O que é a Resistência em Psicanálise? Como vencê-la?

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Der WiderstandA Resistência

O Conceito

Na Arte da Guerra, falaríamos do ato de ocupar e contra-ocupar determinadas posições estratégicas para vencer um inimigo; na Física, o campo da eletricidade – mais especificamente o da eletrostática – fará menção à capacidade de um corpo se opor à passagem de uma corrente elétrica, ou ainda como: uma dificuldade para que haja passagem de corrente elétrica por um condutor submetido a uma determinada tensão. Já no Direito, falaremos de uma certa oposição a cumprir um ato legal, enquanto na Ecologia, da capacidade de um ecossistema manter sua estrutura e funcionamento diante de um distúrbio.

Até na Política encontraremos este termo. Nela, falamos do movimento de um povo contra um poder ilegítimo, ou seja: num conjunto de iniciativas postas em prática por pessoas que, unidas por uma causa comum (libertar seu território de alguém considerado um invasor), irão lutar contra uma imposta dominação e, consequentemente, pelo restabelecimento da ordem anterior das coisas. Charles de Gaulle e Jean-Paul Sartre são exemplos de pessoas que, de maneira diferente, exerceram um papel de resistência política na França da Segunda Guerra Mundial.

O Dicionário Aurelio, muito popular no Brasil, nos complementará:

1 – Força por meio da qual um corpo reage contra a ação de outro corpo.
2 – Defesa contra o ataque.
3 – Oposição.
4 – Delito que comete aquele que não obedece à intimação da autoridade.

Até às mentes menos focadas na física, na guerra de infantarias, na política, no direito, na medicina, etc. a palavra resistência tem seu significado bem compreendido. E digo isso pois, de alguma forma, até sua definição acordada num senso (em) comum poderá obter proximidade à representação deste conceito noutras áreas. Mesmo o mais leigo saberá que se trata de algum tipo de imposição à mudanças e influências externas, de um certo impedimento ou tentativa deste perante algum fenômeno. Seja na prevenção de danos ao chuveiro elétrico, no tratamento de infecções bacterianas com antibióticos ou em grandes revoluções, o conceito de resistência traz nestas e noutras áreas do conhecimento e até no imaginário popular palavras que, em uma cadeia sinônima, carregam em sua denominação um comum objetivo: barrar/bloquear, se opor e impedir.

Mas e na Psicanálise?

O Início

Vasculhando a obra de Sigmund Freud, podemos entender que seu deparar-se com o fenômeno da resistência de seus pacientes aos tratamentos foi algo que, em certo momento, começou a captar uma maior parte de sua energia e atenção. Mais especificamente quando Freud passou a trabalhar com Breuer seus Estudos sobre a histeria (Breuer, J., & Freud, S. 1895/1987).

Em um dos cinco casos clínicos descritos na obra, foi justamente no caso da Srta. Elizabeth que Freud começa a se interessar pelo mesmo fato que, mesmo mais de um século depois, ainda continua sendo grande responsável por uma elevada taxa de evasão de pacientes em consultórios de psicologia, psiquiatria e psicanálise: a resistência.

O caso que Freud descreve como “a primeira análise integral de uma histeria” teria seu início marcado pela dificuldade que Freud encontrara para conduzir a paciente a um transe hipnótico (método que, à época, era considerada uma forma de acessar conteúdos alheios à consciência). Mesmo com algum sucesso temporário, utilizando a chamada “técnica de pressão“, onde um toque à testa do paciente acompanha a informação de que, a partir daquele momento as lembranças “esquecidas” poderiam ser lembradas, Freud começa a ficar inquieto, já que, segundo o psicanalista: “parecia haver impedimentos de cuja natureza eu não desconfiava na época” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 166).

Segundo o Pai da Psicanálise, a forma encontrada para que sua “técnica de pressão” voltasse a oferecer o resultado desejado, foi informar verbalmente à paciente “saber muito bem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando […], mas que jamais se livraria de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 167).

A partir daí, o neurologista mais famoso do ocidente nos informa que passou “a atribuir maior importância à resistência oferecida pela paciente na reprodução de suas lembranças e a compilar cuidadosamente as ocasiões em que era particularmente acentuada” (ibid., p. 167). Sua subsequente conclusão teve o caminho de entender que: existiria alguma correspondência entre a energia com que uma representação incompatível às suas associações atuais fosse refutada de sua consciência e sua resistência em reproduzir cenas vividas de maneira traumática (ibid. p. 170). Portanto, houve, da parte da paciente, uma “forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência” (ibid. p. 177).

Em seu Vocabulário da psicanálise, Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. (1988), apontam que a resistência à hipnose e à sugestão foi, inclusive, uma razão pela qual Freud desistira destas em seus pacientes, uma vez que “a resistência maciça que lhes apunham certos pacientes lhe parecia ser por um lado legítima, e, por outro, não poder ser superada nem interpretada” (p. 596).

Tipos de Resistência

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Já sendo um termo mais frequente em A interpretação dos sonhos (Freud, 1900/1987), o nosso primeiro psicanalista fala da resistência como algo a impedir lembranças, a chegada de conteúdos à consciência e, mais ainda: a resistência à interpretação.

Para Freud, se havia na irracionalidade dos conteúdos presentes nos sonhos algum propósito, este só poderia ser: “[…]escapar da censura imposta pela resistência” (Freud, 1900/1987, p. 297). A justificativa do psicanalista era que o aparelho psíquico precisaria de algum tipo de descarga de energia que trouxesse satisfação, mesmo que mínima, à mente que estaria privada de realizar seus desejos inconscientes incompatíveis com as normas sociais vigentes. Desta forma, haveria sucesso se aqueles conteúdos viessem, quase que incompreensíveis, à consciência (através do sonho) e carregassem apenas fragmentos daqueles desejos – através de representações feitas pelo similar som das palavras; por sinônimos; por alusões e associações realizadas no que Freud chamara de Trabalho do Sonho, regidas principalmente pelos mecanismos de defesa da Condensação e do Deslocamento.

O psicanalista, segundo Freud, teria a singela missão de ajudar o paciente a realizar as associações necessárias para, de alguma forma, interpretar a mensagem que é transmitida a partir das associações presentes no sonho. Aquela mesma mensagem que seria barrada da própria consciência por conta ser considerada, por algum motivo, ameaçadora a integralidade psíquica daquele sujeito. Naturalmente, as interpretações do analista ofereceriam certo risco às verdades carregadas durante uma vida inteira, uma vez que poderiam revelar desejos jamais antes permitidos à consciência em forma outra senão a de Tabu, como por exemplo, o incesto e o parricídio. Era de se esperar que houvesse, também, uma resistência à interpretação.

Para Freud “Sua opinião de que o sonho é absurdo significa apenas que você tem uma resistência interna contra a interpretação dele” (p. 154).

Talvez a resistência esteja mais centrada no Supereu, quando a análise está prestes a apresentar um forte conflito dos desejos inconscientes do analisando com suas crenças, a moral vigente e seus valores; possivelmente estará mais focada no Eu quando se evita falar para não causar problemas, conflitos e julgamentos a respeito daquela imagem idealizada que se tem de si mesmo, principalmente daquela que se imagina que os outros tenham, mas certamente também será possível encontrar morada para a resistência em nossa dificuldade de sermos transparentes em relação ao nosso inconsciente. De toda forma, ela existe para preservar a organização psíquica anterior a uma análise, uma vez que por algum tempo esta trouxe ao paciente grande satisfação – posta em cheque pela investigação de seu inconsciente.

Você poderá conhecer melhor os conceitos sobre a Interpretação dos Sonhos e os Mecanismos de Defesa dentro da obra de Freud nos textos a seguir, também publicados na Sociedade dos Psicólogos:

– Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: A Interpretação dos Sonhos e a Primeira Tópica Freudiana
– A Interpretação dos Sonhos
– Reflexões sobre o Aqueronte: Como alcançar o inconsciente em uma análise.
– O Que São Mecanismos de Defesa do Eu

A Definição

Por conta disso, é comum que entendamos hoje a resistência perante interpretações, associações e junções de representações, como uma certa força de expulsão para proteger o eu e o núcleo patógeno da lembrança e do acesso. Uma vez que o sintoma, a repetição e o sonho, mesmo que hoje tragam sofrimento, foram já um dia uma forte maneira de obter acesso a uma fração de seus desejos inconscientes – conforme visto na obra de Freud, que na mesma obra já nos diz que “A quantidade de afeto que devotamos à primeira associação de um objeto oferece resistência a que ela entre numa nova associação com outro objeto […]” (Freud, 1893/1987, p. 190).

E qual seria o papel da análise senão o da ressignificação, a formação de novas associações e, eventualmente, a interpretação de representações do inconsciente? Sabendo disso, não é incomum que o próprio fato da análise em si também seja alvo da resistência.

Referências no assunto nos dirão que se poderá definir a resistência como:

“o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise” (Roudinesco & Plon, 1998, p. 659)

Ou ainda:

“[…] tudo o que, no actos e palavras do analisando, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente” (Laplanche & Pontalis, 1988, p. 595-6).

Mas será na página 475 de sua Obra Magna, A Interpretação dos Sonhos, que Freud baterá o martelo:

“A psicanálise é justificadamente desconfiada. Uma de suas regras é que tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência (Freud, 1900/1987, p. 475).

Portando, para Freud, até as melhores justificativas para atrasos, faltas, remarques e refutações de interpretações ou até pontuações de atos falhos e lapsos, são uma forma de resistência. É claro que a palavra do analista não é Lei, este também poderá se enganar. Mas, via de regra, com o devido estudo, análise e supervisão do analista, será mais fácil se deparar com a resistência do paciente do que um erro de cálculo.

A Resistência é do Analista? Como Lidar com a Resistência ao Tratamento?

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Em tradução livre: “Você realmente pensa que é uma resistência?”

Em sua Introdução Clínica à Psicanálise Lacaniana (Zahar, Rio de Janeiro, 2018), Bruce Fink consegue trazer partes da obra de Jacques Lacan e Sigmund Freud a respeito do assunto. Leitura recomendada para quem deseja iniciar uma imersão neste tema.

O começo de seu primeiro capítulo é o refutar de uma antiga piada sobre psicólogos e psicanalistas:

“Quantos psicólogos são necessários para trocar uma lâmpada? Um, mas a lâmpada realmente precisa querer mudar”.

A crítica do psicanalista é exatamente sobre o ato de responsabilizar o paciente pelo tratamento inteiro. Ora, se a resistência interage com a relação transferencial e os mecanismos de defesa do Eu, o tratamento deixará de dar certo, caso o paciente continue com suas projeções, deslocamentos, racionalizações, falte às sessões, chegue atrasado, ataque o analista, correto? Correto. Mas o paciente realmente quer mudar? O paciente realmente quer se livrar de seu sintoma? É o paciente que deverá se livrar da resistência?
É óbvio que sim, mas é claro que não.

“O simples fato de as pessoas lhe pedirem algo não significa que elas realmente querem que você lhes dê”. LACAN, Seminário 13, 23 de março de 1966.

Se a resistência, conforme vimos anteriormente, tem fortes influências inconscientes, como poderá o paciente se livrar dela apenas com sua consciência? A própria ferida narcísica introduzida à humanidade por Freud já nos mostrava que existiria uma força muito maior no inconsciente.

Os franceses vão chamar Jouissance [gozo], aquele “barato”, aquela “onda” que se tira de situações dolorosas. Seja um castigo ou uma autopunição. É como se de tanta dor houvesse de sair algum prazer. Mais ainda: como se de tanto prazer vazasse dor. E isso, a psicanálise já nos diz: há ou houve nos sintomas, nos sonhos e na repetida e desejada vontade de certa ignorância sobre os aspectos do inconsciente uma dose de satisfação, de gozo, que permitia aos sujeitos um leve acesso aos seus desejos recalcados e/ou reprimidos, por que então o sujeito iria aceitar de prontidão uma mudança?

É natural que na clínica busque-se apenas uma manutenção do sintoma, ou, como diria Fink:

“em meio a uma crise de gozo esperam que o terapeuta a resolva, faça o sintoma funcionar como funcionava antes [gerando satisfação, gozo, de maneira paralela]. Não pedem para ser livrados do sintoma, e sim de sua recente ineficácia, de sua recente insuficiência. Sua demanda é que o terapeuta restabeleça sua satisfação no nível anterior” (2018, p. 19).

E não será responsabilizando imediatamente o paciente pelo que ocorre, denunciando explicitamente seus mecanismos de defesa a partir de uma interpretação precoce ou, ainda culpabilizando o paciente pela própria resistência e, consequentemente, pela ineficácia do tratamento, que irá haver sobreposição a este fato.

O analisando resiste porque quer seu gozo de volta, resiste porque decifrar seu inconsciente ameaçará muito do que se acredita; resiste porque teme, lá no fundo, ficar sem nada em que até hoje se escorou para suportar as exigências do inconsciente versus exigências da sociedade. Se tirarmos, de prontidão, as fontes de gozo do analisando, o que poderemos oferecer em troca para que este diminua sua resistência ao tratamento? Porque já sabemos: se o sintoma tem seu papel, sua ausência abrupta poderá trazer demandas piores. O que será oferecido ao sujeito no processo de análise?

Fink vai nos dizer que:

“uma satisfação substituta diferente: o estranho tipo de satisfação que vem da relação transferencial e da decifração do inconsciente” (ibid).

“Haverá uma nova abordagem das coisas, uma nova maneira de lidar com pessoas, um novo modo de funcionar no mundo” que poderão e deverão trazer mais satisfação que o antigo sintoma, pois só assim haverá engajamento na análise ao invés de abandono.

E este processo só poderá ser vencido se for vencida a única resistência que pode ser vencida de fato: a resistência do analista ao seu desejo.

A Resistência e o Desejo do Analista

Se não é possível ao paciente entender a troca que fará, muito menos a resistência que enfrentará, é esperado que seja ao analista. Se alguém procura terapia porque houve uma dificuldade em obter satisfação, gozo, da maneira que lhe era possível anteriormente (sintoma), caberá ao analista se esforçar para que esta pessoa obtenha algum resultado, ou seja, alguma satisfação ao se livrar gradativamente deste antigo modo que lhe servia (quase) muito bem.

No Seminário I (1953-54), Lacan explica que a Transferência (sobre a qual farei um texto em breve), é o motor da análise. E como já sabemos que é dela que vem algum tipo de satisfação substituta àquela do sintoma, essa informação se torna importante para que entendamos que o estabelecimento desta ocorrerá simultaneamente à uma pequena superação da resistência.

Lacan revisita Freud em seus Escritos Técnicos mostrando que tudo que intervém suspendendo, destruindo ou interrompendo a continuidade do tratamento é uma resistência do analista.

Para Lacan, se o analista não atentar à realidade do discurso, ou seja, da ordem do Simbólico, sua atenção à realidade factual, da ordem do Imaginário, irá empurrar o analisando para os chamados acting outs, ao invés de iniciar uma verdadeira análise. Ex: pedidos de demissão repentinos; bruscas rupturas em relacionamentos estáveis. Portanto, se há uma resistência, Lacan vai nos dizer que ela é sempre do analista.

Isso quer dizer que não há, portanto, uma resistência do analisando para com seu desejo inconsciente? Há sim. Mas a resistência ao tratamento faz parte de uma resistência do analista para com seu único desejo que deverá ser explicitado ao analisando: o chamado desejo do analista – o desejo para que o analisado continue análise. O desejo de que ele compareça à próxima sessão.

O analista não desejará nada senão o retorno do analisando. O analista desejará, unicamente, que análise aconteça. Quer que o analisando conte seus sonhos, faça associações, entenda seus lapsos e atos falhos, critique suas relações estabelecidas e questione os padrões que regem suas escolhas antes mais inconscientes. Consequentemente, nasce aqui a transferência que, em sua essência, é a força motriz de toda análise.

A Análise nasce do desejo do analista e mora no desejo do sujeito

A análise se move a partir da transferência que, por sua vez, é o que ocasionará uma trégua à resistência. A relação transferencial tem origem no próprio desejo do analista de que o analisando continue a análise. Esta mesma relação transferencial é o motor da análise e também aquilo que vence a resistência ao substituir o que é trazido pelo sintoma. Ela dificilmente existirá se o desejo do analista resistir a aparecer. Quando o analista expressa seu desejo, ele permite o aparecimento do desejo do sujeito em análise, mesmo de maneira não explícita. Portanto, se há resistência do analista em mostrar seu desejo, esta, por osmose, também será transferida ao analisando.

Seja realizando uma ligação perante um atraso de mais de 15 minutos, ou até insistindo para que o analisando venha, mesmo que restem apenas poucos minutos de análise; seja cobrando sessões em que houve faltas sem um aviso com 24 horas de antecedência, seja mostrando ao analisando que a análise deverá tomar o lugar de um compromisso inadiável em sua vida; seja exigindo reposições ou ainda solicitando uma sessão extra; seja valorizando na sessão o conteúdo que traga realmente o discurso do inconsciente; seja tolerando toda a resistência que supostamente seria do paciente: o analista expressará sempre o desejo de que o analisando se analise. O desejo de que ele venha, o desejo de que a análise continue. Assim será vencida a resistência, cremos hoje.

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Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERÊNCIAS:

BREUER, J., & FREUD, S. (1895/1987). Estudos sobre a histeria. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 2) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1900/1987). A interpretação dos sonhos. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vols. 4-5) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1905/1987). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 7) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
LACAN, J. Seminário I Escritos técnicos 1953-1954. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1986.

LAPLANCHE, J., & PONTALIS, J.-B. (1988). Vocabulário da psicanálise (10a ed.). São Paulo: Martins Fontes.

ROUDINESCO, E., & PLON, M. (1998). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

(TODAS AS IMAGENS UTILIZADAS NESTE TEXTO FORAM OBTIDAS NA INTERNET. CASO VOCÊ DETENHA OS DIREITOS DE ALGUMA DELAS, ENTRE EM CONTATO COM A SOCIEDADE DOS PSICÓLOGOS IMEDIATAMENTE).

As 3 Grandes Forças em Psicologia

Psicologia? Psicanálise? Behaviorismo? Gestalt-Terapia? Perls? Skinner? Freud? Como é estruturado o saber psicológico? O que é o que?

O texto de hoje visa explanar sobre as chamadas 3 Grandes Forças em Psicologia, a fim de traçar uma organização teórica e cronológica acerca do behaviorismo, psicanálise e das linhas humanistas-existenciais.

A Psicologia enquanto ciência

Wundt e estudantes de psicologia em Leipzig

1879 é considerado o ano de nascimento da psicologia. Naturalmente que já se falava de psicologia e de temas como mente, comportamento, felicidade, sofrimento, percepção, inteligência, emoção, saúde, doença, entre outros tópicos basilares, desde a antiguidade, porém, 1879 é o ano em que W. M. Wundt (1832-1920) funda o 1º laboratório de psicologia experimental (Psychologische Institut, na Universidade de Leipzig – Alemanha). É a partir dessa data que a psicologia começa a criar um campo de conhecimento próprio, com metodologia própria e separada do saber filosófico.

Esta ciência tem de investigar os fatos da consciência, suas combinações e relações, de tal modo que possam, finalmente, descobrir as leis que governam tais relações e combinações.

(Wundt, 1912/1973, p. 1)

Os primeiros psicólogos experimentais (além de Wundt vale citar Ernst Heinrich Weber [1795-1878] e Gustav Theodor Fechner [1801-1889]) se debruçaram sobre temas como consciência, introspecção, sensação e percepção, limiares de percepção, atenção e emoções, por exemplo e utilizaram, principalmente, técnicas da chamada psicometria e psicofísica, para analisar e medir esses fenômenos.

A partir dessas investigações surgem ramificações, movimentos e escolas próprias como o estruturalismo, o funcionalismo, o behaviorismo (1ª grande força), a psicanálise (2ª grande força) e a psicologia humanista-existencial (3ª grande força). Essas correntes psicológicas são arcabouços teórico-práticos que influenciam a forma com que o psicólogo compreende e intervém sobre as questões humanas.

1ª Grande Força em Psicologia: o Behaviorismo

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(Skinner, Watson e Pavlov com um cão, respectivamente)

O behaviorismo (ou comportamentalismo) nasce como uma crítica ao introspeccionismo e às teorias mentalistas (como a psicanálise), isto é, quando o indivíduo busca acessar, se conscientizar e relatar seus estados internos. Para os behavioristas, o introspeccionismo é falho e, além de fornecer informações errôneas, afasta a psicologia do seu verdadeiro objeto de estudo – o comportamento.

O problema mentalista pode ser evitado com procurarmos diretamente as causas físicas anteriores, desviando-nos dos sentimentos ou estados mentais intermediários. A maneira mais rápida de fazer isto consistem em limitarmo-nos àquilo que um dos primeiros behavioristas, Max Meyer, chamou de “a psicologia do outro”; considerar apenas aqueles fatos que podem ser objetivamente observados no comportamento de alguém em relação com a sua história ambiental prévia. Se todas as ligações são lícitas, não se perde nada por desconsiderar uma ligação supostamente imaterial.

(Skinner, 1974/2006, p. 16)

Dessa forma, essa corrente da psicologia se debruçou sobre o que pode ser observado e mensurado diretamente, isto é, o ambiente e o comportamento da pessoa, ou seja, as contingencias ambientas e comportamentais (estímulos anteriores e posteriores referentes à uma ação).

Podemos entender estímulo como “uma alteração detectável no meio em que o indivíduo está inserido” (Lombard-Platet, Watanabe & Cassetari, p. 37, 2008), o que compreende, por exemplo, alterações na luminosidade, temperatura, sons, cheiros e qualquer coisa captada pelos órgãos sensoriais. O comportamento, em um primeiro momento, tem ser uma ação observável e mensurável, isto é, o behaviorista não analisa o “sofrer” ou a “diversão”, mas pode analisar, em intensidade e frequência, o chorar, a diminuição da fala, a mudança na postura, o gritar, o sorrir, o pular, o correr…. Também falamos de comportamentos involuntários (respondentes, como alteração de pupila, sudorese, salivação, erubescer…) e voluntários (operantes, como acender a luz, pegar uma revista, andar até a padaria…). De uma forma resumida, os comportamentos involuntários são eliciados pelos estímulos antecedentes (condicionamento clássico, pavloviano ou respondente) enquanto os comportamentos voluntários são emitidos, reforçados, punidos ou extintos pelas suas consequências – o estímulo posterior (condicionamento operante). Com o avanço da corrente behaviorista passou-se a falar também dos chamados comportamentos encobertos, isto é, aqueles que não são observados diretamente por outrem (como pensar, sonhar, imaginar…). É importante dizer também que seu desenrolar/legado fez nascer a TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental.

Autores do Behaviorismo

Os 3 principais e “clássicos” autores do behaviorismo são I. Pavlov (1849-1936), responsável pela descoberta do comportamento respondente; J. B. Watson (1878-1958), considerado o fundador da corrente, pai do behaviorismo metodológico e famoso pelo experimento do pequeno Albert; e B. F. Skinner (1904-1990), pai do behaviorismo radical, que ampliou as “Leis do Efeito” (de E. L. Thorndike) enquanto compreensão do comportamento operante, grande autor sobre processo de aprendizagem, criador da Caixa de Skinner, famoso pelos experimentos e demonstrações com ratos e pombos.

2ª Grande Força em Psicologia: a Psicanálise

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(Representação da compreensão Freudiana sobre o aparelho psíquico humano: 1ª e 2ª tópica)

Aqui temos o papel do influente Sigmund Freud (1856-1939) e a importância da vida psíquica inconsciente, onde emergem temas como psicossomática, desenvolvimento psicossexual, neurose, histeria, mecanismos de defesa, sonhos, desejos e censuras. A psicanálise nasce na psicologia e dialoga, principalmente, com a psicologia clínica, todavia, hoje ela está para além da questão clínica, aparecendo como uma forma de estudar os aspectos dinâmicos da sociedade, economia, política e pensamento. Dessa forma, hoje temos muitos psicanalistas que não são psicólogos, mas possuem formação básica em filosofia, sociologia, medicina, letras e outras graduações. Falamos também de psicanálises, isso pois se trata de uma das linhas teórico-práticas que mais apresentam diferenças conceituais e intervencionistas de autor para autor, o costuma causar confusões naquilo que diz respeito às compreensões iniciais na temática. Mas, independente das diferenças do psicanalista em questão e como ele vai compreender aspectos do psiquismo, as psicanálises se aproximam quando compreendem um processo de conhecimento/tratamento/cura que, necessariamente e para sua efetividade, precisa passar pelo outro. Isto é, só sei de mim, pelo outro – e sobre essa questão específica, recomendo o seminário A Utopia do Autoconhecimento, veiculado no Café Filosófico, por Ricardo Goldenberg.

As psicanálises também costumam compartilhar a questão da transferência, isso é, padrões específicos relacionados às relações interpessoais passadas que direcionam a forma como a relação presente se manifesta e se estabelece – a transferência diz sobre seu portador e seu manejo pode ressignificar/resolver conflitos reprimidos. A noção da influência dos processos inconscientes também é basilar sobre o discurso do sujeito (discurso aqui, não compreende apenas a fala).

Digamos que alguém — um paciente em análise, por exemplo — nos relata um de seus sonhos. Nós supomos que desse modo ele faz uma das comunicações que se comprometeu a fazer iniciando um tratamento psicanalítico. Uma comunicação com meios inadequados, é certo, pois o sonho não é uma expressão social, um meio de entendimento. Não compreendemos o que ele quer dizer, e ele próprio não sabe o que é. Então temos que tomar rapidamente uma decisão: ou o sonho, como nos asseguram os médicos que não são psicanalistas, é um indício de que a pessoa dormiu mal, de que nem todas as partes do seu cérebro descansaram igualmente, de que alguns pontos quiseram continuar trabalhando, sob a influência de estímulos desconhecidos, e só puderam fazê-lo de modo bastante incompleto. Se assim for, será correto não nos ocuparmos mais do produto — psiquicamente sem valor — da perturbação noturna; pois o que tal pesquisa traria de útil para nossos propósitos? Ou então — percebemos que desde o início já decidimos de outra forma. Fizemos o pressuposto, adotamos o postulado — bem arbitrariamente, deve-se admitir — de que também esse sonho incompreensível teria de ser um ato psíquico inteiramente válido, de sentido e valor plenos, que podemos usar como qualquer outra comunicação na análise.

(Freud, 2010 pp. 95-96)

O clínico Freud foi influenciado, principalmente, por J.-M. Charcot (1825-1893), com quem aprendeu sobre histeria e hipnose, e J. Breuer (1942-1925) com quem estudou o método catártico (a cura pela fala). Sua obra é grande, estruturada e desenvolve o nascimento da psicanálise por meio de contato com outros saberes (biologia, física e literatura) e por meio dos processos de análise clínica e da autoanálise do próprio Freud.

Durante muito tempo, o aspecto mais conhecido e discutido da obra de Freud era o da teoria da libido, que ele elaborou inspirado nos modelos da eletrodinâmica ou da hidrodinâmica vigentes na ciência da época. Assim, o conceito de libido, que Freud concebeu como sendo a manifestação psicológica do instinto sexual, recebeu sua origem na tentativa de explicar fenômenos, tais como os da histeria, que Freud explicava como sendo resultantes do fato de que a energia sexual era impedida de expandir-se através de sua saída natural e fluía, então, para outros órgãos, ficando restringida ou contida em certos pontos e manifestando-se através de sintomas vários. Freud chegara à conclusão de que as neuroses, como a histeria, a neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia (fobia), teriam sua causa imediata no aspecto “econômico” da energia psíquica, ou seja, num represamento quantitativo da libido sexual.

(Zimerman, 2007, p.23)

Autores da Psicanálise

Para além do próprio Freud, podemos citar a influência de nomes como J. Lacan (1901-1981), que propôs um retorno sistemático à obra de Freud e a relacionou com os saberes da antropologia, linguística e estruturalismo, além de ter desenvolvido conceitos como Real, Simbólico e Imaginário; M. Klein (1882-1960), expoente da chamada “escola inglesa de psicanálise” foi uma das primeiras psicanalistas a atender crianças e sua contribuição se dá, principalmente, na compreensão dos componentes e fenômenos associados à vida psíquica primitiva; D. Winnicott (1896-1971) que abordou o papel do ambiente-cuidador para com o desenvolvimento emocional do sujeito e trouxe, entre outros, os conceitos de criatividade primária e tendência antissocial.

3ª Grande Força em Psicologia: a Psicologia Humanista-Existencial

Como uma reação ao behaviorismo e à psicanálise, a partir da segunda metade dos anos 1950 (e ganhado maior desenvolvimento e destaque durante as duas décadas posteriores), surge a 3ª Força. Contrária a uma visão determinista do homem (seja pela questão dos condicionamentos comportamentais ou pelo determinismo do inconsciente), ela valoriza a experiência consciente e trabalha com tópicos como: livre arbítrio; autorrealização; criatividade; esperança; potencial; sentido; contato; decisão; congruência; responsabilidade; entre outros…

(Abraham Maslow)

Seu fundador é considerado A. Maslow (1908-1970), famoso por desenvolver a “pirâmide hierárquica das necessidades básicas” e quem primeiro cunhou o termo “psicologia positiva“, em uma contraposição à chamada “psicologia negativa” – tradicional e focada na doença, no transtorno, no sofrimento e em seu tratamento/cura. Dessa forma, a Psicologia Humanista incorporou a visão de homem e mundo referente aos movimentos intelectuais do humanismo, do existencialismo e da fenomenologia. Dentro dela, vamos encontrar abordagens distintas como a Gestalt-Terapia, a Abordagem Centrada na Pessoa, ou a Logoterapia, por exemplo, onde cada uma tem suas particularidades clínicas e acabam por se aproximar mais do humanismo ou do existencialismo, a depender da linha téorico-prática, mas todas fazem parte da 3ª força que, segundo Schultz & Schultz (2008), integra os seguintes pontos essenciais:

  1. uma ênfase na experiência consciente;
  2. uma crença na integralidade da natureza e da conduta do ser humano;
  3. a concentração no livre-arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do indivíduo;
  4. o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição humana.

Dentre as abordagens clínicas dessa corrente psicológica, aquela que mais me identifico e acabei por estudar é a Gestalt-Terapia (não confundir com Psicologia da Gestalt). Essa abordagem é sempre uma terapia do contato e seu manejo é pautado no aqui-agora, sendo que a relação terapeuta-paciente funciona do ponto de vista dialógico, onde o terapeuta confronta e frustra o paciente que tenta se esquivar ou fugir do seu contato e experiência com o presente. A fenomenologia pauta o setting clínico e, desta forma, a interpretação não é adequada, mas sim a descrição. A farsa, as atuações e as incongruências não se sustentam na Gestalt-Terapia, uma vez que são valorizadas e validadas as experiências mais espontâneas e verdadeiras de alguém.

Gestalt-terapia é uma das forças rebeldes, humanistas e existenciais da psicologia, que procura resistir à avalanche de forças autodestrutivas, autoderrotistas, existentes entre alguns membros de nossa sociedade. Ela é “existencial” num sentido amplo. […] Nosso objetivo como terapeutas é ampliar o potencial humano através do processo de integração. Nós fazemos isto apoiando os interesses, desejos e necessidades genuínas do indivíduo.

(Perls, 1977, p.19)

A Gestalt-Terapia deve ser experimentada para melhor compreensão – ela não se basta enquanto teoria. Caso tenha curiosidade em saber como é uma sessão com abordagem gestáltica, recomendamos que participe de uma 😉 E recomendamos também que assista um, das várias sessões gravadas, com F. Perls – pai da GT. (após esse vídeo, colocamos também um atendimento de Carl Rogers, com a mesma mulher, para finalidades didáticas e comparativas).

Autores da Psicologia Humanista-Existencial

Como já foi dito antes, há abordagens mais humanistas e outras mais existenciais. C. Roger (1902-1987) pai da Abordagem Centrada na Pessoa e dos Grupos de Encontro, estudou sobre o crescimento pessoal, as relações interpessoais e os processos experienciais; F. Perls (1893-1970) ex-psicanalista, pai da Gestalt-Terapia, contribuiu naquilo que diz respeito à visão holística sobre o indivíduo, sobre o papel do terapeuta na conscientização das incongruências, bem como sobre as dificuldades da pessoa em experienciar e desfrutar do presente. V. Frankl (1905-1997), pai da Logoterapia, tem uma abordagem mais existencialista que se relaciona com a temática do sentido da vida – que começou a ser desenvolvida quando esse foi prisioneiro em um campo de concentração nazista.

Referências

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras.

Lombard-Platet, V. L. V.; Watanabe, O. M. & Cassetari, L. (2008). Psicologia experimental: Manual teórico e prático de análise do comportamento. São Paulo: Edicon.

Schultz, D. P. & Schultz, S. E. (2008). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Stevens, J. O. (Perls, F. et al.) (1977). Isto é Gestalt. São Paulo. Summus.

Wundt, W. (1912/1973). An introduction to psychology. Translation R. Pintner. London: George Allen & Company, Ltd.

Zimerman, D. E. (2007). Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

Psicanálise Infantil: O Que Precisa Ter Dentro da Sua Caixa Lúdica?

Hoje falaremos sobre questões relacionadas à psicoterapia psicanalítica infantil e à utilização da caixa lúdica em contexto clínico.

Psicoterapia infantil

Primeiramente, e buscando responder uma dúvida que se mostrou comum, principalmente para os estudantes de psicologia, é importante dizer que existem diversas abordagens dentro da psicologia clínica e essas possuem teorias e técnicas distintas para compreensão e intervenção sobre o comportamento/psiquismo infantil, o que implica, por exemplo, e para as finalidades do seguinte texto, na utilização ou não de brinquedos/técnica do brincar e/ou caixa lúdica, variando de psicoterapeuta para psicoterapeuta e correspondendo diretamente às suas respectivas linhas e abordagens teórico-práticas. Dentro mesmo da psicanálise (onde há um volume relevante de publicações acerca da utilização de brinquedos no setting analítico) existem profundas divergências sobre a prática. Sendo assim, para quem busca compreender melhor as possibilidades de atuação em psicoterapia infantil que não empregam os tais recursos lúdicos, recomendamos o texto A Clínica da Infância à Partir de Lacan, que foi escrito pelo Psicólogo e Psicanalista Igor Banin.

Anna Freud & Melanie Klein

No começo, a psicanálise não atendia crianças. Hermine Von Hug-Hellmuth, Anna Freud (filha de Sigmund Freud) e Melanie Klein foram as primeiras psicanalistas a atenderem crianças. É verdade que Freud analisou o Pequeno Hans (sendo que os primeiros relatos apontam que esse tinha 3 anos), mas as observações foram feitas pelo pai da criança e Freud encontrou uma única vez com Hans (Reghelin, 2008).

psicanálise infantil psicoterapia brincar
(Anna e Sigmund Freud)

Anna e Klein trilharam caminhos distintos e propuseram atuações clínicas muitos diferentes. Para Anna, “o analista deve ser educador, porque o superego do paciente ainda depende dos objetos exteriores que o originaram e não está maduro.” (Paula, 2017,p.16). Podemos dizer que sua orientação clínica foi essencialmente pedagógica e que voltou-se mais para o Ego consciente do que para a esfera do inconsciente (Zimerman, 2004), além de valorizar o processos como sonhos, fantasias diurnas, desenhos e limitando a utilização de jogos (Trapiá et al., 2012).

“Anna Freud entendia o brincar como atividade expressiva e não simbólica (pois o simbólico estava ligado ao reprimido) e Melanie Klein via o brincar como alocução e destinado ao analista, pressupondo diferentes níveis de simbolização conforme idade, nível de funcionamento mental, quantidade e qualidade das angústias da criança”

(Reghelin, 2008, pp. 170-171)

Melanie Klein Brincadeira Psicoterapia Infantil Psicanálise
(Melanie Klein e criança)

Klein foi responsável por introduzir uma modificação na técnica básica da psicanálise e substituiu a palavra pelo brincar. Dessa forma, propôs que a brincadeira seria uma via de acesso aos conteúdos inconscientes da criança, equivalendo o meio à linguagem verbal do adulto. “Diferente de Anna Freud, Klein baseia-se na utilização do jogo e continua as investigações de Freud, a fim de construir um arcabouço teórico, a partir da observação de bebês e dos atendimentos com crianças.” (Paula, 2017, p.16). Sua teoria e prática explorou os fenômenos dinâmicos do brincar na cena analítica, trouxe compreensões sobre a técnica do brincar e possibilitou a compreensão da vida mental primitiva (abrindo novos horizontes dentro do campo da psicanálise).”Em 1932, ela notou que a criança expressava suas fantasias, desejos e experiências simbolicamente no brinquedo e acentuou a importância da caixa de brinquedos, que incluía pequenas figuras animais e humanas, pequenos veículos, recipientes, lápis, cola, massa de modelar, fita adesiva, cordão, tesoura… Objetos pequenos e inespecíficos.” (Reghelin, 2008, p. 169).

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(Brinquedos utilizados por M. Klein em psicoterapia com crianças)

Não há regras rígidas sobre o que se deve ter dentro de uma caixa de brinquedos, mas é sensato admitir que o analista deve selecionar, além de objetos que não ofereçam risco à saúde do analisando, relacionando com os objetivos da sessão, do tempo disponível e da idade da criança, selecionar objetos que permitam emergir a expressividade dos conflitos emocionais e a potencialidade dos processos criativos. Dentro dessa seleção, a escolha dos objetos feita pela criança, bem como a forma de utilização, deve ser observada como um ato psíquico intencional e comunicacional que revela muito, a nível clínico, sobre seu portador. Trocando em miúdos, estamos falando da possibilidade de observação dos vínculos, situações edípicas, fantasias, desejos, resistências, sentimentos e até questões como os aspectos maturacionais, motores e cognitivos, por exemplo.

“O trabalho tradicionalmente realizado por Melanie Klein com crianças era conduzido através das observações e interações durante o brincar, que permitiam que a criança criasse, tanto através da construção quanto pela destruição. Água, cola, papéis, tintas, tesouras, alguns bonecos e outros componentes provocavam as mais diversas reações nas crianças, permitindo-lhes criar, repetir, gerar angústia e expressar essas questões a partir da maneira como utilizavam esses itens.”
(Leite, 2016, p. 146)

Caixa de Brinquedos / Caixa Lúdica

Quem realmente introduziu o caixa de brinquedos no setting foi Arminda Aberastury. Ela via esse recurso como representação do mundo interno da criança e contingente de suas representações inconscientes e relações objetais (Reghlin, 2008, p. 169). Há psicoterapeutas, por exemplo, que utilizam uma caixa lúdica diferente para cada criança e outros que trabalham com uma caixa em comum para todas elas.

caixa lúdica psicologia psicanáliseNão há regra ou checklist sobre os itens que devem compor a caixa, todavia, além das preocupações clínicas já citadas, é importante uma espécie de antecipação à certos desenrolares possíveis de brincadeiras, isto é, por exemplo, caso escolha colocar pincel e tinta em sua caixa e deixá-los à disposição da criança, provavelmente também será necessário papel e/ou toalha, água, bem como um ambiente que comporte respingos e manchas de tinta. Esse é um adendo que faço, principalmente aos iniciantes. É natural que com a experiência prática, esse tipo de situação seja ultrapassada.

A maioria das caixas lúdicas são feitas de papel, madeira ou plástico e, de uma forma geral, os principais itens encontrados em seus interiores são: papeis sulfite (brancos e coloridos), papel kraft, lápis, lápis de cor, aquarela, apontador, giz de cera, massinha, retalhos, perflex, cola (bastão e/ou líquida), fita adesiva, barbante, jogos (como damas, dominó, jogo do mico ou pega varetas) e brinquedos (como fazendinha, família terapêutica, carrinhos, casinhas, conjunto de cozinha, telefone). Vale citar a preocupação que alguns tem em colocar ou não a borracha e a tesoura dentro das caixas, isto é, a não borracha faz lidar com a frustração de um desenho falho e a não tesoura obriga a utilização de outros meios para separar os objetos, por exemplo. “Klein sugere que os materiais sejam pequenos, permitindo que a criança os manipule, ou seja, tenha controle sobre os mesmos, mas não tão pequenos que possam colocar sua vida em risco.” (Trapiá et al., 2012, p. 239)

A caixa lúdica contempla brinquedos, jogos e materiais lúdicos. Alguns aspectos a serem observados durante a interação da criança para com os itens dizem respeito, por exemplo, a:

  • exploração ou não do material;
  • classificação e experimentação dos materiais;
  • organização e separação dos itens;
  • fixação em algum item ou jogo;
  • resistências;
  • estruturação da brincadeira com início, meio e fim;
  • interrupção de atividades;
  • escolha da brincadeira;
  • temática da brincadeira;
  • regras da brincadeira;
  • papel na brincadeira/jogo dramático;
  • histórias, situações e conflitos emergentes;
  • ações de juntar/colar X ações de separar/cortar;
  • utilização do corpo e do espaço;
  • entre outros…

“A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é.”

(Winnicott, 1975, p. 65)

Espero que o texto tenha auxiliado na sua compreensão sobre alguns fatos e implicações acerca da psicoterapia voltada ao público infantil, bem como na diferença do emprego de brinquedos e na utilização da caixa lúdica em um setting. Também espero que você continue brincando…emocionalmente…sempre e convide outros a brincar consigo. Até breve.

Referências consultadas

Aberastury, A. (1982). Psicanálise da criança: teoria e técnica. Porto Alegre: Artes Médicas.

Leite, R. F. (2016). Caixa lúdica e novas tecnologias. Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte-MG, n. 45, pp. 145–148, julho/2016.

Paula, L. de (2017). Psicanálise infantil: uma intersecção entre a teoria e a prática. Secretaria de Estado da Saúde. São Paulo.

Reghelin, M. M. (2008). O uso da caixa de brinquedos na clínica psicanalítica de crianças. Contemporânea – Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.05, Jan/Fev/Mar 2008, pp. 167-179.

Trapiá, A.; Tagliapietra, C.; Usui, E.; Hammoud, M. & Coelho, T. L. (2012). O psicoterapeuta e a escolha do material no processo de ludodiagnóstico. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 3, n. 2, p. 233-240, dez. 2012.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

Zimerman, D. E. (2004). Manual de técnica psicanalítica: uma revisão. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

O Tempo Lógico de Lacan e os Três Tempos do Sujeito.

T E M P O

Bom dia, Boa Tarde, Boa Noite. No artigo de hoje, que pode terminar de ser lido amanhã, bem como poderá lembrar de algo lido no dia ontem, falaremos sobre um assunto atemporal. Falaremos sobre a lógica do tempo. E não será incorreto dizer que também falaremos sobre o tempo da lógica. Está confuso? Calma, há tempo de finalizar esta leitura, espero, entenderá.

Em Pleno Século XX e, sem vergonha alguma, também no século XXI, uma frase ficou muito famosa: Time is Money – Tempo é Dinheiro. E, se deixarmos as críticas a um certo sistema econômico de lado, poderemos nos adentrar mais ao seu conteúdo e buscar uma influência dele na subjetividade alheia. Nela – e aqui eu começo com meus julgamentos apressados, estejam à vontade para embasar sua censura posterior – o $ujeito se torna um mero agente transformador, aquele único responsável por transformar o intervalo de sua existência, a vírgula que separa seu nascimento de sua morte, na maior matéria de troca simbólica já inventada pelo homem. Seria uma troca justa?

Difícil saber sem conhecer todos os sujeitos, mas o foco aqui é Outro. Quando falamos sobre o tempo em si, podemos lembrar desde os filmes sobre viagem no tempo, as teorias da conspiração, teorias científicas pautadas no assunto e muitas outras relações sobre ele no dia-a-dia. Mas, como um psicanalista, Jacques Lacan resolveu estudar seus efeitos nas relações subjetivas. Mais do que isso: o aplicou à própria relação estabelecida com a lógica.

A relação do psicanalista com o tempo fica famosa nas sessões de 500 euros que às vezes duravam cerca de 20 minutos. O que poderia ser um ultraje, para alguns, se tornava uma maneira de forçar o paciente a expulsar suas falas defensivas durante as sessões, para outros. Se era algo antiético, a alguém que solicita cuidado, para alguns autores, era uma maneira de fazer com que o paciente elaborasse aquele último assunto abordado em casa, no trabalho e em seus relacionamentos, sem que seu inconsciente tivesse tempo de defendê-lo das intervenções — que poderiam causar certa angústia até gerarem organização. E a discussão é extensa.

A tentativa deste artigo será de falar um pouco mais sobre o conceito, deixando aos próprios leitores as conclusões múltiplas que lhes vierem. A única sugestão mandatória aqui é a do gozo de uma excelente trilha sonora que já irá falar sobre o assunto. Não podendo começar por outra, comecemos a leitura deste artigo com uma música homônimamente apropriada.

O Autor

Jacques Lacan é, quando não o mais, um dos mais polêmicos psicanalistas que tivemos em existência. Não é difícil, se estamos entrando no universo psicanalítico, ouvirmos certas reservas à não ortodoxia nos métodos e, principalmente, na escrita e na fala de Lacan. Ouço, frequentemente, colegas se queixando da dificuldade na leitura dos Seminários, o que é entendível, uma vez que são transcrições daquilo falado; mas não é raro quem tenha dificuldade na leitura dos Escritos. E me sobraria arrogância se não me incluísse neste grupo. Lacan tinha uma forma própria de escrever, onde é necessário conter a ansiedade, respeitar cada artigo, cada vírgula, cada frase dita anteriormente; será necessário aceitar a própria ignorância e verificar outros textos citados antes de seguir adiante, respeitar aquela crase que foi inserida e principalmente o Tempo Verbal empregado. Lê-se uma frase que somente fará sentido no final daquele parágrafo, pregando uma peça no leitor ansioso. Faz-se uma referência àquele assunto anteriormente citado com uma vírgula ou uma crase no meio do assunto atual, o que confunde o leitor obsessivo por estrutura; alguns parágrafos demandam uma extensa repetição da leitura (e da releitura). Mais ainda: seu entendimento sobre um mesmo assunto pode até mudar de acordo com o avanço da própria análise do leitor.

É polêmico indagar se o autor fazia tudo isso propositalmente, mas ele, conservando a tradição, nos deixa na dúvida quando fala que o entendimento de seus textos estava longe de ser o seu objetivo. A polêmica já começa em uma indagação básica: que tipo de autor que escreve para não ser entendido? E isso foi dito pelo pelo próprio Lacan:

“Alguma coisa que é característica de meus Escritos é que não os escrevi para que se os compreendesse, eu os escrevi para que se os lesse”.

Jacques Lacan, 1974.
E é de um texto, escrito em 1945, contido neste próprio livro – Escritos (LACAN, 1998) – que o artigo a seguir tentará se basear:
O Tempo Lógico e a Asserção de Certeza Antecipada
Um novo sofisma (LACAN, 1998)

Um Problema de Lógica

Ao início deste capítulo, Lacan apresenta um problema de lógica que serviu de base para discorrer sua argumentação. A partir deste exemplo, haverá por Lacan uma leitura sobre as formas com que a lógica é empregada entre a apresentação do problema e sua solução encontrada. Confira:

A Lógica dos Três Prisioneiros

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O Diretor de um presídio faz com que três prisioneiros compareçam em um local de sua preferência e lhes oferece uma oferta irrefutável: a Liberdade, mas através da Lógica. Lacan não consegue deixar de estender isso à sua própria concepção teórica. Ele utilizar o caso para aplicar essa utilização da lógica em sua teoria sobre os sujeitos, retrata o caso em seu livro (LACAN, 1998), abrindo aspas à fala do Diretor:

“Por razões que não lhes tenho de relatar agora,
devo libertar um de vocês.
Para decidir qual, entrego a sorte a uma prova pela
qual terão de passar, se estiverem de acordo.”

“Vocês são três aqui presentes. Aqui estão cinco discos que
só diferem por sua cor: três são brancos e dois são pretos.
Sem dar a conhecer qual deles terei escolhido, prenderei
em cada um de vocês um desses discos nas costas, isto é,
fora do alcance direto do olhar; qualquer possibilidade
indireta de atingi-lo pela visão está igualmente excluída
pela ausência aqui de qualquer meio de se mirá-los”.

“A partir daí, estarão à vontade para examinar seus companheiros
e os discos de que cada um deles se mostrará portador
sem que lhes seja permitido, naturalmente, comunicar uns aos
outros o resultado da inspeção. O que, aliás, o simples interesse
de vocês os impediria de fazer. Pois o primeiro que puder deduzir
sua própria cor é quem deverá se beneficiar da medida liberatória
de que dispomos”.

“Será preciso ainda que sua conclusão seja fundamentada em
motivos de lógica, e não apenas de probabilidade. Para esse fim,
fica convencionado que, tão logo um de vocês esteja pronto a
formulá-la, ele transporá esta porta, a fim de que, chamado à
parte, seja julgado por sua resposta.”

Após a proposta ser aceita, cada um dos prisioneiros recebe o disco prometido. Entretanto, a exigência do uso da lógica não foi mera coincidência. O desafio foi aceito pelos presos sabendo da existência de três discos brancos e dois discos negros, talvez tivesse lhes parecido tarefa fácil realizar sua missão de adivinhar aquele que está consigo. O detalhe que torna a liberdade, nosso bem mais precioso, não tão fácil assim, é que: sem poder olhar o próprio disco, sem poder se comunicar com o outro que partilha desta mesma ignorância a respeito de si, mas sem deixar de partilhar do conhecimento sobre o disco que está no terceiro semelhante. O que não se imaginava era que todos os detentos receberiam discos brancos.

O que o diretor não esperava, decerto, era que, após algum tempo de hesitação e pensamento: Os três sujeitos dão juntos alguns passos que os levam, simultaneamente, a cruzar a porta. Separadamente, eles se justificam da mesma maneira:

“Sou branco, e eis como sei disso.
Dado que meus companheiros eram brancos,
achei que, se eu fosse preto, cada um deles poderia ter inferido o seguinte:
Se eu também fosse preto, o outro, devendo reconhecer imediatamente que era branco, teria saído na mesma hora, logo, não sou preto.’

E os dois teriam saído juntos, convencidos de ser brancos.

Se não estavam fazendo nada, é que eu era branco como eles.
Ao que saí porta afora, para dar a conhecer minha conclusão.”

Mais intrigante: os três realizaram, ao mesmo tempo, o mesmo exercício do pensamento lógico. E é isso que serviria de base para Lacan explanar suas ideias.

Qual é a Lógica?

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Quando Lacan foca seu olhar no valor lógico da solução apresentada, ele a classifica como um “exemplo significativo para resolver problemas de uma função lógica no momento histórico em que seu problema se apresenta ao exame filosófico” (LACAN, 1998).

Fica mais fácil o entendimento se estiver ouvindo uma música:

Quando procura entender o pensamento lógico empregado por cada um dos detendos, Lacan se encontra em observar o ponto de vista exclusivo de um deles. Chamando-o de A, enquanto os outros dois teriam o nome de B e C.

E aqui espera-se que, quando A enxerga os outros dois portando discos brancos, na adoção da lógica clássica, convencional, sua primeira conclusão seria a de que ele só poderia portar um disco preto. Caberia ao detendo, não podendo perder tempo, correr e informar que, se vê dois que são brancos, ele só poderia ser, pela lógica, aquele que é visto como preto. Uma visão um tanto binária, um tanto imediatista, se pudermos aqui opinar. É, naturalmente, a primeira que nos vêm à cabeça. Não era preciso se aprofundar mais do que isso. Estava óbvio! “Se dois eram brancos, e aqui devo usar a lógica, é por ela que concluo que o terceiro deverá ser preto!”

Mas sabemos que para se tornar um ex-detento, o próprio agiu de forma diferente àquela empregada na hora de cometer seus crimes: ele deteve seus impulsos imediatos, ele se colocou no lugar dos outros e tentou entender como funcionariam seus pensamentos.

É Preciso Considerar os Tons de Cinza

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Nem tudo é apenas Preto ou Branco. Para Lacan, o ato final de se declararem todos brancos, teria a seguinte estrutura no pensamento de A: “Devo estabelecer minha dedução com base na conduta dos outros dois”. E enquanto A espera o movimento ou não dos outros dois, realiza um exercício de empatia notável ao pensar: “No que B e C se baseariam?”, e é assim que ele entende que eles se baseariam exatamente na causalidade mútua de suas condutas e condições. Ou melhor: se o movimento de B depende daquele realizado por C e vice-versa, a inércia de ambos somente poderia ser um resultado do que vêem na cor de A?

É a partir desta indagação que nosso inteligente prisioneiro faz algo que falta muito nos dias de hoje: ele começa a questionar sua própria certeza. Se, por um momento, ele acreditou ser o portador do disco preto, o que isso implicaria àqueles outros dois que ele, diferentemente dos mesmos, vê que estão com os discos brancos nas costas? O que eles fariam, ou melhor, o que eles fariam e pensariam, caso ele realmente estivesse correto em sua lógica imediatista e, de fato, estivesse ele mesmo com o disco preto?

Interrompo o raciocínio e abro um parênteses para dizer que considero importantíssimo, visto que deve ter estar finda a anterior, que mais uma música relacionada ao tempo esteja disponível aos sentidos dos leitores e das leitoras aqui deste artigo.

Moções Suspensas

E esta transição da primeira suposição de A até à chegada de sua conclusão final, começaria a partir daquilo que Lacan vai postular como uma Moção Suspensa. Uma espécie de verificação das possibilidades hipotéticas não partindo delas em si mesmas, mas dos fatos que fariam parte de sua ambiguidade. Estas seriam guiadas por aquele pensamento que não dependeria exclusivamente da experiência externa dos sujeitos, de uma forma pura da lógica que conhecemos. Poderíamos vê-las como uma espécie de fuga do hábito de focar naquele formalismo como ótica principal para se enxergar as coisas, e como forma oficial de se empregar a lógica sobre elas – a partir de sua mera ordem cronológica, objetiva (focada no externo, nos objetos), espacial e contínua. É como se transpuséssemos o emprego da lógica daquilo que imediatamente nos é possível visualizar, pensar, fazer e sentir para um outro momento do tempo, em uma outra situação do espaço, que apenas existem em forma de possibilidade. É como se encontrássemos uma maneira de subverter o emprego da lógica, exatamente para que, paradoxalmente, facilitemos a sua própria aplicação. Seu foco não estaria naquilo visível aos sujeitos, mas exatamente naquilo que só poderá ser entendido a partir do invisível. Ao invés daquele congelamento a partir das impossibilidades lógicas predeterminadas pela falta de um elemento crucial à sua resolução, busca-se combinações possíveis em três tempos de possibilidade. E por mais que este conceito vos possa parecer confuso, é esperado que vá ficando de mais fácil compreensão ao longo desta leitura.

Por exemplo: se considerarmos que a realidade à qual os prisioneiros foram inseridos ali fora previamente pensada, cuidadosamente elaborada para estimular respostas que seriam previsíveis àquelas condições, é possível obtermos algumas conclusões do que se esperava estimular e para quê. Então o fato de que há três prisioneiros e apenas aquele que der a resposta correta primeiro ganhará sua liberdade, pode ser uma conjectura previamente imaginada pelo criador daquele desafio: justamente para que assim induzisse aos ex-condenados um sentimento específico àquele contexto. Qual? A pressa. E talvez houvesse um motivo para isso. O que não era esperado pelo criador seria a astúcia de nossos detentos fazer com que eles pensassem exatamente o que questionaremos a seguir: e se, em um momento de pressa, como neste exemplo, procurássemos descobrir qual influência, qual a função que esta pressa ali implicada teria sobre a nossa percepção das possibilidades lógicas?

A Função da Pressa na Lógica

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Uma resposta possível à tal pergunta, pela parte de Lacan, poderia ser a suposição de que o tempo do presente, o tempo em que estamos agora, e toda a realidade visível apenas a este, se tornem um foco urgente para o emprego de nossa lógica clássica perante aquela pressa que fomos induzidos a sentir. E talvez isso ocorra exatamente porque é este mesmo presente que está em jogo para garantir o futuro tão sonhado, onde haverá liberdade. Mas, ainda na mesma suposição de que é esperado termos pressa neste presente que nos foi imposto, ainda na mesma suposição de que esta pressa fará parte daquilo foi considerado essencial na elaboração do desafio que garantiria liberdade aos presos, é possível começar a imaginar se haveria nela uma função, como por exemplo: induzir um pensamento, um raciocínio lógico correto do ponto de vista clássico, mas errôneo por contas das variáveis essenciais que ainda não são visíveis à consciência. E talvez este fosse o pensamento que forçosamente apareceria naquele Instante do Olhar, naquelas imediatas conclusões que seriam tiradas a partir da lógica clássica pensamento cartesiano: vejo dois brancos, logo sou preto. Mas o que não era esperado pelo criador do desafio era que seria entendido pelos próprios detentos, claramente subestimados, que precisariam ir além da lógica clássica: pois “As formas da lógica clássica nunca trazem nada que não possa ser visto de um só golpe” (LACAN, 1998) e sua liberdade talvez não tivesse um preço tão barato.

As moções suspensas poderiam ser aquelas suposições ultra hipotéticas, feitas exatamente para que fugíssemos desta armadilha da lógica puramente objetiva. Então, se é esperado que nós mesmos, no tempo, no espaço e na situação em que estamos inseridos atualmente, tenhamos um pensamento lógico específico que nos induziria a atos específicos. O outro, em um tempo, em um espaço e em uma situação que ainda não nos é possível de identificar através dos órgãos do sentido em nosso presente (exatamente porque não existe no mundo objetivo, externo, mas apenas no subjetivo, interno – na nossa mente de sujeito), mas é, por exemplo, repleta de possibilidades de um futuro imaginado pela nossa capacidade de exercer o pensamento. Seu papel crucial está em nos forçar a aplicar a lógica em situações além daquelas que estamos enxergando e vivendo no tempo atual.

É como se não seguíssemos aquilo que a pressa teve por função nos induzir a fazer e também como se não ignorássemos a aplicação da lógica exigida no presente, em diferentes instâncias temporais. E se nestas instâncias, onde realizaríamos pequenas paradas em tempos hipotéticos, existentes apenas em possibilidade, para a aplicação da lógica em momentos diferentes daquele que nos é apresentado externamente.

Desta forma, avaliaríamos a qualidade efetiva de nossas conclusões lógicas imediatas, que talvez precisariam de elementos adicionais que não existem na realidade apresentada, necessitando de complemento obtido nesta viagem mental a uma realidade hipotética. Este seria um processo que talvez fizesse com que fosse plausível aplicar a lógica em diferentes tempos de possibilidade. Lugares onde ela teria ou não mais validade do que naquele em que é exposta.

Ou seja: talvez aquilo que posso compreender baseado no que o mundo me apresenta agora, não me sirva para uma conclusão de imediato, mas se eu puder visualizar tal fato, mesmo que apenas em possibilidade, em um Outro tempo hipotético, poderia enxergar mais sobre. Esta modulação dos outros tempos possíveis poderá permitir entender onde estaria, já que não vejo, aquela hipótese que me faria chegar à conclusão que o problema solicita.

Vos deixo aqui mais uma música:

Time Travel: O Passado que só é Presente no Futuro

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Para começar a facilitar o entendimento de algo tão denso e complexo, talvez haja uma melhor visualização se recorrêssemos à gramática para uma rápida leitura:

Bruce Fink, em sua famosa obra “O Sujeito Lacaniano” (1998), lembra de um exemplo utilizado pelo psicanalista ao falar sobre esta lógica temporal, onde o sentido não poderia nos vir de imediato, mas somente após alguns processos que nos fariam pensar em Outro tempo. No tempo que em si haveria de ter um lugar, nesta cronicidade, onde seria possível encontrar o sujeito de verdade. Este seria o momento que está sempre quase chegando, junto ao aparecimento da responsabilidade perante o próprio desejo. No exemplo de Lacan que Fink evidencia, este tempo poderia ser melhor entendido através do próprio tempo verbal em que está inserido o sujeito, ou seja, do próprio tempo da ação subjetiva. E qual seria? Falaremos adiante.

Na frase: “Deux Secondes plus tard, la bombe éclatait” (A Bomba explodiria dois segundos mais tarde) Lacan coloca o verbo “explodir” em seu pretérito. Ou seja, só poderíamos estar falando aqui de uma ação que já ocorreu. Entretanto, este passado só poderia acontecer no futuro. Como se sempre houvesse uma condição implícita, um impedimento para que aquele ato evidenciado no passado só pudesse ser uma possibilidade daquele futuro que só existe a partir de algo que ainda não está explícito (p. 87). É como se tivéssemos a obrigação de imaginar que a bomba não explodiu no período em que podemos observar, mas poderia ter explodido dentro das possibilidades de um futuro alternativo. Qual possibilidade de futuro alternativo? Aquela em que a explosão não fora impedida por algo não mencionado ali, um detonador que falhou, por exemplo, conforme podemos apenas supor.

Entretanto, tais suposições não poderiam ser feitas sem um deslocamento nos tempos de possibilidade que existem nesta situação. Na língua portuguesa, este tempo verbal apresentado é o futuro do pretérito, aquele inexistente passado que é presente no futuro — de possibilidades. E por mais contraditório que seu nome seja, ele faz sentido quando analisamos a lógica empregada pelo nossos prisioneiros.

O exemplo foi utilizado para que entendamos a prevalência de um raciocínio lógico existente para cada um dos tempos de possibilidade diferentes de um mesmo fenômeno. Quando enxergamos, de maneira problematizada, um futuro que só existiria num passado diferente e ainda assim este “passado do futuro” não é o nosso presente (que, pela lógica, deveria ser), é menos angustiante que esta ginástica mental finalmente nos sirva de alguma coisa senão para a adoção desta famosa face a seguir:

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No caso de Lacan, aquilo que nos faz aplicar a lógica naqueles tempos de parada que as moções suspensas exigem, quando finalmente conseguem identificar algumas instâncias do tempo presentes em nosso processo lógico, é chamado de Movimento Lógico. Ele consistirá na aplicação desta logica naqueles tempos em que a pressa nos faz ignorar (nos tempos que só existem em possibilidade), para que nos haja preferência para aplicá-la apenas no presente que enxergamos de imediato. Mas, para que isso aconteça e nosso pensamento dê o salto para a liberdade de nosso corpo, é-nos necessário começar por algo bem mais simples.

A Exclusão Lógica e o Movimento Lógico – O Instante de Olhar

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Para haver de sua parte um movimento lógico que busca, na sua aplicação da lógica em tempos distintos, a visualização de múltiplos momentos de evidência para a falha ou sucesso de suas conclusões, foi preciso que houvesse na mente de A, aquilo que Lacan chamou em seu texto de uma exclusão lógica. Algo simples, mas eximiamente necessário durante o emprego de um pensamento além daquele imediato e limitado à lógica comum. É como se, na linha de construção de sua própria conclusão, fosse necessário ao sujeito validar as diferentes suposições hipotéticas que lhe são possíveis, mas soma-se a isso o que evidencia ou esconde suas reais possibilidades. Como quando numa equação de duas incógnitas, busca-se um artifício matemático para que a revelação de uma se faça útil o suficiente para facilitar a revelação da outra. Mesmo que ela por si não tenha valor para produzir uma certeza para o ato de enunciar a resolução do problema.

Música:

Poderia ser que existisse ali, implícito nas ações do prisioneiro, algo tão óbvio que nos é praticamente ignorado: para que A começasse a indagar as possíveis aplicações da lógica temporal que o cercavam, era necessário tecer indagações sobre qual tempo de possibilidade ele aplicaria sua lógica com sucesso, pois era preciso que descartasse as situações onde não existiria algum valor de evidência para que a lógica empregada lhe produzisse uma conclusão útil.

Por mais que estivesse implícito nas informações iniciais, e por mais que isso só pudesse ocorrer em instâncias temporais imaginadas, distintas àquelas apresentadas ao imediato; por mais que já se soubesse daquilo num só golpe, num só Instante de Olhar, a exclusão lógica foi a base de todo o movimento lógico que permitirá uma conclusão determinante para o ato em direção à liberdade: entender o que falta. Calma, vou explicar.

Num Instante de Olhar, Busca-se Aquilo que Falta para se Chegar ao Tempo Para Compreender

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Quando o prisioneiro A resolve questionar a validade de sua hipótese imediata, aquela em que ele seria preto, ele também pensa que B, em um futuro cenário hipotético, faria conjecturas para também aplicar sua lógica de maneira semelhante. Indo adiante, caso A realmente carregasse um disco preto em suas costas, ele supõe que B poderia pensar:

“Se eu vejo que A é preto e sei que há apenas dois discos pretos, apenas uma pessoa também poderá ter um disco preto além de A. Sei que C, definitivamente não é esta pessoa, pois ele eu mesmo vejo que é branco!

Portanto, sabendo que há no total três discos brancos e dois discos pretos, se meu campo de visão me permite enxergar um disco preto e um branco nos outros dois prisioneiros, mas não posso enxergar a cor do meu próprio, minha lógica me ajuda a crer que o disco pendurado em minhas costas poderá ser tanto preto como branco. Mas o que acontecerá se estiver comigo o disco preto que falta?

Bem, suponho que neste caso C estaria vendo dois discos pretos. Portanto, não sendo ele incapaz de exercer seu raciocínio com maestria, aplicará uma lógica muito simples para suas conclusões: se ele vê dois discos pretos em seu campo visual, não sabe a cor do disco que carrega, mas sabe que o total de discos pretos é exatamente a quantidade que vê. A própria lógica mostrará para C que o disco em suas costas apenas poderá ser branco”.

Ou seja, se há dois discos pretos em meu campo de visão, e sei que existem dois no total, aquele que eu não vejo e que está em mim mesmo, apenas poderá ser branco.

E aqui temos um primeiro momento de evidência para ser validado:

“Estando diante de dois pretos, sabe-se que é branco”.

E esta seria a primeira hipótese daquele que vê dois pretos, caso A fosse realmente preto. Mas este pensamento é rapidamente descartado, pois perde seu valor instantâneo de evidência e é excluído das possibilidades de opções viáveis e que poderiam, num futuro do pretérito, serem tomadas como a verdade que leva ao ato.

Em mais um empréstimo dos termos da linguística, Lacan vai nos dizer que este simples processo se assemelha à preparação de uma frase. Pois se a exclusão lógica nos servirá para chegar ao próximo passo, isso só poderá ocorrer da mesma forma como uma prótase serve uma apódose na estrutura sintática que envolve uma oração.

Ou seja, quando pensamos num futuro de possibilidades hipotéticas, em uma instância do tempo que seria ignorada pela lógica clássica, poderemos fazer com que, No Instante do Olhar o dado da prótase “diante de dois pretos” seja conduzido ao dado da apódose “é-se branco” (LACAN, 1998). Daqui poderá se fazer a seguinte equação lógica: DOIS PRETOS = UM BRANCO.

E é esta exclusão lógica das incógnitas explícitas, para a apresentação daquelas que até agora a lógica clássica fez com que o sujeito ignorasse, mas que se fazem essenciais ao processo lógico, que permitirá uma transição do Instante do Olhar, que tomaria o sujeito por seu imediatismo, para um segundo momento de evidência: o Momento/Tempo de Compreender.

Se uma Parte me Falta, Parto Dela para Produzir sua Existência

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Portanto, é somente a partir da exclusão lógica que se poderá buscar a verdadeira incógnita daquela situação onde a lógica se faz necessária. E se poderá fazer isso agora pois ela FINALMENTE DEIXOU DE SER IGNORADA PELO SUJEITO.

E talvez algo tenha sido ignorado por quem lê este artigo. Exatamente. A música.

Como em uma equação matemática, quando no tempo subjetivo, chamado de Instante do Olhar, o sujeito realizar a exclusão lógica (que o permitirá descartar uma incógnita que ainda velava parte de seu raciocínio lógico final), passará finalmente a raciocinar em direção às hipóteses autênticas, onde poderá visualizar a verdadeira incógnita do problema – aquela que era ignorada durante o uso da lógica comum por sua parte.

Agora que o sujeito deixa de ser aquele guiado pela imediaticidade do Instante de Olhar, ele finalmente poderá ter algum Tempo para Compreender a real dinâmica em que está inserido, já que, se o valor instantâneo de sua lógica naquele momento temporal é o que o permite continuar questionando, é porque este valor há de ser, necessariamente aquele que o permitirá ir mais além: ZERO .

O Sabido Não Saber vs O Não Sabido Saber

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A descoberta de que alguém precisaria enxergar dois discos pretos para concluir ser ele mesmo o portador de um disco branco, deveria ser algo implícito no contexto daquele que supõe-se portador do preto apenas por ver dois brancos. Entretanto, esta lógica só se fez sabida para aquele sujeito na não ocasião de sua lógica imediata se tornar a única a ser considerada.

Exemplo de Questão do Enem que exige o emprego de uma lógica semelhante.

98

Resposta: ( C) 50 ——> Se tirarmos 50 homens, a sala ira ter 49 homens e 1 mulher, no total de 50 pessoas. E podemos chegar a este resultado aplicando a regra de três a cada uma das alternativas até evidenciarmos a porcentagem desejada. Como no exemplo da alternativa C:

Se saírem 50 homens, a sala passaria a ter 49 homens e uma mulher, totalizando 50 pessoas na sala, que correspondem a 100%. Então, 49 pessoas/homens correspondem a quantos %?

Neste caso, então:

50 = 100%
49 = x%

50x = 4900
x = 4900/ 50
x = 98

Pois se, ao primeiro impacto, muitas pessoas se sentem tentadas a responder 1, 2 ou N.d.a por conta dos desafios aqui empregados pelo mero uso da lógica objetiva. Uma vez que a primeira coisa a se pensar é que 100-2 = 98%. Contudo isso não valeria para a porcentagem.

Vejamos bem: não seria esta intuição tão fácil de se fazer com os dados que continuassem produzindo no sujeito apenas pensamentos lógicos restritos àquilo que lhe forneceram para observar?

Mas ao contrário, passou-se a ocorrer a exclusão desta mesma primeira conclusão tirada a partir daquela imediata exposição. O sujeito decide ignorar o próprio conselho imediato que a primeira impressão da consciência lhe dá sobre o fenômeno. E é só a partir daí que começa a refletir sobre sua real necessidade de pensamento reflexivo: sendo agora melhor transpor essa lógica, quase como se estivesse, em hipótese, pensando em um tempo a partir das relações que estabelece com os outros. Um suposto saber num tempo hipotético.

Para exemplificar: ocorrerá exatamente como é retratado no pensamento do Prisioneiro B:

“Um momento: o Prisioneiro C estaria imediatamente correndo para informar a conclusão que chegou de sua própria cor, caso eu também fosse da cor de caso — eu também fosse preto. Logo, se C está em inércia, eu não poderia ser preto!”

E se neste tempo todo que o Prisioneiro B ficara imaginando estas possibilidades, entende-se, a quem o observa, que ele também não saiu correndo, exatamente porque não estava a enxergar dois discos pretos. A partir daí, O Prisioneiro C também poderá concluir que é branco, também por conta do não movimento do Prisioneiro B.

Lacan vai postular que existirá um objetivo e um término do tempo disponível para que os dois brancos elaborem suas conclusões lógicas, estas que definirão suas próximas ações subjetivas. Mas mais do que isso: haverá nestas ações subjetivas as conclusões que seu próprio semelhante e observador poderá extrair delas. E isso irá determinar a conduta seguinte – e o mesmo vale para este semelhante. Portanto, se sua ação for a própria inércia, sendo esta mútua, retratada pelos dois que são brancos à sua vista, então a própria ação (no caso, a não ação) do sujeito, denunciará ao outro que a observa algo não explícito.

Por exemplo: Conclui-se que não foram avistados dois discos pretos em lugar algum, na visão de nenhum dos três. Pois nenhum dos dois se movimentou. Simples. Esta etapa de verificação daquela possibilidade imaginada por A, de ser ele mesmo o disco preto por ver dois brancos, faz com que os prisioneiros B e C concluam-se portadores do disco branco exatamente pela inércia que causaram um no outro.

“Se eu fosse preto, ele já teria saído sem hesitar; se ele hesitou, sou branco”. Não haveria como hesitar vendo dois discos pretos à sua frente, uma vez que cada um possuirá as mesmas possibilidades disponíveis de conclusão em seu presente imediato de saber.

Para Laca, deveria haver algum limite para este Tempo para Compreender. O psicanalista tenta explicar a tênue linha temporal de delimitaria isso, ou não:

“O Tempo de Compreender” pode reduzir-se ao instante do olhar, mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender”. (LACAN, 1998. p. 205)

E é neste momento que se perde um pouco da objetividade deste tempo em relação à sua duração, mas seu sentido se mantém vivo: ele produz sujeitos que dependem de ações recíprocas para que se movimentem, para que possam evoluir suas conclusões. Em outras palavras: sujeitos que apenas desenvolvem seu crescimento a partir de um outro em que ele causa o mesmo que sente. Sujeitos que se libertam de convicções rasas quando entendem que é preciso empatia para que haja tempo para compreender.

Neste caso a inércia do outro se torna a maior informante do disco que ambos carregam:

“Se eu fosse preto, os dois brancos que estou vendo não tardariam a reconhecer que são brancos”.

Afinal, para eles, enxergar um preto e um branco poderia ser fonte de dúvida a respeito da própria cor. As ações daquele que ele vê do outro branco determinariam sua percepção: “Se ele correr, minha conclusão deverá ser: sou preto”. Pois a única justificativa esperada é que tenha corrido por estar vendo exatamente os dois únicos discos pretos, sobrando a si o disco branco”. Valendo o mesmo para o outro.

Todo este movimento de deslocar a própria lógica além do que se vê objetivamente, todo este movimento de deslocar a lógica para outras Instâncias do Tempo é o que permitirá o sujeito chegar ao momento de concluir o seguinte: SOU BRANCO, DEVO CORRER E REVELAR A TEMPO PARA FINALMENTE SABER DE VERDADE.

O Momento de Concluir o Tempo para Compreender: A Asserção da Certeza Subjetiva para Validar a Certeza Objetiva.

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Fiquem tranquilos, uma música que faz referência homônima a este título não vos irá faltar.

Finalmente o prisioneiro conclui que: se os outros dois hesitaram em declarar a própria cor, ele só poderia ser branco. Se B não corre porque não vê C ser preto ao lado de A. E se C não corre por não ver B ser preto ao lado de A. A não pode ser preto. Se A não é preto enquanto vê dois brancos, logo todos são brancos. A deverá se apressar para declarar que é branco antes que os outros brancos o façam pela mesma lógica.

Esta conclusão só foi possível a partir de um lógica diferente da convencional. Entendamos que, objetivamente, apenas era possível enxergar dois brancos. Aplicando a mesma lógica objetiva naquele tempo e espaço, nada se concluiria senão aquilo já visto. Foi preciso do auxílio das moções suspensas até que se chegasse a uma lógica semelhante ao Tempo do Sujeito para Lacan, uma lógica de um tempo que está quase chegando por conta de algo que pode acontecer, algo como um futuro tão certo quanto um suposto passado dependente dele, conforme explicado anteriormente.

Entenderemos aqui que, assim obtida esta certeza, através de uma lógica que atravessa os limites que o sujeito estabelecia apenas por observar os objetos à sua frente, o sujeito agora é dono de uma lógica que apenas a ele pertence. E quando falamos desta lógica subjetiva (do sujeito), falamos de uma lógica que não mais depende do mundo dos objetos (objetiva) apenas por uma condição: que aconteça o ATO.

“Esse, portanto, é o momento de concluir que ele é branco; de fato, se ele se deixar preceder nessa conclusão por seus semelhantes, não poderá mais reconhecer que não é preto. Passado o tempo para compreender o momento de concluir, é o momento de concluir o tempo para compreender

(LACAN, 1945/1998, p. 206. grifo meu.)

O que Lacan quer dizer aqui é simples e pode até ser trazido ao senso comum: “Se você basear seus atos EXCLUSIVAMENTE às percepções externas, ou seja, dos outros, você nunca sairá do lugar”. É quase como a clássica frase: “Se preocupe mais com o que pensa de si mesmo ao invés de se preocupar com o que os outros pensam de você“. E eu explico:

Se o Sujeito A, após assumir que tem certeza de que é branco, decidisse não agir em prol daquela certeza sem hesitar, ou, pior ainda, se tivesse aguardado um segundo a mais: os outros dois brancos se movimentariam a fazer o mesmo. Pois lembram-se de sua moção suspensa? “Eles estariam correndo juntos se eu fosse preto”. Portanto, se A demorasse mais para agir, ou interrompesse sua ação apenas porque os outros também passaram a agir, teria, para sempre, a certeza errônea de ser preto. E aqui a lógica subjetiva perderia para a lógica objetiva. Exatamente porque os outros dois estariam correndo juntos. E não por enxergarem que A é preto, e sim porque todos chegaram ao mesmo tempo ao diretor – exatamente por todos terem utilizado a mesma lógica de A.

E vocês podem perguntar, objetivando: mas se A não tinha certeza plena de ser branco, por que agiu? Ele não havia como provar isso de forma outra senão a partir de meras deduções. E aqui chegamos ao que Lacan chamou de Asserção da Certeza. E é somente através dela que se tem coragem para agir. E é somente agindo que se terá certeza plena.

A Ação do Ato na Subjetividade

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Lacan nos mostrou, neste exemplo, o seguinte: o sujeito não terá direito à própria lógica enquanto estiver preso às ações dos outros. Mais ainda: não será possível que alguém tenha certeza de fato se não a afirmar através do ato.

Se não fosse a tomada de decisão apenas da certeza enunciada, da asserção da certeza, a verdade não poderia ter sido descoberta. A verdade do sujeito mora no ato, no ato subjetivo que o garante transcender na aplicação de sua lógica sobre o mundo. E é por isso que às vezes o tempo cronológico não basta.

Uma análise ou até uma única sessão de análise, se bem pautadas pelo tempo lógico, terão:

O Instante do Olhar – O Tempo para Compreender – O Momento de Concluir

Exatamente para que o sujeito tire proveito do movimento que lhe esperado para fazer em sua vida. Que o sujeito saia do futuro do fato e viva a ação do ato.

O saber, o efeito, o dano ou o sucesso de uma sessão ou de uma análise, em minha opinião, não estão em lugar nenhum a não ser no ato cometido pelo sujeito que antes era acometido pelo ato.

Por Caio Cesar Rodrigues

REFERÊNCIAS

Jacques Lacan em Conferência de imprensa realizada em 29 de
outubro de 1974 no Centre Culturel Français, Roma. Lettres de l’École Freudienne de Paris.
FINK, Bruce, 1956 –, O sujeito lacaniano; entre a linguagem e o gozo/ Bruce Fink; tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara; consultoria: Mirian Aparecida Nogueira Lima. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN, Jacques, 1901-1981. Escritos/ Jacques Lacan; tradução Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

***Todas as imagens contidas neste artigo foram obtidas de forma livre na internet. Caso você seja proprietário de uma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

Estruturação frente à falta do Outro

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(Imagem retirada da Internet. Na imagem lê-se: Nós temos os líderes que merecemos?)

Algum tempo atrás, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, intensificou a luta com relação à restrição da entrada no país de imigrantes ilegais.

Com a prática chamada de “tolerância zero”, o presidente determinou que ao serem flagradas ingressando em solo americano ilegalmente, as famílias fossem apartadas, com as crianças sendo direcionadas a abrigos. Antes, sempre que possível, as famílias eram mantidas unidas em prisões.

É importante apontar que parte das crianças que se encontram em abrigos, atravessou a fronteira sozinha, fugindo da violência de seus países de origem.

Muitas das crianças foram separadas dos pais antes dos 04 anos de idade. Isso impacta diretamente na estruturação da criança enquanto sujeito.

As fases do desenvolvimento sexual foram magistralmente descritas pelo meu colega Caio César. Sugiro que se remetam à esse texto para maior enfoque no tema.

Nasce um sujeito

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(Imagem retirada da Internet)

Quando uma criança vem ao mundo, ela “chega ao mundo, portanto, engendrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo” (Flesler, 2012, p.17). Isto é, ela vem carregada já de significação, ela já é falada no discurso dos pais.

A sua entrada na sociedade se dará por meio de uma balização imaginária, de forma especular. Explico. O eu, a noção própria de quem somos, que é diferente dos outros, só é obtida à partir do tu, à partir, justamente do outro, que é encarnado, normalmente, pela mãe, pai, e/ou cuidadores iniciais da criança.

Pouco à pouco começa à emergir na criança o símbolo (Lacan, 1953-1954/1996). A criança começa à entrar no jogo simbólico, começa a estar submetida à regras, na escola e em casa. Aí, efetivamente começa a humanização, o processo de entrada na cultura.

Dois conceitos concebidos por Freud merecem nossa atenção nesse momento, pois interpelam diretamente a estruturação da criança enquanto sujeito.

O primeiro é a noção de Eu Ideal, uma instância primariamente imaginária, ligada ao desejo materno, ao olhar do Outro sobre o bebê. Quando uma criança nasce, há um investimento libidinal muito forte por parte dos pais (ou cuidadores). Eles depositam na criança uma série de afetos muito intensos.

Após o Complexo de Édipo, entra em cena o Ideal de Eu, referência externa à família, que baliza as relações da criança com o grupo social em que está inserida. Ou seja, a criança passa à ter como referência algo externo, um ideal, uma causa que não esteja em seu círculo familiar.

O olhar desejante da mãe para o bebê configura o primeiro objeto da criança, a primeira forma de relação do sujeito. Esse é o Eu Ideal.

Psicoses e outras saídas desfavoráveis

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(Imagem retirada da Internet)

O rompimento abruto do contato da criança com os genitores pode ocasionar uma série de complicações. Buscarei me apoiar também em trabalhos de F. Dolto e D. Winnicott.

A presença de um genitor nessa fase que é crucial para a constituição do sujeito. O atendimento psicanalítico à essas crianças vai na direção de uma aposta em um possível, de uma estruturação possível.

Um exemplo de um caso em que o analista aposta no sujeito, é o Caso Dominque, contado por Françoise Dolto no livro de mesmo nome. É um texto que me parece importante citar, dado que a “criança”, já com 14 anos, apresentava uma  série de comportamentos psicóticos, totalmente desconexos com a realidade.

Naturalmente, a separação vivida por Dominique é bem diferente daquela enfrentada pelos filhos e filhas de imigrantes ilegais, atualmente nos EUA. Todavia, os efeitos psicotizantes da falta de uma figura paterna (ou que faça a função paterna) são notáveis.

Como diz Dolto (2010): “O amor que o ser humano, em sua pessoa em via de estruturação, tem pela mãe e pelas pessoas à sua volta é um amor cuja resultante efetiva é uma mímica de identificação, seguida do processo de introjeção”. Vemos aqui, o reconhecimento em forma de espelho que lhes dizia, uma identificação com os pais ou cuidadores que se rompida abruptamente, resulta em um sujeito preso em tempo passado, não conseguindo elaborar sua perda.

Winnicott, em seu trabalho Privação e Delinquência, fala justamente dos efeitos em crianças que não tiveram o acolhimento necessário, ou que o perderam, em momentos muito precoces da vida. A Criatividade Primária da criança é prejudicada, e surge, o que o autor chama de Tendência Anti-Social. Falando de Criatividade Primária, sugiro a leitura do texto do meu colega Caio Ferreira.

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(Sociedade dos Psicólogos, 2017)

Olhemos pelos pequenos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Referências Bibliográficas

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1953-1954/1996) Os escritos técnicos de Freud – Os Seminários, Livro I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Winnicott, D. (1987). Privação e Delinquência. São Paulo: Martins Fontes.