O Complexo de Édipo e As Fases de Freud: Oral, Anal, Fálica e Genital.

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A imagem acima carrega a foto e a fala de Norman Bates, personagem principal do filme Psicose, de Alfred Hitchcock. E agora também da série Bates Motel. No filme, o personagem diz que “o melhor amigo de um menino é sua mãe”. A fala é decerto Freudiana. E ela é se, com a permissão de um spoiler, já soubermos que ali existia uma relação praticamente simbiótica e, portanto, sem a interdição necessária na relação mãe-e-filho. Tal interdição, conforme explicaremos adiante, se faz necessária para garantir que ambos possam, à sua maneira, procurar a satisfação individual de maneira independente, sem que prosseguisse a ilusão de um ser parte do Outro; sem que adiante se mantivesse a ideia de corpos que não se diferenciam; sem que dois seres continuassem vivendo com o prazer infinito de serem um só em extensão. Certamente, não foi o que ocorreu com Norman Bates. Este que é o personagem mais famoso da história do suspense cinematográfico e, sem dúvidas, aquele que marcou eternamente a carreira do ator Anthony Perkins e, mais recentemente, de Freddie Highmore também.

Mas neste post iremos nos atrelar mais ao primeiro Bates e, adiante, tentaremos o exercício de tentar localizar nas fases do desenvolvimento psicossexual estabelecidas por Freud, um Lugar que traga mais traços em comum com este ícone da Cultura PoP.

Norman Bates

Norman parecia confundir tanto a imagem de si com a de sua mãe a ponto de no ápice de sua euforia, numa cena emblemática, ele finalmente unir as vestes e o cabelo de sua progenitora ao corpo. É como se agora fossem apenas um; como se suas personalidades e suas forças estivessem fundidas; como se agora nada impedisse o seu gozo de cometer o crime — que parece acontecer quase como se não fosse uma escolha própria. Como se a mulher esfaqueada por Norman fosse mais vítima de uma mãe ciumenta do que de um psicopata assassino. E aí está um grande ponto da série e do filme: talvez Norman Bates não fosse um psicopata.

E daí o nome do filme explica o restante: Norman Bates poderia ser um psicótico.

A Psicose

E Freud (1924) já nos dizia que a psicose ocorre quando o ego se mantém na primitividade, quando seus recursos de lidar com as exigências da realidade são incapazes de uma elaboração mais madura, voltada para o mundo externo, de modo que permitam um mísero contato com a realidade em situações de estresse psíquico. Como se ele vivesse apenas em uma plena satisfação, parecida com aquela união mãe-bebê durante um momento de amamentação.

E curiosamente, neste ato de ruptura com a realidade externa, tomando como exemplo em particular a persecutoriedade e/ou a grandeza egocentricamente vividas nos delírios psicóticos, seria possível perceber em um olhar mais atento algo semelhante ao que ocorre na Fase Oral proposta por Freud. E se uma frase poderia fazer analogia ao pensamento que rege tal estrutura, talvez fosse parecida com esta a seguir:

“Não cederei às tuas pífias exigências, Dona Realidade! Provo-te, por meu corpo, por minha percepção e por meu discurso, que me aguarda em algum lugar o direito à plena satisfação. Aquilo que eu detinha ao ventre não poderá ser tirado de mim e, caso seja, com algum tempo, hei de reivindicá-lo como fazia no berço. E sabes bem que dependo apenas da voz para que minhas necessidades sejam satisfeitas, bastou lá atrás. Basto-me. E, se a realidade insiste em me contradizer, algo está errado; algo só pode estar errado. Mas não comigo, com o externo. Se não volto ao gozo é por complô, é por ser perseguido em função de minha grandeza. Pois eu, sendo quem sou jamais deveria ter o dever de sofrer tuas exigências; jamais poderia disfarçar meu descontentamento, jamais poderia vender meu esforço por migalhas de satisfação! Não aceito. Nego, descarto! Não pode existir um mundo assim e se pode, ficarei com o meu próprio”.

Este desejo de ter suas necessidades atendidas por um mundo que ainda parece ser parte de si é muito parecido com o do recém-nascido. Lembra muito de sua relação com a mãe. Há então de se indagar: o quão prejudiciais podem ser os destinos oriundos de algumas relações estabelecidas de maneira indevida entre mãe e filho? É por isso que algumas vezes é um aprendizado, na prática clínica, conhecer a mãe de um paciente que sofra de alguma psicose.

O caso de Norman Bates é um exemplo dos múltiplos destinos indesejados que podem decorrer, dentro do que se entende na psicanálise, de uma relação simbiótica entre mãe e filho — que persiste sem algum tipo de interdição. Um destino possível de quando não há uma boa elaboração do sujeito no que diz respeito sobre sua passagem por alguma (s) das Fases do Desenvolvimento Psicossexual da criança, postuladas por Freud (1905/1976a).

O Sujeito

O caso do famoso filme de Hitchcock é aquele que, em termos psicanalíticos, ainda não é sequer o caso de um $ujeito na Linguagem. Já que a inauguração subjetiva apenas se daria após o acontecimento de algo: Aquilo que Barra uma futura personalidade de qualquer confusão que ela pudesse fazer de seus impulsos imediatos com a realidade do mundo exterior. Pois para existir um sujeito, deve haver um desejo. E não iremos confundir aqui os impulsos com os desejos. Pois falamos de Outro tipo de desejo. Falamos daquele desejo que para existir deverá vir da falta. Aquele que não vê a falta em si poderia até confundir a própria realidade com a externa, talvez por sentir que não precisa sequer procurar a segunda. Bates nos deixa claro que suas confusões foram muitas — principalmente no que o tornaria diferente à imagem e aos desejos de sua mãe.

Talvez Norman tivesse ficado preso naquela fase em que o filho ainda se confunde com a mãe. Talvez tenha sido, de fato Imagem e semelhança — deificadamente. Talvez Norman fosse um significante que às vezes fora confundido com Norma, o mesmo do Nome Próprio de sua mãe. E, sendo este o caso, a Letra que fica sobrando poderia escrever muita coisa. Mas há um certo NÃO que é dito à realidade externa. Infelizmente, falamos da mesma que tornaria Um diferente da Outra.

As Fases do Desenvolvimento da Organização Sexual

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(Imagem Retirada do Site Buzzfeed)

Faça o Teste

Recentemente, o portal BuzzFeed publicou um teste – com meros fins de entretenimento, é preciso ressaltar – em que a pergunta principal é: Qual fase do desenvolvimento da infância você não superou segundo Freud? O teste pode ser acessado aqui. Selecionamos algumas imagens diretamente do site para exemplificar o teste em questão. Nele, o usuário seleciona algumas imagens, como por exemplo, esta a seguir:

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E após a seleção de um conjunto de itens, o resultado apareceria da seguinte maneira:

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Como o propósito dos testes do BuzzFeed é meramente recreativo, podemos respirar aliviados com os “diagnósticos”, mas é com o compromisso da disseminação do conhecimento, que a Sociedade dos Psicólogos produz este texto, explicando de maneira breve (ou quase) as Fases do Desenvolvimento Psicossexual de Freud. E o fazemos para que todos aqueles, que fizeram o teste ou não, possam entender melhor sobre esta contribuição tão presente dentro e fora do ambiente universitário, psicológico e psicanalítico.

IMPORTANTE

Antes de prosseguir com a leitura, é altamente recomendado que se revise e entenda o conceito de Pulsão, explicado no texto a seguir. Clique no link:

O que é Pulsão? Qual é a diferença entre Pulsão e Instinto?

As Fases de Freud

Estas primeiras fases do desenvolvimento, dentro do que é postulado pela teoria psicanalítica, têm um papel fundamental na estruturação do Eu. Cada passagem deixará seus traços, seus rastros e suas particularidades; no discurso, na linguagem e na relação de cada sujeito com os seus e Outros afetos no futuro.

Isso não quer dizer que os traços de caráter, mnêmicamente gravados ao longo da passagem dos indivíduos por tais fases, sejam imutáveis ou deterministas sobre quem ele é/será. Mas se desvencilhar de características tão intrínsecas, segundo Freud, não seria algo tão simples quanto se livrar de um hábito recentemente adquirido – o que já não é fácil. Aqui falamos dos caminhos que, durante certa evolução, a libido percorre o corpo e, de certa maneira, a mente de um ser em desenvolvimento. Ressalta-se todavia, que não falamos de processos conscientes; e, sem dúvidas, a libido e sexualidade não dizem respeito exclusivamente ao ato da relação sexual em si.

IMPORTANTE

Para um entendimento mais claro dos conceitos que aqui serão explicados, é altamente recomendado que se tenha aprendido o conceito de Pulsão. Se necessário. Para revê-lo clique aqui.

A Fase Oral – Idade Aproximada: 0-2 Anos

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Nesta fase, dos 0 aos 2 anos – e não falamos aqui de idades exatas, mas aproximadas – , a criança experimenta o mundo pela boca. E é importante fazermos aqui um exercício de empatia com o bebê:

Pois iremos então supor o seguinte, sua vida atual se resume da seguinte maneira:

  • Tu não conheces a fome e nem a vontade de comer, pois há em ti uma nutrição constante via cordão umbilical que impede este primeiro mecanismo – e como conhecer o segundo se o paladar sequer lhe é algo conhecido?
  • Felizmente, o útero é um ambiente quente, seguindo temperaturas próximas aos 36º; o líquido amniótico da placenta envolve o bebê em boa temperatura – mesmo nas formas mais amorfas àquela que conheceremos ao seu nascimento. Sendo assim: como poderia ele conhecer o frio?
  • Não se sabe o que é luz. Os olhos ainda não se abrem. Basta ao leitor lembrar do quão propensos somos a manter os olhos fechados em ambientes de baixa luminosidade (e o quanto não gostamos de um contato lúcido em nossos olhos, principalmente se este vier em seguida de um longo período no escuro). O bebê não sentiu ainda o incômodo da luz em sua retina; pois então: há de se preocupar com o quê?
  • Ali dentro ainda há outro benefício: não se sabe ainda, absolutamente, como é ser tocado; então é evidente que também não se sabe o que é dor física.

Não há fome, não há luz, não há sequer frio ou dor; estamos falando não haver uma gota sequer de desprazer nesta vida. Pura verdade. Mas só até o maior trauma; até a maior condenação à morte que começou na relação sexual dos pais, (como diria Lacan); só até o maior prazer na vida de muitos casais ser a primeira experiência de desprazer na vida de um ser: o próprio Nascimento.

Temos aqui um trauma inaugurado pelo desprazer do toque: algo puxa, contra a sua vontade, o bebê de seu berço esplêndido de gozo; segue-se um tapa. Uma palmada que provoca a dor e a eterna missão de mandar ar aos pulmões 24 horas por dia; em seguida, um movimento de seu corpo para lá e para cá. Vozes, agora em um volume muito maior, desconhecidas. Ainda por cima, para variar o desprazer, há algo que nunca se sentiu antes: fome, sede; a dor nos olhos causada pela luz inédita (lembram como é incômodo o acender de luzes após certo tempo no escuro?) que acompanha o frio de sentir o vento bater no molhado de seu corpo — que sensação horrivel! “O que raios será que é tudo isso que nem nomear eu posso?!” — Poderia pensar o bebê.

Ainda bem que em breve este bebê estará nos braços de sua mãe. Ali terá a primeira experiência de satisfação de sua vida; aquela que nunca mais será possível repetir com tamanha intensidade: a que acompanhará o calor dos braços da mãe, o afeto de sua voz sorridente e, finalmente, a satisfação da primeira sucção do mamar. Acabou a fome. Acabou o frio. Ouve-se ternura e afeto, sem sequer saber o que estes são. Eles vêm uma voz bem próxima. Nem o melhor dos cigarros, dos charutos cubanos; nem o melhor conhaque, vinho, whisky ou a melhor refeição que um Chef poderia preparar poderão resgatar por completo o que acaba de ser vivido. Aqui há um prazer que tentará ser repetido por toda uma vida. E certamente falamos de tentativas falhas, que atingem apenas um rastro de tudo aquilo. Mas é oficial: aqui inicia-se a Fase Oral do Desenvolvimento.

Freud vai nos dizer que nesta fase o prazer vive pela boca. Suas únicas experiências moram no que escuta, no que vê com seus parcos recursos visuais; no que é sentido na pele, no que é cheirado e, principalmente, no que é ingerido. Mas não há aqui, ainda, linguagem complexa. Não haveria aqui, ainda, algo que impeça seu prazer e desperte sua raiva. Pois, convenhamos, estamos falando de um bebê!

Aliás, ledo engano: há sim. Há algumas insatisfações. Há as ausências maternas súbitas. Há a fome que agora vai e volta. Há o incômodo de uma fralda suja, há cólicas e um conjunto de desprazeres que ainda não são entendidos, nomeados ou expulsos com facilidade. Mas tudo (ou quase tudo) tende a se cessar com a presença da mãe, que a princípio, a criança pode até confundir com uma extensão de si mesma – já que falamos de um ser que nunca sequer se viu (e se o fez num espelho, não se reconheceu), que ainda não teve tempo para compreender a realidade como nós; já que esta figura que até nomeia teu choro com leite, colo ou banho é o que lhe traz a paz para os desprazeres — e nisso existe linguagem. Portanto, aos primeiros balbucios e engatinhamentos busca-se o mundo todo pela boca. Busca-se prazer por esta via.

Regressão Sadia à Fase Oral

É possível que na vida adulta tenhamos alguma vontade de retornar a esta fase perante alguns desprazeres. Vai-se lá saber o quanto gostávamos dela? De toda forma, Freud nos ajuda a entender que há meios de fazer isso: fixamo-nos nos copos de cerveja, vinho e whisky perante alguma ansiedade; levamos um lápis, caneta ou dedo à boca em momentos de tensão; e como não esquecer do cigarro? E ainda, do preferido por Freud: o charuto! E por mais que às vezes, como os itens anteriores, um charuto pode ser apenas um charuto, noutras vezes ele pode ser, quando não um símbolo de Poder – quase que representando um certo órgão sexual – também poderia ser um prazeroso retorno à Fase em que tínhamos nossa demanda atendida com veemência, emergência: um retorno às primeiras satisfações.

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Imagem da Internet: O Primeiro Ministro Britânico durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill, fumando um de seus adorados charutos e fazendo seu famoso símbolo que, às vezes, era invertido num insulto disfarçado.

A Fase Anal – Idade Aproximada: 2-4 Anos

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Agora imaginemos: todo o amor e atenção que era reservado ao bebê na fase anterior passa a ter um preço. Qual preço? O de algumas regras sociais. Após experimentar o mundo pela boca e até, de certa forma ter uma ideia melhor da própria imagem — entender-se como diferente dos pais e já se reconhecer no espelho — a criança descobre algo novo. A partir de agora algo fora produzido diretamente por ela; a partir de agora ela passa a sentir um prazer sobre seu mais novo aprendizado: o controle de suas evacuações.

Agora escolhe quando e onde se deposita aquilo que se tornou a primeira produção autoral de um ser. E tem até um agravante: os cuidadores demonstram até mais amor se o cocô é feito no vaso, no penico. E mais: há grande insatisfação deles se, num gesto natural de conhecer a primeira obra propriamente humana, em sua primeira empreitada, em seu primeiro pertence valioso, a criança decidir brincar com suas fezes. Também há insatisfação dos cuidadores quando esta as deixa pela sala, pelo quarto e por outras áreas da casa como um presente, com orgulho! Como alguém que oferece aquilo feito unicamente por si em em prova de amor. Mas aqui que se aprende que o amor tem preço, que não existe amor saudável que seja incondicional. É preciso agora reprimir alguns impulsos que a deixam com vontade de brincar com as próprias fezes; e também reprimir os impulsos de evacuar à hora que bem entender. É preciso ter controle sobre os impulsos. Mais ainda sobre os esfíncteres. Não é atoa que pessoas excessivamente controladoras e/ou compulsivamente organizadas; com certas compulsões por limpeza ou altamente apegadas a objetos materiais e/ou dinheiro podem descobrir em suas análises certas fixações nesta fase do desenvolvimento.

Destino Socialmente Aceito

Mas, se precisarmos de exemplos, um artesão que trabalha com argila encontrou um meio tão eficiente de “brincar com suas fezes”, ou seja, de retornar aos prazeres da fase anal de uma maneira socialmente aceita, quanto um degustador de vinhos encontrou de retornar à fase oral. Para Freud, a Neurose Obsessiva pode ter uma de suas fontes conhecidas se a Fase Anal do Desenvolvimento de alguém for devidamente investigada.

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Cenas do Filme 500 Dias com Ela, onde a personagem de Zoey Deschanel diz que seu apelido na escola era “Garota Anal”, por ser muito limpa e organizada. Uma clara referência chistosa à Fase Anal Freudiana.

Fase Fálica e Complexo de Édipo – Idade Aproximada: 4-6 anos

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Após a criança começar a conhecer alguns limites de seu corpo e entender finalmente que sua dinâmica familiar é maior do que ela mesma, e ainda maior do que apenas respeitar algumas regrinhas, chegou a hora de uma relação triangular.

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(Imagem de um modelo familiar proposto por Freud no Século XX. Aqui mostramos apenas uma das possíveis configurações familiares, no caso a heterossexual. É importante que se observe a realização da Função Materna e da Função Paterna em moldes que se adequem à realidade familiar de cada criança)

Usaremos, para meros fins de ilustração, o mesmo modelo que Freud usou de exemplo para designar uma dinâmica familiar de sua época. Lembrando, é claro, deste não ser o único existente. Tomaremos como exemplo a relação Homem (Pai), para Função Paterna; Mulher (Mãe), para Função Materna e Filho (sexo e gênero masculinos) para representar a criança.

A relação mãe-bebe era, conforme descrito na fase oral, praticamente simbiótica. Onde não há diferenciação de um pelo outro até que o bebê consiga finalmente reconhecer e controlar o próprio corpo. Mas ele só pode fazê-lo ao entender que este seu corpo é um outro separado de sua mãe. E isso pode ser observado nos momentos em que a criança começa a se reconhecer no espelho.

Entendido isso e mais algumas pequenas regrinhas sociais, aparece outro empecilho: um terceiro naquela relação que antes era exclusiva.

O Intruso

Com a redução das demandas imediatas de um bebê, a criança vai naturalmente ficando menos dependente do cuidado materno. Não há mais tanta necessidade de colo, de trocar as fraldas, de mamar no peito e de ter toda aquela atenção exclusiva. A própria chupeta aqui pode ser até algo preocupante ao desenvolvimento saudável.

Todavia, algo não poderá passar despercebido ao nosso sujeito em desenvolvimento: a mãe, além de se “afastar” dele volta sua atenção para uma outra pessoa – aquela que designará a Função Paterna. E é claro que esta ausência será sentida e manifestada pela criança – que irá reivindicar sua saudosa exclusividade! Como ousaram tirar isso dela?! — poderá sentir—. Mas há formas e formas para isso. Talvez este sujeito em desenvolvimento tentará dormir na cama dos pais; poderá até forçar sua presença em ambientes e situações inadequadas. Poderá falar mais alto, se debater, chorar até fazer outras coisas comumente apelidadas de “birra”.

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Daqui poderá surgir um pensamento comum até aos adultos mais ciumentos: “O ele tem que eu não tenho?”; “O que me faz ser preterido perante este ‘novo’ preferido?”. A criança percebe-se como alguém insuficiente a suprir todas as demandas de sua mãe. E que bom que isso acontece. Caso contrário, que peso, que fardo teria de carregar!

— Se não sou suficiente para a satisfação de um Outro, será que algo me falta? — E se esta dúvida surge justamente na fase em que marca-se a diferenciação sexual, na fase em que a sexualidade – a libido – está concentrada nos genitais – descobre-se aqui outra fonte de alívio de tensão e obtenção de prazer. Mas também se questiona a respeito dos genitais e hábitos próprios e alheios. Talvez como se estes até pudessem ser uma alusão às diferenças papéis sociais desempenhados por cada gênero.

Quero dizer: se na época de Freud (Século XIX e XX) o pai, que trabalhava fora e comandava a casa com voz ativa, era o detentor primordial do amor da mãe, será que um terno, ser mais forte e mais alto; falar mais grosso, usar chapéu e sapato ou até ter um pênis maior e mais desenvolvido poderia, em tom de comparação, ser algo que faria a criança recuperar a posição que lhe fora tomada?

Geralmente, nesta mesma idade pode-se observar os primeiros gestos que se assemelham ao que será a masturbação (que virá em sua “forma definitiva” na puberdade), há curiosidade (“Por que o meu e o dele são diferentes do dela? Será que ela perdeu? Será que eu também posso perder meu?”) e estímulo voltados para os genitais. Mas há também – e deve haver – Leis Sociais que reservam a este período de desenvolvimento um conjunto de restrições e punições (Exemplo: “Parece que recebo menos amor e mais hostilidade de meus pais se manuseio meus genitais na sala de visitas”).

Há também a introdução da Lei, a supressão e a repressão dos impulsos sexuais que buscam satisfação imediata. Há aqui a necessidade de barganhar o prazer imediato com a autoridade parental.

Numa bem simplificada “resenha da síntese do resumo das anotações”: troca-se prazer imediato por amor e realizações sociais a longo prazo. E caberá a demonstração da Lei à Função Paterna, podendo esta ser uma pessoa, um objeto ou uma situação de ausência. Tudo isso, não coincidentemente, acontece junto ao domínio e inserção da Linguagem complexa, da fala, da língua e suas primeiras regras gramaticais. Como se para usufruir dos direitos e restrições de qualquer sociedade houvesse um requisito primordial: ser nela um falante.

O Processo de Identificação

“Pois então, se aquele Terceiro da relação detém o amor de minha mãe, o que não falta nele? O que falta em mim? E o que falta na minha mãe? O que ela perdeu?”

A lógica seguinte deste questionamento inconsciente é a do processo de Identificação. Onde percebe-se, de maneira inconsciente, quais características, posturas e responsabilidades sociais se herdará naquela sociedade.

Objeto de Identificação e Objeto de Desejo x Identidade de Gênero e Orientação Sexual

Aqui geralmente forma-se a Identidade de Gênero naquele sujeito em desenvolvimento. Sem que este perceba ou lembre-se disso, foi aqui que soube pela primeira vez que usaria seu pai como referência de como se portar em sua sociedade.

Elege-se um Objeto de Identificação (o pai), que aparentemente capta parte do olhar que tanto se quer ter com exclusividade novamente. Também elege-se o Objeto de Desejo (a mãe), que está para a formação da Orientação Sexual tanto quanto o Objeto de Identificação está para a formação da Identidade de Gênero. É comum aos meninos nesta idade imitarem os gestos, as vestimentas e os comportamentos inúmeros da Figura Paterna. Aqui há um maior e melhor manejo da língua, que também carrega uma porção de Leis que devem ser seguidas.

Figuras de Referência

E aqui há uma Lei que deverá ser eternamente lembrada pela criança: “Não poderei obter a mesma forma de amor que minha mãe oferece a meu pai”.

— Portanto, procurarei esta realização no mundo; levarei comigo aquilo que gravo deste Terceiro para desbravar relações minimamente parecidas com esta, que agora é minha principal referência de mundo.

— Procurarei amigos, pares românticos e profissionais que, por coincidência ou não, sempre poderão me lembrar desta primeira experiência —. E aqui falamos de uma passagem saudável pelo Complexo de Édipo. O exemplo de um homem, cis gênero e heterossexual é meramente ilustrativo, podendo o comentarista deste artigo tomar a liberdade para citar outros.

O Mito do Rei Édipo

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Freud Baseia esta parte de sua teoria na Tragédia Grega Édipo Rei, de Sófocles (Aproximadamente 496 a.C. até Aproximadamente 406 a.C) e também na obra de Fiodor Dostoiévski (que o próprioFreud considerava o melhor romance já escrito) “Os Irmãos Karamazov” (1880), que futuramente terá um texto pra si aqui neste blog.

Focaremos hoje no mito grego. A Narrativa é de um Rei de Tebas, Édipo – em grego: Oidípous “Pés Inchados” – , que ao seu nascimento é amarrado pelos pés pelo próprio pai, que o entrega a um pastor que tem a missão de garantir sua morte ainda bebê. E das cicatrizes geradas pelos grampos que prendiam seus pés àquela época, Édipo ganha seu Nome Próprio.

O então príncipe abandonado ao nascimento é salvo pela misericórdia do pastor que o recebeu. Vivo, ele é entregue ao Rei Políbio, da cidade vizinha à Tebas, Corinto. Políbio não podia ter filhos, logo, ao ser adotado, Édipo passa a ser o principal herdeiro do trono daquela Polis. Sempre sendo criado como um príncipe legítimo.

Em sua idade adulta, o Príncipe dos Pés Inchados se exila de Corinto pelo mesmo motivo que levou seu pai biológico querer sua morte: uma profecia do Oráculo de Delfos, que era o portador oficial da voz do Deus Apolo. A profecia dizia que quando adulto, Édipo mataria seu pai e desposaria sua mãe. E desta união incestuosa só poderia nascer um tipo de prole: a que faria atos tão abomináveis quanto o incesto e parricídio que permitiriam sua existência. Édipo, que acreditava ser filho de Políbio, se escafede de Corinto e, ao revelar o Enigma da Esfinge que atordoava Tebas, se torna Rei de sua antiga Pátria.

Contudo, um pouco antes, no caminho para Tebas, Édipo – um príncipe! – se sente desrespeitado ao ser mandado para longe da rota de um comboio de homens que se cruza seu caminho. O grupo parecia proteger aquele que era seu líder.

Numa coincidência que demonstra a inevitabilidade de uma profecia, o Príncipe de Duas Cidades comete um dos maiores tabus da humanidade: o parricídio. Assim o próprio filho é quem mata Laio, o Rei de Tebas àquela época. Só lhe faltou saber que aquele era seu pai biológico. Esta metade da profecia é cumprida, mas a outra metade vem logo adiante.

Quando é finalmente proclamado Rei de Tebas, Édipo se casa com a Rainha Jocasta. Ele de novo cumpre a maldita profecia: fecunda e torna o lar daquela prole abominável o mesmo local que outrora havia sido sua primeira residência – o útero de sua mãe biológica.

Destinos do Édipo

Freud se baseia no Mito para apontar a repetição que observou no contexto familiar daquilo apontado na narrativa. É claro que ele enxerga e expõe isso de maneira metafórica. Postula ainda que ninguém poderá passar por tal fase sem carregar uma marca ao menos; mas estas variadas possibilidades de ferida egóica são as marcas necessárias para que se encontre realização nas outras múltiplas áreas da vida.

Para Freud, uma fixação ou má elaboração no Complexo de Édipo, localizado na Fase Fálica do Desenvolvimento Subjetivo, pode falar muita coisa sobre a Histeria e a competitividade.

E, se pedíssemos para alguém exemplificar os conflitos que carrega desta fase esta pessoa poderia responder de maneira parecida a esta:

“Talvez um carro mais caro, um bom charuto cubano ou um volume infinito de parceiras sexuais poderiam dar a ilusão, por alguns breves momentos de minha vida, que não fui tão impotente ao perder aquela primeira disputa amorosa quando era criança. Talvez não haja essa falta dentro de mim. Não que eu perceba isso: mas talvez o eterno conflito com aqueles que são mesmo sexo que eu, aqui em minha vida adulta, possivelmente tenha se tornado uma maneira autoafirmativa de me mostrar mais distante àquela inferioridade que eclodiu, e às vezes explode dentro de mim. Talvez eu me sinta menos rejeitado pelas mulheres com quem me relaciono ou pretendo me relacionar, se as objetificar; já que é perigoso tratá-las como um ser humano completo. A última vez que fiz isso me decepcionei muito, de maneira bem parecida como naquela experiência com minha primeira referência. E talvez eu deva de fato ter o mesmo emprego que meu pai; mesmo se eu não gostar tanto da área. Afinal, olha quem… ops, quero dizer, olha o que ele conseguiu para si e eu não. Mas, é importante que eu ressalte: aquela única vez que troquei o Nome de minha esposa pelo de minha mãe, foi simplesmente porque eu estava cansado; foi mera distração e coincidência; elas nem são tão parecidas assim. Elas não podem ser. Até porque, se fossem, a teoria de Freud – que eu acho um absurdo! – até faria sentido”.

A Fase Genital – Da Puberdade até a Morte

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Após a passagem por todas estas fases e um Período de Latência (que não é fase do desenvolvimento), entre os 6 anos e a puberdade, Freud vai nos dizer que agora é hora de buscar a realização no mundo exterior (caso do Neuróticos). É hora de buscar relações saudáveis, de própria escolha, fora da dinâmica familiar. É tempo de começar a tentar ser, ao menos um pouco, sujeito de sua própria história.

Aqui se estabelecem os grupos de amigos, os grupos profissionais e escolares, os pares amorosos as escolhas futuras. E vale dizer que a passagem pelas outras Fases do Desenvolvimento seja vista, aqui, como grande influenciadora da maneira que utilizaremos para lidar com os nossos conflitos, afetos e até do nosso modo de obtenção de prazer na vida.

Aqui se espera que o sujeito já saberá negociar, de alguma forma, às exigências que lhe faz a realidade, que por sua vez, estará sempre em conflito com os impulsos e desejos mais primitivos.

Espera-se que aqui terá algum equilíbrio Além do Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade; aqui se começa a encarar, como diria Nelson Rodrigues:

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Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Algumas referências bibliográficas para aprofundamento:

Freud, S. (1976a). Três Ensaios sobre as teorias da sexualidade (J.
Salomão, Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. VII ). Rio de
Janeiro: Imago. (Original publicado em 1905).

Freud, S. (1974). A dissolução do complexo de Édipo. (J. Salomão,
Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas (Vol. XIX, pp. 215-226). Rio de Janeiro: Imago.
(Originalmente publicado em 1924)

Freud, S. (1974). Algumas conseqüências psíquicas da distinção
anatômica entre os sexos. (J. Salomão, Trad.). Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XIX, pp. 303-
322). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1925)

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Esquizofrenia e Genialidade: John Nash – O Equilíbrio entre Uma Mente Brilhante e Doente.

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A Psicologia Atrás da (o) Matemática (o)

Talvez, nos dias de hoje, seja mais fácil reconhecer um gênio por sua excentricidade, estranheza ou solidão do que por seu conhecimento. Estranhos e rejeitados à sociedade comum, eles são poucos de nós – e não se misturam!Há quem diga que Isaac Newton sofria da Síndrome de Asperger, enquanto outros dizem que este teve um colapso psicótico aos seus 51 anos, que encerraria sua carreira; há também uma forte hipótese de que Nikola Tesla era portador do Transtorno Obsessivo-Compulsivo. É intrigante pensar sobre o demasiado número de gênios que foram enquadrados em patologias. Não há um consenso entre as relações dos Transtornos Mentais com a genialidade, mas há, acima de tudo, um consenso de que tais personalidades sempre aparecem de tempos em tempos para uma revolução na nossa realidade.

Tivemos gênios em diversas áreas. Mas se formos escolher os da matemática como exemplo: Copérnico, Pitágoras e Bhaskara possivelmente seriam outros gênios com perfis que chamariam a atenção (negativamente, é preciso dizer) da sociedade em que estavam. Porque, por coincidência ou não, citando quem escreveu a biografia do gênio que escolhemos, a jornalista Sylvia Nasar nos diz que “A falta de traquejo social era considerada parte de um autêntico matemático”. Nasar é a autora de “Uma Mente Brilhante”, livro que deu origem ao filme homônimo, ganhador de 4 Óscars, sobre a vida de John Nash, um gênio matemático que revolucionou os estudos sobre Economia. Sobre o que disse Nasar, um aluno de graduação em Princeton corrobora sua afirmação, dizendo que:

“[…] ser excêntrico e ser bom em matemática eram duas coisas que combinavam. Pensávamos em nós mesmos como se tirássemos vantagem do fato de sermos inteligentes por ignorarmos as convenções que nos desagradavam. Transformamo-nos um pouco em personalidades excêntricas”.

Mas e quando um matemático se torna excêntrico e estranho demais aos próprios matemáticos? Seria um sinal de genialidade ou de alerta? Felizmente, não iremos falar de matemáticos em sua aleatoriedade, o nosso assunto – e o de uma boa parte da comunidade científica do Século XX – é John Nash. O estudante de engenharia química que migrou para a matemática. E transitando entre ela, a economia, geometria e até à criação de jogos populares como o Hex, John Nash recebeu seu mestrado junto com sua graduação – um pouco antes de receber seu título de doutor (PhD – Philosophiae Doctor) pela Universidade de Princeton, aos seus 21 anos de idade. Tal título foi concedido por sua brilhante contribuição para a The Theory of Games and Economic Behavior de John von Neumann e Oskar Morgenstern. Dentro das pesquisas matemáticas feita por Nash na Teoria dos Jogos, uma das mais famosas é popularmente conhecida como O Equilíbrio de Nash. Acredite, estamos falando de um dos mais brilhantes matemáticos da História.

Entretanto, John Nash, o matemático brilhante que foi vencedor do prêmio Nobel de economia do ano de 1994, em função de sua brilhante tese de doutorado, foi acometido pela expansão de sua Mente Brilhante. Aos 31 anos, com seu filho prestes a nascer e um pouco depois da morte de seu pai, o mesmo cérebro que antes era invejado por muitos, foi tomado por delírios e alucinações tão potentes, intensos e verdadeiros que se comparavam até com seus geniais insights matemáticos. O gênio, agora era o louco. Mas este texto foi escrito para mostrar que sua história é maior do que isso. Boa leitura.

Infância e Adolescência

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Há um constante hábito, que antigamente era mais atribuído aos psicólogos e aos psicanalistas, de as pessoas em geral associarem uma doença mental a algum tipo de trauma ocorrido na infância. Suposições sobre um ambiente permeado pela violência doméstica, abandono, negligência, abuso de substâncias e até sobre abuso sexual, não são incomuns quando tocamos no assunto das psicopatologias. Tais hipóteses, com toda a certeza, não se aplicam à vida de John Forbes Nash Jr.

Nascido em Bluefield, West Virginia, Johnny, como era conhecido em casa, teve uma infância como a de qualquer outra criança, exceto pelas suas excentricidades.
Quando não estava em casa lendo livros e enciclopédias sobre eletricidade, geologia, clima e astronomia, o pequeno Johnny – que escolheria sempre os livros às brincadeiras com outras crianças – realizava perguntas sobre tais assuntos no banco de trás do carro de seu pai, John Forbes Nash, um engenheiro que trabalhava viajando pelo estado a inspecionar torres de transmissão da companhia para a qual ele trabalhava. Tais perguntas eram sempre respondidas, uma vez que o Sr. John sempre tratou seus filhos (Johnny e Martha) como adultos, dando a Johnny livros de ciência no lugar dos de colorir.

A pessoa mais preocupada com o comportamento “muito dedicado aos livros e ligeiramente esquisito” de Johnny, era sua mãe Margaret Virginia Martin (futuramente Nash), uma ex-professora que já havia estudado inglês, francês, alemão e latim.
Apesar das muitas tentativas de incentivar sua socialização através de matrículas em diversos cursos, Virginia foi aceitando aos poucos que Johnny seria naturalmente “especial, solitário e introvertido”. Se por um lado o garoto já realizava experimentos científicos de diversos tipos aos 12 anos, por outro, tinha baixo rendimento escolar e uma desastrosa vida social. Nash tinha mais interesse em estudar seus livros do que seguir o desinteressante currículo escolar, ou pior: fazer amigos.

Universidade de Princeton

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Nash fez muita coisa em Princeton. Não era incomum, em certa época, vê-lo assobiando músicas de Bach pelos corredores. Seu olhar – não tão diferente de sua personalidade – costumava ser o de alguém arrogante e desinteressado às outras pessoas. Mas há também quem tenha visto a terrível cena de nosso gênio com os punhos fortemente cerrados, bater repetidamente sua cabeça em uma das paredes do refeitório, enquanto sua angústia transbordava fortemente pelas suas contraídas expressões faciais.

No Fine Hall, o mais famoso corredor do Instituto de Estudos Avançados da Escola de Gênios, John Nash, que defendia que as pessoas não lessem tanto, uma vez que “aprender muito em segunda mão asfixiaria a criatividade e a originalidade.”, chegou, pessoalmente, a questionar gênios nada anônimos como John von Neumann e Albert Einstein.

Seu hobbie era pensar. Mas seu pensamento era diferente. Não buscava recordar fórmulas ou teoremas, Nash buscava insights. E tinha insights únicos. Segundo outros filhos de Princeton, era comum ver Nash assobiando “A pequena fuga” de Bach enquanto parecia pensar. Ou então sentado, deitado ou em pé em algum lugar. Sempre visivelmente mergulhado em seus pensamentos. Simplesmente pensando. Arthur Mattuck, um matemático nascido em 13 de Junho de 1930, exatamente 2 anos após o nascimento do também geminiano John Nash, fazia seu doutorado em Princeton àquela mesma época. Ele já chegou a afirmar, em 1995, sobre o:

“[…] poder de concentração demorada de Nash. Este conseguia ficar pensando num problema durante seis meses.”

Em função de sua genialidade, a passagem de Nash pelo Instituto de Estudos Avançados de Princeton foi rápida, começando no segundo semestre de 1949 e encerrando-se em maio de 1950 com a tese de doutorado chamada “Jogos Não-Cooperativos”, onde apresenta o famoso Equilíbrio de Nash.

A Teoria dos Jogos e o Equilíbrio de Nash

A Teoria dos Jogos passou a ser mais amplamente estudada na matemática e na economia após a publicação do livro Teoria dos Jogos e do Comportamento Econômico (1944). O livro do matemático John Von Neumann e do economista Oskar Morgenstern, procurava também teorizar uma solução para os principais problemas econômicos, mostrando que mesmo a economia sendo uma ciência não-exata, era possível estabelecer uma contingência de suas variáveis. A obra compara o comportamento humano na economia com o comportamento humano nos jogos em geral, evidenciando os conflitos de estratégia entre os participantes – “Será que se eu renunciar minha sede por vencer sozinho e me unir com um de meus adversários, eu poderia ganhar de todos os outros?” – e seus possíveis resultados, que, acreditava Neumann, poderiam ser favoráveis se os jogadores cooperassem entre si, fazendo coalizões. Um exemplo disso, seria quando duas empresas resolvem realizar uma fusão, pois assim derrubariam uma terceira concorrente e dominariam tal mercado, os famosos oligopólios.

A lacuna deixada, entretanto, foi nos jogos de soma zero (aqueles em que para um ganhar, o outro necessariamente deve perder) com mais de dois jogadores, onde havia a necessidade de uma teoria, cuja sua principal função seria analisar os resultados de decisões racionais, tomadas por agentes envolvidos em situações que demandem uma jogada específica na hora certa – leilões, jogos de cartas ou tabuleiro, guerras e até investimentos econômicos na Bolsa de Valores. Deve-se então, analisar as melhores estratégias disponíveis para que se leve vantagem sobre seus adversários e/ou concorrentes. Entretanto, neste caso não seria possível a comunicação com outros jogadores para que formassem coalizões. Portanto, estes seriam os chamados “jogos não-cooperativos”. Na sábia síntese de Sylvia Nasar, existia a tentativa de criar “[…] uma teoria sistemática do comportamento humano racional, enfocando os jogos como cenários adequados para o exercício da racionalidade humana”.

O Dilema dos Prisioneiros

Vamos supor que você, caro leitor (a), é pego pela polícia e é acusado de dois crimes. Há provas suficientes para que você seja condenado pelo primeiro crime, mas não há provas para que sequer te prendam pelo segundo. Entretanto, você tinha um cúmplice que também foi pego e vocês serão interrogados em salas separadas. Ambos já ficarão seis meses presos. Mas há um porém: vão oferecer a você e a seu cúmplice a chance de liberdade perante a confissão do segundo crime – o que acarretará 10 anos de pena ao comparsa, já que isso seria um testemunho contra ele, uma traição. Entretanto, há o risco de ambos confessarem o crime. Acontecendo isso, haverá um testemunho de cada, corroborado pelo do outro. Exclui-se, portanto, a necessidade de mais provas. Isso acarretaria 5 anos de prisão para cada um. Denominamos tal situação como um exemplo de Jogo Não-Cooperativo, onde “eu penso que ele pensa que eu penso” enquanto “ele pensa que eu penso que ele pensa”.

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Já que não se pode combinar com o outro a melhor estratégia através de uma coalização, deve-se então, pensar no conjunto das melhores estratégias que seu “oponente” poderá utilizar. Assim, deve existir alguma forma de a aplicação de sua melhor estratégia encontrar um ponto de equilíbrio, ou seja, um ponto em que ambos ganhem o máximo e percam o mínimo, perante a aplicação da estratégia adversária. Nash, em sua genial tese de doutorado, consegue estabelecer um cálculo, digno de um Nobel, apontando que em todo conjunto de estratégias, haverá um Equilíbrio de Nash.

No caso dos prisioneiros, então, o Equilíbrio de Nash ocorrerá com a confissão, uma vez que ela lhe trará o melhor benefício. Se o seu cúmplice for fiel e não confessar o crime, você ficará em liberdade e ele cumprirá dez anos. E se ele te trair como você o fez, ambos cumprirão 5 anos. Chega-se nesta conclusão porque supõe-se que o outro agente pensará em seu próprio e máximo benefício da mesma forma.
No filme Batman, O Cavaleiro das Trevas, temos um exemplo embasado nesta mesma teoria:

O Experimento Social do Coringa

Ambos os navios serão detonados à meia-noite. Porém, cada navio possui um detonador que explode o outro e ambos não podem se comunicar entre si. Tudo que se sabe a respeito das possibilidades de escolha do outro é: em um dos navios temos criminosos condenados, portanto, pessoas que supostamente já fizeram mal para outras; no outro, temos civis inocentes, que em função do pensamento contido na afirmação anterior, poderiam enxergar os criminosos como pessoas inescrupulosas o suficiente para lhes explodir sem pensar duas vezes. Logo, em ambos os casos, há a chance de que os passageiros de um dos navios escolham detonar o outro navio, exatamente por acreditarem que os passageiros do outro navio fariam exatamente isso, pelo mesmo motivo.

Se levarmos em conta o Equilíbrio de Nash – o Coringa certamente o fez – a escolha mais sensata é a de apertar o detonador o mais rápido possível. Uma vez que isso impediria tanto a explosão à meia-noite, que seria realizada pelo fantástico personagem interpretado por Heath Ledger, quanto à explosão preventiva dos passageiros do outro navio. Mas, diferentemente da economia, das guerras e do Poker, no filme havia uma variável que alterou todos os resultados. Uma variável impossível de ser prevista por Nash ou por qualquer outro gênio da história: O BATMAN.

A Esquizofrenia Paranóide

Ao ser questionado pelo professor de Harvard e matemático George Mackey, “como um homem dedicado à razão e à prova lógica – um matemático como ele! – pode acreditar que estaria sendo recrutado por alienígenas do espaço exterior para salvar o mundo?” John Nash responde, esquecendo de toda e qualquer pitada de emoção no rosto que um ser humano deve ter ao dizer algo:

“As idéias que eu tinha sobre seres sobrenaturais vinham a mim da mesma forma que minhas idéias matemáticas. De modo que eu as

considerei seriamente”.

Para o psiquiatra Anthony Storr, a difícil compreensão da coincidência entre o número de de gênios e loucos poderia estar ligada ao fato de que seja possível dizer que “algumas pessoas criativas […] usam suas ideias e capacidades criativas de modo defensivo. […] o trabalho criativo protege um homem da doença mental […]”. Anthony Storr, The Dynamics of the Creation, (Nova York: Atheneum, 1972).

Sua certeza de que recebia mensagens subliminares através de notícias do The New York Times e suas novas e estranhas teorias matemáticas, que envolviam numerologia agregada à hipóteses sem sentido algum, foram questões intermediárias à sua carreira iniciada aos 23 anos, como professor do Massachussetts Institute of Tecnology (MIT) e sua primeira internação em um hospital psiquiátrico aos 31 anos.

A esquizofrenia, assim como fora batizada pelo Dr. Eugen Bleuler em 1908, é um “tipo específico de alteração do pensamento, dos sentimentos e da relação com o mundo exterior”. Antes chamada de Demência Precoce, é uma doença marcada principalmente pela presença de delírios – discursos de grandeza (exacerbação da própria posição ou situação) e/ou persecutoriedade (ser alvo de uma perseguição ou conspiração de algo ou alguém) – e de alucinações – percepções reais de imagens, sons, cheiros, toques e gostos que não existem fisicamente, deixando um, dois ou todos os cinco sentidos alienados à realidade. Seu maior problema, no entanto, é o “profundo sentimento de incompreensibilidade que o paciente provoca nas outras pessoas”.

Essa quebra de contato com a realidade comum, faz com que ninguém consiga entender o paciente, mesmo que este frequentemente aparente estar lúcido e demonstre extrema articulação verbal em seu discurso. Não é incomum que muitas pessoas acreditem em um delírio, uma vez que seu interlocutor pode ser muito convincente – por de fato sentir que vive tal realidade. As vozes ouvidas costumam corroborar – e muito! – o conteúdo de um delírio. Discutir é inútil: é como alguém ir até um cirurgião, em plena mesa de operação, e tentar convencê-lo de que ele é um motorista aposentado.

O encontro da esquizofrenia com a nossa dita normalidade, se assemelha ao diálogo telefônico de duas pessoas morando em países de fusos horários opostos. Ambas compartilham do mesmo tempo e espaço. Mas para que uma vivencie a luz, a outra, necessariamente, precisará viver na escuridão. Bastaria então, para termos o que apelidar de loucura, que uma contasse à outra sobre o lindo e ensolarado dia que vê da janela de seu quarto. Ou seja: acreditar na lucidez da outra pessoa, seria o mesmo que aceitar a própria loucura. Porque tudo aquilo é vivido verdadeiramente.

“Uma doença incurável chamada consciência.” – F. Dostoiévski.

A esquizofrenia é comumente interpretada como a ausência da razão. Mas o psicólogo Louis A. Sass, a relata “não como uma fuga da razão, mas uma exacerbação daquela doença [consciência] total imaginada por Dostoiévski[…] uma alienação não da razão, mas da emoção, dos instintos e da vontade”.

Outros de seus sintomas mais comuns são os chamados “Sintomas Negativos”. Estes trazem uma total dissociação da afeição, do pensamento e da vontade. A emoção se torna ausente nos olhos, nas feições e nos movimentos de seu corpo. Há uma apatia e frieza em relação ao Outro que assusta. A parte curiosa é que, em um mesmo indivíduo, ou de um para o outro, a variação de sintomas é tamanha, que ainda não há, em absoluto, a definição de um “caso típico”, como postula Sylvia Nasar na biografia de Nash. Há na pessoa o contorno do que era antes, mas seu conteúdo voou como fez uma borboleta de seu antigo casulo. Nash se sentia preso em sua condição psíquica, como ele mesmo disse: “Tenho a impressão de que sou como a vítima de uma espera excessivamente longa pela libertação […]”.

“Um crescente nível de consciência é um perigo e uma doença”.

Friedrich Nietzsche.

A Crise de Refugiado

Apesar de inúmeras tentativas de seus amigos e colegas matemáticos, as sucessivas internações psiquiátricas e surtos, que já chegaram a acontecer até em meio a palestras que Nash viria a dar, foram parte de um conjunto de fatores que o levaram, inevitavelmente, a ficar desempregado e sozinho, causando até o afastamento de sua irmã e de sua esposa, Alicia Nash.

Em plena Guerra Fria, Nash queria se considerar um refugiado na Europa. Tentou fazer a renúncia de sua cidadania estadunidense inúmeras vezes, tão falhas quanto os pedidos de refúgio que fez à França e à Suíça em meio às suas perambulações em campos de refugiados, embaixadas, prisões e abrigos. Viajou pelo Cairo, Tebas, Mongólia e Guiana. A biógrafa de Nash explica tal momento de sua vida brilhantemente: “Assim como a hiperconcretude de um sonho se relaciona com os temas intangíveis da vida em vigília, a busca de Nash por um pedaço de papel, uma carteira de identidade, reflete sua antiga procura por insights matemáticos”.

John estava em um surto tão intenso, que se considerava o “Príncipe da Paz”, o “Pé Esquerdo de Deus” ou o “Imperador da Antártida”. Essa era a natureza grandiosa de seus delírios. E apesar destes terem feito o matemático a vagar por vários continentes, os estudiosos sobre os delírios não os vêem como a entrega da pessoa à doença, e sim como uma tentativa desta de se reestruturar à realidade, como “esforços heróicos para manter algum tipo de equilíbrio mental”, como diria o pesquisador E. Fulley Torrey. Não é atoa que estes têm uma lógica quase incontestável.

A Remissão

Apesar da apatia, da indiferença às emoções e da devastação de sua vida social e profissional, Nash tinha medo da normalidade. Talvez porque a normalidade seja uma fábrica de homens medíocres, talvez porque, como já disse Contardo Calligaris em seu seriado Psi!, esta seja “A pior das patologias, pois não tem cura e é altamente contagiosa”. Talvez tenha sido este o fundo de verdade da brincadeira que Nash fez uma vez, enquanto estava internado, com seu amigo Donald Newman ao perguntar: “E se eles não me deixarem sair até que eu esteja NORMAL?

A Esquizofrenia não devastou só a mente de Nash, mas o fez perder o contato que tinha com sua irmã Martha, com seus dois filhos (um bastardo e um legítimo), com sua esposa e a vasta maioria de seus amigos e colegas de trabalho. Em função de sua doença e da total devoção de sua esposa, sempre disposta a acompanhá-lo onde quer que fosse, seu filho legítimo, John Charles Martin Nash, ficou por volta de ano sem receber um nome e até morou com sua avó quando seus pais foram à Europa. Como o bebê nasceu em meio a um surto de Nash, Alicia, sua esposa, preferiu esperar até a melhora do pai para que seu filho viesse a ter um nome. Ele era chamado de “bebe épsilon”, uma piadinha matemática. Os matemáticos diziam que todo bebe nasceria sabendo solucionar a Hipótese de Reiemann e desaprenderia até os 6 meses. Uma curiosidade: Nash estava decidido a provar tal hipótese como verdadeira ou falsa um pouco antes de ser internado em um surto pela primeira vez.

Entre suas internações psiquiátricas, seus momentos de lucidez e até nos tempos em que John era considerado “bom” o suficiente  não ser internado, mas “doente” o suficiente para não ter um pingo de normalidade em sua vida, Nash passou um tempo vagando pelos corredores do Instituto de Estudos Avançados de Princeton. Não sendo reconhecido pelos que já tinham estudado a sua própria teoria – que a este ponto já era considerada importantíssima, ele era considerado “O Fantasma de Fine Hall”. A doença, que havia chegado ao seu auge em poucos meses dos anos 60, apresentou seus primeiros sinais de remissão no começo dos anos 90. Sua melhora “foi um esvaziamento gradual”, como diria ele próprio.

Chegando a este ponto de leitura, já está claro que o pensamento de John Nash se mostrou, de alguma forma, superior ao da maioria. Há certamente um conjunto de especialistas que duvidem disso, mas para o nosso Nobel de Economia, quando perguntado sobre como e quando aconteceu a remissão de sua doença, ele responde: “Aos poucos, comecei a rejeitar intelectualmente certas linhas de pensamento influenciadas pelo estado de delírio […]”. Nash compara sua recuperação ao “[…] papel da força de vontade para se fazer uma dieta efetiva: se fizermos um esforço para “racionalizar” nosso pensamento, então poderemos simplesmente reconhecer e rejeitar as hipóteses irracionais do pensamento delirante”.

O problema é que, infelizmente, a remissão da esquizofrenia pareceu levar embora de John uma parte de sua inteligência. Seus insights foram embora, era mais difícil trabalhar em suas teorias. Não se saberá nunca se isso foi resultado dos tratamentos com insulina, se foram as repetidas doses de torazina e outros antipsicóticos neurolépticos, ou então, se a loucura de John Forbes Nash Jr. era apenas um sintoma de sua genialidade. Um estilo de pensamento único, que considerava mil possibilidades de um mesmo problema em milissegundos. O embotamento cognitivo típico da esquizofrenia foi fatal à Mente Brilhante de Nash. Ele mesmo considerava seus pequenos intervalos de lucidez como “interlúdios de racionalidade forçada”. A remissão o fez recuperar sua vida, mas nunca a sua essência de gênio. Ele mesmo diz:

“O pensamento racional impõe um limite à ideia que a pessoa tem de sua relação com o cosmo […] as pessoas pensavam que eu estava recuperando minha inteligência brilhante, mas eu, na verdade, estava retrocedendo a níveis de pensamento cada vez mais simples”.

A percepção de quem consegue superar e se recuperar de um quadro crônico de esquizofrenia, poderia ser semelhante ao despertar de um sonho lúcido. Em meio àquela imersão da imperceptível surrealidade do sonho, se este é bom, a vida real adquire um gosto amargo, ficamos tristes em sair daquele meio de realizações, onipotência e prazer. Por outro lado, se tivermos um pesadelo, é um grande alívio sabermos que ainda temos a chance, a esperança, de uma vida inteira de escolhas. Pois as más escolhas feitas durante o sonho saíam completamente de nosso controle. Mas se há algo que a vida de John Nash nos ensina, é que, sem dúvidas, a esquizofrenia se diferencia de um sonho ou pesadelo a partir dos rastros que sua surrealidade deixa na vida de quem a experiencia.

John Forbes Nash Jr.

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Dê play na inspiração dos assobios de Nash:

Nascido em 13 de junho de 1928, seus vícios eram assobiar músicas de Bach pelos corredores de Princeton enquanto procurava insights matemáticos em sua mente, repleta de atalhos ao pensamento genial. Teve dois filhos: John David Stier, que passou a vida sem a presença e sem o Nome do Pai. E John Charles Martin Nash, que herdou, juntamente ao Nome Próprio, a inteligência e, posteriormente, a crônica esquizofrenia paranoide — o tripé da fama de seu pai.

O único amor maior que a matemática em sua vida, foi o correspondido amor por Alicia Nash. O homem de quase 1,90m, passou de um jovem arrogante matemático ao vencedor do Premio de Economia em Homenagem a Alfred Nobel, em 1994, em função de sua contribuição à Teoria dos Jogos.

Se alguém lhe dizia “Bom Dia”, John Nash iria buscar a fórmula matemática que eliciaria tal comportamento àquela forma. Talvez em um contraste ao seu interesse pelas relações humanas em geral, Nash se tornou um dos maiores gênios no que diz respeito à análise do comportamento humano. Não pelos seus praticamente inexistentes estudos em psicologia ou psiquiatria, mas por carregar em si, o fardo daqueles que mudam para sempre a história do limitado pensamento “humanóide”, como ele já nos chamou.

Morreu aos 86 anos, como que por missão, lado a lado com sua esposa Alicia Nash, em 23 de maio de 2015. Sua morte aconteceu dias depois de conquistar o Abel, a premiação máxima na Matemática, pelo desenvolvimento do PDE (Partial Different Equations, ou equações parciais diferentes). O motorista de táxi da cidade de Nova Jersey, a mesma onde fica Princeton, seu centro de realizações, falhou em uma ultrapassagem que resultou em uma colisão que levou o casal, sem cinto de segurança no banco de trás, para fora do veículo. Tenho certeza que onde quer que esteja, o matemático estará criando uma fórmula para entender a razão do choro que tantos de nós, mortais e de intelecto mediano, derramamos em função de sua partida. Nash não só Equilibrou a Teoria dos Jogos e do Comportamento Econômico, como também equilibrou o lado brilhante com o doente de sua mente, mas, principalmente, se Equilibrou entre os preconceitos de um mundo conservador e preconceituoso, que agora será obrigado a conservar uma das mais lindas e históricas contribuições para a matemática. Mesmo que está tenha sido deixada pela maior representação do medo conservador: um diferente.

 

 

 

Fontes:

https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economic-sciences/laureates/1994/nash-bio.html

Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição

https://rbsc.princeton.edu/sites/default/files/Non-Cooperative_Games_Nash.pdf

Livro consultado para a maior parte do texto: Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind), de 2001. Sylvia Nasar.

 

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