Comentário sobre Jun, de Keum Suk Gendry-Kim

Sobre Autismo e Visibilidade

Divulgação: Pipoca e Nanquim

Neste mês a editora Pipoca e Nanquim publicou Jun, nova graphic novel da sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim. Já citei por aqui o trabalho “Grama” (2017) da mesma autora que definitivamente vale a leitura e atenção também.

Mais uma vez, a autora nos surpreende e emociona com uma história delicada e sensível. Dando visibilidade e trazendo à tona à uma gama de pessoas em sofrimento e seus familiares. Keum trabalha o tema de inclusão da diferença por meio da arte de maneira genial.

Aproveito para comentar essa obra nesse momento já que em Abril temos o Dia da Conscientização sobre o Autismo (02/04), e todo o mês é dedicado à inciativas de visibilidade desse transtorno. Comentei aqui no blog da Sociedade dos Psicólogos sobre o tema também.

Apenas para contextualizar, o chamado Abril Azul começou em 2007 como uma iniciativa da ONU (Organização das Nações Unidas) para dar mais visibilidade ao transtorno. Em 2018, o dia 02 de Abril passa a fazer parte do calendário brasileiro oficial.

Jun

A graphic novel em questão trata da história de Jun, um garoto portador do Transtorno do Espectro Autista. Acompanhamos sua infância, adolescência e início da vida adulta, sempre à partir do ponto de vista de sua irmã mais nova, Yun-Seon. Seguimos desde aproximadamente os 04 anos de vida de Jun, o diagnóstico e o impacto disso na vida da família.

Temas como a disputa entre irmãos, o cuidado excessivo para o filho “deficiente” e o “abandono” sentido pela irmã que tem que fazer por vezes o papel de cuidadora, além de todo o sofrimento sentido pela família, são tratados aqui com naturalidade. Aqui vemos pais que tentam esconder o filho por vergonha, e por sentirem o julgamento de outros que não entendem/não aceitam a diferença. Só enxergam o incômodo.

Divulgação: Pipoca e Nanquim

Sua audição aguçada o leva à maravilhar-se com qualquer coisa que emita sons. Em momentos a autora o mostra detido no movimento e som de um ventilador, por exemplo.

Divulgação: Pipoca e Nanquim

A música vai ganhando mais e mais espaço na vida de Jun e de sua família a partir do momento que Jun passa à fazer apresentações de Pansori, um gênero folclórico de música originário da Coréia do Sul. Uma certa mistura de teatro e música com fortes referências à história do país.

É interessante notar que Jun foi baseado em uma pessoa que Keum conheceu de maneira pessoal quando fazia aulas de música próximo a sua casa. No posfácio ela aborda como foi essa experiência.

Arteterapia e Autismo

Na história, Jun passa por diferentes tentativas infrutíferas de tratamento de linguagem e estimulação precoce. Apenas no contato com a música, Jun pode expressar e entrar em contato com sua família e com o mundo:

“Existe uma porta entre o meu irmão e nós.

Nós sempre pedíamos para ele abrir a porta e vir para o mundo em que vivemos.

Não passava pela nossa cabeça o quanto isso era difícil pra ele.

Se você não puder abri-la, meu irmão, nós a abriremos pra você. E iremos te buscar.

Pois essa porta abre para os dois lados.”

(Gendry-Kim, 2022, p. 223-224).

Com isso, penso que vale a pena ressaltar a importância do uso da arte em alguns tratamentos. “A educação e a arte têm seu poder de alagar a imaginação e refinar os sentidos, promovendo mudanças significativas nos olhares em direção a novas percepções sobre o mundo” (Costa; Soares; Araújo, 2020, p.7).

Divulgação: Pipoca e Nanquim

À nível histórico, a arte terapia ganha força à partir dos anos 1940, desdobrando-se da terapia ocupacional e ganhando contornos próprios (Gómez, 2016).

Considero que a linguagem não é a mesma para todos. Talvez se trate de outra linguagem para muitos e com isso os conseguimos alcançar:

“En definitiva, podemos concluir que la Arteterapia proporciona a las personas con TEA un medio de comunicación no verbal y alternativa, sobre todo, para aquellos cuya utilización del lenguaje o comprensión del mismo sea parcial o inexistente. Para las personas con autismo el arte puede suponer el puente entre sus pensamientos internos y el mundo que le rodea.”

(Gómez, 2016, p.37)

Gosto do exemplo do texto Epepe, do romancista húngaro Ferenc Karinthy citado pela psicanalista Violaine de Montclos (2020). Nele, um ilustre linguista pega um avião errado e acaba chegando num país cujo idioma não consegue entender e com isso fica preso no lugar. Alguém lost in translation. Isso, para mim, é o Autismo.


Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Costa, I; Soares, J; Araújo, P (2021). A arte no processo de desenvolvimento de pessoas portadoras do Transtorno do Espectro Autista (TEA). In Research, Society and Development, v. 10, n. 8.

Gendry-Kim, K.S. (2022). Jun. São Paulo: Pipoca e Nanquim.

Gómez, J. (2016). Arteterapia y Autismo: El desarrollo del arte en la escuela. In Publicaciones Didácticas. (pp. 31-48, Publicaciones Didácticas, nº69).

Montclos. V. (2020). Seu paciente favorito. São Paulo: Perspectiva.


[VÍDEO] Psicólogo explica: o que é Transtorno de Personalidade Borderline?

Você provavelmente já ouviu falar neste nome. Borderline? O que é isso? O que isso significa? Qual é a diferença de Transtorno de Personalidade Borderline, Limítrofe e Fronteiriço? Qual é a diferença deste transtorno para o Transtorno Afetivo Bipolar?

O texto de hoje tentará explicar tudo isso. E você poderá ter uma explicação detalhada com o vídeo que foi produzido especificamente sobre este tema e encontra-se no final deste artigo, cuja leitura é recomendada para melhor entendimento do vídeo.

Transtorno de Personalidade Borderline

Me chamo Caio Cesar, sou psicólogo e psicoterapeuta. E, recentemente, me deparando com muitas dúvidas e também com informações dúbias sobre este transtorno, acredito que este se tornou um tema apropriado para ser explicado por um profissional da área em um vídeo.

O que é?

O transtorno de personalidade Borderline é um transtorno de personalidade. Com sinais e sintomas descritos tanto no DSM-V (manual estatístico e diagnóstico dos transtornos mentais, editado pela American Psychiatric Association – APA) como no CID 11 (Classificação Internacional de Doenças, editado pela OMS). Ele também pode ser chamado de Transtorno de Personalidade Limítrofe ou Transtorno de Personalidade Fronteiriço. Ambas as versões são uma tradução da palavra “borderline” que, em inglês, numa tradução literal, significaria “linha de fronteira”.

Tal nome já inicia a explicação sobre este transtorno, pois pacientes diagnosticados com ele pareciam, aos médicos que os, tratavam estarem no limite, na fronteira, na borda da realidade com o que se entende por psicose. A “linha de fronteira” entre a neurose e a psicose.

Quais os principais sintomas?

Entre os principais sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline, podemos citas sintomas como:

  • Sensação constante e desproporcional de abandono e/ou negligência;
  • Mudança brusca de humor, ponto de vista, crenças, valores e objetivos de vida;
  • Dependência elevada de cônjuges, familiares e amigos;
  • Instabilidade emocional;
  • Explosões de raiva, crises de choro abruptas;
  • Automutilação; tentativas recorrentes de suicídio, entre outros.

AVISO IMPORTANTE:

O diagnóstico de um transtorno mental, principalmente de um transtorno de personalidade é algo que deve acontecer apenas a partir de uma avaliação multi e interdisciplinar de profissionais qualificados da área da saúde mental, como por exemplo, psicólogos (as) e psiquiatras. Se você se identificou com um ou mais destes sintomas isso não necessariamente significa que você possui este transtorno, pois sintoma não é sinônimo de diagnóstico.

É possível confundir um diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline com o de outros transtornos?

Sim, e frequentemente isso acontece. Infelizmente. Daí vem a importância de um diagnóstico não se basear apenas em sintomas e, ainda que se tenha uma hipótese diagnóstica robusta, é preciso fazer um diagnóstico diferencial. No caso do Transtorno de Personalidade Borderline, alguns transtornos fazem parte da lista que deve ser eliminada antes de um diagnótico fechado.

Na maioria das vezes, o transtorno de personalidade limítrofe é diagnosticado equivocadamente como

  • Transtorno Afetivo Bipolar: também caracterizado por grandes variações no humor, comportamento e sono. Contudo, no transtorno de personalidade borderline, o humor e o comportamento mudam rapidamente em resposta a estressores, especialmente os interpessoais, enquanto no transtorno bipolar o humor é mais sustentado por mais tempo e menos reativo. E as pessoas costumam ter alterações significativas de energia e atividade.
  • Transtorno de personalidade histriônica (saiba mais sobre histeria clicando aqui) ou transtorno de personalidade narcisista: pacientes com algum desses transtornos buscam atenção e são manipuladores, mas os que têm transtorno de personalidade limítrofe também se consideram maus e se sentem vazios. Alguns pacientes atendem aos critérios dos transtornos de personalidade antissocial.
  • Transtornos depressivos (entenda mais sobre estes clicando aqui) e transtornos da ansiedade (conheça mais sobre estes clicando aqui e aqui): esses transtornos podem ser diferenciados do transtorno da personalidade limítrofe, ou borderline, pela autoimagem negativa, instabilidade dos vínculos e sensibilidade à rejeição, que são características proeminentes do transtorno de personalidade limítrofe e geralmente estão ausentes nos pacientes com um transtorno de humor ou ansiedade.
  • Transtornos de dependência química (temos um texto que trata especificamente sobre este assunto, clique aqui para acessá-lo);
  • Transtornos de estresse pós-traumático

Alguns dos transtornos que fazem parte do diagnóstico diferencial do transtorno de personalidade limítrofe também podem coexistir, ou seja: a pessoa poderá ser diagnosticada simultaneamente tanto com o Transtorno de Personalidade Borderline, como com um Transtorno de Ansiedade ou um Transtorno Depressivo, por exemplo.

É por este e outros motivos que o diagnóstico do Transtorno de Personalidade Limítrofe é um dos mais difíceis de se fechar, portanto é preciso sempre escolher bons profissionais e estes devem ter muita cautela ao fechar este diagnóstico.

Tratamento

O tratamento para o Transtorno de Personalidade Borderline envolve psicoterapia e, muitas vezes, medicação, prescrita por um médico psiquiatra que realize um trabalho em conjunto com o psicoterapeuta.

Filmes e Séries (alerta de spoiler)

Para ilustrar um pouco mais sobre o transtorno, separei alguns filmes e séries em que atores e atrizes tentaram dar vida ao contexto de pacientes que sofrem do transtorno. Segue a lista:

Atração Fatal (1987)

Sinopse:  Thriller/Drama ‧ 1h 59m – A vida de Dan Gallagher (Michael Douglas) não poderia estar melhor. Advogado de sucesso, ele vive um casamento feliz e tem uma linda filha. Até que um dia ele conhece a executiva Alex (Glenn Close), com quem tem um caso. A amante começa a exibir um comportamento descontrolado e obsessivo, e logo Dan termina o breve relacionamento. Alex não aceita ser rejeitada e começa a fazer da vida de Dan um verdadeiro inferno.

Garota Interrompida (1999)

 2h 07min / Drama, Biografia
Sinopse: Em 1967, após uma sessão com um psicanalista que nunca havia visto antes, Susanna Kaysen (Winona Ryder) foi diagnosticada como vítima de “Ordem Incerta de Personalidade” – uma aflição com sintomas tão ambíguos que qualquer garota adolescente pode ser enquadrada. Enviada para um hospital psiquiátrico, ela conhece um novo mundo, repleteo de jovens garotas sedutoras e transtornadas. Entre elas está Lisa (Angelina Jolie), uma charmosa sociopata que organiza uma fuga.

Sessão de Terapia (3ª Temporada) – Paciente Bianca (Letícia Sabatella)

Sinopse: Nesta terceira temporada, Theo retorna de um período de descanso e reflexão. No entanto, assim que retoma suas atividades, descobre que seu filho mais velho está atravessando um momento muito difícil. Esse drama familiar fará com que Theo tenha a oportunidade de se aproximar do irmão Nestor e dos seus outros filhos.
Theo continuará atendendo e a cada dia acompanharemos o trajeto de um novo paciente. Bianca Cadore uma mulher casada e que ama demais, Diego Duarte um adolescente alcoólatra, Felipe Alcântara um jovem empresário que não consegue assumir sua preferência sexual e Milena Dantas, viúva de Breno Dantas, que aparenta ter Transtorno obsessivo compulsivo.
Nas sextas Theo tentará uma nova abordagem e entra num grupo de supervisão com outros terapeutas, Rita Sanchez, Guilherme Damasceno e o supervisor Evandro Mendes. A terceira temporada da série conta com roteiros originais, uma vez que a a série original teve apenas duas temporadas

[VÍDEO] EXPLICANDO O TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE

Interaja conosco! Queremos saber sua opinião! Deixe seu feedback, suas dúvidas e sugestões nos comentários. Até o próximo texto!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

Neste texto, o Psicólogo Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos(CRP 06/139621) fala sobre características, sintomas e tratamento do transtorno de personalidade borderline.

Saiba mais sobre nosso sócio-colunista pelo link: https://spsicologos.com/quem-somos/caio-cesar-rodrigues-de-araujo/

Caso busque atendimento psicológico, você pode nos contatar pelo link:: https://spsicologos.com/servicos/atendimento-psicologico/

Para mais informações entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos:

sociedadedospsicologos@gmail.com
Clique no número para WhatsApp: (11) 9.6263-0400

Dor crônica e sofrimento emocional

A dor crônica pode chegar à nossa vida de muitas formas, acidentes, sequelas de alguma doença, ou até mesmo por origem emocional. A dor crônica é a que persiste por mais de três meses, ou um mês após a resolução da lesão, geralmente indica disfunção do sistema nervoso ou das fibras nervosas do membro afetado e, na maioria dos casos, ocorre com uma doença crônica, como artrite fibromialgia, osteoartrite de coluna ou joelho, reumatoide, entre outros.

Pode se destacar como as principais dores crônicas, as dores nociceptivas ou somáticas, que se referem a uma lesão ou inflamação nos tecidos da pele, o que é compreendido pelo sistema nervoso como uma ameaça e gera dor enquanto durar a lesão; a dor neuropática, ocorre devido à disfunção do sistema nervoso, seja no cérebro, medula espinhal ou nervos periféricos, é comum que venha na forma de queimação, picada ou formigamento; dor mista ou inespecífica, é a dor causada por componentes da dor nociceptiva e neuropática ou de causas desconhecidas.

Em qualquer um desses casos, o que temos de fato é como ser acompanhado por algum tipo de dor persistente ou recorrente acarreta não só em mal estar físico, mas muitas vezes em prejuízos psíquicos.
Um dos principais pontos é como a dor pode ser um limitador no dia a dia do acometido, tudo que for cerceado, principalmente aquilo que era querido e afetuoso, trabalho, esporte, lazer e outros, passa não apenas por um processo de luto, mas pode ser uma dolorosa marca em sua vida.

Podemos citar por exemplo aqueles que tem alguns movimentos limitados ou impedidos, afetando seu esquema corporal, sua concepção de funcionamento, de limites e de como fazer cada coisa, desde situações simples como dar um passo, até ao trabalho e movimentos finos e específicos, levando a frustração de não alcançar os resultados já esperados.

A dor crônica também pode afetar profundamente a autoimagem do acometido, visto que a sua posição dentro de seus grupos sociais, como a família por exemplo, tende a mudar quando estes o consideram inapto de desenvolver o que já era de seu costume e responsabilidade, levando a sentimentos de fracasso ou incapacidade.

Neubern vai propor a necessidade de ressignificação destas vivências e novas adequações, pontos que podem ser alcançados pela hipnose clínica ou psicoterapia em diversas abordagens por exemplo.

Em outras palavras, a hipnose, em tal dimensão, não se restringe a um procedimento catártico, uma vez que abrange a criação de um contexto seguro que ofereça continência, organização e possibilidades de produção de sentidos diante dos novos arranjos experienciais entre figura e fundo. (Neubern, 2014)

Essa pessoa passa a ter sua liberdade limitada e por consequência não pode expressar-se como gostaria enquanto indivíduo, podendo levar a uma vida inautêntica e angustiada. Dentro de nossas diversas complexidades vivenciais, nossos corpos representam a ferramenta de que dispomos para expressar tudo que existe de maneira virtual, ou seja, tudo aquilo que hoje existe no nosso psiquismo, pensamentos e sentimentos, nossas considerações e maneiras de ver o mundo, a partir do momento que não se pode mais realizar aquilo que consideramos correto, aquilo que idealizamos para a vida, ou ainda aqueles pequenos atos que parecem corriqueiros, passamos a limitar também quem somos, uma vez que muito disso passa a ficar apenas em nós, impossibilitado de vazão e expressão física e prática no mundo e nas relações.
Tratar situações como essas tem muitos caminhos, psicoterapia, hipnose, além claro do uso da medicação para a situação física em si. Todas essas vão buscar maneiras de levar o indivíduo a encontrar novas maneiras de se expressar, de ressignificar a dor, de dar novos sentidos a sua existência, a compreender melhor como suas emoções se relacionam com o que sentem, a gerir melhor crises e perceber que a dor ou condição física não é o centro de suas vidas, que mesmo com determinadas limitações ainda são seres capaz de a partir de determinada resiliência viver de maneira satisfatória e feliz.

Atenciosamente

Patrício Lauro

Referências

NEUBERN, Maurícioda Silva. Fenomenologia, Hipnose e Dor Crônica: Passos para Uma Compreensão Clínica.2014.

NEUBERN, Maurício da Silva. Hipnose e sentidos físicos em psicoterapia: sobre a reconstrução da experiência do sujeito. 2012.

Dia Mundial do Enfermo – “O doente é mais importante do que a sua doença”, reflexões do Papa Francisco e a Psicologia

Recentemente, o Papa Francisco fez menção ao Dia Mundial do Enfermo, celebrado no dia 11 de Fevereiro, desde 1992.

Em seu discurso, o Papa Francisco expressou que “o doente é mais importante do que sua doença”. Também destacou a importância em cultivar a escuta, explorar a história, os anseios e os medos de quem vivencia um processo de adoecimento.

Discurso este, que se assemelha aos princípios cultivados pela Psicologia, em suas diferentes abordagens e áreas de atuação. Considerando, claro, a importância de explorar o indivíduo em sua totalidade.

O que é enfermidade? E quais são seus impactos?

Por enfermidade, de modo breve e geral, entendemos que se trata de um desequilíbrio na condição biopsicossocial e espiritual.

Em um processo de adoecimento, o enfermo não só vivencia seus desequilíbrios pertinentes a doença. Mas também passa a lidar com outras consequências, tais como:

  • novas necessidades;
  • mudanças na rotina;
  • mudanças em seus relacionamentos;
  • impactos na autoestima;
  • instabilidade psicológica, se aproximando de manifestações de medo, angústias, desesperanças, frustrações e outras tantas.

A enfermidade provoca uma série de mudanças. E seguindo pela via das possíveis consequências psicológicas, é importante considerar que o indivíduo pode se deparar e até se agravar diante de sentimentos de tristeza, desamparo e solidão, por mais que esteja em tratamento e cercado de apoio.

O que as mudanças nos relacionamentos podem causar no enfermo?

A estranha sensação de vivenciar o desconhecido, se agrava perante a forma diferente que as pessoas ao redor passam a tratar o indivíduo.

Por vezes, essa forma diferente se manifesta por excessos, sejam eles voltados a certos comportamentos que expressam indiferença afetiva e distanciamento das pessoas com o indivíduo. Ou até mesmo, seu outro extremo, o excesso de cuidar, de se fazer presente, de se preocupar e até de poupar o ser que adoece, das situações mais simples de seu dia a dia.

Estes exemplos de modos diferentes de tratar a pessoa que passa por uma enfermidade, podem causar ainda mais os sentimentos de medo, desamparo e solidão. Afinal, a pessoa passa a ser vista de forma diferente. Em suas relações, ela tende a ser vista através de sua doença, e não mais pela sua totalidade de ser.

Neste sentido, a Psicologia faz das palavras do Papa mencionadas aqui, as suas. O princípio de relações humanizadas se estende ao gesto de cuidar, principalmente quando se trata de situações de adoecimento.

Como lidar com o indivíduo que vivencia o adoecer?

Como via de regra, é importante olhar o ser que adoece enquanto ser que está em processo de mudança, e não unicamente como uma doença.

É eficaz preservar o olhar de que o indivíduo permanece o mesmo enquanto ser humano, como alguém que vivencia as próprias opiniões, gostos, preferências, sentimentos, conhecimentos, capacidades, limites, responsabilidades e tudo o que contempla alguém com seus direitos e sua próprio história.

Por isso a menção e o lembrete: “o doente é sempre mais importante que a doença”. Ele é muito mais, algo além de sua doença.

Como ajudar de forma positiva?

  • procure tratar o ser enfermo como um todo;
  • mantenha o gesto de respeito, empatia e atenção ao que ele tem a oferecer e a dizer;
  • cultive o gesto de escutá-lo e até mesmo de perguntar o quê for necessário;
  • preserve a autonomia e o seu senso de responsabilidade dele;
  • explore sua história, suas descobertas, dificuldades, sentimentos e aprendizados vivenciados no momento atual;
  • dentro do possível e se possível, também peça ajuda ao enfermo. O senso de capacidade e pertencimento nutrem a autoestima.

Por último, mas não menos importante, cuide de você. Perceba como a situação te afeta. Se preciso e possível, busque ajuda também.

O cuidado consigo causa um efeito dominó: ajuda a si mesmo, a situação e o enfermo. E se tratando de cuidado, nas relações e em qualquer situação, ele pode “faiar”. Mas o importante é tentar!

Por Tayna Wasconcellos Damaceno.

Referências

AYRES DE AlMEIDA, Raquel e MALAGRIS, Lucia. A Prática da Psicologia da Saúde. Revista SBPH,  Rio de Janeiro ,  v. 14, n. 2, p. 183-202, Dezembro de 2011.

Disponível aqui. Acesso em 11/02/2022.

JAGURABA, Mariangela. Dia Mundial do Enfermo, o Papa: garantir atendimento médico a todos os doentes. Vatican News, 2022.

Disponível aqui. Acesso em 11/02/2022

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA DOS PSICÓLOGOS. Conselho Regional de Psicologia SP.

Disponível aqui. Acesso em 11/02/2022.

Minhas melhores leituras de 2021

… que podem ser boas recomendações para o teu 2022

Começo de ano é sempre a mesma história, o que fiz no ano passado, o que deixei de fazer. O que planejo para esse ano que vem chegando. Criando metas possíveis e impossíveis para esse novo ciclo.

Pensando isso, resolvi fazer algo diferente por aqui. Nos últimos anos tenho me dedicado bastante a leitura. Lendo de tudo, de tudo mesmo.

No ano passado li um total de 55 obras, principalmente de não-ficção, romances e HQ’s/Mangás*, e aqui embaixo tentei listar algumas delas que acho que valem o teu tempo nesse ano. De maneira nenhuma estão organizadas por “Do melhor ao pior”. Selecionar cinco obras foi um trabalho árduo, mas tentei escolher as obras que mais me “afetaram” nesse 2021.

01 – Escravidão, livro por Laurentino Gomes

Texto terrivelmente necessário para quem vai pensar as relações raciais no brasil de hoje. Laurentino traz aqui o resultado de sua extensa pesquisa sobre as origens do processo de Escravidão na África, até a instalação de um processo quase industrial por Portugal e Brasil.

Pensar o passado nos ajuda a entender o nosso presente e mudar o nosso futuro. Frase clichê, mas verdadeira, especialmente hoje.

O segundo volume dessa trilogia também já está disponível, e o terceiro tem previsão de lançamento para esse ano (seria bacana, já que comemoramos o bicentenário da Independência do Brasil).

02 – Solitário, graphic novel por Christophe Chabouté

Essa obra bateu forte. A história de alguém que vive sozinho em um farol pode já ter sido explorada em outros lugares, mas te garanto, não como aqui.

Chabouté trabalha aqui temas como solidão, traumas, marcas deixadas pela fala do Outro e a ressignificação possível. Muito terapêutico e cinematográfico ao mesmo tempo.

Vale notar que a obra é publicada por aqui em edição magistral pela editora Pipoca e Nanquim.

03 – As Intermitências da morte, livro por José Saramago

Feliz reencontro com o mestre português, em uma de suas obras mais premiadas. Narrando o que aconteceria se ninguém mais morresse e as implicações disso em diferentes áreas da sociedade.

Esse texto que reli esse ano traz uma das aberturas mais interessantes e sedutoras que já li em um livro: “No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada”.

04 – Shamisen, mangá por Guilherme Petreca e Tiago Minamisawa

Outra obra publicada pelo pessoal do Pipoca e Nanquim. Nesse mangá nacional, os autores contam a estória da Haru, uma musicista cega que com seu Shamisen (instrumento de cordas tradicional do Japão) consegue encantar até os deuses. Ela faz parte de toda uma classe da população que realmente existiu, as Gozes, mulheres cegas que ganhavam a vida com apresentações musicais.

Encontrei aqui muita mitologia japonesa com boas doses de emoção.

O traço delicado e fluido do Petreca foi muito influenciado pelas obras Ukyo-e (imagens do mundo flutuante), um estilo de estampa, semelhante à xilogravura, que floresceu no Japão entre os séculos XVII e XX.

05 – Introdução ao Zen-Budismo, livro por D.T. Suzuki

Obra curta e direta ao ponto. Bem o que eu precisava naquele momento. Esse texto deu início as investigações que movi de maneira mais detida no segundo semestre do ano, culminando em um trabalho sobre as relações entre Psicanálise e Zen-Budismo.

Aqui, Suzuki comenta de maneira objetiva diversos aspectos do Zen Budismo, desde suas práticas até seus preceitos e conceitos mais complicados.

Legal apontar a função dos Koans (enigmas) e dos Mondos (entrevistas semi-dirigidas). Práticas do Zen-Budismo que tem vários pontos de conexão com a prática da psicanálise.

De novo, foi difícil escolher só 5, então deixo aqui também algumas menções honrosas:

  • O Corvo, graphic novel por James O’Barr;
  • Admirável mundo novo, livro por Aldous Huxley;
  • Grama, manhwa por Keum Suk Gendry-Kim;
  • Coisa de Menina, livro por Contardo Calligaris e Maria Homem;
  • Um pedaço de madeira e aço, graphic novel por Christophe Chabouté;
  • Uzumaki, mangá por Junji Ito.

Até a próxima,

Igor Banin

*Normalmente não conto obras/textos psi pela própria natureza desses (Artigos científicos, capítulos ou partes de livros).

P.s.: Uso bastante o Skoob. App brasileiro que ajuda a organizar e classificar as leituras.  Te ajuda a manter o ritmo de leitura, contando com desafios e competição (ou não entre amigos).