A Fuga de Nós Mesmos: psicologia existencial e autenticidade

A grande área da Psicologia Existencial tem em comum entre seus diversos autores, pesquisadores e teóricos, o ponto de que somos livres, somos indivíduos que fazem escolhas para constituir a si e boa parte do mundo a sua volta. Compreende-se que nós indivíduos humanos somos responsáveis por nossas ações, das menores às maiores, e dessa forma, autores de quase tudo que acontece em nossa vida, acontecimentos bons e ruins.

O que precisamos a princípio compreender é que o homem é conhecido como o animal que cria, que constrói, que confere significado, que faz, que desfaz, que destrói, que ressignifica.

Dentro de todo este contexto podemos notar um certo “movimento existencial”, uma espécie de ciclo comum a todos dentro do jogo das nossas escolhas. Acontece da seguinte maneira, vamos partir de um exemplo: você tem uma importante decisão a ser tomada, surgiu uma oportunidade incrível de trabalho, um salário melhor, melhores condições em geral, por uma carga menor de trabalho e é até mais perto da sua casa, aí você para e pensa em seu atual trabalho, as condições não são ruins, você está a anos na empresa e conhece  a todos. A partir deste cenário você opta pelo novo emprego, e é mesmo tudo aquilo que você esperava, mas existe sempre em algum lugar da sua mente, o momento que a seguinte reflexão acontece “e se eu tivesse escolhido ficar lá? Como seria?” por mais que sua decisão tenha sido bem sucedida, a reavaliação e um certo incômodo por não saber, sempre acontece em todas as nossas escolhas, das pequenas às grandes.

Então ponderemos juntos, se somos responsáveis por tudo que escolhemos e sempre vamos fazer esse movimento reflexivo, em dados momentos sentimentos muito difíceis e conflitantes podem surgir com nossas escolhas não é mesmo? E aí o que acontece?

A humanidade tem um jeito muito particular de lidar com estes desconfortos, é aí que acontecem fenômenos que chamamos de má-fé e por consequência temos a inautenticidade. Vamos compreender os dois, podemos entender como má-fé o movimento que fazemos para aliviar nossas responsabilidades, um exemplo disso podemos buscar na famosa fábula de Esopo intitulada “A Raposa e as Uvas”:

Numa manhã de outono, enquanto uma raposa descansava debaixo de uma plantação de uvas, viu alguns ramos de uva bonitas e maduras, diante dos seus olhos. Com desejo de comer algo refrescante e diferente do que estava acostumada, a raposa se levantou, ergueu as patas para pegar e comer as uvas.

O que a raposa não sabia era que os ramos das uvas estavam muito mais altos do que ela imaginava. Então, buscou um meio de alcançá-los. Pulou, pulou, mas seus dedos não conseguiam nem tocá-los.

Havia muitas uvas, mas a raposa não podia alcançá-las. Voltou a correr e a saltar outra vez, mas o salto foi curto. Ainda assim a raposa não se deu por vencida. Novamente correu e saltou, e nada. As uvas pareciam estar cada vez mais distantes e mais altas. 

Cansada pelo esforço e se sentindo impossibilitada de conseguir alcançar as uvas, a raposa se convenceu de que era inútil repetir a tentativa. As uvas estavam muito altas e a raposa sentiu-se muito frustrada. Esgotada e resignada, a raposa decidiu desistir das uvas.

Quando a raposa estava quase retornando para o bosque se deu conta que um pássaro que voava por ali, tinha observado toda a cena e se sentiu envergonhada. Acreditando ter feito um papel ridículo para conseguir alcançar as uvas, a raposa se dirigiu ao pássaro e disse:

– Eu teria conseguido alcançar as uvas se elas estivessem maduras. Eu me enganei no começo, pensando que estavam maduras, mas quando me dei conta que ainda estavam verdes, desisti de alcançá-las. As uvas verdes não são um bom alimento para um paladar tão refinado como o meu.

E foi assim que a raposa seguiu o seu caminho, tentando se convencer de que não foi por falta de esforço que ela não tinha conseguido comer aquelas uvas deliciosas. E sim porque estavam verdes.

A má-fé está em atribuir uma desculpa por algo, e não me entenda mal, todas as pessoas no mundo fazem isso, compreende-se a má-fé como um fenômeno natural, o mais importante aqui é, você sabe quando isso acontece com você?

Agora para compreender a inautenticidade, precisamos saber que um ponto importante nessa compreensão existencial é a de que um fator marcante é o projeto existencial ou projeto de vida, que é aquilo que você quer fazer de si, para onde você direciona sua vida. Uma vida que é voltada para seus objetivos é uma vida autentica, uma vida que lida com os ônus e os bônus das escolhas que faz. A inautenticidade então é o movimento de aderir projetos que não são seus, que na verdade sufocam aquilo que você é realmente, podemos exemplificar com o famoso clichê “plante uma árvore, tenha filhos e escreva um livro” ou “todos precisa se casar, ter filhos e ter um trabalho padrão”, acontece pelas pressões sociais, pelos padrões de vida vendidos como “os mais felizes”, como se a felicidade pode-se ser padronizada, formatada,  produzida em massa e vendida em lojas. A inautenticidade é viver uma vida que você no fundo não quer, mas tem algum conflito emocional que talvez ainda não compreenda, que te prende a este modo de viver, ao que não é seu.

A partir disso podemos falar sobre alguns comportamentos relevantes na atualidade que muitas vezes acendem o alerta de um projeto inautêntico ou de alguma outra questão emocional a ser resolvida.

O modo de vida atual acarreta nas pessoas grandes pressões de diferentes fontes, a modernidade e suas mudanças constantes, a tecnologia e o meio social que esta nos oferece e que cobra seu preço, as cobranças sociais, as ameaças naturais da vida associadas ao estilo de vida capitalista que nossa sociedade adota, que nos cobra quase sempre uma rotina muito intensa de trabalho, as múltiplas possibilidades em uma vida de consumo, e as muitas maneiras de “como se viver” que podem ser “pregadas” de muitas maneiras atualmente, na família, no âmbito religioso ou até mesmo com os vários “gurus” de como se viver espalhados por aí.

Frente a todos estes movimentos, algumas pessoas, na impossibilidade de cumprir um projeto de vida ideal, ou seja, aquilo que sempre quis, ou por ter feito escolhas que hoje se mostram ruins podem assumir uma postura de anulação de si mesmo.  Associado a tecnologia e aos modos de vida que a modernidade proporciona, destaco aqui alguns comportamentos recorrentes em indivíduos que tentam não encarar sua inautenticidade.

O trabalho sem fim

O primeiro e provavelmente mais comum é aquela pessoa que mesmo quando pode, não deixa o trabalho, sua atividade profissional está sempre em prioridade, na vida deste indivíduo não cabe mais nada, não há tempo para mais nada além da tarefa atual e da próxima.

O influencer

Outro comportamento muito repetido atualmente é o de ter uma vida nas redes sociais totalmente artificial, onde nada que está na rede realmente tem ligação com a vida que a pessoa vive, e gradativamente este passa a ficar mais ligado as redes sociais do que a sua realidade fora do mundo digital.

O gamer

Este mais comuns em adolescentes, frente talvez a sua realidade ou a dificuldades com conflitos comuns nesta etapa da vida, muitos atualmente acabam usando os jogos eletrônicos como válvula de escape, como fuga do mundo real, outros semelhante ao influencer, tem uma vida dentro do game, onde talvez parte de seu projeto seja mais aceito do que na sua vida tangível.

O isolado

Este acaba muitas vezes sendo automaticamente vinculado ao rótulo da depressão, mas em muitos casos, a pessoa isolada que não sai do quarto está evitando se deparar com uma vida onde seu projeto não cabe, ou não é aceito. Muitas vezes está evitando lidar com este projeto inautêntico que tem adotado.

O altruísta

Para algumas pessoas a maneira de não encarar seu projeto é usando todo seu tempo e energia em auxílio dos demais, não digo aqui que devemos ser egoístas, mas sempre é necessário dedicar tempo as nossas próprias vidas também, no caso que descrevo, esse indivíduo passa a adotar os problemas alheios para evitar lidar com os seus.

Então…

Espero aqui poder ter ilustrado como de muitas formar mascaramos nossas atitudes, afim de não lidar com os resultados de escolhas que fizemos e que muitas vezes não escolhemos o que queríamos ou que seria melhor para nossas vidas, mas ficamos presos aos padrões, ao mais fácil, mais aceitável socialmente, e por consequência o mais massificado e inautêntico modo de viver.

Não foi a intensão aqui esgotar um tema que basicamente é infindável frente as possibilidades humanas, mas sim propiciar uma breve reflexão sobre nossas vidas e nossas escolhas.

Atenciosamente,

Patricio Lauro

Psicólogo – CRP 18/03237

REFERÊNCIAS

BRETON,  David Le. Desaparecer de si: Uma tentação contemporânea. Vozes, 2018.

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Trilogia da Existência: teoria e prática vivencial. Appris, 2013.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Vozes. 4ª Ed. 2014.

O que é o Autismo?

No mês de Abril comemora-se o mês da conscientização do Autismo. Para uma condição tão em voga para pais nos dias atuais, penso que seja necessário um debate explicativo do que é o autismo, como se constitui enquanto estrutura clínica e seu tratamento.

Autismo 2

Histórico

Apenas recentemente o Autismo ganhou um espaço próprio na compreensão diagnóstica psiquiátrica e psicológica. Até então, o autista era incluído no grande grupo de crianças com deficiências mentais (Kupfer, 1999).

Foi apenas nos anos 1940 que o autismo foi diferenciado das psicoses mais gerais, à partir dos trabalhos de Leo Kanner e Hans Asperger.

O asilamento provinha do diagnóstico frequente de incurabilidade do quadro clínico. A luta por direitos exercida por associações de pais fez com que o acesso à melhores tratamentos fosse possível (Laurent, 2014).

No âmbito da psicanálise, é importante destacar o trabalho de Rosine e Robert Lefort, que, seguindo os passos de Lacan, introduziram uma abordagem terapêutica que conciliava o entendimento psicanalítico lacaniano com a clínica da infância.

Autismo é genético?

Alguns acreditam que componentes genéticos são responsáveis pelo desencadeamento da sintomatologia autista. Por outro lado, temos aqueles que creem que o ambiente é responsável por si só.

A psicanálise envereda por uma terceira via, a da psicogênese, mas sem descartar a importância de outros elementos. Segundo Kupfer (1999):

“o autismo não seria nem o efeito de uma falha genética, nem o efeito de “interações ambientais” entendidas como o faz a psicologia americana, mas uma conseqüência da falha no estabelecimento da relação com o Outro, quer porque o Outro materno não esteve disponível, quer porque falhou no bebê a permeabilidade biológica ao significante.” (p. 99)

Como afirma Laurent (2014): “O fato de haver algo de biológico em jogo não exclui a particularidade do espaço de constituição do sujeito como ser falante” (p. 33).

Lacan dizia que um bebê não passa de um bife com olhos. A subjetivação vai sendo acrescida a sua vida com o passar do tempo, em sua entrada no laço social, na sociedade.

Pensando nisso, é importante ressaltar que a psicanálise não culpa as mães pela emergência no autismo em seus filhos, como falas errôneas pregam já há muito tempo.

Autismo no DSM

Pela perspectiva do DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual for Mental Disorders) o autismo se encontra dentro do grande conjunto de Transtornos de Neurodesenvolvimento.

Algumas das características diagnósticas do transtorno são:

“prejuízo persistente na comunicação social recíproca e na interação social (Critério A) e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividade (Critério B). Esses sintomas estão presentes desde o início da infância e limitam ou prejudicam o funcionamento diário (Critérios C e D). O estágio em que o prejuízo funcional fica evidente irá variar de acordo com características do indivíduo e seu ambiente. Características diagnósticas nucleares estão evidentes no período do desenvolvimento, mas intervenções, compensações e apoio atual podem mascarar as dificuldades, pelo menos em alguns contextos. Manifestações do transtorno também variam muito dependendo da gravidade da condição autista, do nível de desenvolvimento e da idade cronológica; daí o uso do termo espectro. O transtorno do espectro autista engloba transtornos antes chamados de autismo infantil precoce, autismo infantil, autismo de Kanner, autismo de alto funcionamento, autismo atípico, transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação, transtorno desintegrativo da infância e transtorno de Asperger.” (DSM, 2014, p. 53)

Em muitos casos o paciente não fala. Não porque não consegue, mas não sente a necessidade. A necessidade de rotinas bem definidas e seguidas à risca também é uma característica comum em pacientes com tal transtorno.

Autismo na Psicanálise

Rosine
Rosine e Robert Lefort

O autismo foi tema de debates intensos nos anos 80 e 90 no cenário psicanalítico. Muito se debatia se a sintomatologia autística se enquadrava dentro de um grande grupo de estruturas psicóticas, ou se era algo à parte. Apenas para relembrar rapidamente, a diagnóstica psicanalítica lacaniana se constitui de três estruturas clínicas, ou, em termos técnicos, três modulações de transferências, isto é, três maneiras de se estar com, e em relação ao Outro. São elas: Neurose, Psicose e Perversão.

O autista é psicótico?

Sim, e não. Pensando por uma clave de primeira clínica lacaniana o psicótico é um sujeito que não interiorizou o “Nome-do-Pai”, e isso, o autista não faz mesmo, o que em um primeiro momento nos levaria à crer que trata-se de uma estrutura no âmbito da psicose. Todavia, por outro lado, autistas não apresentam alucinações e delírios que frequentemente vemos em sujeitos de estrutura psicótica.

Para alguns analistas, há uma diferença, no entanto na forma de não integração do Nome-do-Pai entre psicose e autismo. Enquanto na primeira há um sujeito que se inscreve no Simbólico em uma posição fixa, na segunda não há assunção de sujeito.

Essa posição pode ser contestada pela teorização mais clássica da psicanálise em comportamentos frequentes em austistas como “tapar os ouvidos” quando na presença de outras pessoas. Em teoria, isso demonstra o reconhecimento de algo do qual o sujeito gostaria de “fugir” (Kupfer, 1999).

Penso que na estrutura autista como estando em um momento anterior de formação de alteridade em relação ao desenvolvimento do Eu, do que as psicoses mais clássicas.

Tratamento do Autismo

Autismo

O estigma gerado por um diagnóstico atrapalha ainda mais o sujeito que já encontra obstáculos em sua vida. Não é incomum que os pais da crianças assumam imaginariamente o lugar de defensores da “causa” de seus filhos (Laurent, 2014).

Importante mencionar que o meu entendimento do tratamento se dá a partir da clínica psicanalítica de orientação lacaniana.

Muito se fala em metodologias comportamentais de aprendizado, que, em muitos casos se concentra em objetivos como adquirir funções elementares, através do espelhamento. Critico nesses casos, as experiências que adquirem um aspecto coercitivo e imaginário, sem que se possa inserir o sujeito na troca significante.

O singular da falar do sujeito deve ser o ponto balizador da escuta do analista, e prover esse enquadramento de espaço ao sujeito o auxilia no processo de subjetivação.  Seu tempo e suas rotinas devem ser respeitados de tal modo que o avanço do tratamento aconteça progressivamente.

Sobre o acesso à linguagem do sujeito, Dolto (2010) afirma:

“Para estudar a linguagem difratada e diferida no comportamento, nos desenhos, nas modelagens e no discurso do analisando, o psicanalista topa com fantasias (até mesmo fantasias de fantasias), máscaras em camadas de cebola, que poderíamos chamar de “resistências” e que ele deve respeitar totalmente, se pretende socorrer o sujeito em sua relação consigo mesmo, reconhecidamente mascarado, mas também livre para conservar a máscara” (p. 210)

Um dos pontos importantes à se trabalhar na clínica de sujeitos autistas, é o desejo da mãe (Outro materno). Temos que lembrar que para Lacan, o sujeito se faz na e pela linguagem, através de um Outro que o enlaça. Esse Outro deve supor um sujeito e se dirigir à ele antes que ele exista (Kupfer, 1999).

As estereotipias, ou movimentos repetidos que o sujeito performa podem ser entendidos também como movimentos que não receberam uma significação pelo Outro, isto é, permanecem “sem sentido”.

A mãe (Outro) tem então o papel de criar , como afirma Kupfer (1999):

“Seja como for, o corpo de um bebê jamais sairá de sua condição de organismo biológico se não houver para ele um outro que sustente o lugar de Outro Primordial e que o pilote em direção ao mundo humano, que lhe dirija os atos para além dos reflexos, e, principalmente, que lhes dê sentido.” (p. 99)

Pensando no manejo dos pais no tratamento de seus filhos, Kupfer (1999) afirma:

“Aposta-se que, para eles, fará diferença que um psicanalista oponha resistência à objetalização da criança e à “desresponsabilização” do Outro materno, pois isto permitirá que se localize com maior precisão a posição das mães, quem sabe a tempo de a reverter.” (p. 107)

Que a conscientização que Abril nos traz perdure pelo ano.

Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

American Psychiatric Association (2014). DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed.

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: Editoria WMF Martins Fontes.

Kupfer. M (1999). Psicose e Autismo na Infância: Problemas Diagnósticos. In Estilos da Clínica. (pp. 96-107, Instituto de Psicologia da USP). São Paulo.

Lacan, J. (1953/1998). Função e campo da fala e da linguagem. Escritos (pp. 238-324). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Laurent, E. (2014) A Batalha do Autismo: Da Clínica à Política. Rio de Janeiro: Zahar.

Mélega, M. (1999) Pós-Autismo: Uma narrativa psicanalítica. Rio de Janeiro: Imago.

 

Pandemia Coronavirus e Psicologia — O que te falta saber?

“O que é mais assustador? A idéia de extraterrestres em mundos estranhos, ou a idéia de que, em todo este imenso universo, nós estamos sozinhos?”

– Carl Sagan.

Por Caio Cesar Rodrigues .

Olá psicólogas e psicólogos, estudantes e leitores de todo o Brasil (e os de fora daqui que também nos acessam). Me chamo Caio. O artigo a seguir surgiu para tentar sanar certo Não Saber de nossa categoria durante este momento tão incerto que vivemos.

O texto inicialmente era destinado à psicólogas e psicologos, contudo, seu conteúdo servirá também a quem ainda se considere pouco informado a respeito do Novo Coronavirus.

Estamos em tempos difíceis. Estabelecimentos fechando, superlotação em mercados, pré-escassez de produtos como álcool gel e papel higiênico; isolamento, fechamento de fronteiras e quarentena em países Desenvolvidos e Em Desenvolvimento. Apesar de todo mundo sentir essa diferença, nem todos estão conseguindo ou até querendo se informar a respeito. E o texto tem meramente este propósito: informar.
Me disponho a ler e responder a todos os feedbacks; bem como a considerar a inclusão ou exclusão de partes deste texto a partir destes — na condição de haver o devido fundamento e/ou veracidade à avaliação destes, feita por mim.

O que será falado neste artigo?

Neste artigo tentarei falar sobre os seguintes aspectos:

  1. O que é e o que sabemos sobre o Novo Coronavirus e a doença COVID-19?
  2. Formas de contaminação, contágio e prevenção;
  3. Quantas pessoas estão contaminadas com o Novo Coronavirus ao redor do mundo até o momento?
  4. Quarentena, Isolamento, Fechamento de Fronteiras e Estado de Emergência e Calamidade Pública — Efeitos sociais que Pandemia está causando no Brasil e no Mundo ;
  5. Consequências da Pandemia no trabalho da (o) profissional da psicologia — mudanças, restrições;
  6. Influência da Pandemia em pacientes que possuem ou não psicopatologias/Transtornos Mentais – Implicações, complicações e manejo;
  7. Sugestões, discussões e possíveis soluções para a atuação da Psicologia em meio a este cenário Mundial nunca antes visto em sua história como ciência e profissão.

Após a publicação deste artigo completo, ele também será fragmentado em seus tópicos, linkados acima para facilitar a leitura, uma vez que sua extensão ficou bem maior do que o planejado.

O que é o Novo Coronavirus (COVID-19)?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a mesma declarar que estamos em uma Pandemia de Coronavirus, no dia 11 de março de 2020:

Os Coronavirus são uma grande família de vírus que podem causar doenças em humanos e animais. Nos humanos, muitos tipos de coronavírus são conhecidos por causarem infecções respiratórias, que variam de um simples resfriado comum, até graves doenças como A Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). O último tipo de coronavírus descoberto tem como causa a doença COVID-19.

(OMS, Q&A on coronaviruses (COVID-19) 9 March 2020 | Q&A, acessado em 19/03/2020)

E o que é COVID-19?

A resposta também é trazida pelo mesmo órgão, chefiado pelo Doutor em Saúde Comunitária pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido o acadêmico etíope que se tornou referência mundial a partir de suas pesquisas a respeito de epidemias, Tedros Adhanom Ghebreyesus:

“COVID-19 é a doença infecciosa causada pelo coronavirus descoberto mais recentemente (novo coronavirus). Este novo vírus e esta nova doença eram desconhecidos antes do surto começar em Wuhan, China, em dezembro de 2019″.

(OMS, Q&A on coronaviruses (COVID-19) 9 March 2020 | Q&A, acessado em 19/03/2020)

Tedros Adhanom Ghebreyesus é Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde

Ainda de acordo com a OMS, os principais sintomas de COVID-19 são febre, cansaço e tosse seca. Alguns pacientes têm dores, congestão e coriza nasal, garganta seca e até diarréia (OMS, 2020). Apesar disso, algumas pessoas não manifestam sintomas e se sentem muito bem, inclusive. A instituição também ressalta que 80% das pessoas se recuperam da doença sem a necessidade de nenhum tratamento especial e/ou hospitalizado. Contudo, uma em cada seis pessoas com COVID-19 irá desenvolver o sintoma grave da doença que é a falta de ar/dificuldade de respiração.

E quando falamos de pessoas idosas (+60 anos) e super-idosas (+80 anos) os problemas podem ser piores ainda. O mesmo vale para pessoas que têm/estão com baixa imunidade e portadores de doenças crônicas como hipertensão e diabetes (OMS, 2020). O órgão recomenda: pessoas com febre, dificuldade respiratória e tosse, devem procurar atenção médica.

Como o Vírus se Espalha?

A princípio por gotículas de secreções bucais ou nasais. Tosses, espirros; cuspes, escarros e beijos seriam formas diretas de contaminação. Contudo, se alguém tossir, espirrar, cuspir ou escarrar em uma superfície, esta também poderá conter o vírus por um prazo ainda desconhecido, em função da novidade que é a doença para o mundo. Consequentemente, as pessoas que tocarem nestas superfícies e levarem as mãos aos olhos, boca, nariz (ou ainda ao rosto e o próprio suor fizer o restante do caminho), poderão se contaminar (OMS, 2020).

Também será possível que isso seja feito através do compartilhamento de copos, talheres, travesseiros (pois pode haver saliva secretada durante o sono), etc.

A Agência ainda ressalta que:

  1. É mais provável que o vírus seja espalhado por gotículas do que pelo ar em si;
  2. É possível SIM contrair o vírus de quem ainda sequer manifestou (ou irá manifestar) sintomas;
  3. A forma mais eficiente de prevenção é lavar as mãos a partir de todo e qualquer contato tátil com pessoas e objetos utilizados por você e por elas, recomenda-se também a limpeza da superfície destes objetos;
  4. Deve-se manter a distância de 1 a 2 metros de qualquer pessoa que possa ter o vírus (5 metros em caso de espirros);
  5. A qualquer sintoma seu e de pessoas próximas a você FIQUE EM CASA;
  6. Havendo grandes sinais de contaminação na sua região, FIQUE EM CASA.

(OMS, 2020)

Apesar de todas as recomendações a respeito da contaminação, é praticamente impossível conter este tipo de contato nas dimensões ideais, mas sua minimização favorece na redução dos picos de infecção de uma região.

Um dos motivos para a facilidade de transmissão do vírus é o próprio tempo de incubação, período em que mesmo que o paciente não demonstre sintoma algum, já irá iniciar o contágio.

Acredita-se também que uma pessoa é capaz de infectar de duas a quatro pessoas simultaneamente, assim como essas pessoas infectadas também irão conduzir o contágio a mais 2-4 pessoas que, sucessiva e exponencialmente, contaminarão milhares de pessoas em poucos dias.

Como Desinfectar algo que contém o Novo Coronavirus?

Como matar o vírus?

Para que haja a desinfecção de uma superfície que teve contato com o vírus, é necessário que sua capacidade de reprodução e respiração sejam cessadas. E isso acontece quando destruímos sua composição principal.

O que faz isso? Água com sabão!

Mas como algo tão simples e que parou o mundo é morto apenas por água e sabão? Vejamos o que diz o especialista.

Segundo Thomas Pietschmann, virologista molecular e pesquisador no Centro de Pesquisa de Infecção Experimental e Clínica, chamado Twincore, em Hannover, na Alemanha, o Novo Coronavirus se assemelha ao vírus da Hepatite C porque ” é cercado por uma camada lipídica, ou seja, uma camada de gordura”.

Sombra e água fresca

Sabendo a composição do vírus, ja podemos nos indagar sobre qual tipo de ambiente favorece ou desfavorece sua sobrevivência e, consequentemente, sua reprodução.

Portanto “os vírus possuem mais estabilidade em baixas temperaturas. Semelhante aos alimentos que têm maior vida útil na geladeira”, já que a gordura não se dá muito bem o calor. Podemos imaginar a estrutura de algo gorduroso, manteiga por exemplo: permanecerá em sua forma ideal em menores temperaturas.

Provavelmente agora já seja possível imaginar ou, para os mais familiarizados à biologia, entender por que é tão importante lavar as mãos com água e sabão. O sabão, o detergente e shampoo são agentes utilizados para remover a gordura das superfícies. Logo: quando fazemos isso com o vírus, removemos o que o faz sobreviver. O álcool em gel 70% também realiza esta função.

O especialista ainda deixa um alerta em relação à umidade do ar: “Nos dias frios e, em sua maior parte, secos do inverno, as pequenas gotículas flutuam, junto aos vírus, por mais tempo na atmosfera do que nos dias de alta umidade”.. Contudo, ainda somos um dos países onde mais há contato humano direto.e aqui está explicado o porquê é tão dito por aí que este vírus terá mais dificuldade de se espalhar em um país tropical como o nosso

A seguir um vídeo sobre como lavar as mãos corretamente, para se prevenir do Novo Coronavirus de acordo com a própria OMS:

Detalhe: a torneira que é aberta com as mãos “sujas” (supostamente contaminadas) só é fechada pelas mãos limpas com o auxílio de um papel que impede o contato da mão com a torneira, possivelmente para prevenir a reinfecção através da superfície supostamente contaminada pela mão, que antes estava suja.

Você também poderá conferir toda a entrevista que o virologista deu ao site de Notícias DW Brasil Clicando aqui neste link.

Quantas pessoas estão contaminadas com o novo Coronavirus?

Até o momento da publicação deste artigo (20/03/2020), segundo o portal criado pela Microsoft para acompanhar os casos de Coronavirus (COVID-19) no mundo em tempo real, Às 07 da manhã deste mesmo dia os dados atualizados sobre a doença no mundo eram:

covid 19 pelo mundo

covid 19 pelo brasil

Vale ressaltar que, ao que a China conseguiu identificar, num trabalho de investigação de vários médicos, o chamado paciente zero (o primeiro a se infectar do mundo) — de acordo com o processo de rastreamento adotado a partir da investigação de dados fornecidos por mais de 250 pessoas infectadas — tenha iniciado o contágio em 17 de novembro de 2019, na cidade de Wuhan, localizada na província de Hubei, na China. A hipótese é que a transmissão tenha ocorrida após a ingestão de carne animal contaminada com o Novo Coronavirus. Uma das hipóteses é que tenha sido através da carne de morcego.

Mas o ponto principal de nossa atenção está na linha do tempo: do dia 17 de novembro de 2019 ao dia 20 de março de 2020, o vírus contaminou mais de 245 mil pessoas, matando mais de 10 mil, saindo de uma cidade da China para o mundo todo.

Casos Subnotificados

Deve-se levar em consideração que os Governos apenas estão testando os casos mais graves que derem entrada nos hospitais. A parte falha, no que diz respeito a conhecer o número real de casos em um país, é que: nem todos irão manifestar sintomas, assim como a maioria apresentará sintomas leves; contudo, este tipo grave de sintoma que o governo procura ter como alvo dos testes, justamente é aquele que só ocorre após quase duas semanas de infecção — período em que está pessoa irá contaminar outras sem saber que possui o vírus. (Tal modus operandi passou a funcionar no Brasil após o Governo localizar casos de contaminação comunitária, isto é, onde pessoas que não tiveram contato foram diagnosticadas com Covid-19).

Essas políticas de testagem também eram empregadas a princípio na China, mas foram substituídas pela testagem geral, principalmente das regiões em isolamento.

Estes fatores certamente ampliam muito a disseminação do vírus, então a orientação é para limitar tal contágio desenfreado por pessoas que não têm ciência de terem sido infectadas. Por conta disso, perante à percepção do aumento dos casos, Governos de todo o mundo começam a implantar políticas de isolamento, quarentena e até confinamento de suas populações, visando evitar tal transmissão comunitária.

Veja o exemplo do vídeo:

Quarentena, Isolamento, Fechamento de Fronteiras e Estado de Emergência e Calamidade Pública

O que significam os termos Quarentena e Isolamento? Por que estamos falando até em confinamento?

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Agentes da Polícia Nacional Espanhola fazendo guarda de uma rua vazia, após ser decretado isolamento parcial na Espanha. A foto é do dia 15 de março em Málaga, Espanha. (via Jon Nazca/Reuters)

Segundo o Minitério da Saúde, como o Brasil se encontra em Emergência em Saúde Pública de importância Nacional (ESPIN) em decorrência da Infecção Humana pelo novo Coronavírus (2019-nCoV), serão adotadas medidas como:

  • Quarentena: determinada mediante ato administrativo formal e devidamente motivado e deverá ser editada por Secretário de Saúde do Estado, do Município, do Distrito Federal ou Ministro de Estado da Saúde ou superiores em cada nível de gestão. Publicada no Diário Oficial e amplamente divulgada pelos meios de comunicação, com duração de até 40 dias, podendo ser prorrogada pelo tempo necessário para reduzir a transmissão comunitária e garantir a manutenção dos serviços de saúde no território.

No Estado de São Paulo, o Governo recomenda fechamento de shoppings e academias da Grande SP até fim de abril, e também recomenda fechamento de igrejas, suspende cobrança de água e dá férias a professores.

enquanto a Prefeitura de São Paulo adota medidas para evitar disseminação do coronavírus, tais medidas servirão para evitar a circulação de pessoas e a formação de aglomerações, sendo que na Cidade apenas comércios considerados essenciais irão funcionar (mercados, farmácias, restaurantes, hospitais, etc).

Tanto a Prefeitura Municipal, como o Governo Estadual de São Paulo, já decretaram suspensão das aulas. A medida também ocorre em outros Estados e Cidades.

E no Mundo?

Militares usam máscaras na Catedral de Milão: ponto turístico foi fechado após surto de coronavírus na região Flavio Lo Scalzo/Reuters

Atualmente, de acordo com o jornal inglês Metro UK ao menos 7 países já declararam quarentena em todo o território nacional, são eles:

E além dos países que não decretaram quarentena em todo território nacional, há os que decretaram em determinadas regiões, bem como os que decretaram quarentena voluntária.

A Polônia, Russia e Noruega fecham suas fronteiras, a Nova Zelandia diz que passageiros que chegarem ao país, inclusive cidadãos neozelandeses, deverão permanecer isolados por 14 dias; A cidade de Londres fecha escolas e boa parte dos comércios, bem como cerca de 40 estações do Underground, o metrô londrino; os Estados Unidos decretam restrição de voos que venham da Europa. (Segundo o Jornal Metro UK, 2020).

Em cenários como estes, como as pessoas são orientadas à permanência em casa, é previsto que os comércios comecem a fechar por conta própria, as ruas já se encontrarem vazias e a sensação de quarentena ocorra mesmo sem um decreto oficial.

O colapso se estende à economia, ao abastecimento e à autoestima dos moradores.

Impactos

Empresas estão convertendo o trabalho presencial de seus funcionários em trabalho remoto (home-office), assim como também preveem queda nos lucros e atividades. A tendência é que todas as áreas em que forem possíveis o trabalho remoto, ele seja empregado o mais rapidamente possível.

E estas são as medidas que também chegarão à Psicologia, uma vez que causarão intensa mudança no estilo de vida, desemprego, mudança nas formas de trabalho; alteração nas relações sociais, na percepção da solidão e em casos de psicopatologias de caráter ansioso e depressivo, por exemplo.

E se o psicólogo ou a psicóloga forem seguir as determinações dos órgãos governamentais e da OMS, como poderá atender seus pacientes? Se devem ser evitados os deslocamentos, como os pacientes chegarão até o consultório? E todos deitarão no mesmo divã ou sentarão na mesma poltrona — onde outros que poderiam ter se contaminado sem saber já teriam deitado?

Numa profissão onde o tato tem seu lugar imprescindível, as restrições de contato podem contaminar nossa prática?

Consequências da Pandemia no trabalho da (o) Profissional da Psicologia — mudanças, restrições

No dia 14/03/2020, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), fez um comunicado à categoria que poderá ser visto neste link.

Nele, havia as seguintes orientações:

  • A(O) profissional deverá observar recomendações do Ministério da Saúde, OMS, Secretarias de Saúde e autoridades civis sobre eventuais possibilidades de quarentena, resguardo, isolamento. Para fins laborais, deverá seguir a legislação vigente referente a atestado de afastamento;
  • Recomenda-se a prestação de serviços em locais ventilados, não fechados, que permitam manter distância de um a dois metros entre pessoas, se possível. Pois, até aquele momento, não houve orientação das autoridades para suspensão de atividades;
  • Caso a(o) profissional opte pela prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologia da informação e da comunicação, como o atendimento on-line, deverá seguir as orientações da Resolução CFP nº 11/2018, em especial a necessidade de realização de um cadastro prévio junto ao seu Conselho Regional de Psicologia (CRP); (CFP, 2020)

Houve também a suspensão dos eventos com maior número de atividades no Conselho.

Contudo, dois dias depois, publicou um este comunicado sobre atendimento online, dizendo que apesar de ainda ser necessária a realização de um cadastro no portal E-Psi, durante os meses de Março e Abril, não será necessário aguardar a confirmação para realizar tais atendimentos (regra imprescindível antes da Pandemia de Covid-19).

Imagem do comunicado divulgado pelo CFP disponível em https://site.cfp.org.br/

Caso você seja psicóloga (o) e deseja saber como se cadastrar para realizar atendimento online, há um tutorial gratuito, que publiquei em um texto deste blog ensinando o passo-a-passo e com dúvidas comentadas sobre o tema. Clique neste link e disponha.

Há aderência da categoria?

É muito cedo para que tenhamos dados concretos e publicados em algum local oficial. Mas no contato que tenho tido com colegas de profissão, amigos que fazem análise, supervisão ou psicoterapia e até mesmo em meus próprios atendimentos, o atendimento online/virtual/remoto tem sido um opção bastante oferecida, considerada e utilizada. Mas ainda há sessões presenciais sendo realizadas.

E o que muda?

Isso irá depender de muita coisa, inclusive das linhas teóricas. Mas apesar de ser muito difícil de determinar, em função do pouco tempo em que isso é adotado mesmo antes da quarentena, as diferenças aparecem de maneira positiva e negativa; de maneira sutil ou moderada.

Indaga-se se poderia haver um aumento da Resistência ao Tratamento, uma redução da eficácia dos atos analíticos, mas estas são Outras discussões. Em tempos onde as opções são: a) realizar o atendimento remoto; b) interromper o tratamento; ou c) correr o risco de agravar ainda mais a pandemia desconsiderando medidas de quarentena, édevemos nos adaptar à realidade e ao que ela nos permite. Contudo, listei algumas dificuldades até agora observadas:

  • Problemas de conexão que podem causar delay (atraso) no áudio/vídeo, assim como problemas técnicos com microfone e/ou fones de ouvido;
  • Problemas de privacidade, onde o paciente encontra dificuldade em encontrar um local tranquilo, silencioso e que lhe garanta a possibilidade de falar o que quer e/ou precisa. Neste cenário, alguns optam por realizarem a sessão por dispositivos móveis de seus quartos, escritórios, banhos e até dentro de seus carros;
  • Dificuldade de manter o silêncio das sessões, podendo ele eventualmente ser confundido com problemas de conexão;

Outrossim, pude perceber, com base na minha experiência, de pessoas que passam por tratamento desta forma e também de alguns colegas: que o processo têm funcionado. Dados estes que passam milhas astronômicas de distância de serem científicos ou bem fundamentos em alguma pesquisa, uma vez que estamos falando de algo inédito.

E também há algumas vantagens percebidas, como por exemplo:

  • Possibilidade de maior desinibição de alguns pacientes, pois agora pode haver a sensação de não estar falando diretamente algo a alguém, algo semelhante àquela confiança que muitas pessoas demonstram de maneira mais elevada na internet, cabendo aos terapeutas e analistas a devida atenção à fala e ao conteúdo. Algo longe de ser o caso de casos e também longe de não ser o caso de ninguém;
  • Maior flexibilidade de horários e, em alguns casos até de valores, de forma que fique mais confortável para ambas as partes, pois cada um está em sua residência.

Contudo, o assunto do Novo Coronavirus e os impactos que ele tem na vida das pessoas, naturalmente, se tornou recorrente no consultório. A vida das pessoas mudou e irá mudar. O futuro é um lugar mais incerto do que já era em nossos tempos ditos normais. O que se pôde perceber no consultório em função da Pandemia?

Influência da Pandemia em pacientes que possuem ou não psicopatologias/Transtornos Mentais – Implicações, complicações e manejo;

Como a nossa Psiquê pode perceber a quarentena e o isolamento?

A Itália está com suas ruas vazias. A Espanha tem locais que parecem inabitados. Alguns cidadãos Europeus estão assemelhando os carros da polícia, do exército e a cidade vazia a um cenário de Guerra. E podemos nós dizer que estão errados?

Um membro da Brigada Paraquedista do Exército Espanhol patrulha a icônica Puerta del Sol, praça no centro de Madrid, na Espanha, em 17 de Março de 2020.

Nosso futuro, ao menos o futuro recente, está morto quando pensamos em algum tipo de previsão a respeito do desfecho do cenário atual. Não há ainda pleno saber da dimensão que a Pandemia irá tomar. O vírus não distingue anônimos de famosos, ricos de pobres, ateus de religiosos, brancos e pretos; políticos e apolíticos (incluindo o Presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre).

Não importa quem você seja, você está sujeito a ser contaminado. Não é uma frase tão simples de se dizer ou ouvir. Muito menos quando o preço para não ser contaminado e não contaminar ninguém é a tal da liberdade. E até aquele tal do afeto, que é expressado por abraços, beijos e apertos de mão.

Algumas pessoas podem até não acreditar na veracidade ou da gravidade desta Pandemia. Outras até o fazem, mas se recusam a levar a sério as medidas de precaução, como se suas pessoas já estivessem imunes ou ainda que seja improvável a sua contaminação.

Após recomendação de quarentena de seu Ministro da Saúde, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, vai à frente do Palácio do Planalto cumprimentar e tirar foto com manifestantes. em protesto de apoio ao Presidente e repúdio aos Outros Poderes, no dia 15/03/2020. As manifestações ocorram por todo o país, mesmo após a recorrente solicitação de não aglomeração.

Agora iremos nos deparar com nós mesmos. Mais ainda: com a fragilidade de nosso corpo, com a morte da imagem Imaginária de uma pessoa que não poderia ser nada senão sadia, potente e invulnerável, como se fosse recebesse eternamente o afeto de suas figuras de proteção.

Qual será a plateia para nossas demonstrações de potência? Seja financeira, seja de influência sobre os outros. Em alguns casos sobrará a virtual, em outros não. De onde virá nosso apoio durante este período de solidão e reclusão? E se estivermos sendo descartados do convívio social em função de nossa vulnerabilidade? Como lidar com isso?

Tudo isso poderá ser causador de grande aprendizado e fortalecimento; mas também causador de certa angústia, de certa ansiedade – e o que seria a ansiedade senão também o pensamento nas mil possibilidades de um futuro incerto, mas certamente danoso? Mas que outra chance teríamos de conhecer a nós e a aos pares, trios, grupos e aglomerações afetivas que ficarão conosco durante este isolamento?

É sem dúvida um momento de intensa reflexão: voluntária ou não, mas como fica este cenário em pacientes que já lutavam com alguns aspectos deste dia-a-dia, mas de forma nada deliberada e socialmente estimulada?É triste.

E os que tiverem Transtornos Mentais?

TOC – Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) (CID 10: F42/ DSM 5: 300.3)

Tomando como exemplo o TOC, colocarei em paralelo sintomas e necessidades nos tempos de urgência.

Caracterizado por obsessões — pensamentos ou imagens mentais de natureza recorrente, invasiva, incessante, ordenada e indesejada, que promovem severo desconforto. Nestas, em geral, há regras sobre o que pensar, organizar mentalmente ou imaginar para que haja cessão deste desconforto. E também por compulsões, onde é exigido do sujeito, por si mesmo, a realização de atos, dizeres, movimentos e até a organização do cenário externo para que haja equilíbrio internamente. Estes se tornam uma espécie de ritual, não raro fazendo parte da rotina de indivíduos durantes anos, mas que também podem ter aparição ou intensificação durante períodos específicos de sua vida. Em geral, os atos compulsivos tendem a se alinhar aos pensamentos obsessivos e/ou até serem necessários para sua cessão.

O tipo de ritual e/ou pensamento tende a variar de acordo com cada sujeito. Havendo até tipos de pensamentos e ações de múltipla ordem, em geral associados a muita ansiedade. Mas há duas formas de manifestação do transtorno que escolhi destacar: os relacionados à higienização do corpo e dos objetos/ambientes.

Rituais de Higienização Compulsiva

Para ilustrar melhor um dos casos, trouxe o vídeo a seguir, onde uma pessoa lava as mãos de maneira compulsiva dentro de uma escola:

Contudo, ao assistir este vídeo, além de me compadecer ao sofrimento de quem passa por isso, também me veio à mente algo muito incômodo: esta pessoa seguiu exatamente as recomendações da OMS sobre uma das formas de não contrair o Novo Coronavirus. Inclusive, o próprio vídeo demonstrativo do órgão pode trazer algumas semelhanças com o vídeo acima, confira novamente:

Claro que em alguns casos de TOC desta natureza o ritual chega até a tomar horas do dia do sujeito, sendo repetido até bem mais do que as 5 vezes que a OMS nos recomenda realizar tais ações.

E também não podemos esquecer da compulsão por limpeza de superfícies e ambientes:

  • pessoas que podem lavar a louça duas vezes;
  • higienizar maçanetas várias vezes ao dia;
  • limpar o chão, os móveis e os objetos da casa repetidas vezes e em determinadíssimos horários, entre outros.

Mas o nosso ponto é que:

  • Pensamentos em relação à incerteza, culpa, (pela?) a contaminação, a sujeira e a iminência de morte ou doença, podem estar associados a rituais deste tipo de TOC também. E estes não poderiam se agravar em meio a uma pandemia? Seus atos compulsivos agora podem ter, além de múltiplas e misteriosas motivações internas, uma nova e alarmante motivação externa? Sem dúvida, e este pode ser o problema;
  • Pensamentos obsessivos e atos compulsivos podem aparecer e se intensificar relação à associação de uma linha direta entre a contaminação e morte de terceiros, mais ainda quando estes são pais, mães, avós e pessoas de altíssima estima ao sujeito, que fazem parte dos Grupos de Risco, os mais propensos a complicações severas e até à morte com a COVID-19.
  • Me pergunto se também falamos de pessoas que já podem ter sentido sentimentos dúbios a respeito da vida ou morte dessas pessoas, como toda pessoa pode ter tido em alguns momentos da vida.
  • A culpa — mesmo que apenas em pensamento — de contaminar alguém nessas condições, principalmente por descuido — por sujeira, por falta de higienização e atenção — , é algo que deveras alguém não gostaria de carregar. Muito menos se já houve pensamentos desta ordem em algum momento, mesmo que distante, de sua vida. E geralmente nestes momentos se intensificam os rituais e o sofrimento destes pacientes.
  • Agora que há uma justificativa elevadamente plausível (mesmo que em níveis e intensidades diferentes) para alguns destes atos dos sujeitos, o acompanhamento destes casos será crucial para que os sujeitos consigam diferenciar seus sintomas de seus cuidados.

Transtornos de Ansiedade Generalizada, Social e Pânico; Fobias, Estresse Pós-Traumático; Depressão e Compulsão por Compras (Oniomania)

Imagem relacionada

Os pensamentos a respeito de um futuro incerto, o medo irracional de objetos e situações e, pasme, aglomerações; o temor em sair de casa e a falta de prazer e vontade em relação às atividades disponíveis durante o isolamento; a compra compulsiva por itens como alimentos, álcool gel e até papel higiênico, e até armas! O conhecido panic buying. Sem contar na ansiedade que é experimentada durante todo contato social, evitando-o ao máximo.

Observando tais comportamentos da maioria da população em suas casas, estabelecimentos, cidades e até países, poderíamos até experimentar um sentimento parecido com aquele de Simão Bacamarte em Itaguaí. Mas definitivamente não podemos apressar nossos julgamentos, conforme fez, erroneamente, o médico português da obra de Machado.

Pessoa idosa se deparando com escassez de produtos de higiene pessoal,

Se em dias normais estaríamos falando de claramente de sintomas de alguns Transtornos Mentais como Depressão, Transtorno do Pânico, Agorafobia, Compra Compulsiva e TOC, nos dias de hoje, comportamentos incomuns como os que foram descritos, podem se tratar de necessidades reais. Mas nem sempre, precisamos de muita atenção neste momento:

Um paciente que sofre de hipocondria (condição caracterizada pelo medo desproporcional de ficar doente e/ou a constante confusão de condições normais a sintomas de doenças graves e/ou recorrentes) poderá experienciar ou acreditar estar vivenciando sintomas da Covid-19 em função de seu estado mental. Assim como um paciente que sofre de algum transtorno de ansiedade poderá experimentar falta de ar durante uma crise de ansiedade e confundí-la com um sintoma da doença causada pelo Novo Coronavirus. Daqui poderia acontecer, por exemplo, uma ida desnecessária aos hospitais que poderá: tirar as escassas vagas de quem precisa e até gerar uma exposição desnecessária que resulte num contágio real.

A sutileza da diferença entre o que pertence ao interno e ao externo nunca foi de tamanha importância. E aí é que entrará a importância do trabalho dos profissionais da saúde mental — mesmo que online!

O isolamento poderá mobilizar o paciente deprimido, assim como o paciente que sofre de Pânico poderá reagir de maneira desproporcional às orientações de ficar em casa. Quando tivemos o surto de outro tipo de coronavirus em 2003, um número considerável de pacientes e profissionais das equipes médicas que cuidaram destes, desenvolveram sintomas e transtornos de ansiedade, estresse pós-traumático, depressão e Agorafobia.

Nosso trabalho envolverá pacientes da doença ou não, acometidos por esta onda esmagadora de tensão que vive o mundo. Equipes médicas sobrecarregadas, familiares em luto e até pacientes que entrem em Cuidados Paliativos necessitarão de profissionais da Saúde Mental como nunca antes visto.

Nosso papel será, além de atenuar o agravamento dos sintomas daqueles que já sofrem destas condições e tentar minimizar o impacto psicológico que estes tempos poderão trazer.

Mas o faremos com calma.

Sugestões, discussões e possíveis soluções para a atuação da Psicologia em meio a este cenário Mundial nunca antes visto em sua história como ciência e profissão

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP e ganhador do Prêmio Jabuti. Foto: O Estado de Sâo Paulo

Os profissionais da psicologia também são treinados para a atuação em situações de emergência e desastres. Esta é, inclusive, uma linha de atuação da profissão. Contudo, e quando eles mesmos estão em quarentena? Quando mesmo não sendo desta especialidade, precisarão agir de forma minimamente semelhante com seus pacientes e clientes que também são afetados por tal condição?

“Se você está exagerando na compulsão por notícias ou no estoque de álcool gel, verifique se não está tentando pular o trabalho de “se acalmar”. Ler, meditar, conversar livremente, escrever são práticas que ajudam para isso”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Em entrevista ao Estadão, Christian Dunker, psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP, e autor de diversas obras, sendo uma delas ganhadora do Prêmio Jabuti. Quando perguntado sobre os efeitos de isolamentos/confinamentos ao redor do mundo, nos faz olhar para a semântica cultural da palavra, que poderia ser muito significante à forma com que fomos apresentados ao que fazia ilusão, em outros momentos, às situações de hoje: “o confinamento é uma experiência psíquica desafiante, pois aprendemos desde cedo que ele é uma forma de punição: ‘vá pensar no seu quarto’ ou pior ‘vá para a prisão'”.

O autor classifica o isolamento como experiência “potencialmente ansiogênica [que cria ansiedade]”, e que “Notícias, informações e cuidados podem nos acalmar desde fora, mas a angústia que a solidão causa, exige que nos pacifiquemos desde dentro..”. A orientação do Ganhador do Prêmio Jabuti é que:

“Se você está exagerando na compulsão por notícias ou no estoque de álcool gel, verifique se não está tentando pular o trabalho de “se acalmar”. Ler, meditar, conversar livremente, escrever são práticas que ajudam para isso”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

O psicanalista nos alerta que este cenário também pode estimular nosso egoísmo, sensibilidade e até negação da realidade severa e preocupante que nos ronda. Para o pós-doutor pela Manchester Metropolitan University, estas situações podem nos remeter a algo semelhante ao desemparo, ao abandono e à desproteção.

O psicólogo ilustra o que o caos de uma pandemia pode mobilizar em nossa psiquê: tanto uma narrativa desesperada, buscando apontar que haja, por parte da humanidade, alguma forma de controle a respeito da situação de exceção, como quais sentimentos poderiam aparecer sem a presença de tais narrativas:

“Podemos simplesmente negar a situação, colocando a cabeça dentro da terra, podemos inventar conspirações delirantes de modo a nos garantirmos que no fundo há “um sentido maior nisso”. Podemos nos sentir desamparados, abandonados, como se nossos protetores tivessem tirado férias”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Fica a pergunta:

Se a presença do vírus e, consequentemente, a ausência da imagem que tentávamos manter perante o mundo persistir, será que o Novo Coronavirus poderá ser um antídoto para o Mal Estar que nossa Civilização estaria vivendo em função do Poder? Pois como algo microscópico poderia ter tanta facilidade em derrubar Grandes Nações e, ao mesmo tempo, nos causar tanta dificuldade perante a Grandeza (ou mania de) de alguns?Esperemos que o psicanalista esteja certo a respeito do aprendizado que este momento poderá nos prover em meio a tanto desprovimento. Pois, ao que parece, sua visão também contém certo otimismo:

“Penso que será uma dose cavalar de vitamina h que está faltando ao Brasil, ou seja menos potência de controle, arrogância e grandiosidade e mais humildade diante da vida e dos pequenos microorganismos que podem nos derrubar”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Leia a entrevista diretamente no site do Estado de São Paulo clicando aqui.

Há males que vem para o Bem? Parece ser exatamente o tipo de discurso que seria criticado por outra e não menos importante referência na área.

“A cada doença são atribuídos significados diferentes, mas o pano de fundo é quase sempre um ódio pela vida urbana como lugar mefítico, perigoso, onde o mal prolifera”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

Já o também psicanalista italiano radicado no Brasil, deixa sua impressão. Contardo Calligaris, que já realizou um doutorado em Semiologia com Roland Barthes e também participava das conferências do famoso psicanalista francês Jacques Lacan, dedicou sua Coluna Semanal à Folha de São Paulo às falas sobre o Novo Coronavius. Numa delas do dia 11/03, avaliou o “Coronavirus como Metáfora“, num genial comparativo da Covid-19 com outras chagas de nossa história.

Calligaris, 2009 (foto:Rodrigo Cancela/CPFL Cultura)

Colocando tais doenças como metáforas (sintomas?) aos acontecimentos de uma determinada cultura, podendo estas serem utilizadas, em discursos oportunistas como formas de castigo aos comportamentos humanos, que alguns grupos radicais querem excluir, usando como exemplo os que era dito durante a epidemia de AIDS nos anos 80:

“A cada doença são atribuídos significados diferentes, mas o pano de fundo é quase sempre um ódio pela vida urbana como lugar mefítico, perigoso, onde o mal prolifera”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

Mas também chamou atenção à doença atual que, por coincidência ou não, poderia até servir de metáfora, de narrativa, para comportamentos e pensamentos inerentes deste determinado período civilizatório:

“Considere a Europa se fechando diante dos refugiados africanos e asiáticos, e os Estados Unidos, diante dos refugiados das Américas. Considere a Inglaterra do brexit. Considere a volta de patriotismos abstratos mundo afora. Considere a estranha vontade de construir muros. Paira no ar uma nostalgia do lar, um suposto “amor” da “nossa terra”, que é sobretudo medo do novo e do estrangeiro”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

E o produtor da serie Ps! (Psi) da HBO ressalta que: “A epidemia de coronavírus será, por um tempo, metáfora da resistência à ampliação do mundo. Mas não é o caso de se preocupar. A epidemia não vai ganhar, não como metáfora”.

É possível ler sua coluna completa clicando neste link.

“[…] é a primeira pandemia em época de televisão e de streaming e, sobretudo, a primeira em que dispomos da possibilidade ilimitada de nos relacionar com amigos, parentes e amantes. Podemos estar isolados mas nunca sozinhos”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Uma semana depois, num considerável aumento da doença pelo mundo, suas cirúrgicas impressões se atualizam um pouco mais — fazendo um deslocamento importante de nossos olhares para o frequente estágio de negação das pessoas perante à doença, ao invés das urgências em realizar estoques de produtos como alimentos e itens de higiene, frequentemente colocado em foco.

Para citar exemplos de tais fenômenos o psicanalista cita que: “um bispo declara que o vírus é simpático e irrelevante, enquanto o medo do vírus é coisa de Satanás”; e também a aparente despreocupação do Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Bolsonaro, frente à Pandemia:

“Outro exemplo de negação nos foi oferecido pelo presidente do Brasil, que se comportou como um garotão, o que o tornaria até simpático, se ele não fosse presidente. O que significa se comportar como um garotão? Significa uma insegurança radical, pela qual nada é tão importante quanto receber um aplauso.

Bolsonaro pode certamente entender os argumentos de seu próprio ministro da Saúde, mas é incapaz de resistir ao charme de um breve momento em que será admirado por um punhado de seguidores”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Para o escritor ítalo-brasileiro, ao caminhar portando a bandeira que antes estava na mão de um de seus apoiadores à porta do Palácio do Planalto, o Presidente demonstrou um “exemplo perfeito de patriotismo abstrato”, pois […]um transtorno narcisista (banal nos adolescentes, mas nem tanto num idoso) prevaleceu sobre qualquer cuidado (este, concreto) com a população brasileira”, um entusiasmo que o presidente acreditava causar em seus apoiadores enquanto tentava demonstrar felicidade e patriotismo, seus atos colocavam em perigo seus “compatriotas”.

Presidente Jair Bolsonaro segurando uma Bandeira do Brasil, pega das mãos de manifestantes no Palácio do Planalto, mesmo contrariando as recomendações de seu Ministro da Saúde

Mas nem tudo é ruim na visão do Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de Provença, na França. Ele também acaba elogiando o canto que revelava o “sentimento de um destino compartilhado” daqueles confinados na quarentena que ocorre em sua Terra Natal, o que considera, de fato, patriotismo.

O psicanalista, que também diz na Coluna que está atendendo seus pacientes de maneira remota (online), ressaltou o lado bom que pode haver neste momento de nossa história:

“[…] é a primeira pandemia em época de televisão e de streaming e, sobretudo, a primeira em que dispomos da possibilidade ilimitada de nos relacionar com amigos, parentes e amantes. Podemos estar isolados mas nunca sozinhos”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Clique aqui e leia o texto de Contardo Calligaris na íntegra.

“O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

O Presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), Bernardo Tanis, publicou no blog da Instituição uma carta de recomendação aos psicanalistas do Instituto. Conhecido por sua tradição, o local que foi pioneiro e é referência em oferecer, oficialmente, uma formação em psicanálise no Brasil, foi responsável pela formação em de muitos profissionais no Brasil. Entre eles, muitos psicólogos, médicos e psiquiatras.

Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP. Foto disponível em: https://psicanaliseblog.com.br/

Dentre estas orientações uma se destaca: “estarmos disponíveis para nossos analisandos, seja de modo presencial quando possível ou pelas ferramentas remotas ao nosso alcance”. Conforme já sabemos, o analista deve mostrar seu desejo: que o analisando se analise! E hoje os meios tecnológicos permitem mais flexibilidade em tempos como este.

Tivemos casos de negação da condição e dimensão reais do vírus, um dado que, mesmo denso, merece receber nosso olhar com atenção nos casos recentes.

Em ligeiro tom de advertência, Bernardo nos lembra a importância de não ficarmos próximos a nada que for extremo:

“O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

Mesmo considerando as medidas adotadas pelos Governos mundo afora como “importantes” e “necessárias”, o psicanalista que também é Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP, deixou um importante recado sobre o momento em que vivemos:

“Como psicanalistas sabemos que a incerteza, o medo e a insegurança têm ressonância com angústias primárias e o nosso desamparo constitutivo e demandam também outras modalidades de contenção. O melhor e o pior da humanidade emergem nestas horas”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

Considerações Finais

Apesar de minhas impressões vazarem ao longo da escrita, a intenção deste artigo não era bem revelá-las, mas aproveitando o inevitável, me vem à cabeça o duro golpe dado pelo vírus em nosso Saber,

Ele danifica nossos pulmões muito menos do que o faz em relação à nossa Imagem de que tudo estaria sob controle. Os Lugares que passaremos a ocupar nesta sociedade que foi contaminada pelo nosso temido e angustiante Não Saber, se tornaram plenamente incertos. O tempo que ficaremos sob o confinamento de todas as nossas certezas é, decerto, muito menos certo do que a única coisa que será Real a respeito de tudo isso: o nosso Não-Saber.

A partir da Pandemia de um vírus invisível, sofreremos daquilo que nos será indizível, inominado e inaudível a tudo que construímos como civilização até hoje, da frase que assola da criança ao Presidente; do terraplanista ao cientista; do religioso ao cirurgião: ainda não somos bons o suficiente.

Mas meus colegas sabem bem que daremos nosso jeito. A dor e a perda farão parte do processo, bem como fizeram de nossa Constituição como Sujeitos; a falta de liberdade nos fará lembrar dos dias de chuva que vivíamos lá atras, mas sem previsão de Sol tão cedo. Contudo, seja pela culpa, pela alegria ou por alguma bondade resista em meio à tantas histórias: sejamos solidários, sejamos lúcidos e pacientes. Mas não sejamos neutros — e que não nos falte ar para gritar, mesmo que pela internet — que resistimos. E será um prazer resistir, dividir e existir, pois, nas últimas aspas deste artigo:

“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.”

Carl Sagan

Por Caio Cesar Rodrigues .

REFERÊNCIAS

(Em ordem e estilo livre)

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014

Organização Mundial da Saúde. CID10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10a rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997.

https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses

http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-188-de-3-de-fevereiro-de-2020-241408388

http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-356-de-11-de-marco-de-2020-247538346

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/03/19/senado-vai-votar-projeto-de-decreto-de-calamidade-publica-nesta-sexta

Clique para acessar o srag18_orientacao_atendimento_casos.pdf

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51803421

https://www.dw.com/pt-br/do-que-os-v%C3%ADrus-precisam-para-sobreviver/a-52573544
(Conselho Federal de Psicologia, 2020. Disponível em: https://site.cfp.org.br/coronavirus-comunicado-a-categoria/ . Acessado em: 19/03/2020).

Coronavírus: Comunicado sobre atendimento on-line

https://brasil.estadao.com.br/blogs/inconsciente-coletivo/saude-mental-durante-a-pandemia-por-christian-dunker/

Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/03/quais-os-efeitos-do-coronavirus-na-cabeca-da-gente.shtml. Acessado em: 20/03/2020

Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/03/quais-os-efeitos-do-coronavirus-na-cabeca-da-gente.shtml. Acessado em: 20/03/2020

Bernardo Tanis, 2020. Via blog de psicanálise da SBPSP. Disponível em: https://psicanaliseblog.com.br/. Acessado em: 20/03/2020