A Psicanálise hoje

A virulência em tempos de truculência

Muitos declaram hoje que a Psicanálise morreu, eu discordo. Outros tantos acreditam que se trata apenas de charlatanismo (não só hoje em dia).

Nesse texto gostaria de falar um pouco sobre a relevância da ciência da fala, ou da cura pela palavra no século XXI.

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(Imagem retirada da Internet)

A Clínica do Real

Lacan, no final de seu ensino, apontou para uma direção que deveria ser seguida por seus alunos. “A Clínica do Real”, como é nomeada pelos teóricos lacanianos, diz respeito ao período entre o seminário 20 (Mais ainda, 1972-73) e o Seminário 26 (La topologie et le temps, 1978-79).

Lacan denotou uma mudança radical em sua forma de pensar o tratamento e a função da análise. A articulação entre os 3 aros do Nó-Borromeano passa à ser de maior importância do que a estrutura clínica clássica (a tríade clássica: neurose, psicose e perversão).

O laço social mudou, isto é, a forma como nos relacionamos mudou. O mestre francês já falava disso nos anos 70. Não nascemos, crescemos, estudamos, namoramos ou morremos como antigamente. Nossos pais habitaram outro mundo, com certeza.

Outras relações pedem outra clínica. Não escutamos (eu espero) nossos pacientes como Freud o fazia. E nem deveríamos. Nossas intervenções hoje buscam muito mais uma responsabilização do sujeito pelo seu Gozo (sua posição hoje, seu círculo e forma de sofrimento), do que uma explicação dos fatos. Freud explica e Lacan implica, dizem.

Remédios: Solução em cápsulas

remédios

(Imagem retirada da Internet)

Uma questão já batida na clínica psicanalítica é o uso de psico-fármacos durante a análise.

Um tema que normalmente coloca em embate Psiquiatras e psicólogos. Cada um parece puxar a razão para o seu lado, querendo a exclusividade sobre o tratamento daquele sujeito.

Minha crítica vai na direção da ilusão de quem acredita que apenas o remédio é a solução. Parece um sintoma atual, de nós, que não temos tempo para nada, resolver um problema tomando um comprimido duas vezes ao dia.

Com isso não quero dizer que sou contra qualquer tipo de medicação. O tratamento farmacológico é sim muito importante em diversos casos. O problema é quando se espera que um milagre venha de dentro de uma embalagem.

Nós temos é que ser responsáveis por nossas faltas, nossos acertos e erros.

A falta que a falta faz

A parte que falta

(A parte que falta, Shel Silverstein)

Esse subtítulo se refere à um vídeo viral feito pela youtuber “Jout Jout”, falando sobre um livro pequenino de Shel Silverstein, intitulado “A parte que falta” (https://www.youtube.com/watch?v=GFuNTV-hi9M). Livro maravilhoso, que recomendo a leitura, bem como de seu sucessor, “A parte que falta encontra o grande O”.

Parece que vivemos em um momento onde não pode haver falta. “Tempo livre? Mais trabalho, ou dedique horas on-line para realizar cursos de auto-conhecimento”. E as crianças? Não pode haver tédio em nosso tempo. Nossos celulares, que à cada geração vêm com promessas de maior duração de bateria, mantém as crianças entretidas sempre.

Sem querer dar spoilers do livro, mas, encontrar aquilo que nos completa totalmente pode ser chato à beça.

Justamente aí a Psicanálise pode atuar. Ao questionar as certezas cegas, ou sensações ilusórias de completude.

Psicologia das Massas

A psicanálise não é apenas uma ciência que nos ajuda a entender o indivíduo que está ali, deitado em nosso divã, mas é uma forma de ler o social, até porque, entendemos o sujeito sempre como um sujeito do social. Nos formamos à partir do outro, no início nossos pais, depois, tomamos como referenciais outros alhures, como professores, figuras conhecidas na mídia, etc.

Passamos um momento político e social que muitos consideram de polarização. Particularmente, a discordância de idéias me é simpática, se todos pensássemos o mesmo eu ficaria preocupado, todavia, parecia, na eleição presidencial haver duas figuras, dois estereótipos. Um traidor, coisa-ruim, tudo que há de mal na terra, e um salvador, um Messias, caso queiram.

Sugiro a leitura de Psicologia das Massas e Análise do Eu, texto de 1921, de Freud, para localizar esses sintomas de grupo. (Falei sobre o texto em outro lugar).

 

Que sejamos mais sujeitos de nossa própria história.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências Bibliográficas

Forbes, J. (2010) Você quer o que deseja? Rio de Janeiro: BestSeller.

Forbes, J. (2014) Psicanálise – A clínica do Real. Barueri: Manole.

Freud, S. (1921/1996). Além do Princípio do Prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos. (Obras completas de Sigmund Freud, v.18). Rio de Janeiro: Imago.

 

Breve comentário sobre o texto Hello, Brasil, de Contardo Calligaris

 

Hello, Brasil hoje

Em uma semana tão aguardada pelos brasileiros, acho válido comentar sobre um texto que analisa o Brasil (ele mesmo, como se fosse um sujeito), e que, principalmente traz a visão de alguém de fora.

Me refiro à um texto de Contardo Calligaris, psicanalista, escritor e dramaturgo italiano radicado aqui no Brasil. Com origem em Milão, Calligaris se formou em Epistemologia e Letras, na Suíça. Depois, em Paris, em meio ao Doutorado em Semiologia, começa à se analisar, o que desperta seu interesse em Psicanálise.

Seu primeiro contato com o Brasil se dá no final dos anos 80, quando começar a proferir uma série de palestras e aceitar alguns pacientes. Desde os meados dos anos 2000, se estabeleceu de maneira definitiva no país.

Atualmente assina uma coluna semanal no jornal A Folha de São Paulo, além de ser roteirista da série televisiva Psi, do canal HBO.

 

Os artigos que compõe o texto foram compilados e publicados originalmente em 1991, e sofreram uma revisão, tendo sido relançado no ano passado.

Colonizador e Colono

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(Nova edição do texto Hello, Brasil)

Tentarei apontar alguns elementos do texto que acho relevante, e algumas noções que talvez nos sejam úteis ao pensar o nosso eterno “país do futuro”. O importante aqui é questionar como se formou (e se forma) o laço social no Brasil, como as relações são estruturadas. Sugiro que se remetam ao texto original para localizarem as observações completas de Contardo.

No início do texto, Calligaris aponta uma frase que lhe chamou atenção imediatamente após chegar ao país: “Esse país não presta”. Isso lhe escandalizou, de tal maneira que, na Europa não há quem fale algo semelhante.

A noção de que alguém “fala” em nós, ou seja, que ruídos do nosso passado e da história de nossos ancestrais ecoam em nós, é muito importante para balizar as relações que estabelecemos.

Duas figuras são centrais na argumentação do psicanalista, são elas o colonizador e o colono. São figuras historicamente entrelaçadas ao nosso psiquismo tupiniquim. Ou seja, em nós, em nosso discurso, o colonizador e o colono falam.

 

“O colonizador é aquele que veio impor a sua língua a uma nova terra, ou seja, ao mesmo tempo demonstrar a potência paterna (a língua do pai saberá fazer gozar um outro corpo que não o corpo materno) e exercê-la longe do pai. Pois talvez o pai interdite só o corpo da mãe pátria, e aqui, longe dele, a sua potência herdada e exportada me abra o acesso a um corpo que ele não proibiu” (Calligaris, 2017, p.38).

A questão do colonizador se dá em gozar, extrair, tudo que há na nova terra, sem limites. Haja visto que o nome do país é o de seu produto mais presente na exploração inicial, completamente esgotado. Que significante, minha gente. Todavia, esta terra não é a mesma coisa que o corpo materno. Voltaremos a esse ponto.

“O colono é quem, vindo para o Brasil, viajou para outra língua, abandonando a sua língua materna… O colono não é um colonizador atrasado que poderia esperar participar da festa do colonizador. A sua esperança é outra: se ele adere à nova língua, não é para ter acesso a um corpo materno finalmente licencioso. O que o diferencia do colonizador parece ser a procura de um nome. Ele não vem fazer gozar a América, mas, na América, fazer um nome para si. Procura aqui, em outra língua, um novo pai que saiba interditar, colocar limites, e que talvez o reconheça como filho e cidadão” (Calligaris, 2017, p.41-42)

A existência desses dois fantasmas na fundação do “ser brasileiro”,  me parece, pois, uma razão pela qual não há exatamente um sentimento de coletivo, ou coletividade entre nós. Somos nós contra eles, sempre.

As elites no Brasil estão sempre se remetendo à Europa como seu lugar de fato, “lá é que é bom, lá é que presta”. Portanto, nunca vieram verdadeiramente para cá, seu lugar ainda é a velha Europa. E isso reflete nas classes mais baixas da população. Vejam que os produtos de fora são os mais cobiçados, e fazer uma viagem para lá é o sonho de muitos, creio eu que, espelhados no desejo de um Outro (elites).

Uma frase que usa-se no cotidiano e é muito significante (literalmente) é: “Para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei”. Dá-se mais valor às relações particulares do que as públicas. A educação que o diga.

2 certa

(Imagem retirada da Internet)

Contardo afirma que não conseguiria escrever o mesmo texto hoje em dia, pois já está tomado por demais pelo “ser brasileiro”. Inclusive comenta desse momento de liberdade entre trazer o peso do passado (da cultura passada), e ser esmagado/inserido na cultura para onde você se destina.

Talvez o que eu queira dizer nessas linhas é apenas que o passado tem seu peso, e nos dirige, nos dias de hoje.

Bom domingo à todos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

PS:

Segue o link para a fala do psicanalista no Café Filosófico:

Referências Bibliográficas

Calligaris, C. (2017). Hello Brasil e outros ensaios. São Paulo: Três estrelas.

 

O Que São Afetos, Emoções e Sentimentos? Quais as Diferenças entre Eles?

Monalisa

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Monalisa, de Leonardo da Vinci, é um quadro que ficou famoso pela confusão causada àquele que o vê. Não se sabe ao certo se a moça sorri, se sofre, se desdenha, suspeita ou odeia. Não se sabe ao certo quais emoções estão ali representadas. Caberá sempre ao expectador da obra nomear os afetos, sentimentos e emoções. Mas a condição primordial para o sucesso do quadro é: apenas aqueles por ele enxergados. É claro que, na variedade da experiência humana, estes poderão ser variados de acordo com a experiência individual de quem vê.

Afeto, Emoção e Sentimento: Conceitos, Semelhanças e Diferenças

Segundo Karen Quigley et al (2014), não existe uma definição amplamente aceita sobre o que é a emoção. Talvez ela fosse um conjunto de pacotes coordenados de experiências de mudanças fisiológicas e de comportamento, ou um Estado Mental que as pessoas associam a algo dito no senso comum (raiva, medo, nojo, tristeza, alegria). E talvez emoções envolvam mudanças no afeto, mas mudanças no afeto nem sempre se transformam em emoções. Mas se preferirmos as definições aqui apresentadas, estaremos longe de algum tipo de consenso ou imparcialidade teórico-científica (QUINGLEY, K.S.; LINDQUIST, K.A. & BARRET, L.F., 2014).

E aqui falamos sobre a psicologia, as neurociências e a psicanálise. Estas que, às vésperas do segundo século de duração, discutem frequentemente um consenso definitivo ou próprio destas emoções, sentimentos e afetos.

A Sociedade dos Psicólogos tentará, com muita parcialidade (já que esta é bastante afetada pela psicanálise), trazer alguns destes conceitos e suas diferenças. Lembramos que isso acontecerá a partir de engendramentos oriundos de múltiplas fontes de leitura. Entretanto, há aqui um aviso: a maioria é psicanalítica. Por isso, são mais do que bem-vindos os comentários, as críticas e os complementos dos leitores deste artigo. Boa leitura.

Emoções e Sentimentos: Psicologia Experimental

Em 1879, em Leipzig, na Alemanha, surge o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Um de seus fundadores foi Wilhelm Wundt, o mesmo autor que, em 1873, publica o trabalho intitulado Principles of Physiological Psychology (Princípios de Psicologia Fisiológica). A intenção declarada de Wundt era, segundo ele mesmo, criar um novo campo do conhecimento: a psicologia.

Como um médico, naturalmente Wundt seria orientado pelas evidências observáveis necessárias para que um conceito seja aprovado pelo método científico. Portanto, o desejo de ser chamado de psicólogo o fez deparar-se, à época, com a dificuldade de explicar aquilo que se experiencia individualmente, aquilo que se passa dentro da cabeça, ou mente, de alguém. Aquilo que a dissecação do cérebro de um cadáver não poderia explicar por si só. Aquilo que se apresenta no relato, pois necessita dele, poderia se tornar, de fato, ciência?
Wundt diz que as sensações e os sentimentos seriam as duas formas básica de experiência humana, postulando ainda que, para que fossem observadas, seria necessária um exame do estado mental experienciado. O autoexame dos estados mentais era chamado por ele de introspecção.

A sensação seria um resultado da comunicação entre o Sistema Nervoso Central e os órgãos dos sentido [no Sistema Nervoso Periférico]. Ou seja, os impulsos resultantes da estimulação do tato, paladar, olfato, visão ou audição atingem o cérebro e aí se “sente” algo. O sentimento, para Wundt, já estaria ligado ao que se percebe na experiência imediata, ou seja, o prazer e o desprazer; a tensão e o relaxamento, e a excitação e a depressão. Para o filósofo, psicólogo e fisiologista, as emoções poderiam englobar este conjunto de percepções fisiológicas que acompanham a experiência.

Sigmund Freud (1856-1939)

Os séculos XIX e XX pareciam carregar, especialmente na França, Alemanha e Império Austro-Húngaro (futura Áustria, após o término da Primeira Guerra Mundial), um interesse especial dos médicos pela mente humana.

Após sua especialização na área de neurologia, o médico Sigmund Freud não se contenta: se encanta com os Estudos de Charcot sobre a Hipnose e o Inconsciente. Decide investigar mais detalhadamente os resultados da experiência, mas não só aquele oriundo das percepções fisiológicas, como também no comportamento contínuo e nas patologias que a medicina não conseguia explicar com sua biologia observável através do método científico.

Em obras importantes à sua teoria, como Estudos Sobre a Histeria (1893-1895), A Interpretação dos Sonhos (1899-1900), A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Totem e Tabu (1913), O Eu e o Id (1923) e O Mal-Estar na Civilização/Cultura (1930) é possível observar que Freud, aos poucos, em uma crescente de seus conceitos, vai creditando à experiência da mente mais do que meros resultados fisiológicos captados pelos órgãos dos sentidos. As experiências postuladas por Wundt – de prazer e desprazer; tensão e relaxamento e excitação e depressão – eram também vistas por Freud através da relação daquele sujeito com aquilo e aqueles que o cercavam. Melhor dizendo, estas experiências seriam moldadas pelos afetos, os fluxos energéticos que acompanhavam as representações mentais criadas nas relações com os objetos externos à experiência individual. O sujeito seria afetado ao longo de suas relações interpessoais. Sua experiência individual era afetada por aqueles que lhe apresentavam e representavam o mundo (a linguagem). Portanto, a introspecção consciente não bastaria para entender as complexidades da mente – a própria consciência não o faria! Suas emoções apareciam de acordo com sua experiência afetiva histórica (talvez até pré-histórica!), ou seja, experienciaria sua raiva da maneira que aprendeu a fazê-lo a partir da relação com o Outro. E isso não seria diferente em sua alegria, medo, tristeza, nojo, vergonha ou culpa.

Contudo, na obra de Freud, o conceito de Pulsão se tornou o cerne de sua teoria. É altamente recomendado que você o conheça melhor ou o reveja no link a seguir:

O que é Pulsão? Qual é a Diferença entre Pulsão e Instinto?

Ao longo de sua obra, Freud enfatiza que estes processos acontecem em Instâncias Psíquicas diferentes que operam de forma conjunta. Seus nomes evoluem junto com seus estudos, mas, em geral, fixa-se o conceito de que: a consciência não governa os sujeitos, apenas auxilia na conciliação das exigências de seu Real Governador (o Inconsciente) e seus Simbólicos Órgãos de Fiscalização – A Leis, a Moral, as regras de convivência em Sociedade (1900). Freud ainda enfatiza que muitas experiências se perdem à consciência, e que a censura oriunda desta é uma forma de proteção ao desprazer, à tensão e à constante necessidade de excitação sensorial que as proibições sociais podem causar àquele que não consegue realizar e, portanto, satisfazer e obter descarga de excitação aos desejos oriundos do próprio Inconsciente. Tudo isso guiado por forças desconhecidas à consciência. Estas forças iriam além das instintivas, comuns aos animais. Portanto, falamos de forças que excederiam as buscas por sobrevivência e reprodução, mas que moveriam a experiência histórica dos seres humanos.

A questão é que tudo isso só aconteceria na relação do sujeito com o Outro. Na maneira em que o sujeito é afetado, após ser invadido pela linguagem, que o ligaria à sociedade, bem como às leis estruturais que a cercam. Portanto, as emoções e os sentimentos poderiam ser produtos da influência destas relações afetivas nas percepções sensoriais. De maneira mais simples: a maneira com que somos afetados subjetivamente, mentalmente, por algo ou alguém, nos permitirá experienciar no corpo o conjunto de sensações e percepções fisiológicas atreladas por associação e/ou causalidade àquilo. Isso ocorre à medida que nos relacionamos com o quê, quem, ou com representação simbólica daquilo que originalmente nos afetou. E, a partir da gravação mnêmica disso, poderíamos repetir um conjunto de afetos antigos a partir de um novo que é experienciado. Ou seja: se me entristece a morte de meu papagaio, em conjunto, a própria tristeza deste fato em si me fará entristecer mais uma vez pela morte de minha avó, algo ocorrido há dez anos.

Esboçamos um sorriso ao recebermos aquilo que fomos ensinados, através linguagem, como sendo um elogio. E o fazemos porque isso também implica que, da maneira que acreditamos ser que somos, nos tornamos objeto de desejo a alguém. Talvez o destino disso se chame alegria. Talvez alguns poetas relatem de uma maneira que se chame amor. Mas é certo que isso também poderá lembrar uma experiência antiga, como a alegria de saber-se amado pelos cuidadores que se tornaram nossas referência afetivas.

Os Outros Afetos

O psiquiatra francês Jacques Lacan (1901-1981) acata a maioria dos ensinamentos Freudianos e, de maneira que pode até lembrar uma crítica ou ruptura, os tenta complementar com o que traz do Estruturalismo de Ferdinand de Saussure, Claude Lévi-Strauss entre outros renomados autores. Mas aqui são citados os que falam mais sobre a linguagem e o estruturalismo.

Sua frase mais famosa é, sem dúvidas, aquela em que diz que O Inconsciente é Estruturado como uma Linguagem. As polêmicas interpretações possíveis são temporárias. Talvez, o mais aceito para o que se quis dizer aqui, pelo nem sempre simpático franco-psiquiatra, poderia ser que: assim como uma linguagem é estruturada, segundo Saussure (1916), a partir de um signo, significante e significado, o Inconsciente Freudiano, conforme Lacan o entenderia, também teria uma estrutura semelhante a esta em sua formação. E Lacan diria isso ao entender que os sujeitos estariam inseridos, invadidos, amarrados e barrados na sociedade através da linguagem. E as mesmas regras sobre a arbitrariedade do signo de Saussure, nas mesmas regras regentes da linguagem, Lacan viu semelhanças às regras que também poderiam reger o inconsciente de Freud. Por exemplo: os Mecanismos de Defesa de Condensação e Deslocamento, postulados por Freud como comuns aos sonhos, poderiam seguir as mesmas estruturas de figuras de linguagem como a metáfora e a metonímia, no que diria respeito à similaridade e contiguidade dos conteúdos. Sendo assim, A Interiorização das Regras dependeria da Interiorização da Linguagem. E a noção, a nomeação do próprio corpo, também. A linguagem se inscreveria nos corpos através de seus significantes, ou melhor, daqueles que vêm do Outro. Portanto, a linguagem estaria no corpo e na mente de maneira estruturada, sempre (bem ou mal) representada através de significantes ligados metafórica e metonimicamente em cadeia associativa.

A questão é que, segundo Lacan, muitos destes significantes, diferentemente do que é postulado por Saussure, poderiam carecer de significado se os observarmos apenas pela sua lógica conceitual. O significado dos signos, daquilo que está nas formas de representação, para Lacan, estaria nas relações com Outros significantes, em uma cadeia de representações inconscientes quase interminável. E de tudo isso dito, se indaga se os significantes também carregariam afeto. Em seu tom de voz, no volume de sua fala, na ordem escolhida para as palavras ou na velocidade do discurso adotado. Neste caso, os significantes também afetariam os sujeitos.

Como escutamos algo? Como somos afetados por algo? Através do que aquilo representa para nós.

E não seriam as emoções, portanto, resultados, destinos e traduções, daquilo que nosso corpo e nossa mente (ambos em função de uma cadeia de significantes) experienciam a partir dos afetos? Ou, pelo menos, como aprendemos a nomear tais coisas?

Aquela bronca que levei de meu pai quando andava de bicicleta na infância, por, segundo ele, estar indo muito rápido. Aquilo me gerou certa raiva ao momento. Sei que é raiva, uma vez que a linguagem, concedida, incidida em mim por meus semelhantes, me ensinou que este era o nome dado ao meu cerrar de punhos e lábios, do ranger de meus dentes e do calor facial (por conta do aumento do fluxo sanguíneo) que acompanham aquela vontade de praticar violência, aquela agressividade ou hostilidade. Entretanto, por ser uma criança em busca do amor de meus pais, eu que não me permitiria sentir esta vontade de aniquilação por quem tanto fazia e poderia fazer por mim. Portanto, consegui expulsá-la de minha consciência à tempo. Ufa! Mas, trinta anos depois, aconteceu um caso curioso: como que uma pessoa tão calma e serena como eu agrediria, violentamente, um guarda de trânsito num surto incontrolável de cólera? Apenas por este me dar uma multa por excesso de velocidade que pratiquei em minha motocicleta superpotente? Ou será que foi a adoção do mesmo tom de voz que, há muitos anos, fora empregado por meu pai? Será que o infeliz guarda de trânsito recebeu toda aquela raiva guardada por trinta anos, apenas por conta de seu timbre, entonação ou volume de voz? Ou foi também alguma outra relação desta cena com a aquela antiga, da bicicleta, que para a realização de um desejo infantil, se tornou uma moto muito potente? Será que foi a semelhança entre o conteúdo da multa e da bronca? Talvez tenha sido todo o conjunto de afetos associados a uma só emoção: a raiva.

Talvez no caso fictício acima tenhamos uma expressão da presença do afeto na linguagem e nas emoções. E aqui falamos de um em especial que tenha sofrido certa repressão da consciência (e é importante diferenciar esta do recalque, mas talvez em um texto à parte) e, anos mais tarde, através de significantes em cadeia de representação (bronca por andar de bicicleta muito rápido – multa por excesso de velocidade; raiva do pai – raiva da figura da Lei, o guarda; tom de voz do guarda – fonte de mobilização do afeto reprimido ao pai: a partir disso tudo, a percepção fisiológica atrelada à raiva – calor, cerrar de punhos, ranger de dentes – se liga ao ato e desejo anterior de agressividade).

Portanto, através da linguagem, os afetos se ligam às percepções sensoriais e podem provocar respostas fisiológicas aos estímulos externos, objetos externos ou significantes (podendo estes três serem um só). Seria isso então a emoção? Uma resposta fisiológica mobilizada pela apreensão de determinados afetos à certas representações de experiência subjetiva?

Os Três Afetos Sociais

A ligação dos afetos à linguagem parece ser tanta, que, para Lacan, três destes seriam exclusivamente sociais: A vergonha, o nojo e a culpa.

Tal afirmação se faria possível pois, para que estas aconteçam, seria preciso que já tenha havido a Interiorização das Regras. Ou seja, a criança ou o adulto precisam conhecer aquilo que se exige e se proíbe socialmente. É necessário já ter sido apresentado, invadido, barrado, representado e afetado pela Linguagem.

Os bebês não parecem sentir vergonha da percepção que teriam os alheios ao cheiro de suas fezes. Mas, é no mínimo curioso, que alguns adultos sofram até de sérias complicações intestinais porque a mera possibilidade de passar vergonha apenas lhes permite defecar em sua própria casa. Talvez pelo medo do julgamento alheio sobre seus próprios odores. Paralelamente, as crianças, nos primeiros anos de vida, não parecem sentir nojo das próprias fezes. Em certa idade, é até possível vê-las exibindo estas aos adultos, como uma espécie de orgulho; as deixando por aí, quase como presentes de fabricação própria: na sala, no quarto ou em algum lugar da casa de fácil visualização.

Antes da Interiorização das Regras, ou seja, da vivência da Castração, no Complexo de Édipo, na Fase Fálica (3-6 anos) da teoria do desenvolvimento psicossexual freudiano, não se tem vergonha dos próprios órgãos genitais à mostra na praia, na rua ou na reunião de família. O próprio manuseio destes, em forma de obtenção de prazer, às vezes acontece em público até que os adultos ensinem a criança que isso não é aceitável. Em contrapartida, já me foi possível conhecer o relato de mulheres que não conseguiram tirar a roupa em um quarto de motel; de homens que utilizavam objetos como desodorantes, pilhas, controle remoto, etc. para que fizesse volume em sua sunga antes de ir à praia. Suas óbvias motivações eram a vergonha do próprio corpo nu.

A culpa também parece ser ausente na criança que, se não guiada corretamente pelos cuidadores, pode até maltratar, agredir e machucar animais, insetos e até outras crianças – enquanto demonstra o deleite daquele divertimento através de seu sorriso puro e simples. Há ali uma diversão não permitida pelas regras sociais que acompanham a invasão da linguagem.

Portanto, a linguagem também afeta as emoções, principalmente aquelas homônimas a estes afetos supracitados, que são experienciadas através da relação com o Outro. Através do ser visto fazendo; do fazer sendo visto; do se ver fazendo, do ver fazendo e sobre como tudo isso lhe afeta.

O Mais ‘Puro’ dos Afetos

Para Lacan (1901-1981), a angústia seria o mais puro dos afetos. Por ser aquilo que se experiencia logo ao saber, ao estranhar, ao separar a imagem de si próprio daquela do Outro.

Os Outros afetos derivariam da angústia. Seja de deformações desta, seja de formas a fugir dela como ela mesma, como possibilidade. A vergonha poderia ser angústia de saber-se não amado e/ou tal possibilidade? O nojo poderia ser a fuga da angústia que poderia causar a memória de algo que já foi prazer em outros tempos? Ex: a criança que brincava com as próprias fezes não consegue sequer ouvir tal palavra sem sentir um grande incômodo psíquico na vida aduta.

Numa investigação mais detalhada, talvez seja possível até encontrar na essência de uma vergonha, nojo ou culpa, a presença de uma ou algumas fantasias inconscientes. Acredito ser bem possível, a não ser que se considere, na psicanálise, uma mera coincidência a ampla presença da fala “eu sou tímido” no meio artístico. Curiosamente, esta acaba sendo uma fala recorrente no meio que concerne à prática do teatro, talvez a maior exposição do próprio ser ao julgamento alheio – aquilo que os tímidos abominam à todo custo. Como ator amador, não foram raras as vezes que a ouvi de algumas pessoas que, momentos antes, observei, explicitamente, quebrarem muitas “regras sociais” ao palco. Mas aí entraríamos na discussão do que representaria a figura do personagem ao sujeito, coisa para Outro texto.

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"Vamos para casa". A negação é um dos Mecanismos de Defesa do Eu mais primitivos, geralmente o primeiro estágio do luto. Em Deusumanos (19/05 à 03/06 de 2018) o personagem Augusto entra em profundo estado de negação perante a morte de sua filha Ingrid (Vivian Bianchin). Na negação descarta-se, desconsidera-se um dado da realidade quando este é oriundo de um enorme sofrimento ou possibilidade deste. Para Augusto, toda a dor ligada à culpa e à angústia daquele momento foram substituídas por sua dissociação da realidade. Preferiu acreditar que iria levar sua filha para casa, que esta estaria a dormir, já que, inconscientemente, "sabia" que não lhe restavam mais recursos para lidar com aquela perda.

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Considerações Finais

Quando se diz que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, inclui-se a dimensão do afeto, já que a linguagem também traz afeto através de suas entonações, timbres e, principalmente, por quem (o quê) a traz.

O afeto e as emoções, talvez não pudessem ser uma descarga de excitações endógenas dos órgãos perceptivos, exclusivamente, uma vez que eles acompanham muitos significantes em suas apresentações e representações. Se a emoção é o destino do afeto, esta rota entre origem e destino só poderia ser traçada através da linguagem. Por exemplo, a angústia perante possibilidade de não ser amado pelo Outro ao falar palavrões, impede que algumas pessoas os falem ou os escutem sem enrubescer de vergonha ou que os falem de fato. Em casos extremos, a própria escuta ou possibilidade de fala de tais significantes barrados pela linguagem, poderia angariar descargas de angústia através de sintomas como ansiedade, pânico e fobias em geral.

O afeto acontece na relação do sujeito com o Outro. Acontece em como o sujeito, sem querer querendo, se afeta nesta relação. O Outro o afeta com sua linguagem e este, quando a aprende, inevitavelmente carrega as excitações por esta produzida em seu corpo e, principalmente, ao conteúdo psíquico ao qual estas ficaram ligadas (através de representações e/ou significantes). Se aprendo a linguagem com o Outro, aprendo à maneira com que esta me afeta na relação intra e intersubjetiva. Portanto, se a emoção é o destino do afeto, individualmente falando, aprendo com meus pais que sinto raiva enquanto a percebo através da linguagem apresentada por eles. Sendo afetado por eles, através das representações simbólicas associadas através da linguagem, ligo estes afetos que carrego junto à minha definição de raiva às minhas percepções de experiências sensoriais neurobiofisiológicas. Isso tudo, através de uma relação estabelecida na cadeia de significantes que também carregam afeto. É preciso dizer que este processo seria inconsciente?

Estas percepções neuro biofisiológicas me causam calor, aumento do fluxo e pressão sanguíneos, contração dos músculos da face (sobrancelhas franzidas, lábios cerrados, olhos brilhantes), das mãos e de outras áreas do corpo. Entendo que, na relação que tenho com os Outros que me afetam, que minha emoção (raiva) é o resultado da não satisfação imediata daquilo que acredito que me trará prazer; da ausência de alívio de minha tensão, e/ou da descarga de excitação sensorial (ver grifo em A Interpretação dos Sonhos, Freud, S. 1900. cap. 7) que agora só me parece possível através da agressividade. Mas é também importante saber que isso me foi trazido também através da linguagem.

Entretanto, se isso é nomeado e apresentado por aqueles que diariamente me afetaram, de alguma forma mais intensa, em algum período mais crítico de minha formação psíquica, poderá haver certa ligação entre meus atos, aquilo que entendo destes e a percepção disto em meu corpo com desejos, expectativas e valores destas pessoas – geralmente subjetivamente entendidos como próprios. Sendo dado o nome de emoção a esta resposta fisiológica àquilo que me cerca, variando sua excitação sensorial de acordo com o que meu corpo e mente seriam, histórica e pré-históricamente programados. Há uma descarga de excitação biológica, uma experiência de um conjunto de hormônios, sensações e percepções aos órgãos dos sentido e do Sistema Nervoso Central e Periférico, a partir de um conjunto de afetos que um determinado ato pode representar com um significante, objeto externo e/ou estímulo.

Se fui censurado na infância pelo meu pai, e tive que reprimir ou até recalcar a maneira com que fui afetado por isso, talvez com raiva, ódio ou desejo de aniquilação através da força impulsionada por minha agressividade (situação inaceitável à consciência, que obrigaria o sentimento de gratidão ao amor dos pais), alguém que me censurar com uma fechada no trânsito poderia, em seu azar, experimentar toda aquela descarga bio-psico-fisiológica que aquela raiva, agora representada num soco, produziu e reservou décadas atrás. Se isso for verdade, certamente seria por conta desta pessoa da fechada ser responsável, sem saber, por eliciar uma representação afetiva simbólica (significante) linguisticamente associada às respostas e movimentos de meu organismo.

A Emoção se torna condicionada às representações do afeto que a linguagem foi capaz amarrar ao corpo, mas ainda da maneira que o indivíduo a experiencia por conta própria. Mas pra quê serve, então?

É preciso dizer que nos primórdios existenciais do Homo Sapiens, as descargas fisiológicas oriundas das emoções que eram experienciadas poderiam até apresentar um papel relativo à sobrevivência e à reprodução da espécie. Como por exemplo: há uma descarga de adrenalina (frio na barriga), dilatação da pupila (visão mais precisa do mundo externo), aumento da produção de energia (oxigênio – coração disparado ao extremo) para que se corra ou se lute perante uma ameaça à vida. Mas, nos dias de hoje, esta experiência é descrita perfeitamente por aqueles encaminhados ao psicólogo ou psicanalista pelo cardiologista, que visitaram com um ataque agudo de ansiedade, geralmente confundido com um infarto agudo do miocárdio.

Curiosamente, isso acontece fora da floresta. Bem distante mesmo. Geralmente em situações que não oferecem risco algum á vida, como por exemplo: sentados no confortável sofá da própria casa.

Para Não Dizer que Não Falei dos Sentimentos

Os sentimentos, por último, poderiam ser aqueles afetos e emoções que estão unidos através do laço social. A tradução social dos afetos. Através da linguagem compartilhada. Os sentimentos poderiam ser os afetos que chegaram ao coletivo, já que a maioria é sentida de maneira tão pessoal e única que parece não haver compreensão daquilo por alguém que não seja o sujeito ele próprio.

Os escritores e poetas e músicos são aclamados porque conseguem transformar os afetos vivenciados em sentimentos, pois foram, através da linguagem, traduzidos do individual para o coletivo. Isto é, através do que eles escrevem é possível ao leitor ler e escutar os próprios afetos. Encontrar representação. Estes seriam dificilmente verbalizados durante a própria experiência, mas agora estão perfeitamente localizados, representados nos significantes escolhidos por aqueles que souberam unir sua experiência idiossincrática à coletiva. Algo possível apenas àqueles dotados de uma avançada percepção da linguagem, perante aquilo que os afeta.

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(Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso seja o proprietário de uma delas, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente)

REFERÊNCIAS – *Também considerar as bibliografias citadas apresentadas ao longo do texto (Por ordem livre).

Afeto, emoção e sentimento na psicanálise | Christian Dunker | Falando nIsso 146

Paiva, Maria Lucia de Souza Campos. (2011). Recalque e repressão: uma discussão teórica ilustrada por um filme. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 2(2), 229-241. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-64072011000200007&lng=pt&tlng=pt.

Quingley, K. S.; Lindquist, K. A. & Barret, L. F. (2004). Inducing and Measuring Emotion and Affect. In Handbook of Research Methods in Social and Personality Psychology. Ed(s) Reis, H.T.; Judd, C.M. Cambridge University Press. p. 220-252

Pinheiro, Elaine, & Herzog, Regina. (2017). Psicanálise e neurociências: visões antagônicas ou compatíveis?. Tempo psicanalitico, 49(1), 37-61. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382017000100003&lng=pt&tlng=pt.

Ravanello, Tiago, Dunker, Christian Ingo Lenz, & Beividas, Waldir. (2018). Para uma Concepção Discursiva dos Afetos: Lacan e a Semiótica Tensiva. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(1), 172-185. https://dx.doi.org/10.1590/1982-37030004312016

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

Contra o relógio

Da miragem da vida perfeita aos 30 anos

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(Imagem retirada da Internet)

Um dia desses presenciei uma cena muito comum no metrô de São Paulo, mas que me fez refletir. Um desses músicos andarilhos tocava canções populares em seu violino. Tocava de forma excepcional, pelo menos aos ouvidos de um estranho à técnica musical como eu.

Tocou algumas músicas, foi aplaudido por uns, agraciado com dinheiro por outros e ignorado pela maioria. Sentada ao meu lado estava uma garota. Percebi no final da apresentação, que ela filmava-o com seu smartphone. Instantes depois o vídeo já estava sendo publicado no Instagram. Vi a “globalização” na minha frente.

Pensei então nesse momento que estamos vivendo, no que diz respeito à velocidade das coisas.

Mensagens instantâneas

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(Imagem retirada da Internet)

Uma das coisas que mais me fascina nesse mundo moderno, é a velocidade com que as informações chegam à nós. Parece haver um achatamento do tempo entre elaborar as coisas e agir em função delas. Explico.

Somos bombardeados com data (como dizem os americanos) todo o tempo, sempre checando o celular, estamos sempre “ligados”. O que é justamente incentivado por algumas companhias. Há quem considere justa a proposta de pagar horas extras quando o funcionário envia mensagens acerca do trabalho, fora do expediente.

Não há tempo para elaborar a resposta quando alguém nos envia um Whatsapp. A resposta deve ser instantânea, como em um contrato assinado, com a obrigatoriedade de responder instantaneamente.

A propagação de notícias em redes sociais sem nenhuma base ou confirmação para tal acontece a todo o momento, e as disputas pela razão em mídias sociais emerge. “A fúria costuma ser inversamente proporcional à informação”, como diz Reinaldo Azevedo.

Carreiras Perfeitas

O mundo corporativo é um ambiente hostil, ou pelo menos é assim falado. Metas e a responsabilização do funcionário são aspectos modernos.

Compramos a ideia de carreira muito rápida. Fascinam-me alguns escritos online que definem marcos à serem atingidos na carreira. “Tantos mil na conta bancária até os 30 anos” e outras bestialidades circulam na rede.

A gestão do trabalho através da noção de projetos coloca o funcionário em uma posição de responsabilidade absoluta pela entrega do resultado final, algo do tipo: “Não deu certo? Por que não fez mais horas extras?”. Estar online a todo tempo é comum. Atender ao outro a todo pedido. O sujeito sente não ter gerência sobre sua própria vida.

Um dos marcos da pós-modernidade é a Síndrome de Burnout, transtorno do momento entre os executivos (vide https://www.theguardian.com/society/2018/feb/21/how-burnout-became-a-sinister-and-insidious-epidemic). Junto com a depressão, o Burnout parece se proliferar à velocidade assustadora na população.

O mercado de trabalho é a personificação do grande Outro. A ele tudo é permitido e legisla sobre a capacidade de cada um com base nos demais. Como se ouve muitas pessoas falarem: “Cuidado para não ficar muito velho, assim o mercado de trabalho não vai te querer”.

E chegamos, então, ao título do texto.

Correndo contra o relógio. Metáfora que é comumente usada pela gente dita “ocupada”. Sempre correndo, como se diz em Recife, “de um canto pra outro”.

Sempre um contrato antes da meta, uma venda que falta para atingir algo que irá dobrar tão logo ficar atingível.

A medicalização parece estar alinhada à noção de resposta rápida. É uma busca incessante por um diagnóstico e um remédio. Fato frequentemente por quem se destina à prática clínica, é o paciente questionar: O que tenho? …ou, O que devo tomar?

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(Imagem retirada da Internet)

Lacan formulou uma noção que chamou de semblante, algo como uma máscara que adotamos em diversas relações. O analista, no início de um tratamento encarna o ideal de alguém que tem a resposta para os problemas e dúvidas daquele que o procura. Em termos técnicos dizemos que o analista carrega o objeto a no bolso (tirada de psicanalista).

Quando um psicanalista acredita de verdade que tem as respostas para tudo que lhe é demandado ocorre a saída do lugar vazio, à qual o analista, por excelência, se destina em uma análise.

O perigo está em não se descolar das mentiras contadas à nós.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências Bibliográficas

Forbes, J. (2010) Você quer o que deseja? Rio de Janeiro: BestSeller.

 

Outros links recomendados:

https://www.corriere.it/salute/neuroscienze/18_marzo_16/trentenni-salute-stress-ansia-depressione-6a3ad27c-2921-11e8-b8d8-0332a0f60590.shtml

http://www.stile.it/2017/02/11/linsonnia-danneggia-la-carriera-lo-studio-id-139704/

Criminalidade, Desigualdade Social e o Mal-Estar na Civilização

É famosa a frase que diz: o crime não compensa. Mas será que a vida em Civilização o faz? Em um de seus últimos trabalhos, Freud (1856-1939) tenta, com o conhecimento que acumulou durante toda a sua vida de neurologista e psicanalista, entender como ocorreu a formação da cultura. E mais: como esta se assemelha e se difere da formação psíquica dos indivíduos que a formam. Entretanto, no atual conjunto de culturas do mundo globalizado, o Brasil é conhecido por traços que cruzam corrupção, futebol, nudez, praias e festas e, mais recentemente, pela alarmante desigualdade de renda e o alto índice de crimes contra o patrimônio. Poderíamos entender estes fenômenos como parte de uma cultura madura ou como sintomas de uma cultura? Mais ainda: quais seriam os sintomas que esta cultura causaria em nossos indivíduos? É o que o artigo a seguir tentará expor em conjunto com uma leve revisada na obra de Sigmund Freud publicada em 1930. Afinal: furtar tornou-se frutífero? No Brasil o Crime compensa o Castigo?

Um estudo conduzido em 2011 por João Paulo de Resende, mestre em economia pela UFMG e por Mônica Viegas Andrade, doutora em economia pela FGV, teve como alvo os crimes cometidos em municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes. Sua conclusão final, baseada exclusivamente em dados empíricos, foi que: os níveis de desigualdade de renda (poucas pessoas ricas, muitas pessoas pobres) nestes municípios estavam frequentemente relacionados aos níveis de ocorrência de crimes contra o patrimônio (furtos, roubos, latrocínios) e pouco aos crimes passionais, onde o indivíduo, quando exposto a alguma situação que o leva a intenso estresse emocional, apresenta um lapso na inibição de seus impulsos e comete um crime – geralmente contra quem o propicia tal estresse.

Esta conclusão empírica nos faz crer, a princípio, que quanto maior o patrimônio de poucos, mais indivíduos (geralmente os de pouco patrimônio), cometerão crimes que têm o patrimônio em si como alvo. Como se nesta relação empírica houvesse uma reivindicação inconsciente da maior recompensa que a civilização capitalista moderna oferece ao indivíduo: a satisfação através dos materiais de consumo. É importante, é claro, ressaltar que quando esta satisfação é buscada através do crime, ela dispensa uma das grandes engrenagens de uma sociedade: o trabalho – e, principalmente, as renúncias de prazer que este envolve. Será que quando falamos dos crimes relacionados ao patrimônio, poderíamos também dizer que, no caso do furto, também o indivíduo furta-se dos sacrifícios às satisfações? Sacrifícios estes que são tão exigidos pelo trabalho. E no roubo, também não rouba-se o prazer, a satisfação que ostenta o Outro, de maneira considerada injusta por um que não a alcança, por mais prometida que esta lhe seja, perante suas renúncias?

 

Desigualdade de Renda no Brasil

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Uma pesquisa recente, realizada pelo economista Thomas Piketty e um conceituadíssimo grupo de pesquisadores em seu apoio, aponta que, no Brasil, quase 30% da renda do país se encontra com apenas 1% da população. E, para complementar, 10% da população mais rica do país também carrega 55% de toda a renda local. A óbvia lógica disso tudo? Mais pessoas dividem menos dinheiro enquanto menos pessoas dividem mais dinheiro.

Isso até poderia ser menos incômodo se, proporcionalmente, todos pagassem taxas de impostos equivalentes ao que ganham. Entretanto, além da progressiva taxa dos impostos de renda, o Brasil traz uma tributação nos bens de consumo – a principal fonte de satisfação insinuada pela nossa atual sociedade – de cerca de 40% do valor. Ou seja, um produto de 100 reais, custa cerca de 40 reais em impostos. Acontece que, quando o salário mínimo do país é um pouco menos de 1000 reais, estes 40 reais se tornam um pouco mais de 4% de todos os ganhos de uma pessoa que recebe um salário mínimo, atualmente considerada como pobre (sem contar o valor que esta pessoa já paga de imposto de renda, cerca de 8%). Mas, ao mesmo tempo, se uma pessoa que recebe um salário que gira em torno de 100.000 reais compra o mesmo produto de 100 reais, se aqui não falhar a matemática de alguém das ciências humanas, esta pessoa gastará apenas 0,1% de seu salário. Ou seja, em termos de proporção do patrimônio, os mais pobres acabam cedendo mais de seu patrimônio em impostos do que os mais ricos. E isso se amplifica mais ainda se falarmos sobre Lucros e Dividendos de empresas (que em alguns casos excede a casa dos milhões), onde praticamente não há imposto cobrado.

Ou seja, mesmo que as pessoas mais pobres sacrifiquem seus impulsos pelo sono, pela farra, pelo sexo e pela agressividade pelo bem da sociedade, estas não serão tão bem recompensadas pelos sacrifícios quanto as pessoas mais ricas. É como teria dito o filósofo Zizek: “há alguém furtando o nosso gozo”. Será que, na suspeita do furto de um gozo, furta-se a metáfora para o retorno literal da palavra? Ou seja: a suspeita do furto (metafórico) do gozo ocasionaria o gozo do furto (literal)?

O Mal-Estar na Civilização

Já no ano de 1930, Sigmund Freud (1856-1939) publica uma de suas obras mais importantes, denominada “O Mal-Estar na Civilização” (“O Mal-Estar na Cultura” em algumas traduções). Arriscando o perigo de sintetizar demais, poderia-se dizer que ali Freud (2011) tentava explicar – através da relação de muitas de suas obras anteriormente produzidas, de poemas e romances de Schiller e Goethe, de apontamentos realizados por Rousseau e outros filósofos ou até criticando a tese do comunismo trazida por Karl Marx  – sua tese de que as exigências de uma cultura (ou de uma civilização), estariam – sem exceção – em desacordo com os impulsos agressivos e/ou destrutivos e sexuais dos indivíduos que a ela pertencem. E, a partir daí, os indivíduos deveriam procurar outras formas de felicidade, seja para o encontro ou prazer ou para o evitar do desprazer. Alguns se isolam, alguns usam drogas lícitas ou ilícitas, alguns amam; alguns trabalham, alguns fazem amigos, alguns adoecem e/ou ficam loucos; alguns fazem bem ao próximo, outros simplesmente infringem as regras e aceitam as punições (ou fogem delas enquanto é possível). Há ainda os que fazem isso tudo ao mesmo tempo enquanto acreditam fazer parte de uma casta, considerada por eles mesmos como boa da sociedade – aqui falamos dos cristãos, mas, sejamos justos: nem todos e nem só estes.

E Freud (2011) continua, dizendo que pode-se até encontrar relação àquilo que frequentemente está inconsciente na neurose mas explícito nos preceitos estabelecidos em uma civilização através de suas Leis e regras – a necessidade de inibição de impulsos agressivos e sexuais que, apesar de causarem satisfação imediata nos indivíduos, estão em desacordo com o considerado necessário para o bom convívio em sociedade. O resultado esperado, segundo o psicanalista (2011), era que a cultura ou civilização, juntamente com o indivíduo, deveriam criar, através da evolução de um sentimento de culpa, uma eficiente instância de censura a estes impulsos – um Supereu. Ou seja, a cultura oferece repressão, através da retirada do Direito à Liberdade (prisão), caso o indivíduo exponha seus impulsos agressivos através de um crime e transgrida as Leis, da mesma forma que a criança perderia o amor dos pais se fizesse o mesmo, ou pior, expusesse sua sexualidade e agressividade inata, fora do que é aceito aos pais daquela época, através da Castração, no Complexo de Édipo.

Mas conforme Freud (2011) explica, o papel do Supereu excederia o medo à repressão através da perda da liberdade ou do amor dos pais, o Supereu teria um papel Superior de censura. Do tipo que forçaria os indivíduos a algo além de renunciar às satisfações que mais acreditam que lhes daria prazer por medo das represálias: o próprio desejo de realizar tais satisfações já causaria culpa e às vezes até autoagressão, não sendo o ato necessário. Como se o processo fosse automático, introjetado e mantido pelos indivíduos. Entretanto, é ressaltado pelo Pai da Psicanálise (2011) que, mesmo que nem tudo seja satisfeito, para que haja algum tipo de organização psíquica no indivíduo saudável, ele precisará direcionar estes impulsos proibidos às formas de expressão aceitas pela sociedade, em sua busca pela sua satisfação. Ou seja, uma criança muito agressiva, por não poder manter este comportamento na vida adulta, em função das Leis da Sociedade, poderá se tornar um adulto lutador de artes marciais – e há de se observar que, paradoxalmente, estes indivíduos costumam ser pessoas calmas e pacíficas, uma vez que conseguem expor seus impulsos agressivos através de suas atividades. Da mesma forma, supõe-se na sociedade que aquele que abdicar do prazer imediato e se dedicar ao trabalho e não cometer crimes, poderá ter dinheiro para consumir os produtos que lhe trarão satisfação – carros, motos, celulares, aparelhos eletrônicos e roupas em geral. Mas o que acontece quando esta abdicação não é recompensada e, ainda por cima, é exibida em Outros que parecem realizá-la em menor ou nula medida?

Se arriscarmos um palpite no que foi dito por Freud (2011), poderíamos dizer que enquanto um sintoma do indivíduo por renunciar os desejos que vê causar prazer no Outro é a neurose, um sintoma da cultura que faz indivíduos renunciarem seus desejos e não lhes dá a satisfação (no caso da cultura capitalista, o consumo) é a criminalidade. E podemos ir adiante dizendo que, assim como o sintoma é a maneira negativa da realização do desejos em paralelo à sublimação como maneira positiva; a criminalidade apareceu como uma maneira negativa desta realização e, além do trabalho, que nem sempre ou quase nunca a cumpre, um novo fenômeno parece encurtar este caminho.

E a tese inicial do neurologista, aquela em que ele diz que haverá sempre uma divergência entre o exigido pela cultura e o que é desejado pelo indivíduo (2011), parece fazer muito mais sentido quando falamos sobre o sentimento de injustiça, sentido através da desigualdade de renda, e o que os Estudos Econômicos de Resende e Andrade (2011) publicaram sobre a relação desta desigualdade com o aumento dos crimes contra o patrimônio. Como se a desigualdade de renda corroborasse uma prévia recusa, através da criminalidade, à renúncia dos indivíduos aos impulsos, mas não ao gozo que é atribuído ao suposto prêmio por tal renúncia.

Conclusão

Poderíamos então dizer que a formação de uma civilização terá como base um mecanismo semelhante à formação psíquica de um indivíduo: para que tudo dê certo, renúncias serão necessárias. Mas supõe-se, erroneamente, que todos os indivíduos partem de uma mesma constituição psíquica na hora de criar-se uma Constituição Federal. Ou seja, esqueceram que haverá um conjunto de indivíduos que não estão dispostos a abrir mão de suas satisfações pelo bem-estar de sua cultura – a partir daí, viu-se necessário a criação de um sistema prisional. Mas, entrelinhas, parece haver a insinuação, por parte da sociedade, que está garantido a quem cumprir com suas renúncias e horas de trabalho, o gozo através do consumo. Contudo, a desigualdade de renda de um país parece acabar desmentindo esta suposição.

Quando o Brasil é tomado como exemplo, vê-se que uma pequena parte da população detém uma enorme parte das riquezas, ou seja, do gozo através do consumo. Em outras palavras, pesquisas recentes sobre a desigualdade de renda apontam, de cara, que alguém irá obter mais satisfação; poucos gozarão mais do que muitos. Isso quer dizer que já está pressuposto a muitos que optarem pelo sacrifício de seus prazeres imediatos a ausência daquela prometida satisfação. Eis a dúvida de quem é pobre por aqui: “a renúncia de minha satisfação, sob o único risco de sofrer a privação da liberdade por algum tempo, vale mais a pena? Por quanto tempo conseguirei assistir ao gozo do Outro com menos sacrifícios do que eu?”.

A pesquisa evidenciada no começo do artigo parece, de alguma forma, apontar que há na Sociedade Brasileira, ao menos nas cidades com mais de 100 mil habitantes, uma constante reivindicação pelo gozo através do patrimônio. Através de uma vasta pequisa de dados empíricos, viu-se que quanto mais patrimônio é reservado à pequenas parcelas da população, mais crimes contra o patrimônio são registrados em uma sociedade. É como se as Massas informassem, de forma violenta e irracional, que recusam o sacrifício desproporcional ao gozo do Outro. Como se a criminalidade fosse o ato de ignorar a placa que diz “não pise na grama”, enquanto o gozo através do patrimônio fosse o ato de chegar ao lado oposto; mas parece que lá já se encontra alguém, separado pela mesma grama, que não precisou dar a cansativa volta que indica aquele caminho preestabelecido. Portanto, parece que, quando se deparam com este outro alguém em pleno gozo com menor sacrifício, mais pessoas optam por pisar na grama e, não obstante, tentam expulsar o Outro do lugar que agora acreditam terem chegado.

Se há mais dinheiro para se dividir com menos gente e, consequentemente, menos sacrifícios para esta pequena parcela, a outra parcela, aquela que dividirá menos dinheiro com mais pessoas, terá mais sacrifícios a fazer. Mas a pesquisa de Resende e Andrade (2011) indica que, nestas situações, parece haver uma recusa às Leis na mesma medida. Uma recusa aos sacrifícios e uma tomada violenta e simbólica do prazer que enxergou o Outro satisfazendo: nega-se o esforço do trabalho exaustivo por pouco dinheiro e acata-se a tomada do patrimônio através do crime. Apesar desta ser uma informação de teor óbvio, é importante ressaltar que este artigo não está legitimando crime algum, muito pelo contrário, as relações entre os meios empregados pelos neuróticos para fugir das restrições da cultura (álcool, amor, isolamento, construções, consumo e trabalho), podem encontrar também, para uma parcela da população, refúgio no crime, quando ele passa a acontecer em proporções tão frequentes que chega a compensar.

O sujeito tem sua constituição psíquica formada da mesma forma que a cultura tem sua Constituição Federal. E assim como o neurótico, que quando finalmente aceita a abdicação da satisfação de seus impulsos agressivos e/ou sexuais em nome das exigências da cultura, sofre com o sintoma da neurose como forma de punição e realização à renúncia destes desejos inconscientes que não foram compensados através da sublimação; a Cultura também poderá sofrer a punição da elevação da criminalidade, crescente à medida em que as pequenas gratificações (o consumo, o gozo de bens materiais) não vêm de encontro, de maneira igualitária, aos sacrifício dos neuróticos que nela vivem mas continuam sendo seu objeto de desejo pregado como ideal dela mesma.

Isso não quer dizer que a ideia comunista seja a solução. O próprio Freud, neste mesmo texto (2011), já refuta esta ideia, dizendo que há no ser humano o impulso à agressividade para com o Outro que excederá sua realização apenas através da propriedade privada; portanto, não será o fim desta o sinônimo do fim da violência. Também sabemos que anos mais tarde, através dos resultados da implantação do sistema econômico transicional do socialismo em vários países do mundo, com o comunismo como finitude, pudemos observar que a suposição de que todos os indivíduos poderiam partilhar de uma renda comum, de um estilo de vida igualitário, acabaria no campo utópico. Confirmando as previsões de Freud, o socialismo acabou mais sendo utilizado como transição a algum Outro tipo de ditadura do que ao comunismo em si.

Mas, para finalizar, algo há de ser dito: seja no capitalismo, socialismo ou comunismo, o ser humano parece não ficar livre de seus impulsos mais primitivos de agressividade e sexualidade, principalmente quando estes se mostram de maneira incessante, como é o caso das Pulsões. E por mais que a cultura exista exclusivamente para conter estes impulsos e permitir uma vida pacífica entre os indivíduos inibidos entre si, ela precisará, de alguma forma, compensar a renúncia de todos estes de maneira satisfatória através de suas possibilidades de sublimação oferecidas. De outro modo, haverá aquilo que a história e agora as estatísticas nos apontam: violência. Roubo (como é o caso explicitado aqui no artigo), homicídio ou suicídio; tomada do Poder, aniquilação do Outro ou aniquilação de si. Para a cultura não importa, o que prejudica um ou outro indivíduo, a prejudica, de um modo ou de Outro, como um todo. Porque se a neurose é um sintoma do indivíduo, a criminalidade é um sintoma da cultura.

Referências

Crime social, castigo social: desigualdade de renda e taxas de criminalidade nos grandes municípios brasileiros – João Paulo de Resende; Mônica Viegas Andrade. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-41612011000100007

Brazil – WID – World Inequality Database (Top 1% fiscal income share, Brazil, 2001-2015 and Top 10% fiscal income share, Brazil, 2001-2015) – Thomas Piketty and group. http://wid.world/country/brazil/

Freud, Sigmund, 1856-1939. O mal-estar na civilização/ Sigmund Freud ; tradução Paulo César de Souza. – 1ª ed. – Sâo Paulo : Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

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Esquizofrenia e Genialidade: John Nash – O Equilíbrio entre Uma Mente Brilhante e Doente.

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A Psicologia Atrás da (o) Matemática (o)

Talvez, nos dias de hoje, seja mais fácil reconhecer um gênio por sua excentricidade, estranheza ou solidão do que por seu conhecimento. Estranhos e rejeitados à sociedade comum, eles são poucos de nós – e não se misturam!Há quem diga que Isaac Newton sofria da Síndrome de Asperger, enquanto outros dizem que este teve um colapso psicótico aos seus 51 anos, que encerraria sua carreira; há também uma forte hipótese de que Nikola Tesla era portador do Transtorno Obsessivo-Compulsivo. É intrigante pensar sobre o demasiado número de gênios que foram enquadrados em patologias. Não há um consenso entre as relações dos Transtornos Mentais com a genialidade, mas há, acima de tudo, um consenso de que tais personalidades sempre aparecem de tempos em tempos para uma revolução na nossa realidade.

Tivemos gênios em diversas áreas. Mas se formos escolher os da matemática como exemplo: Copérnico, Pitágoras e Bhaskara possivelmente seriam outros gênios com perfis que chamariam a atenção (negativamente, é preciso dizer) da sociedade em que estavam. Porque, por coincidência ou não, citando quem escreveu a biografia do gênio que escolhemos, a jornalista Sylvia Nasar nos diz que “A falta de traquejo social era considerada parte de um autêntico matemático”. Nasar é a autora de “Uma Mente Brilhante”, livro que deu origem ao filme homônimo, ganhador de 4 Óscars, sobre a vida de John Nash, um gênio matemático que revolucionou os estudos sobre Economia. Sobre o que disse Nasar, um aluno de graduação em Princeton corrobora sua afirmação, dizendo que:

“[…] ser excêntrico e ser bom em matemática eram duas coisas que combinavam. Pensávamos em nós mesmos como se tirássemos vantagem do fato de sermos inteligentes por ignorarmos as convenções que nos desagradavam. Transformamo-nos um pouco em personalidades excêntricas”.

Mas e quando um matemático se torna excêntrico e estranho demais aos próprios matemáticos? Seria um sinal de genialidade ou de alerta? Felizmente, não iremos falar de matemáticos em sua aleatoriedade, o nosso assunto – e o de uma boa parte da comunidade científica do Século XX – é John Nash. O estudante de engenharia química que migrou para a matemática. E transitando entre ela, a economia, geometria e até à criação de jogos populares como o Hex, John Nash recebeu seu mestrado junto com sua graduação – um pouco antes de receber seu título de doutor (PhD – Philosophiae Doctor) pela Universidade de Princeton, aos seus 21 anos de idade. Tal título foi concedido por sua brilhante contribuição para a The Theory of Games and Economic Behavior de John von Neumann e Oskar Morgenstern. Dentro das pesquisas matemáticas feita por Nash na Teoria dos Jogos, uma das mais famosas é popularmente conhecida como O Equilíbrio de Nash. Acredite, estamos falando de um dos mais brilhantes matemáticos da História.

Entretanto, John Nash, o matemático brilhante que foi vencedor do prêmio Nobel de economia do ano de 1994, em função de sua brilhante tese de doutorado, foi acometido pela expansão de sua Mente Brilhante. Aos 31 anos, com seu filho prestes a nascer e um pouco depois da morte de seu pai, o mesmo cérebro que antes era invejado por muitos, foi tomado por delírios e alucinações tão potentes, intensos e verdadeiros que se comparavam até com seus geniais insights matemáticos. O gênio, agora era o louco. Mas este texto foi escrito para mostrar que sua história é maior do que isso. Boa leitura.

Infância e Adolescência

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Há um constante hábito, que antigamente era mais atribuído aos psicólogos e aos psicanalistas, de as pessoas em geral associarem uma doença mental a algum tipo de trauma ocorrido na infância. Suposições sobre um ambiente permeado pela violência doméstica, abandono, negligência, abuso de substâncias e até sobre abuso sexual, não são incomuns quando tocamos no assunto das psicopatologias. Tais hipóteses, com toda a certeza, não se aplicam à vida de John Forbes Nash Jr.

Nascido em Bluefield, West Virginia, Johnny, como era conhecido em casa, teve uma infância como a de qualquer outra criança, exceto pelas suas excentricidades.
Quando não estava em casa lendo livros e enciclopédias sobre eletricidade, geologia, clima e astronomia, o pequeno Johnny – que escolheria sempre os livros às brincadeiras com outras crianças – realizava perguntas sobre tais assuntos no banco de trás do carro de seu pai, John Forbes Nash, um engenheiro que trabalhava viajando pelo estado a inspecionar torres de transmissão da companhia para a qual ele trabalhava. Tais perguntas eram sempre respondidas, uma vez que o Sr. John sempre tratou seus filhos (Johnny e Martha) como adultos, dando a Johnny livros de ciência no lugar dos de colorir.

A pessoa mais preocupada com o comportamento “muito dedicado aos livros e ligeiramente esquisito” de Johnny, era sua mãe Margaret Virginia Martin (futuramente Nash), uma ex-professora que já havia estudado inglês, francês, alemão e latim.
Apesar das muitas tentativas de incentivar sua socialização através de matrículas em diversos cursos, Virginia foi aceitando aos poucos que Johnny seria naturalmente “especial, solitário e introvertido”. Se por um lado o garoto já realizava experimentos científicos de diversos tipos aos 12 anos, por outro, tinha baixo rendimento escolar e uma desastrosa vida social. Nash tinha mais interesse em estudar seus livros do que seguir o desinteressante currículo escolar, ou pior: fazer amigos.

Universidade de Princeton

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Nash fez muita coisa em Princeton. Não era incomum, em certa época, vê-lo assobiando músicas de Bach pelos corredores. Seu olhar – não tão diferente de sua personalidade – costumava ser o de alguém arrogante e desinteressado às outras pessoas. Mas há também quem tenha visto a terrível cena de nosso gênio com os punhos fortemente cerrados, bater repetidamente sua cabeça em uma das paredes do refeitório, enquanto sua angústia transbordava fortemente pelas suas contraídas expressões faciais.

No Fine Hall, o mais famoso corredor do Instituto de Estudos Avançados da Escola de Gênios, John Nash, que defendia que as pessoas não lessem tanto, uma vez que “aprender muito em segunda mão asfixiaria a criatividade e a originalidade.”, chegou, pessoalmente, a questionar gênios nada anônimos como John von Neumann e Albert Einstein.

Seu hobbie era pensar. Mas seu pensamento era diferente. Não buscava recordar fórmulas ou teoremas, Nash buscava insights. E tinha insights únicos. Segundo outros filhos de Princeton, era comum ver Nash assobiando “A pequena fuga” de Bach enquanto parecia pensar. Ou então sentado, deitado ou em pé em algum lugar. Sempre visivelmente mergulhado em seus pensamentos. Simplesmente pensando. Arthur Mattuck, um matemático nascido em 13 de Junho de 1930, exatamente 2 anos após o nascimento do também geminiano John Nash, fazia seu doutorado em Princeton àquela mesma época. Ele já chegou a afirmar, em 1995, sobre o:

“[…] poder de concentração demorada de Nash. Este conseguia ficar pensando num problema durante seis meses.”

Em função de sua genialidade, a passagem de Nash pelo Instituto de Estudos Avançados de Princeton foi rápida, começando no segundo semestre de 1949 e encerrando-se em maio de 1950 com a tese de doutorado chamada “Jogos Não-Cooperativos”, onde apresenta o famoso Equilíbrio de Nash.

A Teoria dos Jogos e o Equilíbrio de Nash

A Teoria dos Jogos passou a ser mais amplamente estudada na matemática e na economia após a publicação do livro Teoria dos Jogos e do Comportamento Econômico (1944). O livro do matemático John Von Neumann e do economista Oskar Morgenstern, procurava também teorizar uma solução para os principais problemas econômicos, mostrando que mesmo a economia sendo uma ciência não-exata, era possível estabelecer uma contingência de suas variáveis. A obra compara o comportamento humano na economia com o comportamento humano nos jogos em geral, evidenciando os conflitos de estratégia entre os participantes – “Será que se eu renunciar minha sede por vencer sozinho e me unir com um de meus adversários, eu poderia ganhar de todos os outros?” – e seus possíveis resultados, que, acreditava Neumann, poderiam ser favoráveis se os jogadores cooperassem entre si, fazendo coalizões. Um exemplo disso, seria quando duas empresas resolvem realizar uma fusão, pois assim derrubariam uma terceira concorrente e dominariam tal mercado, os famosos oligopólios.

A lacuna deixada, entretanto, foi nos jogos de soma zero (aqueles em que para um ganhar, o outro necessariamente deve perder) com mais de dois jogadores, onde havia a necessidade de uma teoria, cuja sua principal função seria analisar os resultados de decisões racionais, tomadas por agentes envolvidos em situações que demandem uma jogada específica na hora certa – leilões, jogos de cartas ou tabuleiro, guerras e até investimentos econômicos na Bolsa de Valores. Deve-se então, analisar as melhores estratégias disponíveis para que se leve vantagem sobre seus adversários e/ou concorrentes. Entretanto, neste caso não seria possível a comunicação com outros jogadores para que formassem coalizões. Portanto, estes seriam os chamados “jogos não-cooperativos”. Na sábia síntese de Sylvia Nasar, existia a tentativa de criar “[…] uma teoria sistemática do comportamento humano racional, enfocando os jogos como cenários adequados para o exercício da racionalidade humana”.

O Dilema dos Prisioneiros

Vamos supor que você, caro leitor (a), é pego pela polícia e é acusado de dois crimes. Há provas suficientes para que você seja condenado pelo primeiro crime, mas não há provas para que sequer te prendam pelo segundo. Entretanto, você tinha um cúmplice que também foi pego e vocês serão interrogados em salas separadas. Ambos já ficarão seis meses presos. Mas há um porém: vão oferecer a você e a seu cúmplice a chance de liberdade perante a confissão do segundo crime – o que acarretará 10 anos de pena ao comparsa, já que isso seria um testemunho contra ele, uma traição. Entretanto, há o risco de ambos confessarem o crime. Acontecendo isso, haverá um testemunho de cada, corroborado pelo do outro. Exclui-se, portanto, a necessidade de mais provas. Isso acarretaria 5 anos de prisão para cada um. Denominamos tal situação como um exemplo de Jogo Não-Cooperativo, onde “eu penso que ele pensa que eu penso” enquanto “ele pensa que eu penso que ele pensa”.

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Já que não se pode combinar com o outro a melhor estratégia através de uma coalização, deve-se então, pensar no conjunto das melhores estratégias que seu “oponente” poderá utilizar. Assim, deve existir alguma forma de a aplicação de sua melhor estratégia encontrar um ponto de equilíbrio, ou seja, um ponto em que ambos ganhem o máximo e percam o mínimo, perante a aplicação da estratégia adversária. Nash, em sua genial tese de doutorado, consegue estabelecer um cálculo, digno de um Nobel, apontando que em todo conjunto de estratégias, haverá um Equilíbrio de Nash.

No caso dos prisioneiros, então, o Equilíbrio de Nash ocorrerá com a confissão, uma vez que ela lhe trará o melhor benefício. Se o seu cúmplice for fiel e não confessar o crime, você ficará em liberdade e ele cumprirá dez anos. E se ele te trair como você o fez, ambos cumprirão 5 anos. Chega-se nesta conclusão porque supõe-se que o outro agente pensará em seu próprio e máximo benefício da mesma forma.
No filme Batman, O Cavaleiro das Trevas, temos um exemplo embasado nesta mesma teoria:

O Experimento Social do Coringa

Ambos os navios serão detonados à meia-noite. Porém, cada navio possui um detonador que explode o outro e ambos não podem se comunicar entre si. Tudo que se sabe a respeito das possibilidades de escolha do outro é: em um dos navios temos criminosos condenados, portanto, pessoas que supostamente já fizeram mal para outras; no outro, temos civis inocentes, que em função do pensamento contido na afirmação anterior, poderiam enxergar os criminosos como pessoas inescrupulosas o suficiente para lhes explodir sem pensar duas vezes. Logo, em ambos os casos, há a chance de que os passageiros de um dos navios escolham detonar o outro navio, exatamente por acreditarem que os passageiros do outro navio fariam exatamente isso, pelo mesmo motivo.

Se levarmos em conta o Equilíbrio de Nash – o Coringa certamente o fez – a escolha mais sensata é a de apertar o detonador o mais rápido possível. Uma vez que isso impediria tanto a explosão à meia-noite, que seria realizada pelo fantástico personagem interpretado por Heath Ledger, quanto à explosão preventiva dos passageiros do outro navio. Mas, diferentemente da economia, das guerras e do Poker, no filme havia uma variável que alterou todos os resultados. Uma variável impossível de ser prevista por Nash ou por qualquer outro gênio da história: O BATMAN.

A Esquizofrenia Paranóide

Ao ser questionado pelo professor de Harvard e matemático George Mackey, “como um homem dedicado à razão e à prova lógica – um matemático como ele! – pode acreditar que estaria sendo recrutado por alienígenas do espaço exterior para salvar o mundo?” John Nash responde, esquecendo de toda e qualquer pitada de emoção no rosto que um ser humano deve ter ao dizer algo:

“As idéias que eu tinha sobre seres sobrenaturais vinham a mim da mesma forma que minhas idéias matemáticas. De modo que eu as

considerei seriamente”.

Para o psiquiatra Anthony Storr, a difícil compreensão da coincidência entre o número de de gênios e loucos poderia estar ligada ao fato de que seja possível dizer que “algumas pessoas criativas […] usam suas ideias e capacidades criativas de modo defensivo. […] o trabalho criativo protege um homem da doença mental […]”. Anthony Storr, The Dynamics of the Creation, (Nova York: Atheneum, 1972).

Sua certeza de que recebia mensagens subliminares através de notícias do The New York Times e suas novas e estranhas teorias matemáticas, que envolviam numerologia agregada à hipóteses sem sentido algum, foram questões intermediárias à sua carreira iniciada aos 23 anos, como professor do Massachussetts Institute of Tecnology (MIT) e sua primeira internação em um hospital psiquiátrico aos 31 anos.

A esquizofrenia, assim como fora batizada pelo Dr. Eugen Bleuler em 1908, é um “tipo específico de alteração do pensamento, dos sentimentos e da relação com o mundo exterior”. Antes chamada de Demência Precoce, é uma doença marcada principalmente pela presença de delírios – discursos de grandeza (exacerbação da própria posição ou situação) e/ou persecutoriedade (ser alvo de uma perseguição ou conspiração de algo ou alguém) – e de alucinações – percepções reais de imagens, sons, cheiros, toques e gostos que não existem fisicamente, deixando um, dois ou todos os cinco sentidos alienados à realidade. Seu maior problema, no entanto, é o “profundo sentimento de incompreensibilidade que o paciente provoca nas outras pessoas”.

Essa quebra de contato com a realidade comum, faz com que ninguém consiga entender o paciente, mesmo que este frequentemente aparente estar lúcido e demonstre extrema articulação verbal em seu discurso. Não é incomum que muitas pessoas acreditem em um delírio, uma vez que seu interlocutor pode ser muito convincente – por de fato sentir que vive tal realidade. As vozes ouvidas costumam corroborar – e muito! – o conteúdo de um delírio. Discutir é inútil: é como alguém ir até um cirurgião, em plena mesa de operação, e tentar convencê-lo de que ele é um motorista aposentado.

O encontro da esquizofrenia com a nossa dita normalidade, se assemelha ao diálogo telefônico de duas pessoas morando em países de fusos horários opostos. Ambas compartilham do mesmo tempo e espaço. Mas para que uma vivencie a luz, a outra, necessariamente, precisará viver na escuridão. Bastaria então, para termos o que apelidar de loucura, que uma contasse à outra sobre o lindo e ensolarado dia que vê da janela de seu quarto. Ou seja: acreditar na lucidez da outra pessoa, seria o mesmo que aceitar a própria loucura. Porque tudo aquilo é vivido verdadeiramente.

“Uma doença incurável chamada consciência.” – F. Dostoiévski.

A esquizofrenia é comumente interpretada como a ausência da razão. Mas o psicólogo Louis A. Sass, a relata “não como uma fuga da razão, mas uma exacerbação daquela doença [consciência] total imaginada por Dostoiévski[…] uma alienação não da razão, mas da emoção, dos instintos e da vontade”.

Outros de seus sintomas mais comuns são os chamados “Sintomas Negativos”. Estes trazem uma total dissociação da afeição, do pensamento e da vontade. A emoção se torna ausente nos olhos, nas feições e nos movimentos de seu corpo. Há uma apatia e frieza em relação ao Outro que assusta. A parte curiosa é que, em um mesmo indivíduo, ou de um para o outro, a variação de sintomas é tamanha, que ainda não há, em absoluto, a definição de um “caso típico”, como postula Sylvia Nasar na biografia de Nash. Há na pessoa o contorno do que era antes, mas seu conteúdo voou como fez uma borboleta de seu antigo casulo. Nash se sentia preso em sua condição psíquica, como ele mesmo disse: “Tenho a impressão de que sou como a vítima de uma espera excessivamente longa pela libertação […]”.

“Um crescente nível de consciência é um perigo e uma doença”.

Friedrich Nietzsche.

A Crise de Refugiado

Apesar de inúmeras tentativas de seus amigos e colegas matemáticos, as sucessivas internações psiquiátricas e surtos, que já chegaram a acontecer até em meio a palestras que Nash viria a dar, foram parte de um conjunto de fatores que o levaram, inevitavelmente, a ficar desempregado e sozinho, causando até o afastamento de sua irmã e de sua esposa, Alicia Nash.

Em plena Guerra Fria, Nash queria se considerar um refugiado na Europa. Tentou fazer a renúncia de sua cidadania estadunidense inúmeras vezes, tão falhas quanto os pedidos de refúgio que fez à França e à Suíça em meio às suas perambulações em campos de refugiados, embaixadas, prisões e abrigos. Viajou pelo Cairo, Tebas, Mongólia e Guiana. A biógrafa de Nash explica tal momento de sua vida brilhantemente: “Assim como a hiperconcretude de um sonho se relaciona com os temas intangíveis da vida em vigília, a busca de Nash por um pedaço de papel, uma carteira de identidade, reflete sua antiga procura por insights matemáticos”.

John estava em um surto tão intenso, que se considerava o “Príncipe da Paz”, o “Pé Esquerdo de Deus” ou o “Imperador da Antártida”. Essa era a natureza grandiosa de seus delírios. E apesar destes terem feito o matemático a vagar por vários continentes, os estudiosos sobre os delírios não os vêem como a entrega da pessoa à doença, e sim como uma tentativa desta de se reestruturar à realidade, como “esforços heróicos para manter algum tipo de equilíbrio mental”, como diria o pesquisador E. Fulley Torrey. Não é atoa que estes têm uma lógica quase incontestável.

A Remissão

Apesar da apatia, da indiferença às emoções e da devastação de sua vida social e profissional, Nash tinha medo da normalidade. Talvez porque a normalidade seja uma fábrica de homens medíocres, talvez porque, como já disse Contardo Calligaris em seu seriado Psi!, esta seja “A pior das patologias, pois não tem cura e é altamente contagiosa”. Talvez tenha sido este o fundo de verdade da brincadeira que Nash fez uma vez, enquanto estava internado, com seu amigo Donald Newman ao perguntar: “E se eles não me deixarem sair até que eu esteja NORMAL?

A Esquizofrenia não devastou só a mente de Nash, mas o fez perder o contato que tinha com sua irmã Martha, com seus dois filhos (um bastardo e um legítimo), com sua esposa e a vasta maioria de seus amigos e colegas de trabalho. Em função de sua doença e da total devoção de sua esposa, sempre disposta a acompanhá-lo onde quer que fosse, seu filho legítimo, John Charles Martin Nash, ficou por volta de ano sem receber um nome e até morou com sua avó quando seus pais foram à Europa. Como o bebê nasceu em meio a um surto de Nash, Alicia, sua esposa, preferiu esperar até a melhora do pai para que seu filho viesse a ter um nome. Ele era chamado de “bebe épsilon”, uma piadinha matemática. Os matemáticos diziam que todo bebe nasceria sabendo solucionar a Hipótese de Reiemann e desaprenderia até os 6 meses. Uma curiosidade: Nash estava decidido a provar tal hipótese como verdadeira ou falsa um pouco antes de ser internado em um surto pela primeira vez.

Entre suas internações psiquiátricas, seus momentos de lucidez e até nos tempos em que John era considerado “bom” o suficiente  não ser internado, mas “doente” o suficiente para não ter um pingo de normalidade em sua vida, Nash passou um tempo vagando pelos corredores do Instituto de Estudos Avançados de Princeton. Não sendo reconhecido pelos que já tinham estudado a sua própria teoria – que a este ponto já era considerada importantíssima, ele era considerado “O Fantasma de Fine Hall”. A doença, que havia chegado ao seu auge em poucos meses dos anos 60, apresentou seus primeiros sinais de remissão no começo dos anos 90. Sua melhora “foi um esvaziamento gradual”, como diria ele próprio.

Chegando a este ponto de leitura, já está claro que o pensamento de John Nash se mostrou, de alguma forma, superior ao da maioria. Há certamente um conjunto de especialistas que duvidem disso, mas para o nosso Nobel de Economia, quando perguntado sobre como e quando aconteceu a remissão de sua doença, ele responde: “Aos poucos, comecei a rejeitar intelectualmente certas linhas de pensamento influenciadas pelo estado de delírio […]”. Nash compara sua recuperação ao “[…] papel da força de vontade para se fazer uma dieta efetiva: se fizermos um esforço para “racionalizar” nosso pensamento, então poderemos simplesmente reconhecer e rejeitar as hipóteses irracionais do pensamento delirante”.

O problema é que, infelizmente, a remissão da esquizofrenia pareceu levar embora de John uma parte de sua inteligência. Seus insights foram embora, era mais difícil trabalhar em suas teorias. Não se saberá nunca se isso foi resultado dos tratamentos com insulina, se foram as repetidas doses de torazina e outros antipsicóticos neurolépticos, ou então, se a loucura de John Forbes Nash Jr. era apenas um sintoma de sua genialidade. Um estilo de pensamento único, que considerava mil possibilidades de um mesmo problema em milissegundos. O embotamento cognitivo típico da esquizofrenia foi fatal à Mente Brilhante de Nash. Ele mesmo considerava seus pequenos intervalos de lucidez como “interlúdios de racionalidade forçada”. A remissão o fez recuperar sua vida, mas nunca a sua essência de gênio. Ele mesmo diz:

“O pensamento racional impõe um limite à ideia que a pessoa tem de sua relação com o cosmo […] as pessoas pensavam que eu estava recuperando minha inteligência brilhante, mas eu, na verdade, estava retrocedendo a níveis de pensamento cada vez mais simples”.

A percepção de quem consegue superar e se recuperar de um quadro crônico de esquizofrenia, poderia ser semelhante ao despertar de um sonho lúcido. Em meio àquela imersão da imperceptível surrealidade do sonho, se este é bom, a vida real adquire um gosto amargo, ficamos tristes em sair daquele meio de realizações, onipotência e prazer. Por outro lado, se tivermos um pesadelo, é um grande alívio sabermos que ainda temos a chance, a esperança, de uma vida inteira de escolhas. Pois as más escolhas feitas durante o sonho saíam completamente de nosso controle. Mas se há algo que a vida de John Nash nos ensina, é que, sem dúvidas, a esquizofrenia se diferencia de um sonho ou pesadelo a partir dos rastros que sua surrealidade deixa na vida de quem a experiencia.

John Forbes Nash Jr.

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Dê play na inspiração dos assobios de Nash:

Nascido em 13 de junho de 1928, seus vícios eram assobiar músicas de Bach pelos corredores de Princeton enquanto procurava insights matemáticos em sua mente, repleta de atalhos ao pensamento genial. Teve dois filhos: John David Stier, que passou a vida sem a presença e sem o Nome do Pai. E John Charles Martin Nash, que herdou, juntamente ao Nome Próprio, a inteligência e, posteriormente, a crônica esquizofrenia paranoide — o tripé da fama de seu pai.

O único amor maior que a matemática em sua vida, foi o correspondido amor por Alicia Nash. O homem de quase 1,90m, passou de um jovem arrogante matemático ao vencedor do Premio de Economia em Homenagem a Alfred Nobel, em 1994, em função de sua contribuição à Teoria dos Jogos.

Se alguém lhe dizia “Bom Dia”, John Nash iria buscar a fórmula matemática que eliciaria tal comportamento àquela forma. Talvez em um contraste ao seu interesse pelas relações humanas em geral, Nash se tornou um dos maiores gênios no que diz respeito à análise do comportamento humano. Não pelos seus praticamente inexistentes estudos em psicologia ou psiquiatria, mas por carregar em si, o fardo daqueles que mudam para sempre a história do limitado pensamento “humanóide”, como ele já nos chamou.

Morreu aos 86 anos, como que por missão, lado a lado com sua esposa Alicia Nash, em 23 de maio de 2015. Sua morte aconteceu dias depois de conquistar o Abel, a premiação máxima na Matemática, pelo desenvolvimento do PDE (Partial Different Equations, ou equações parciais diferentes). O motorista de táxi da cidade de Nova Jersey, a mesma onde fica Princeton, seu centro de realizações, falhou em uma ultrapassagem que resultou em uma colisão que levou o casal, sem cinto de segurança no banco de trás, para fora do veículo. Tenho certeza que onde quer que esteja, o matemático estará criando uma fórmula para entender a razão do choro que tantos de nós, mortais e de intelecto mediano, derramamos em função de sua partida. Nash não só Equilibrou a Teoria dos Jogos e do Comportamento Econômico, como também equilibrou o lado brilhante com o doente de sua mente, mas, principalmente, se Equilibrou entre os preconceitos de um mundo conservador e preconceituoso, que agora será obrigado a conservar uma das mais lindas e históricas contribuições para a matemática. Mesmo que está tenha sido deixada pela maior representação do medo conservador: um diferente.

 

 

 

Fontes:

https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economic-sciences/laureates/1994/nash-bio.html

Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição

https://rbsc.princeton.edu/sites/default/files/Non-Cooperative_Games_Nash.pdf

Livro consultado para a maior parte do texto: Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind), de 2001. Sylvia Nasar.

 

Todas as imagens contidas no texto foram retiradas da internet, onde já estavam disponíveis de forma livre e gratuita. Caso seja o proprietário de uma destas imagens acima e considerou seu uso indevido, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos.

Como Vencer o Vício em Drogas? Dependência Química: Internação Resolve?

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Afina, o que é dependência química?  É caso de polícia ou de Saúde Pública? O que fazer?

Ainda se alguém não conheceu um dependente químico, com certeza já ouviu falar sobre o assunto nos noticiários. Seja sobre a famosa "cracolândia", seja sobre as ações politico-policiais que a envolvem. Mas o que caracteriza a dependência química? Qual a diferença entre um usuário eventual e um dependente? A melhor solução seria cadeia, internação ou nenhum dos dois? 
A Sociedade dos Psicólogos preparou um texto exclusivo sobre o assunto.

O que é Dependência? Quem pode ser considerado um dependente químico?

Como podemos diferenciar um usuário de um dependente? É muito comum observarmos na grande mídia a utilização de termos como “usuários” e “dependentes”. Mas o que significa cada um destes termos?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) a dependência química é uma doença crônica, progressiva (piora com o passar do tempo) e primária — pois outras doenças aparecem em sua decorrência. A dependência química é um transtorno mental caracterizado por um grupo de sinais e sintomas decorrentes do uso de drogas.
De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em junho de 2017, 5% da população mundial consumiu algum tipo de droga em 2015 (aproximadamente 250 milhões de pessoas) e pelo menos 190 mil morreram neste mesmo ano por causas diretas relacionadas com entorpecentes.
O Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, mostra especial preocupação pois há cerca de 29,5 milhões de pessoas que sofrem com transtornos graves pelo consumo de drogas.

Uso, Uso nocivo e Dependência:

Pode-se entender que o Uso é caracterizado como a administração de qualquer quantidade de substância psicoativa no organismo.
Na definição dada pela OMS, através da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), o chamado "abuso", é chamado de Uso Nocivo, caracterizado por:

• Evidência de correlação entre o uso da substância e danos físicos, psicológicos e/ou comprometimento das capacidades de julgamento ou disfunções comportamentais; 
• Dano claramente identificável à vida do usuário;
• Uso contínuo durante um mês ou repetido ao longo de 12 meses;
• Com exceção da intoxicação aguda, não há critérios que identifiquem outro transtorno relacionado à substância em questão.

Ainda seguindo os padrões do CID-10, a Dependência é caracterizada por:

• Forte desejo ou compulsão pelo uso da droga;
• Incapacidade de controlar os níveis de consumo;
• Presença da Síndrome de Abstinência (conjunto de Sinais e Sintomas físicos e/ou psicológicos após interrupção do uso de substâncias);
• Tolerância à substância;
• Abandono de atividades prazerosas ou de grande interesse para o consumo de drogas;
• Uso contínuo apesar das consequências.

O Uso de Drogas no Brasil

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Uma vez que conseguimos entender melhor as definições tão utilizadas na grande mídia, será possível que possamos nos aprofundar mais no assunto. Entretanto, é necessário algum embasamento: como é o uso de drogas no Brasil?
Apesar de poucas pesquisas realizadas, existem dados que mostram um pouco sobre como o brasileiro se relaciona com as drogas.
A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) realizou duas pesquisas para entender como se dava a relação da população brasileira com as drogas lícitas e ilícitas.
Tais pesquisas foram realizadas em domicílios e em universidades.

Uso de Drogas — Um Levantamento Domiciliar

Em 2005, 7.939 pessoas passaram por entrevistas feitas diretamente em domicílios de todo o país. Foram feitas perguntas específicas e garantia de sigilo. Assim, foi realizado o II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: Estudo Envolvendo as 108 Maiores Cidades do País. Realizado pelo SENAD. 
Através dele, foi possível identificar que, entre os brasileiros:

• 74,3% já fizeram uso de Álcool na vida, enquanto 38,3% no último mês;
• 44,0% já fizeram uso de Tabaco na vida, enquanto 18,4% no último mês;
• 8,8% já fizeram uso de Maconha na vida, enquanto 1,9% no último mês;
• 2,9% já fizeram uso de Cocaína na vida, enquanto 0,4% no último mês;
• 0,7% já fizeram uso de Crack na vida, enquanto 0,1% no último mês.
Confira a pesquisa completa.

Uso de Drogas entre Universitários:

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Já em um outro estudo, alguns resultados são um pouco mais elevados. No estudo realizado com 12.711 universitários em Instituições de Ensino Superior (públicas e privadas) em todas as regiões do país em 2010, a Secretaria Nacional de Politicas sobre Drogas, ao realizar o I Levantamento Nacional sobre o uso de álcool,tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras, constatou:

• 86,7% já havia feito uso de Álcool alguma vez na vida, enquanto 60,5% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 26,1% já havia feito uso de Maconha ou variações dela alguma vez na vida, enquanto 9,1% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 7,7% já havia feito uso de Cocaína alguma vez na vida, enquanto 1,8% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 1,2% já havia feito uso de Crack alguma vez na vida, enquanto 0,2% fizeram uso nos últimos 30 dias.
Confira a pesquisa completa.

Há uma Epidemia de Dependência Química no Brasil?

A impressão que temos ao observar os noticiários ou ações policiais é de que o Brasil apresenta índices altíssimos de dependência de drogas. Entretanto, as pesquisas acima parecem não justificar todo este alarde.
Mas o que poderia, então, ser motivo de tanta preocupação e veiculação do assunto à nossa mídia?
Por que há a preocupação de alguns políticos em mobilizar forças policiais, autorizações de internação compulsória e uma clara política de combate às drogas no país?
As crackolândias são problemas reais, mas o uso de drogas não parece ser tão alarmante assim. Então o que poderia ocasionar este fenômeno nas grandes cidades?
Ainda é difícil dar uma resposta definitiva a esta pergunta. Entretanto, algo é fato: existe um perfil específico de usuário que frequenta as crackolândias — e é possível que aqui more algum tipo de explicação.

O Perfil do Usuário — Quem usa Crack no Brasil?


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Em 2013, juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz e o Ministério da Saúde, a Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas (Ministério da Justiça) realizou outra pesquisa, desta vez diretamente sobre o uso de Crack e outras drogas, tentando identificar o perfil dos usuários.
Os pesquisadores entrevistaram cerca de 7 (sete) mil usuários de crack/similares em todos os estados do Brasil e no Distrito Federal.
Era necessário ter mais de 18 (dezoito) anos e ter usado Crack, Pasta Base, Merla ou Oxi em pelos 25 dias nos últimos 6 (seis) meses.
A partir desta pesquisa, pode-se finalmente traçar um perfil dos usuários de Crack no Brasil com uma amostra significativa. Algo inédito até então.

Segundo a pesquisa, temos:

A "cara" do Dependente Químico:

• Mais de 50% dos usuários de Crack têm entre 18 e 29 anos;
• Cerca de 80% são do sexo masculino;
• 80% são de etnia considerada "não-branca" (pardos ou negros).

Nível de Escolaridade:

• 5% não terminou nenhuma série sequer;
• 55% tem escolaridade localizada no período da 4ª à 8ª série do Ensino Fundamental;
• Cerca de 20% possuí Ensino Médio completo ou Incompleto 
• 5% possui Ensino Superior.

Onde mora o Dependente Químico?

• 40% dos usuários declaram morar em casa ou apartamento próprio ou da família;
• 35% relataram estar em situação de rua.

Drogas Utilizadas em Conjunto com o Crack e Similares:

• 92,1% admite ter feito uso de Tabaco;
• 83,8% admite ter feito uso de Álcool;
• 76,1% admite ter feito uso Maconha;
• 52,2% admite ter feito uso Cocaína.

Fatores que Motivaram o Uso de Crack/Similares:

• 58% dos usuários dizem que o uso se deu por ter conseguido a droga ou ter sentido vontade/curiosidade de conhecer seus efeitos;
• 29,2% relacionam o uso às perdas afetivas (lutos, términos de relacionamento, etc), problemas familiares e/ou abuso sexual;
• 26,7% alegam que foi a pressão dos amigos;
• 8,8% à falta de perspectiva ou uma vida ruim;
• 1,6% à perda do emprego ou fonte de renda.

Outro dado alarmante é que 78,9% dos usuários de crack e/ou similares disseram vontade de realizar tratamento.

A pesquisa conclui, portanto, que o usuário de Crack no Brasil costuma ser um homem jovem, negro ou pardo, que foi pouco escolarizado; que mora na rua, usa mais de uma droga, tem pouco contato com a família e/ou amigos ou histórico de violência física e/ou sexual; além de querer realizar tratamento contra a dependência.
Clique aqui para visualizar a pesquisa na íntegra.

Um Relato em Primeira Pessoa

Será que é possível estabelecer uma relação entre o relato do usuário acima e os dados da pesquisa?

• O homem aparenta ter entre 30 e 40 anos, é negro e está desempregado;
• Sua residência é uma moradia improvisada — uma casa de madeira;
• Relata que o uso da droga o afugenta de seus problemas pessoas (20-25 pedras por dia) e também faz uso de outras drogas;
• Possui uma relação distante de sua família;
• Quer realizar tratamento (já realizou 12 vezes);
• Sente-se sem forças, sem perspectiva de vida e socialmente estigmatizado;
• Tem um histórico de perdas

Observando o perfil dos usuários e a desestabilização que a dependência em crack causa, podemos até, por alguns momentos, a entendermos também como um problema social.
Contudo, este viés dificilmente é abordado nas soluções oferecidas aos usuários — frequentemente vistos como criminosos reais ou potenciais.
Mas quais são as soluções atualmente oferecidas? 
Seriam elas as mais efetivas?

A Solução

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Em função do aumento exponencial da concentração de usuários de crack nas grandes cidades, podemos observar maiores índices de roubos, furtos e tráfico de drogas nas redondezas de onde se instalam as crackolândias. Em uma relação lógica, o aumento da criminalidade fará necessária a mobilização de um maior emprego da força policial.  Entretanto, há quase um consenso entre os especialistas: este é um problema de saúde pública.

Após anos e mais anos da adoção de medidas como: o aumento do policiamento, das investigações criminais e  de ações violentas de dispersão de usuários, as políticas de combate à crackolância pareceram finalmente visualizá-la como um problema de Saúde Pública. Entretanto, na Cidade de São Paulo, por exemplo, um dos pontos mais polêmicos desta nova visão foi a solicitação de prévia autorização judicial para a internação compulsória. 
Afinal, seria esta a solução mais adequada para o tratamento da drogadição?

Internação Compulsória é Efetiva?

Em fevereiro de 2016, um grupo de pesquisadores publicou no The International Journal of Drug Policy o artigo: The effectiveness of compulsory drug treatment: A systematic review.
O artigo tinha exatamente o objetivo de analisar se há indícios científicos de eficiência nas políticas de tratamentos compulsórios que eram impostas a alguns usuários — no que diz respeito às reduções de reincidências no uso de drogas e crimes praticados por seus usuários.
Foram selecionados 430 estudos em potencial (em língua inglesa, espanhola e portuguesa) para que a partir daí fosse feita uma triagem dos que serviriam ao critério. Entretanto, a deficiência no número de pesquisas sobre o assunto foi alarmante: apenas 9 (nove) estudos puderam ser utilizados.
Os estudos incluíam vários tipos de tratamento compulsório — inclusive aqueles que aconteciam após prisões por uso de drogas (como acontece em alguns estados dos EUA — um país que apresentou dados compatíveis aos que o estudo necessitava).
Dentro destes casos, avaliou-se como os tratamentos impostos (entre eles a internação compulsória) seriam eficientes para cessar o uso de substâncias, bem como a reduzir as taxas de reincidência nos crimes praticados por usuários após a realização do tratamento compulsório.

Dentre os nove estudos que puderam ser utilizados, concluiu-se que:

• Em três destes estudos (33%), não foram encontrados impactos significativos nos tratamentos compulsórios quando estes são comparados com políticas de prevenção do uso de drogas;
• Em dois estudos (22%), os resultados foram considerados equivocados, mas não foram comparados com as políticas de prevenção;
• Em dois estudos (22%), os resultados observados foram considerados negativos no que diz respeito aos impactos dos tratamentos compulsórios na reincidência de crimes;
• Em dois estudos, os resultados observados foram considerados positivos, no que diz respeito aos impactos do tratamento compulsório na reincidência de crimes.

Em uma conclusão final o artigo concluiu que, de fato, a literatura científica ainda está limitada, no que diz respeito à avaliação da eficiência dos tratamentos compulsórios perante o uso de drogas.

Entretanto, também diz que os poucos estudos disponíveis não sugerem melhores resultados nas abordagens de tratamento compulsórias.
Os autores ainda enfatizaram que alguns estudos sugeriam potenciais danos em tais abordagens.

A mensagem final deixada pelos cientistas foi que: considerando o potencial que o tratamento compulsório tem para o abuso dos direitos humanos, deve-se priorizar as modalidades de tratamento não-compulsórias buscando reduzir os danos relacionados.

Apesar de o estudo não ser focado exclusivamente na Internação Compulsória, ele no mínimo aponta que não há evidências diretas na eficácia de tratamentos realizados contra a vontade do usuário.

Confira o artigo (em inglês) na íntegra.

Qual é a melhor solução?

Com a precariedade de estudos científicos sobre o tema, ainda é muito difícil definir a melhor abordagem sobre o assunto.  No vídeo a seguir, temos o relato de alguns ex-usuários falando sobre como foram seus tratamentos, suas novas perspectiva de vida e as dicas que dão aos que buscam ajuda.

Há também no vídeo, o posicionamento do Doutor Arthur Guerra, que já foi Presidente do International Council on Alcohol and Addictions -ICAA e hoje é Professor Titular de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC e Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.

Complementando o posicionamento do ex-usuários e do especialista, a Sociedade do Psicólogos também acredita que pode-se combater a dependência química com mais veemência a partir:

• Da Realização de Programas de Prevenção ao Uso de Drogas nas escolas e comunidades:
Se os leitores bem se lembram, existe um perfil dos usuários de drogas. Dentro deste perfil, podemos observar que o nível de escolaridade mais comum entre os usuários de crack no Brasil é definido nas séries do Ensino Fundamental. A partir desta informação, é possível que haja uma abordagem de prevenção focada principalmente nos estudantes deste curso. Recomenda-se que esta abordagem seja realizada por profissionais do ramo — psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e agentes de saúde;

• Do Aumento Significativo no Investimento e Incentivo de Pesquisas Científicas:
Não só no Brasil, mas no mundo inteiro ainda existe um número precário de pesquisas a respeito da eficácia das diferentes modalidades de abordagem nos tratamentos de drogadição. O investimento em pesquisas científicas sobre o assunto é algo considerado crucial para que surjam novas modalidades de tratamento ou melhoria nas que estão atualmente disponíveis;

• Do Aumento da Inclusão de Políticas Sociais — Moradia, Reinserção no Mercado de Trabalho, Reinserção no Ambiente Escolar, etc:
Levando em consideração que os usuários mais comuns pertencem a um grupo em situação de vulnerabilidade social, é possível identificar (ou ao menos supor) que muitas vezes o uso de drogas está relacionado à ausência de condições básicas que garantem a dignidade humana (uma vez que uma parcela significativa dos usuários está em situação de rua, tem baixa escolaridade e pouco ou nenhum contato afetivo). Uma hipótese neste caso ,seria se a recuperação do que foi perdido (ou nunca conquistado) poderia impactar nos níveis do uso de substâncias.

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