Ansiedade, Atenção Plena e Black Mirror

“Agora, mais uma vez, concentre-se na sua respiração… Repare como a sua respiração continua por si só… Sua mente pode vagar. Simplesmente observe… Calmamente… Sem julgamento…”

Assim começa o segundo episódio da quinta temporada de Black Mirror – Smithereens. Não parece, é um App Mindfulness (ou em português Atenção Plena), a narração transcrita acima é uma meditação guiada. Amplamente utilizada para tratamento complementar dos Transtornos de Ansiedade ou como uma maneira de ser manter o indivíduo focado no momento presente.

Charlie Brooker aparentemente trabalhou com uma paleta de cores pastel na quinta temporada do seriado Black Mirror (2011/____ ), diferente da temática do filme-evento Bandersnach. Em vez da usual crônica da vida privada sobre possibilidades de futuro HI-TEC distópico/pessimista, neste episódio vemos algo contemporâneo situado em 2018.

Black Mirror: Season 5 | Official Trailer | Netflix

Black Mirror é o convite a reflexão sobre efeito da tecnologia em nossas vidas, uma noção que se perde à medida que as facilidades vão aumentando. Você pode dizer que os dispositivos ou ‘modo de usar’ apresentados no seriado nem sejam inventados, mas o que está em jogo é que todos os dias novas tecnologias são criadas sem regulamentação jurídica ou vinculadas a um código de ética.

Quando você posta uma opinião no campo comentário, ou fotos em rede sociais, ou expia a vida alheira, curtidas, deslikes, retweets, solicita transporte, remédios, amenidades, roupas, peças de carros, aparelhos eletrônicos ou comidas, cada vez que você clica em botão aceito, seu bem mais precioso pode ser utilizado sem sua percepção: suas informações pessoais.

“Meios cada vez mais precisos para fins cada vez mais vagos, são uma característica da nossa época”.

Albert Einstein

Desde os primórdios, nossos ancestrais desenvolvem tecnologia para facilitar a execução e/ou minimizar o tempo de trabalho. Tecnologia Digital faz isto com maestria, cada vez menos intervenções humanas e cada vez mais algoritmos proporcionando autosserviço ao toque das suas mãos. Como sobra mais espaço em nossas agendas, podemos consumir outros conteúdos, e com isto, nosso tempo de vida é consumido.

Persona – Conectando você com o que importa

Após um dia de trabalho, o motorista do App de transporte vai a cafeteria, e ao ouvir o alarme de notificação dos celulares a sua volta, tem visível aumento de sudorese, demonstra irritabilidade e alteração comportamento. O intuito desta cena sem diálogos é instigar o espectador através da edição, sugerindo que o personagem apresenta sintomas de ansiedade. Geralmente, quando se menciona a palavra ansiedade, esta é sempre referida pelo escopo psicopatológico, descrição dos possíveis transtornos, sintomatologia, posologia e tratamento psicológico.

Afinal de conta, o que é Ansiedade?

Ansiedade é o medo de uma ameaça antecipada ou real e incerteza sobre a capacidade de lidar com isso, definição que consta no The Ekman Atlas of Emotions (tradução livre: Altas das Emoções de Paul Ekman). Semelhante ao sinal amarelo do semáforo (farol ou sinaleira, entre outro regionalismos do Brasil) que indica atenção, mostrando a iminência da parada obrigatória.

Por que nos sentimos ansiosos frente as situações?

A Psicologia Evolucionista, disciplina resultante da síntese entre a Psicologia Cognitiva e a Biologia Evolutiva, que engloba conhecimentos da Antropologia, Paleontropologia, das Ciências Cognitivas e das Neurociência, aponta que a perpetuação da espécie equipou seres humanos com este mecanismo biológico das emoções.

Você encontrará neste blog no texto a Psicologia das Emoções, a evolução dos estudos e embasamento teórico, mas adianto que medo é uma emoção humana, cuja função principal é preservar a vida. Se o dispositivo emocional de ansiedade de um individuo não sinaliza frente há uma situação de perigo, existe a possibilidade deste não ser humano.

Em outro texto também publicado neste blog (Por que todos desejam ser como Spock?) descrevo mecanismos do desenvolvimento biopsicossoal na Teoria Comportamental Cognitiva, mas neste ponto irei me ater aos mecanismos cognitivos do desenvolvimento humano.

“As funções executivas do cérebro humano podem ser consideradas um conjunto de processos cognitivos que de forma integrada, permitem ao individuo direcionar comportamentos a metas, avaliar eficiência e adequação destes comportamentos, abandonar estratégias ineficazes em prol de outras mais eficientes e, desse modo, resolver problemas de médio e de longo prazo (Malloy-Diniz, de Paula, Sedó, Fuentes e Leite, 2014).”

Todos os seres humanos deste planeta, independente de ter acesso a educação escolar, possuem este conjunto de capacidades. Porque aprendemos com nossas experiências, podemos ter respostas adaptativas aos problemas apresentados, é com isto, começamos em anteciparmos os acontecimentos. Então, podemos supor que em teoria, quanto maior for o repertório do sujeito, melhor será resposta frente as situações. Certo?

Daniel Kahneman, o Prêmio Nobel de Economia em 2002, afirma em seu livro Pense Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, que há dois sistemas funcionando em paralelo no cérebro: e o que pensa depressa e é automático – ligado a memória e as emoções – e o que pensa devagar é e racional – isto leva tempo e consome energia. Podemos supor que o cérebro funciona no módulo avião (recurso que limita o consumo da bateria do seu celular), talvez por isto muitas funções são automatizadas, inclusive o pensamento.

Quando ansiedade vira doença?

De acordo com Robert L. Leahy no seu livro Livre de Ansiedade a reposta é clara e objetiva: é quando o sujeito começa sentir o medo certo na hora errada.

Uma mente pode estar com a sensação de algo está acontecendo novamente, ou que está perdendo o controle. Imagine como é ficar tentando antecipar possibilidades cuja evidências não corroboram para que se realizem?

Leahy afirma que, quando somos dominados pela ansiedade, a mente funciona 24/7, como se o botão liga/desliga estivesse sempre ligado. Um tsunami de pensamentos invade a mente do individuo, independe se a vida estiver com alegrias e as coisas estão indo bem, este fica preocupado demais com as ansiedades do passado e do futuro, que tudo que está a sua volta fica imperceptível. Isto mesmo, ao contrário do que dizem a ansiedade não é a mente pensando somente no futuro, a mente pode estar presa em algo que aconteceu e revivendo a sensação constantemente.

Ansiedade: Aviso de Utilidade Pública

Os Transtornos de Ansiedade são categorizados nos compêndios médicos CID 10 – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde publicado pela OMS em fase de atualização para CID 11 e DSM V – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Para saber se você é acometido por uma psicopatologia deste grupo, é necessário um diagnóstico adequado que nenhum site de busca não dará para você. O tratamento deve ser realizado com acompanhamento psicológico e medicamentoso, dependendo do grau de comprometimento do paciente.

Aos familiares, amigos e pessoas próximas é sempre importante lembrar que tentar acalmar dizendo ‘não se preocupe’ e ‘vai ficar tudo bem’, quase nunca ajuda efetivamente. A sensações físicas e sofrimentos psicológicos são reais é devem ser tratados com empatia genuína, gentileza e cuidado.

A orientação é buscar profissionais capacitados e treinados que irão auxiliar o indivíduo e familiares o caminho da melhor qualidade de vida.

Vale ressaltar que deste ponto em diante entraremos nos questionamentos e reflexões propostos neste episódio, portanto spoilers estão chegando.

“Descobre o que você puder sobre este cara.”

No início deste episódio, vemos o motorista de App de transporte (usando um App de Mindfulness) indo pegar uma passageira na porta Smithereens, que é um App de Rede Social. Ele pergunta para a mulher se ela trabalha naquela empresa, e a resposta é: “nem estava prestando atenção no que disse, mas não, quem me dera se eu trabalhasse.”

Dia seguinte novo passageiro, mesmo local de embarque, mesma pergunta: “você trabalha na Smithereens?” O rapaz em sua primeira semana de emprego, responde com um sorridente sim. Em seguida o motorista diz: “o App esta sinalizando trânsito no caminho para o aeroporto, posso utilizar um caminho alternativo?” Duas respostas afirmativas em seguida num episódio de Black Mirror, nunca é bom sinal. O motorista pacato se revela um sequestrador armado cujo o único objetivo é conseguir contato com o ‘Todo Poderoso’ criador/CEO do Smithereens (apenas para registrar é o App de Rede Social).  

O sequestro ganha contornos dramáticos quando o carro do sequestrador é cercado por várias viaturas da polícia. Os agentes têm dificuldades identificar o motorista, pois a placa do veículo está no nome de uma mulher. Enquanto isto, o sequestrador segue com seu plano, entrega seu celular na mão do sequestrado e o ameaça a ligar na Smithereens, ao fazer o que foi mandado, o número é rastreado.

Alguns cliques depois, os funcionários da rede social fictícia conseguem, como dizem no jargão policial, levantar a capivara do sequestrador. Gostos musicais, quantidades de acessos, compras, documentos, viagens, e entre outros padrões de comportamento comum em redes sociais. Como um passe de mágica um hacker disponibiliza o áudio do celular de dentro do carro e passamos a ouvir tudo que sequestrador e sequestrado conversam. Até os agentes da polícia, que não conseguiram identificar a placa, se impressionam…

Enquanto vidas correm perigo, usar a tecnologia para nossa proteção pode ser uma estratégia fantástica. No filme V de Vingança, o terrorista V diz: “eu entendo por que o medo fez com o que as pessoas entregassem sua liberdade em troca de segurança”. Bauman fala em seus livros sobre o Medo Líquido, que ocorre em relações amorosas, conflito entre países e instituições, que deixaram a ultrapassada solidez para um estado líquido impermanente, isto é atribuído ao medo.

“Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.”

Zygmunt Bauman

Você pode me dizer que não teve escolha. O mundo ficou grande demais, populoso, globalizado e concentrou riqueza em pouquíssimas mãos, e talvez por isto, o controle comportamental pelas plataformas digitais se tornou como vilão dos filmes da Marvel Thanos se auto proclama: inevitável.

No mesmo dia da postagem deste texto, o especialista em cibersegurança Marcelo Lau em entrevista ao Programa Pânico explicando como as mídias digitais impactam sua vida.

“Quero que você apenas me escute, apenas me escute.”

Enquanto isto, o sequestrador permanece irredutível, a única maneira de evitar uma tragédia é ter que interromper o retiro de dez dias em silêncio (uma espécie de detox sem eletrônicos, sem falar e sem contato humano) do “Todo Poderoso” criador/CEO do Smithereens, que ao ficar ciente da gravidade do caso, prontamente se oferece para atender a exigência do sequestrador. Muito suspense, manipulação e jogo de poder, jurídico e assessores tentam sem sucesso demover ideia do seu chefe. Quando o criador/CEO toma a decisão, dispensa seu staff e diz a sua assistente pessoal: “a vantagem de estar na minha posição é que eu posso brincar de ser Deus”. Ele mesmo captura o número e entra em contato com o sequestrador.

Neste momento, uma pausa para reflexão. Em tradições religiosas seculares, Deus é onipresente e onisciente, ou seja, está em todo lugar e sabe tudo. A ideia de falar com o criador é um desejo antigo do ser humano, Mary Shelley assombrou o mundo literário com seu romance Frankenstein em 1816, desde de então a ficção nos brinda com a mesma dinâmica, seja em Blade Runner (1982) ou até mesmo no recente seriado Westword (2016/___ ) da HBO.

O criador/CEO se identifica no outro lado da linha, dá a voz ao sequestrador que desejava confessar uma falha, algo que vez com que ele perdesse a razão do seu viver. Apenas porque naquele instante, ele deixou o momento presente e foi olhar em seu celular, que disparou uma notificação aleatória de algo sem menor importância. O “Todo Poderoso”, com aparência messiânica de fala calma e tranquila, diz que não foi por isto que seu App foi criado. O objetivo inicial se perdeu com o tempo, cada vez mais pessoas subordinadas entravam no circuito, dando sugestões de melhorias que fizessem com que a rede social se tornasse mais atrativa, estimulante e consequentemente, mais viciante.

Não vou revelar o final do episódio, para não estragar a experiência, entenda isto como um convite. O objetivo é expor o quanto associamos ansiedade com o mundo contemporâneo em que vivemos, devido a constante eminência do perigo tecnológico e Black Mirror faz isto como nenhuma outra proposta de entretenimento.

O fato também inegável é que não há como parar a Revolução Digital. Antes bastava pensar para existir. A exigência agora é que para existir é preciso ser visto, curtido e compartilhado, nem que seja por seguidores comprados.

Talvez seja necessário regularizar, criar jurisprudência, aprender com os erros passados e ter mecanismos de segurança, pelo menos esta é a bandeira do Mark Zuckerberg, dono do Facebook.

“Não é possível que eu não possa fazer nada por você.”

Assim como no seriado, é fácil encontrar aplicativos de Mindfulness em loja de App para celular. Repare que há uma crítica no episódio na forma de utilização, o sequestrador usa Atenção Plena para aparentar calma ao manter-se na execução do seu plano. Este definitivamente não é o “para que” da Atenção Plena. Pesquisas cientificas revelam que mentes que conseguem manter-se no momento presente são mais funcionais e tem uma melhor qualidade de vida.

Recentemente, ouvi numa palestra na Taverna Medieval em São Paulo, na semana do Pint of Science, o Lama Rinchen dizendo que meditação “não é dizer o que uma pessoa deva fazer, mas guiá-la para que ela encontre a si mesmo no processo”.

Conheça a ti mesmo’, frase ainda hoje é atribuída ao filosofo Sócrates, mas tratava-se do lema dos cidadãos de Delfos na Grécia. Alegam que fora no Templo de Apolo que oráculo proclamou Sócrates ‘o homem mais sábio na Grécia’, e ele prontamente teria respondido: “se assim fosse, isso faria com que fosse o único homem que estava ciente da sua própria ignorância”. Na Enciclopédia Grega Suda do século X, há este interessante complemento à esta conhecida frase: “o provérbio é aplicado àqueles que tentam ultrapassar o que são“, ou “ainda um aviso para não prestar atenção à opinião da multidão.”

Psicóloga Masilvia Diniz

Contribua conosco, concordou, discordou ou deseja outras análises neste formato deixem seu comentário na caixa de descrição.

BLACK MIRROR – Smithereens (5S2E). Criação: Charlie Brooker: Netflix, 2019. Streaming (70 minutos).

BAUMAN, ZYGMUNT – Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004b BAUMAN, ZYGMUNT –

CONHECE A TI MESMO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Conhece_a_ti_mesmo&oldid=55470184>. Acesso em: 12 jun. 2019.

LEAHY, Robert L. Livre de ansiedade / tradução: Vinicius Figuiera; revisão técnica: Edwiges Ferreira de Mattos, Rodrigo Fernando Pereira – Porto Alegre: Artmed, 2011. 248p.

KAHNEMAN, DANIEL. Rápido e devagar [recurso eletrônico]: duas formas de pensar / Daniel Kahneman; tradução Cássio de Arantes Leite. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS: DSM V [ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition], Tradução Maria Inês Correa Nascimento. Porto Alegre. Ed.: Artmed, 2014

MALLOY-DINIZ, Leandro F.; CAMARGO, (Org.). Neuropsicologia: aplicações clinicas. Porto Alegre: Artmed, 2016.p. 291.

MLA style: Daniel Kahneman – Biographical. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2019. Thu. 20 Jun 2019. <https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/2002/kahneman/biographical/

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. CID-10 : Classificação Internacional de Doenças. São Paulo : EDUSP, 1994, 1ª ed.

A análise é de graça?

Como funciona a pagamento e porque ele é importante

O tema do pagamento na clínica é algo que é sempre discutido e parece dar medo em muita gente. Algo que não podemos nos furtar na nossa práxis é pensar qual valor damos a ela.

Os tratamentos em regime de gratuidade, ou com valores baixíssimos, praticados em universidades ou outros centros de formação colocam em xeque preceitos enunciados desde Freud.

Tentarei aqui, apresentar alguns dos principais elementos considerados na prática da psicanálise de orientação lacaniana quanto à questão de pagamento e valor das sessões. Naturalmente não trata-se de encerrar o assunto, mas meramente apontar caminhos de pesquisa.

Na Psicanálise

Imagem 1

(Imagem retirada da Internet)

“Nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez” (Freud, 1913/1996, p. 148).

O valor da análise é intrínseco ao próprio andamento do processo. Ele se diferencia de qualquer outro tratamento na medida em que o analista não responde à uma demanda de um comprador (e não responde mesmo).

A Psicanálise (e especial aqui no Brasil) se manteve (e ainda bem) de maneira mais artesanal, isto é, sem ser regrado por uma tabelação de preços (como o CRP propõe, e bem, para a atuação de psicólogos), e sem estar ligada à grandes corporações da área da saúde. Ela foge das chamadas “práticas de mercado” ou “tendências”.

A análise não é algo que se compra em um balcão, um serviço com orçamento, como outro qualquer.

O dinheiro é tratado por Freud como um elemento do circuito anal (para saber mais sobre as fases do desenvolvimento psicossexual clique aqui). Trata-se de dar ou não o que o outro pede, como quando uma criança pequena tem o poder de ir ou não no banheiro quando a mãe pede (dar ou não o que o outro quer).

Há também, claro, o caso do enfezado, aquele que segura tudo, nada escapa.

“De fato, em uma análise, quando o paciente aborda a questão do dinheiro, o analista não deve ouvir isso como se fosse uma relação comercial, e sim entende-la como algo a ser tratado, semelhante a uma formação do inconsciente, como ato falho, esquecimento, sonho e sintoma. A colocação do pagamento já é o inconsciente trabalhando” (Macedo, 2014, p. 91).

Lacan sempre teve uma fama de cobrar caro. Cobrava sim, mas de quem podia, e em caso, o pagamento era intrínseco ao andamento da análise. Em um conjunto de relatos fabulosos, Jean Allouch, conta passagens de intervenções de Lacan com seus pacientes, nas apresentações de doentes e nas supervisões com analistas em formação. Em muitas delas, pode-se notar o caráter fundamental atribuído ao preço das sessões:

“conflito sobre a próxima sessão

– Quando você volta?

– Segunda,… segunda-feira próxima…

– Volte então sexta-feira.

– É que estou cheio de problemas agora: não tenho mais um tostão. Estou sem trabalho. E pedi que X não me mandasse mais nada…

– Bom, volte sexta-feira e se vire para ter com que me pagar. Até a vista.

Saindo, ele se dá conta: pela primeira vez Lacan lhe disse: “até a vista”.”

(Allouch, 1999, p.38)

Essa passagem tomada de maneira isolada pode parecer para os desavisados algo de arrogante por parte de Lacan, todavia, o mestre francês sabia como ninguém implicar alguém em seu próprio processo de análise.

Trata-se exatamente disso, responsabilizar o sujeito em seu próprio processo de “torção discursiva”, como diria o último Lacan. Ou seja, fazer com que o sujeito se reposicione psiquicamente diante da vida e das situações. Uma análise é cara, mas não necessariamente em seu valor financeiro, e sim, no investimento que o sujeito coloca de si no processo.

“Na prática, o valor cobrado considera a possibilidade de cada um e a disponibilidade do analista” (Macedo, 2014, p. 86).  O quanto um sujeito banca sua própria análise é refletido em parte no valor que paga em sua sessão.

Nessa medida, não é viável uma análise “de graça”, pois, o sujeito ficaria eternamente em dívida com o Outro. “… se o analisante não pagar a análise, o analista o está deixando no registro eterno da culpa. É interessante que na língua alemã se usa a mesma palavra, Schuld, para dívida e para culpa” (Macedo, 2014, p. 92).

Em outro momento, Freud (1913/1996) diz:

“O tratamento gratuito aumenta enormemente algumas das resistências do neurótico – em moças, por exemplo, a tentação inerente à sua relação transferencial, e, em moços, sua oposição oriunda de seu complexo paterno e que apresenta um dos mais perturbadores obstáculos à aceitação de auxílio médico.” (p. 147)

Em determinados casos pode-se pensar em um pagamento mensal ou quinzenal, todavia, normalmente, segue-se um pagamento por sessão, o que auxilia a organização e estabelecimento de limite para o paciente. Em minha prática, costumo acertar o valor inicial nas primeiras sessões, deixando claro, naturalmente, que o valor poderá ser revisto com o andar das sessões.

E na análise com as crianças?

Imagem 2

(Imagem retirada da Internet)

Linha bem tênue, na Clínica da Infância, pensando à partir da perspectiva lacaniana, podemos apontar para um conceito criado por Françoise Dolto (1908 – 1988), chamado de “pagamento simbólico”.

Naturalmente, os honorários do analista são pagos em dinheiro pelos pais/responsáveis que trazem a criança, em valor acordado também nas primeiras sessões.

Quanto à criança, Dolto (2013) trabalha com o chamado pagamento simbólico, onde a criança é também responsabilizada por seu tratamento, onde, a mesma fica incumbida de trazer objetos, como desenhos, cartas ou outras produções que sirvam como pagamento e testamento do progresso da análise.

Alcance social

A Psicanálise é para todos? Sim, e não.

Muito se discute sobre o alcance que a Psicanálise tem na sociedade. Se ela é cara, e a percepção de que é coisa de elite. Na realidade não é. Todavia, tem que se pensar que fazer uma análise não é um empreendimento fácil.

Lacan dizia que não basta querer se conhecer, não é o suficiente. Tem que se procurar uma mudança profunda, para que se suporte o andar das sessões.

É importante que sempre se ressalte que a Psicanálise é uma clínica do singular, cada analista maneja os tratamentos de maneira única. Termino, pois, com uma passagem de Freud (1913/1996):

“Todo aquele que espera aprender o nobre jogo de xadrez nos livros, cedo descobrirá que somente as aberturas e os finais dos jogos admitem uma apresentação sistemática exaustiva e que a infinita variedade de jogadas que se desenvolvem após a abertura desafia qualquer descrição desse tipo. Esta lacuna na instrução só pode ser preenchida por um estudo diligente dos jogos travados pelos mestres. As regras estabelecidas para o exercício do tratamento psicanalítico acham-se sujeitas a limitações semelhantes” (p.139).

Até a próxima.

Por Igor Banin

 

Ps: Ficam aqui algumas recomendações de vídeo falando mais sobre esse tema:

 

 

Referências Bibliográficas

Allouch, J. (1999) – Alô, Lacan? – É claro que não. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Dolto, F. (2013). Seminário de Psicanálise de crianças. São Paulo: Editora WWF Martins Fontes.

Macedo, E. (2014) A sessão e seu preço: A análise lacaniana custa sempre caro?. In Psicanálise – A clínica do Real (pp. 85 – 102). Barueri: Manole.

Freud, S. (1913/1996). Sobre o início do tratamento(Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise I). In O caso de Scheber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. (pp. 137-158, Obras completas de Sigmund Freud, v.12). Rio de Janeiro: Imago.

Explicando Seligman: Felicidade Autêntica e Florescimento (Psicologia Positiva)

Quando a psicologia decide investigar a felicidade e o bem-estar (subjetivo) humanos, ela passa, inevitavelmente, sob os terrenos abertos pela Psicologia Positiva e pelo seu fundador, o psicólogo Martin Seligman, PhD. Isso, pois foi a corrente da Psicologia Positiva que conseguiu, de forma pioneira, investigar, compreender e intervir com sucesso sobre as chamadas forças e virtudes do homem e ampliar o foco da psicologia científica tradicional que, até então, partilhava do modelo médico e estava voltada, quase que totalmente, a curar/tratar doenças. É então, com a Psicologia Positiva que não apenas temos hoje estudos sobre os fenômenos e impactos das emoções positivas na vida das pessoas, ou do “estado de flow”, ou do “mindfulness”, ou da resiliência, por exemplo, entre outras contribuições, mas também podemos falar de uma psicologia preventiva e fortalecedora tão sólida quanto a tradicional psicologia reparadora de danos.

Vale dizer que a Psicologia Positiva (PP) está saindo da adolescência, isto é, ela foi fundada em 1998 e, portanto, é um corpus de estudo científico relativamente novo. Para saber mais sobre seus antecedentes, nascimento, propósito e principais contribuições, recomendamos o texto A Psicologia Positiva e o Estudo da Felicidade.

Martin Seligman

Psicólogo Martin SeligmanMartin Elias Pete Seligman (1942 – ) é um Psicólogo estadunidense considerado o pai da da PP. Ele é um dos principais divulgadores internacionais dessa corrente e foi responsável pela sua criação, em 1998, enquanto Presidente da American Psychological Association (APA). Ficou conhecido como “a voz”, ao lado de Mihaly Csikszentmihalyi, conhecido respectivamente como “o cérebro” e também pai da teoria flow. Seligman preparou o terreno para o nascimento da PP, contactou patrocínios, escreveu artigos, livros, desenvolveu ferramentas de mensuração e possibilitou outras tantas contribuições para esse campo. Entre seu legado, vale destacar a obra Character Strengths and Virtues: A handbook and classification (CSV) (sem tradução para a língua portuguesa) que, resumidamente, é o equivalente ao DSM para a PP, isto é, ao invés de catalogar, de forma rigorosa, doenças e tratamentos, cataloga forças, virtudes e as respectivas avaliações e intervenções sob elas.

Felicidade Autêntica

felicidade autêntica martin seligmanUm dos pilares da PP é o estudo das emoções positivas no âmbito pessoal e coletivo (instituições positivas) e, buscando compartilhar sua visão, Seligman estrutura o livro Felicidade Autêntica (Authentic Happiness, 2002) em 3 eixos:

  • Estudo das emoções positivas;
  • Estudo dos traços de personalidade positivos (como forças e virtudes);
  • Estudo das instituições positivas ou aquelas que promovem aspectos positivos no ser humano.

“A crença de que existem maneiras rápidas de alcançar felicidade, alegria, entusiasmo, conforto e encantamento, em vez de conquistar esses sentimentos pelo exercício de forças e virtudes pessoais, cria legiões de pessoas que, em meio a grande riqueza, definham espiritualmente. Emoção positiva desligada do exercício do caráter leva ao vazio, à inverdade, à depressão e, à medida que envelhecemos, à corrosão de toda realização que buscamos até o último dia de vida.”

(Seligman, 2010, p. 16)

Por meio de relatos de pacientes, relatos de pesquisas, questionários, fatos históricos, teorias, estatísticas, porcentagens e muita emoção, Seligman apresenta uma teoria da felicidade. Resumidamente, ele diz que a felicidade é alcançada por meio da emoção positiva, do engajamento e do significado. Falar cientificamente sobre a felicidade não é fácil, mas um avanço foi feito ao correspondê-la em elementos mais bem definidos e mensuráveis.

Esses 3 elementos, por sua vez, fazem referências a 3 tipos de vida:

  • Vida prazerosa ⇒ emoções positivas
  • Vida engajada ⇒ engajamento (flow)
  • Vida significativa ⇒ sentido

Nessa teoria, Seligman não apenas divide a felicidade, mas fala de 3 caminhos que levam à ela. A vida prazerosa é aquela onde temos alta concentração, quantidade, frequência e intensidade de emoções positivas (diversão, orgulho, contemplação, gratidão, serenidade…). Na vida engajada, o sujeito utiliza suas forças pessoais e envolve-se em atividades com ela. Essa felicidade se relaciona diretamente com o estado de flow – um estado em que o indivíduo fica envolvido, concentrado e absorvido, sem sentir fome e/ou perder a noção do tempo, por exemplo, durante uma tarefa (comum em escritores, pintores, músicos, atletas mas alcançável por qualquer pessoal). Na vida significativa, a pessoa valoriza os sentimentos de buscar, servir e pertencer a algo maior ou a algum propósito que envolva suas virtudes.

Florescer

Florescer florescimento martin seligman psicologia positiva9 anos depois da publicação do Felicidade Autêntica, com novas e importantes pesquisas sobre a felicidade, Seligman publica o Florescer (Flourish: a visionary new understanding of happiness and well-being, 2011), onde faz uma mudança teórica significativa, ao deixar de abordar o conceito de felicidade, para abordar o de bem-estar. Com essa mudança, as formas de felicidade anteriormente descritas passam a ser elementos da nova teoria.

O novo modelo é representado didaticamente pelo acrônimo PERMA

  • P – Positive emotion (Emoção positiva)
  • E – Engagement (Engajamento)
  • R – Relationships (Relacionamentos)
  • M – Meaning (Significado)
  • A – Accomplishment (Realização)

Dessa forma, cada elemento contribui, mas não define o bem-estar. A tabela abaixo compara os temas, padrões de mensuração e objetivos correspondentes às duas teorias.

psicologia positiva martin seligman
(Seligman, 2012, p. 19)

Referências e recomendações de leitura:

Achor, S. (2012). O jeito Harvard de ser feliz. São Paulo: Editora Saraiva.

Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press and Washington, DC: American Psychological Association.

Pureza, J. R.; Kuhn, C. H. C.; Castro, E. K. & Lisboa, C. S. M. (2012). Psicologia positiva no Brasil: Uma revisão sistemática da literatura. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. 2012, 8 (2), pp.109-117.

Seligman, M. E. P. (2010). Felicidade autêntica: usando a nova psicologia para a realização permanente. Rio de Janeiro: Objetiva.

Seligman, M. E. P. (2012). Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva.

Para saber mais e já sobre Psicologia Positiva:

Por Caio Ferreira

As 3 Grandes Forças em Psicologia

Psicologia? Psicanálise? Behaviorismo? Gestalt-Terapia? Perls? Skinner? Freud? Como é estruturado o saber psicológico? O que é o que?

O texto de hoje visa explanar sobre as chamadas 3 Grandes Forças em Psicologia, a fim de traçar uma organização teórica e cronológica acerca do behaviorismo, psicanálise e das linhas humanistas-existenciais.

A Psicologia enquanto ciência

Wundt e estudantes de psicologia em Leipzig

1879 é considerado o ano de nascimento da psicologia. Naturalmente que já se falava de psicologia e de temas como mente, comportamento, felicidade, sofrimento, percepção, inteligência, emoção, saúde, doença, entre outros tópicos basilares, desde a antiguidade, porém, 1879 é o ano em que W. M. Wundt (1832-1920) funda o 1º laboratório de psicologia experimental (Psychologische Institut, na Universidade de Leipzig – Alemanha). É a partir dessa data que a psicologia começa a criar um campo de conhecimento próprio, com metodologia própria e separada do saber filosófico.

Esta ciência tem de investigar os fatos da consciência, suas combinações e relações, de tal modo que possam, finalmente, descobrir as leis que governam tais relações e combinações.

(Wundt, 1912/1973, p. 1)

Os primeiros psicólogos experimentais (além de Wundt vale citar Ernst Heinrich Weber [1795-1878] e Gustav Theodor Fechner [1801-1889]) se debruçaram sobre temas como consciência, introspecção, sensação e percepção, limiares de percepção, atenção e emoções, por exemplo e utilizaram, principalmente, técnicas da chamada psicometria e psicofísica, para analisar e medir esses fenômenos.

A partir dessas investigações surgem ramificações, movimentos e escolas próprias como o estruturalismo, o funcionalismo, o behaviorismo (1ª grande força), a psicanálise (2ª grande força) e a psicologia humanista-existencial (3ª grande força). Essas correntes psicológicas são arcabouços teórico-práticos que influenciam a forma com que o psicólogo compreende e intervém sobre as questões humanas.

1ª Grande Força em Psicologia: o Behaviorismo

skinner, watson e pavlov
(Skinner, Watson e Pavlov com um cão, respectivamente)

O behaviorismo (ou comportamentalismo) nasce como uma crítica ao introspeccionismo e às teorias mentalistas (como a psicanálise), isto é, quando o indivíduo busca acessar, se conscientizar e relatar seus estados internos. Para os behavioristas, o introspeccionismo é falho e, além de fornecer informações errôneas, afasta a psicologia do seu verdadeiro objeto de estudo – o comportamento.

O problema mentalista pode ser evitado com procurarmos diretamente as causas físicas anteriores, desviando-nos dos sentimentos ou estados mentais intermediários. A maneira mais rápida de fazer isto consistem em limitarmo-nos àquilo que um dos primeiros behavioristas, Max Meyer, chamou de “a psicologia do outro”; considerar apenas aqueles fatos que podem ser objetivamente observados no comportamento de alguém em relação com a sua história ambiental prévia. Se todas as ligações são lícitas, não se perde nada por desconsiderar uma ligação supostamente imaterial.

(Skinner, 1974/2006, p. 16)

Dessa forma, essa corrente da psicologia se debruçou sobre o que pode ser observado e mensurado diretamente, isto é, o ambiente e o comportamento da pessoa, ou seja, as contingencias ambientas e comportamentais (estímulos anteriores e posteriores referentes à uma ação).

Podemos entender estímulo como “uma alteração detectável no meio em que o indivíduo está inserido” (Lombard-Platet, Watanabe & Cassetari, p. 37, 2008), o que compreende, por exemplo, alterações na luminosidade, temperatura, sons, cheiros e qualquer coisa captada pelos órgãos sensoriais. O comportamento, em um primeiro momento, tem ser uma ação observável e mensurável, isto é, o behaviorista não analisa o “sofrer” ou a “diversão”, mas pode analisar, em intensidade e frequência, o chorar, a diminuição da fala, a mudança na postura, o gritar, o sorrir, o pular, o correr…. Também falamos de comportamentos involuntários (respondentes, como alteração de pupila, sudorese, salivação, erubescer…) e voluntários (operantes, como acender a luz, pegar uma revista, andar até a padaria…). De uma forma resumida, os comportamentos involuntários são eliciados pelos estímulos antecedentes (condicionamento clássico, pavloviano ou respondente) enquanto os comportamentos voluntários são emitidos, reforçados, punidos ou extintos pelas suas consequências – o estímulo posterior (condicionamento operante). Com o avanço da corrente behaviorista passou-se a falar também dos chamados comportamentos encobertos, isto é, aqueles que não são observados diretamente por outrem (como pensar, sonhar, imaginar…). É importante dizer também que seu desenrolar/legado fez nascer a TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental.

Autores do Behaviorismo

Os 3 principais e “clássicos” autores do behaviorismo são I. Pavlov (1849-1936), responsável pela descoberta do comportamento respondente; J. B. Watson (1878-1958), considerado o fundador da corrente, pai do behaviorismo metodológico e famoso pelo experimento do pequeno Albert; e B. F. Skinner (1904-1990), pai do behaviorismo radical, que ampliou as “Leis do Efeito” (de E. L. Thorndike) enquanto compreensão do comportamento operante, grande autor sobre processo de aprendizagem, criador da Caixa de Skinner, famoso pelos experimentos e demonstrações com ratos e pombos.

2ª Grande Força em Psicologia: a Psicanálise

consciente inconsciente id ego superego
(Representação da compreensão Freudiana sobre o aparelho psíquico humano: 1ª e 2ª tópica)

Aqui temos o papel do influente Sigmund Freud (1856-1939) e a importância da vida psíquica inconsciente, onde emergem temas como psicossomática, desenvolvimento psicossexual, neurose, histeria, mecanismos de defesa, sonhos, desejos e censuras. A psicanálise nasce na psicologia e dialoga, principalmente, com a psicologia clínica, todavia, hoje ela está para além da questão clínica, aparecendo como uma forma de estudar os aspectos dinâmicos da sociedade, economia, política e pensamento. Dessa forma, hoje temos muitos psicanalistas que não são psicólogos, mas possuem formação básica em filosofia, sociologia, medicina, letras e outras graduações. Falamos também de psicanálises, isso pois se trata de uma das linhas teórico-práticas que mais apresentam diferenças conceituais e intervencionistas de autor para autor, o costuma causar confusões naquilo que diz respeito às compreensões iniciais na temática. Mas, independente das diferenças do psicanalista em questão e como ele vai compreender aspectos do psiquismo, as psicanálises se aproximam quando compreendem um processo de conhecimento/tratamento/cura que, necessariamente e para sua efetividade, precisa passar pelo outro. Isto é, só sei de mim, pelo outro – e sobre essa questão específica, recomendo o seminário A Utopia do Autoconhecimento, veiculado no Café Filosófico, por Ricardo Goldenberg.

As psicanálises também costumam compartilhar a questão da transferência, isso é, padrões específicos relacionados às relações interpessoais passadas que direcionam a forma como a relação presente se manifesta e se estabelece – a transferência diz sobre seu portador e seu manejo pode ressignificar/resolver conflitos reprimidos. A noção da influência dos processos inconscientes também é basilar sobre o discurso do sujeito (discurso aqui, não compreende apenas a fala).

Digamos que alguém — um paciente em análise, por exemplo — nos relata um de seus sonhos. Nós supomos que desse modo ele faz uma das comunicações que se comprometeu a fazer iniciando um tratamento psicanalítico. Uma comunicação com meios inadequados, é certo, pois o sonho não é uma expressão social, um meio de entendimento. Não compreendemos o que ele quer dizer, e ele próprio não sabe o que é. Então temos que tomar rapidamente uma decisão: ou o sonho, como nos asseguram os médicos que não são psicanalistas, é um indício de que a pessoa dormiu mal, de que nem todas as partes do seu cérebro descansaram igualmente, de que alguns pontos quiseram continuar trabalhando, sob a influência de estímulos desconhecidos, e só puderam fazê-lo de modo bastante incompleto. Se assim for, será correto não nos ocuparmos mais do produto — psiquicamente sem valor — da perturbação noturna; pois o que tal pesquisa traria de útil para nossos propósitos? Ou então — percebemos que desde o início já decidimos de outra forma. Fizemos o pressuposto, adotamos o postulado — bem arbitrariamente, deve-se admitir — de que também esse sonho incompreensível teria de ser um ato psíquico inteiramente válido, de sentido e valor plenos, que podemos usar como qualquer outra comunicação na análise.

(Freud, 2010 pp. 95-96)

O clínico Freud foi influenciado, principalmente, por J.-M. Charcot (1825-1893), com quem aprendeu sobre histeria e hipnose, e J. Breuer (1942-1925) com quem estudou o método catártico (a cura pela fala). Sua obra é grande, estruturada e desenvolve o nascimento da psicanálise por meio de contato com outros saberes (biologia, física e literatura) e por meio dos processos de análise clínica e da autoanálise do próprio Freud.

Durante muito tempo, o aspecto mais conhecido e discutido da obra de Freud era o da teoria da libido, que ele elaborou inspirado nos modelos da eletrodinâmica ou da hidrodinâmica vigentes na ciência da época. Assim, o conceito de libido, que Freud concebeu como sendo a manifestação psicológica do instinto sexual, recebeu sua origem na tentativa de explicar fenômenos, tais como os da histeria, que Freud explicava como sendo resultantes do fato de que a energia sexual era impedida de expandir-se através de sua saída natural e fluía, então, para outros órgãos, ficando restringida ou contida em certos pontos e manifestando-se através de sintomas vários. Freud chegara à conclusão de que as neuroses, como a histeria, a neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia (fobia), teriam sua causa imediata no aspecto “econômico” da energia psíquica, ou seja, num represamento quantitativo da libido sexual.

(Zimerman, 2007, p.23)

Autores da Psicanálise

Para além do próprio Freud, podemos citar a influência de nomes como J. Lacan (1901-1981), que propôs um retorno sistemático à obra de Freud e a relacionou com os saberes da antropologia, linguística e estruturalismo, além de ter desenvolvido conceitos como Real, Simbólico e Imaginário; M. Klein (1882-1960), expoente da chamada “escola inglesa de psicanálise” foi uma das primeiras psicanalistas a atender crianças e sua contribuição se dá, principalmente, na compreensão dos componentes e fenômenos associados à vida psíquica primitiva; D. Winnicott (1896-1971) que abordou o papel do ambiente-cuidador para com o desenvolvimento emocional do sujeito e trouxe, entre outros, os conceitos de criatividade primária e tendência antissocial.

3ª Grande Força em Psicologia: a Psicologia Humanista-Existencial

Como uma reação ao behaviorismo e à psicanálise, a partir da segunda metade dos anos 1950 (e ganhado maior desenvolvimento e destaque durante as duas décadas posteriores), surge a 3ª Força. Contrária a uma visão determinista do homem (seja pela questão dos condicionamentos comportamentais ou pelo determinismo do inconsciente), ela valoriza a experiência consciente e trabalha com tópicos como: livre arbítrio; autorrealização; criatividade; esperança; potencial; sentido; contato; decisão; congruência; responsabilidade; entre outros…

(Abraham Maslow)

Seu fundador é considerado A. Maslow (1908-1970), famoso por desenvolver a “pirâmide hierárquica das necessidades básicas” e quem primeiro cunhou o termo “psicologia positiva“, em uma contraposição à chamada “psicologia negativa” – tradicional e focada na doença, no transtorno, no sofrimento e em seu tratamento/cura. Dessa forma, a Psicologia Humanista incorporou a visão de homem e mundo referente aos movimentos intelectuais do humanismo, do existencialismo e da fenomenologia. Dentro dela, vamos encontrar abordagens distintas como a Gestalt-Terapia, a Abordagem Centrada na Pessoa, ou a Logoterapia, por exemplo, onde cada uma tem suas particularidades clínicas e acabam por se aproximar mais do humanismo ou do existencialismo, a depender da linha téorico-prática, mas todas fazem parte da 3ª força que, segundo Schultz & Schultz (2008), integra os seguintes pontos essenciais:

  1. uma ênfase na experiência consciente;
  2. uma crença na integralidade da natureza e da conduta do ser humano;
  3. a concentração no livre-arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do indivíduo;
  4. o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição humana.

Dentre as abordagens clínicas dessa corrente psicológica, aquela que mais me identifico e acabei por estudar é a Gestalt-Terapia (não confundir com Psicologia da Gestalt). Essa abordagem é sempre uma terapia do contato e seu manejo é pautado no aqui-agora, sendo que a relação terapeuta-paciente funciona do ponto de vista dialógico, onde o terapeuta confronta e frustra o paciente que tenta se esquivar ou fugir do seu contato e experiência com o presente. A fenomenologia pauta o setting clínico e, desta forma, a interpretação não é adequada, mas sim a descrição. A farsa, as atuações e as incongruências não se sustentam na Gestalt-Terapia, uma vez que são valorizadas e validadas as experiências mais espontâneas e verdadeiras de alguém.

Gestalt-terapia é uma das forças rebeldes, humanistas e existenciais da psicologia, que procura resistir à avalanche de forças autodestrutivas, autoderrotistas, existentes entre alguns membros de nossa sociedade. Ela é “existencial” num sentido amplo. […] Nosso objetivo como terapeutas é ampliar o potencial humano através do processo de integração. Nós fazemos isto apoiando os interesses, desejos e necessidades genuínas do indivíduo.

(Perls, 1977, p.19)

A Gestalt-Terapia deve ser experimentada para melhor compreensão – ela não se basta enquanto teoria. Caso tenha curiosidade em saber como é uma sessão com abordagem gestáltica, recomendamos que participe de uma 😉 E recomendamos também que assista um, das várias sessões gravadas, com F. Perls – pai da GT. (após esse vídeo, colocamos também um atendimento de Carl Rogers, com a mesma mulher, para finalidades didáticas e comparativas).

Autores da Psicologia Humanista-Existencial

Como já foi dito antes, há abordagens mais humanistas e outras mais existenciais. C. Roger (1902-1987) pai da Abordagem Centrada na Pessoa e dos Grupos de Encontro, estudou sobre o crescimento pessoal, as relações interpessoais e os processos experienciais; F. Perls (1893-1970) ex-psicanalista, pai da Gestalt-Terapia, contribuiu naquilo que diz respeito à visão holística sobre o indivíduo, sobre o papel do terapeuta na conscientização das incongruências, bem como sobre as dificuldades da pessoa em experienciar e desfrutar do presente. V. Frankl (1905-1997), pai da Logoterapia, tem uma abordagem mais existencialista que se relaciona com a temática do sentido da vida – que começou a ser desenvolvida quando esse foi prisioneiro em um campo de concentração nazista.

Referências

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras.

Lombard-Platet, V. L. V.; Watanabe, O. M. & Cassetari, L. (2008). Psicologia experimental: Manual teórico e prático de análise do comportamento. São Paulo: Edicon.

Schultz, D. P. & Schultz, S. E. (2008). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Stevens, J. O. (Perls, F. et al.) (1977). Isto é Gestalt. São Paulo. Summus.

Wundt, W. (1912/1973). An introduction to psychology. Translation R. Pintner. London: George Allen & Company, Ltd.

Zimerman, D. E. (2007). Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

Os Fantasmas em nós

Fantasmas e Psicanálise

Carregamos um peso que não é nosso, pelo menos na medida em que ele nos precede, vem de alguém antes de nós. Tomamos decisões e caminhos na vida que, muitas vezes são guiados por isso.

Ultimamente tenho pensado bastante sobre o tema do peso que a história da nossa família incide em nós.

História familiar x Psicopatologia

Menina com Máscara da Morte (Niña con Máscara de Calavera): Frida Kahlo, 1938
Insira uma legenda

(Menina com Máscara da Morte: Frida Kahlo, 1938)

Quando nascemos, somos bombardeados por desejos e expectativas de nossos pais e familiares. Nosso nome é carregado de significações consciente e inconscientes. Entramos em uma rede simbólica complexa, que nos precede e nos sucederá no futuro.

Fazendo uma alusão rápida à noção de nó-borromeano, em Lacan, podemos pensar que o sujeito, inicialmente inscrito no Real, recebendo a significação externa do Outro, bem como suas fantasias e formas de ver o mundo.

É discutido se transtornos mentais são passados entre as gerações. Alguns, acredito, com mais propensão à serem de fato, como a Esquizofrenia. O que se propõe é que o sintoma familiar é atualizado geração após geração em seus membros novos, através dessa rede de significações.

Essa rede de filiação nos determina, isto é, dependemos dela, principalmente no início da vida para constituirmos nosso Eu. O que faremos com isso é o importante. Temos, em geral, 03 opções:

– Seguir à risca o que queriam de nós, algo do tipo: “ser um advogado pois meu pai sempre quis, ou porque foi de fato um”;

– Ir absolutamente contra todos os modelos apresentados, fazer “exatamente o contrário do que o pai queria”, causando, geralmente, um rompimento das relações entre pais e filhos;

– Produzir algo à partir daquilo que se recebeu. Aceitar a herança simbólica e subjetiva, e fazer produzir.

É interessante perceber que hora ou outra, durante uma análise, se empreende uma busca pela história da família. O sujeito começa à desamarrar questões que podem estar determinando suas escolhas, suas vontades, seu desejo, em última instância.

Os mortos andam entre nós

O passado está vivo. E quem não quiser olhar para ele, que pague a conta de seu enterro vivo. Pelos estudos mais confiáveis, para cada pessoa viva hoje na terra, existem cerca de 15 mortos, que um dia andaram pelo planeta. Passo à perceber cada vez mais a importância dos mortos nos vivos.

O inconsciente é atemporal, já dizia Freud. Justamente por essa atemporalidade podemos pensar em uma transmissão dos traumas, das expectativas, medos e desejos mais profundos da família.

A noção de Fantasma* em Psicanálise está ligada à fantasia fundamental daquele sujeito, isto é, uma narrativa através da qual o sujeito se coloca no mundo, se enxerga e se relaciona com os outros. O atravessamento dessa fantasia, isto é, das identificações mais aglutinadas e alienantes em relação ao Outro, é o objetivo de uma análise, até porque, como dizia Lacan, não há cura, na medida em que não se pode cura-lo de seu inconsciente.

Uma referência na cultura

download

(A maldição da residência Hill: Netflix, 2018)

Recentemente assisti à mini-série do Netflix, “A maldição da residência Hill”, que por sinal gostei muito, e me levou à iniciar essa reflexão.

À primeira vista parece mais uma história clichê de filmes de terror: uma casa no meio do nada, uma família tradicional americana, um fundo religioso e muitos jump-scares (sustos com imagens chocantes, cortes rápidos de câmera e sons altos). É muito mais do que isso. Acreditem.

Acho que os piores fantasmas são aqueles desejos, vontades, sentimentos e afetos que não damos vazão, ou não fazemos nada à respeito. Eles nos assombram através das décadas e talvez até dos séculos. A Cultura nos permite isso.

Aquilo que não é simbolizado retorna de forma brutal, no Real. Ai que se dá, de forma simplista, o sintoma das psicoses.

Escravidão: um aporte nacional

Calligaris (2017), aponta que, no Brasil, parece se perpetuar um “Fantasma da escravidão”. As nossas relações são permeadas por essa lógica de dominação e servidão ao outro. Nossas relações de trabalho estão pautadas justamente na dialética senhor-escravo.

Relacionamentos amorosos entram também nesse jogo, uma briga de poder de quem pode mais. O casamento é tido por muitos como o fim do mundo, entra-se em uma relação de subjugação.

 

Alguns fantasmas parece que insistem em voltar. Pouco a pouco, parece que estamos voltamos à 64. Tomara que eu esteja errado.

Como um ditado popular italiano diz: “Aquilo que você manda embora pela janela, volta pela porta”.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Importante notar que Lacan se utiliza do termo fantasma, em contrapartida à Freud, que falava em Fantasia. Para maior detalhamento, sugiro a leitura do texto de Jean-Jacques Tyszler, e do vídeo de Christian Dunker, listados abaixo.

Referências Bibliográficas

Calligaris, C. (2017). Hello Brasil e outros ensaios. São Paulo: Três estrelas.

Dunker, C. (2017) Fantasma, fantema e fantasia na psicanálise? In Falando nisso produzido por Buli, L & Bulhões, J. Link:

https://www.youtube.com/watch?v=QqZnJVRRtsk

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Psicanálise Infantil: O Que Precisa Ter Dentro da Sua Caixa Lúdica?

Hoje falaremos sobre questões relacionadas à psicoterapia psicanalítica infantil e à utilização da caixa lúdica em contexto clínico.

Psicoterapia infantil

Primeiramente, e buscando responder uma dúvida que se mostrou comum, principalmente para os estudantes de psicologia, é importante dizer que existem diversas abordagens dentro da psicologia clínica e essas possuem teorias e técnicas distintas para compreensão e intervenção sobre o comportamento/psiquismo infantil, o que implica, por exemplo, e para as finalidades do seguinte texto, na utilização ou não de brinquedos/técnica do brincar e/ou caixa lúdica, variando de psicoterapeuta para psicoterapeuta e correspondendo diretamente às suas respectivas linhas e abordagens teórico-práticas. Dentro mesmo da psicanálise (onde há um volume relevante de publicações acerca da utilização de brinquedos no setting analítico) existem profundas divergências sobre a prática. Sendo assim, para quem busca compreender melhor as possibilidades de atuação em psicoterapia infantil que não empregam os tais recursos lúdicos, recomendamos o texto A Clínica da Infância à Partir de Lacan, que foi escrito pelo Psicólogo e Psicanalista Igor Banin.

Anna Freud & Melanie Klein

No começo, a psicanálise não atendia crianças. Hermine Von Hug-Hellmuth, Anna Freud (filha de Sigmund Freud) e Melanie Klein foram as primeiras psicanalistas a atenderem crianças. É verdade que Freud analisou o Pequeno Hans (sendo que os primeiros relatos apontam que esse tinha 3 anos), mas as observações foram feitas pelo pai da criança e Freud encontrou uma única vez com Hans (Reghelin, 2008).

psicanálise infantil psicoterapia brincar
(Anna e Sigmund Freud)

Anna e Klein trilharam caminhos distintos e propuseram atuações clínicas muitos diferentes. Para Anna, “o analista deve ser educador, porque o superego do paciente ainda depende dos objetos exteriores que o originaram e não está maduro.” (Paula, 2017,p.16). Podemos dizer que sua orientação clínica foi essencialmente pedagógica e que voltou-se mais para o Ego consciente do que para a esfera do inconsciente (Zimerman, 2004), além de valorizar o processos como sonhos, fantasias diurnas, desenhos e limitando a utilização de jogos (Trapiá et al., 2012).

“Anna Freud entendia o brincar como atividade expressiva e não simbólica (pois o simbólico estava ligado ao reprimido) e Melanie Klein via o brincar como alocução e destinado ao analista, pressupondo diferentes níveis de simbolização conforme idade, nível de funcionamento mental, quantidade e qualidade das angústias da criança”

(Reghelin, 2008, pp. 170-171)

Melanie Klein Brincadeira Psicoterapia Infantil Psicanálise
(Melanie Klein e criança)

Klein foi responsável por introduzir uma modificação na técnica básica da psicanálise e substituiu a palavra pelo brincar. Dessa forma, propôs que a brincadeira seria uma via de acesso aos conteúdos inconscientes da criança, equivalendo o meio à linguagem verbal do adulto. “Diferente de Anna Freud, Klein baseia-se na utilização do jogo e continua as investigações de Freud, a fim de construir um arcabouço teórico, a partir da observação de bebês e dos atendimentos com crianças.” (Paula, 2017, p.16). Sua teoria e prática explorou os fenômenos dinâmicos do brincar na cena analítica, trouxe compreensões sobre a técnica do brincar e possibilitou a compreensão da vida mental primitiva (abrindo novos horizontes dentro do campo da psicanálise).”Em 1932, ela notou que a criança expressava suas fantasias, desejos e experiências simbolicamente no brinquedo e acentuou a importância da caixa de brinquedos, que incluía pequenas figuras animais e humanas, pequenos veículos, recipientes, lápis, cola, massa de modelar, fita adesiva, cordão, tesoura… Objetos pequenos e inespecíficos.” (Reghelin, 2008, p. 169).

brinquedos usados por melanie klein caixa lúdica brincar
(Brinquedos utilizados por M. Klein em psicoterapia com crianças)

Não há regras rígidas sobre o que se deve ter dentro de uma caixa de brinquedos, mas é sensato admitir que o analista deve selecionar, além de objetos que não ofereçam risco à saúde do analisando, relacionando com os objetivos da sessão, do tempo disponível e da idade da criança, selecionar objetos que permitam emergir a expressividade dos conflitos emocionais e a potencialidade dos processos criativos. Dentro dessa seleção, a escolha dos objetos feita pela criança, bem como a forma de utilização, deve ser observada como um ato psíquico intencional e comunicacional que revela muito, a nível clínico, sobre seu portador. Trocando em miúdos, estamos falando da possibilidade de observação dos vínculos, situações edípicas, fantasias, desejos, resistências, sentimentos e até questões como os aspectos maturacionais, motores e cognitivos, por exemplo.

“O trabalho tradicionalmente realizado por Melanie Klein com crianças era conduzido através das observações e interações durante o brincar, que permitiam que a criança criasse, tanto através da construção quanto pela destruição. Água, cola, papéis, tintas, tesouras, alguns bonecos e outros componentes provocavam as mais diversas reações nas crianças, permitindo-lhes criar, repetir, gerar angústia e expressar essas questões a partir da maneira como utilizavam esses itens.”
(Leite, 2016, p. 146)

Caixa de Brinquedos / Caixa Lúdica

Quem realmente introduziu o caixa de brinquedos no setting foi Arminda Aberastury. Ela via esse recurso como representação do mundo interno da criança e contingente de suas representações inconscientes e relações objetais (Reghlin, 2008, p. 169). Há psicoterapeutas, por exemplo, que utilizam uma caixa lúdica diferente para cada criança e outros que trabalham com uma caixa em comum para todas elas.

caixa lúdica psicologia psicanáliseNão há regra ou checklist sobre os itens que devem compor a caixa, todavia, além das preocupações clínicas já citadas, é importante uma espécie de antecipação à certos desenrolares possíveis de brincadeiras, isto é, por exemplo, caso escolha colocar pincel e tinta em sua caixa e deixá-los à disposição da criança, provavelmente também será necessário papel e/ou toalha, água, bem como um ambiente que comporte respingos e manchas de tinta. Esse é um adendo que faço, principalmente aos iniciantes. É natural que com a experiência prática, esse tipo de situação seja ultrapassada.

A maioria das caixas lúdicas são feitas de papel, madeira ou plástico e, de uma forma geral, os principais itens encontrados em seus interiores são: papeis sulfite (brancos e coloridos), papel kraft, lápis, lápis de cor, aquarela, apontador, giz de cera, massinha, retalhos, perflex, cola (bastão e/ou líquida), fita adesiva, barbante, jogos (como damas, dominó, jogo do mico ou pega varetas) e brinquedos (como fazendinha, família terapêutica, carrinhos, casinhas, conjunto de cozinha, telefone). Vale citar a preocupação que alguns tem em colocar ou não a borracha e a tesoura dentro das caixas, isto é, a não borracha faz lidar com a frustração de um desenho falho e a não tesoura obriga a utilização de outros meios para separar os objetos, por exemplo. “Klein sugere que os materiais sejam pequenos, permitindo que a criança os manipule, ou seja, tenha controle sobre os mesmos, mas não tão pequenos que possam colocar sua vida em risco.” (Trapiá et al., 2012, p. 239)

A caixa lúdica contempla brinquedos, jogos e materiais lúdicos. Alguns aspectos a serem observados durante a interação da criança para com os itens dizem respeito, por exemplo, a:

  • exploração ou não do material;
  • classificação e experimentação dos materiais;
  • organização e separação dos itens;
  • fixação em algum item ou jogo;
  • resistências;
  • estruturação da brincadeira com início, meio e fim;
  • interrupção de atividades;
  • escolha da brincadeira;
  • temática da brincadeira;
  • regras da brincadeira;
  • papel na brincadeira/jogo dramático;
  • histórias, situações e conflitos emergentes;
  • ações de juntar/colar X ações de separar/cortar;
  • utilização do corpo e do espaço;
  • entre outros…

“A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é.”

(Winnicott, 1975, p. 65)

Espero que o texto tenha auxiliado na sua compreensão sobre alguns fatos e implicações acerca da psicoterapia voltada ao público infantil, bem como na diferença do emprego de brinquedos e na utilização da caixa lúdica em um setting. Também espero que você continue brincando…emocionalmente…sempre e convide outros a brincar consigo. Até breve.

Referências consultadas

Aberastury, A. (1982). Psicanálise da criança: teoria e técnica. Porto Alegre: Artes Médicas.

Leite, R. F. (2016). Caixa lúdica e novas tecnologias. Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte-MG, n. 45, pp. 145–148, julho/2016.

Paula, L. de (2017). Psicanálise infantil: uma intersecção entre a teoria e a prática. Secretaria de Estado da Saúde. São Paulo.

Reghelin, M. M. (2008). O uso da caixa de brinquedos na clínica psicanalítica de crianças. Contemporânea – Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.05, Jan/Fev/Mar 2008, pp. 167-179.

Trapiá, A.; Tagliapietra, C.; Usui, E.; Hammoud, M. & Coelho, T. L. (2012). O psicoterapeuta e a escolha do material no processo de ludodiagnóstico. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 3, n. 2, p. 233-240, dez. 2012.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

Zimerman, D. E. (2004). Manual de técnica psicanalítica: uma revisão. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

Implicações do Reconhecimento Automático da Expressão Facial da Emoção

Devemos olhar para faces ou para telas?

Pois ouvi essa semana que “as máquinas leem emoções melhor do que as pessoas, mas elas não têm emoções”

Impressões da Face Humana

Na época da graduação em psicologia, especificamente no último ano (onde há estágios clínicos e disciplinas de supervisão), não era raro ouvir as impressões que meus colegas traziam sobre a face do paciente que estavam atendendo. Impressões essas que vinham na forma de “uma cara fechada”; “uma cara estranha” e até “um semblante péssimo”. É sabido que por meio da comunicação não-verbal (CNV) a pessoa expressa fenômenos como conforto, desconforto, emoções, sentimentos e dor (Ferreira, 2018; Knapp & Hall, 1999), por exemplo, todavia, ainda em uma graduação de psicologia (e pelos menos na que frequentei e nas comparações que colho de meus pares) não há uma disciplina, cuja ementa, vise apresentar, ensinar e discutir a análise da linguagem corporal, da expressão facial da emoções e da paralinguagem (fundamentais tópicos da CNV dos seres humanos).

Uma vez que eu já conhecia algumas questões técnicas e metodológicas acerca da CNV, ficava ouvindo os relatos dos meus colegas estagiários e me perguntando como seria aquela face que eles não conseguiam descrever: “será que as sobrancelhas estavam abaixadas? Será que o olho estava arregalado? Será que havia tensão nas pálpebras? Será que havia algum tipo de pressão nos lábios ou ação na boca?” Por exemplo. Mas não fazia sentido perguntar, pois os meus colegas não estavam observando essas ações e movimentos, mas apenas relatando aquilo que eles haviam experienciado sobre aquela expressão emblemática do paciente, que se configurava para mim como apenas uma silhueta sem forma definida.

expressão facial da emoçãoE, sem descrições e avaliações científicas das ações e movimentos faciais, nunca foi possível, em situações como essas relatadas, trabalhar adequadamente o que aquela expressão facial carregaria consigo, a nível emocional, por exemplo, ou o que ela estaria representando ou o porquê ela está sendo exibida naquele momento. E digo isso, não para expor os meus colegas, mas para expor uma falta de formação específica e que se faz necessária quando o assunto é a expressão facial e a emoção. E digo isso também, pois espero que, com o final desse texto, você possa se atentar um pouco mais para as expressões faciais, na hora de avalia-las e de relatá-las também. Então, quando se deparar com uma “cara fechada”, ou “com uma cara estranha” e até “com um semblante péssimo”, peço que busque começar a treinar o seu olhar para identificar os movimentos faciais que ali estão.

Afinal, a face é a parte do corpo que mais exibimos ao outro durante nossas relações (com exceção de algumas culturas); ela é o nosso 1º sistema de comunicação humano; o choro e depois o sorriso são os primeiros organizadores do psiquismo humano. Sendo assim, é importante compreender como funcionam os comportamentos faciais e para que servem. Vale lembrar que as microexpressões faciais foram descobertas por meio de análises de sessões com psicoterapias que foram filmadas e revelaram, por exemplo, a angustia e o sofrimento de pacientes suicidas, ainda que esses relatasses, pelo canal verbal, melhoras.

Em resumo, a expressão facial da emoção analisada e mensurada, de forma científica, nos permite ver um mundo emocional por de trás de uma face; ela revela o que a pessoa sente e apresenta marcadores universais.

Reconhecimento automático da Expressão Facial da Emoção

Quando comecei a estudar a mensuração da expressão facial em seres humanos (antes de graduação, em meus primeiros contatos com as descobertas de Paul Ekman), lembro que o reconhecimento automático “era o futuro”. Já hoje, é público o fato de as câmeras e softwares apanharem nossas expressões cotidianas, com finalidades de análise e compreensão dos nossos estados internos. É necessário dizer que a análise de imagens digitalizadas permite também aplicações como a autenticação biométrica, mas não é esse o foco do seguinte texto. Falaremos hoje sobre os recursos que identificam emoções (como câmeras em lojas e vitrines que buscam mensurar as reações dos clientes ou plataformas que analisam as emoções dos candidatos em entrevistas de emprego).

Existem inúmeros algoritmos de reconhecimento da face humana e de suas expressões. Cada um possui suas particularidades, mas a maioria deles costuma trabalhar com elementos como: identificação/detecção da face e das principais regiões faciais (olhos, boca e nariz); colocação dos pontos de leitura; calibragem automática ou manual; identificação de rugas; posição da cabeça; posição dos olhos; reconhecimento da expressão facial; e alteração de aparência – marcadores importantes que fazem parte das análises de imagem e/ou vídeo. Quando a máquina busca emoções, esse conjunto de dados é analisado e convertido, de forma automática, em probabilidades dos estados emocionais, geralmente, relacionado às emoções básicas (alegria, tristeza, raiva, aversão, medo, surpresa e desprezo).

Reconhecimento automático facereader emoções face
(Exemplo de reconhecimento automático da expressão facial da emoção, com o software FaceReader, da Noldus – estudo feito no CICEM, por meio de parceria científica pioneira no Brasil, vigente desde 2017).

openface reconhecimento automático
(Exemplo de captação da face, de suas regiões e ações com o Software OpenFace 2.0. Estudo feito no CICEM)

Do ponto de vista teórico, uma série de pesquisadores da computação afetiva apontam que a capacidade da máquina em ler os estados afetivos de seus usuários teria efeitos benéficos (nas melhores hipóteses, falamos de máquinas capazes de reconhecer a expressão facial de alguém e atribuir uma saída condizente com a situação em questão) (Pantic et al., 2006; Picard, 1997; Robinson & el Kaliouby, 2009), entretanto, do ponto de vista prático, o que encontramos à nossa volta são utilizações mais problemáticas relacionadas à violação de direitos do que uma própria melhoria na relação homem-máquina. Raras têm sido as notícias sobre o incentivo das habilidades emocionais, frequentes têm sido os entusiastas da inteligência emocional e mais comuns ainda são os informes de novas inteligências que detectam emoções. Isso acontece pois as pessoas negligenciaram as faculdades emocionais por muito tempo e agora não sabem ler as emoções nos outros e não sabem gerir as próprias emoções em si mesmas.

“Desde o início da Computação Afetiva, os pesquisadores tem buscado formas de permitir que o computador seja capaz de reconhecer e responder as emoções humanas. Encontrando-se hoje uma variedade de grupos de pesquisa na área, muitos deles com trabalhos específicos voltados ao reconhecimento das emoções”

(Leão et. al, 2012)

.

Nem tudo é um pântano. As tecnologias de reconhecimento automático permitem analisar mais imagens em menos tempo (se compararmos com a codificação manual), o que tem grande valor na hora de verificar segmentos de vídeo. Isto é, por padrão (e em grande parte), os vídeos possuem 24 frames por segundo, o que significa 24 fotos/quadros dentro de um segundo. Como a investigação da expressão facial é feita quadro a quadro, há vezes em que o auxílio dos softwares é bem-vindo. Outra contribuição diz respeito ao campo da segurança, uma vez que esse tipo de sistema tem sido usado, por exemplo em aeroportos e terminais, para identificação de suspeitos e contenção de ameaças.

Nos cursos que ministro sobre a expressão facial da emoção, levo informações, aplicações e críticas acerca do reconhecimento automático, sendo que um dos melhores usos para ele, a nível didático, mostrou-se ser a comparação e discussão frente à análise/codificação manual para com a automatizada. Sempre digo aos participantes que só confio na utilização de um software desses por alguém que conheça a teoria e a metodologia que sustenta a análise científica da expressão facial da emoção e que, além disso, conheça bem os algoritmos e peculiaridades do software em questão. Por exemplo, há tecnologias que utilizam elementos do Facial Action Coding System (FACS) em suas programações, mas não empregam todas as AUs do código FACS. Nesse caso, para uma utilização adequada, faz-se necessário conhecer o FACS (de forma analógica) e as AUs compreendidas pelo software (de forma digital).

Levar a emoção para as pessoas

Uma das premissas que me levou a criar o curso de Introdução à Psicologia das Emoções (produzido pelo CICEM – Centro de Investigação do Comportamento das Emoções em parceria com a Sociedade dos Psicólogos) foi que as pessoas são ensinas à andar, falar, comer, estudar, mentir, etc….mas, raramente, são ensinadas a sentir e, uma vez que “as emoções determinam a qualidade das nossas vidas” faz se necessário o debruçar sobre temas como emoção, sentimento e afeto.

“Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto”.

A. Einstein

Vejo que, de certa forma, o ensino e a pesquisa tem, cada vez mais, possibilidades de agregar a emoção como uma de suas principais formas de divulgação. Há vozes emocionais que buscam propagar a importância das emoções para, por exemplo, com nossa aprendizagem, relacionamentos, saúde, produtividade, motivação, entre outros. O estudo científico da alegria ganha holofotes e a psicologia positiva é pop – o que é bom e é ruim, pois ao mesmo tempo em que está sendo amplamente divulgada (o que é bom) também está sendo abordada, muitas vezes, de forma errônea e superficial, além de ganhar mais terreno fora do campo da psicologia (do que dentro dele) – isto é, tem sido mais fácil encontrar, atualmente, no Brasil “especialistas” em psicologia positiva que são empreendedores, coachs e “gurus”, do que, propriamente, psicólogos a falar do tema.

Penso que aqui, novamente, aparece a questão de que o tema das emoções vem ganhando holofotes e atenções, todavia, vem sendo tratado e direcionado de forma, pelo menos, estranha.

Talvez haja, atualmente, maior interesse ou tendência em estudar como as maquinas e as cabras reconhecem a expressão facial da emoção, do que investigar as facilidades/dificuldades humanas e propor soluções. Talvez o reconhecimento automático seja uma “solução” contemporânea, mas é triste que as máquinas – que não têm emoções – leiam a emoção melhor do que você – que é humano.

(mas você pode mudar isso)

Referências

Baltrusaitis, T. (2014). Automatic facial expression analisys. University of Cambrige: Computer Laboratory.

Ekman, P. (2003). Emotions revealed: recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. New York, NY: Times Books.

Ekman, P. & Rosenberg, E. L. (Eds.). (2005). What the face reveals: basic and applied studies of spontaneous expression using the facial action coding system (FACS) (2nd ed.) New York: Oxford University Press.

Ekman, P.; Friesen, W. V.; & Hager, J. C. (2002). The Facial Action Coding System. (2nd ed.) Salt Lake City, UT: research Nexus ebook.

Ferreira, C. (2018). Estudos sobre a mensuração científica da face humana: vol. 1 – o guia do emocionauta. São Paulo: CICEM Ed.

Knapp, M. L. & Hall, J. A. (1999). Comunicação não-verbal na interação humana. São Paulo: JSN Editora.

Leão, P. L.; Bezerra, J. S.; Matos, L. N. & Nunes, M. A. S. N. (2012). Detecção de expressões faciais: uma abordagem baseada em análise do fluxo óptico. GEINTEC. São Cristóvão/SE – 2012. Vol. 2/n.5/ p.472-489.

Pantic, M;. Pentland, A.; Nijholt, A. & Huang, T. (2006). Human computing and machine understanding of human behavior: A survey. In ACM International Conference on Multimodal Interfaces, pages 239–248, 2006.

Picard, R. W. (2009). Future affective technology for autism and emotion communication. Philosophical transactions of the Royal Society of London. Series B: Biological sciences, 364(1535):3575–3584, Dec 2009.

Robinson, P. & el Kaliouby, R. (2009). Computation of emotions in man and machines. Philosophical Transactions of the Royal Society of London. Series B: Biological sciences, 364(1535):3441–3447, 2009.

OpenFace 2.0: Facial Behavior Analysis Toolkit Tadas Baltrušaitis, Amir Zadeh, Yao Chong Lim, and Louis-Philippe Morency, IEEE International Conference on Automatic Face and Gesture Recognition, 2018

Por Caio Ferreira