Ansiedade, Atenção Plena e Black Mirror

“Agora volte novamente a sua respiração. Pausa. Repare como a sua respiração continua por conta própria. Pausa. Sua mente pode se dispersar, apenas deixa ela ir embora, com calma.” E é assim que começa o segundo episódio da quinta temporada de Black Mirror – Smithereens. Não parece não, é um App Mindfulness (ou em português Atenção Plena), a narração transcrita acima é uma meditação guiada. Amplamente utilizado para tratamento complementar dos Transtornos de Ansiedade ou como uma maneira de ser manter o indivíduo focado no momento presente.

Charlie Brooker pode parecer ter diminuído o volume do impacto na quinta temporada do seriado Black Mirror (2011/ ), que já foi tema de texto meu publicado neste blog, Bandersnach. Em vez de propor uma visão de um futuro pessimista de como seria nossas vidas com o avanço da tecnologia na Revolução Digital, neste episódio estamos vendo algo recente, mais especificamente 2018.

Black Mirror: Season 5 | Official Trailer | Netflix

Black Mirror é sobre refletir o efeito da tecnologia em nossas vidas, uma noção que se perde à medida que as facilidades vão aumentando. Você pode dizer que talvez os dispositivos e aplicações apresentadas no seriado nem sejam inventadas, mas o que está em jogo é que todos os dias novas tecnologias são criadas sem regulamentação jurídica e código de ética.

Quando postamos nossas opiniões, fotos em rede sociais, expiamos a vida alheira com likes, curtidas e retweets, solicitamos transporte, remédios, amenidades, roupas, peças de carros, aparelhos eletrônicos e comidas por aplicativos, cada vez que você clica em botão aceito, seu bem mais precioso pode ser utilizado sem sua percepção: suas informações pessoais.

“Meios cada vez mais precisos para fins cada vez mais vagos, são uma característica da nossa época”.

Albert Einstein

Desde os primórdios nossos ancestrais desenvolvem tecnologia, exemplo a invenção da roda, para facilitar a execução e/ou minimizar o tempo de trabalho. Tecnologia Digital faz isto com maestria, cada vez menos intervenções humanas e cada vez mais algoritmos proporcionando autosserviço ao toque das suas mãos. Como sobra mais espaço em nossas agendas, podemos consumir outros conteúdos, e com isto, nosso tempo de vida é consumido.

Persona – Conectando você com o que importa

Após um dia de trabalho nosso personagem vai a cafeteria. Ao ouvir o alarme de notificação dos celulares a sua volta, tem visível aumento de suor, demonstra irritabilidade e alteração comportamento. O intuito desta cena é que seus espectadores identifiquem mecanismos de ansiedade. Geralmente, quando se menciona ansiedade, esta é sempre referida pelo escopo patológico, descrição de transtornos, sintomatologia e tratamentos.

Afinal de conta, o que é Ansiedade?

Ansiedade é o medo de uma ameaça antecipada ou real e incerteza sobre a capacidade de lidar com isso, definição que consta no The Ekman Atlas of Emotions (tradução livre: Altas das Emoções de Paul Ekman). Semelhante ao sinal amarelo do semáforo (farol ou sinaleira, como é conhecido) que indica atenção, mostrando a iminência da parada obrigatória.

Por que nos sentimos ansiosos frente as situações?

A Psicologia Evolucionista aponta que a perpetuação da espécie humana e/ou o instinto de sobrevivência nos equipou com este mecanismo biológico. Você encontrará neste blog no texto a Psicologia das Emoções, a evolução dos estudos e embasamento teórico, mas adianto que medo é uma emoção humana, cuja função principal preservar a vida. Se você não sente ansiedade em certa medida frente a uma situação de perigo, definitivamente você não é humano.

Em outro texto também publicado neste blog (Por que todos desejam ser como Spock?) descrevo mecanismos do desenvolvimento biopsicossoal na Teoria Comportamental Cognitiva, mas aqui irei me ater aos mecanismos cognitivos do desenvolvimento humano.

“As funções executivas do cérebro humano podem ser consideradas um conjunto de processos cognitivos que de forma integrada, permitem ao individuo direcionar comportamentos a metas, avaliar eficiência e adequação destes comportamentos, abandonar estratégias ineficazes em prol de outras mais eficientes e, desse modo, resolver problemas de médio e de longo prazo (Malloy-Diniz, de Paula, Sedó, Fuentes e Leite, 2014).”

Todos os seres humanos deste planeta, independente de ter acesso a educação escolar, possuem este conjunto de capacidades. Porque aprendemos com nossas experiências, podemos ter respostas adaptativas aos problemas apresentados, é com isto, começamos em anteciparmos os acontecimentos.

Daniel Kahneman, o Prêmio Nobel de Economia em 2002, afirma em seu livro Pense Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, que há dois sistemas funcionando em paralelo no cérebro: e o que pensa depressa e é automático – ligado a memória e as emoções – e o que pensa devagar é e racional – isto leva tempo e consome energia. De uma maneira simplificada, podemos dizer que o cérebro funciona no módulo avião, parte do processo de sobrevivência da espécie foi desenvolver uma forma de economizar energia, por isto muitas funções são automatizadas, inclusive o pensamento.

Quando ansiedade vira doença?

De acordo com Robert L. Leahy no seu livro Livre de Ansiedade a reposta é clara e objetiva: é quando o sujeito começa sentir o medo certo na hora errada.

Uma mente pode estar com a sensação de algo está acontecendo novamente, ou que está perdendo o controle. Imagine como é ficar tentando antecipar possibilidades cuja evidências não corroboram para que se realizem?

Leahy afirma que, quando somos dominados pela ansiedade, a mente funciona 24/7, como se o botão liga/desliga estivesse sempre ligado. Um tsunami de pensamentos invade a mente, independe se a vida estiver com alegrias e as coisas estão indo bem, o indivíduo fica preocupado demais com as ansiedades do passado e do futuro, que tudo que está a sua volta fica imperceptível. Isto mesmo, ao contrário do que dizem a ansiedade não é a mente pensando somente no futuro, a mente pode estar presa em algo que aconteceu e revivendo a sensação constantemente.

Ansiedade: Aviso de Utilidade Pública

Os Transtornos de Ansiedade são categorizados nos compêndios médicos CID 10 – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde publicado pela OMS em fase de atualização para CID 11 e DSM V – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Para saber se você é acometido por uma psicopatologia deste grupo, é necessário um diagnóstico adequado que nenhum site de busca não dará para você. O tratamento deve ser realizado com acompanhamento psicológico e medicamentoso, dependendo do grau de comprometimento do paciente.

Aos familiares, amigos e pessoas próximas é sempre importante lembrar que tentar acalmar dizendo ‘não se preocupe’ e ‘vai ficar tudo bem’, quase nunca ajuda efetivamente. A sensações físicas e sofrimentos psicológicos são reais é devem ser tratados com empatia genuína, gentileza e cuidado.

A orientação é buscar profissionais capacitados e treinados que irão auxiliar o indivíduo e familiares o caminho da melhor qualidade de vida.

Vale ressaltar que deste ponto em diante entraremos nos questionamentos e reflexões propostos neste episódio, portanto spoilers estão chegando.

“Descobre o que você puder sobre este cara.”

No início deste episódio, temos um motorista de App de transporte (usando um App de Mindfulness) indo pegar uma passageira na porta Smithereens, que é um App de Rede Social. Ele pergunta para ela se ela trabalha naquela empresa, e a resposta é: “nem estava prestando atenção no que disse, mas não, quem me dera se eu trabalhasse.”

Dia seguinte novo passageiro, mesmo local de embarque, mesma pergunta: “você trabalha na Smithereens?” O rapaz em sua primeira semana de emprego, responde contente com um sonoro sim. Em seguida o motorista diz: “posso utilizar um caminho alternativo?” Duas respostas afirmativas em seguida num episódio de Black Mirror, nunca é bom sinal. O motorista pacato se revela um sequestrador armado, com ações premeditadas e com um único objetivo: falar com o ‘Todo Poderoso’ dono do Smithereens (App de Rede Social).  

O sequestro ganha contornos dramáticos quando o carro do sequestrado e sequestrador é cercado por várias viaturas da polícia. Os agentes têm dificuldades identificar o motorista, pois a placa do veículo está no nome de uma mulher. Quando o sequestrado liga do celular do sequestrador para Smithereens, o número é rastreado. Alguns cliques depois, os funcionários da rede social fictícia conseguem, como dizem por aí, levantar a capivara do sujeito do motorista/sequestrador. Gostos musicais, quantidades de acessos, compras, documentos, viagens, e como um passe de mágica um hacker disponibiliza o áudio do celular, e passamos a ouvir tudo que sequestrador e sequestrado conversam no carro. Até os agentes da polícia se impressionam…

Enquanto vidas correm perigo, usar a tecnologia para nossa proteção pode ser uma estratégia fantástica. No filme V de Vingança, o terrorista V diz: “eu entendo por que o medo fez com o que as pessoas entregassem sua liberdade em troca de segurança”. Bauman fala em seus livros sobre o Medo Líquido, que ocorre em relações amorosas, conflito entre países e instituições, que deixaram a ultrapassada solidez para um estado líquido impermanente, isto é atribuído ao medo.

“Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.”

Zygmunt Bauman

Você pode me dizer que não teve escolha. O mundo ficou grande demais, populoso, globalizado e concentrou riqueza em pouquíssimas mãos, e talvez por isto, o controle comportamental pelas plataformas digitais se tornou como vilão dos filmes da Marvel Thanos se auto proclama: inevitável.

No mesmo dia da postagem deste texto, o especialista em cibersegurança Marcelo Lau em entrevista ao Programa Pânico explicando como as mídias digitais impactam sua vida.

“Quero que você apenas me escute, apenas me escute.”

Enquanto isto, o sequestrador permanece irredutível, a única maneira de evitar uma tragédia é ter que interromper o retiro de dez dias em silêncio do “Todo Poderoso” dono da Smithereens (uma espécie de detox sem eletrônicos, sem falar e sem contato humano) que se demonstra disponível para atender a exigência e falar com o sequestrador. Muito suspense, manipulação e jogo de poder, jurídico e assessores dentam demover seu patrão a mudar de ideia, mas não conseguem. Aqui uma frase reveladora, quando este resolve atender a demanda do sequestrador, diz: “a vantagem de estar na minha posição é que eu posso brincar de ser Deus”.

Neste momento, uma pausa para uma reflexão. Em tradições religiosas seculares, Deus é onipresente e onisciente, ou seja, está em todo lugar e sabe de tudo. A ideia de falar com o criador é um desejo antigo do ser humano, espantou muitos quando Mary Shelley assombrou o mundo literário com seu romance Frankenstein em 1816, e de vez em sempre, a ficção nos assombra com mesmo tema passando por Blade Runner (1982) ao seriado Westword (2016/ ) do HBO.

Neste caso, nosso sequestrador apenas queria confessar uma falha, algo que vez com que ele perder sua razão do seu viver. Apenas porque naquele instante ele deixou o momento presente e foi olhar seu celular, que disparou uma notificação aleatória. Nosso “Todo Poderoso”, que tem aparência messiânica, fala calmo e tranquilo diz que não foi por isto que seu App foi criado. O objetivo inicial se perdeu com o tempo, cada vez mais pessoas subordinadas entravam no circuito, dando sugestões de melhorias que fizessem a rede social mais atrativa, estimulante e consequente mais viciante.

Não vou revelar o final do episódio aqui, para não estragar a experiência, entenda isto como um convite. O objetivo é expor o quanto associamos ansiedade com o mundo contemporâneo em que vivemos, devido a constante eminência do perigo tecnológico e Black Mirror faz isto como nenhuma outra proposta de entretenimento.

O fato também inegável é que não há como parar a Revolução Digital. Antes bastava pensar para existir. A exigência agora é que para existir é preciso ser visto, curtido e compartilhado, nem que seja por seguidores comprados. Talvez seja necessário regularizar, criar jurisprudência, aprender com os erros passados e ter mecanismos de segurança, pelo menos esta é a bandeira do Mark Zuckerberg, dono do Facebook.

“Não é possível que eu não possa fazer nada por você.”

Assim como no seriado, você encontrar com uma facilidade aplicativos de Mindfulness na sua loja de App. Repare que há uma crítica ao formato como vem sido utilizada. O sequestrador usa Atenção Plena para aparentar calma ao manter-se na execução do seu plano. Este definitivamente não é para que que a Atenção Plena foi desenvolvida. Como qualquer tipo de atividade, precisa fazer sentido para quem a faz, sem isto, qualquer que seja a prática perde sentido e com isto, deixa de ser praticada.

Pesquisas cientificas revelam que mentes que conseguem manter-se no momento presente são mais funcionais e tem uma melhor qualidade de vida. Como o texto está bem longo, prometo dedicar um próximo texto sobre aplicações e efeitos de Mindfulness.

Recentemente, ouvi numa palestra na Taverna Medieval em São Paulo, na semana do Pint of Science, o Lama Rinchen dizendo que meditação “não é dizer o que uma pessoa deva fazer, mas guiá-la para que ela encontre a si mesmo no processo”.

Diante de qualquer que seja a sua necessidade, se faz necessário recordar a frase que ficava no pátio do Templo de Apolo em Delfos na Grécia Antiga: ‘Conheça a ti mesmo’. Observe este interessante complemento da Enciclopédia Grega Suda de conhecimento do século X, a frase citada: “o provérbio é aplicado àqueles que tentam ultrapassar o que são“, ou “ainda um aviso para não prestar atenção à opinião da multidão.”

Psicóloga Masilvia Diniz

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BLACK MIRROR – Smithereens (5S2E). Criação: Charlie Brooker: Netflix, 2019. Streaming (70 minutos).

BAUMAN, ZYGMUNT – Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004b BAUMAN, ZYGMUNT –

CONHECE A TI MESMO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Conhece_a_ti_mesmo&oldid=55470184>. Acesso em: 12 jun. 2019.

LEAHY, Robert L. Livre de ansiedade / tradução: Vinicius Figuiera; revisão técnica: Edwiges Ferreira de Mattos, Rodrigo Fernando Pereira – Porto Alegre: Artmed, 2011. 248p.

KAHNEMAN, DANIEL. Rápido e devagar [recurso eletrônico]: duas formas de pensar / Daniel Kahneman; tradução Cássio de Arantes Leite. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS: DSM V [ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition], Tradução Maria Inês Correa Nascimento. Porto Alegre. Ed.: Artmed, 2014

MALLOY-DINIZ, Leandro F.; CAMARGO, (Org.). Neuropsicologia: aplicações clinicas. Porto Alegre: Artmed, 2016.p. 291.

MLA style: Daniel Kahneman – Biographical. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2019. Thu. 20 Jun 2019. <https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/2002/kahneman/biographical/

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. CID-10 : Classificação Internacional de Doenças. São Paulo : EDUSP, 1994, 1ª ed.

A análise é de graça?

Como funciona a pagamento e porque ele é importante

O tema do pagamento na clínica é algo que é sempre discutido e parece dar medo em muita gente. Algo que não podemos nos furtar na nossa práxis é pensar qual valor damos a ela.

Os tratamentos em regime de gratuidade, ou com valores baixíssimos, praticados em universidades ou outros centros de formação colocam em xeque preceitos enunciados desde Freud.

Tentarei aqui, apresentar alguns dos principais elementos considerados na prática da psicanálise de orientação lacaniana quanto à questão de pagamento e valor das sessões. Naturalmente não trata-se de encerrar o assunto, mas meramente apontar caminhos de pesquisa.

Na Psicanálise

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(Imagem retirada da Internet)

“Nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez” (Freud, 1913/1996, p. 148).

O valor da análise é intrínseco ao próprio andamento do processo. Ele se diferencia de qualquer outro tratamento na medida em que o analista não responde à uma demanda de um comprador (e não responde mesmo).

A Psicanálise (e especial aqui no Brasil) se manteve (e ainda bem) de maneira mais artesanal, isto é, sem ser regrado por uma tabelação de preços (como o CRP propõe, e bem, para a atuação de psicólogos), e sem estar ligada à grandes corporações da área da saúde. Ela foge das chamadas “práticas de mercado” ou “tendências”.

A análise não é algo que se compra em um balcão, um serviço com orçamento, como outro qualquer.

O dinheiro é tratado por Freud como um elemento do circuito anal (para saber mais sobre as fases do desenvolvimento psicossexual clique aqui). Trata-se de dar ou não o que o outro pede, como quando uma criança pequena tem o poder de ir ou não no banheiro quando a mãe pede (dar ou não o que o outro quer).

Há também, claro, o caso do enfezado, aquele que segura tudo, nada escapa.

“De fato, em uma análise, quando o paciente aborda a questão do dinheiro, o analista não deve ouvir isso como se fosse uma relação comercial, e sim entende-la como algo a ser tratado, semelhante a uma formação do inconsciente, como ato falho, esquecimento, sonho e sintoma. A colocação do pagamento já é o inconsciente trabalhando” (Macedo, 2014, p. 91).

Lacan sempre teve uma fama de cobrar caro. Cobrava sim, mas de quem podia, e em caso, o pagamento era intrínseco ao andamento da análise. Em um conjunto de relatos fabulosos, Jean Allouch, conta passagens de intervenções de Lacan com seus pacientes, nas apresentações de doentes e nas supervisões com analistas em formação. Em muitas delas, pode-se notar o caráter fundamental atribuído ao preço das sessões:

“conflito sobre a próxima sessão

– Quando você volta?

– Segunda,… segunda-feira próxima…

– Volte então sexta-feira.

– É que estou cheio de problemas agora: não tenho mais um tostão. Estou sem trabalho. E pedi que X não me mandasse mais nada…

– Bom, volte sexta-feira e se vire para ter com que me pagar. Até a vista.

Saindo, ele se dá conta: pela primeira vez Lacan lhe disse: “até a vista”.”

(Allouch, 1999, p.38)

Essa passagem tomada de maneira isolada pode parecer para os desavisados algo de arrogante por parte de Lacan, todavia, o mestre francês sabia como ninguém implicar alguém em seu próprio processo de análise.

Trata-se exatamente disso, responsabilizar o sujeito em seu próprio processo de “torção discursiva”, como diria o último Lacan. Ou seja, fazer com que o sujeito se reposicione psiquicamente diante da vida e das situações. Uma análise é cara, mas não necessariamente em seu valor financeiro, e sim, no investimento que o sujeito coloca de si no processo.

“Na prática, o valor cobrado considera a possibilidade de cada um e a disponibilidade do analista” (Macedo, 2014, p. 86).  O quanto um sujeito banca sua própria análise é refletido em parte no valor que paga em sua sessão.

Nessa medida, não é viável uma análise “de graça”, pois, o sujeito ficaria eternamente em dívida com o Outro. “… se o analisante não pagar a análise, o analista o está deixando no registro eterno da culpa. É interessante que na língua alemã se usa a mesma palavra, Schuld, para dívida e para culpa” (Macedo, 2014, p. 92).

Em outro momento, Freud (1913/1996) diz:

“O tratamento gratuito aumenta enormemente algumas das resistências do neurótico – em moças, por exemplo, a tentação inerente à sua relação transferencial, e, em moços, sua oposição oriunda de seu complexo paterno e que apresenta um dos mais perturbadores obstáculos à aceitação de auxílio médico.” (p. 147)

Em determinados casos pode-se pensar em um pagamento mensal ou quinzenal, todavia, normalmente, segue-se um pagamento por sessão, o que auxilia a organização e estabelecimento de limite para o paciente. Em minha prática, costumo acertar o valor inicial nas primeiras sessões, deixando claro, naturalmente, que o valor poderá ser revisto com o andar das sessões.

E na análise com as crianças?

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(Imagem retirada da Internet)

Linha bem tênue, na Clínica da Infância, pensando à partir da perspectiva lacaniana, podemos apontar para um conceito criado por Françoise Dolto (1908 – 1988), chamado de “pagamento simbólico”.

Naturalmente, os honorários do analista são pagos em dinheiro pelos pais/responsáveis que trazem a criança, em valor acordado também nas primeiras sessões.

Quanto à criança, Dolto (2013) trabalha com o chamado pagamento simbólico, onde a criança é também responsabilizada por seu tratamento, onde, a mesma fica incumbida de trazer objetos, como desenhos, cartas ou outras produções que sirvam como pagamento e testamento do progresso da análise.

Alcance social

A Psicanálise é para todos? Sim, e não.

Muito se discute sobre o alcance que a Psicanálise tem na sociedade. Se ela é cara, e a percepção de que é coisa de elite. Na realidade não é. Todavia, tem que se pensar que fazer uma análise não é um empreendimento fácil.

Lacan dizia que não basta querer se conhecer, não é o suficiente. Tem que se procurar uma mudança profunda, para que se suporte o andar das sessões.

É importante que sempre se ressalte que a Psicanálise é uma clínica do singular, cada analista maneja os tratamentos de maneira única. Termino, pois, com uma passagem de Freud (1913/1996):

“Todo aquele que espera aprender o nobre jogo de xadrez nos livros, cedo descobrirá que somente as aberturas e os finais dos jogos admitem uma apresentação sistemática exaustiva e que a infinita variedade de jogadas que se desenvolvem após a abertura desafia qualquer descrição desse tipo. Esta lacuna na instrução só pode ser preenchida por um estudo diligente dos jogos travados pelos mestres. As regras estabelecidas para o exercício do tratamento psicanalítico acham-se sujeitas a limitações semelhantes” (p.139).

Até a próxima.

Por Igor Banin

 

Ps: Ficam aqui algumas recomendações de vídeo falando mais sobre esse tema:

 

 

Referências Bibliográficas

Allouch, J. (1999) – Alô, Lacan? – É claro que não. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Dolto, F. (2013). Seminário de Psicanálise de crianças. São Paulo: Editora WWF Martins Fontes.

Macedo, E. (2014) A sessão e seu preço: A análise lacaniana custa sempre caro?. In Psicanálise – A clínica do Real (pp. 85 – 102). Barueri: Manole.

Freud, S. (1913/1996). Sobre o início do tratamento(Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise I). In O caso de Scheber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. (pp. 137-158, Obras completas de Sigmund Freud, v.12). Rio de Janeiro: Imago.

Pulsão ou Instinto? Qual é a diferença?

Instinto ou Pulsão? Qual é o conceito de cada um? Qual é a diferença entre eles? Confira.

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A Guerra Ideológica nas Traduções

É natural a todo principiante nos estudos da psicanálise e, consequentemente, da psicologia moderna, se deparar com versões distintas de tradução nas obras de Freud. Numa versão bastante difundida de sua Obra Completa, termos como Instinto (Instinkt em alemão) e Repressão (Unterdrückung em alemão) , por exemplo, eventualmente são utilizados para descrever os conceitos de Pulsão (Trieb em alemão) e Recalque (Verdrängung em alemão).

Alguns estudiosos vão dizer que há aqui um componente ideológico, inserido durante as traduções do alemão para o inglês, dando abertura para interpretações que eventualmente destoariam do que fora originalmente proposto por Freud. Mas deixaremos esta discussão para um outro momento. Contudo, vamos começar pela diferença etimológica entre pulsão e instinto.

Etimologia

Conforme já sabemos, Sigmund Freud era Austríaco, tendo como sua língua materna o alemão. Naturalmente, nos é necessário buscar o significado das palavras usadas pelo psicanalista na língua em que foram escritas.

Instinto – Instinktgrafado de maneira idêntica ao que é postulado na biologia, é algo mais pautado ao comportamento de uma espécie, comumente usado como instinto sexual. Naturalmente, a palavra instinto é também utilizada, em alguns contextos, como sinônimo da palavra “impulso”.

Pulsão – Trieb: grafado de maneira semelhante ao verbo trieben – ação de impelir.
Trieb: impulsão, fazer avançar à força; empurrar, impulsionar; força motriz (usado na física e na engenharia); impulso da força instintual (instinkt).

Vemos que Trieb também pode vir a ser utilizado como um sinônimo de Instinkt na língua alemã. Então por que ainda se fala em “Erro de Tradução”, ou ainda em “Guerra Ideológica” através da mudança do termo? Para chegarmos a algo que nos aproxime de tal entendimento, será necessário conhecer um pouco mais sobre as definições.

As Definições

Se lembrarmos do uso da palavra Instinto antes de chegarmos a sua definição, podemos lembrar que em línguas latinas e também na língua inglesa não é incomum que nos deparemos com uma semelhança no emprego de Instinto, Intuição e Impulso.

Ex: “Eu agi por instinto”; “My instinct told me to act like that (Meu instinto me disse para agir daquele jeito)”; “O instinto materno é algo incrível!”.

Um consenso sobre como houve essa aproximação de conceitos caberia aos bons linguistas. Quando buscamos uma definição de instinto, o resultado dificilmente não se aproxima de um conceito Darwinista:

“Considera-se ordinariamente como instinto um ato desempenhado por um animal, sobretudo quando é novo e sem experiência, ou um ato desempenhado por muitos indivíduos, da mesma maneira[…]” (DARWIN, C. 2003. p. 273).

Um instinto poderia ser, em outras palavras, um comportamento biologicamente herdado, igual em todos os membros de uma determinada espécie, que perante um estímulo motiva ações com a finalidade ligada à sobrevivência e/ou reprodução.

Mas devemos nos atentar a um detalhe: o instinto nos impulsiona de acordo com o que acontece em nosso meio, com uma finalidade específica. A confusão entre instinto e pulsão é legítima, dadas as semelhanças, mas deve ser extinta, uma vez que falamos de funções e finalidades diferentes.

Por exemplo: se falta alimento no local onde estamos, devemos usar nossos músculos para que haja movimento até conseguirmos o alimento no mundo externo.

A partir do momento em que tal finalidade é atingida, deixamos de sentir toda aquela urgência instintiva que nos impulsiona a algo. E, naturalmente, agimos de acordo com o que é esperado para nossa espécie.

Quando algo deixa de ser Instintivo?

Cena de: “La grande bouffle” (em italiano: La grande abbuffata; no Brasil, A Comilança; em Portugal, A Grande Farra), filme franco-italiano de 1973 em que um grupo de pessoas se reúne com o objetivo de comer tudo aquilo que desejam até a morte.

As Pulsões

Em sua obra, quando se refere às Pulsões, Freud não deixa de utilizar o termo Trieb. E em seus usos do termo Instinkt (“Nova Série das Conferências de Introdução à Psicanálise“, Freud, 1933/1964, p. 106) mostra que seu entendimento de Instinto era diferente daquilo que viria a ser o grande cerne de sua teoria: As Pulsões (Trieb) – bastante retratadas em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), As Pulsões e seus Destinos (1915) e Além do Princípio do Prazer (1920).

Para “resumir a síntese de uma resenha” deste conceito, poderíamos utilizar uma passagem que adaptamos de Freud para definir o que seria uma Pulsão:

Um conceito-limite entre o psíquico e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que provém do interior do corpo e alcançam a psique, como uma medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo. (Freud, 1915, p. 4-5)”

Pulsões seriam, então, representantes de forças impulsionadoras que se originam no interior do corpo e são transmitidas ao aparelho mental, pressionando no sentido de descarga. São Inconscientes e fazem parte do que Freud chamou de Processo Primário, ou seja: ocorrem antes da ação do Recalque. As Pulsões buscam restaurar um estado anterior das coisas (Freud, 1920). Contudo, o processo de recalque não as cessa, apenas as direciona para um tipo mais elaborado de descarga.

Já é possível perceber aqui que, diferentemente dos instintos, os estímulos de uma Pulsão estão exclusivamente do mundo interno de um sujeito. Ou seja, enquanto nosso instinto de sobrevivência só nos permite mover os músculos para fugir quando encontrarmos um leão na selva, nossa Pulsão utilizará de combustível para impulsionar o que está em nosso mundo interno em busca de descarga: a libido.

A Pulsão não ocorrerá para desencadear um comportamento em específico. Ela muito menos se limita a se apresentar de maneira igual em indivíduos de uma mesma espécie. Cada um encontrará a satisfação de seus impulsos pulsionais em objetos que façam acordo com sua própria história subjetiva.

Se é da ordem do instinto ingerirmos determinada quantidade de alimento para a nossa sobrevivência, é além da ordem de algum tipo de princípio do prazer, impulsionado por uma grande força que tenta restaurar algum estado anterior das coisas, aquela nossa compulsão por repetir à exaustão o consumo de determinados alimentos que sequer têm algum valor nutritivo. Ou será que comemos apenas para nutrir nosso organismo? Você conhece alguém que ingere alimentos apenas pela pela motivação da fome? Se isso fosse verdade, colocaríamos em xeque todo o entendimento de dietas para múltiplos fins; toda a variedade de temperos e técnicas de culinária empregadas por toda a dedicação que há nos Chefs de cozinha. Comemos por algo a mais.

Explico a relação da comida com a fase oral do desenvolvimento neste texto. Confira.

Se o instinto acaba no ato de sua finalidade, a pulsão continua até deixar de existir – o que só aconteceu antes do nascimento; aquilo que só poderá acontecer após o fim do último batimento cardíaco. O fim da pulsão estará sempre aliado ao fim de toda a atividade cerebral de um indivíduo: a morte.

Tipos de Pulsão

Se o instinto sexual nos conduz à reprodução de nossa espécie, à continuidade de nossos genes num futuro próximo, a Pulsão de Vida (Eros – Pulsão Sexual) se tornou uma tentativa de postergar – através das pequenas doses de prazer obtidas após uma serie de tensões e conflitos, oriundos no contato com o mundo externo – até onde for possível a última finalidade de toda e qualquer vida: o retorno para aquele pacífico estado inanimado, semelhante a algo antes de seu começo – a morte (Thanatos, Pulsão de Morte).

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Se no início as pulsões encontraram satisfação no próprio sujeito, direcionando a descarga em áreas específicas do corpo durante as fases de seu desenvolvimento psicossexual, após certo momento, seus alvos foram se tornando objetos no mundo externo.

Se sabemos que a Pulsão de Morte é aquilo que conduz o indivíduo ao prazer de não sentir desprazer algum, ou seja, um estado onde não há o conjunto de complicações da vida, nos é previsível indagar o que faria essa força impulsionadora diminuir sua intensidade para nos deixar vivos por mais tempo.

Se quisermos desenhar, ilustrar a possibilidade de nosso próprio organismo tentar nos conduzir a morte a partir de seu movimento natural, podemos lembrar da própria mitose, o processo de desenvolvimento das células através de sua igual repartição. Quando esta ocorre de maneira desenfreada em alguma célula do organismo, conduz seu crescimento constante até que esta se torne uma anomalia que se tornou a segunda principal causa de morte no mundo.

E por falar em câncer, o que seria um de seus maiores causadores, senão uma fixação, um retorno da libido àquele momento da vida em que era predominante a satisfação das tensões, ou seja: uma descarga das Pulsões libidinais através da via oral? Naturalmente, recorrer ao cigarro em momentos de estresse e tensão deve ser algo que aproxime o sujeito, mesmo numa pequena fração, à primeira satisfação que lhe proporcionou o seio materno.

E esta seria uma forma de representar uma pulsão se direcionando a um objeto, num momento em que esta deixou de poder encontrar satisfação apenas no indivíduo. Freud vai nos dizer (1920) que, sem a pulsão de vida, nossa compulsão à repetição daquilo que nos dá prazer, motivada por Thanatos, nos conduziria à morte rapidamente. A Pulsão de vida (Pulsão Sexual), seria uma forma de encontrar pequenas pausas, uma mudança temporária da rota ao destino final.

A relação sexual é uma forma de descarga da Pulsão que envolve o contato com um outro. Contudo, para que esta aconteça, escolhe-se o conjunto adversidades  naturais do contato interpessoal para encontrar tal descarga de libido. O sujeito escolhe, inclusive, passar pelas etapas de um processo de sedução, pela a exposição perante a rejeição do desejo pelo outro e muitas outras dificuldades que envolvem a busca por sexo; uma vez que conseguir obter o intermédio do outro, através do consentimento e suas condições, é uma forma de satisfazer minimamente a pulsão e respeitar as leis sociais. Caso contrário, se um sujeito obedecesse estritamente a a intensidade máxima de sua Pulsão e agisse sem a ação do Supereu – de fazê-lo entender os limites e leis da sociedade – ele provavelmente cometeria um crime sexual.

Assim como se eu comer bacon sem parar, se eu fumar um cigarro atrás do outro sem intervalo algum para viver o prazer de forma ininterrupta, meu tempo de vida estará em jogo. Para Freud (1920), a Pulsão de Vida (Eros) será responsável pela interrupção dos comportamentos impulsionados por Thanatos através da busca pelo contato com o outro.

É como se, ao reparar nas semelhanças daquele objeto (o outro) com aquilo que eu acredito ter me dado prazer em tempos primórdios de minha infância, eu buscasse uma forma de satisfação quase tão boa quanto, mas que só aconteceria após uma boa dose de estresse e tensão – componentes naturais quando falamos da divergência existente no contato entre seres humanos diferentes. E nessa satisfação obtida através do ato sexual, da investigação científica (como forma forma de sublimação), etc. desvia-se um pouco da morte iminente que causaria o cega busca pela satisfação das Pulsões de Morte.

“A pulsão seria, então um estímulo para o psíquico que vem do interior do organismo, que não age como uma força momentânea de impacto, mas como uma força constante. (Freud, 1920)”.
Enquanto a pulsão de morte tenta adiantar o objetivo da vida, a Pulsão de vida tenta mostrar outro caminho que pode prolongar a experiência durante este objetivo.

A Ambivalência

amor-odio

“Se uma relação de amor com um dado objeto for rompida, freqüentemente o ódio surgirá em seu lugar, de modo que temos a impressão de uma transformação do amor em ódio. Esse relato do que acontece leva ao conceito de que o ódio, que tem seus motivos reais, é aqui reforçado por uma regressão do amor” (Freud, 1915, p. 15)

Uma das mais antigas funções do aparelho psíquico é sujeitar os impulsos pulsionais que se chocam com ele, ou seja, fazer com que se tornem parte do sujeito. Se são predominados pelo processo primário, ou seja, aquilo que ocorre antes do recalque, após o acontecimento deste mecanismo, deverão encontrar sua pequena dose de satisfação a partir de atividades socialmente aceitas, que trazem rastros do prazer anterior ao recalcamento. O prazer na atividade atual se liga a algum prazer de Outros tempos.

É mais ou menos assim que um sádico se torna um cirurgião – seu prazer em ferir alguém se transforma na habilidade de curar, de salvar uma vida a partir de um uma ferida na pele. Assim toda aquela libido que ficaria livre num Eu se torna repousada, quiescente naquilo que agora serve ao indivíduo e o meio que este pertence.

As pulsões de vida, ou seja, o contato com o mundo externo e com o outro, podem nos tirar certa paz. Podem nos dar certa tensão, certas desavenças e algum estresse, é verdade. Mas não se pode negar que há pequenos intervalos de prazer e de alívio destas tensões, de satisfação levemente plena. Podemos até mencionar daquele sentimento oceânico que Freud menciona em O Mal Estar na Civilização (1929). E é daí que vale a pena todo este estresse que nos causa a renúncia de retornar ao estado zero. A morte, a ausência de problemas e preocupações e tensões deixa de ser tão atrativa nestes intervalos de prazer em que a vida vale a pena.

Para que servem as Pulsões?

“Retirantes”, de Cândido Portinari. Uma obra que retrata a morte presente em corpos vivos. A Vida e a Morte ocorrendo ao mesmo tempo.

Eros e Thanatos agem em conjunto. Se nossa capacidade de seguir as Pulsões de Vida não obtivesse interferência das forças impulsionadoras ao fim, é possível que sequer sentíssemos alguma urgência de prosseguir com algo. É possível que sequer buscaríamos aquilo que Lacan uma vez chamou de objeto a.

Não haveria desejo sem Pulsão de Morte. A urgência do desejo, o impulsionamento do indivíduo a buscar uma nova versão de tudo aquilo de bom que já experimentou depende de suas Pulsões. Mas se o contato com este desejo não for intermediado pelas relações humanas, é bem possível que nos prenderíamos exclusivamente a qualquer ilusão de pleno prazer. Por sexo e masturbação compulsivos, pelo sabor de uma comida favorita ou pela satisfação e pela euforia que causam certas substâncias lícitas ou ilícitas. O sujeito estará, lenta ou rapidamente, a caminho da morte, pois é a ela que serve o princípio do prazer.

E é por isso que Eros e Thanatos andam juntas. É por isso que nossas vidas subjetivas são repletas de ambivalência. Nossa capacidade de odiar algo ou alguém, ou seja, de buscar sua destruição através de toda a força pulsional que as Pulsões de Morte nos oferecem, é equivalente ao quanto aquilo nos poderia ter acalentado a libido através das Pulsões Sexuais (Pulsões de Vida), mas infelizmente foi algo que se perdeu nos conflitos inerentes ao contato humano.

Se amar alguém não é algo fácil, odiar também se torna um grande esforço libidinal. É preciso forte investimento para ambos. Não é atoa que eventualmente nos deparamos com notícias como esta:

Ex-líder da Ku Klux Klan é flagrado fazendo sexo com homem negro.

Considerações Finais

Portanto, se as Pulsões são confundidas com instintos, estaríamos determinando comportamentos igualitários para toda a espécie humana. Estaríamos contrariando esta pesquisa. Postulando um conjunto normativo de comportamentos. Se justificarmos o desejo de ser mãe de uma mulher como algo equivalente ao “Instinto Materno”, outras mulheres, aquelas que não querem ser mães; aquelas que não possuem o impulso que este “Instinto” causa, poderiam ser colocadas em uma categoria marginalizada (à margem) daquilo que é normal. Se justificarmos o ato sexual como unicamente proveniente do instinto humano, tornaríamos as relações sexuais homo, bin e pan afetivas uma anomalia do comportamento humano. E a história nos mostra o contrário. E isso poderia servir à múltiplas ideologias – e aqui respondemos uma hipótese ao que fora dito no início do texto: ideologias que poderiam ir contra aquilo que a teoria de Freud defendeu, ou seja, a liberdade dos sujeitos serem quem são.

Se a psicanálise nasce estudando os sintomas oriundos das repressões presentes em uma cultura uniformizante, como aquela da Era Vitoriana, por que dialogaria com a possibilidade de uniformizar o comportamento humano através da noção de Instinto?

Daí podemos pensar que a tradução de “Trieb” por “Instinto” poderia ter muita servidão a grupos mais conservadores à revolução trazida pela teoria que:

  • Foi contra a repressão da sexualidade feminina;
  • Apontou a existência de uma sexualidade infantil;
  • Explicitou a presença de um desejo incestuoso na sexualidade;
  • Explicitou uma agressividade não condizente com o que era permitido exibir;

Mas também mostrou que a história de cada sujeito permite que este module as variações daquilo que lhe é inerente. Apontou que o conhecimento obtido na análise pode permitir que o sujeito reconheça a origem e mude o destino de alguns de seus impulsos ou, ao menos, aprenda a conviver melhor com estes.

A psicanálise não poderia ser instintual, uma vez que sua ética para com o sujeito pulsional estará sempre à frente da hipocrisia pregada pela moral social.

REFERÊNCIAS

DARWIN, Charles (2003). A Origem das Espécies, no meio da seleção natural ou a luta pela existência na natureza, 1 vol., tradução do doutor Mesquita Paul.

Freud, S. (2006). Além do princípio de prazer. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.). Obras Psicológicas de Sigmund  Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 2, pp. 123-198). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1920).

Freud, S. (2004). Pulsões e destinos da pulsão. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.) Obras Psicológicas de Sigmund Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 1, pp. 133-173.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1915)

FREUD, S. (1905). Trois essais sur la théorie de la sexualité. Paris, Gallimard, 1987.

HANNS, Luiz Alberto. Dicionário comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996

 

 

Game of Thrones or Game of Words

Game of Thrones chegou ao fim.

Durantes anos, uma legião de espectadores assistiram na HBO e compartilharam suas opiniões através de inúmeras teorias, memes e spoilers dos episódios tentando prever quem ascenderia ao Trono de Ferro.

Há uma década antes de ser o seriado mais assistido/pirateado da história recente, inúmeros e ávidos leitores clamavam por uma adaptação das Crônicas de Gelo e Fogo, publicação de uma série dos atuais cinco e pretensos sete livros escritos por George R. R. Martin, jornalista de formação, escritor desde da década de 70 de ficção cientifica, terror e fantasia e roteirista de series de TV entre os anos 80/90.

O autor estava cansado de ver seus enredos anteriores mutilados para servir ao propósito comercial dos produtores de TV. O objetivo inicial de Martin com suas Crônicas era contar uma história que não pudesse limitar-se por questões geográficas, introdução de personagens e principalmente por prazo de entrega. O último livro da saga foi lançado em 2011. Nos anos que se seguiram, o autor produziu contos, novelas e livros dentro do mesmo universo, seguindo o seu projeto original enquanto a série estava indo por outros caminhos.

Algo em particular despertou o fascínio do público tanto nos livros quanto na série. Quando se pergunta ao seduzido espectador o porquê gosta do Universo de Game of Thrones, a resposta comumente é a mesma: não há a dicotomia, que é tão habitualmente é utilizada nas histórias de gênero, ou seja, nenhum personagem essencialmente do Bem ou do Mal. Dentro deste contexto qualquer personagem pode fazer uma coisa abominável com o objetivo de fazer ‘o melhor para o bem de todos’.

As Crônicas de Gelo e Fogo são um tratado sobre o discurso, a habilidade de colocar em palavras as estratégias sem dizer qual é o próximo passo aos seus oponentes. O Jogo dos Tronos é muito mais do que uma disputa para ver quem governará os Sete Reinos, é um jogo das palavras.

Alerta de Spoilers

Este texto foi construído com o objetivo de introduzir dos conceitos do um outro livro, Comportamento Verbal de B. F. Skinner, por isto, utilizei alguns diálogos dos livros/série sem revelar nenhum detalhe da trama. Devido a crescente decepção no final com a série, neste texto exponho argumentos sobre que lições podemos aprender sobre expectativa versus realidade.

Sala das Faces, na Casa do Preto e do Branco. É sim, está na foto sou eu.

Você não sabe nada, Jon Snow.

Ygritte, 2º Ep. 7º Temp.

Quando bem escritas, obras de ficção nos apresentam personagens com coerência narrativa, cujas ações/emoções sempre estão no volume máximo ou mínimo e categoricamente com efeito distorcido. Um bom exemplo de personagem coerente passível de análise psicológica é Hamlet, tragédia escrita por Willian Shakespeare, que posteriormente foi analisada pelo psicanalista Ernest Jones no livro ‘Hamlet e o Édipo’ (Ed. Zahar 1970).

As Crônicas de Gelo e Fogo é uma obra ficcional, que é contada pelo ponto de vista do personagem que está narrando o capítulo. Os entendedores sabem que para ter uma visão panorâmica da história é necessário montar um quebra cabeça intricado. Nos livros como a narrativa esta em primeira pessoa, em alguns capítulos temos um vislumbre do que se passa dentro da mente de um personagem quando este está pensando. No capítulo seguinte, outro personagem assume a narrativa, novas informações são inclusas na história, e isto fornece mais dúvidas do que certezas sobre, digamos assim, o caráter dos personagens. Especificamente na Dança dos Dragões, quando os acontecimentos são interrompidos apresentam nuanças jamais vistas dos personagens, vide exemplo Lord Varys.

No caso da série de TV, a complexidade ainda é maior, pois os espectadores tem uma visão ampla, com pontos de vistas diferentes da mesma cena sendo contada ao mesmo tempo. Como parte do entretenimento é tornar a história imprevisível e não há tantos diálogos expositivos, o espectador é capturado para dentro do episódio através da visão de um dos personagens. Quanto mais coesa e coerente a narrativa é, mais seus espectadores conseguem manter a suspensão de descrença, a capacidade de assimilar os acontecimentos da historia sem perceber, como dizem, ‘que algo de errado não esta certo’.

“O homem que dita a sentença deve brandir a espada.”

Ned Stark, 1º Ep. 1º Temp.

Na Psicologia Comportamental, B. F. Skinner em estudos no seu laboratório, percebeu que o quê falamos também expressa comportamento. Isto pode parecer se tratar da língua materna e da aprendizagem por fonemas (sons), mas é um pouco mais complexo do que isto, há uma correlação entre o conteúdo e a forma.

Segundo Skinner, o comportamento verbal é comportamento operante, agindo sobre o ambiente e sofrendo as consequências da alteração que provoca nele. Estas consequências – como o reforço e a punição – determinarão a probabilidade de emissão futura da classe de respostas que integram o operante (Passos, 2003). Porém isto é compartilhado com uma comunidade social constrói esta mediação moldando as ações de seus membros para poderem ensinar outros membros como verbalizarem efetivamente através de formas apropriadas de ação (Vargas, 2007).

“A humanidade age sobre o mundo, e o modifica, e é mudada por sua vez, pelas consequências de suas ações

Skinner, Comportamento Verbal

Através da evolução genética e organização social, ensinamos e praticamos a linguagem como parte do nosso conjunto de comportamentos emitidos. Ressalto que o contexto de análise deva considerar o conjunto dos comportamentos verbais e não verbais para uma avaliação, e com isto, evitar descontextualização.

Imagine que ao aprender a falar a sua primeira frase uma criança diga: “o céu é azul”, o comportamento fora emitido, porém este será validado assim que passar pela aprovação em conteúdo e contexto, ou seja, sua mãe respondendo: “sim o céu é azul”. Nosso indivíduo pode continuar repetindo sua fala sobre o céu, mas se a comunidade ao seu redor não concordar com o que foi dito, ele terá que reavaliar sua fala até que esteja readequada. Você pode me dizer que nada mudará a cor do céu, isto é fato; mas não é exatamente típico um adulto puxar uma conversar dizendo ‘o céu é azul’.

Algo em Game of Thrones fornece substância aos personagens e que conecta com sua linhagem e trajetória. Seja por autoafirmação ou para se posicionar no jogo ou em diálogos com outros personagens que fazem sempre se lembrem quem são e qual é o papel eles tem nesta história: o lema das casas.

Casa Targaryen

Lema: Fogo e Sangue. Estandarte: Dragão vermelho com três cabeças num fundo preto escrito.

“Sou Daenerys, filha da tempestade, da casa dos Targaryen, do sangue da antiga Valíria. Eu sou a filha dos dragões, e eu juro que aqueles que querem prejudicá-los morrerão gritando.” Daenerys Targaryen

Casa Stark

Lema: O Inverno Está Chegando.
Estandarte: Lobo gigante cinza com fundo preto.

“O homem que dita a sentença deve brandir a espada.” Ned Stark

Casa Lannister

Lema: Ouça-me rugir. Eles preferem dizer que “Lannister sempre pagam as suas dívidas”.
Estandarte: Leão dourado num fundo vermelho.

“Quando se entra no jogo dos tronos, ou ganha ou morre.” Cersei Lanister

Como afirma Skinner, os indivíduos são moldados de acordo com as consequências de suas ações. Em GoT, os personagens em suas falas, expõem aos outros quais são suas motivações internas e os demais podem validar ou não dependendo das circunstancias.

Valar Morghulis*

Jaqen H’ghar, 2º Ep. 10º Temp. *Todos os homens tem que morrer. Alto Valeriano língua fictícia dos livros.

Expectadores estão (digamos assim) decepcionados com os rumos tomados pelos produtores da série de TV, David Benioff e D. B. Weiss (comumente conhecidos como D&D). Nas redes sociais após a exibição do último episódio, o gosto agridoce que Martin disse que a história teria no fim, quando transposto para TV ficou amargo.

Em seu início a série de TV era promissora, conseguiu adaptar com qualidade ‘O Jogo dos Tronos’, primeiro livro das Crônicas. Quanto mais se avançava, mais complexa a narrativa dos livros ficava, mas o fandom questionava decisões ora inexistente nos livros ora sem nexo dos personagens.

Se compararmos a adaptação do Senhor dos Anéis pelo diretor Peter Jackson, muitos dirão que os filmes superaram os livros. Isto acontece porque Tolkien não era um escritor, ele não tinha habilidade de contar uma história. Martin é, leva em média cinco anos para escrever um livro. Frequentemente seus leitores não se sentem representados com o que assistem na HBO.

Trailer do 6º Episódio 8º Temporada Season Finale

Valar Dohaeris**

Verme Cinzento, 3º Ep. 8º Temp. **Todos os homens devem servir. Alto Valeriano língua fictícia dos livros.

Os argumentos que sustentam a defesa dos produtores, apontam que eles compraram o desafio de transpor uma história que não havia sido apropriadamente terminada. Quando a série ultrapassou os livros em enredo, negociaram com Martin quais seriam os pontos chaves da trama, assumindo a responsabilidade de preencher lacunas.

Martin afirmou que não ficou muito satisfeito com as resoluções da série, mas também confessou aos 60 Minutes Overtime que não forneceu detalhes de como estes eventos impactariam no comportamento dos personagens e tramas secundárias que facilitam a narrativa.

Conveniências de roteiro fizeram com que uma personagem citasse ipsis litteris Maquiavel – O Príncipe cujo o capítulo XVII – Da Crueldade e da Piedade – Se é Melhor ser Amado ou Temido. Será que na Cidadela temos um exemplar desta obra clássica? Brincadeiras a parte, Martin também poderia se inspirar em Maquiavel, mas certamente seria mais sutil.

George R.R. Martin o autor em entrevista para 60 Minutes Overtime

Será que os personagens terão o mesmo destino da série nos livros?

Assim como seus personagens, um escritor também tem que pagar suas dívidas. Martin disse que não optou ver como a série acabaria para dar sequência à história da sua maneira. “Os livros estarão prontos quando estiverem prontos.” Se um dia veremos a história terminar como está sendo concebida pelo seu autor, somente o tempo dirá.

D&D cumpriram o que se prometeram em fazer: maior série de TV de todos os tempos. Em retrospecto, Game of Thrones, pode ter inovado em efeitos especiais, elenco e quantidade de figurantes, filmagens em locações ao redor do mundo e outros números fabulosos que serão revelados no documentário Game of Thrones: “The Last Watch”.

Trailer do documentário Game of Thrones: The Last Watch

Realmente o ficará na memória dos que viveram este momento, é o fato de milhões de pessoas ao redor do mundo terem a sensação pertencerem a uma comunidade: ter o aumento do número de ‘likes’ ao marcar #gameofthrones nas redes sociais, tendo argumentos para iniciar um papo com desconhecidos, repetir frases dos seus personagens favoritos e receberem feedbacks emocionais, e quem sabe, sentirem-se validados por outras pessoas naquilo que com o que se identificam. Talvez seja esta a maior parte da frustação, o fato é que a realidade bate a porta, depois de nove anos a série chegou ao fim.

O fim da série não é o fim da comunidade, o comportamento verbal precisa se manter acesso. Está aberta a temporada de ‘fanfics’, versões alternativas escritas pelos fãs para editarem o final que satisfaçam as expectativas frustradas. Enquanto isto, HBO pode se gabar da série ser a primeira vez que veremos esta história, mas certamente não será a última.

Masilvia Diniz, primeira de seu nome e Psicóloga

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A SONG OF ICE AND FIRE. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=A_Song_of_Ice_and_Fire&oldid=55076890>. Acesso em: 8 mai. 2019.

EMBLEMA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Emblema&oldid=52569191>. Acesso em: 5 jul. 2018.

GAME OF THRONES – Seasson Finaly. Criação David Benioff e D. B. Weiss: 2019. TV Series. HBO.

GEORGE R. R. MARTIN. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=George_R._R._Martin&oldid=54941523>. Acesso em: 25 abr. 2019.

GEORGE R. R. MARTIN. (2010) As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro 1 a Livro 5. São Paulo. Editora Leya.

J. R. R. TOLKIEN. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=J._R._R._Tolkien&oldid=54930581>. Acesso em: 24 abr. 2019.

MAQUIAVEL. (1999). O Príncipe. Maquiavel – Vida e Obra. São Paulo. Editora Nova Cultural.

PASSOS, L. R. F, Maria. A análise funcional do comportamento verbal em Verbal Behavior (1957) de B. F. Skinner. (2003). Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Rio de Janeiro. Vol. V, nº 2, 195-213. Disponível: https://scholar.google.com.br/scholar?hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5&q=A+an%C3%A1lise+funcional+do+comportamento+verbal+em+Verbal+Behavior+%281957%29+de+B.+F.+Skinner&btnG=

SKINNER, B. F. (1957) O Comportamento Verbal. Cambridge, MA: B. F. Skinner Foundation.

60 MINUTES OVERTIME. How will George R.R. Martin’s final “Game of Thrones” books end? 2019. (3m3s). Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=SjDentEr9c4&t=11s

VARGAS, A. Ernst.  O Comportamento Verbal de B. F. Skinner: uma introdução. (2007). Belo Horizonte. Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Belo Horizonte-MG, 2007, Vol. IX, nº 2, 153-174172. Disponível: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452007000200002

Por que todos desejam ser como Spock?

“O espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de cinco anos para a exploração de novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve!”.

Esta é abertura padrão de todos os episódios da consagrada série Star Trek, que no Brasil nas décadas de 80/90 passava na TV aberta com o nome de Jornada nas Estrelas. A série originalmente produzida para TV americana com 3º temporadas e 79 episódios procedimentais,

estruturados para serem histórias fechadas, tinha como elenco principal o comandante da tripulação o Capitão James T. Kirk e seus homens de confiança o oficial chefe médico Leonard McCoy e o primeiro oficial, segundo em comando e oficial de ciências Sr. Spock.

Algo particular sobre Sr. Spock era pontuado pelos demais personagens, além de ser um alienígena originário do planeta Vulcano, possuía a habilidade de resolver problemas de forma lógica desprezando emoções, é isto causava desconforto com os outros personagens do seriado. Em diversos momentos, o estranhamento era percebido quando uma resposta lógica desconsiderava valores morais e/ou questões éticas. Porque ainda hoje pessoas desejam resolver questões vitais de forma pragmática? É se isto fosse possível, o Homo sapiens evoluiria neste contexto?

Antes de seguirmos em frente, ressalto que existem várias analises psicológicas sobre a representação simbólica da tríade Kirk, McCoy e Spock, portanto nossa missão não irá por este sistema solar. Neste texto, o que irei assumir de forma isolada a dimensão que o personagem Spock ganhou em nossa cultura. Como ponto de partida, uma abordagem que é também contemporânea da série, a Teoria Comportamental Cognitiva, nos acompanhará na aventura.

Neste diário de bordo data estelar 282.17, o fenômeno eletromagnético conhecido como Efeito Murasaki 312 (citação do Episódio 17º “O primeiro em comando” da 1º Temporada) se espalha como uma tormenta no fantástico mundo da internet: o embate entre razão versus emoção.

Na ponte de comando, o Capitão Kirk ordenaria a velocidade para o início da aventura ‘Sr. Sulu, mantenha em velocidade de dobra 7’.

“É curioso como vocês humanos conseguem tantas vezes obter aquilo que não querem.”

Spock, Star Trek T03E01

Spock povoa a cultura pop mais de 50 anos. Mascote informal da Agência Espacial NASA, o ator Leonard Nimoy que imortalizou o personagem, fora recepcionado Cabo Canaveral em 1967 pelo astronauta John Glenn após o termino da primeira temporada.

Quando fora ameaçada de ser cancelada por baixa audiência no final da segunda temporada, a emissora teve a informação de quem era seu público cativo: assistido por cientistas, curadores de museus, psiquiatras, doutores e professores de universidade, a grande maioria de pessoas letradas. Se não fosse uma mobilização em massa, a série não chegaria a terceira temporada. Começou com uma enxurrada de cartas (tecnologia da época) que se igualava a série mais famosa da emissora, o The Moonkes (um grupo de rock que tinha um apelo semelhante aos The Beatles), chegando a uma manifestação de estudante do centro de Instituto de Tecnologia da Califórnia marchou para frente dos estúdios da NBC carregando cartazes dizendo “Escolham Spock” e “Poder Vulcano”. Apesar de ser efetivo, não foi eficiente, com orçamento muito menor do que as temporadas anteriores, não agradou o público e não foi renovada. Em suas reprises, ganhou público cativo e passou a fazer parte do imaginário da cultura pop.

Nas décadas seguintes, o Sr. Spock, foi reverenciado em musicas, filmes, seriados, desenhos (inclusive o aclamado The Simpson), videoclipes e até no WhatsApp tem um emoji com sua saudação típica. Inúmeras vezes o personagem Sheldon desejou ser Spock na série The Big Bang Theory ( Warner Bros. Television  em sua ultima temporada). No lançamento do terceiro filme da recente leva Star Trek: Beyond (2016), nos despedíamos de Nimoy (falecido em fevereiro/2015) e ao mesmo tempo seu filho lançava o documentário contando a vida do ator intitulado “For the Love of Spock” disponível na Netflix.

“Como eu posso ter sido tão tolo? Ao ponto de seguir uma raça alienígena inventada pela televisão? Sheldon, The Big Bang Theory. T9EP07

Se esta pergunta titulo deste texto fosse feita ao personagem da série clássica exibida de setembro entre 1966 a 1969,originalmente produzida o canal de televisão americano NBC e disponível na plataforma Netflix, provavelmente a resposta seria:

“Após algum tempo, você vai perceber que ter não é tão agradável como querer. Não é lógico, mas é normalmente verdade.” (citação do 1º episódio da segunda temporada Amok Time).

“A mudança é um processo essencial a toda a existência.”

Spock, Star Trek – T03E15

No começo anos 1960 também nos Estados Unidos, Aaron Beck com formação psicanalista (especialista na teoria desenvolvida pelo Dr. Sigmund Freud) e seus colaboradores, começaram a trabalhar em pesquisas de dados dos sonhos dos seus pacientes e encontrará um padrão de sonhos masoquistas em pacientes deprimidos. Após inúmeros estudos fizeram com que a equipe abandonasse a hipótese inicial, concluiu que “certos padrões cognitivos poderiam ser responsáveis pela tendência de o paciente fazer julgamento de si mesmo, de seu ambiente e do futuro que, embora menos proeminentes no período fora o episodio depressivo, se ativariam facilmente durante os períodos de depressão. (Beck,1967)”

Descartes cunhou a frase iluminista “Penso, logo existo”, certo? Bem, até Antônio Damásio, neurocientista em seu livro o “O Erro de Descartes” descrevendo o caso Phineas Gage, colocou em xeque está máxima, dado que a perda de massa cerebral do lobo frontal ocasiona drástica mudança de comportamento. Considerando que isto ocorre com uma porção mínima da população mundial, os que possuem o frontal intacto em teoria, possuem a capacidade de pensar. Portanto é seguro fazer a seguinte pergunta: é se o que você pensa te faz você existir em sofrimento?

Digamos que ocorreu uma situação, imagine um fato qualquer, enquanto você lê este texto ouve, por exemplo, uma freada de carro. Primeiro o barulho, instantaneamente isto pode ter mobilizado uma mudança de humor e/ou sensação física, que de acordo com a sua história de vida, gera um (ou uma cadeia de) pensamento(s), estes sendo desagradáveis podem retroalimentar as mesmas sensações físicas e/ou alterações do estado de humor. Esta mesma situação pode gerar reações distintas em pessoas diferente, ou até a mesma pessoa pode interpretar a mesma situação de formas diferentes em diferentes fases da sua própria vida. Uma mente em constante atividade, cuja as emoções tem como base o pensamento, gerando raciocínio, afetos e condutas que permitem o indivíduo ter maior ou menor percepção da realidade.

Ambiente, pensamentos, reações físicas, estados de humor e comportamento, atuam interligados, ora um protagonista e ora os demais como coadjuvantes, “os cinco mobilizam os aspectos das experiencias de vida do indivíduo.” (Padesck, 1995).

Perceba na imagem a importância do fator ambiente. Na Terapia Cognitiva Comportamental a individuo é “biopsicossocial”, gerado através da carga genética, fruto do meio o ambiente sócio-econômico-cultural e sua constituição psíquica, e a partir do seu desenvolvimento cognitivo ser capaz de se relacionar com o mundo.

“Se nosso pensamento fica atolado de significados simbólicos distorcidos, pensamentos ilógicos e interpretações erradas, nos tornamos, de verdade, cegos e surdos.” Aaron Beck

Anamnese Procedimental

Antes de iniciar esta parte do texto, peço desculpas aos fãs da série caso alguma informação esta errada e/ou suprimida. Meu conhecimento aqui apresentado é baseado na série original que ainda permanece disponível em streaming e em textos retirados da internet. Em nenhum momento tive a intenção de desrespeitar, mas apenas homenagear este personagem. Caso desejar, fique a vontade para corrigir o fato/dados encaminhando mensagem no box no final do texto.

Spock nasceu em Vulcano (planeta fictício) e foi submetido ao processo de condicionamento para hipervalorizarão do raciocínio lógico e total repressão das emoções, baseado nos ensinamentos do filósofo (também fictício) Surak que prega a lógica para guiar a vida. Através de um ritual de meditação diário, os vulcanos mantém-se em controle, sem isto, perdem de sí mesmos e se transformam em bárbaros novamente. Outro fator constitui a persona Spock, fruto da união entre a terráquea Amanda Grayson e embaixador Vulcano Sarek (ser extraterreste humanoide desse planeta fictício) por ser um hibrido, ele é não é bem aceito em sua comunidade. Sempre que possível seja por vulcanos e mais comumente por humanos, é colocado em xeque capacidade de se comportar como a cultura Vulcana demanda.

No auge da série, o ator Leonard Nimoy observava Spock como alguém que vive “lutando para manter uma atitude vulcana, uma postura filosófica vulcana e uma lógica vulcana, se opondo a aquilo que está lutando em seu interior, que era a emoção humana”.

“Fatos insuficientes convidam sempre ao perigo.”

Spock, Star Trek T01E24

O cenário está montado, já temos um personagem, uma abordagem teórica, o contexto biopsicossocial.

A ideia é sedutora, resolver questões apenas com raciocínio logico, menosprezando a existência das emoções, sendo capaz de calcular com precisão quais sãos os riscos e fazer a escolha com menor prejuízo. Ressalto aqui, se o computador de bordo forneceu corretamente os dados, o que mantem a capacidade de racionalizar dos Vulcanos não é uma característica genética, em vez disso um processo de condicionamento e autocontrole.

Ressalto que a abordagem da Teoria Cognitivo Comportamental tem como objetivo utilizar técnicas que viabilizam o minimizar o sofrimento do individuo e melhora de sua qualidade de vida. A ideia do texto e apresentar conceitos básicos que façam com o leitor perceba o cerne da questão: a maneira que o individuo conduz sua vida é baseada em capacidade cognitiva e seu constructo . Algo como: ‘somos como nos percebemos e aquilo que aprendemos ser’. Spock, por questões filosóficas e culturais, realmente acredita que suas decisões são baseadas tão somente em lógica. Fascinante!

No episódio “O primeiro comando”, uma equipe vai fazer uma exploração num planeta, dado que parte da missão espacial é informações e amostras para compor base de dados para pesquisas. Devido a um efeito eletromagnético a nave exploradora perde contato e não tem combustível suficiente para retornar a Enterprise. Após inúmeras tentativas propondo inclusive deixar tripulantes para trás, a solução foi propor uma manobra arriscada, com baixa possibilidade de sucesso e que no máximo possibilitaria ter contato visual pela Enterprise que acionaria o teletransporte.

Ao retornar a nave, Spock fora questionado pelo Capitão Kirk: “não vai admitir que a solução encontrada para salvar os tripulantes fora um ato de desespero.” A reposta de Spock não poderia ser outra: “não, foi uma solução lógica”. Kirk discorda: “mas foi um descontrole emocional” e Spock permanece em sua posição: “Não concordo.”  Kirk finaliza: “Sr. Spock o senhor é teimoso.” Spock diz: “sim, eu sou.”

No episodio ‘Amok Time‘, o Sr. Spock tem reações e falas agressivas que são reparadas por diversos tripulantes. Ao ser interpelado pelo Capitão Kirk, Spock explica que devido a uma questão biológica vulcana, os exames médicos constataram altos níveis de adrenalina e poderá morrer se não retornar ao seu planeta natal para o ritual de acasalamento. Devido a urgência, a Enterprise e desviada de sua missão e mantem-se em orbita de Vulcano. No cerimonial, a noiva prometida não aceita a união e propõem um luta entre Spock versus Kirk, que perde o embate e cai morto.

Ao ver Kirk morto, a Spock sai do estado febril e descrito pelo mesmo como “estado de loucura” que se encontrava e liberta sua noiva para que o seguir com outro vulcano. Ao subir na Nave, Spock é surpreendido ao ver o Capitão Kirk vivo (que havia recebido uma injeção do Dr. McCoy que paralisa o corpo) e demonstra com através de expressões faciais emoções de surpresa e alegria e ao alterar o tom de voz ao dizer: “Jim”.

Ao ser questionado sobre sua reação, Spock apenas diz: “foi apenas uma reação muito lógica, por não ver a frota perder um excelente capitão”. McCoy apenas diz: “que não está plenamente convencido”. É você leitor, está convencido?

“Quando você elimina o impossível, o que restar, embora improvável, deve ser a verdade.”

Spock, Star Trek VI

O embate emoção versus razão. Diversas abordagens psicológicas e os recentes conhecimentos da neurociência concordam sobre o fato é que se não fossem as emoções humanas jamais teríamos chegado tão longe como espécie.

Em sua publicação Razão, Emoção e Ação em Cena: A Mente Humana sob um Olhar Evolucionista, a pesquisadora Angela D. Oliveira, apresentou como considerações finais é “que se procurou demonstrar é que tomar decisões, comportar-se de uma determinada maneira, fazer escolhas, agir como free-rider (tradução livre: impulsivamente) ou seguir padrões morais do grupo dependem tanto de mecanismos racionais quanto emocionais. Ingênuo pensar os indivíduos da espécie humana pautando-se em avaliações de custo-benefício de suas condutas, prescindindo das emoções.”

Ressalto que Spock é, por assim dizer, meio humano e você (assim espero) é um humano inteiro.

Como complemento deste texto, recomendo o vídeo ‘Como seria viver sem emoções’ do Canal Nerdologia. O vídeo também analisa o primeiro oficial da Enterprise, além de embasar de forma cientifica a importância das emoções em humanos.  Além de simular como seria a personalidade do Sr. Spock se fosse bem-sucedida a exclusão de suas emoções, certamente, os espectadores jamais conseguiríamos nos identificar com o personagem.

Isto acontece por causa de outro conceito que valeria outro texto, a Teoria da Mente. Por enquanto, podemos dizer que além de outros atributos, é a capacidade de reconhecer nas pessoas emoções semelhantes a que individuo possui em seu repertório. É isto só é possível porque o Homo sapiens expressa emoções de forma patronizada não importando a região do globo (ou platô, como dizem por ai), língua, cor de pele como revela os estudos do Dr. Paul Ekman (mas isto é assunto para outro colega, não é Caio Ferreira).

Me despeço como Spock faria: Vida Longa e Próspera.

Contribua conosco, concordou, discordou ou deseja outras análises neste formato deixem seu comentário na caixa de descrição.

Masilvia Diniz

Bahls, S. Clair e Navolar, Ariana B. Borba. Razão, Emoção e Ação em Cena: A Mente Humana sob um Olhar Evolucionista. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Jan-Abr Vol. 22 n. 1, pp. 053-062 (2006). Brasília
Disponível: http://www.scielo.br/pdf/%0D/ptp/v22n1/29844.pdf

DAMÁSIO, Antonio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. (1998) São Paulo: Schwarcz.

Greenberger D. e Padesky C. A. Vencendo a Mente com Humor: Mude como você se sente, mudando o modo com você pensa. (1999) Tradução: Andrea Caleffi. Porto Alegre: Artmed.

LISTA DE EPISÓDIOS DE STAR TREK: THE ORIGINAL SERIES. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Lista_de_epis%C3%B3dios_de_Star_Trek:_The_Original_Series&oldid=53583005>. Acesso em: 17 mar. 2018.

Nerdologia. Como seria viver sem emoções. 2015 (5m47). Disponível:
https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=PO7GZ1DsPpo Acesso: 20 mar. 2019

Oliva, Angela D. Terapia Cognitivo-Comportamentais: Conceitos e Pressupostos Teóricos. (2004). Curitiba. Disponível: http://files.personapsicologia.webnode.com/200000093-024d10346f/Terapias%20Cognitivo-comportamentais.pdf

Star Trek – A caminho de Babel (Jorney to Babel) T2:E10. Criação: Gene Roddenberry: NBC, 1968. Streaming Netflix. (50 minutos).

Star Trek – Tempo de Loucura (Amok Time) T2:E1. Criação: Gene Roddenberry: NBC, 1968. Streaming Netflix. (47 minutos e 50 segundos).

STAR TREK. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Star_Trek&oldid=54072910>. Acesso em: 15 mar. 2019.

Range B. e Colaboradores. Psicoterapias cognitivo-comportamentais : um diálogo com a psiquiatria (2011). 2. ed. Porto Alegre: Artmed.

Vários Colaboradores. Livro da Psicologia (2012). Tradução: Hermeto Clara M. e Martins A. L. São Paulo: Globo

Como a Psicologia vê o Golden Shower?

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Sexualidade – Fronteira da Normalidade

“A sexualidade humana é um obscuro dispositivo encarnado que aproveita o livre curso das funções fisiológicas para, mediante um desvio perverso da função, gerar e extrair prazer” (Baggio, 1992, apud, Carvalho Neto, 2010, p. 9).

Se a literatura nos permitir recordar, saberemos que a sexualidade humana navegou em círculos no que diz respeito aos seus limites em cada época. O banho que recebe cada um da linguagem e, portanto, das regras sociais vigentes numa sociedade dum determinado período, consequentemente delimitou o quanto cada prática sexual seria mais ou menos aceita à época. Mais ainda: quais práticas consideradas “proibidas” seriam mais ou menos interessantes à satisfação de desejos vigentes.
Talvez algumas pessoas relacionem normas celibatárias e heteronormativas de algumas religiões às notícias de seus líderes envolvidos em crimes sexuais; talvez algumas entidades considerem em lares familiares mais extremamente rígidos e rigorosos com a sexualidade de seus filhos, lugares mais propícios à gravidez na adolescência. Talvez.

[…] preferências, predisposições ou experiências sexuais, na experimentação e descoberta da sua identidade e atividade sexual, ao longo da sua existência [..] afasta[m]-se da noção simplista de mera reprodução animal associada ao coito, se prendendo apenas ao nível físico do homem, para se apresentar no plano
psicológico do indivíduo. Por isso, além dos fatores biológicos, a sexualidade é fortemente construída pelo ambiente sociocultural e religioso em que este se insere. (Carvalho Neto, 2010, p.8).

Explicando melhor: dependendo do que for proibido e de qual sujeito estiver em ação, a satisfação de realizar aquela prática que virou tabu poderá ser equivalente à intensidade de sua proibição. A famosa frase “aquilo que é proibido é mais gostoso” tem seu lugar aqui. De alguma forma, a história nos mostra o seguinte: quanto mais atenção é dada para a proibição de algumas práticas sexuais, mais estas mesmas práticas serão presentes numa determinada época. O discurso presente em um meio sociocultural se relacionará (positiva ou negativamente) à sexualidade de um período histórico específico. Os perversos que o digam!

As Parafilias

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Em seu Seminário 9 – A Identificação (1961) – Jacques Lacan, ao falar da noção de Traço Unário, conta-nos algo sobre alguém muito famoso por realizar práticas sexuais que fugiam à norma da França de Napoleão Bonaparte.

O famoso e controverso Marquês de Sade tinha o hábito de realizar um traço, uma marca, à cabeceira de sua cama. O diferencial de tal risco era que este jamais poderia ser igual ao anterior, pois cada um era feito sob os efeitos imediatos de um orgasmo que o Marquês acabara de ter. E o que isso nos poderia significar? Será possível que Sade poderia, após algum tempo, obter um prazer tão ou mais importante no registro do traço do que no ato em si? Não saberemos. Mas se a resposta foi positiva e tal ato se tornar a única forma de obtenção de prazer – mesmo que traga sofrimento ao agente, teríamos aí uma prática que poderia ser chamada de parafilia que, por etimologia, podemos entender como um “Amor/Desejo Paralelo“.

As parafilias, então, seriam uma forma de desejo que fugiria daquilo que é considerado normal dentro das práticas sexuais de uma sociedade de uma época. Mas jamais só isso. Não raro, muitas pessoas – inclusive figuras importantes – podem demonstrar certo desconhecimento e/ou curiosidade sobre estas práticas. Bem como não poderíamos esperar que deixasse de haver grande estigma e julgamento aos adeptos de alguma (s) delas. Há sim, um grande Tabu ao que foge da norma. Há mais ainda, como nos contou Freud, um grande interesse por tudo aquilo que é Tabu. Do contrário, tais práticas sequer teriam a atenção necessária para se tornarem um.

Em suma: o comportamento sexual gerador de forte excitação a partir de lugares, objetos, situações e particularidades que excedam a cópula em si, poderá ser parte de uma parafilia em determinadas situações que explicitaremos a seguir. Se pegarmos a urofilia – o famoso Golden Shower e/ou chuva dourada/amarela – como exemplo, ela também poderá adentrar nesta classificação.

DSM – V

Para o Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Norte-Americana de Psiquiatria):

“O termo parafilia representa qualquer interesse sexual intenso e persistente que não aquele voltado para a estimulação genital ou para carícias preliminares com parceiros humanos que consentem e apresentam fenótipo normal e maturidade física” (p.685).

Mas, adiante, o próprio manual vai nos informar que em sua forma patológica: uma parafilia é também um comportamento sexual atípico que cause intenso sofrimento, ameaça física e/ou psicológica para si ou para o bem-estar de outros indivíduos, presentes durante pelo menos seis meses e cause intenso prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. (2013).

O que isso quer dizer? Quer dizer que não basta que alguém tenha interesse por práticas sexuais atípicas para que esta pessoa sofra de um Transtorno Parafílico. Desde que esteja dentro da Lei, não há nada de errado em prática sexuais que fujam à norma. Entretanto, devemos abrir os olhos se:

  • A pessoa sentir uma angústia pessoal sobre seu interesse sexual que exceda o sofrimento resultante do julgamento negativo àquela prática na sociedade vigente;

  • Tenha desejo ou comportamento sexual que envolva sofrimento psicológico, lesões ou morte de outra(s)pessoa(s);

  • Tenha interesse por prática sexual que envolva pessoas que não querem ou que sejam incapazes de dar o seu consentimento legal;

  • Não consiga obter excitação ou prazer de forma alguma senão com esta prática.

Entre alguns exemplos mais conhecidos de Parafilias estão:

  • Podofilia: Marcada por uma excitação e prazer sexuais atrelados aos pés do (a) parceiro (a);
  • Odaxelagnia: Excitação e/ou prazer sexual por mordidas, mesmo que estas causem sérias lesões à pele do (s) praticante (s);
  • Cropofilia: Excitação e/ou prazer sexual em manipular, cheirar, observar ou ingerir fezes (Cropofagia);
  • Necrofilia: Excitação e/ou obtenção de prazer na prática sexual com cadáveres;
  • Zoofilia: Excitação e/ou obtenção de prazer na prática sexual com animais (no Brasil, considerada crime de maus tratos, apesar de não serem raras as menções a esta no âmbito rural).

A Urofilia – O Golden Shower

(O empresário Omar Monteiro com a fantasia de Golden Shower para o carnaval Foto: Omar Monteiro/ Divulgação)
Recentemente, dois tweets do Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro causaram certa polêmica no mundo inteiro. Além de uma crescente procura pelo termo “Golden Shower” no google, opiniões favoráveis e desfavoráveis circularam pelas redes sociais.
Mantendo seu foco na difusão da psicologia no Brasil, a Sociedade dos Psicólogos trouxe este texto informativo para quem tiver curiosidade sobre o assunto.

Entendida como o comportamento sexual caracterizado pela excitação e/ou obtenção de prazer a partir da urina de um (a) parceiro (a), a urofilia já foi presente em boa parte da cultura pop, aparecendo até em seriados como Sex and the City.
Está comumente relacionada às relações de poder, como se quem recebesse o “banho” se colocasse em uma situação de submissão àquele que o provê.

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), a protagonista da série Sex and The City (1998-2004), recebe a proposta do político Bill Kelley (John Slattery) do famoso “Golden Shower” (imagem da internet)

Em portais pornográficos caracterizados por práticas consideradas mais violentas do que o habitual, a esta mesma prática, popularmente conhecida como Golden Shower, tende a aparecer como se fosse o clímax da dominância de um sujeito perante outro. Num contexto onde o poder, teoricamente, emanaria de quem provê a urina, aquele que a recebe é colocado numa posição de extrema submissão, lembrando relações de sádicos e masoquistas.
A psicologia, a psiquiatria e a psicanálise não entram e nem devem entrar no mérito de julgar a correção ou não de uma prática sexual considerada atípica. Entretanto, seu olhar estará sim, atento ao que se configurar como um Transtorno Parafílico e/ou àquilo que trouxer prejuízos graves a quem participa, voluntaria ou involuntariamente de práticas sexuais consideradas atípicas.

Quando realizada de maneira patológica, a Urofilia é caracterizada no DSM-V dentro da sessão de Transtornos Parafílicos. Entretanto, a parafilia popularmente conhecida como Golden Shower, juntamente com a escatologia telefônica (telefonemas obscenos), a necrofilia (cadáveres), a zoofilia (animais), a coprofilia (fezes), clismafilia (enemas), entre outras, não estão exclusivamente descritas no Manual como transtornos parafílicos especifícos. Coube a estas serem, junto a outras não mencionadas aqui, incluídas dentro do que é chamado pelo DSM-V como Outro Transtorno Parafílico Especificado (F65.89).

Exemplo de alguns Transtornos Parafílicos Específicos :

  • Transtorno Voyeurista – excitação sexual recorrente e intensa ao observar
    uma pessoa que ignora estar sendo observada e que está nua (F65.3);
  • Transtorno Exibicionista – excitação sexual recorrente e intensa decorrente da
    exposição dos próprios genitais a uma pessoa que não espera o fato (F65.2);
  • Transtorno do Masoquismo Sexual – excitação sexual recorrente e intensa resultante do ato de ser humilhado, espancado, amarrado ou vítima de qualquer outro tipo de sofrimento (F65.51);
  • Transtorno do Sadismo Sexual – excitação sexual recorrente e intensa resultante de sofrimento físico ou psicológico de outra pessoa (F65.52);
  • Transtorno Pedofílico – fantasias sexualmente excitantes, impulsos sexuais
    ou comportamentos intensos e recorrentes envolvendo atividade sexual com criança ou crianças pré-púberes (em geral, 13 anos ou menos), etc.

Sabendo o que é necessário para que alguém seja diagnosticado, é preciso saber do que dependerá a noção de uma melhora no quadro. Para tal, falamos principalmente da:

  • não realização de práticas que caracterizam o Transtorno Parafílico por pelo menos cinco anos fora de Ambiente Protegido.

É considerado Ambiente Protegido todo lugar que impossibilite e/ou dificulte o acesso e/ou a prática de comportamento sexual e/ou parafílico por questões externas, ou seja, alheias à vontade do indivíduo. Exemplo: instituições penitenciárias e clínicas de reabilitação.

A partir deste ponto o Transtorno Parafílico será considerado “Em remissão”.

O que Dizem os Especialistas?

De acordo com o Psicólogo e Psicoterapeuta Caio Ferreira, em práticas sexuais atípicas como a urofilia, que envolvem mais de um indivíduo, deve-se averiguar, antes de mais nada: se há claro consentimento (e obviamente idade para tal) entre as partes. Caio, que também é Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos, diz que pessoalmente, não sente despertar algum pela prática, mas que como psicólogo entende que “havendo comum acordo entre os praticantes, é um exercício de libertação, vinculação e prazer como qualquer outro”.

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Caio Ferreira (CRP 06/147859) também é Diretor do Centro de Investigação do Comportamento Emocional (CICEM).

Quando questionado, o psicoterapeuta afirmou ter se deparado com o vídeo publicado pelo Presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais. Ao dar sua opinião sobre o ocorrido, Ferreira levantou questões a respeito da presença de outras práticas no video, como o exibicionismo, por exemplo. Mas o psicólogo também levantou questões éticas e legais a respeito da prática. Caio, porém não deixou de advertir os riscos da divulgação deste tipo de conteúdo sem consentimento e em redes abertas:

“Devo dizer que lamento o fato desta atividade ter sido realizada em vias públicas. Além de configurar um crime, podemos pensar em componentes exibicionistas a par das contingências do carnaval. E lamento mais ainda a exposição da filmagem em questão – desnecessária e estigmatizante a todos os envolvidos”.

O próprio Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5 –, conforme já dito, só considera em suas sessões de Transtornos Parafílicos as práticas que, recorrentes por pelo menos seis meses, causem sofrimento clinicamente significativo e/ou prejuízo no funcionamento social, profissional e/ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo, ainda mais aquelas que são realizadas com terceiros que não deram ou não poderiam, legal ou cognitivamente, dar consentimento à prática.

Junto com o DSM-V, o Psicólogo e Psicanalista Igor Banin se atém a ética necessária em sua profissão em sua colocação: “Deixo o julgamento moral a quem lhe cabe”. Quando entrevistado, o também Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos postulou que “o desejo do sujeito passa por caminhos que não conhecemos. O prazer sexual pode vir de diversas maneiras”.

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Igor Banin (CRP 06/135177) é Psicólogo, Psicanalista e Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos.

Em termos mais simples: se uma prática sexual é feita sob pleno consentimento e não causa sofrimento e/ou prejuízo a quem participa dela, ela não causa preocupação à comunidade psi. Contudo, caso alguém seja de fato diagnosticado nas condições de um Transtorno Parafílico, deverá procurar tratamento médico e psicológico – que poderá envolver medicamentos e psicoterapia.

Vale ressaltar que o tratamento não terá a função de definir se a prática é certa ou errada, mas de diminuir e/ou erradicar a quantidade de sofrimento que ela possa trazer para o indivíduo ou para um outro.

De Onde vem o Interesse?

E entrevista, a Psicóloga e psicoterapeuta cognitivo-comportamental Masilvia Diniz, ao ser questionada sobre possíveis explicações sobre a preferência de alguns indivíduos à prática das parafilias (já considerando que estas deixaram de ser meras atividades sexuais atípicas devido seus prejuízos), a Sócia-Colunista da Sociedade dos Psicólogos disse que:

“Do ponto de vista cognitivo-comportamental, quando se trata de algo que se repete e traz grandes prejuízos ao indivíduo, são investigados os pensamentos, os chamados erros cognitivos (sistemas de crenças que foram condicionados e reforçados ao longo do tempo na vida de alguém – que passa a acreditar nestes como parte de sua personalidade), a maneira como estes alteram suas emoções e, consequentemente, desencadeiam seus comportamentos”.

Psicóloga Masilvia Diniz
Masilvia Diniz (CRP 06/89266) é Psicóloga e Psicoterapeuta Cognitivo-comportamental, além de Sócia-Colunista da Sociedade dos Psicólogos.

Mesmo com o olhar de linhas teóricas divergentes, Igor e Masilvia pareceram concordar a respeito da individualidade de cada caso, entendendo que cada sujeito terá sua história individual que explique seu interesse sexual além da norma de forma particular.

Longe de condenar quaisquer práticas que não estejam infringindo a Lei ou a integridade de outrem, o psicanalista Igor Banin afirma ser difícil apontar que lugar esta ou aquela prática sexual representariam no discurso de um sujeito. Para ele, deve-se evitar a generalização, pois “a Psicanálise se constitui no caso a caso”.

“Todavia, pensando na teoria da sexualidade infantil de Freud, podemos pensar na excreção como a primeira forma de produção de um objeto do bebê para o outro” disse o psicanalista.

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Sigmund Freud (1856-1939)

A corroborar com ambos, está o neurologista Sigmund Freud (1856-1939). O pai da psicanálise já dizia que “Cada um de nós, em sua própria vida sexual, ora nisto, ora naquilo, transgride um pouco os estreitos limites do que se julga normal” (Freud, 1905[1901], p. 45). Possivelmente o psiquiatra e psicanalista Jacques Lacan (1901-1981) também estivera de acordo ao dizer que “Em relação à instância da sexualidade, todos os sujeitos estão em igualdade […]” (Lacan, 1964b, p. 167).

Parece ser consenso entre os especialistas: se deve dar mais importância ao dano, à angústia e/ou sofrimento que uma prática sexual poderá desencadear aos envolvidos do que à estranheza que esta causaria aos padrões de alguém alheio. Talvez lhes seja mais útil compreender a função daquela prática às pessoas que participam dela do que às que a julgam. Em suma, espero que o Golden Shower esteja explicado e caberá a cada um (a) decidir se este estará liberado, desde que faça bem a todos (as) os (as) envolvidos (as).

E a opinião do autor deste texto?

“Se não há crime e há consentimento
Se em todos há prazer e em nenhum se vê sofrimento
Se cada um tem a sua liberdade na ausência da censura
Por que então chamas, de doença?

Tu que reclamas, sem presença
Em sua dita dura cama, sem prazer
Da cura e do conforto trocados entre
quem ama?

Caio Cesar Psicólogo
Psicólogo (CRP 06/139621), psicoterapeuta e Sócio-Colunista da Sociedade dos Psicologos. Ator, em busca do que Plínio Marcos atribui aos atores: a esperança de rir todos os risos e chorar todos os prantos

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

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REFERÊNCIAS:

Associação Psiquiátrica Americana – APA. (2014). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed.

CARVALHO NETO, J.S. (2010). A Relação Edipiana na Contemporaneidade: Novos formatos para a constituição das neuroses. Saquarema. Setembro

FREUD, S. (1905). Um Caso de Histeria. Três Ensaios Sobre Sexualidade e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro. Imago, 1996.

LACAN, J. A Identificação: Seminário (1961 – 1962) Tradução de Ivan Corrêa e Marcos Bagno. Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.

LACAN, J. (1990). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar (Trabalho original publicado em 1964).

***Todas as imagens utilizadas no texto foram obtidas de maneira gratuita através da internet. Caso você detenha os direitos autorais de alguma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

O que é a Resistência em Psicanálise? Como vencê-la?

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Der WiderstandA Resistência

O Conceito

Na Arte da Guerra, falaríamos do ato de ocupar e contra-ocupar determinadas posições estratégicas para vencer um inimigo; na Física, o campo da eletricidade – mais especificamente o da eletrostática – fará menção à capacidade de um corpo se opor à passagem de uma corrente elétrica, ou ainda como: uma dificuldade para que haja passagem de corrente elétrica por um condutor submetido a uma determinada tensão. Já no Direito, falaremos de uma certa oposição a cumprir um ato legal, enquanto na Ecologia, da capacidade de um ecossistema manter sua estrutura e funcionamento diante de um distúrbio.

Até na Política encontraremos este termo. Nela, falamos do movimento de um povo contra um poder ilegítimo, ou seja: num conjunto de iniciativas postas em prática por pessoas que, unidas por uma causa comum (libertar seu território de alguém considerado um invasor), irão lutar contra uma imposta dominação e, consequentemente, pelo restabelecimento da ordem anterior das coisas. Charles de Gaulle e Jean-Paul Sartre são exemplos de pessoas que, de maneira diferente, exerceram um papel de resistência política na França da Segunda Guerra Mundial.

O Dicionário Aurelio, muito popular no Brasil, nos complementará:

1 – Força por meio da qual um corpo reage contra a ação de outro corpo.
2 – Defesa contra o ataque.
3 – Oposição.
4 – Delito que comete aquele que não obedece à intimação da autoridade.

Até às mentes menos focadas na física, na guerra de infantarias, na política, no direito, na medicina, etc. a palavra resistência tem seu significado bem compreendido. E digo isso pois, de alguma forma, até sua definição acordada num senso (em) comum poderá obter proximidade à representação deste conceito noutras áreas. Mesmo o mais leigo saberá que se trata de algum tipo de imposição à mudanças e influências externas, de um certo impedimento ou tentativa deste perante algum fenômeno. Seja na prevenção de danos ao chuveiro elétrico, no tratamento de infecções bacterianas com antibióticos ou em grandes revoluções, o conceito de resistência traz nestas e noutras áreas do conhecimento e até no imaginário popular palavras que, em uma cadeia sinônima, carregam em sua denominação um comum objetivo: barrar/bloquear, se opor e impedir.

Mas e na Psicanálise?

O Início

Vasculhando a obra de Sigmund Freud, podemos entender que seu deparar-se com o fenômeno da resistência de seus pacientes aos tratamentos foi algo que, em certo momento, começou a captar uma maior parte de sua energia e atenção. Mais especificamente quando Freud passou a trabalhar com Breuer seus Estudos sobre a histeria (Breuer, J., & Freud, S. 1895/1987).

Em um dos cinco casos clínicos descritos na obra, foi justamente no caso da Srta. Elizabeth que Freud começa a se interessar pelo mesmo fato que, mesmo mais de um século depois, ainda continua sendo grande responsável por uma elevada taxa de evasão de pacientes em consultórios de psicologia, psiquiatria e psicanálise: a resistência.

O caso que Freud descreve como “a primeira análise integral de uma histeria” teria seu início marcado pela dificuldade que Freud encontrara para conduzir a paciente a um transe hipnótico (método que, à época, era considerada uma forma de acessar conteúdos alheios à consciência). Mesmo com algum sucesso temporário, utilizando a chamada “técnica de pressão“, onde um toque à testa do paciente acompanha a informação de que, a partir daquele momento as lembranças “esquecidas” poderiam ser lembradas, Freud começa a ficar inquieto, já que, segundo o psicanalista: “parecia haver impedimentos de cuja natureza eu não desconfiava na época” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 166).

Segundo o Pai da Psicanálise, a forma encontrada para que sua “técnica de pressão” voltasse a oferecer o resultado desejado, foi informar verbalmente à paciente “saber muito bem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando […], mas que jamais se livraria de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 167).

A partir daí, o neurologista mais famoso do ocidente nos informa que passou “a atribuir maior importância à resistência oferecida pela paciente na reprodução de suas lembranças e a compilar cuidadosamente as ocasiões em que era particularmente acentuada” (ibid., p. 167). Sua subsequente conclusão teve o caminho de entender que: existiria alguma correspondência entre a energia com que uma representação incompatível às suas associações atuais fosse refutada de sua consciência e sua resistência em reproduzir cenas vividas de maneira traumática (ibid. p. 170). Portanto, houve, da parte da paciente, uma “forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência” (ibid. p. 177).

Em seu Vocabulário da psicanálise, Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. (1988), apontam que a resistência à hipnose e à sugestão foi, inclusive, uma razão pela qual Freud desistira destas em seus pacientes, uma vez que “a resistência maciça que lhes apunham certos pacientes lhe parecia ser por um lado legítima, e, por outro, não poder ser superada nem interpretada” (p. 596).

Tipos de Resistência

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Já sendo um termo mais frequente em A interpretação dos sonhos (Freud, 1900/1987), o nosso primeiro psicanalista fala da resistência como algo a impedir lembranças, a chegada de conteúdos à consciência e, mais ainda: a resistência à interpretação.

Para Freud, se havia na irracionalidade dos conteúdos presentes nos sonhos algum propósito, este só poderia ser: “[…]escapar da censura imposta pela resistência” (Freud, 1900/1987, p. 297). A justificativa do psicanalista era que o aparelho psíquico precisaria de algum tipo de descarga de energia que trouxesse satisfação, mesmo que mínima, à mente que estaria privada de realizar seus desejos inconscientes incompatíveis com as normas sociais vigentes. Desta forma, haveria sucesso se aqueles conteúdos viessem, quase que incompreensíveis, à consciência (através do sonho) e carregassem apenas fragmentos daqueles desejos – através de representações feitas pelo similar som das palavras; por sinônimos; por alusões e associações realizadas no que Freud chamara de Trabalho do Sonho, regidas principalmente pelos mecanismos de defesa da Condensação e do Deslocamento.

O psicanalista, segundo Freud, teria a singela missão de ajudar o paciente a realizar as associações necessárias para, de alguma forma, interpretar a mensagem que é transmitida a partir das associações presentes no sonho. Aquela mesma mensagem que seria barrada da própria consciência por conta ser considerada, por algum motivo, ameaçadora a integralidade psíquica daquele sujeito. Naturalmente, as interpretações do analista ofereceriam certo risco às verdades carregadas durante uma vida inteira, uma vez que poderiam revelar desejos jamais antes permitidos à consciência em forma outra senão a de Tabu, como por exemplo, o incesto e o parricídio. Era de se esperar que houvesse, também, uma resistência à interpretação.

Para Freud “Sua opinião de que o sonho é absurdo significa apenas que você tem uma resistência interna contra a interpretação dele” (p. 154).

Talvez a resistência esteja mais centrada no Supereu, quando a análise está prestes a apresentar um forte conflito dos desejos inconscientes do analisando com suas crenças, a moral vigente e seus valores; possivelmente estará mais focada no Eu quando se evita falar para não causar problemas, conflitos e julgamentos a respeito daquela imagem idealizada que se tem de si mesmo, principalmente daquela que se imagina que os outros tenham, mas certamente também será possível encontrar morada para a resistência em nossa dificuldade de sermos transparentes em relação ao nosso inconsciente. De toda forma, ela existe para preservar a organização psíquica anterior a uma análise, uma vez que por algum tempo esta trouxe ao paciente grande satisfação – posta em cheque pela investigação de seu inconsciente.

Você poderá conhecer melhor os conceitos sobre a Interpretação dos Sonhos e os Mecanismos de Defesa dentro da obra de Freud nos textos a seguir, também publicados na Sociedade dos Psicólogos:

– Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: A Interpretação dos Sonhos e a Primeira Tópica Freudiana
– A Interpretação dos Sonhos
– Reflexões sobre o Aqueronte: Como alcançar o inconsciente em uma análise.
– O Que São Mecanismos de Defesa do Eu

A Definição

Por conta disso, é comum que entendamos hoje a resistência perante interpretações, associações e junções de representações, como uma certa força de expulsão para proteger o eu e o núcleo patógeno da lembrança e do acesso. Uma vez que o sintoma, a repetição e o sonho, mesmo que hoje tragam sofrimento, foram já um dia uma forte maneira de obter acesso a uma fração de seus desejos inconscientes – conforme visto na obra de Freud, que na mesma obra já nos diz que “A quantidade de afeto que devotamos à primeira associação de um objeto oferece resistência a que ela entre numa nova associação com outro objeto […]” (Freud, 1893/1987, p. 190).

E qual seria o papel da análise senão o da ressignificação, a formação de novas associações e, eventualmente, a interpretação de representações do inconsciente? Sabendo disso, não é incomum que o próprio fato da análise em si também seja alvo da resistência.

Referências no assunto nos dirão que se poderá definir a resistência como:

“o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise” (Roudinesco & Plon, 1998, p. 659)

Ou ainda:

“[…] tudo o que, no actos e palavras do analisando, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente” (Laplanche & Pontalis, 1988, p. 595-6).

Mas será na página 475 de sua Obra Magna, A Interpretação dos Sonhos, que Freud baterá o martelo:

“A psicanálise é justificadamente desconfiada. Uma de suas regras é que tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência (Freud, 1900/1987, p. 475).

Portando, para Freud, até as melhores justificativas para atrasos, faltas, remarques e refutações de interpretações ou até pontuações de atos falhos e lapsos, são uma forma de resistência. É claro que a palavra do analista não é Lei, este também poderá se enganar. Mas, via de regra, com o devido estudo, análise e supervisão do analista, será mais fácil se deparar com a resistência do paciente do que um erro de cálculo.

A Resistência é do Analista? Como Lidar com a Resistência ao Tratamento?

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Em tradução livre: “Você realmente pensa que é uma resistência?”

Em sua Introdução Clínica à Psicanálise Lacaniana (Zahar, Rio de Janeiro, 2018), Bruce Fink consegue trazer partes da obra de Jacques Lacan e Sigmund Freud a respeito do assunto. Leitura recomendada para quem deseja iniciar uma imersão neste tema.

O começo de seu primeiro capítulo é o refutar de uma antiga piada sobre psicólogos e psicanalistas:

“Quantos psicólogos são necessários para trocar uma lâmpada? Um, mas a lâmpada realmente precisa querer mudar”.

A crítica do psicanalista é exatamente sobre o ato de responsabilizar o paciente pelo tratamento inteiro. Ora, se a resistência interage com a relação transferencial e os mecanismos de defesa do Eu, o tratamento deixará de dar certo, caso o paciente continue com suas projeções, deslocamentos, racionalizações, falte às sessões, chegue atrasado, ataque o analista, correto? Correto. Mas o paciente realmente quer mudar? O paciente realmente quer se livrar de seu sintoma? É o paciente que deverá se livrar da resistência?
É óbvio que sim, mas é claro que não.

“O simples fato de as pessoas lhe pedirem algo não significa que elas realmente querem que você lhes dê”. LACAN, Seminário 13, 23 de março de 1966.

Se a resistência, conforme vimos anteriormente, tem fortes influências inconscientes, como poderá o paciente se livrar dela apenas com sua consciência? A própria ferida narcísica introduzida à humanidade por Freud já nos mostrava que existiria uma força muito maior no inconsciente.

Os franceses vão chamar Jouissance [gozo], aquele “barato”, aquela “onda” que se tira de situações dolorosas. Seja um castigo ou uma autopunição. É como se de tanta dor houvesse de sair algum prazer. Mais ainda: como se de tanto prazer vazasse dor. E isso, a psicanálise já nos diz: há ou houve nos sintomas, nos sonhos e na repetida e desejada vontade de certa ignorância sobre os aspectos do inconsciente uma dose de satisfação, de gozo, que permitia aos sujeitos um leve acesso aos seus desejos recalcados e/ou reprimidos, por que então o sujeito iria aceitar de prontidão uma mudança?

É natural que na clínica busque-se apenas uma manutenção do sintoma, ou, como diria Fink:

“em meio a uma crise de gozo esperam que o terapeuta a resolva, faça o sintoma funcionar como funcionava antes [gerando satisfação, gozo, de maneira paralela]. Não pedem para ser livrados do sintoma, e sim de sua recente ineficácia, de sua recente insuficiência. Sua demanda é que o terapeuta restabeleça sua satisfação no nível anterior” (2018, p. 19).

E não será responsabilizando imediatamente o paciente pelo que ocorre, denunciando explicitamente seus mecanismos de defesa a partir de uma interpretação precoce ou, ainda culpabilizando o paciente pela própria resistência e, consequentemente, pela ineficácia do tratamento, que irá haver sobreposição a este fato.

O analisando resiste porque quer seu gozo de volta, resiste porque decifrar seu inconsciente ameaçará muito do que se acredita; resiste porque teme, lá no fundo, ficar sem nada em que até hoje se escorou para suportar as exigências do inconsciente versus exigências da sociedade. Se tirarmos, de prontidão, as fontes de gozo do analisando, o que poderemos oferecer em troca para que este diminua sua resistência ao tratamento? Porque já sabemos: se o sintoma tem seu papel, sua ausência abrupta poderá trazer demandas piores. O que será oferecido ao sujeito no processo de análise?

Fink vai nos dizer que:

“uma satisfação substituta diferente: o estranho tipo de satisfação que vem da relação transferencial e da decifração do inconsciente” (ibid).

“Haverá uma nova abordagem das coisas, uma nova maneira de lidar com pessoas, um novo modo de funcionar no mundo” que poderão e deverão trazer mais satisfação que o antigo sintoma, pois só assim haverá engajamento na análise ao invés de abandono.

E este processo só poderá ser vencido se for vencida a única resistência que pode ser vencida de fato: a resistência do analista ao seu desejo.

A Resistência e o Desejo do Analista

Se não é possível ao paciente entender a troca que fará, muito menos a resistência que enfrentará, é esperado que seja ao analista. Se alguém procura terapia porque houve uma dificuldade em obter satisfação, gozo, da maneira que lhe era possível anteriormente (sintoma), caberá ao analista se esforçar para que esta pessoa obtenha algum resultado, ou seja, alguma satisfação ao se livrar gradativamente deste antigo modo que lhe servia (quase) muito bem.

No Seminário I (1953-54), Lacan explica que a Transferência (sobre a qual farei um texto em breve), é o motor da análise. E como já sabemos que é dela que vem algum tipo de satisfação substituta àquela do sintoma, essa informação se torna importante para que entendamos que o estabelecimento desta ocorrerá simultaneamente à uma pequena superação da resistência.

Lacan revisita Freud em seus Escritos Técnicos mostrando que tudo que intervém suspendendo, destruindo ou interrompendo a continuidade do tratamento é uma resistência do analista.

Para Lacan, se o analista não atentar à realidade do discurso, ou seja, da ordem do Simbólico, sua atenção à realidade factual, da ordem do Imaginário, irá empurrar o analisando para os chamados acting outs, ao invés de iniciar uma verdadeira análise. Ex: pedidos de demissão repentinos; bruscas rupturas em relacionamentos estáveis. Portanto, se há uma resistência, Lacan vai nos dizer que ela é sempre do analista.

Isso quer dizer que não há, portanto, uma resistência do analisando para com seu desejo inconsciente? Há sim. Mas a resistência ao tratamento faz parte de uma resistência do analista para com seu único desejo que deverá ser explicitado ao analisando: o chamado desejo do analista – o desejo para que o analisado continue análise. O desejo de que ele compareça à próxima sessão.

O analista não desejará nada senão o retorno do analisando. O analista desejará, unicamente, que análise aconteça. Quer que o analisando conte seus sonhos, faça associações, entenda seus lapsos e atos falhos, critique suas relações estabelecidas e questione os padrões que regem suas escolhas antes mais inconscientes. Consequentemente, nasce aqui a transferência que, em sua essência, é a força motriz de toda análise.

A Análise nasce do desejo do analista e mora no desejo do sujeito

A análise se move a partir da transferência que, por sua vez, é o que ocasionará uma trégua à resistência. A relação transferencial tem origem no próprio desejo do analista de que o analisando continue a análise. Esta mesma relação transferencial é o motor da análise e também aquilo que vence a resistência ao substituir o que é trazido pelo sintoma. Ela dificilmente existirá se o desejo do analista resistir a aparecer. Quando o analista expressa seu desejo, ele permite o aparecimento do desejo do sujeito em análise, mesmo de maneira não explícita. Portanto, se há resistência do analista em mostrar seu desejo, esta, por osmose, também será transferida ao analisando.

Seja realizando uma ligação perante um atraso de mais de 15 minutos, ou até insistindo para que o analisando venha, mesmo que restem apenas poucos minutos de análise; seja cobrando sessões em que houve faltas sem um aviso com 24 horas de antecedência, seja mostrando ao analisando que a análise deverá tomar o lugar de um compromisso inadiável em sua vida; seja exigindo reposições ou ainda solicitando uma sessão extra; seja valorizando na sessão o conteúdo que traga realmente o discurso do inconsciente; seja tolerando toda a resistência que supostamente seria do paciente: o analista expressará sempre o desejo de que o analisando se analise. O desejo de que ele venha, o desejo de que a análise continue. Assim será vencida a resistência, cremos hoje.

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Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERÊNCIAS:

BREUER, J., & FREUD, S. (1895/1987). Estudos sobre a histeria. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 2) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1900/1987). A interpretação dos sonhos. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vols. 4-5) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1905/1987). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 7) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
LACAN, J. Seminário I Escritos técnicos 1953-1954. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1986.

LAPLANCHE, J., & PONTALIS, J.-B. (1988). Vocabulário da psicanálise (10a ed.). São Paulo: Martins Fontes.

ROUDINESCO, E., & PLON, M. (1998). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

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