possuem formação básica em filosofia, sociologia, medicina, letras e outras graduações. Falamos também de psicanálises, isso pois se trata de uma das linhas teórico-práticas que mais apresentam diferenças conceituais e intervencionistas de autor para autor, o costuma causar confusões naquilo que diz respeito às compreensões iniciais na temática. Mas, independente das diferenças do psicanalista em questão e como ele vai compreender aspectos do psiquismo, as psicanálises se aproximam quando compreendem um processo de conhecimento/tratamento/cura que, necessariamente e para sua efetividade, precisa passar pelo outro. Isto é, só sei de mim, pelo outro – e sobre essa questão específica, recomendo o seminário A Utopia do Autoconhecimento, veiculado no Café Filosófico, por Ricardo Goldenberg.

As psicanálises também costumam compartilhar a questão da transferência, isso é, padrões específicos relacionados às relações interpessoais passadas que direcionam a forma como a relação presente se manifesta e se estabelece – a transferência diz sobre seu portador e seu manejo pode ressignificar/resolver conflitos reprimidos. A noção da influência dos processos inconscientes também é basilar sobre o discurso do sujeito (discurso aqui, não compreende apenas a fala).

Digamos que alguém — um paciente em análise, por exemplo — nos relata um de seus sonhos. Nós supomos que desse modo ele faz uma das comunicações que se comprometeu a fazer iniciando um tratamento psicanalítico. Uma comunicação com meios inadequados, é certo, pois o sonho não é uma expressão social, um meio de entendimento. Não compreendemos o que ele quer dizer, e ele próprio não sabe o que é. Então temos que tomar rapidamente uma decisão: ou o sonho, como nos asseguram os médicos que não são psicanalistas, é um indício de que a pessoa dormiu mal, de que nem todas as partes do seu cérebro descansaram igualmente, de que alguns pontos quiseram continuar trabalhando, sob a influência de estímulos desconhecidos, e só puderam fazê-lo de modo bastante incompleto. Se assim for, será correto não nos ocuparmos mais do produto — psiquicamente sem valor — da perturbação noturna; pois o que tal pesquisa traria de útil para nossos propósitos? Ou então — percebemos que desde o início já decidimos de outra forma. Fizemos o pressuposto, adotamos o postulado — bem arbitrariamente, deve-se admitir — de que também esse sonho incompreensível teria de ser um ato psíquico inteiramente válido, de sentido e valor plenos, que podemos usar como qualquer outra comunicação na análise.

(Freud, 2010 pp. 95-96)

O clínico Freud foi influenciado, principalmente, por J.-M. Charcot (1825-1893), com quem aprendeu sobre histeria e hipnose, e J. Breuer (1942-1925) com quem estudou o método catártico (a cura pela fala). Sua obra é grande, estruturada e desenvolve o nascimento da psicanálise por meio de contato com outros saberes (biologia, física e literatura) e por meio dos processos de análise clínica e da autoanálise do próprio Freud.

Durante muito tempo, o aspecto mais conhecido e discutido da obra de Freud era o da teoria da libido, que ele elaborou inspirado nos modelos da eletrodinâmica ou da hidrodinâmica vigentes na ciência da época. Assim, o conceito de libido, que Freud concebeu como sendo a manifestação psicológica do instinto sexual, recebeu sua origem na tentativa de explicar fenômenos, tais como os da histeria, que Freud explicava como sendo resultantes do fato de que a energia sexual era impedida de expandir-se através de sua saída natural e fluía, então, para outros órgãos, ficando restringida ou contida em certos pontos e manifestando-se através de sintomas vários. Freud chegara à conclusão de que as neuroses, como a histeria, a neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia (fobia), teriam sua causa imediata no aspecto “econômico” da energia psíquica, ou seja, num represamento quantitativo da libido sexual.

(Zimerman, 2007, p.23)

Autores da Psicanálise

Para além do próprio Freud, podemos citar a influência de nomes como J. Lacan (1901-1981), que propôs um retorno sistemático à obra de Freud e a relacionou com os saberes da antropologia, linguística e estruturalismo, além de ter desenvolvido conceitos como Real, Simbólico e Imaginário; M. Klein (1882-1960), expoente da chamada “escola inglesa de psicanálise” foi uma das primeiras psicanalistas a atender crianças e sua contribuição se dá, principalmente, na compreensão dos componentes e fenômenos associados à vida psíquica primitiva; D. Winnicott (1896-1971) que abordou o papel do ambiente-cuidador para com o desenvolvimento emocional do sujeito e trouxe, entre outros, os conceitos de criatividade primária e tendência antissocial.

3ª Grande Força em Psicologia: a Psicologia Humanista-Existencial

Como uma reação ao behaviorismo e à psicanálise, a partir da segunda metade dos anos 1950 (e ganhado maior desenvolvimento e destaque durante as duas décadas posteriores), surge a 3ª Força. Contrária a uma visão determinista do homem (seja pela questão dos condicionamentos comportamentais ou pelo determinismo do inconsciente), ela valoriza a experiência consciente e trabalha com tópicos como: livre arbítrio; autorrealização; criatividade; esperança; potencial; sentido; contato; decisão; congruência; responsabilidade; entre outros…

(Abraham Maslow)

Seu fundador é considerado A. Maslow (1908-1970), famoso por desenvolver a “pirâmide hierárquica das necessidades básicas” e quem primeiro cunhou o termo “psicologia positiva“, em uma contraposição à chamada “psicologia negativa” – tradicional e focada na doença, no transtorno, no sofrimento e em seu tratamento/cura. Dessa forma, a Psicologia Humanista incorporou a visão de homem e mundo referente aos movimentos intelectuais do humanismo, do existencialismo e da fenomenologia. Dentro dela, vamos encontrar abordagens distintas como a Gestalt-Terapia, a Abordagem Centrada na Pessoa, ou a Logoterapia, por exemplo, onde cada uma tem suas particularidades clínicas e acabam por se aproximar mais do humanismo ou do existencialismo, a depender da linha téorico-prática, mas todas fazem parte da 3ª força que, segundo Schultz & Schultz (2008), integra os seguintes pontos essenciais:

  1. uma ênfase na experiência consciente;
  2. uma crença na integralidade da natureza e da conduta do ser humano;
  3. a concentração no livre-arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do indivíduo;
  4. o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição humana.

Dentre as abordagens clínicas dessa corrente psicológica, aquela que mais me identifico e acabei por estudar é a Gestalt-Terapia (não confundir com Psicologia da Gestalt). Essa abordagem é sempre uma terapia do contato e seu manejo é pautado no aqui-agora, sendo que a relação terapeuta-paciente funciona do ponto de vista dialógico, onde o terapeuta confronta e frustra o paciente que tenta se esquivar ou fugir do seu contato e experiência com o presente. A fenomenologia pauta o setting clínico e, desta forma, a interpretação não é adequada, mas sim a descrição. A farsa, as atuações e as incongruências não se sustentam na Gestalt-Terapia, uma vez que são valorizadas e validadas as experiências mais espontâneas e verdadeiras de alguém.

Gestalt-terapia é uma das forças rebeldes, humanistas e existenciais da psicologia, que procura resistir à avalanche de forças autodestrutivas, autoderrotistas, existentes entre alguns membros de nossa sociedade. Ela é “existencial” num sentido amplo. […] Nosso objetivo como terapeutas é ampliar o potencial humano através do processo de integração. Nós fazemos isto apoiando os interesses, desejos e necessidades genuínas do indivíduo.

(Perls, 1977, p.19)

A Gestalt-Terapia deve ser experimentada para melhor compreensão – ela não se basta enquanto teoria. Caso tenha curiosidade em saber como é uma sessão com abordagem gestáltica, recomendamos que participe de uma 😉 E recomendamos também que assista um, das várias sessões gravadas, com F. Perls – pai da GT. (após esse vídeo, colocamos também um atendimento de Carl Rogers, com a mesma mulher, para finalidades didáticas e comparativas).

Autores da Psicologia Humanista-Existencial

Como já foi dito antes, há abordagens mais humanistas e outras mais existenciais. C. Roger (1902-1987) pai da Abordagem Centrada na Pessoa e dos Grupos de Encontro, estudou sobre o crescimento pessoal, as relações interpessoais e os processos experienciais; F. Perls (1893-1970) ex-psicanalista, pai da Gestalt-Terapia, contribuiu naquilo que diz respeito à visão holística sobre o indivíduo, sobre o papel do terapeuta na conscientização das incongruências, bem como sobre as dificuldades da pessoa em experienciar e desfrutar do presente. V. Frankl (1905-1997), pai da Logoterapia, tem uma abordagem mais existencialista que se relaciona com a temática do sentido da vida – que começou a ser desenvolvida quando esse foi prisioneiro em um campo de concentração nazista.

Referências

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras.

Lombard-Platet, V. L. V.; Watanabe, O. M. & Cassetari, L. (2008). Psicologia experimental: Manual teórico e prático de análise do comportamento. São Paulo: Edicon.

Schultz, D. P. & Schultz, S. E. (2008). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Stevens, J. O. (Perls, F. et al.) (1977). Isto é Gestalt. São Paulo. Summus.

Wundt, W. (1912/1973). An introduction to psychology. Translation R. Pintner. London: George Allen & Company, Ltd.

Zimerman, D. E. (2007). Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

Psicanálise Infantil: O Que Precisa Ter Dentro da Sua Caixa Lúdica?

Hoje falaremos sobre questões relacionadas à psicoterapia psicanalítica infantil e à utilização da caixa lúdica em contexto clínico.

Psicoterapia infantil

Primeiramente, e buscando responder uma dúvida que se mostrou comum, principalmente para os estudantes de psicologia, é importante dizer que existem diversas abordagens dentro da psicologia clínica e essas possuem teorias e técnicas distintas para compreensão e intervenção sobre o comportamento/psiquismo infantil, o que implica, por exemplo, e para as finalidades do seguinte texto, na utilização ou não de brinquedos/técnica do brincar e/ou caixa lúdica, variando de psicoterapeuta para psicoterapeuta e correspondendo diretamente às suas respectivas linhas e abordagens teórico-práticas. Dentro mesmo da psicanálise (onde há um volume relevante de publicações acerca da utilização de brinquedos no setting analítico) existem profundas divergências sobre a prática. Sendo assim, para quem busca compreender melhor as possibilidades de atuação em psicoterapia infantil que não empregam os tais recursos lúdicos, recomendamos o texto A Clínica da Infância à Partir de Lacan, que foi escrito pelo Psicólogo e Psicanalista Igor Banin.

Anna Freud & Melanie Klein

No começo, a psicanálise não atendia crianças. Hermine Von Hug-Hellmuth, Anna Freud (filha de Sigmund Freud) e Melanie Klein foram as primeiras psicanalistas a atenderem crianças. É verdade que Freud analisou o Pequeno Hans (sendo que os primeiros relatos apontam que esse tinha 3 anos), mas as observações foram feitas pelo pai da criança e Freud encontrou uma única vez com Hans (Reghelin, 2008).

psicanálise infantil psicoterapia brincar
(Anna e Sigmund Freud)

Anna e Klein trilharam caminhos distintos e propuseram atuações clínicas muitos diferentes. Para Anna, “o analista deve ser educador, porque o superego do paciente ainda depende dos objetos exteriores que o originaram e não está maduro.” (Paula, 2017,p.16). Podemos dizer que sua orientação clínica foi essencialmente pedagógica e que voltou-se mais para o Ego consciente do que para a esfera do inconsciente (Zimerman, 2004), além de valorizar o processos como sonhos, fantasias diurnas, desenhos e limitando a utilização de jogos (Trapiá et al., 2012).

“Anna Freud entendia o brincar como atividade expressiva e não simbólica (pois o simbólico estava ligado ao reprimido) e Melanie Klein via o brincar como alocução e destinado ao analista, pressupondo diferentes níveis de simbolização conforme idade, nível de funcionamento mental, quantidade e qualidade das angústias da criança”

(Reghelin, 2008, pp. 170-171)

Melanie Klein Brincadeira Psicoterapia Infantil Psicanálise
(Melanie Klein e criança)

Klein foi responsável por introduzir uma modificação na técnica básica da psicanálise e substituiu a palavra pelo brincar. Dessa forma, propôs que a brincadeira seria uma via de acesso aos conteúdos inconscientes da criança, equivalendo o meio à linguagem verbal do adulto. “Diferente de Anna Freud, Klein baseia-se na utilização do jogo e continua as investigações de Freud, a fim de construir um arcabouço teórico, a partir da observação de bebês e dos atendimentos com crianças.” (Paula, 2017, p.16). Sua teoria e prática explorou os fenômenos dinâmicos do brincar na cena analítica, trouxe compreensões sobre a técnica do brincar e possibilitou a compreensão da vida mental primitiva (abrindo novos horizontes dentro do campo da psicanálise).”Em 1932, ela notou que a criança expressava suas fantasias, desejos e experiências simbolicamente no brinquedo e acentuou a importância da caixa de brinquedos, que incluía pequenas figuras animais e humanas, pequenos veículos, recipientes, lápis, cola, massa de modelar, fita adesiva, cordão, tesoura… Objetos pequenos e inespecíficos.” (Reghelin, 2008, p. 169).

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(Brinquedos utilizados por M. Klein em psicoterapia com crianças)

Não há regras rígidas sobre o que se deve ter dentro de uma caixa de brinquedos, mas é sensato admitir que o analista deve selecionar, além de objetos que não ofereçam risco à saúde do analisando, relacionando com os objetivos da sessão, do tempo disponível e da idade da criança, selecionar objetos que permitam emergir a expressividade dos conflitos emocionais e a potencialidade dos processos criativos. Dentro dessa seleção, a escolha dos objetos feita pela criança, bem como a forma de utilização, deve ser observada como um ato psíquico intencional e comunicacional que revela muito, a nível clínico, sobre seu portador. Trocando em miúdos, estamos falando da possibilidade de observação dos vínculos, situações edípicas, fantasias, desejos, resistências, sentimentos e até questões como os aspectos maturacionais, motores e cognitivos, por exemplo.

“O trabalho tradicionalmente realizado por Melanie Klein com crianças era conduzido através das observações e interações durante o brincar, que permitiam que a criança criasse, tanto através da construção quanto pela destruição. Água, cola, papéis, tintas, tesouras, alguns bonecos e outros componentes provocavam as mais diversas reações nas crianças, permitindo-lhes criar, repetir, gerar angústia e expressar essas questões a partir da maneira como utilizavam esses itens.”
(Leite, 2016, p. 146)

Caixa de Brinquedos / Caixa Lúdica

Quem realmente introduziu o caixa de brinquedos no setting foi Arminda Aberastury. Ela via esse recurso como representação do mundo interno da criança e contingente de suas representações inconscientes e relações objetais (Reghlin, 2008, p. 169). Há psicoterapeutas, por exemplo, que utilizam uma caixa lúdica diferente para cada criança e outros que trabalham com uma caixa em comum para todas elas.

caixa lúdica psicologia psicanáliseNão há regra ou checklist sobre os itens que devem compor a caixa, todavia, além das preocupações clínicas já citadas, é importante uma espécie de antecipação à certos desenrolares possíveis de brincadeiras, isto é, por exemplo, caso escolha colocar pincel e tinta em sua caixa e deixá-los à disposição da criança, provavelmente também será necessário papel e/ou toalha, água, bem como um ambiente que comporte respingos e manchas de tinta. Esse é um adendo que faço, principalmente aos iniciantes. É natural que com a experiência prática, esse tipo de situação seja ultrapassada.

A maioria das caixas lúdicas são feitas de papel, madeira ou plástico e, de uma forma geral, os principais itens encontrados em seus interiores são: papeis sulfite (brancos e coloridos), papel kraft, lápis, lápis de cor, aquarela, apontador, giz de cera, massinha, retalhos, perflex, cola (bastão e/ou líquida), fita adesiva, barbante, jogos (como damas, dominó, jogo do mico ou pega varetas) e brinquedos (como fazendinha, família terapêutica, carrinhos, casinhas, conjunto de cozinha, telefone). Vale citar a preocupação que alguns tem em colocar ou não a borracha e a tesoura dentro das caixas, isto é, a não borracha faz lidar com a frustração de um desenho falho e a não tesoura obriga a utilização de outros meios para separar os objetos, por exemplo. “Klein sugere que os materiais sejam pequenos, permitindo que a criança os manipule, ou seja, tenha controle sobre os mesmos, mas não tão pequenos que possam colocar sua vida em risco.” (Trapiá et al., 2012, p. 239)

A caixa lúdica contempla brinquedos, jogos e materiais lúdicos. Alguns aspectos a serem observados durante a interação da criança para com os itens dizem respeito, por exemplo, a:

  • exploração ou não do material;
  • classificação e experimentação dos materiais;
  • organização e separação dos itens;
  • fixação em algum item ou jogo;
  • resistências;
  • estruturação da brincadeira com início, meio e fim;
  • interrupção de atividades;
  • escolha da brincadeira;
  • temática da brincadeira;
  • regras da brincadeira;
  • papel na brincadeira/jogo dramático;
  • histórias, situações e conflitos emergentes;
  • ações de juntar/colar X ações de separar/cortar;
  • utilização do corpo e do espaço;
  • entre outros…

“A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é.”

(Winnicott, 1975, p. 65)

Espero que o texto tenha auxiliado na sua compreensão sobre alguns fatos e implicações acerca da psicoterapia voltada ao público infantil, bem como na diferença do emprego de brinquedos e na utilização da caixa lúdica em um setting. Também espero que você continue brincando…emocionalmente…sempre e convide outros a brincar consigo. Até breve.

Referências consultadas

Aberastury, A. (1982). Psicanálise da criança: teoria e técnica. Porto Alegre: Artes Médicas.

Leite, R. F. (2016). Caixa lúdica e novas tecnologias. Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte-MG, n. 45, pp. 145–148, julho/2016.

Paula, L. de (2017). Psicanálise infantil: uma intersecção entre a teoria e a prática. Secretaria de Estado da Saúde. São Paulo.

Reghelin, M. M. (2008). O uso da caixa de brinquedos na clínica psicanalítica de crianças. Contemporânea – Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.05, Jan/Fev/Mar 2008, pp. 167-179.

Trapiá, A.; Tagliapietra, C.; Usui, E.; Hammoud, M. & Coelho, T. L. (2012). O psicoterapeuta e a escolha do material no processo de ludodiagnóstico. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 3, n. 2, p. 233-240, dez. 2012.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

Zimerman, D. E. (2004). Manual de técnica psicanalítica: uma revisão. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

O Tempo Lógico de Lacan e os Três Tempos do Sujeito.

T E M P O

Bom dia, Boa Tarde, Boa Noite. No artigo de hoje, que pode terminar de ser lido amanhã, bem como poderá lembrar de algo lido no dia ontem, falaremos sobre um assunto atemporal. Falaremos sobre a lógica do tempo. E não será incorreto dizer que também falaremos sobre o tempo da lógica. Está confuso? Calma, há tempo de finalizar esta leitura, espero, entenderá.

Em Pleno Século XX e, sem vergonha alguma, também no século XXI, uma frase ficou muito famosa: Time is Money – Tempo é Dinheiro. E, se deixarmos as críticas a um certo sistema econômico de lado, poderemos nos adentrar mais ao seu conteúdo e buscar uma influência dele na subjetividade alheia. Nela – e aqui eu começo com meus julgamentos apressados, estejam à vontade para embasar sua censura posterior – o $ujeito se torna um mero agente transformador, aquele único responsável por transformar o intervalo de sua existência, a vírgula que separa seu nascimento de sua morte, na maior matéria de troca simbólica já inventada pelo homem. Seria uma troca justa?

Difícil saber sem conhecer todos os sujeitos, mas o foco aqui é Outro. Quando falamos sobre o tempo em si, podemos lembrar desde os filmes sobre viagem no tempo, as teorias da conspiração, teorias científicas pautadas no assunto e muitas outras relações sobre ele no dia-a-dia. Mas, como um psicanalista, Jacques Lacan resolveu estudar seus efeitos nas relações subjetivas. Mais do que isso: o aplicou à própria relação estabelecida com a lógica.

A relação do psicanalista com o tempo fica famosa nas sessões de 500 euros que duravam cerca de 20 minutos. O que poderia ser um ultraje para alguns, se tornava uma maneira de forçar o paciente a expulsar suas falas defensivas durante as sessões, para outros. Se era algo antiético a alguém que solicita cuidado para alguns autores, era uma maneira de fazer com que o paciente elaborasse aquele último assunto abordado em casa, no trabalho e em seus relacionamentos, sem que este tivesse tempo de se defender das intervenções. E a discussão é extensa.

A tentativa deste artigo será de falar um pouco mais sobre o conceito, deixando aos próprios leitores as conclusões múltiplas que lhes vierem. A única sugestão mandatária aqui é a do gozo de uma excelente trilha sonora que já irá falar sobre o assunto. Não podendo começar por Outra, comecemos a leitura deste artigo com uma música homônimamente apropriada.

O Autor

Jacques Lacan é, quando não o mais, um dos mais polêmicos psicanalistas que tivemos em existência. Não é difícil, se estamos entrando no universo psicanalítico, ouvirmos certas reservas à não ortodoxia nos métodos e, principalmente, na escrita e na fala de Lacan. Ouço, frequentemente, colegas se queixando da dificuldade na leitura dos Seminários, o que é entendível, uma vez que são transcrições daquilo falado; mas não é raro quem tenha dificuldade na leitura dos Escritos. E me sobraria arrogância se não me incluísse neste grupo. Lacan tinha uma forma própria de escrever, onde é necessário conter a ansiedade, respeitar cada artigo, cada vírgula, cada frase dita anteriormente; será necessário trocar a voz ativa pela voz passiva, respeitar aquela crase que foi inserida e principalmente o Tempo Verbal empregado. Lê-se uma frase que somente fará sentido no final daquele parágrafo, pregando uma peça no leitor ansioso. Faz-se uma referência àquele assunto anteriormente citado com uma vírgula ou uma crase no meio do assunto atual, o que confunde o leitor obsessivo por estrutura; alguns parágrafos demandam uma extensa repetição da leitura (e da releitura). Mais ainda: seu entendimento sobre um mesmo assunto pode até mudar de acordo com o avanço da própria análise.

É polêmico indagar se o autor fazia tudo isso propositalmente, mas ele, conservando a tradição, nos deixa na dúvida quando fala que o entendimento de seus textos estava longe de ser o seu objetivo. A polêmica já começa em uma indagação básica: que tipo de autor que escreve para não ser entendido? E isso foi dito pelo pelo próprio Lacan:

“Alguma coisa que é
característica de meus
Escritos é que não os escrevi para que se os compreendesse, eu os escrevi para que se os lesse”.

Jacques Lacan, 1974.
E é de um texto, escrito em 1945, contido neste próprio livro – Escritos (LACAN, 1998) – que o artigo a seguir tentará se basear:
O Tempo Lógico e a Asserção de Certeza Antecipada
Um novo sofisma (LACAN, 1998)

Um Problema de Lógica

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Ao início deste capítulo, Lacan apresenta um problema de lógica que serviu de base para o discorrer de toda a sua argumentação. A partir deste exemplo, haverá por Lacan uma leitura sobre as formas com que a lógica é empregada entre a apresentação do problema e sua solução encontrada. Confira:

A Lógica dos Três Prisioneiros

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O Diretor de um presídio faz com que três prisioneiros compareçam em um local de sua preferência e lhes oferece uma oferta irrefutável: A Liberdade, mas através da Lógica. Lacan não consegue deixar de estender isso à sua concepção subjetiva, e antes de utilizá-lo para aplicar essa utilização lógica em sua teoria sobre os sujeitos, retrata o caso em seu livro (LACAN, 1998), abrindo aspas à fala do Diretor:

“Por razões que não lhes tenho de relatar agora,
devo libertar um de vocês.
Para decidir qual, entrego a sorte a uma prova pela
qual terão de passar, se estiverem de acordo.”

“Vocês são três aqui presentes. Aqui estão cinco discos que
só diferem por sua cor: três são brancos e dois são pretos.
Sem dar a conhecer qual deles terei escolhido, prenderei
em cada um de vocês um desses discos nas costas, isto é,
fora do alcance direto do olhar; qualquer possibilidade
indireta de atingi-lo pela visão está igualmente excluída
pela ausência aqui de qualquer meio de se mirá-los”.

“A partir daí, estarão à vontade para examinar seus companheiros
e os discos de que cada um deles se mostrará portador
sem que lhes seja permitido, naturalmente, comunicar uns aos
outros o resultado da inspeção. O que, aliás, o simples interesse
de vocês os impediria de fazer. Pois o primeiro que puder deduzir
sua própria cor é quem deverá se beneficiar da medida liberatória
de que dispomos”.

“Será preciso ainda que sua conclusão seja fundamentada em
motivos de lógica, e não apenas de probabilidade. Para esse fim,
fica convencionado que, tão logo um de vocês esteja pronto a
formulá-la, ele transporá esta porta, a fim de que, chamado à
parte, seja julgado por sua resposta.”

Após a proposta ser aceita, cada um dos prisioneiros recebe o disco prometido. Entretanto, a exigência do uso da lógica não foi mera coincidência. O desafio foi aceito pelos presos sabendo da existência de três discos brancos e dois discos negros, talvez tivesse lhes parecido tarefa fácil realizar sua missão de adivinhar aquele que está consigo. O detalhe que torna a liberdade, nosso bem mais precioso, não tão fácil assim, é que: sem poder olhar o próprio disco, sem poder se comunicar com o Outro que partilha desta mesma ignorância a respeito de si, mas também partilha do conhecimento sobre o disco do semelhante, o que não se imaginava era que todos os detentos receberiam discos brancos.

O que o diretor não esperava, decerto, era que, após algum tempo de hesitação e pensamento: Os três sujeitos dão juntos alguns passos que o levam, simultaneamente, a cruzar a porta. Separadamente, eles se justificam da mesma maneira:

“Sou branco, e eis como sei disso.
Dado que meus companheiros eram brancos,
achei que, se eu fosse preto, cada um deles poderia ter inferido o seguinte:
Se eu também fosse preto, o outro, devendo reconhecer imediatamente que era branco, teria saído na mesma hora, logo, não sou preto.’

E os dois teriam saído juntos, convencidos de ser brancos.

Se não estavam fazendo nada, é que eu era branco como eles.
Ao que saí porta afora, para dar a conhecer minha conclusão.”

Mais intrigante: os três realizaram, ao mesmo tempo, o mesmo exercício do pensamento lógico. E é isso que serviria de base para Lacan explanar suas ideias.

Qual é a Lógica?

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Quando Lacan foca seu olhar no valor lógico da solução apresentada, ele a classifica como um “exemplo significativo para resolver problemas de uma função lógica no momento histórico em que seu problema se apresenta ao exame filosófico” (LACAN, 1998).

Fica mais fácil o entendimento se estiver ouvindo uma música:

Quando procura entender o pensamento lógico empregado por cada um dos detendos, Lacan se encontra em observar o ponto de vista exclusivo de um deles. Chamando-o de A, enquanto os outros dois teriam o nome de B e C.

E aqui espera-se que, quando A enxerga os outros dois portando discos brancos, na adoção da lógica clássica, convencional, sua primeira conclusão seria a de que ele só poderia portar um disco preto. Caberia ao detendo, não podendo perder tempo, correr e informar que, se vê dois que são brancos, ele só poderia ser, pela lógica, aquele que é visto como preto. Uma visão um tanto binária, um tanto imediatista, se pudermos aqui opinar. É, naturalmente, a primeira que nos vêm à cabeça. Não era preciso se aprofundar mais do que isso. Estava óbvio! “Se dois eram brancos, e aqui devo usar a lógica, é por ela que concluo que o terceiro deverá ser preto!”

Mas sabemos que para se tornar um ex-detento, o próprio agiu de forma diferente àquela empregada na hora de cometer seus crimes: ele deteve seus impulsos imediatos, ele se colocou no lugar dos outros e tentou entender como funcionariam seus pensamentos.

É Preciso Considerar os Tons de Cinza

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Nem tudo é apenas Preto ou Branco. Para Lacan, o ato final de se declararem todos brancos, teria a seguinte estrutura no pensamento de A: “Devo estabelecer minha dedução com base na conduta dos outros dois”. E enquanto A espera o movimento ou não dos outros dois, realiza um exercício de empatia notável ao pensar: “No que B e C se baseariam?”, e é assim que ele entende que eles se baseariam exatamente na causalidade mútua de suas condutas e condições. Ou melhor: se o movimento de B depende daquele realizado por C e vice-versa, a inércia de ambos somente poderia ser um resultado do que vêem na cor de A?

É a partir desta indagação que nosso inteligente prisioneiro faz algo que falta muito nos dias de hoje: ele começa a questionar sua própria certeza. Se, por um momento, ele acreditou ser o portador do disco preto, o que isso implicaria àqueles outros dois que ele, diferentemente dos mesmos, vê que estão com os discos brancos nas costas? O que eles fariam, ou melhor, o que eles fariam e pensariam, caso ele realmente estivesse correto em sua lógica imediatista e, de fato, estivesse ele mesmo com o disco preto?

Entretanto, abro um parênteses para dizer que considero importantíssimo, visto que deve ter estar finda a anterior, que mais uma música relacionada ao tempo esteja disponível aos sentidos dos leitores e das leitoras aqui deste artigo.

Moções Suspensas

E esta transição da primeira suposição de A até à chegada de sua conclusão final, começaria a partir daquilo que Lacan vai postular como uma Moção Suspensa. Uma espécie de verificação das possibilidades hipotéticas não partindo delas em si mesmas, mas dos fatos que fariam parte de sua ambiguidade. Estas seriam guiadas por aquele pensamento que não dependeria exclusivamente da experiência externa dos sujeitos, de uma forma pura da lógica que conhecemos. Poderíamos vê-las como uma espécie de fuga do hábito de focar naquele formalismo como ótica principal para se enxergar as coisas e como forma oficial de se empregar a lógica sobre elas – a partir de sua mera ordem cronológica, objetiva (focada no externo, nos objetos), espacial e contínua. É como se transpuséssemos o emprego da lógica daquilo que imediatamente nos é possível visualizar, pensar, fazer e sentir para um outro momento do tempo, em uma outra situação do espaço, que apenas existem em forma de possibilidade. É como se encontrássemos uma maneira de subverter o emprego da lógica, exatamente para que, paradoxalmente, facilitemos a sua própria aplicação. Seu foco não estaria naquilo visível aos sujeitos, mas exatamente naquilo que só poderá ser entendido a partir do invisível. Ao invés daquele congelamento a partir das impossibilidades lógicas predeterminadas pela falta de um elemento crucial à sua resolução, busca-se combinações possíveis em três tempos de possibilidade. E por mais que este conceito vos possa parecer confuso, é esperado que vá ficando de mais fácil compreensão ao longo desta leitura.

Por exemplo, se considerarmos que a realidade à qual os prisioneiros foram inseridos ali fora previamente pensada, cuidadosamente elaborada para estimular respostas que seriam previsíveis àquelas condições, é possível obtermos algumas conclusões do que se esperava estimular e para quê. Por exemplo, o fato de que há três prisioneiros e apenas aquele que der a resposta correta primeiro ganhará sua liberdade, pode ser uma conjectura previamente imaginada pelo criador daquele desafio: justamente para que assim induzisse aos ex-condenados um sentimento específico àquele contexto. Qual? A pressa. E talvez houvesse um motivo para isso. O que não era esperado pelo criador seria a astúcia de nossos detentos fazer com que eles pensassem exatamente o que questionaremos a seguir: e se, em um momento de pressa, como neste exemplo, procurássemos descobrir qual influência, qual a função que esta pressa ali implicada teria sobre a nossa percepção das possibilidades lógicas?

A Função da Pressa na Lógica

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Uma resposta possível à tal pergunta, pela parte de Lacan, poderia ser a suposição de que o tempo do presente, o tempo em que estamos agora, e toda a realidade visível apenas a este, se tornem um foco urgente para o emprego de nossa lógica clássica perante aquela pressa que fomos induzidos a sentir. E talvez isso ocorra exatamente porque é este mesmo presente que está em jogo para garantir o futuro tão sonhado, onde haverá liberdade. Mas, ainda na mesma suposição de que é esperado que tenhamos pressa neste presente que nos foi imposto, ainda na mesma suposição de que esta pressa fará parte daquilo foi considerado essencial na elaboração do desafio que garantiria liberdade aos presos, é possível começar a imaginar se haveria nela uma função, como por exemplo: induzir um pensamento, um raciocínio lógico correto do ponto de vista clássico, mas errôneo por contas das variáveis essenciais que ainda não são visíveis à consciência. E talvez este fosse o pensamento que forçosamente apareceria naquele Instante do Olhar, naquelas imediatas conclusões que seriam tiradas a partir da lógica clássica pensamento cartesiano: Vejo dois brancos, logo sou preto. Mas o que não era esperado pelo criador do desafio era que seria entendido pelos próprios detentos, claramente subestimados, que precisariam ir além da lógica clássica, pois “As formas da lógica clássica nunca trazem nada que não possa ser visto de um só golpe” (LACAN, 1998) e sua liberdade talvez não tivesse um preço tão barato.

As moções suspensas poderiam ser aquelas suposições ultra hipotéticas, feitas exatamente para que fugíssemos desta armadilha da lógica puramente objetiva. Então, se é esperado que nós mesmos, no tempo, no espaço e na situação em que estamos inseridos atualmente, tenhamos um pensamento lógico específico que nos induziria a atos específicos, o que poderia o outro, em um tempo, em um espaço e em uma situação que ainda não nos são possíveis de identificar através dos órgãos do sentido em nosso presente (exatamente porque não existe no mundo objetivo, externo, mas apenas no subjetivo, interno – na nossa mente de sujeito), mas são, por exemplo, possibilidades de um futuro imaginado pela nossa capacidade de exercer o pensamento? Seu papel crucial está nos forçarem aplicar a lógica em situações aquém daquelas que estamos enxergando e vivendo no tempo atual.

É como se não seguíssemos aquilo que a pressa teve por função nos induzir a fazer e também como se não ignorássemos a aplicação da lógica exigida no presente, em diferentes instâncias temporais. E se nestas instâncias, onde realizaríamos pequenas paradas em tempos existentes apenas em possibilidade, para a aplicação da lógica em momentos diferentes daquele que nos é apresentado externamente. Desta forma, avaliaríamos a qualidade efetiva de nossas conclusões lógicas imediatas, que talvez precisariam de elementos adicionais que não existem na realidade apresentada. E estes seriam os próprios elementos faltantes à sua possibilidade de verificação. Este seria um processo que talvez faça com que seja possível aplicar a lógica em diferentes tempos de possibilidade. Lugares onde ela teria ou não mais validade do que naquele em que é exposta. Ou seja: talvez aquilo que posso compreender baseado no que o mundo me apresenta agora, não me sirva para uma conclusão de imediato, mas se eu puder visualizar tal fato, mesmo que apenas em possibilidade, em um Outro tempo hipotético. Esta modulação dos tempos de possíveis poderá permitir entender onde estaria, já que não vejo, aquela hipótese que me faria chegar à conclusão que o problema solicita.

Vos deixo aqui mais uma música:

Time Travel: O Passado que só é Presente no Futuro

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Para começar a facilitar o entendimento de algo tão denso e complexo, talvez haja uma melhor visualização se recorrêssemos à gramática para uma rápida leitura:

Bruce Fink, em sua famosa obra “O Sujeito Lacaniano” (1998), logo após comentar a influência que o Seminário 8 de Lacan teria sobre a interpretação da obra “O Banquete”, de Platão, lembra de um exemplo utilizado pelo psicanalista ao falar sobre esta lógica temporal, onde o sentido não poderia nos vir de imediato, mas somente após alguns processos que nos fariam pensar em Outro tempo. No tempo em si haveria de ter um lugar, nesta cronicidade, onde seria possível encontrar o sujeito. Este seria aquele que está sempre quase chegando, junto ao aparecimento da responsabilidade perante o próprio desejo. No exemplo de Lacan que Fink evidencia, este tempo poderia ser melhor entendido através do próprio tempo do verbo em que está inserido o sujeito, ou seja, do próprio tempo da ação subjetivada.

Na frase: “Deux Secondes plus tard, la bombe éclatait” (A Bomba explodiria dois segundos mais tarde) Lacan coloca o verbo “explodir” em seu pretérito. Ou seja, só poderíamos estar falando aqui de uma ação que já ocorreu. Entretanto, este passado só poderia acontecer no futuro. Como se sempre houvesse uma condição implícita, um impedimento para que aquele ato evidenciado no passado só pudesse ser uma possibilidade daquele futuro que só existe a partir de algo que ainda não está explícito (p. 87). É como se tivéssemos a obrigação de imaginar que a bomba não explodiu no período que podemos observar, mas poderia ter explodido dentro das possibilidades de um futuro alternativo. Qual possibilidade de futuro alternativo? Aquela em que a explosão não fora impedida por algo não mencionado ali, um detonador que falhou, por exemplo, conforme podemos apenas supor. Entretanto, tais suposições não poderiam ser feitas sem um deslocamento nos tempos de possibilidade que existem nesta situação. Na língua portuguesa, este tempo verbal apresentado é o futuro do pretérito, aquele inexistente passado que é presente no futuro de possibilidades. E por mais contraditório que seu nome seja, ele faz sentido quando analisamos a lógica empregada pelo nossos prisioneiros.

O exemplo foi utilizado para que entendamos a prevalência de um raciocínio lógico existente para cada um dos tempos de possibilidade diferentes de um mesmo fenômeno. Quando enxergamos, de maneira problematizada, um futuro que só existiria num passado diferente e ainda assim este passado do futuro não é o nosso presente, é menos angustiante que esta ginástica mental finalmente nos sirva de alguma coisa senão para a adoção desta famosa face a seguir:

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No caso de Lacan, aquilo que nos faz aplicar a lógica naqueles tempos de parada que as moções suspenas exigem quando finalmente conseguem identificar algumas instâncias do tempo presentes em nosso processo lógico, é chamado de Movimento Lógico. Ele consistirá na aplicação desta logica naqueles tempos em que a pressa nos faz ignorar que existem em possibilidade, para que nos haja preferência para aplicá-la apenas no presente que enxergamos. Mas, para que isso aconteça e nosso pensamento dê o salto para a liberdade de nosso corpo, é-nos necessário começar por algo bem mais simples.

A Exclusão Lógica e o Movimento Lógico – O Instante de Olhar

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Para haver de sua parte um movimento lógico que busca, na sua aplicação da lógica em tempos distintos, para a visualização de múltiplos momentos de evidência para a falha ou sucesso de suas conclusões, foi preciso que houvesse na mente de A, aquilo que Lacan chamou em seu texto de uma exclusão lógica. Algo simples, mas eximiamente necessário durante o emprego de um pensamento além daquele imediato e limitado à lógica comum. É como se, na linha de construção de sua própria conclusão, fosse necessário ao sujeito validar as diferentes suposições hipotéticas que lhe são possíveis, mas soma-se a isso aquilo que evidencia ou esconde suas reais possibilidades. Como quando, uma equação de duas incógnitas, busca-se um artifício para que uma se faça, ao menos, útil o suficiente para facilitar a revelação da outra. Mesmo que ela por si não tenha valor para produzir uma certeza para o ato de enunciar a resolução do problema.

Música:

Poderia ser que existisse ali, implícito nas ações do prisioneiro, algo tão óbvio que nos é praticamente ignorado: para que A começasse a indagar as possíveis aplicações da lógica temporal que o cercavam, era necessário tecer indagações sobre qual tempo de possibilidade ele aplicaria sua lógica com sucesso, pois era preciso que descartasse as situações onde não existiria algum valor de evidência para que a lógica empregada lhe produzisse uma conclusão útil.

Por mais que estivesse implícito nas informações iniciais, e por mais que isso só pudesse ocorrer instâncias temporais imaginadas, distintas àquelas apresentados ao imediato; por mais que já se soubesse daquilo num só golpe, num só Instante de Olhar, a exclusão lógica foi a base de todo o movimento lógico que permitirá uma conclusão determinante para o ato em direção à liberdade: entender o que falta. Calma, vou explicar.

Num Instante de Olhar, Busca-se Aquilo que Falta para Chegar a Tempo Para Compreender

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Quando o prisioneiro A resolve questionar a validade de sua hipótese imediata, aquela em que ele seria preto, ele também pensa que B, em um futuro cenário hipotético, faria conjecturas para também aplicar sua lógica de maneira semelhante. Indo adiante, caso A realmente carregasse um disco preto em suas costas, B poderia pensar:

“Se eu vejo que A é preto e sei que há apenas dois discos pretos, apenas uma pessoa também poderá ter um disco preto além de A. Sei que C, definitivamente não é esta pessoa, pois ele eu mesmo vejo que é branco! Portanto, sabendo que há no total três discos brancos e dois discos pretos, se meu campo de visão me permite enxergar um disco preto e um branco nos outros dois prisioneiros, mas não posso enxergar a cor do meu próprio, minha lógica me ajuda a crer que o disco pendurado em minhas costas poderá ser tanto preto como branco. Mas o que acontecerá se estiver comigo o disco preto que falta? Bem, suponho que neste caso C estaria vendo dois discos pretos. Portanto, não sendo ele incapaz de exercer seu raciocínio com maestria, aplicará uma lógica muito simple para suas conclusões: se ele vê dois discos pretos em seu campo visual, não sabe a cor do disco que carrega, mas sabe que o total de discos pretos é exatamente a quantidade que vê, a própria lógica mostrará para C que o disco em suas costas apenas poderá ser branco”.

Ou seja, se há dois discos pretos em meu campo de visão, e sei que existem três no total, aquele que eu não vejo, e que está em mim mesmo apenas poderá ser branco.

E aqui temos um primeiro momento de evidência para ser validado:

“Estando diante de dois pretos, sabe-se que é branco”.

E esta seria a primeira hipótese daquele que vê dois pretos, caso A fosse realmente preto. Mas este pensamento é rapidamente descartado, pois perde seu valor instantâneo de evidência e é excluído das possibilidades de opções viáveis e que poderiam, num futuro do pretérito, serem tomadas como a verdade que leva ao ato.

Em mais um empréstimo dos termos da linguística, Lacan vai nos dizer que este simples processo se assemelha à preparação de uma frase. Pois se a exclusão lógica nos servirá para chegar ao próximo passo, isso só poderá ocorrer da mesma forma como uma prótase serve uma apódose na estrutura sintática que envolve uma oração.

Ou seja, quando pensamos num futuro de possibilidades hipotéticas, em uma instância do tempo que seria ignorada pela lógica clássica, poderemos fazer com que, No Instante do Olhar o dado da prótase “diante de dois pretos” seja conduzido ao dado da apódose “é-se branco” (LACAN, 1998). Daqui poderá se fazer a seguinte equação lógica: DOIS PRETOS = UM BRANCO.

E é esta exclusão lógica das incógnitas explícitas, para a apresentação daquelas que até agora a lógica clássica fez com que o sujeito ignorasse, mas que se fazem essenciais ao processo lógico que permitirá uma transição do Instante do Olhar, que tomaria o sujeito por seu imediatismo, para um segundo momento de evidência, chamado Momento de Compreender.

Se uma Parte me Falta, Parto Dela para Produzir sua Existência

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Portanto, é somente a partir da exclusão lógica que se poderá buscar a verdadeira incógnita daquela situação onde a lógica se faz necessária. E se poderá fazer isso agora pois ela FINALMENTE DEIXOU DE SER IGNORADA PELO SUJEITO.

E talvez algo tenha sido ignorado por quem lê este artigo. Exatamente. A música.

Como em uma equação matemática, quando no tempo subjetivo, chamado de Instante do Olhar, o sujeito realizar a exclusão lógica que o permitirá descartar uma incógnita que ainda velava parte de seu raciocínio lógico final, passará finalmente a raciocinar em direção às hipóteses autênticas, onde poderá visualizar a verdadeira incógnita do problema – aquela que era ignorada durante o uso da lógica comum por sua parte. Agora que o sujeito deixa de ser aquele guiado pela imediaticidade do Instante de Olhar, ele finalmente poderá ter algum Tempo para Compreender a real dinâmica em que está inserido, já que, se o valor instantâneo de sua lógica naquele momento temporal é o que o permite continuar questionando, é porque este valor há de ser, necessariamente aquele que o permitirá ir mais além: ZERO .

O Sabido Não Saber vs O Não Sabido Saber

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À descoberta de que alguém precisaria enxergar dois discos pretos para concluir ser ele mesmo o portador de um disco branco deveria ser algo implícito no contexto daquele que supõe-se portador do preto apenas por ver dois brancos. Entretanto, esta lógica só se fez sabida para aquele sujeito, na não ocasião de sua presunção lógica imediata se tornar a única a ser considerada por ele.

Exemplo de Questão do Enem que exige o emprego de uma lógica semelhante.

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Resposta: ( C) 50 ——> Se tira 50 homens, a sala ira ter 49 homens e 1 mulher no total 50 pessoas se fizer a regra de três simples 100% x50 —– 49=98%) Ao primeiro impacto, muitas pessoas se sentem tentadas a responder 1, 2 ou N.d.a por conta dos desafios aqui empregados pelo mero uso da lógica objetiva.

Vejamos bem: não seria esta intuição tão fácil de se fazer com os dados que a aparência da situação, em que se encontrava o sujeito, continuassem produzindo nele apenas pensamentos lógicos restritos àquilo que lhe forneceram para observar. Mas ao contrário, ela passou a ocorrer por derivar da exclusão desta mesma conclusão que só poderia ser tirada a partir daquela primeira exposição. O sujeito decide ignorar o próprio conselho imediato que a primeira impressão lhe dá sobre o fenômeno, e é só a partir daí que começa a refletir sobre sua necessidade de pensamento: sendo agora melhor aplicar a lógica como se estivesse em um tempo a partir das relações que estabelece com os outros.

Para exemplificar: ocorrerá exatamente como é retratado no pensamento do Prisioneiro B:

“Um momento: o Prisioneiro C estaria imediatamente correndo para informar a conclusão que chegou de sua própria cor, caso eu também fosse da cor de A, caso eu também fosse preto. Logo, se C está em inércia, eu não poderia ser preto!”

E se neste tempo todo que o Prisioneiro B ficara imaginando estas possibilidades, entende-se que ele também não saiu correndo, exatamente porque não estava a enxergar dois discos pretos. A partir daí, O Prisioneiro C também poderá concluir que é branco, também por conta do não movimento do Prisioneiro B.

Lacan vai postular que, existirá um objetivo e um término do tempo disponível para que os dois brancos elaborem suas conclusões lógicas que definirão suas próximas ações subjetivas. Mas mais do que isso: haverá nestas ações subjetivas as conclusões que seu próprio semelhante e observador poderá extrair delas irá determinar a conduta seguinte – e vice-versa. Portanto, se sua ação for a própria inércia mútua retratada pelos dois que são brancos, no problema dos prisioneiros em questão, a ação própria do sujeito denunciará àquele outro que a observa algo não dito em explícito. Por exemplo: que não foram avistados dois discos pretos em lugar algum se nenhum dos dois se movimentou. Como assim? Simples. Esta etapa de verificação daquela possibilidade imaginada por A, de ser ele mesmo preto por ver dois brancos, faz com que os prisioneiros B e C concluam-se portadores do disco branco exatamente pela inércia que causaram um no Outro:

“Se eu fosse preto, ele já teria saído sem hesitar; se ele hesitou, sou branco. Não haveria como hesitar aquele que vê dois discos pretos à sua frente, uma vez que este possuirá todas as suas possibilidades disponíveis em seu presente imediato de saber, pela lógica simples, que é ele mesmo o único portador de um disco branco.

Para Lacan, deveria haver algum limite para este Tempo para Compreender que os sujeitos usufruem na utilização de uma lógica temporal. O psicanalista tenta explicar a tênue linha temporal de delimitaria isso, ou não:

“O Tempo de Compreender” pode reduzir-se ao instante do olhar, mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender”. (LACAN, 1998. p. 205)

E é neste momento que se perde um pouco da objetividade deste tempo em relação à sua duração, mas seu sentido se mantém vivo: ele produz sujeitos que dependem de ações recíprocas para que se movimentem, para que possam evoluir suas conclusões. Em Outras palavras: sujeitos que apenas desenvolvem seu crescimento a partir de um Outro em que ele causa o mesmo que é sentido. Sujeitos que se libertam de convicções rasas quando entendem que é preciso empatia para que haja tempo para compreender.

Neste caso a inércia do outro se torna a maior informante do disco que ambos carregam:

“Se eu fosse preto, os dois brancos que estou vendo não tardariam a se reconhecer como sendo brancos”.

Afinal, para eles, enxergar um preto e um branco poderia ser fonte de dúvida a respeito da própria cor invisível que ainda é a si”. As ações daquele que ele vê do outro branco determinariam sua percepção: “Se ele correr, minha conclusão deverá ser: sou preto”. Pois a única justificativa esperada é que tenha corrido por estar vendo exatamente os dois únicos discos pretos, sobrando a si o disco branco”.

Todo este movimento de deslocar a própria lógica além do que se vê objetivamente, todo este movimento de deslocar a lógica para outras Instâncias do Tempo é o que permitirá o sujeito chegar ao momento de concluir o seguinte: SOU BRANCO, DEVO CORRER E REVELAR A TEMPO PARA FINALMENTE SABER DE VERDADE.

O Momento de Concluir o Tempo para Compreender: A Asserção da Certeza Subjetiva para Validar a Certeza Objetiva.

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Fiquem tranquilos, uma música que faz referência homônima a este título não vos irá faltar.

Finalmente o prisioneiro conclui que: se os outros dois hesitaram em declarar a própria cor, ele só poderia ser preto. Se B não corre porque não vê C ser preto ao lado de A. E se C não corre por não ver B ser preto ao lado de A. A não pode ser preto. Se A não é preto enquanto vê dois brancos, logo todos são brancos. A deverá se apressar para declarar que é branco antes que os outros brancos o façam pela mesma lógica.

Esta conclusão só foi possível a partir de um lógica diferente da convencional. Entendamos que, objetivamente, apenas era possível enxergar dois brancos. Aplicando a mesma lógica objetiva naquele tempo e espaços, nada se concluiria senão aquilo já visto. Foi preciso do auxílio das moções suspensas até que se chegasse a uma lógica semelhante ao Tempo do Sujeito para Lacan, uma lógica de um tempo que está quase chegando por conta de algo que pode acontecer, algo como um futuro tão certo quanto um suposto passado dependente dele, conforme explicado anteriormente.

Entenderemos aqui que, assim obtida esta certeza, através de uma lógica que atravessa os limites que o sujeito estabelecia apenas por observar os objetos à sua frente, o sujeito agora é dono de uma lógica que apenas a ele pertence. E quando falamos desta lógica subjetiva, falamos de uma lógica que não mais depende do mundo dos objetos apenas por uma condição: que aconteça o ATO.

“Esse, portanto, é o momento de concluir que ele é branco; de fato, se ele se deixar
preceder nessa conclusão por seus semelhantes, não poderá mais reconhecer que não é preto. Passado o tempo para compreender o momento de concluir, é o
momento de concluir o tempo para compreender

(LACAN, 1945/1998, p. 206. grifo meu.)

O que Lacan quer dizer aqui é simples e pode até ser trazido ao senso comum: “Se você basear seus atos EXCLUSIVAMENTE às percepções externas, ou seja, dos outros, você nunca sairá do lugar”. É quase como a clássica frase: “Se preocupe mais com o que pensa de si mesmo ao invés de se preocupar com o que os outros pensam de você“. E eu explico:

Se o Sujeito A, após assumir que tem certeza de que é branco, decidisse não agir em prol daquela certeza sem hesitar, ou, pior ainda, se tivesse aguardado um segundo a mais: os outros dois brancos se movimentariam a fazer o mesmo. Pois lembram-se de sua moção suspensa? “Eles estariam correndo juntos se eu fosse preto”. Portanto, se A demorasse mais para agir, ou interrompesse sua ação apenas porque os outros também passaram a agir, teria, para sempre, a certeza errônea de ser preto. E aqui a lógica subjetiva perderia para a lógica objetiva. Exatamente porque os outros dois estariam correndo juntos. E não por enxergarem que A é preto, e sim porque todos chegaram ao mesmo tempo ao diretor – exatamente por todos terem utilizado a mesma lógica de A.

E vocês podem perguntar, objetivando: mas A não tinha certeza plena de ser branco. Ele não havia como provar isso de forma outra senão a partir de meras deduções. E aqui chegamos ao que Lacan chamou de Asserção da Certeza. E é somente através dela que se tem coragem para agir. E é somente agindo que se terá certeza plena.

A Ação do Ato na Subjetividade

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Lacan nos mostrou, neste exemplo, o seguinte: o sujeito não terá direito à própria lógica enquanto estiver preso às ações dos outros. Mais ainda: não será possível que alguém tenha certeza de fato se não a afirmar através do ato.

Se não fosse a tomada de decisão apenas da certeza enunciada, da asserção da certeza, a verdade não poderia ter sido descoberta. A verdade do sujeito mora no ato, no ato subjetivo que o garante transcender na aplicação de sua lógica sobre o mundo. E é por isso que às vezes o tempo cronológico não basta.

Uma análise ou até uma única sessão de análise, se bem pautadas pelo tempo lógico, terão:
O Instante do Olhar – O Tempo para Compreender – O Momento de Concluir

Exatamente para que o sujeito tire proveito do movimento que lhe esperado para fazer em sua vida. Que o sujeito saia do futuro do fato e viva a ação do ato.

O saber, o efeito, o dano ou o sucesso de uma sessão ou de uma análise, em minha opinião, não estão em lugar nenhum a não ser no ato cometido pelo sujeito que era acometido pelo ato.

Por Caio Cesar Rodrigues

REFERÊNCIAS

Jacques Lacan em Conferência de imprensa realizada em 29 de
outubro de 1974 no Centre Culturel Français, Roma. Lettres de l’École Freudienne de Paris.
FINK, Bruce, 1956 –, O sujeito lacaniano; entre a linguagem e o gozo/ Bruce Fink; tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara; consultoria: Mirian Aparecida Nogueira Lima. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN, Jacques, 1901-1981. Escritos/ Jacques Lacan; tradução Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

***Todas as imagens contidas neste artigo foram obtidas de forma livre na internet. Caso você seja proprietário de uma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

Estruturação frente à falta do Outro

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(Imagem retirada da Internet. Na imagem lê-se: Nós temos os líderes que merecemos?)

Algum tempo atrás, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, intensificou a luta com relação à restrição da entrada no país de imigrantes ilegais.

Com a prática chamada de “tolerância zero”, o presidente determinou que ao serem flagradas ingressando em solo americano ilegalmente, as famílias fossem apartadas, com as crianças sendo direcionadas a abrigos. Antes, sempre que possível, as famílias eram mantidas unidas em prisões.

É importante apontar que parte das crianças que se encontram em abrigos, atravessou a fronteira sozinha, fugindo da violência de seus países de origem.

Muitas das crianças foram separadas dos pais antes dos 04 anos de idade. Isso impacta diretamente na estruturação da criança enquanto sujeito.

As fases do desenvolvimento sexual foram magistralmente descritas pelo meu colega Caio César. Sugiro que se remetam à esse texto para maior enfoque no tema.

Nasce um sujeito

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(Imagem retirada da Internet)

Quando uma criança vem ao mundo, ela “chega ao mundo, portanto, engendrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo” (Flesler, 2012, p.17). Isto é, ela vem carregada já de significação, ela já é falada no discurso dos pais.

A sua entrada na sociedade se dará por meio de uma balização imaginária, de forma especular. Explico. O eu, a noção própria de quem somos, que é diferente dos outros, só é obtida à partir do tu, à partir, justamente do outro, que é encarnado, normalmente, pela mãe, pai, e/ou cuidadores iniciais da criança.

Pouco à pouco começa à emergir na criança o símbolo (Lacan, 1953-1954/1996). A criança começa à entrar no jogo simbólico, começa a estar submetida à regras, na escola e em casa. Aí, efetivamente começa a humanização, o processo de entrada na cultura.

Dois conceitos concebidos por Freud merecem nossa atenção nesse momento, pois interpelam diretamente a estruturação da criança enquanto sujeito.

O primeiro é a noção de Eu Ideal, uma instância primariamente imaginária, ligada ao desejo materno, ao olhar do Outro sobre o bebê. Quando uma criança nasce, há um investimento libidinal muito forte por parte dos pais (ou cuidadores). Eles depositam na criança uma série de afetos muito intensos.

Após o Complexo de Édipo, entra em cena o Ideal de Eu, referência externa à família, que baliza as relações da criança com o grupo social em que está inserida. Ou seja, a criança passa à ter como referência algo externo, um ideal, uma causa que não esteja em seu círculo familiar.

O olhar desejante da mãe para o bebê configura o primeiro objeto da criança, a primeira forma de relação do sujeito. Esse é o Eu Ideal.

Psicoses e outras saídas desfavoráveis

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(Imagem retirada da Internet)

O rompimento abruto do contato da criança com os genitores pode ocasionar uma série de complicações. Buscarei me apoiar também em trabalhos de F. Dolto e D. Winnicott.

A presença de um genitor nessa fase que é crucial para a constituição do sujeito. O atendimento psicanalítico à essas crianças vai na direção de uma aposta em um possível, de uma estruturação possível.

Um exemplo de um caso em que o analista aposta no sujeito, é o Caso Dominque, contado por Françoise Dolto no livro de mesmo nome. É um texto que me parece importante citar, dado que a “criança”, já com 14 anos, apresentava uma  série de comportamentos psicóticos, totalmente desconexos com a realidade.

Naturalmente, a separação vivida por Dominique é bem diferente daquela enfrentada pelos filhos e filhas de imigrantes ilegais, atualmente nos EUA. Todavia, os efeitos psicotizantes da falta de uma figura paterna (ou que faça a função paterna) são notáveis.

Como diz Dolto (2010): “O amor que o ser humano, em sua pessoa em via de estruturação, tem pela mãe e pelas pessoas à sua volta é um amor cuja resultante efetiva é uma mímica de identificação, seguida do processo de introjeção”. Vemos aqui, o reconhecimento em forma de espelho que lhes dizia, uma identificação com os pais ou cuidadores que se rompida abruptamente, resulta em um sujeito preso em tempo passado, não conseguindo elaborar sua perda.

Winnicott, em seu trabalho Privação e Delinquência, fala justamente dos efeitos em crianças que não tiveram o acolhimento necessário, ou que o perderam, em momentos muito precoces da vida. A Criatividade Primária da criança é prejudicada, e surge, o que o autor chama de Tendência Anti-Social. Falando de Criatividade Primária, sugiro a leitura do texto do meu colega Caio Ferreira.

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(Sociedade dos Psicólogos, 2017)

Olhemos pelos pequenos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Referências Bibliográficas

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1953-1954/1996) Os escritos técnicos de Freud – Os Seminários, Livro I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Winnicott, D. (1987). Privação e Delinquência. São Paulo: Martins Fontes.

O Complexo de Édipo e As Fases de Freud: Oral, Anal, Fálica e Genital.

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A imagem acima carrega a foto e a fala de Norman Bates, personagem principal do filme Psicose, de Alfred Hitchcock. E agora também da série Bates Motel. No filme, o personagem diz que “o melhor amigo de um menino é sua mãe”. A fala é decerto Freudiana. E ela é se, com a permissão de um spoiler, já soubermos que ali existia uma relação praticamente simbiótica e, portanto, sem a interdição necessária na relação mãe-e-filho. Tal interdição, conforme explicaremos adiante, se faz necessária para garantir que ambos possam, à sua maneira, procurar a satisfação individual de maneira independente, sem que prosseguisse a ilusão de um ser parte do Outro; sem que adiante se mantivesse a ideia de corpos que não se diferenciam; sem que dois seres continuassem vivendo com o prazer infinito de serem um só em extensão. Certamente, não foi o que ocorreu com Norman Bates. Este que é o personagem mais famoso da história do suspense cinematográfico e, sem dúvidas, aquele que marcou eternamente a carreira do ator Anthony Perkins e, mais recentemente, de Freddie Highmore também.

Mas neste post iremos nos atrelar mais ao primeiro Bates e, adiante, tentaremos o exercício de tentar localizar nas fases do desenvolvimento psicossexual estabelecidas por Freud, um Lugar que traga mais traços em comum com este ícone da Cultura PoP.

Norman Bates

Norman parecia confundir tanto a imagem de si com a de sua mãe a ponto de no ápice de sua euforia, numa cena emblemática, ele finalmente unir as vestes e o cabelo de sua progenitora ao corpo. É como se agora fossem apenas um; como se suas personalidades e suas forças estivessem fundidas; como se agora nada impedisse o seu gozo de cometer o crime — que parece acontecer quase como se não fosse uma escolha própria. Como se a mulher esfaqueada por Norman fosse mais vítima de uma mãe ciumenta do que de um psicopata assassino. E aí está um grande ponto da série e do filme: talvez Norman Bates não fosse um psicopata.

E daí o nome do filme explica o restante: Norman Bates poderia ser um psicótico.

A Psicose

E Freud (1924) já nos dizia que a psicose ocorre quando o ego se mantém na primitividade, quando seus recursos de lidar com as exigências da realidade são incapazes de uma elaboração mais madura, voltada para o mundo externo, de modo que permitam um mísero contato com a realidade em situações de estresse psíquico. Como se ele vivesse apenas em uma plena satisfação, parecida com aquela união mãe-bebê durante um momento de amamentação.

E curiosamente, neste ato de ruptura com a realidade externa, tomando como exemplo em particular a persecutoriedade e/ou a grandeza egocentricamente vividas nos delírios psicóticos, seria possível perceber em um olhar mais atento algo semelhante ao que ocorre na Fase Oral proposta por Freud. E se uma frase poderia fazer analogia ao pensamento que rege tal estrutura, talvez fosse parecida com esta a seguir:

“Não cederei às tuas pífias exigências, Dona Realidade! Provo-te, por meu corpo, por minha percepção e por meu discurso, que me aguarda em algum lugar o direito à plena satisfação. Aquilo que eu detinha ao ventre não poderá ser tirado de mim e, caso seja, com algum tempo, hei de reivindicá-lo como fazia no berço. E sabes bem que dependo apenas da voz para que minhas necessidades sejam satisfeitas, bastou lá atrás. Basto-me. E, se a realidade insiste em me contradizer, algo está errado; algo só pode estar errado. Mas não comigo, com o externo. Se não volto ao gozo é por complô, é por ser perseguido em função de minha grandeza. Pois eu, sendo quem sou jamais deveria ter o dever de sofrer tuas exigências; jamais poderia disfarçar meu descontentamento, jamais poderia vender meu esforço por migalhas de satisfação! Não aceito. Nego, descarto! Não pode existir um mundo assim e se pode, ficarei com o meu próprio”.

Este desejo de ter suas necessidades atendidas por um mundo que ainda parece ser parte de si é muito parecido com o do recém-nascido. Lembra muito de sua relação com a mãe. Há então de se indagar: o quão prejudiciais podem ser os destinos oriundos de algumas relações estabelecidas de maneira indevida entre mãe e filho? É por isso que algumas vezes é um aprendizado, na prática clínica, conhecer a mãe de um paciente que sofra de alguma psicose.

O caso de Norman Bates é um exemplo dos múltiplos destinos indesejados que podem decorrer, dentro do que se entende na psicanálise, de uma relação simbiótica entre mãe e filho — que persiste sem algum tipo de interdição. Um destino possível de quando não há uma boa elaboração do sujeito no que diz respeito sobre sua passagem por alguma (s) das Fases do Desenvolvimento Psicossexual da criança, postuladas por Freud (1905/1976a).

O Sujeito

O caso do famoso filme de Hitchcock é aquele que, em termos psicanalíticos, ainda não é sequer o caso de um $ujeito na Linguagem. Já que a inauguração subjetiva apenas se daria após o acontecimento de algo: Aquilo que Barra uma futura personalidade de qualquer confusão que ela pudesse fazer de seus impulsos imediatos com a realidade do mundo exterior. Pois para existir um sujeito, deve haver um desejo. E não iremos confundir aqui os impulsos com os desejos. Pois falamos de Outro tipo de desejo. Falamos daquele desejo que para existir deverá vir da falta. Aquele que não vê a falta em si poderia até confundir a própria realidade com a externa, talvez por sentir que não precisa sequer procurar a segunda. Bates nos deixa claro que suas confusões foram muitas — principalmente no que o tornaria diferente à imagem e aos desejos de sua mãe.

Talvez Norman tivesse ficado preso naquela fase em que o filho ainda se confunde com a mãe. Talvez tenha sido, de fato Imagem e semelhança — deificadamente. Talvez Norman fosse um significante que às vezes fora confundido com Norma, o mesmo do Nome Próprio de sua mãe. E, sendo este o caso, a Letra que fica sobrando poderia escrever muita coisa. Mas há um certo NÃO que é dito à realidade externa. Infelizmente, falamos da mesma que tornaria Um diferente da Outra.

As Fases do Desenvolvimento da Organização Sexual

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(Imagem Retirada do Site Buzzfeed)

Faça o Teste

Recentemente, o portal BuzzFeed publicou um teste – com meros fins de entretenimento, é preciso ressaltar – em que a pergunta principal é: Qual fase do desenvolvimento da infância você não superou segundo Freud? O teste pode ser acessado aqui. Selecionamos algumas imagens diretamente do site para exemplificar o teste em questão. Nele, o usuário seleciona algumas imagens, como por exemplo, esta a seguir:

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E após a seleção de um conjunto de itens, o resultado apareceria da seguinte maneira:

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Como o propósito dos testes do BuzzFeed é meramente recreativo, podemos respirar aliviados com os “diagnósticos”, mas é com o compromisso da disseminação do conhecimento, que a Sociedade dos Psicólogos produz este texto, explicando de maneira breve (ou quase) as Fases do Desenvolvimento Psicossexual de Freud. E o fazemos para que todos aqueles, que fizeram o teste ou não, possam entender melhor sobre esta contribuição tão presente dentro e fora do ambiente universitário, psicológico e psicanalítico.

IMPORTANTE

Antes de prosseguir com a leitura, é altamente recomendado que se revise e entenda o conceito de Pulsão, explicado no texto a seguir. Clique no link:

O que é Pulsão? Qual é a diferença entre Pulsão e Instinto?

As Fases de Freud

Estas primeiras fases do desenvolvimento, dentro do que é postulado pela teoria psicanalítica, têm um papel fundamental na estruturação do Eu. Cada passagem deixará seus traços, seus rastros e suas particularidades; no discurso, na linguagem e na relação de cada sujeito com os seus e Outros afetos no futuro.

Isso não quer dizer que os traços de caráter, mnêmicamente gravados ao longo da passagem dos indivíduos por tais fases, sejam imutáveis ou deterministas sobre quem ele é/será. Mas se desvencilhar de características tão intrínsecas, segundo Freud, não seria algo tão simples quanto se livrar de um hábito recentemente adquirido – o que já não é fácil. Aqui falamos dos caminhos que, durante certa evolução, a libido percorre o corpo e, de certa maneira, a mente de um ser em desenvolvimento. Ressalta-se todavia, que não falamos de processos conscientes; e, sem dúvidas, a libido e sexualidade não dizem respeito exclusivamente ao ato da relação sexual em si.

IMPORTANTE

Para um entendimento mais claro dos conceitos que aqui serão explicados, é altamente recomendado que se tenha aprendido o conceito de Pulsão. Se necessário. Para revê-lo clique aqui.

A Fase Oral – Idade Aproximada: 0-2 Anos

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Nesta fase, dos 0 aos 2 anos – e não falamos aqui de idades exatas, mas aproximadas – , a criança experimenta o mundo pela boca. E é importante fazermos aqui um exercício de empatia com o bebê:

Pois iremos então supor o seguinte, sua vida atual se resume da seguinte maneira:

  • Tu não conheces a fome e nem a vontade de comer, pois há em ti uma nutrição constante via cordão umbilical que impede este primeiro mecanismo – e como conhecer o segundo se o paladar sequer lhe é algo conhecido?
  • Felizmente, o útero é um ambiente quente, seguindo temperaturas próximas aos 36º; o líquido amniótico da placenta envolve o bebê em boa temperatura – mesmo nas formas mais amorfas àquela que conheceremos ao seu nascimento. Sendo assim: como poderia ele conhecer o frio?
  • Não se sabe o que é luz. Os olhos ainda não se abrem. Basta ao leitor lembrar do quão propensos somos a manter os olhos fechados em ambientes de baixa luminosidade (e o quanto não gostamos de um contato lúcido em nossos olhos, principalmente se este vier em seguida de um longo período no escuro). O bebê não sentiu ainda o incômodo da luz em sua retina; pois então: há de se preocupar com o quê?
  • Ali dentro ainda há outro benefício: não se sabe ainda, absolutamente, como é ser tocado; então é evidente que também não se sabe o que é dor física.

Não há fome, não há luz, não há sequer frio ou dor; estamos falando não haver uma gota sequer de desprazer nesta vida. Pura verdade. Mas só até o maior trauma; até a maior condenação à morte que começou na relação sexual dos pais, (como diria Lacan); só até o maior prazer na vida de muitos casais ser a primeira experiência de desprazer na vida de um ser: o próprio Nascimento.

Temos aqui um trauma inaugurado pelo desprazer do toque: algo puxa, contra a sua vontade, o bebê de seu berço esplêndido de gozo; segue-se um tapa. Uma palmada que provoca a dor e a eterna missão de mandar ar aos pulmões 24 horas por dia; em seguida, um movimento de seu corpo para lá e para cá. Vozes, agora em um volume muito maior, desconhecidas. Ainda por cima, para variar o desprazer, há algo que nunca se sentiu antes: fome, sede; a dor nos olhos causada pela luz inédita (lembram como é incômodo o acender de luzes após certo tempo no escuro?) que acompanha o frio de sentir o vento bater no molhado de seu corpo — que sensação horrivel! “O que raios será que é tudo isso que nem nomear eu posso?!” — Poderia pensar o bebê.

Ainda bem que em breve este bebê estará nos braços de sua mãe. Ali terá a primeira experiência de satisfação de sua vida; aquela que nunca mais será possível repetir com tamanha intensidade: a que acompanhará o calor dos braços da mãe, o afeto de sua voz sorridente e, finalmente, a satisfação da primeira sucção do mamar. Acabou a fome. Acabou o frio. Ouve-se ternura e afeto, sem sequer saber o que estes são. Eles vêm uma voz bem próxima. Nem o melhor dos cigarros, dos charutos cubanos; nem o melhor conhaque, vinho, whisky ou a melhor refeição que um Chef poderia preparar poderão resgatar por completo o que acaba de ser vivido. Aqui há um prazer que tentará ser repetido por toda uma vida. E certamente falamos de tentativas falhas, que atingem apenas um rastro de tudo aquilo. Mas é oficial: aqui inicia-se a Fase Oral do Desenvolvimento.

Freud vai nos dizer que nesta fase o prazer vive pela boca. Suas únicas experiências moram no que escuta, no que vê com seus parcos recursos visuais; no que é sentido na pele, no que é cheirado e, principalmente, no que é ingerido. Mas não há aqui, ainda, linguagem complexa. Não haveria aqui, ainda, algo que impeça seu prazer e desperte sua raiva. Pois, convenhamos, estamos falando de um bebê!

Aliás, ledo engano: há sim. Há algumas insatisfações. Há as ausências maternas súbitas. Há a fome que agora vai e volta. Há o incômodo de uma fralda suja, há cólicas e um conjunto de desprazeres que ainda não são entendidos, nomeados ou expulsos com facilidade. Mas tudo (ou quase tudo) tende a se cessar com a presença da mãe, que a princípio, a criança pode até confundir com uma extensão de si mesma – já que falamos de um ser que nunca sequer se viu (e se o fez num espelho, não se reconheceu), que ainda não teve tempo para compreender a realidade como nós; já que esta figura que até nomeia teu choro com leite, colo ou banho é o que lhe traz a paz para os desprazeres — e nisso existe linguagem. Portanto, aos primeiros balbucios e engatinhamentos busca-se o mundo todo pela boca. Busca-se prazer por esta via.

Regressão Sadia à Fase Oral

É possível que na vida adulta tenhamos alguma vontade de retornar a esta fase perante alguns desprazeres. Vai-se lá saber o quanto gostávamos dela? De toda forma, Freud nos ajuda a entender que há meios de fazer isso: fixamo-nos nos copos de cerveja, vinho e whisky perante alguma ansiedade; levamos um lápis, caneta ou dedo à boca em momentos de tensão; e como não esquecer do cigarro? E ainda, do preferido por Freud: o charuto! E por mais que às vezes, como os itens anteriores, um charuto pode ser apenas um charuto, noutras vezes ele pode ser, quando não um símbolo de Poder – quase que representando um certo órgão sexual – também poderia ser um prazeroso retorno à Fase em que tínhamos nossa demanda atendida com veemência, emergência: um retorno às primeiras satisfações.

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Imagem da Internet: O Primeiro Ministro Britânico durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill, fumando um de seus adorados charutos e fazendo seu famoso símbolo que, às vezes, era invertido num insulto disfarçado.

A Fase Anal – Idade Aproximada: 2-4 Anos

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Agora imaginemos: todo o amor e atenção que era reservado ao bebê na fase anterior passa a ter um preço. Qual preço? O de algumas regras sociais. Após experimentar o mundo pela boca e até, de certa forma ter uma ideia melhor da própria imagem — entender-se como diferente dos pais e já se reconhecer no espelho — a criança descobre algo novo. A partir de agora algo fora produzido diretamente por ela; a partir de agora ela passa a sentir um prazer sobre seu mais novo aprendizado: o controle de suas evacuações.

Agora escolhe quando e onde se deposita aquilo que se tornou a primeira produção autoral de um ser. E tem até um agravante: os cuidadores demonstram até mais amor se o cocô é feito no vaso, no penico. E mais: há grande insatisfação deles se, num gesto natural de conhecer a primeira obra propriamente humana, em sua primeira empreitada, em seu primeiro pertence valioso, a criança decidir brincar com suas fezes. Também há insatisfação dos cuidadores quando esta as deixa pela sala, pelo quarto e por outras áreas da casa como um presente, com orgulho! Como alguém que oferece aquilo feito unicamente por si em em prova de amor. Mas aqui que se aprende que o amor tem preço, que não existe amor saudável que seja incondicional. É preciso agora reprimir alguns impulsos que a deixam com vontade de brincar com as próprias fezes; e também reprimir os impulsos de evacuar à hora que bem entender. É preciso ter controle sobre os impulsos. Mais ainda sobre os esfíncteres. Não é atoa que pessoas excessivamente controladoras e/ou compulsivamente organizadas; com certas compulsões por limpeza ou altamente apegadas a objetos materiais e/ou dinheiro podem descobrir em suas análises certas fixações nesta fase do desenvolvimento.

Destino Socialmente Aceito

Mas, se precisarmos de exemplos, um artesão que trabalha com argila encontrou um meio tão eficiente de “brincar com suas fezes”, ou seja, de retornar aos prazeres da fase anal de uma maneira socialmente aceita, quanto um degustador de vinhos encontrou de retornar à fase oral. Para Freud, a Neurose Obsessiva pode ter uma de suas fontes conhecidas se a Fase Anal do Desenvolvimento de alguém for devidamente investigada.

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Cenas do Filme 500 Dias com Ela, onde a personagem de Zoey Deschanel diz que seu apelido na escola era “Garota Anal”, por ser muito limpa e organizada. Uma clara referência chistosa à Fase Anal Freudiana.

Fase Fálica e Complexo de Édipo – Idade Aproximada: 4-6 anos

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Após a criança começar a conhecer alguns limites de seu corpo e entender finalmente que sua dinâmica familiar é maior do que ela mesma, e ainda maior do que apenas respeitar algumas regrinhas, chegou a hora de uma relação triangular.

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(Imagem de um modelo familiar proposto por Freud no Século XX. Aqui mostramos apenas uma das possíveis configurações familiares, no caso a heterossexual. É importante que se observe a realização da Função Materna e da Função Paterna em moldes que se adequem à realidade familiar de cada criança)

Usaremos, para meros fins de ilustração, o mesmo modelo que Freud usou de exemplo para designar uma dinâmica familiar de sua época. Lembrando, é claro, deste não ser o único existente. Tomaremos como exemplo a relação Homem (Pai), para Função Paterna; Mulher (Mãe), para Função Materna e Filho (sexo e gênero masculinos) para representar a criança.

A relação mãe-bebe era, conforme descrito na fase oral, praticamente simbiótica. Onde não há diferenciação de um pelo outro até que o bebê consiga finalmente reconhecer e controlar o próprio corpo. Mas ele só pode fazê-lo ao entender que este seu corpo é um outro separado de sua mãe. E isso pode ser observado nos momentos em que a criança começa a se reconhecer no espelho.

Entendido isso e mais algumas pequenas regrinhas sociais, aparece outro empecilho: um terceiro naquela relação que antes era exclusiva.

O Intruso

Com a redução das demandas imediatas de um bebê, a criança vai naturalmente ficando menos dependente do cuidado materno. Não há mais tanta necessidade de colo, de trocar as fraldas, de mamar no peito e de ter toda aquela atenção exclusiva. A própria chupeta aqui pode ser até algo preocupante ao desenvolvimento saudável.

Todavia, algo não poderá passar despercebido ao nosso sujeito em desenvolvimento: a mãe, além de se “afastar” dele volta sua atenção para uma outra pessoa – aquela que designará a Função Paterna. E é claro que esta ausência será sentida e manifestada pela criança – que irá reivindicar sua saudosa exclusividade! Como ousaram tirar isso dela?! — poderá sentir—. Mas há formas e formas para isso. Talvez este sujeito em desenvolvimento tentará dormir na cama dos pais; poderá até forçar sua presença em ambientes e situações inadequadas. Poderá falar mais alto, se debater, chorar até fazer outras coisas comumente apelidadas de “birra”.

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Daqui poderá surgir um pensamento comum até aos adultos mais ciumentos: “O ele tem que eu não tenho?”; “O que me faz ser preterido perante este ‘novo’ preferido?”. A criança percebe-se como alguém insuficiente a suprir todas as demandas de sua mãe. E que bom que isso acontece. Caso contrário, que peso, que fardo teria de carregar!

— Se não sou suficiente para a satisfação de um Outro, será que algo me falta? — E se esta dúvida surge justamente na fase em que marca-se a diferenciação sexual, na fase em que a sexualidade – a libido – está concentrada nos genitais – descobre-se aqui outra fonte de alívio de tensão e obtenção de prazer. Mas também se questiona a respeito dos genitais e hábitos próprios e alheios. Talvez como se estes até pudessem ser uma alusão às diferenças papéis sociais desempenhados por cada gênero.

Quero dizer: se na época de Freud (Século XIX e XX) o pai, que trabalhava fora e comandava a casa com voz ativa, era o detentor primordial do amor da mãe, será que um terno, ser mais forte e mais alto; falar mais grosso, usar chapéu e sapato ou até ter um pênis maior e mais desenvolvido poderia, em tom de comparação, ser algo que faria a criança recuperar a posição que lhe fora tomada?

Geralmente, nesta mesma idade pode-se observar os primeiros gestos que se assemelham ao que será a masturbação (que virá em sua “forma definitiva” na puberdade), há curiosidade (“Por que o meu e o dele são diferentes do dela? Será que ela perdeu? Será que eu também posso perder meu?”) e estímulo voltados para os genitais. Mas há também – e deve haver – Leis Sociais que reservam a este período de desenvolvimento um conjunto de restrições e punições (Exemplo: “Parece que recebo menos amor e mais hostilidade de meus pais se manuseio meus genitais na sala de visitas”).

Há também a introdução da Lei, a supressão e a repressão dos impulsos sexuais que buscam satisfação imediata. Há aqui a necessidade de barganhar o prazer imediato com a autoridade parental.

Numa bem simplificada “resenha da síntese do resumo das anotações”: troca-se prazer imediato por amor e realizações sociais a longo prazo. E caberá a demonstração da Lei à Função Paterna, podendo esta ser uma pessoa, um objeto ou uma situação de ausência. Tudo isso, não coincidentemente, acontece junto ao domínio e inserção da Linguagem complexa, da fala, da língua e suas primeiras regras gramaticais. Como se para usufruir dos direitos e restrições de qualquer sociedade houvesse um requisito primordial: ser nela um falante.

O Processo de Identificação

“Pois então, se aquele Terceiro da relação detém o amor de minha mãe, o que não falta nele? O que falta em mim? E o que falta na minha mãe? O que ela perdeu?”

A lógica seguinte deste questionamento inconsciente é a do processo de Identificação. Onde percebe-se, de maneira inconsciente, quais características, posturas e responsabilidades sociais se herdará naquela sociedade.

Objeto de Identificação e Objeto de Desejo x Identidade de Gênero e Orientação Sexual

Aqui geralmente forma-se a Identidade de Gênero naquele sujeito em desenvolvimento. Sem que este perceba ou lembre-se disso, foi aqui que soube pela primeira vez que usaria seu pai como referência de como se portar em sua sociedade.

Elege-se um Objeto de Identificação (o pai), que aparentemente capta parte do olhar que tanto se quer ter com exclusividade novamente. Também elege-se o Objeto de Desejo (a mãe), que está para a formação da Orientação Sexual tanto quanto o Objeto de Identificação está para a formação da Identidade de Gênero. É comum aos meninos nesta idade imitarem os gestos, as vestimentas e os comportamentos inúmeros da Figura Paterna. Aqui há um maior e melhor manejo da língua, que também carrega uma porção de Leis que devem ser seguidas.

Figuras de Referência

E aqui há uma Lei que deverá ser eternamente lembrada pela criança: “Não poderei obter a mesma forma de amor que minha mãe oferece a meu pai”.

— Portanto, procurarei esta realização no mundo; levarei comigo aquilo que gravo deste Terceiro para desbravar relações minimamente parecidas com esta, que agora é minha principal referência de mundo.

— Procurarei amigos, pares românticos e profissionais que, por coincidência ou não, sempre poderão me lembrar desta primeira experiência —. E aqui falamos de uma passagem saudável pelo Complexo de Édipo. O exemplo de um homem, cis gênero e heterossexual é meramente ilustrativo, podendo o comentarista deste artigo tomar a liberdade para citar outros.

O Mito do Rei Édipo

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Freud Baseia esta parte de sua teoria na Tragédia Grega Édipo Rei, de Sófocles (Aproximadamente 496 a.C. até Aproximadamente 406 a.C) e também na obra de Fiodor Dostoiévski (que o próprioFreud considerava o melhor romance já escrito) “Os Irmãos Karamazov” (1880), que futuramente terá um texto pra si aqui neste blog.

Focaremos hoje no mito grego. A Narrativa é de um Rei de Tebas, Édipo – em grego: Oidípous “Pés Inchados” – , que ao seu nascimento é amarrado pelos pés pelo próprio pai, que o entrega a um pastor que tem a missão de garantir sua morte ainda bebê. E das cicatrizes geradas pelos grampos que prendiam seus pés àquela época, Édipo ganha seu Nome Próprio.

O então príncipe abandonado ao nascimento é salvo pela misericórdia do pastor que o recebeu. Vivo, ele é entregue ao Rei Políbio, da cidade vizinha à Tebas, Corinto. Políbio não podia ter filhos, logo, ao ser adotado, Édipo passa a ser o principal herdeiro do trono daquela Polis. Sempre sendo criado como um príncipe legítimo.

Em sua idade adulta, o Príncipe dos Pés Inchados se exila de Corinto pelo mesmo motivo que levou seu pai biológico querer sua morte: uma profecia do Oráculo de Delfos, que era o portador oficial da voz do Deus Apolo. A profecia dizia que quando adulto, Édipo mataria seu pai e desposaria sua mãe. E desta união incestuosa só poderia nascer um tipo de prole: a que faria atos tão abomináveis quanto o incesto e parricídio que permitiriam sua existência. Édipo, que acreditava ser filho de Políbio, se escafede de Corinto e, ao revelar o Enigma da Esfinge que atordoava Tebas, se torna Rei de sua antiga Pátria.

Contudo, um pouco antes, no caminho para Tebas, Édipo – um príncipe! – se sente desrespeitado ao ser mandado para longe da rota de um comboio de homens que se cruza seu caminho. O grupo parecia proteger aquele que era seu líder.

Numa coincidência que demonstra a inevitabilidade de uma profecia, o Príncipe de Duas Cidades comete um dos maiores tabus da humanidade: o parricídio. Assim o próprio filho é quem mata Laio, o Rei de Tebas àquela época. Só lhe faltou saber que aquele era seu pai biológico. Esta metade da profecia é cumprida, mas a outra metade vem logo adiante.

Quando é finalmente proclamado Rei de Tebas, Édipo se casa com a Rainha Jocasta. Ele de novo cumpre a maldita profecia: fecunda e torna o lar daquela prole abominável o mesmo local que outrora havia sido sua primeira residência – o útero de sua mãe biológica.

Destinos do Édipo

Freud se baseia no Mito para apontar a repetição que observou no contexto familiar daquilo apontado na narrativa. É claro que ele enxerga e expõe isso de maneira metafórica. Postula ainda que ninguém poderá passar por tal fase sem carregar uma marca ao menos; mas estas variadas possibilidades de ferida egóica são as marcas necessárias para que se encontre realização nas outras múltiplas áreas da vida.

Para Freud, uma fixação ou má elaboração no Complexo de Édipo, localizado na Fase Fálica do Desenvolvimento Subjetivo, pode falar muita coisa sobre a Histeria e a competitividade.

E, se pedíssemos para alguém exemplificar os conflitos que carrega desta fase esta pessoa poderia responder de maneira parecida a esta:

“Talvez um carro mais caro, um bom charuto cubano ou um volume infinito de parceiras sexuais poderiam dar a ilusão, por alguns breves momentos de minha vida, que não fui tão impotente ao perder aquela primeira disputa amorosa quando era criança. Talvez não haja essa falta dentro de mim. Não que eu perceba isso: mas talvez o eterno conflito com aqueles que são mesmo sexo que eu, aqui em minha vida adulta, possivelmente tenha se tornado uma maneira autoafirmativa de me mostrar mais distante àquela inferioridade que eclodiu, e às vezes explode dentro de mim. Talvez eu me sinta menos rejeitado pelas mulheres com quem me relaciono ou pretendo me relacionar, se as objetificar; já que é perigoso tratá-las como um ser humano completo. A última vez que fiz isso me decepcionei muito, de maneira bem parecida como naquela experiência com minha primeira referência. E talvez eu deva de fato ter o mesmo emprego que meu pai; mesmo se eu não gostar tanto da área. Afinal, olha quem… ops, quero dizer, olha o que ele conseguiu para si e eu não. Mas, é importante que eu ressalte: aquela única vez que troquei o Nome de minha esposa pelo de minha mãe, foi simplesmente porque eu estava cansado; foi mera distração e coincidência; elas nem são tão parecidas assim. Elas não podem ser. Até porque, se fossem, a teoria de Freud – que eu acho um absurdo! – até faria sentido”.

A Fase Genital – Da Puberdade até a Morte

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Após a passagem por todas estas fases e um Período de Latência (que não é fase do desenvolvimento), entre os 6 anos e a puberdade, Freud vai nos dizer que agora é hora de buscar a realização no mundo exterior (caso do Neuróticos). É hora de buscar relações saudáveis, de própria escolha, fora da dinâmica familiar. É tempo de começar a tentar ser, ao menos um pouco, sujeito de sua própria história.

Aqui se estabelecem os grupos de amigos, os grupos profissionais e escolares, os pares amorosos as escolhas futuras. E vale dizer que a passagem pelas outras Fases do Desenvolvimento seja vista, aqui, como grande influenciadora da maneira que utilizaremos para lidar com os nossos conflitos, afetos e até do nosso modo de obtenção de prazer na vida.

Aqui se espera que o sujeito já saberá negociar, de alguma forma, às exigências que lhe faz a realidade, que por sua vez, estará sempre em conflito com os impulsos e desejos mais primitivos.

Espera-se que aqui terá algum equilíbrio Além do Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade; aqui se começa a encarar, como diria Nelson Rodrigues:

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Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Algumas referências bibliográficas para aprofundamento:

Freud, S. (1976a). Três Ensaios sobre as teorias da sexualidade (J.
Salomão, Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. VII ). Rio de
Janeiro: Imago. (Original publicado em 1905).

Freud, S. (1974). A dissolução do complexo de Édipo. (J. Salomão,
Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas (Vol. XIX, pp. 215-226). Rio de Janeiro: Imago.
(Originalmente publicado em 1924)

Freud, S. (1974). Algumas conseqüências psíquicas da distinção
anatômica entre os sexos. (J. Salomão, Trad.). Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XIX, pp. 303-
322). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1925)

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O Que São Afetos, Emoções e Sentimentos? Quais as Diferenças entre Eles?

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Monalisa, de Leonardo da Vinci, é um quadro que ficou famoso pela confusão causada àquele que o vê. Não se sabe ao certo se a moça sorri, se sofre, se desdenha, suspeita ou odeia. Não se sabe ao certo quais emoções estão ali representadas. Caberá sempre ao expectador da obra nomear os afetos, sentimentos e emoções. Mas a condição primordial para o sucesso do quadro é: apenas aqueles por ele enxergados. É claro que, na variedade da experiência humana, estes poderão ser variados de acordo com a experiência individual de quem vê.

Afeto, Emoção e Sentimento: Conceitos, Semelhanças e Diferenças

Segundo Karen Quigley et al (2014), não existe uma definição amplamente aceita sobre o que é a emoção. Talvez ela fosse um conjunto de pacotes coordenados de experiências de mudanças fisiológicas e de comportamento, ou um Estado Mental que as pessoas associam a algo dito no senso comum (raiva, medo, nojo, tristeza, alegria). E talvez emoções envolvam mudanças no afeto, mas mudanças no afeto nem sempre se transformam em emoções. Mas se preferirmos as definições aqui apresentadas, estaremos longe de algum tipo de consenso ou imparcialidade teórico-científica (QUINGLEY, K.S.; LINDQUIST, K.A. & BARRET, L.F., 2014).

E aqui falamos sobre a psicologia, as neurociências e a psicanálise. Estas que, às vésperas do segundo século de duração, discutem frequentemente um consenso definitivo ou próprio destas emoções, sentimentos e afetos.

A Sociedade dos Psicólogos tentará, com muita parcialidade (já que esta é bastante afetada pela psicanálise), trazer alguns destes conceitos e suas diferenças. Lembramos que isso acontecerá a partir de engendramentos oriundos de múltiplas fontes de leitura. Entretanto, há aqui um aviso: a maioria é psicanalítica. Por isso, são mais do que bem-vindos os comentários, as críticas e os complementos dos leitores deste artigo. Boa leitura.

Emoções e Sentimentos: Psicologia Experimental

Em 1879, em Leipzig, na Alemanha, surge o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Um de seus fundadores foi Wilhelm Wundt, o mesmo autor que, em 1873, publica o trabalho intitulado Principles of Physiological Psychology (Princípios de Psicologia Fisiológica). A intenção declarada de Wundt era, segundo ele mesmo, criar um novo campo do conhecimento: a psicologia.

Como um médico, naturalmente Wundt seria orientado pelas evidências observáveis necessárias para que um conceito seja aprovado pelo método científico. Portanto, o desejo de ser chamado de psicólogo o fez deparar-se, à época, com a dificuldade de explicar aquilo que se experiencia individualmente, aquilo que se passa dentro da cabeça, ou mente, de alguém. Aquilo que a dissecação do cérebro de um cadáver não poderia explicar por si só. Aquilo que se apresenta no relato, pois necessita dele, poderia se tornar, de fato, ciência?
Wundt diz que as sensações e os sentimentos seriam as duas formas básica de experiência humana, postulando ainda que, para que fossem observadas, seria necessária um exame do estado mental experienciado. O autoexame dos estados mentais era chamado por ele de introspecção.

A sensação seria um resultado da comunicação entre o Sistema Nervoso Central e os órgãos dos sentido [no Sistema Nervoso Periférico]. Ou seja, os impulsos resultantes da estimulação do tato, paladar, olfato, visão ou audição atingem o cérebro e aí se “sente” algo. O sentimento, para Wundt, já estaria ligado ao que se percebe na experiência imediata, ou seja, o prazer e o desprazer; a tensão e o relaxamento, e a excitação e a depressão. Para o filósofo, psicólogo e fisiologista, as emoções poderiam englobar este conjunto de percepções fisiológicas que acompanham a experiência.

Sigmund Freud (1856-1939)

Os séculos XIX e XX pareciam carregar, especialmente na França, Alemanha e Império Austro-Húngaro (futura Áustria, após o término da Primeira Guerra Mundial), um interesse especial dos médicos pela mente humana.

Após sua especialização na área de neurologia, o médico Sigmund Freud não se contenta: se encanta com os Estudos de Charcot sobre a Hipnose e o Inconsciente. Decide investigar mais detalhadamente os resultados da experiência, mas não só aquele oriundo das percepções fisiológicas, como também no comportamento contínuo e nas patologias que a medicina não conseguia explicar com sua biologia observável através do método científico.

Em obras importantes à sua teoria, como Estudos Sobre a Histeria (1893-1895), A Interpretação dos Sonhos (1899-1900), A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Totem e Tabu (1913), O Eu e o Id (1923) e O Mal-Estar na Civilização/Cultura (1930) é possível observar que Freud, aos poucos, em uma crescente de seus conceitos, vai creditando à experiência da mente mais do que meros resultados fisiológicos captados pelos órgãos dos sentidos. As experiências postuladas por Wundt – de prazer e desprazer; tensão e relaxamento e excitação e depressão – eram também vistas por Freud através da relação daquele sujeito com aquilo e aqueles que o cercavam. Melhor dizendo, estas experiências seriam moldadas pelos afetos, os fluxos energéticos que acompanhavam as representações mentais criadas nas relações com os objetos externos à experiência individual. O sujeito seria afetado ao longo de suas relações interpessoais. Sua experiência individual era afetada por aqueles que lhe apresentavam e representavam o mundo (a linguagem). Portanto, a introspecção consciente não bastaria para entender as complexidades da mente – a própria consciência não o faria! Suas emoções apareciam de acordo com sua experiência afetiva histórica (talvez até pré-histórica!), ou seja, experienciaria sua raiva da maneira que aprendeu a fazê-lo a partir da relação com o Outro. E isso não seria diferente em sua alegria, medo, tristeza, nojo, vergonha ou culpa.

Contudo, na obra de Freud, o conceito de Pulsão se tornou o cerne de sua teoria. É altamente recomendado que você o conheça melhor ou o reveja no link a seguir:

O que é Pulsão? Qual é a Diferença entre Pulsão e Instinto?

Ao longo de sua obra, Freud enfatiza que estes processos acontecem em Instâncias Psíquicas diferentes que operam de forma conjunta. Seus nomes evoluem junto com seus estudos, mas, em geral, fixa-se o conceito de que: a consciência não governa os sujeitos, apenas auxilia na conciliação das exigências de seu Real Governador (o Inconsciente) e seus Simbólicos Órgãos de Fiscalização – A Leis, a Moral, as regras de convivência em Sociedade (1900). Freud ainda enfatiza que muitas experiências se perdem à consciência, e que a censura oriunda desta é uma forma de proteção ao desprazer, à tensão e à constante necessidade de excitação sensorial que as proibições sociais podem causar àquele que não consegue realizar e, portanto, satisfazer e obter descarga de excitação aos desejos oriundos do próprio Inconsciente. Tudo isso guiado por forças desconhecidas à consciência. Estas forças iriam além das instintivas, comuns aos animais. Portanto, falamos de forças que excederiam as buscas por sobrevivência e reprodução, mas que moveriam a experiência histórica dos seres humanos.

A questão é que tudo isso só aconteceria na relação do sujeito com o Outro. Na maneira em que o sujeito é afetado, após ser invadido pela linguagem, que o ligaria à sociedade, bem como às leis estruturais que a cercam. Portanto, as emoções e os sentimentos poderiam ser produtos da influência destas relações afetivas nas percepções sensoriais. De maneira mais simples: a maneira com que somos afetados subjetivamente, mentalmente, por algo ou alguém, nos permitirá experienciar no corpo o conjunto de sensações e percepções fisiológicas atreladas por associação e/ou causalidade àquilo. Isso ocorre à medida que nos relacionamos com o quê, quem, ou com representação simbólica daquilo que originalmente nos afetou. E, a partir da gravação mnêmica disso, poderíamos repetir um conjunto de afetos antigos a partir de um novo que é experienciado. Ou seja: se me entristece a morte de meu papagaio, em conjunto, a própria tristeza deste fato em si me fará entristecer mais uma vez pela morte de minha avó, algo ocorrido há dez anos.

Esboçamos um sorriso ao recebermos aquilo que fomos ensinados, através linguagem, como sendo um elogio. E o fazemos porque isso também implica que, da maneira que acreditamos ser que somos, nos tornamos objeto de desejo a alguém. Talvez o destino disso se chame alegria. Talvez alguns poetas relatem de uma maneira que se chame amor. Mas é certo que isso também poderá lembrar uma experiência antiga, como a alegria de saber-se amado pelos cuidadores que se tornaram nossas referência afetivas.

Os Outros Afetos

O psiquiatra francês Jacques Lacan (1901-1981) acata a maioria dos ensinamentos Freudianos e, de maneira que pode até lembrar uma crítica ou ruptura, os tenta complementar com o que traz do Estruturalismo de Ferdinand de Saussure, Claude Lévi-Strauss entre outros renomados autores. Mas aqui são citados os que falam mais sobre a linguagem e o estruturalismo.

Sua frase mais famosa é, sem dúvidas, aquela em que diz que O Inconsciente é Estruturado como uma Linguagem. As polêmicas interpretações possíveis são temporárias. Talvez, o mais aceito para o que se quis dizer aqui, pelo nem sempre simpático franco-psiquiatra, poderia ser que: assim como uma linguagem é estruturada, segundo Saussure (1916), a partir de um signo, significante e significado, o Inconsciente Freudiano, conforme Lacan o entenderia, também teria uma estrutura semelhante a esta em sua formação. E Lacan diria isso ao entender que os sujeitos estariam inseridos, invadidos, amarrados e barrados na sociedade através da linguagem. E as mesmas regras sobre a arbitrariedade do signo de Saussure, nas mesmas regras regentes da linguagem, Lacan viu semelhanças às regras que também poderiam reger o inconsciente de Freud. Por exemplo: os Mecanismos de Defesa de Condensação e Deslocamento, postulados por Freud como comuns aos sonhos, poderiam seguir as mesmas estruturas de figuras de linguagem como a metáfora e a metonímia, no que diria respeito à similaridade e contiguidade dos conteúdos. Sendo assim, A Interiorização das Regras dependeria da Interiorização da Linguagem. E a noção, a nomeação do próprio corpo, também. A linguagem se inscreveria nos corpos através de seus significantes, ou melhor, daqueles que vêm do Outro. Portanto, a linguagem estaria no corpo e na mente de maneira estruturada, sempre (bem ou mal) representada através de significantes ligados metafórica e metonimicamente em cadeia associativa.

A questão é que, segundo Lacan, muitos destes significantes, diferentemente do que é postulado por Saussure, poderiam carecer de significado se os observarmos apenas pela sua lógica conceitual. O significado dos signos, daquilo que está nas formas de representação, para Lacan, estaria nas relações com Outros significantes, em uma cadeia de representações inconscientes quase interminável. E de tudo isso dito, se indaga se os significantes também carregariam afeto. Em seu tom de voz, no volume de sua fala, na ordem escolhida para as palavras ou na velocidade do discurso adotado. Neste caso, os significantes também afetariam os sujeitos.

Como escutamos algo? Como somos afetados por algo? Através do que aquilo representa para nós.

E não seriam as emoções, portanto, resultados, destinos e traduções, daquilo que nosso corpo e nossa mente (ambos em função de uma cadeia de significantes) experienciam a partir dos afetos? Ou, pelo menos, como aprendemos a nomear tais coisas?

Aquela bronca que levei de meu pai quando andava de bicicleta na infância, por, segundo ele, estar indo muito rápido. Aquilo me gerou certa raiva ao momento. Sei que é raiva, uma vez que a linguagem, concedida, incidida em mim por meus semelhantes, me ensinou que este era o nome dado ao meu cerrar de punhos e lábios, do ranger de meus dentes e do calor facial (por conta do aumento do fluxo sanguíneo) que acompanham aquela vontade de praticar violência, aquela agressividade ou hostilidade. Entretanto, por ser uma criança em busca do amor de meus pais, eu que não me permitiria sentir esta vontade de aniquilação por quem tanto fazia e poderia fazer por mim. Portanto, consegui expulsá-la de minha consciência à tempo. Ufa! Mas, trinta anos depois, aconteceu um caso curioso: como que uma pessoa tão calma e serena como eu agrediria, violentamente, um guarda de trânsito num surto incontrolável de cólera? Apenas por este me dar uma multa por excesso de velocidade que pratiquei em minha motocicleta superpotente? Ou será que foi a adoção do mesmo tom de voz que, há muitos anos, fora empregado por meu pai? Será que o infeliz guarda de trânsito recebeu toda aquela raiva guardada por trinta anos, apenas por conta de seu timbre, entonação ou volume de voz? Ou foi também alguma outra relação desta cena com a aquela antiga, da bicicleta, que para a realização de um desejo infantil, se tornou uma moto muito potente? Será que foi a semelhança entre o conteúdo da multa e da bronca? Talvez tenha sido todo o conjunto de afetos associados a uma só emoção: a raiva.

Talvez no caso fictício acima tenhamos uma expressão da presença do afeto na linguagem e nas emoções. E aqui falamos de um em especial que tenha sofrido certa repressão da consciência (e é importante diferenciar esta do recalque, mas talvez em um texto à parte) e, anos mais tarde, através de significantes em cadeia de representação (bronca por andar de bicicleta muito rápido – multa por excesso de velocidade; raiva do pai – raiva da figura da Lei, o guarda; tom de voz do guarda – fonte de mobilização do afeto reprimido ao pai: a partir disso tudo, a percepção fisiológica atrelada à raiva – calor, cerrar de punhos, ranger de dentes – se liga ao ato e desejo anterior de agressividade).

Portanto, através da linguagem, os afetos se ligam às percepções sensoriais e podem provocar respostas fisiológicas aos estímulos externos, objetos externos ou significantes (podendo estes três serem um só). Seria isso então a emoção? Uma resposta fisiológica mobilizada pela apreensão de determinados afetos à certas representações de experiência subjetiva?

Os Três Afetos Sociais

A ligação dos afetos à linguagem parece ser tanta, que, para Lacan, três destes seriam exclusivamente sociais: A vergonha, o nojo e a culpa.

Tal afirmação se faria possível pois, para que estas aconteçam, seria preciso que já tenha havido a Interiorização das Regras. Ou seja, a criança ou o adulto precisam conhecer aquilo que se exige e se proíbe socialmente. É necessário já ter sido apresentado, invadido, barrado, representado e afetado pela Linguagem.

Os bebês não parecem sentir vergonha da percepção que teriam os alheios ao cheiro de suas fezes. Mas, é no mínimo curioso, que alguns adultos sofram até de sérias complicações intestinais porque a mera possibilidade de passar vergonha apenas lhes permite defecar em sua própria casa. Talvez pelo medo do julgamento alheio sobre seus próprios odores. Paralelamente, as crianças, nos primeiros anos de vida, não parecem sentir nojo das próprias fezes. Em certa idade, é até possível vê-las exibindo estas aos adultos, como uma espécie de orgulho; as deixando por aí, quase como presentes de fabricação própria: na sala, no quarto ou em algum lugar da casa de fácil visualização.

Antes da Interiorização das Regras, ou seja, da vivência da Castração, no Complexo de Édipo, na Fase Fálica (3-6 anos) da teoria do desenvolvimento psicossexual freudiano, não se tem vergonha dos próprios órgãos genitais à mostra na praia, na rua ou na reunião de família. O próprio manuseio destes, em forma de obtenção de prazer, às vezes acontece em público até que os adultos ensinem a criança que isso não é aceitável. Em contrapartida, já me foi possível conhecer o relato de mulheres que não conseguiram tirar a roupa em um quarto de motel; de homens que utilizavam objetos como desodorantes, pilhas, controle remoto, etc. para que fizesse volume em sua sunga antes de ir à praia. Suas óbvias motivações eram a vergonha do próprio corpo nu.

A culpa também parece ser ausente na criança que, se não guiada corretamente pelos cuidadores, pode até maltratar, agredir e machucar animais, insetos e até outras crianças – enquanto demonstra o deleite daquele divertimento através de seu sorriso puro e simples. Há ali uma diversão não permitida pelas regras sociais que acompanham a invasão da linguagem.

Portanto, a linguagem também afeta as emoções, principalmente aquelas homônimas a estes afetos supracitados, que são experienciadas através da relação com o Outro. Através do ser visto fazendo; do fazer sendo visto; do se ver fazendo, do ver fazendo e sobre como tudo isso lhe afeta.

O Mais ‘Puro’ dos Afetos

Para Lacan (1901-1981), a angústia seria o mais puro dos afetos. Por ser aquilo que se experiencia logo ao saber, ao estranhar, ao separar a imagem de si próprio daquela do Outro.

Os Outros afetos derivariam da angústia. Seja de deformações desta, seja de formas a fugir dela como ela mesma, como possibilidade. A vergonha poderia ser angústia de saber-se não amado e/ou tal possibilidade? O nojo poderia ser a fuga da angústia que poderia causar a memória de algo que já foi prazer em outros tempos? Ex: a criança que brincava com as próprias fezes não consegue sequer ouvir tal palavra sem sentir um grande incômodo psíquico na vida aduta.

Numa investigação mais detalhada, talvez seja possível até encontrar na essência de uma vergonha, nojo ou culpa, a presença de uma ou algumas fantasias inconscientes. Acredito ser bem possível, a não ser que se considere, na psicanálise, uma mera coincidência a ampla presença da fala “eu sou tímido” no meio artístico. Curiosamente, esta acaba sendo uma fala recorrente no meio que concerne à prática do teatro, talvez a maior exposição do próprio ser ao julgamento alheio – aquilo que os tímidos abominam à todo custo. Como ator amador, não foram raras as vezes que a ouvi de algumas pessoas que, momentos antes, observei, explicitamente, quebrarem muitas “regras sociais” ao palco. Mas aí entraríamos na discussão do que representaria a figura do personagem ao sujeito, coisa para Outro texto.

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"Vamos para casa". A negação é um dos Mecanismos de Defesa do Eu mais primitivos, geralmente o primeiro estágio do luto. Em Deusumanos (19/05 à 03/06 de 2018) o personagem Augusto entra em profundo estado de negação perante a morte de sua filha Ingrid (Vivian Bianchin). Na negação descarta-se, desconsidera-se um dado da realidade quando este é oriundo de um enorme sofrimento ou possibilidade deste. Para Augusto, toda a dor ligada à culpa e à angústia daquele momento foram substituídas por sua dissociação da realidade. Preferiu acreditar que iria levar sua filha para casa, que esta estaria a dormir, já que, inconscientemente, "sabia" que não lhe restavam mais recursos para lidar com aquela perda.

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Considerações Finais

Quando se diz que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, inclui-se a dimensão do afeto, já que a linguagem também traz afeto através de suas entonações, timbres e, principalmente, por quem (o quê) a traz.

O afeto e as emoções, talvez não pudessem ser uma descarga de excitações endógenas dos órgãos perceptivos, exclusivamente, uma vez que eles acompanham muitos significantes em suas apresentações e representações. Se a emoção é o destino do afeto, esta rota entre origem e destino só poderia ser traçada através da linguagem. Por exemplo, a angústia perante possibilidade de não ser amado pelo Outro ao falar palavrões, impede que algumas pessoas os falem ou os escutem sem enrubescer de vergonha ou que os falem de fato. Em casos extremos, a própria escuta ou possibilidade de fala de tais significantes barrados pela linguagem, poderia angariar descargas de angústia através de sintomas como ansiedade, pânico e fobias em geral.

O afeto acontece na relação do sujeito com o Outro. Acontece em como o sujeito, sem querer querendo, se afeta nesta relação. O Outro o afeta com sua linguagem e este, quando a aprende, inevitavelmente carrega as excitações por esta produzida em seu corpo e, principalmente, ao conteúdo psíquico ao qual estas ficaram ligadas (através de representações e/ou significantes). Se aprendo a linguagem com o Outro, aprendo à maneira com que esta me afeta na relação intra e intersubjetiva. Portanto, se a emoção é o destino do afeto, individualmente falando, aprendo com meus pais que sinto raiva enquanto a percebo através da linguagem apresentada por eles. Sendo afetado por eles, através das representações simbólicas associadas através da linguagem, ligo estes afetos que carrego junto à minha definição de raiva às minhas percepções de experiências sensoriais neurobiofisiológicas. Isso tudo, através de uma relação estabelecida na cadeia de significantes que também carregam afeto. É preciso dizer que este processo seria inconsciente?

Estas percepções neuro biofisiológicas me causam calor, aumento do fluxo e pressão sanguíneos, contração dos músculos da face (sobrancelhas franzidas, lábios cerrados, olhos brilhantes), das mãos e de outras áreas do corpo. Entendo que, na relação que tenho com os Outros que me afetam, que minha emoção (raiva) é o resultado da não satisfação imediata daquilo que acredito que me trará prazer; da ausência de alívio de minha tensão, e/ou da descarga de excitação sensorial (ver grifo em A Interpretação dos Sonhos, Freud, S. 1900. cap. 7) que agora só me parece possível através da agressividade. Mas é também importante saber que isso me foi trazido também através da linguagem.

Entretanto, se isso é nomeado e apresentado por aqueles que diariamente me afetaram, de alguma forma mais intensa, em algum período mais crítico de minha formação psíquica, poderá haver certa ligação entre meus atos, aquilo que entendo destes e a percepção disto em meu corpo com desejos, expectativas e valores destas pessoas – geralmente subjetivamente entendidos como próprios. Sendo dado o nome de emoção a esta resposta fisiológica àquilo que me cerca, variando sua excitação sensorial de acordo com o que meu corpo e mente seriam, histórica e pré-históricamente programados. Há uma descarga de excitação biológica, uma experiência de um conjunto de hormônios, sensações e percepções aos órgãos dos sentido e do Sistema Nervoso Central e Periférico, a partir de um conjunto de afetos que um determinado ato pode representar com um significante, objeto externo e/ou estímulo.

Se fui censurado na infância pelo meu pai, e tive que reprimir ou até recalcar a maneira com que fui afetado por isso, talvez com raiva, ódio ou desejo de aniquilação através da força impulsionada por minha agressividade (situação inaceitável à consciência, que obrigaria o sentimento de gratidão ao amor dos pais), alguém que me censurar com uma fechada no trânsito poderia, em seu azar, experimentar toda aquela descarga bio-psico-fisiológica que aquela raiva, agora representada num soco, produziu e reservou décadas atrás. Se isso for verdade, certamente seria por conta desta pessoa da fechada ser responsável, sem saber, por eliciar uma representação afetiva simbólica (significante) linguisticamente associada às respostas e movimentos de meu organismo.

A Emoção se torna condicionada às representações do afeto que a linguagem foi capaz amarrar ao corpo, mas ainda da maneira que o indivíduo a experiencia por conta própria. Mas pra quê serve, então?

É preciso dizer que nos primórdios existenciais do Homo Sapiens, as descargas fisiológicas oriundas das emoções que eram experienciadas poderiam até apresentar um papel relativo à sobrevivência e à reprodução da espécie. Como por exemplo: há uma descarga de adrenalina (frio na barriga), dilatação da pupila (visão mais precisa do mundo externo), aumento da produção de energia (oxigênio – coração disparado ao extremo) para que se corra ou se lute perante uma ameaça à vida. Mas, nos dias de hoje, esta experiência é descrita perfeitamente por aqueles encaminhados ao psicólogo ou psicanalista pelo cardiologista, que visitaram com um ataque agudo de ansiedade, geralmente confundido com um infarto agudo do miocárdio.

Curiosamente, isso acontece fora da floresta. Bem distante mesmo. Geralmente em situações que não oferecem risco algum á vida, como por exemplo: sentados no confortável sofá da própria casa.

Para Não Dizer que Não Falei dos Sentimentos

Os sentimentos, por último, poderiam ser aqueles afetos e emoções que estão unidos através do laço social. A tradução social dos afetos. Através da linguagem compartilhada. Os sentimentos poderiam ser os afetos que chegaram ao coletivo, já que a maioria é sentida de maneira tão pessoal e única que parece não haver compreensão daquilo por alguém que não seja o sujeito ele próprio.

Os escritores e poetas e músicos são aclamados porque conseguem transformar os afetos vivenciados em sentimentos, pois foram, através da linguagem, traduzidos do individual para o coletivo. Isto é, através do que eles escrevem é possível ao leitor ler e escutar os próprios afetos. Encontrar representação. Estes seriam dificilmente verbalizados durante a própria experiência, mas agora estão perfeitamente localizados, representados nos significantes escolhidos por aqueles que souberam unir sua experiência idiossincrática à coletiva. Algo possível apenas àqueles dotados de uma avançada percepção da linguagem, perante aquilo que os afeta.

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REFERÊNCIAS – *Também considerar as bibliografias citadas apresentadas ao longo do texto (Por ordem livre).

Afeto, emoção e sentimento na psicanálise | Christian Dunker | Falando nIsso 146

Paiva, Maria Lucia de Souza Campos. (2011). Recalque e repressão: uma discussão teórica ilustrada por um filme. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 2(2), 229-241. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-64072011000200007&lng=pt&tlng=pt.

Quingley, K. S.; Lindquist, K. A. & Barret, L. F. (2004). Inducing and Measuring Emotion and Affect. In Handbook of Research Methods in Social and Personality Psychology. Ed(s) Reis, H.T.; Judd, C.M. Cambridge University Press. p. 220-252

Pinheiro, Elaine, & Herzog, Regina. (2017). Psicanálise e neurociências: visões antagônicas ou compatíveis?. Tempo psicanalitico, 49(1), 37-61. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382017000100003&lng=pt&tlng=pt.

Ravanello, Tiago, Dunker, Christian Ingo Lenz, & Beividas, Waldir. (2018). Para uma Concepção Discursiva dos Afetos: Lacan e a Semiótica Tensiva. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(1), 172-185. https://dx.doi.org/10.1590/1982-37030004312016

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo