O dia em que procurei um terapeuta existencial

Aconteceu quando eu ainda era um estudante de psicologia, que como outros passou boa parte da graduação pensando não precisar da tão falada psicoterapia, mas com a realidade dos atendimentos chegando tão rápido, decidi ir e falar de uma ou outra coisa que me incomodava, “bobagem sabe”, “coisa do dia a dia”, “coisas que todo mundo vive”. Então foi assim, escolhi um profissional que já conhecia, sabia ser alguém sério, marquei a sessão e fui, chegando lá não sabia muito bem o que dizer, na sala de espera já me perguntava se realmente tinha sido uma boa ideia, por que afinal “eu não precisava, era só pela faculdade mesmo”. Deu o horário, o terapeuta me acompanhou até o consultório, eu escolhi uma poltrona e me sentei, e aí, a partir desse momento comecei uma das melhores experiências da minha vida.

Conversei por uma hora com outra pessoa que realmente me ouviu, que estava atento a cada palavra, que demonstrou profundo interesse por cada banalidade ou “besteira” que eu contava e que fui percebendo não ser tão banal assim, e que nem era tanta “besteira”, que ali haviam coisas importantes que precisavam sair de dentro do meu imaginário, que precisavam ser ditas em voz alta, não para o psicólogo, mas para mim mesmo.

Ao contrário do que eu esperava, não houveram muitas perguntas, mesmo estudando psicologia, eu ainda carregava o estereótipo das mídias de que o terapeuta vai te aplicar “zilhões” de perguntas, de que ele iria querer invadir meus mais profundos segredos e que de alguma forma poderia até mesmo saber se eu estivesse mentindo em algum momento, mas não as poucas perguntas que vieram foram simples, diretas e cirúrgicas, e talvez nem fossem bem perguntas, era o famoso “fale mais sobre isso” ou “como é isso pra você”, mas foi tão bem aplicado, que me levava a pensar em respostas e relacionar vivencias e sentimentos que eu nunca havia considerado, que talvez nunca tivesse de alguma forma relacionado.

Logo nessa primeira sessão, passei a compreender que força e coragem frente a vida não tinham nada a ver com aguentar tudo calado, ou suportar a dor sem demonstrar, mas sim tem relação com compreender, ter a real bravura de encarar-se, de sentir de verdade e saber o motivo do que se sente, de avaliar as escolhas, boas e ruins e lidar de verdade com a responsabilidade, e não com viver a famosa má-fé de “está tudo bem”, logo de cara aprendi a importância que meus sentimentos e emoções tinham e quando  eles precisavam ser demonstrados e expostos, assim como passei a pensar que haviam momentos que eram só meus, e tudo bem. Passei a me aceitar melhor, fisicamente e emocionalmente, e a não esperar tanto o julgamento dos demais sobre a vida, mas sim ter a minha percepção e criar consciência desta.

Quando a sessão acabou, eu saí do prédio e senti algo inédito, uma profunda leveza, um alívio enorme, como se existisse um peso invisível sob meus ombros que tinha finalmente sido aliviado. O que quero dizer aqui é que com um terapeuta existencial, encontrei empatia e acolhimento, encontrei realmente um espaço meu que não simplesmente me ligou a uma pessoa que tinha técnicas de psicologia para aplicar em mim, mas que me colocou realmente em contato comigo mesmo.

Deixo este relato, pois tenho a esperança de que por aí tem uma outra pessoa nesse ponto crítico de ir ou não a terapia, e espero que essa vivência possa auxiliar na sua escolha.

Atenciosamente

Patricio Lauro

A Fuga de Nós Mesmos: psicologia existencial e autenticidade

A grande área da Psicologia Existencial tem em comum entre seus diversos autores, pesquisadores e teóricos, o ponto de que somos livres, somos indivíduos que fazem escolhas para constituir a si e boa parte do mundo a sua volta. Compreende-se que nós indivíduos humanos somos responsáveis por nossas ações, das menores às maiores, e dessa forma, autores de quase tudo que acontece em nossa vida, acontecimentos bons e ruins.

O que precisamos a princípio compreender é que o homem é conhecido como o animal que cria, que constrói, que confere significado, que faz, que desfaz, que destrói, que ressignifica.

Dentro de todo este contexto podemos notar um certo “movimento existencial”, uma espécie de ciclo comum a todos dentro do jogo das nossas escolhas. Acontece da seguinte maneira, vamos partir de um exemplo: você tem uma importante decisão a ser tomada, surgiu uma oportunidade incrível de trabalho, um salário melhor, melhores condições em geral, por uma carga menor de trabalho e é até mais perto da sua casa, aí você para e pensa em seu atual trabalho, as condições não são ruins, você está a anos na empresa e conhece  a todos. A partir deste cenário você opta pelo novo emprego, e é mesmo tudo aquilo que você esperava, mas existe sempre em algum lugar da sua mente, o momento que a seguinte reflexão acontece “e se eu tivesse escolhido ficar lá? Como seria?” por mais que sua decisão tenha sido bem sucedida, a reavaliação e um certo incômodo por não saber, sempre acontece em todas as nossas escolhas, das pequenas às grandes.

Então ponderemos juntos, se somos responsáveis por tudo que escolhemos e sempre vamos fazer esse movimento reflexivo, em dados momentos sentimentos muito difíceis e conflitantes podem surgir com nossas escolhas não é mesmo? E aí o que acontece?

A humanidade tem um jeito muito particular de lidar com estes desconfortos, é aí que acontecem fenômenos que chamamos de má-fé e por consequência temos a inautenticidade. Vamos compreender os dois, podemos entender como má-fé o movimento que fazemos para aliviar nossas responsabilidades, um exemplo disso podemos buscar na famosa fábula de Esopo intitulada “A Raposa e as Uvas”:

Numa manhã de outono, enquanto uma raposa descansava debaixo de uma plantação de uvas, viu alguns ramos de uva bonitas e maduras, diante dos seus olhos. Com desejo de comer algo refrescante e diferente do que estava acostumada, a raposa se levantou, ergueu as patas para pegar e comer as uvas.

O que a raposa não sabia era que os ramos das uvas estavam muito mais altos do que ela imaginava. Então, buscou um meio de alcançá-los. Pulou, pulou, mas seus dedos não conseguiam nem tocá-los.

Havia muitas uvas, mas a raposa não podia alcançá-las. Voltou a correr e a saltar outra vez, mas o salto foi curto. Ainda assim a raposa não se deu por vencida. Novamente correu e saltou, e nada. As uvas pareciam estar cada vez mais distantes e mais altas. 

Cansada pelo esforço e se sentindo impossibilitada de conseguir alcançar as uvas, a raposa se convenceu de que era inútil repetir a tentativa. As uvas estavam muito altas e a raposa sentiu-se muito frustrada. Esgotada e resignada, a raposa decidiu desistir das uvas.

Quando a raposa estava quase retornando para o bosque se deu conta que um pássaro que voava por ali, tinha observado toda a cena e se sentiu envergonhada. Acreditando ter feito um papel ridículo para conseguir alcançar as uvas, a raposa se dirigiu ao pássaro e disse:

– Eu teria conseguido alcançar as uvas se elas estivessem maduras. Eu me enganei no começo, pensando que estavam maduras, mas quando me dei conta que ainda estavam verdes, desisti de alcançá-las. As uvas verdes não são um bom alimento para um paladar tão refinado como o meu.

E foi assim que a raposa seguiu o seu caminho, tentando se convencer de que não foi por falta de esforço que ela não tinha conseguido comer aquelas uvas deliciosas. E sim porque estavam verdes.

A má-fé está em atribuir uma desculpa por algo, e não me entenda mal, todas as pessoas no mundo fazem isso, compreende-se a má-fé como um fenômeno natural, o mais importante aqui é, você sabe quando isso acontece com você?

Agora para compreender a inautenticidade, precisamos saber que um ponto importante nessa compreensão existencial é a de que um fator marcante é o projeto existencial ou projeto de vida, que é aquilo que você quer fazer de si, para onde você direciona sua vida. Uma vida que é voltada para seus objetivos é uma vida autentica, uma vida que lida com os ônus e os bônus das escolhas que faz. A inautenticidade então é o movimento de aderir projetos que não são seus, que na verdade sufocam aquilo que você é realmente, podemos exemplificar com o famoso clichê “plante uma árvore, tenha filhos e escreva um livro” ou “todos precisa se casar, ter filhos e ter um trabalho padrão”, acontece pelas pressões sociais, pelos padrões de vida vendidos como “os mais felizes”, como se a felicidade pode-se ser padronizada, formatada,  produzida em massa e vendida em lojas. A inautenticidade é viver uma vida que você no fundo não quer, mas tem algum conflito emocional que talvez ainda não compreenda, que te prende a este modo de viver, ao que não é seu.

A partir disso podemos falar sobre alguns comportamentos relevantes na atualidade que muitas vezes acendem o alerta de um projeto inautêntico ou de alguma outra questão emocional a ser resolvida.

O modo de vida atual acarreta nas pessoas grandes pressões de diferentes fontes, a modernidade e suas mudanças constantes, a tecnologia e o meio social que esta nos oferece e que cobra seu preço, as cobranças sociais, as ameaças naturais da vida associadas ao estilo de vida capitalista que nossa sociedade adota, que nos cobra quase sempre uma rotina muito intensa de trabalho, as múltiplas possibilidades em uma vida de consumo, e as muitas maneiras de “como se viver” que podem ser “pregadas” de muitas maneiras atualmente, na família, no âmbito religioso ou até mesmo com os vários “gurus” de como se viver espalhados por aí.

Frente a todos estes movimentos, algumas pessoas, na impossibilidade de cumprir um projeto de vida ideal, ou seja, aquilo que sempre quis, ou por ter feito escolhas que hoje se mostram ruins podem assumir uma postura de anulação de si mesmo.  Associado a tecnologia e aos modos de vida que a modernidade proporciona, destaco aqui alguns comportamentos recorrentes em indivíduos que tentam não encarar sua inautenticidade.

O trabalho sem fim

O primeiro e provavelmente mais comum é aquela pessoa que mesmo quando pode, não deixa o trabalho, sua atividade profissional está sempre em prioridade, na vida deste indivíduo não cabe mais nada, não há tempo para mais nada além da tarefa atual e da próxima.

O influencer

Outro comportamento muito repetido atualmente é o de ter uma vida nas redes sociais totalmente artificial, onde nada que está na rede realmente tem ligação com a vida que a pessoa vive, e gradativamente este passa a ficar mais ligado as redes sociais do que a sua realidade fora do mundo digital.

O gamer

Este mais comuns em adolescentes, frente talvez a sua realidade ou a dificuldades com conflitos comuns nesta etapa da vida, muitos atualmente acabam usando os jogos eletrônicos como válvula de escape, como fuga do mundo real, outros semelhante ao influencer, tem uma vida dentro do game, onde talvez parte de seu projeto seja mais aceito do que na sua vida tangível.

O isolado

Este acaba muitas vezes sendo automaticamente vinculado ao rótulo da depressão, mas em muitos casos, a pessoa isolada que não sai do quarto está evitando se deparar com uma vida onde seu projeto não cabe, ou não é aceito. Muitas vezes está evitando lidar com este projeto inautêntico que tem adotado.

O altruísta

Para algumas pessoas a maneira de não encarar seu projeto é usando todo seu tempo e energia em auxílio dos demais, não digo aqui que devemos ser egoístas, mas sempre é necessário dedicar tempo as nossas próprias vidas também, no caso que descrevo, esse indivíduo passa a adotar os problemas alheios para evitar lidar com os seus.

Então…

Espero aqui poder ter ilustrado como de muitas formar mascaramos nossas atitudes, afim de não lidar com os resultados de escolhas que fizemos e que muitas vezes não escolhemos o que queríamos ou que seria melhor para nossas vidas, mas ficamos presos aos padrões, ao mais fácil, mais aceitável socialmente, e por consequência o mais massificado e inautêntico modo de viver.

Não foi a intensão aqui esgotar um tema que basicamente é infindável frente as possibilidades humanas, mas sim propiciar uma breve reflexão sobre nossas vidas e nossas escolhas.

Atenciosamente,

Patricio Lauro

Psicólogo – CRP 18/03237

REFERÊNCIAS

BRETON,  David Le. Desaparecer de si: Uma tentação contemporânea. Vozes, 2018.

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Trilogia da Existência: teoria e prática vivencial. Appris, 2013.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Vozes. 4ª Ed. 2014.

O que é o Autismo?

No mês de Abril comemora-se o mês da conscientização do Autismo. Para uma condição tão em voga para pais nos dias atuais, penso que seja necessário um debate explicativo do que é o autismo, como se constitui enquanto estrutura clínica e seu tratamento.

Autismo 2

Histórico

Apenas recentemente o Autismo ganhou um espaço próprio na compreensão diagnóstica psiquiátrica e psicológica. Até então, o autista era incluído no grande grupo de crianças com deficiências mentais (Kupfer, 1999).

Foi apenas nos anos 1940 que o autismo foi diferenciado das psicoses mais gerais, à partir dos trabalhos de Leo Kanner e Hans Asperger.

O asilamento provinha do diagnóstico frequente de incurabilidade do quadro clínico. A luta por direitos exercida por associações de pais fez com que o acesso à melhores tratamentos fosse possível (Laurent, 2014).

No âmbito da psicanálise, é importante destacar o trabalho de Rosine e Robert Lefort, que, seguindo os passos de Lacan, introduziram uma abordagem terapêutica que conciliava o entendimento psicanalítico lacaniano com a clínica da infância.

Autismo é genético?

Alguns acreditam que componentes genéticos são responsáveis pelo desencadeamento da sintomatologia autista. Por outro lado, temos aqueles que creem que o ambiente é responsável por si só.

A psicanálise envereda por uma terceira via, a da psicogênese, mas sem descartar a importância de outros elementos. Segundo Kupfer (1999):

“o autismo não seria nem o efeito de uma falha genética, nem o efeito de “interações ambientais” entendidas como o faz a psicologia americana, mas uma conseqüência da falha no estabelecimento da relação com o Outro, quer porque o Outro materno não esteve disponível, quer porque falhou no bebê a permeabilidade biológica ao significante.” (p. 99)

Como afirma Laurent (2014): “O fato de haver algo de biológico em jogo não exclui a particularidade do espaço de constituição do sujeito como ser falante” (p. 33).

Lacan dizia que um bebê não passa de um bife com olhos. A subjetivação vai sendo acrescida a sua vida com o passar do tempo, em sua entrada no laço social, na sociedade.

Pensando nisso, é importante ressaltar que a psicanálise não culpa as mães pela emergência no autismo em seus filhos, como falas errôneas pregam já há muito tempo.

Autismo no DSM

Pela perspectiva do DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual for Mental Disorders) o autismo se encontra dentro do grande conjunto de Transtornos de Neurodesenvolvimento.

Algumas das características diagnósticas do transtorno são:

“prejuízo persistente na comunicação social recíproca e na interação social (Critério A) e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividade (Critério B). Esses sintomas estão presentes desde o início da infância e limitam ou prejudicam o funcionamento diário (Critérios C e D). O estágio em que o prejuízo funcional fica evidente irá variar de acordo com características do indivíduo e seu ambiente. Características diagnósticas nucleares estão evidentes no período do desenvolvimento, mas intervenções, compensações e apoio atual podem mascarar as dificuldades, pelo menos em alguns contextos. Manifestações do transtorno também variam muito dependendo da gravidade da condição autista, do nível de desenvolvimento e da idade cronológica; daí o uso do termo espectro. O transtorno do espectro autista engloba transtornos antes chamados de autismo infantil precoce, autismo infantil, autismo de Kanner, autismo de alto funcionamento, autismo atípico, transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação, transtorno desintegrativo da infância e transtorno de Asperger.” (DSM, 2014, p. 53)

Em muitos casos o paciente não fala. Não porque não consegue, mas não sente a necessidade. A necessidade de rotinas bem definidas e seguidas à risca também é uma característica comum em pacientes com tal transtorno.

Autismo na Psicanálise

Rosine
Rosine e Robert Lefort

O autismo foi tema de debates intensos nos anos 80 e 90 no cenário psicanalítico. Muito se debatia se a sintomatologia autística se enquadrava dentro de um grande grupo de estruturas psicóticas, ou se era algo à parte. Apenas para relembrar rapidamente, a diagnóstica psicanalítica lacaniana se constitui de três estruturas clínicas, ou, em termos técnicos, três modulações de transferências, isto é, três maneiras de se estar com, e em relação ao Outro. São elas: Neurose, Psicose e Perversão.

O autista é psicótico?

Sim, e não. Pensando por uma clave de primeira clínica lacaniana o psicótico é um sujeito que não interiorizou o “Nome-do-Pai”, e isso, o autista não faz mesmo, o que em um primeiro momento nos levaria à crer que trata-se de uma estrutura no âmbito da psicose. Todavia, por outro lado, autistas não apresentam alucinações e delírios que frequentemente vemos em sujeitos de estrutura psicótica.

Para alguns analistas, há uma diferença, no entanto na forma de não integração do Nome-do-Pai entre psicose e autismo. Enquanto na primeira há um sujeito que se inscreve no Simbólico em uma posição fixa, na segunda não há assunção de sujeito.

Essa posição pode ser contestada pela teorização mais clássica da psicanálise em comportamentos frequentes em austistas como “tapar os ouvidos” quando na presença de outras pessoas. Em teoria, isso demonstra o reconhecimento de algo do qual o sujeito gostaria de “fugir” (Kupfer, 1999).

Penso que na estrutura autista como estando em um momento anterior de formação de alteridade em relação ao desenvolvimento do Eu, do que as psicoses mais clássicas.

Tratamento do Autismo

Autismo

O estigma gerado por um diagnóstico atrapalha ainda mais o sujeito que já encontra obstáculos em sua vida. Não é incomum que os pais da crianças assumam imaginariamente o lugar de defensores da “causa” de seus filhos (Laurent, 2014).

Importante mencionar que o meu entendimento do tratamento se dá a partir da clínica psicanalítica de orientação lacaniana.

Muito se fala em metodologias comportamentais de aprendizado, que, em muitos casos se concentra em objetivos como adquirir funções elementares, através do espelhamento. Critico nesses casos, as experiências que adquirem um aspecto coercitivo e imaginário, sem que se possa inserir o sujeito na troca significante.

O singular da falar do sujeito deve ser o ponto balizador da escuta do analista, e prover esse enquadramento de espaço ao sujeito o auxilia no processo de subjetivação.  Seu tempo e suas rotinas devem ser respeitados de tal modo que o avanço do tratamento aconteça progressivamente.

Sobre o acesso à linguagem do sujeito, Dolto (2010) afirma:

“Para estudar a linguagem difratada e diferida no comportamento, nos desenhos, nas modelagens e no discurso do analisando, o psicanalista topa com fantasias (até mesmo fantasias de fantasias), máscaras em camadas de cebola, que poderíamos chamar de “resistências” e que ele deve respeitar totalmente, se pretende socorrer o sujeito em sua relação consigo mesmo, reconhecidamente mascarado, mas também livre para conservar a máscara” (p. 210)

Um dos pontos importantes à se trabalhar na clínica de sujeitos autistas, é o desejo da mãe (Outro materno). Temos que lembrar que para Lacan, o sujeito se faz na e pela linguagem, através de um Outro que o enlaça. Esse Outro deve supor um sujeito e se dirigir à ele antes que ele exista (Kupfer, 1999).

As estereotipias, ou movimentos repetidos que o sujeito performa podem ser entendidos também como movimentos que não receberam uma significação pelo Outro, isto é, permanecem “sem sentido”.

A mãe (Outro) tem então o papel de criar , como afirma Kupfer (1999):

“Seja como for, o corpo de um bebê jamais sairá de sua condição de organismo biológico se não houver para ele um outro que sustente o lugar de Outro Primordial e que o pilote em direção ao mundo humano, que lhe dirija os atos para além dos reflexos, e, principalmente, que lhes dê sentido.” (p. 99)

Pensando no manejo dos pais no tratamento de seus filhos, Kupfer (1999) afirma:

“Aposta-se que, para eles, fará diferença que um psicanalista oponha resistência à objetalização da criança e à “desresponsabilização” do Outro materno, pois isto permitirá que se localize com maior precisão a posição das mães, quem sabe a tempo de a reverter.” (p. 107)

Que a conscientização que Abril nos traz perdure pelo ano.

Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

American Psychiatric Association (2014). DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed.

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: Editoria WMF Martins Fontes.

Kupfer. M (1999). Psicose e Autismo na Infância: Problemas Diagnósticos. In Estilos da Clínica. (pp. 96-107, Instituto de Psicologia da USP). São Paulo.

Lacan, J. (1953/1998). Função e campo da fala e da linguagem. Escritos (pp. 238-324). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Laurent, E. (2014) A Batalha do Autismo: Da Clínica à Política. Rio de Janeiro: Zahar.

Mélega, M. (1999) Pós-Autismo: Uma narrativa psicanalítica. Rio de Janeiro: Imago.

 

Por que você está sonhando tanto nessa quarentena?

Por que você está sonhando tanto e de maneira tão lúcida na quarentena?

Quadro “A Persistência da Memória”, Salvador Dali – 1931

Neste momento de Pandemia, principalmente em quarentena, o trabalho do sonho é mais necessário do que nunca.

Se você ainda não sabe o que é ou como funciona o trabalho do sonho, há dois textos fundamentais para explicar como tal conceito é apresentado por Sigmund Freud em seu mais famoso livro: A Interpretação dos Sonhos.

A Interpretação dos Sonhos (Igor Banin

Como Interpretar um Sonho? Freud Explica! (Caio Cesar Rodrigues

Quadro “O Sonho” – Salvador Dali – 1937

Nossos desejos inconscientes se tornam cada vez mais próximos de nós mesmos, perante a solidão ou ao cerceamento de nossos movimentos e nossas interações.

Nossos desejos conscientes, de sair de casa, de abraçar ou de visitar pessoas queridas e amadas abrem cada vez mais caminho para aquilo que não pode ser realizado roube a cena na ausência do estado de vigília. Mesmo que através de uma metáfora, de uma cena condensada ou diluída em seu sentido, nossa mente dará um jeito de nos dar uma pequena dose de satisfação de tais desejos.

E é por isso que estamos sonhando tão mais e tão mais intensamente nestes dias de quarentena. Nossas angústias e apreensões são diárias: elevação do número de mortes, pessoas ignorando a quarentena e agindo como vetores inconsequentes, tudo isso nos afeta e só resta a nossa mais privada sala de realizações para amenizar tudo isso.

Até o pior dos pesadelos diz muito sobre nós: nos bota em contato com o impensável, o intocável e o impossível que nos habita, mesmo que não o aceitemos.

Nesses tempos o sonho se faz mais necessário do que nunca, pois a realidade nunca nos bastou tão pouco!

O que nos resta é aproveitar esse boom de sonhos lúcidos (que tão acontecendo bastante, né?) ou não. Seja para enchermos nossos analistas de conteúdo, seja para termos ao menos uma montanha russa de emoções garantida nesses dias tão embotados.

Vamos sonhar!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo