As 3 Grandes Forças em Psicologia

Psicologia? Psicanálise? Behaviorismo? Gestalt-Terapia? Perls? Skinner? Freud? Como é estruturado o saber psicológico? O que é o que?

O texto de hoje visa explanar sobre as chamadas 3 Grandes Forças em Psicologia, a fim de traçar uma organização teórica e cronológica acerca do behaviorismo, psicanálise e das linhas humanistas-existenciais.

A Psicologia enquanto ciência

Wundt e estudantes de psicologia em Leipzig

1879 é considerado o ano de nascimento da psicologia. Naturalmente que já se falava de psicologia e de temas como mente, comportamento, felicidade, sofrimento, percepção, inteligência, emoção, saúde, doença, entre outros tópicos basilares, desde a antiguidade, porém, 1879 é o ano em que W. M. Wundt (1832-1920) funda o 1º laboratório de psicologia experimental (Psychologische Institut, na Universidade de Leipzig – Alemanha). É a partir dessa data que a psicologia começa a criar um campo de conhecimento próprio, com metodologia própria e separada do saber filosófico.

Esta ciência tem de investigar os fatos da consciência, suas combinações e relações, de tal modo que possam, finalmente, descobrir as leis que governam tais relações e combinações.

(Wundt, 1912/1973, p. 1)

Os primeiros psicólogos experimentais (além de Wundt vale citar Ernst Heinrich Weber [1795-1878] e Gustav Theodor Fechner [1801-1889]) se debruçaram sobre temas como consciência, introspecção, sensação e percepção, limiares de percepção, atenção e emoções, por exemplo e utilizaram, principalmente, técnicas da chamada psicometria e psicofísica, para analisar e medir esses fenômenos.

A partir dessas investigações surgem ramificações, movimentos e escolas próprias como o estruturalismo, o funcionalismo, o behaviorismo (1ª grande força), a psicanálise (2ª grande força) e a psicologia humanista-existencial (3ª grande força). Essas correntes psicológicas são arcabouços teórico-práticos que influenciam a forma com que o psicólogo compreende e intervém sobre as questões humanas.

1ª Grande Força em Psicologia: o Behaviorismo

skinner, watson e pavlov
(Skinner, Watson e Pavlov com um cão, respectivamente)

O behaviorismo (ou comportamentalismo) nasce como uma crítica ao introspeccionismo e às teorias mentalistas (como a psicanálise), isto é, quando o indivíduo busca acessar, se conscientizar e relatar seus estados internos. Para os behavioristas, o introspeccionismo é falho e, além de fornecer informações errôneas, afasta a psicologia do seu verdadeiro objeto de estudo – o comportamento.

O problema mentalista pode ser evitado com procurarmos diretamente as causas físicas anteriores, desviando-nos dos sentimentos ou estados mentais intermediários. A maneira mais rápida de fazer isto consistem em limitarmo-nos àquilo que um dos primeiros behavioristas, Max Meyer, chamou de “a psicologia do outro”; considerar apenas aqueles fatos que podem ser objetivamente observados no comportamento de alguém em relação com a sua história ambiental prévia. Se todas as ligações são lícitas, não se perde nada por desconsiderar uma ligação supostamente imaterial.

(Skinner, 1974/2006, p. 16)

Dessa forma, essa corrente da psicologia se debruçou sobre o que pode ser observado e mensurado diretamente, isto é, o ambiente e o comportamento da pessoa, ou seja, as contingencias ambientas e comportamentais (estímulos anteriores e posteriores referentes à uma ação).

Podemos entender estímulo como “uma alteração detectável no meio em que o indivíduo está inserido” (Lombard-Platet, Watanabe & Cassetari, p. 37, 2008), o que compreende, por exemplo, alterações na luminosidade, temperatura, sons, cheiros e qualquer coisa captada pelos órgãos sensoriais. O comportamento, em um primeiro momento, tem ser uma ação observável e mensurável, isto é, o behaviorista não analisa o “sofrer” ou a “diversão”, mas pode analisar, em intensidade e frequência, o chorar, a diminuição da fala, a mudança na postura, o gritar, o sorrir, o pular, o correr…. Também falamos de comportamentos involuntários (respondentes, como alteração de pupila, sudorese, salivação, erubescer…) e voluntários (operantes, como acender a luz, pegar uma revista, andar até a padaria…). De uma forma resumida, os comportamentos involuntários são eliciados pelos estímulos antecedentes (condicionamento clássico, pavloviano ou respondente) enquanto os comportamentos voluntários são emitidos, reforçados, punidos ou extintos pelas suas consequências – o estímulo posterior (condicionamento operante). Com o avanço da corrente behaviorista passou-se a falar também dos chamados comportamentos encobertos, isto é, aqueles que não são observados diretamente por outrem (como pensar, sonhar, imaginar…). É importante dizer também que seu desenrolar/legado fez nascer a TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental.

Autores do Behaviorismo

Os 3 principais e “clássicos” autores do behaviorismo são I. Pavlov (1849-1936), responsável pela descoberta do comportamento respondente; J. B. Watson (1878-1958), considerado o fundador da corrente, pai do behaviorismo metodológico e famoso pelo experimento do pequeno Albert; e B. F. Skinner (1904-1990), pai do behaviorismo radical, que ampliou as “Leis do Efeito” (de E. L. Thorndike) enquanto compreensão do comportamento operante, grande autor sobre processo de aprendizagem, criador da Caixa de Skinner, famoso pelos experimentos e demonstrações com ratos e pombos.

2ª Grande Força em Psicologia: a Psicanálise

consciente inconsciente id ego superego
(Representação da compreensão Freudiana sobre o aparelho psíquico humano: 1ª e 2ª tópica)

Aqui temos o papel do influente Sigmund Freud (1856-1939) e a importância da vida psíquica inconsciente, onde emergem temas como psicossomática, desenvolvimento psicossexual, neurose, histeria, mecanismos de defesa, sonhos, desejos e censuras. A psicanálise nasce na psicologia e dialoga, principalmente, com a psicologia clínica, todavia, hoje ela está para além da questão clínica, aparecendo como uma forma de estudar os aspectos dinâmicos da sociedade, economia, política e pensamento. Dessa forma, hoje temos muitos psicanalistas que não são psicólogos, mas possuem formação básica em filosofia, sociologia, medicina, letras e outras graduações. Falamos também de psicanálises, isso pois se trata de uma das linhas teórico-práticas que mais apresentam diferenças conceituais e intervencionistas de autor para autor, o costuma causar confusões naquilo que diz respeito às compreensões iniciais na temática. Mas, independente das diferenças do psicanalista em questão e como ele vai compreender aspectos do psiquismo, as psicanálises se aproximam quando compreendem um processo de conhecimento/tratamento/cura que, necessariamente e para sua efetividade, precisa passar pelo outro. Isto é, só sei de mim, pelo outro – e sobre essa questão específica, recomendo o seminário A Utopia do Autoconhecimento, veiculado no Café Filosófico, por Ricardo Goldenberg.

As psicanálises também costumam compartilhar a questão da transferência, isso é, padrões específicos relacionados às relações interpessoais passadas que direcionam a forma como a relação presente se manifesta e se estabelece – a transferência diz sobre seu portador e seu manejo pode ressignificar/resolver conflitos reprimidos. A noção da influência dos processos inconscientes também é basilar sobre o discurso do sujeito (discurso aqui, não compreende apenas a fala).

Digamos que alguém — um paciente em análise, por exemplo — nos relata um de seus sonhos. Nós supomos que desse modo ele faz uma das comunicações que se comprometeu a fazer iniciando um tratamento psicanalítico. Uma comunicação com meios inadequados, é certo, pois o sonho não é uma expressão social, um meio de entendimento. Não compreendemos o que ele quer dizer, e ele próprio não sabe o que é. Então temos que tomar rapidamente uma decisão: ou o sonho, como nos asseguram os médicos que não são psicanalistas, é um indício de que a pessoa dormiu mal, de que nem todas as partes do seu cérebro descansaram igualmente, de que alguns pontos quiseram continuar trabalhando, sob a influência de estímulos desconhecidos, e só puderam fazê-lo de modo bastante incompleto. Se assim for, será correto não nos ocuparmos mais do produto — psiquicamente sem valor — da perturbação noturna; pois o que tal pesquisa traria de útil para nossos propósitos? Ou então — percebemos que desde o início já decidimos de outra forma. Fizemos o pressuposto, adotamos o postulado — bem arbitrariamente, deve-se admitir — de que também esse sonho incompreensível teria de ser um ato psíquico inteiramente válido, de sentido e valor plenos, que podemos usar como qualquer outra comunicação na análise.

(Freud, 2010 pp. 95-96)

O clínico Freud foi influenciado, principalmente, por J.-M. Charcot (1825-1893), com quem aprendeu sobre histeria e hipnose, e J. Breuer (1942-1925) com quem estudou o método catártico (a cura pela fala). Sua obra é grande, estruturada e desenvolve o nascimento da psicanálise por meio de contato com outros saberes (biologia, física e literatura) e por meio dos processos de análise clínica e da autoanálise do próprio Freud.

Durante muito tempo, o aspecto mais conhecido e discutido da obra de Freud era o da teoria da libido, que ele elaborou inspirado nos modelos da eletrodinâmica ou da hidrodinâmica vigentes na ciência da época. Assim, o conceito de libido, que Freud concebeu como sendo a manifestação psicológica do instinto sexual, recebeu sua origem na tentativa de explicar fenômenos, tais como os da histeria, que Freud explicava como sendo resultantes do fato de que a energia sexual era impedida de expandir-se através de sua saída natural e fluía, então, para outros órgãos, ficando restringida ou contida em certos pontos e manifestando-se através de sintomas vários. Freud chegara à conclusão de que as neuroses, como a histeria, a neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia (fobia), teriam sua causa imediata no aspecto “econômico” da energia psíquica, ou seja, num represamento quantitativo da libido sexual.

(Zimerman, 2007, p.23)

Autores da Psicanálise

Para além do próprio Freud, podemos citar a influência de nomes como J. Lacan (1901-1981), que propôs um retorno sistemático à obra de Freud e a relacionou com os saberes da antropologia, linguística e estruturalismo, além de ter desenvolvido conceitos como Real, Simbólico e Imaginário; M. Klein (1882-1960), expoente da chamada “escola inglesa de psicanálise” foi uma das primeiras psicanalistas a atender crianças e sua contribuição se dá, principalmente, na compreensão dos componentes e fenômenos associados à vida psíquica primitiva; D. Winnicott (1896-1971) que abordou o papel do ambiente-cuidador para com o desenvolvimento emocional do sujeito e trouxe, entre outros, os conceitos de criatividade primária e tendência antissocial.

3ª Grande Força em Psicologia: a Psicologia Humanista-Existencial

Como uma reação ao behaviorismo e à psicanálise, a partir da segunda metade dos anos 1950 (e ganhado maior desenvolvimento e destaque durante as duas décadas posteriores), surge a 3ª Força. Contrária a uma visão determinista do homem (seja pela questão dos condicionamentos comportamentais ou pelo determinismo do inconsciente), ela valoriza a experiência consciente e trabalha com tópicos como: livre arbítrio; autorrealização; criatividade; esperança; potencial; sentido; contato; decisão; congruência; responsabilidade; entre outros…

(Abraham Maslow)

Seu fundador é considerado A. Maslow (1908-1970), famoso por desenvolver a “pirâmide hierárquica das necessidades básicas” e quem primeiro cunhou o termo “psicologia positiva“, em uma contraposição à chamada “psicologia negativa” – tradicional e focada na doença, no transtorno, no sofrimento e em seu tratamento/cura. Dessa forma, a Psicologia Humanista incorporou a visão de homem e mundo referente aos movimentos intelectuais do humanismo, do existencialismo e da fenomenologia. Dentro dela, vamos encontrar abordagens distintas como a Gestalt-Terapia, a Abordagem Centrada na Pessoa, ou a Logoterapia, por exemplo, onde cada uma tem suas particularidades clínicas e acabam por se aproximar mais do humanismo ou do existencialismo, a depender da linha téorico-prática, mas todas fazem parte da 3ª força que, segundo Schultz & Schultz (2008), integra os seguintes pontos essenciais:

  1. uma ênfase na experiência consciente;
  2. uma crença na integralidade da natureza e da conduta do ser humano;
  3. a concentração no livre-arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do indivíduo;
  4. o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição humana.

Dentre as abordagens clínicas dessa corrente psicológica, aquela que mais me identifico e acabei por estudar é a Gestalt-Terapia (não confundir com Psicologia da Gestalt). Essa abordagem é sempre uma terapia do contato e seu manejo é pautado no aqui-agora, sendo que a relação terapeuta-paciente funciona do ponto de vista dialógico, onde o terapeuta confronta e frustra o paciente que tenta se esquivar ou fugir do seu contato e experiência com o presente. A fenomenologia pauta o setting clínico e, desta forma, a interpretação não é adequada, mas sim a descrição. A farsa, as atuações e as incongruências não se sustentam na Gestalt-Terapia, uma vez que são valorizadas e validadas as experiências mais espontâneas e verdadeiras de alguém.

Gestalt-terapia é uma das forças rebeldes, humanistas e existenciais da psicologia, que procura resistir à avalanche de forças autodestrutivas, autoderrotistas, existentes entre alguns membros de nossa sociedade. Ela é “existencial” num sentido amplo. […] Nosso objetivo como terapeutas é ampliar o potencial humano através do processo de integração. Nós fazemos isto apoiando os interesses, desejos e necessidades genuínas do indivíduo.

(Perls, 1977, p.19)

A Gestalt-Terapia deve ser experimentada para melhor compreensão – ela não se basta enquanto teoria. Caso tenha curiosidade em saber como é uma sessão com abordagem gestáltica, recomendamos que participe de uma 😉 E recomendamos também que assista um, das várias sessões gravadas, com F. Perls – pai da GT. (após esse vídeo, colocamos também um atendimento de Carl Rogers, com a mesma mulher, para finalidades didáticas e comparativas).

Autores da Psicologia Humanista-Existencial

Como já foi dito antes, há abordagens mais humanistas e outras mais existenciais. C. Roger (1902-1987) pai da Abordagem Centrada na Pessoa e dos Grupos de Encontro, estudou sobre o crescimento pessoal, as relações interpessoais e os processos experienciais; F. Perls (1893-1970) ex-psicanalista, pai da Gestalt-Terapia, contribuiu naquilo que diz respeito à visão holística sobre o indivíduo, sobre o papel do terapeuta na conscientização das incongruências, bem como sobre as dificuldades da pessoa em experienciar e desfrutar do presente. V. Frankl (1905-1997), pai da Logoterapia, tem uma abordagem mais existencialista que se relaciona com a temática do sentido da vida – que começou a ser desenvolvida quando esse foi prisioneiro em um campo de concentração nazista.

Referências

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras.

Lombard-Platet, V. L. V.; Watanabe, O. M. & Cassetari, L. (2008). Psicologia experimental: Manual teórico e prático de análise do comportamento. São Paulo: Edicon.

Schultz, D. P. & Schultz, S. E. (2008). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Stevens, J. O. (Perls, F. et al.) (1977). Isto é Gestalt. São Paulo. Summus.

Wundt, W. (1912/1973). An introduction to psychology. Translation R. Pintner. London: George Allen & Company, Ltd.

Zimerman, D. E. (2007). Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

Estruturação frente à falta do Outro

1

(Imagem retirada da Internet. Na imagem lê-se: Nós temos os líderes que merecemos?)

Algum tempo atrás, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, intensificou a luta com relação à restrição da entrada no país de imigrantes ilegais.

Com a prática chamada de “tolerância zero”, o presidente determinou que ao serem flagradas ingressando em solo americano ilegalmente, as famílias fossem apartadas, com as crianças sendo direcionadas a abrigos. Antes, sempre que possível, as famílias eram mantidas unidas em prisões.

É importante apontar que parte das crianças que se encontram em abrigos, atravessou a fronteira sozinha, fugindo da violência de seus países de origem.

Muitas das crianças foram separadas dos pais antes dos 04 anos de idade. Isso impacta diretamente na estruturação da criança enquanto sujeito.

As fases do desenvolvimento sexual foram magistralmente descritas pelo meu colega Caio César. Sugiro que se remetam à esse texto para maior enfoque no tema.

Nasce um sujeito

2

(Imagem retirada da Internet)

Quando uma criança vem ao mundo, ela “chega ao mundo, portanto, engendrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo” (Flesler, 2012, p.17). Isto é, ela vem carregada já de significação, ela já é falada no discurso dos pais.

A sua entrada na sociedade se dará por meio de uma balização imaginária, de forma especular. Explico. O eu, a noção própria de quem somos, que é diferente dos outros, só é obtida à partir do tu, à partir, justamente do outro, que é encarnado, normalmente, pela mãe, pai, e/ou cuidadores iniciais da criança.

Pouco à pouco começa à emergir na criança o símbolo (Lacan, 1953-1954/1996). A criança começa à entrar no jogo simbólico, começa a estar submetida à regras, na escola e em casa. Aí, efetivamente começa a humanização, o processo de entrada na cultura.

Dois conceitos concebidos por Freud merecem nossa atenção nesse momento, pois interpelam diretamente a estruturação da criança enquanto sujeito.

O primeiro é a noção de Eu Ideal, uma instância primariamente imaginária, ligada ao desejo materno, ao olhar do Outro sobre o bebê. Quando uma criança nasce, há um investimento libidinal muito forte por parte dos pais (ou cuidadores). Eles depositam na criança uma série de afetos muito intensos.

Após o Complexo de Édipo, entra em cena o Ideal de Eu, referência externa à família, que baliza as relações da criança com o grupo social em que está inserida. Ou seja, a criança passa à ter como referência algo externo, um ideal, uma causa que não esteja em seu círculo familiar.

O olhar desejante da mãe para o bebê configura o primeiro objeto da criança, a primeira forma de relação do sujeito. Esse é o Eu Ideal.

Psicoses e outras saídas desfavoráveis

3

(Imagem retirada da Internet)

O rompimento abruto do contato da criança com os genitores pode ocasionar uma série de complicações. Buscarei me apoiar também em trabalhos de F. Dolto e D. Winnicott.

A presença de um genitor nessa fase que é crucial para a constituição do sujeito. O atendimento psicanalítico à essas crianças vai na direção de uma aposta em um possível, de uma estruturação possível.

Um exemplo de um caso em que o analista aposta no sujeito, é o Caso Dominque, contado por Françoise Dolto no livro de mesmo nome. É um texto que me parece importante citar, dado que a “criança”, já com 14 anos, apresentava uma  série de comportamentos psicóticos, totalmente desconexos com a realidade.

Naturalmente, a separação vivida por Dominique é bem diferente daquela enfrentada pelos filhos e filhas de imigrantes ilegais, atualmente nos EUA. Todavia, os efeitos psicotizantes da falta de uma figura paterna (ou que faça a função paterna) são notáveis.

Como diz Dolto (2010): “O amor que o ser humano, em sua pessoa em via de estruturação, tem pela mãe e pelas pessoas à sua volta é um amor cuja resultante efetiva é uma mímica de identificação, seguida do processo de introjeção”. Vemos aqui, o reconhecimento em forma de espelho que lhes dizia, uma identificação com os pais ou cuidadores que se rompida abruptamente, resulta em um sujeito preso em tempo passado, não conseguindo elaborar sua perda.

Winnicott, em seu trabalho Privação e Delinquência, fala justamente dos efeitos em crianças que não tiveram o acolhimento necessário, ou que o perderam, em momentos muito precoces da vida. A Criatividade Primária da criança é prejudicada, e surge, o que o autor chama de Tendência Anti-Social. Falando de Criatividade Primária, sugiro a leitura do texto do meu colega Caio Ferreira.

winnicott

(Sociedade dos Psicólogos, 2017)

Olhemos pelos pequenos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Referências Bibliográficas

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1953-1954/1996) Os escritos técnicos de Freud – Os Seminários, Livro I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Winnicott, D. (1987). Privação e Delinquência. São Paulo: Martins Fontes.

Explicando Winnicott: Criatividade Primária

A criatividade primária é um conceito central na teoria de Winnicott, relaciona-se com o sucesso do desenvolvimento emocional e com as características que emergem do verdadeiro self.

criatividade primária em winnicott
(D. W. Winnicott)

Donald Woods Winnicott (1986 – 1971) foi médico pediatra inglês e é conhecido como um dos grandes teóricos e clínicos da psicanálise pós-freudiana. Ele trabalhou em hospitais e também durante a 1º Grande Guerra Mundial, onde pode perceber que muitas das questões que levavam pacientes ao seu consultório diziam respeito às perturbações ambientais resultantes da interação entre o indivíduo e o ambiente. E foi debruçado sobre o papel do ambiente no desenvolvimento e na saúde do sujeito, que Winnicott pôde descobrir funções referentes ao cuidado materno que se mostraram essenciais para o desenvolvimento saudável do ser e pôde apresentar conceitos – que se tornaram de grande relevância na psicanálise – como: desenvolvimento emocional, ambiente facilitador, mãe suficientemente boa, integração, rumo à independência, preocupação materna primária, holding, handling, apresentação de objetos, objeto transicional, verdadeiro e falso self, criatividade primária, delinquência, tendência antissocial… entre outros, para citar alguns.

O texto de hoje visa discorrer um pouco do conceito de criatividade primária e apresentar sua relação com o desenvolvimento emocional, com o verdadeiro self e com a tendência antissocial.

Segundo Winnicott, o desenvolvimento saudável do sujeito possibilitará a integração e a independência deste ser, sendo que um ambiente adequado permitirá o estabelecimento de um verdadeiro self e da experiência criativa do viver.

Criatividade Primária X Criatividade

Antes de tudo, quando se fala sobre criatividade primária, faz-se necessário diferenciar o conceito, da criatividade associada, geralmente, às produções artísticas e, buscando tal distinção, segue um recorte da literatura:

“A fim de examinar a teoria utilizada pelos analistas em seu trabalho, e perceber onde a criatividade encontra lugar, é necessário, como já afirmei, separar a idéia da criação, das obras de arte. É verdade que uma criação pode ser um quadro, uma casa, um jardim, um vestido, um penteado, uma sinfonia ou uma escultura; tudo, desde uma refeição preparada em casa. Dizendo melhor talvez, essas coisas poderiam ser criações. A criatividade que me interessa aqui é uma proposição universal. Relaciona-se ao estar vivo.”

(Winnicott, 1975a, p. 112)

A Criatividade Primária em Winnicott

O conceito de criatividade apresentado por ele faz referência à experiência do viver, ao passo que se relaciona com as reações apresentadas frente aos estímulos vindos da realidade. O processo criativo diz respeito à dialética do sujeito com o mundo e funciona como um intermediador entre a realidade interna e externa.

“[…] sua origem está relacionada à tendência inata ao crescimento e as tarefas próprias de cada fase do desenvolvimento: integração, personalização e apresentação dos objetos, sendo que esta última nos leva ao contato com o mundo externo e permite ao ser viver a experiência de fazer e de se relacionar com outros seres. Através do contato criativo com o mundo as bases para a constituição do verdadeiro self são estabelecidas, e a saúde mental torna-se uma importante aquisição favorecida pelo ambiente cuidador.”

(Ciccone, 2013, p. 90)

Em outras palavras, o desenvolvimento emocional influencia e afeta a criatividade primária. É o seu sucesso que permite o funcionamento dela, isto é, o papel do ambiente é fundamental e dialoga diretamente com os processos criativos do sujeito. Seu sucesso trará o êxito criativo, enquanto o seu fracasso trará prejuízos neste campo.

“A criatividade que estamos estudando relaciona-se com a abordagem do indivíduo à realidade externa. Supondo-se uma capacidade cerebral razoável, inteligência suficiente para capacitar o indivíduo a tornar-se uma pessoa ativa e a tomar parte na vida da comunidade, tudo o que acontece é criativo, exceto na medida em que o indivíduo é doente, ou foi prejudicado por fatores ambientais que sufocaram seus processos criativos”.

(Winnicott, 1975a, p. 112)

mãe suficientemente boa - holding
(Mother and Child, 1920, Gari Melchers)

Sobre o papel do ambiente que possibilita a integração, o rumo à independência e permite o que virá a ser o verdadeiro e criativo self do sujeito, são necessários elementos específicos que giram em torno dos primeiros cuidados de função materna exercidos pela mãe suficientemente boa (good enough mother), que reúne as funções de holding, handling e apresentação dos objetos – assunto este que merece desenvolvimento para outra publicação.

Voltando à criatividade, essa guarda relação com o aproveitamento da vida e permite experimentar positivamente não só as situações boas e prazerosas, mas também situações ruins e desagradáveis. Isto é, em seu viver criativo, o sujeito é capaz de extrair e apreender contribuições da realidade, seja ela qual for. Sendo assim, viver a vida de forma criativa, influencia positivamente a própria percepção do valor da vida e a recíproca se faz verdadeira, segundo Silva & Silva Júnior (2009), ao apontarem que “Winnicott (1971/1975d) pode observar que os indivíduos ao viverem a vida, fazem-na, ora criativamente, imbuídos de um sentimento de que a vida realmente merece ser vivida; ora de maneira não criativa, colocando em dúvida a toda hora o valor do viver” (p. 35).

O conceito de criatividade também guarda relações com o verdadeiro self e falso self, conceitos fundamentais dentro da teoria e da clínica winnicottiana, que podem ser lidos, inicialmente, a fim de compreensão, como verdadeiro eu e falso eu. É o indivíduo criativo que tem a possibilidade de entrar em contato com o verdadeiro self.

“Para Winnicott, a vida que vale a pena é a vivida pelo verdadeiro self; mas se é o falso self que se estabelece enquanto um modo de ser e de relacionar-se com o mundo, certamente haverá uma sensação de inutilidade ou futilidade da vida.”

(Fulgencio, 2011, p. 398)

Este verdadeiro self é destacado por permitir o potencial criativo do sujeito e tem origens no brincar, conforme aponta Winnicott (1971/1975b) “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral; e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)” (p. 80). A possibilidade de criar a realidade diz respeito ao sucesso do processo criativo.

“Se existe um verdadeiro potencial criativo, podemos esperar encontrá-lo em conjunto com a projeção de detalhes introjetados em todos os esforços produtivos, e devemos reconhecer a criatividade potencial não tanto pela originalidade de sua produção, mas pela sensação individual de realidade da experiência e do objeto. O mundo é criado de novo por cada ser humano, que começa o seu trabalho no mínimo tão cedo quanto o momento do seu nascimento e da primeira mamada teórica”.

(Winnicott, 1990, p. 130)

A Tendência Antissocial

O último conceito que fiquei de apresentar neste texto e que se relaciona com o desenvolvimento emocional e a criatividade é a tendência antissocial, ao passo em que esta dialoga com os fenômenos ambientais, sendo que, uma falha nestes processos tem relações com a conduta do indivíduo, conforme aponta Ciccone (2013): “Essa perda a leva a buscar na realidade o objeto perdido e, ‘no momento de esperança, a criança alcança o objeto – e o rouba’” (p. 113). Nesse caso, a falha ambiental pode levar a uma regressão ou paralisação em seu desenvolvimento, bem como o aparecimento de delitos e comportamentos inadequados em sua conduta.

“Quanto o ambiente apresenta uma adaptação falha, o resultado é a intrusão ou, podemos dizer, a deformação do indivíduo, visto que a intrusão exige uma resposta, e com isso tira o indivíduo de seu estado de isolamento (primário) e o forma a desenvolver uma resposta reativa. Nesse contexto o indivíduo perde a sensação de continuidade do ser, ou seja, distorções psicóticas são produzidas e uma vida falsa pode entrar em cena.”

(Ciccone, 2013, p. 112)

tendência antissocial winnicott

Se a criança regride ou foge, ela regride ou foge, pois, espera, em sua fantasia, voltar ou encontrar uma época alternativa anterior conhecida e confortável, onde a realidade era mais segura e o ambiente mais organizado. Ela regride em busca de reencontrar a estabilidade que um dia lhe pertenceu, mas que hoje não lhe pertence mais. Seu comportamento antissocial ou delituoso pode vir como uma tentativa fantasiosa de obter de volta, reivindicando de forma reativa pela via do concreto, algo que lhe foi tirado. Sobre esta regressão ou fuga, Winnicott (1957/2000) diz “A criança cujo lar não conseguiu dar-lhe um sentimento de segurança procura fora de casa as quatro paredes que lhe faltaram; tem ainda esperança e busca nos avós, tios e tias, amigos da família e na escola o que lhe falta” (p.256). Pode-se dizer que ela regride por questões referentes ao seu desenvolvimento emocional e sobre isso, Winnicott complementa:

“A criança antissocial está meramente olhando um pouco mais longe, para a sociedade em lugar de sua própria família ou escola, a fim de lhe fornecer a estabilidade de que precisa, se quiser superar as primeiras e essenciais fases da sua evolução emocional”.

(Winnicott, 1979, p. 257)

A Teoria de Winnicott e o Filme Divertida Mente

Em meu artigo científico escrito durante a graduação em psicologia para fins de Trabalho de Conclusão de Curso que foi intitulado “Divertida Mente: uma análise psicanalítica das personagens-emoções Alegria e Tristeza”, utilizei a abordagem winnicottiana para auxiliar na análise do filme e utilizei o filme para ilustrar pontos da teroria, onde foi possível perceber que as personagens-emoções Alegria e Tristeza – que saem da sala de comando com o episódio de auto-apresentação na nova escola da nova cidade e só retornam trazendo a desistência da fuga e a volta para a família na parte final do filme – representam e ilustram a desorganização emocional que afetou Riley com a mudança de ambiente. Durante a primeira parte do filme, a personagem-emoção Alegria atua como líder na sala de comando e detém o maior número de memórias, chegando a excluir a Tristeza, em particular, de atuar na mesa de controle. Na parte final do filme, pode-se perceber que a Alegria reconhece a importância da Tristeza e isto confirma-se quando elas voltam para a sala de comando e a Tristeza é a única que consegue mexer na mesa de controle e fazer Riley entrar em contato com esta emoção, desistindo da fuga e voltando para sua família. Após este retorno, as emoções passam a funcionar de forma integrada e participam em conjunto na criação das memórias. As ilhas de personalidade se tornam um grande complexo de ilhas, o que demonstra a integração do seu Eu com a formação de um verdadeiro self criativo e cheio de recursos.

(Cenas do filme Divertida Mente – Rivera & Docter, 2015)

Também foi possível analisar a continuidade e complexidade no processo de desenvolvimento psíquico do ser, sendo que, depende este, de uma sequência de fenômenos, onde os processos para o estabelecimento de uma vida saudável estão relacionados e interferem positivamente ou negativamente entre si, começando pelo desenvolvimento emocional, cujo sucesso corresponde a um ambiente facilitador, que se inicia com a vida do bebê e é proporcionado pela mãe suficientemente boa, cuja função é facilitada pela preocupação materna primária. Então temos o fenômeno da criatividade, que depende do sucesso do desenvolvimento emocional e é condição sine qua non para o estabelecimento de um verdadeiro self e, consequentemente, uma vida saudável, criativa e positiva. Com isso, nota-se uma linha que se inicia no primeiro ambiente do bebê e vai tecendo, junto com ele e seus cuidadores, o seu desenvolvimento psicológico, desde uma dependência absoluta, fruto de uma relação simbiótica inicialmente necessária, até uma total independência e um viver criativo, se houver sucesso. Com base nisso, foi possível ilustrar conceitos da teoria psicanalítica de D. W. Winnicott, contribuindo didaticamente para a aprendizagem e o entendimento de sua obra.

O artigo abriu a análise e visa, com isto, incentivar que outros pesquisadores continuem essa investigação, onde as possibilidades já emergiram e podem ser expandidas no que diz respeito ao desenvolvimento emocional, a relação da psicanálise com o cinema, as outras personagens-emoções do longa-metragem, a correlação do filme com outras abordagens teóricas, ou ainda a relação das emoções com a formação das memórias, por exemplo.

Referências

Ciccone, S. D. (2013) Criatividade na obra de D. W. Winnicott (Master’s thesis). Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas.

Rivera, J. (Producer), & Docter, P. (Director). (2015). Inside Out [Motion Picture]. Burbank: Walt Disney Studios.

Silva, M. E. M. & Silva Junior, E. E. (2009) O viver criativo: segundo a teoria winnicottiana. II Jornada Interna dos Grupos de Estudo do GPAL, 1, 30-37.

Winnicott, D W. (1975) O brincar e a realidade. (J. O. A. Abreu & V. Nobre, Trads.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1971).

Winnicott, D. W. (1975a). A criatividade e suas origens. In D. W. Winnicott, O brincar e a realidade (J. O. A. Abreu & V. Nobre, Trads., pp. 108-139). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1971).

Winnicott, D. W. (1975b). O brincar: a atividade criativa e a busca do eu (self). In D. W. Winnicott, O brincar e a realidade (J. O. A. Abreu & V. Nobre, Trads., pp. 79-94). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1971).

Winnicott, D. W. (1975c). Objetos transicionais e fenômenos transicionais. In D. W. Winnicott, O brincar e a realidade (J. O. A. Abreu & V. Nobre, Trads., pp. 10-48). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1953).

Winnicott, D. W. (1979) A criança e seu mundo. Rio de Janeiro: Zahar Editores. (Original publicado em 1957).

Winnicott, D. W. (1990) Natureza humana. (D. L . Bogomoletz, Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1988).

Winnicott, D. W. (1996). Para um esboço objetivo da natureza humana. In D. W. Winnicott, Pensando sobre crianças. (M. A. V. Veronese, Trad., pp. 34-48). Porto Alegre: Artes Médicas. (Original publicado em 1945).

Winnicott, D. W. (2000). A preocupação materna primária. In D. W. Winnicott, Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. (D. L. Bogomoletz Trad., pp. 399-406). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1956).

Por Caio Ferreira

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