Sobre viver e navegar

Em algum momento percebi que a vida é um oceano. Longo, vasto, diferente dos mares que conhecemos nas praias, este não tem limite. Naveguei em uma embarcação familiar por muito tempo, ali cada um fazia sua parte e de alguma forma, cuidávamos uns dos outros mesmo em momentos de fortes tempestades ou grandes calmaria. Com algum tempo notava outros barcos, navios, balsas ou botes, cada grupo com seu meio de navegar, mas em algum lugar eu via pessoas à deriva, sozinhas ou distantes dos seus.

Passei algum tempo em terra firme, aprendendo a lidar com os imprevistos que acontecem em alto mar, e formas de auxiliar pessoas a encontrar equilíbrio em suas embarcações, as vezes até mesmo a como construir uma, essa foi minha formação como psicoterapeuta. Volta e meia estou lá em uma dessas escolas novamente, sempre há uma ferramenta nova para auxiliar um naufrago ou uma nova forma de fechar um buraco em um casco de barco.

Quando me tornei psicólogo, me foram dadas (ou construí) algumas ferramentas e técnicas que mudaram a minha forma de navegar. Aprendi a ter um olhar e uma escuta focada e atenta, alguém pode estar se debatendo na água bem do seu lado e você nem perceber a tempo de ajudar. Para maiores distâncias tenho uma luneta que me ajuda a ver, ajuda as vezes a encontrar uma embarcação ou porto seguro, onde o resgatado possa descansar e traçar sua nova rota. Gosto muito da habilidade de ficar em silêncio e escutar, o vazio do oceano pode no dizer muito, e assim também posso buscar compreender de onde vem e para onde vai cada uma dos que encontro, infelizmente alguns se perderam, sempre que posso ajudo com um mapa ou calculamos juntos a rota corrigir seu curso.

Tenho sempre a mão uma velha, mas muito boa boia salva vidas, em alguns casos não dá para mergulhar e ajudar, mas essa ferramenta traz lentamente a pessoa até a segurança, e esse tempo é até importante para que ela se acalme e possa aí se organizar e ir em frente.

Com o tempo me separei do grupo que me mantinha, construí minha própria embarcação, e hoje navego nas direções que acho mais importantes, independentemente de onde vá, sempre tem gente para conhecer, suas histórias me encantam, algumas me comovem, me sempre vejo que todos são capazes de encontrar aquele tesouro perdido, ou aquela ilha afastada que tanto procuram, em alguns casos fico feliz de fazer parte deste processo. O mar pode ser traiçoeiro, cheio de perigos, de tempestades e vis piratas, mas a cada dia me torno e acredito que você também, um marinheiro mais ágil, mais atento, mais hábil, e sei que alcançaremos mares mais tranquilos e estáveis. Com o tempo notamos que cada um tem sua forma de navegar, que alguns tem pressa, outros tem muita calma, alguns tem um objetivo muito bem definido, outros só querem aproveitar a vista, independentemente de onde o vento o leve. Conheci aqueles que não queriam mais navegar sozinhos, também conheci aqueles que querem aproveitar o som do oceano, da vida sem muitas pessoas por perto, e aprendemos a apreciar todas as formas de navegar.

O mar é lindo, sentir as ondas, ver as paisagens, conviver com a fauna, tudo isso pode ser muito bom, mas existem tempestades assustadoras, naufrágios trágicos, e até mesmo piratas por aí, e é natural que em algum momento tenhamos medo do que vamos encontrar por aí. Se eu puder ajudar na sua navegação, ficarei feliz, as cartas náuticas da Psicologia foram desenvolvidas para isso afinal, mas de toda forma, espero o melhor para você e todos nós.

De um psico-marinheiro da vida para todos os navegantes por aí procurando uma direção.

Por Psi. Patrício Lauro

Mulheres na fenomenologia brasileira

Dicas de livros na abordagem fenomenológico-existencialista

Em 2013, o Conselho Federal de Psicologia lançou o livro “Quem é a Psicóloga brasileira: Mulher, Psicologia e trabalho” e apresentou dados de uma pesquisa revelando que 88% da nossa classe é formada por mulheres. Apesar desta porcentagem significativa, a atuação de mulheres na ciência se tornou uma possibilidade muitos anos depois da dos homens. Nossa existência nessa área vem trazendo inúmeros desafios. Lidamos com estereótipos e preconceitos de diversas formas.

Uma pesquisa feita em pelo CNPQ (Conselho Nacional de desenvolvimento Científico) em 2020 aponta que, no Brasil, a presença feminina dentro das instituições de ensino diminui à medida que os estudos avançam. Ocupamos 58% das bolsas de iniciação científica durante a graduação e apenas 38% quando se consideram as bolsas de produtividade em pesquisas ( mestrado e doutorado).

Seguimos enfrentando os desafios de sermos Psicólogas brasileiras e profissionais da ciência!

Quem são as autoras e pesquisadoras da área que você têm interesse?

Alguns dias atrás troquei reflexões com um colega de profissão sobre a quantidade de autores homens e autoras mulheres que estudamos durante a graduação e desde então. Percebi que eu nunca tinha levantado este questionamento antes e gostaria de compartilhá-lo com vocês também. Vamos dar mais visibilidade para as autoras e pesquisadoras dentro da Psicologia? Convido-lhes a conhecer uma pequena amostra de obras brasileiras sobre a teoria fenomenológico-existencialista.

Psicologia fenomenológica: Fundamentos, método e pesquisa

Yolanda Cintrão Forghieri

capa do livro retirada da pesquisa no Google

Com uma extensa caminhada acadêmica e docente, Yolanda Cintrão Forghieri desenvolveu diversos trabalhos em Psicologia.

Nesta obra, apresenta de forma fluída alguns fundamentos sobre a fenomenologia e traz pontos sobre a metodologia de pesquisas na área.

Recebi a indicação deste livro como conteúdo extracurricular para revisar alguns pontos sobre a feno. A clareza de sua linguagem torna possível a assimilação sobre a apresentação das bases teóricas.

Outras obras e palestras da autora podem ser encontradas facilmente através de sites de busca.

Conversa sobre terapia

Bilê Tatit Sapienza

Capa do livro retirada de pesquisa no Google

Com uma linguagem sensível e poética, Bilê Tatit Sapienza discorre sobre o processo Psicoterapêutico dando luz a aspectos sutis e profundamente significativos. Desta maneira, a autora promove reflexões sobre o relacionamento que se dá entre terapeuta e cliente.

Meu contato com esta obra aconteceu antes do início do estágio em atendimento clínico na abordagem fenomenológica. Digo-lhes que foi uma leitura transformadora e extremamente acolhedora. Lembro-me que as discussões sobre o livro proporcionaram uma nova possibilidade de olhar para o processo psicoterapêutico.

Deixo aqui o convite para que conheçam também outras obras da autora como “Do desabrigo à confiança”(2013) e “Encontro com a Daseinsanalyse” (2015) .

Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil

Organização de Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo e Elaine Lopez Feijoo

Capa retirada do site da editora IFEN.

Publicado pela Editora Científica IFEN (Instituto de Psicologia Fenomenológico Existencial do Rio de Janeiro), este livro traz reflexões sobre o modo de ser-criança na contemporaneidade, desenvolvimento infantil, entre outros temas.

Além de Feijoo e Feijoo, outras quatro autoras estão presentes: Cristine Monteiro Mattar, Joannelise de Lucas Freitas, Débora Candido de Azevedo e Débora Gil.

Para aquelas que trabalham com crianças ou tem interesse em, fica ai a indicação!

PS: A Editora IFEN publicou diversas coleções temáticas com outros artigos de autoras mulheres.

Pesquisa em Psicologia Fenomenológico-Existencial: Interpretações do Sofrimento na Contemporaneidade

Organização de Elza Dutra e Ana Andrea Barbosa Maux

Capa retirada do site da editora

Esta obra traz um pouco do que vem sendo desenvolvido em pesquisa em fenomenologia e aborda algumas inquietações que motivaram o ingresso de Psicólogas no campo acadêmico, visando produzir conhecimento crítico.

Considerando os diversos sofrimentos da existência humana, são apresentadas temáticas como suicídio, relacionamentos amorosos, tecnologia, maternidade e relações de trabalho.

O livro pode ser encontrado em formato digital e físico no site da editora e em outras livrarias online.

Elza Dutra é Professora Titular de Psicologia Clínica Fenomenológica, orienta Mestrado e Doutorado na UFRN ( Universidade Federal do Rio Grande do Norte), além de outros títulos, e coordena um núcleo de Psicologia chamado Poiesis que desenvolve diversas atividades.

Ana Andrea Barbosa Maux desenvolveu vários estudos com temáticas envolvendo a fenomenologia, incluindo estudos sobre adoção e a relação entre masculinidade e infertilidade.

Por último

Você gostaria de deixar nos comentários o nome de alguma autora brasileira, livro ou artigo como indicação? O espaço é todo seu (:

Até mais!

Bárbara de Souza Miranda

Referências:

FORGUIERI, Y.C. Psicologia fenomenológica: Fundamentos, método e pesquisa.

SAPIENZA, B. T. Conversa sobre Terapia.

FEIJOO, A. M. C.; FEIJOO, E. L. Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil.

DUTRA, E.; MAUX, A. A. B. Pesquisa em Psicologia Fenomenológico-Existencial: Interpretações do Sofrimento na Contemporaneidade.

Todas as outras referências foram feitas nos links.

Contardo Calligaris (1948 – 2021)

Homenagem ao psicanalista que soube escutar o Brasil como ninguém

Contardo Calligaris fez parte da minha formação de forma única. Sua escrita me fez pensar e refletir sobre a condição humana desde o começo da minha trajetória como terapeuta. Seus textos foram fundamentais para a minha pesquisa e entendimento da diversidade humana e das várias formas de “estar no mundo”.

Lembro-me inclusive de um episódio no final da minha graduação, quando, após um ano de estágio clínico supervisionado, nossa professora nos pediu para redigir uma carta a nós mesmos, como terapeutas no início daquele ano. Clara alusão a seu texto “Cartas a um Jovem Terapeuta”(2004). Ela mesmo, tendo sido aluna direta dele 🙂

Com o recente falecimento do psicanalista, pensei em fazer este pequeno texto reunindo um pouco de sua Formação e Ensino, e suas principais obras publicadas.

Formação e Ensino

“O que me interessa não é ser feliz, mas sim ter uma vida interessante”.

Calligaris, Contardo
Contardo Calligaris

Italiano, nascido em Milão, em 1948, seus pais fizeram parte da resistência Anti-fascista durante a Segunda Guerra Mundial. Sua primeira formação foi em Epistemologia Genética, na Suíça, tendo estudado com Jean Piaget (1896-1980). Posteriormente, graduou-se em Letras, o que o permitiu lecionar teoria da literatura.

Depois, já em Paris, sob a orientação de Roland Barthes (1915-1981), trabalhou em seu doutorado em Semiologia. Passou a ser atendido por Serge LeClaire, e se interessou então por Psicanálise, frequentando os seminários e apresentações de pacientes de Jacques Lacan (1901–1981).

Fez um segundo Doutorado em Psicologia Clínica, focando sua tese no tema “A Paixão de Ser Instrumento“, discutindo os efeitos e narrativas da ascensão de autoritarismos e governos totalitários.

O primeiro contato com o Brasil se deu depois da publicação por aqui de Hipótese sobre o Fantasma em 1986. Passou a visitar o país com certa frequência para proferir seminários, palestras e atender pacientes. Foi membro-fundador também da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre).

Foi também Professor de Antropologia na Universidade da Califórnia em Berkeley, e de Estudos culturais na The New School em Nova Iorque, se revezando entre Brasil e EUA até meados de 2004, atendendo pacientes dos mais diversos.

A partir da publicação de “Hello, Brasil” (1981) é convidado a escrever na Folha de São Paulo, onde, desde 1999 escrevia semanalmente, nas “saudosas quintas-feiras”. Lá escrevia sobre tudo, desde os percalços da sexualidade humana à condição política e histórica do país.

É importante notar o caráter cosmopolita da trajetória de Contardo, foi verdadeiramente um homem do mundo.

Principais Obras

Contardo Calligaris

Além de escrever na já citada coluna semanal das quintas-feiras na Folha de S. Paulo, Calligaris publicou diversos títulos psicanalíticos e romances. Listo aqui alguns dos principais textos voltados (ou não) à comunidade Psi.

Hipótese sobre o Fantasma (1983)

Hipótese sobre o Fantasma (1983)

Em Hipótese sobre o Fantasma, sua primeira publicação psicanalítica, Calligaris aborda a questão do atravessamento do fantasma, entendimento de como seria o final de análise na Clínica do Simbólico (Primeira Clínica de Lacan).

Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses (1989)

Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses (1989)

Uma série de sete seminários proferidos por Contardo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1989, foram transcritos e publicados como livro nesta obra. Temas como a estrutura psicótica, desencadeamento e evolução da crise e diferenciação das psicoses são alguns dos temas discutidos pelo psicanalista. Se constitui como referência para o estudo das psicoses à partir do entendimento lacaniano da psicanálise.

Hello, Brasil (1991)

Hello, Brasil. Psicanálise da estranha civilização brasileira (1991)

Hello, Brasil se afigura, para mim, como uma das análises mais precisas do laço social e histórico do Brasil. Nele, Contardo “coloca o Brasil no divã”, pensando os sintomas sociais à partir da perspectiva psicanalítica. Segundo o próprio autor, esse seria um livro de viagem, escrito à partir da perspectiva de um estrangeiro.

Teve uma republicação em 2017 onde foram adicionados alguns ensaios a partir da vivência de Contardo na nossa “estranha civilização”.

Cartas à um jovem terapeuta (2004)

Cartas a um Jovem Terapeuta (2004)

Talvez este seja o texto mais difundido entre estudantes de Psicologia no começo de seus estágios supervisionados. Em Cartas à um jovem Terapeuta, Calligaris passeia por diversos pontos de ansiedade de todos aqueles que se destinam à prática clínica. Fala sobre Vocação Profissional, Amores terapêuticos e O que fazer para ter mais pacientes?

Coisa de Menina? (2019)

Coisa de Menina? Uma conversa sobre Gênero, Sexualidade, Maternidade e Feminismo (2019)

Em parceria com Maria Homem, Calligaris publicou seu último livro com o formato de uma conversa, de diálogo entre os psicanalistas sobre Gênero, Sexualidade, Maternidade e Feminismo. Temas como Lugar de fala, constituição de Gênero e Limites entre gozo e assédio são alguns dos pontos de parada dessa viagem.

Para além dos textos “psicanalíticos”, Contardo escreveu 2 romances centrados em Carlo Antonini, quase um alter-ego de Calligaris. No primeiro, “O conto do amor” (2008), à partir da morte de seu pai, Antonini busca as origens de sua família no norte da Itália e desvenda segredos do passado. No segundo, “A mulher de vermelho e branco” (2011), uma trama que envolve passado e presente entre Nova York, São Paulo e Paris, Antonini se vê dentro de um verdadeiro “thriller psicanalítico”.

As estórias de Carlo Antonini foram adaptadas para as telas na série de televisão Ps!, pela HBO, contando com Emílio de Mello no papel principal. Com 04 temporadas ao total, o seriado explora temas complexos como Abuso, Assédio e Suicídio, sempre com  o foco na diversidade da experiência humana.

Emílio de Mello em Ps!, da HBO)

Publicou também coletâneas com algumas de suas colunas na Folha de São Paulo, reunidas e organizadas por temáticas. Entre elas destaco “Os Reis estão Nus” (2013).

Deixo aqui linkado também sua participação no Roda Viva em 2017, onde ele fala sobre um pouco de tudo, de A à Z, como era seu costume.

Contardo Calligaris no programa de televisão Roda Viva, em 2017)

Um clínico exímio, um dos principais pensadores críticos do país se foi, mas deixou uma obra importante e tão atual como sempre. Escutou o Brasil como poucos.

Obrigado por tanto, Contardo.

(Autógrafo de Contardo na minha edição de Hello, Brasil)

Até a próxima,

Igor Banin

HP Lovecraft e o Real em Psicanálise

Howard Phillips Lovecraft é um dos casos de autores que ganha mais notoriedade após sua morte. Cada vez mais, percebe-se a presença de elementos de sua obra literária em filmes, séries e livros.

Suas contribuições para a literatura de horror e ficção científica são notáveis, adicionando elementos típicos dos gêneros de fantasia. Alguns o comparam a Edgar Allan Poe, ao qual é atribuído a criação do gênero de Romance Policial.

Críticos e fãs costumam nomear o estilo de Lovecraft de Horror Cósmico, ou “Cosmicismo”, por suas histórias envolverem normalmente seres extraterrenos, monstros ou entidades tão antigas que estariam além da Compreensão humana.

Pensando nisso, a ideia aqui é fazer um paralelo entre o estilo de escrita verborrágica, recheada de adjetivos de Lovecraft com a noção de Real em Psicanálise.

Lovecraft, vida e escrita

Nascido em 1890 na cidade de Providence, Rhode Island no seio de uma família aristocrata da Nova Inglaterra, o pequeno Lovecraft foi criado em um ambiente confortável.

Seu pai morreu quando Lovecraft tinha apenas 08 anos de idade, após ficar internado, depois de ter uma crise nervosa em 1893 constantemente em clínicas de repouso. Suspeita-se que o pai tivesse contraído sífilis. Após a morte do pai, Lovecraft foi morar na casa de seu avô.

Seu avô era uma proeminente empresário industrial o que garantiu uma vida confortável para Lovecraft em seu início. Diz-se que a árvore genealógica de Lovecraft pode ser traçada até mais de 400 anos atrás. Sua família foi uma das primeiras a ter chegado aos Estados Unidos.

Após a morte do pai, diz-se que sua mãe desenvolveu um cuidado excessivo com o garoto. Posteriormente, Lovecraft afirma que esse zelo demasiado deixou marcas profundas em sua psiquê e seu relacionamento com o mundo. Lovecraft passava muito tempo em casa, por ter uma saúde frágil. Frequentou pouco a escola, o que o Ele sofria de poiquilotermia, uma raríssima doença que fazia com que sua pele fosse sempre gelada ao toque.

Tendo crescido na vasta biblioteca de seu avô, Lovecraft passou a venerar a cultura clássica e considerava a poesia como literatura de verdade. Para alguém que passava muito tempo em casa, com gosto pela leitura e escrita, não é de se admirar que tenha se tornado um escritor.

Howard Phillips Lovecraft em junho de 1934

Mesmo após a morte do avô, e de sua mãe, com o dinheiro escasso, H.P. não aceitava trabalhar de maneira contínua. Ele se considerava um cavalheiro aristocrata, e ele entendia que trabalhos que não fossem em jornais ou revistas consideradas adequadas, estavam abaixo dele.

Lovecraft faleceu em 15 de Março de 1937, aos 46 anos de idade.

Foi com o esforço de amigos próximos que fundaram a editora Arkham, e começaram a publicar os textos de Lovecraft em formato de livro, que sua obra ficou mais conhecida do público geral. Até então, seus escritos eram conhecidos por uma audiência mais restrita, principalmente de leitores de revistas Pulp, como a Weird Tales.

Weird Tales, 1922

Seu impacto na literatura de horror e ficção científica é profundo, influenciando autores como Neil Gaiman e Stephen King. Para além disso, sua influência em obras cinematográficas de diretores como Stanley Kubrick e John Carpenter é notável, como no filme Enigma de Outro Mundo (1982), de Carpenter.

Lovecraft durante muito tempo teve uma postura racista e xenófoba em seus contos. Especula-se, inclusive, que muitas das descrições dos monstros nas histórias de Lovecraft tenham sido baseados nos preconceitos íntimos do autor. A posição da aristocracia decadente do Nordeste dos Estados Unidos, a reclusão constante no início da vida, bem como as rápidas mudanças sociais que vinham acontecendo à época no continente americano, certamente influenciaram a visão de mundo de H.P.

Outro ponto importante de se notar nas histórias do autor é a pouca ou nenhuma participação de mulheres nos contos. Por toda a obra de Lovecraft, percebe-se um desprezo pela raça humana de maneira geral, sendo considerada sempre inferior ao cosmos.

Curiosamente, ele se casou com Sonia Greene, uma judia que o convenceu a mudar-se para Nova York, lugar onde eles moraram por pouco tempo, antes de sua separação amigável.

Algumas características importantes da escrita de Lovecraft que também são importantes.

  1. O arcaísmo patente no uso de terminologias. O texto parece, em uma primeira olhada, ter sido escrito no século XIX, tamanho o uso de termos fora de uso empregados por Lovecraft.
  2. O uso indiscriminado de adjetivos quando ele busca descrever os monstros/entidades em suas narrativas.

Essa segunda característica é muito criticada nos meios acadêmicos, sendo visto como uma limitação criativa na escrita de Lovecraft.

Um exemplo claro do estilo “Lovecraftiano” se encontra no texto Ele (1926/2017):

“… e as multidões humanas que fervilhavam pelas ruas estreitas eram seres atarracados, forasteiros escuros com caras abrutalhadas e olhos apertados, estranhos traiçoeiros sem sonhos e sem nenhuma relação com o cenário a seu redor, enigmáticos para os descendentes dos antigos habitantes, que amavam as belas alamedas verdes e as aldeias da Nova Inglaterra com suas torres em formato de agulha” (Lovecraft, p. 62).  

A noção de Real na Psicanálise

O Real na psicanálise não se trata da realidade. Talvez, seria melhor dizer que o Real é tudo aquilo que tem que ser extraído da realidade para que ela faça sentido.

O Real se trata daquilo que é inominável, indizível, impensável. No fundo, tudo aquilo que nos confronta com o nosso caráter eternamente faltante. Segundo Lacan (1953/2005): “O real é ou a totalidade ou o instante esvanecido. Na experiência analítica, para o sujeito, é sempre o choque com alguma coisa, por exemplo, com o silêncio do analista” (p. 45).

Simbólico e Imaginário tentam dar conta do Real, do furo, sendo que “o Real será definido como o que escapa ao Simbólico, o real como trauma” (Chaves, 2009, p. 43).

Uma boa definição do Real, a meu ver é dada por Fink (2018):

“O Real, tal como o apresentei até aqui, é aquilo que ainda não foi posto em palavras ou formulado. Podemos pensar nele, em certo sentido, como a ligação ou o elo entre dois pensamentos que sucumbiu ao recalcamento, e que precisa ser reestabelecido” (p.61)

Lacan dizia também que o Real é como o “muro da linguagem”, o limite que resta de não-simbolizável. A morte, por exemplo, é algo do Real. A experiência de perder alguém próximo costuma vir acompanhada da “falta de palavras”. Não existem palavras que deem conta desse sofrimento.

“Ainda nessa qualidade, em sua posição tópica, ele se caracterizará como exsistente (situado fora de todo campo demarcável). Finalmente, e na medida em que lhe é assim conferido o estatuto de um vazio, ele se articulará numa representação “borromeana” com os vazios constitutivos do simbólico e do imaginário” (Kauffman, 1998, p. 445)

Mais a frente na obra Lacaniana, o autor vai formalizar a tríade, Simbólico-Imaginário-Real, a partir do chamado Nó Borromeano, uma formação topológica que consiste de 3 aros interligado, de tal modo que se um se desvencilhar os outros também o são. Assim é o sujeito para Lacan.

O nó Borromeano

O Real em Lovecraft

Os monstros “Lovecraftianos” não apresentam forma, suas formas não podem ser compreendidas pela raça humana. Muitas vezes a geometria de construções alienígenas são consideradas estranhas e incompreensíveis para nós (Lovecraft, 2017).

A própria palavra “Cthulhu”, oriunda do conto “O Chamado de Cthulhu” (talvez seu texto mais conhecido, adaptado para uma infinidade de jogos, RPG’s, etc) publicado em 1928, seria impronunciável. Segundo ele, “a nossa conformação fisiológica não permitiria que o pronunciássemos corretamente” (Lovecraft, 2017, p.120). Não seria um idioma para a laringe humana.

Em Dagon (1919/2017), seu primeiro conto publicado profissionalmente:

“Então, de repente, eu vi. Com apenas uma leve agitação para marcar sua ascensão até a superfície, a coisa deslizou para fora das águas escuras. Tão vasto quanto Polifemo e horrendo, ele dardejou, como um estupendo monstro de pesadelos, contra o monólito, sobre o qual lançou seus gigantescos braços escamosos, enquanto curvava a cabeça hedionda e dava vazão a certos sons compassados. Naquele momento, pensei ter ficado louco” (Lovecraft, p. 26).

Interessante notar que isso se alinha com a noção de Real que escapa a Simbolização. O inominável e impensável vem de encontro aos personagens nos contos de Lovecraft. O horror, muitas vezes se baseia no desconhecido, na incerteza do que está lá. Para além disso, o fato de não haver palavras que descrevam a visão monstruosa denota um encontro com o Real: “O efeito da visão monstruosa era indescritível, já que alguma violação demoníaca das leis naturais parecia uma certeza desde o começo” (Lovecraft, 1936/2017, p. 209).

A incerteza é algo que invariavelmente estará presente nas nossas vidas, lidar com ela e produzir algo a partir disso é um dos objetivos centrais da análise, sempre apontando para onde está o desejo do sujeito.

O Real se impõe como um muro da linguagem para todos. E é nessa direção que é entendida a clínica psicanalítica lacaniana na atualidade. Levamos o sujeito a se confrontar com sua possibilidade maior de escolhas (Forbes, 2014). Com a mudança do laço social, os referenciais tidos como certos no passado não funcionam mais, com isso, temos que nos reinventar constantemente. A mudança na clínica psicanalítica, passa então por, não mais explicar o sintoma (Clínica da Simbólico), mas por implicar (Clínica do Real) o paciente em seu sintoma e em seu desejo.

Imagino o que pensaria Lovecraft se caminhasse entre nós nos dias de hoje. Talvez ele caminhe.

Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Chaves, W. (2009). Considerações a respeito do conceito de Real em Lacan. In Psicologia em Estudo. (pp. 41-46, v. 14). Maringá.

Fink, B. (2018). Introdução clínica à psicanálise lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Forbes, J. (2014) Psicanálise – A clínica do Real. Barueri: Manole.

Kauffman, P. (1998) Real. In Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. O legado de Freud e Lacan. (pp.444-445) Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1953/2005). O simbólico, o imaginário e o real. Em Nomes-do-Pai (T. André, Trad., pp. 11-53). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lovecraft, H.P. (2017). H. P. Lovecraft: medo clássico. Rio de Janeiro: Darkside Books.

Lovecraft, H.P. (2017). Contos, Volume 1 / H. P. Lovecraft. São Pauo: Martin Claret.