Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber?

“O que é mais assustador? A idéia de extraterrestres em mundos estranhos, ou a idéia de que, em todo este imenso universo, nós estamos sozinhos?”

– Carl Sagan.

Por Caio Cesar Rodrigues .

Olá psicólogas e psicólogos, estudantes e leitores de todo o Brasil (e os de fora daqui que também nos acessam). Me chamo Caio. O artigo a seguir surgiu para tentar sanar certo Não Saber de nossa categoria durante este momento tão incerto que vivemos.

O texto inicialmente era destinado à psicólogas e psicologos, contudo, seu conteúdo servirá também a quem ainda se considere pouco informado a respeito do Novo Coronavirus.

Estamos em tempos difíceis. Estabelecimentos fechando, superlotação em mercados, pré-escassez de produtos como álcool gel e papel higiênico; isolamento, fechamento de fronteiras e quarentena em países Desenvolvidos e Em Desenvolvimento. Apesar de todo mundo sentir essa diferença, nem todos estão conseguindo ou até querendo se informar a respeito. E o texto tem meramente este propósito: informar.
Me disponho a ler e responder a todos os feedbacks; bem como a considerar a inclusão ou exclusão de partes deste texto a partir destes — na condição de haver o devido fundamento e/ou veracidade à avaliação destes, feita por mim.

O que será falado neste artigo?

Neste artigo tentarei falar sobre os seguintes aspectos:

  1. O que é e o que sabemos sobre o Novo Coronavirus e a doença COVID-19?
  2. Formas de contaminação, contágio e prevenção;
  3. Quantas pessoas estão contaminadas com o Novo Coronavirus ao redor do mundo até o momento?
  4. Quarentena, Isolamento, Fechamento de Fronteiras e Estado de Emergência e Calamidade Pública — Efeitos sociais que Pandemia está causando no Brasil e no Mundo ;
  5. Consequências da Pandemia no trabalho da (o) profissional da psicologia — mudanças, restrições;
  6. Influência da Pandemia em pacientes que possuem ou não psicopatologias/Transtornos Mentais – Implicações, complicações e manejo;
  7. Sugestões, discussões e possíveis soluções para a atuação da Psicologia em meio a este cenário Mundial nunca antes visto em sua história como ciência e profissão.

Após a publicação deste artigo completo, ele também será fragmentado em seus tópicos, linkados acima para facilitar a leitura, uma vez que sua extensão ficou bem maior do que o planejado.

O que é o Novo Coronavirus (COVID-19)?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a mesma declarar que estamos em uma Pandemia de Coronavirus, no dia 11 de março de 2020:

Os Coronavirus são uma grande família de vírus que podem causar doenças em humanos e animais. Nos humanos, muitos tipos de coronavírus são conhecidos por causarem infecções respiratórias, que variam de um simples resfriado comum, até graves doenças como A Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). O último tipo de coronavírus descoberto tem como causa a doença COVID-19.

(OMS, Q&A on coronaviruses (COVID-19) 9 March 2020 | Q&A, acessado em 19/03/2020)

E o que é COVID-19?

A resposta também é trazida pelo mesmo órgão, chefiado pelo Doutor em Saúde Comunitária pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido o acadêmico etíope que se tornou referência mundial a partir de suas pesquisas a respeito de epidemias, Tedros Adhanom Ghebreyesus:

“COVID-19 é a doença infecciosa causada pelo coronavirus descoberto mais recentemente (novo coronavirus). Este novo vírus e esta nova doença eram desconhecidos antes do surto começar em Wuhan, China, em dezembro de 2019″.

(OMS, Q&A on coronaviruses (COVID-19) 9 March 2020 | Q&A, acessado em 19/03/2020)
Tedros Adhanom Ghebreyesus é Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde

Ainda de acordo com a OMS, os principais sintomas de COVID-19 são febre, cansaço e tosse seca. Alguns pacientes têm dores, congestão e coriza nasal, garganta seca e até diarréia (OMS, 2020). Apesar disso, algumas pessoas não manifestam sintomas e se sentem muito bem, inclusive. A instituição também ressalta que 80% das pessoas se recuperam da doença sem a necessidade de nenhum tratamento especial e/ou hospitalizado. Contudo, uma em cada seis pessoas com COVID-19 irá desenvolver o sintoma grave da doença que é a falta de ar/dificuldade de respiração.

E quando falamos de pessoas idosas (+60 anos) e super-idosas (+80 anos) os problemas podem ser piores ainda. O mesmo vale para pessoas que têm/estão com baixa imunidade e portadores de doenças crônicas como hipertensão e diabetes (OMS, 2020). O órgão recomenda: pessoas com febre, dificuldade respiratória e tosse, devem procurar atenção médica.

Como o Vírus se Espalha?

A princípio por gotículas de secreções bucais ou nasais. Tosses, espirros; cuspes, escarros e beijos seriam formas diretas de contaminação. Contudo, se alguém tossir, espirrar, cuspir ou escarrar em uma superfície, esta também poderá conter o vírus por um prazo ainda desconhecido, em função da novidade que é a doença para o mundo. Consequentemente, as pessoas que tocarem nestas superfícies e levarem as mãos aos olhos, boca, nariz (ou ainda ao rosto e o próprio suor fizer o restante do caminho), poderão se contaminar (OMS, 2020).

Também será possível que isso seja feito através do compartilhamento de copos, talheres, travesseiros (pois pode haver saliva secretada durante o sono), etc.

A Agência ainda ressalta que:

  1. É mais provável que o vírus seja espalhado por gotículas do que pelo ar em si;
  2. É possível SIM contrair o vírus de quem ainda sequer manifestou (ou irá manifestar) sintomas;
  3. A forma mais eficiente de prevenção é lavar as mãos a partir de todo e qualquer contato tátil com pessoas e objetos utilizados por você e por elas, recomenda-se também a limpeza da superfície destes objetos;
  4. Deve-se manter a distância de 1 a 2 metros de qualquer pessoa que possa ter o vírus (5 metros em caso de espirros);
  5. A qualquer sintoma seu e de pessoas próximas a você FIQUE EM CASA;
  6. Havendo grandes sinais de contaminação na sua região, FIQUE EM CASA.

(OMS, 2020)

Apesar de todas as recomendações a respeito da contaminação, é praticamente impossível conter este tipo de contato nas dimensões ideais, mas sua minimização favorece na redução dos picos de infecção de uma região.

Um dos motivos para a facilidade de transmissão do vírus é o próprio tempo de incubação, período em que mesmo que o paciente não demonstre sintoma algum, já irá iniciar o contágio.

Acredita-se também que uma pessoa é capaz de infectar de duas a quatro pessoas simultaneamente, assim como essas pessoas infectadas também irão conduzir o contágio a mais 2-4 pessoas que, sucessiva e exponencialmente, contaminarão milhares de pessoas em poucos dias.

Como Desinfectar algo que contém o Novo Coronavirus?

Para que haja a desinfecção de uma superfície que teve contato com o vírus, é necessário que sua capacidade de reprodução e respiração sejam cessadas. E isso acontece quando destruímos sua composição principal.

O que faz isso? Água com sabão!

Mas como algo tão simples e que parou o mundo é morto apenas por água e sabão? Vejamos o que diz o especialista.

Segundo Thomas Pietschmann, virologista molecular e pesquisador no Centro de Pesquisa de Infecção Experimental e Clínica, chamado Twincore, em Hannover, na Alemanha, o Novo Coronavirus se assemelha ao vírus da Hepatite C porque ” é cercado por uma camada lipídica, ou seja, uma camada de gordura”.

Portanto “os vírus possuem mais estabilidade em baixas temperaturas. Semelhante aos alimentos que têm maior vida útil na geladeira”, já que a gordura não se dá muito bem o calor.

O especialista ainda deixa um alerta em relação à umidade do ar: “Nos dias frios e, em sua maior parte, secos do inverno, as pequenas gotículas flutuam, junto aos vírus, por mais tempo na atmosfera do que nos dias de alta umidade”.

Provavelmente agora já seja possível imaginar ou, para os mais familiarizados à biologia, entender por que é tão importante lavar as mãos com água e sabão. O sabão, o detergente e shampoo são agentes utilizados para remover a gordura das superfícies. Logo: quando fazemos isso com o vírus, removemos o que o faz sobreviver. O álcool em gel 70% também realiza esta função.

A seguir um vídeo sobre como lavar as mãos corretamente, para se prevenir do Novo Coronavirus de acordo com a própria OMS:

Detalhe: a torneira que é aberta com as mãos “sujas” (supostamente contaminadas) só é fechada pelas mãos limpas com o auxílio de um papel que impede o contato da mão com a torneira, possivelmente para prevenir a reinfecção através da superfície supostamente contaminada pela mão, que antes estava suja.

Você também poderá conferir toda a entrevista que o virologista deu ao site de Notícias DW Brasil Clicando aqui neste link.

Quantas pessoas estão contaminadas com o novo Coronavirus?

Até o momento da publicação deste artigo (20/03/2020), segundo o portal criado pela Microsoft para acompanhar os casos de Coronavirus (COVID-19) no mundo em tempo real, Às 07 da manhã deste mesmo dia os dados atualizados sobre a doença no mundo eram:

covid 19 pelo mundo

covid 19 pelo brasil

Vale ressaltar que, ao que a China conseguiu identificar, num trabalho de investigação de vários médicos, o chamado paciente zero (o primeiro a se infectar do mundo) — de acordo com o processo de rastreamento adotado a partir da investigação de dados fornecidos por mais de 250 pessoas infectadas — tenha iniciado o contágio em 17 de novembro de 2019, na cidade de Wuhan, localizada na província de Hubei, na China. A hipótese é que a transmissão tenha ocorrida após a ingestão de carne animal contaminada com o Novo Coronavirus. Uma das hipóteses é que tenha sido através da carne de morcego.

Mas o ponto principal de nossa atenção está na linha do tempo: do dia 17 de novembro de 2019 ao dia 20 de março de 2020, o vírus contaminou mais de 245 mil pessoas, matando mais de 10 mil, saindo de uma cidade da China para o mundo todo.

Casos Subnotificados

Deve-se levar em consideração que os Governos apenas estão testando os casos mais graves que derem entrada nos hospitais. A parte falha, no que diz respeito a conhecer o número real de casos em um país, é que: nem todos irão manifestar sintomas, assim como a maioria apresentará sintomas leves; contudo, este tipo grave de sintoma que o governo procura ter como alvo dos testes, justamente é aquele que só ocorre após quase duas semanas de infecção — período em que está pessoa irá contaminar outras sem saber que possui o vírus. (Tal modus operandi passou a funcionar no Brasil após o Governo localizar casos de contaminação comunitária, isto é, onde pessoas que não tiveram contato foram diagnosticadas com Covid-19).

Essas políticas de testagem também eram empregadas a princípio na China, mas foram substituídas pela testagem geral, principalmente das regiões em isolamento.

Estes fatores certamente ampliam muito a disseminação do vírus, então a orientação é para limitar tal contágio desenfreado por pessoas que não têm ciência de terem sido infectadas. Por conta disso, perante à percepção do aumento dos casos, Governos de todo o mundo começam a implantar políticas de isolamento, quarentena e até confinamento de suas populações, visando evitar tal transmissão comunitária.

Veja o exemplo do vídeo:

Quarentena, Isolamento, Fechamento de Fronteiras e Estado de Emergência e Calamidade Pública

O que significam os termos Quarentena e Isolamento? Por que estamos falando até em confinamento?

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Agentes da Polícia Nacional Espanhola fazendo guarda de uma rua vazia, após ser decretado isolamento parcial na Espanha. A foto é do dia 15 de março em Málaga, Espanha. (via Jon Nazca/Reuters)

Segundo o Minitério da Saúde, como o Brasil se encontra em Emergência em Saúde Pública de importância Nacional (ESPIN) em decorrência da Infecção Humana pelo novo Coronavírus (2019-nCoV), serão adotadas medidas como:

  • Quarentena: determinada mediante ato administrativo formal e devidamente motivado e deverá ser editada por Secretário de Saúde do Estado, do Município, do Distrito Federal ou Ministro de Estado da Saúde ou superiores em cada nível de gestão. Publicada no Diário Oficial e amplamente divulgada pelos meios de comunicação, com duração de até 40 dias, podendo ser prorrogada pelo tempo necessário para reduzir a transmissão comunitária e garantir a manutenção dos serviços de saúde no território.

No Estado de São Paulo, o Governo recomenda fechamento de shoppings e academias da Grande SP até fim de abril, e também recomenda fechamento de igrejas, suspende cobrança de água e dá férias a professores.

enquanto a Prefeitura de São Paulo adota medidas para evitar disseminação do coronavírus, tais medidas servirão para evitar a circulação de pessoas e a formação de aglomerações, sendo que na Cidade apenas comércios considerados essenciais irão funcionar (mercados, farmácias, restaurantes, hospitais, etc).

Tanto a Prefeitura Municipal, como o Governo Estadual de São Paulo, já decretaram suspensão das aulas. A medida também ocorre em outros Estados e Cidades.

E no Mundo?

Militares usam máscaras na Catedral de Milão: ponto turístico foi fechado após surto de coronavírus na região Flavio Lo Scalzo/Reuters

Atualmente, de acordo com o jornal inglês Metro UK ao menos 7 países já declararam quarentena em todo o território nacional, são eles:

E além dos países que não decretaram quarentena em todo território nacional, há os que decretaram em determinadas regiões, bem como os que decretaram quarentena voluntária.

A Polônia, Russia e Noruega fecham suas fronteiras, a Nova Zelandia diz que passageiros que chegarem ao país, inclusive cidadãos neozelandeses, deverão permanecer isolados por 14 dias; A cidade de Londres fecha escolas e boa parte dos comércios, bem como cerca de 40 estações do Underground, o metrô londrino; os Estados Unidos decretam restrição de voos que venham da Europa. (Segundo o Jornal Metro UK, 2020).

Em cenários como estes, como as pessoas são orientadas à permanência em casa, é previsto que os comércios comecem a fechar por conta própria, as ruas já se encontrarem vazias e a sensação de quarentena ocorra mesmo sem um decreto oficial.

O colapso se estende à economia, ao abastecimento e à autoestima dos moradores.

Impactos

Empresas estão convertendo o trabalho presencial de seus funcionários em trabalho remoto (home-office), assim como também preveem queda nos lucros e atividades. A tendência é que todas as áreas em que forem possíveis o trabalho remoto, ele seja empregado o mais rapidamente possível.

E estas são as medidas que também chegarão à Psicologia, uma vez que causarão intensa mudança no estilo de vida, desemprego, mudança nas formas de trabalho; alteração nas relações sociais, na percepção da solidão e em casos de psicopatologias de caráter ansioso e depressivo, por exemplo.

E se o psicólogo ou a psicóloga forem seguir as determinações dos órgãos governamentais e da OMS, como poderá atender seus pacientes? Se devem ser evitados os deslocamentos, como os pacientes chegarão até o consultório? E todos deitarão no mesmo divã ou sentarão na mesma poltrona — onde outros que poderiam ter se contaminado sem saber já teriam deitado?

Numa profissão onde o tato tem seu lugar imprescindível, as restrições de contato podem contaminar nossa prática?

Consequências da Pandemia no trabalho da (o) Profissional da Psicologia — mudanças, restrições

No dia 14/03/2020, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), fez um comunicado à categoria que poderá ser visto neste link.

Nele, havia as seguintes orientações:

  • A(O) profissional deverá observar recomendações do Ministério da Saúde, OMS, Secretarias de Saúde e autoridades civis sobre eventuais possibilidades de quarentena, resguardo, isolamento. Para fins laborais, deverá seguir a legislação vigente referente a atestado de afastamento;
  • Recomenda-se a prestação de serviços em locais ventilados, não fechados, que permitam manter distância de um a dois metros entre pessoas, se possível. Pois, até aquele momento, não houve orientação das autoridades para suspensão de atividades;
  • Caso a(o) profissional opte pela prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologia da informação e da comunicação, como o atendimento on-line, deverá seguir as orientações da Resolução CFP nº 11/2018, em especial a necessidade de realização de um cadastro prévio junto ao seu Conselho Regional de Psicologia (CRP); (CFP, 2020)

Houve também a suspensão dos eventos com maior número de atividades no Conselho.

Contudo, dois dias depois, publicou um este comunicado sobre atendimento online, dizendo que apesar de ainda ser necessária a realização de um cadastro no portal E-Psi, durante os meses de Março e Abril, não será necessário aguardar a confirmação para realizar tais atendimentos (regra imprescindível antes da Pandemia de Covid-19).

Imagem do comunicado divulgado pelo CFP disponível em https://site.cfp.org.br/

Caso você seja psicóloga (o) e deseja saber como se cadastrar para realizar atendimento online, há um tutorial gratuito, que publiquei em um texto deste blog ensinando o passo-a-passo e com dúvidas comentadas sobre o tema. Clique neste link e disponha.

Há aderência da categoria?

É muito cedo para que tenhamos dados concretos e publicados em algum local oficial. Mas no contato que tenho tido com colegas de profissão, amigos que fazem análise, supervisão ou psicoterapia e até mesmo em meus próprios atendimentos, o atendimento online/virtual/remoto tem sido um opção bastante oferecida, considerada e utilizada. Mas ainda há sessões presenciais sendo realizadas.

E o que muda?

Isso irá depender de muita coisa, inclusive das linhas teóricas. Mas apesar de ser muito difícil de determinar, em função do pouco tempo em que isso é adotado mesmo antes da quarentena, as diferenças aparecem de maneira positiva e negativa; de maneira sutil ou moderada.

Indaga-se se poderia haver um aumento da Resistência ao Tratamento, uma redução da eficácia dos atos analíticos, mas estas são Outras discussões. Em tempos onde as opções são: a) realizar o atendimento remoto; b) interromper o tratamento; ou c) correr o risco de agravar ainda mais a pandemia desconsiderando medidas de quarentena, édevemos nos adaptar à realidade e ao que ela nos permite. Contudo, listei algumas dificuldades até agora observadas:

  • Problemas de conexão que podem causar delay (atraso) no áudio/vídeo, assim como problemas técnicos com microfone e/ou fones de ouvido;
  • Problemas de privacidade, onde o paciente encontra dificuldade em encontrar um local tranquilo, silencioso e que lhe garanta a possibilidade de falar o que quer e/ou precisa. Neste cenário, alguns optam por realizarem a sessão por dispositivos móveis de seus quartos, escritórios, banhos e até dentro de seus carros;
  • Dificuldade de manter o silêncio das sessões, podendo ele eventualmente ser confundido com problemas de conexão;

Outrossim, pude perceber, com base na minha experiência, de pessoas que passam por tratamento desta forma e também de alguns colegas: que o processo têm funcionado. Dados estes que passam milhas astronômicas de distância de serem científicos ou bem fundamentos em alguma pesquisa, uma vez que estamos falando de algo inédito.

E também há algumas vantagens percebidas, como por exemplo:

  • Possibilidade de maior desinibição de alguns pacientes, pois agora pode haver a sensação de não estar falando diretamente algo a alguém, algo semelhante àquela confiança que muitas pessoas demonstram de maneira mais elevada na internet, cabendo aos terapeutas e analistas a devida atenção à fala e ao conteúdo. Algo longe de ser o caso de casos e também longe de não ser o caso de ninguém;
  • Maior flexibilidade de horários e, em alguns casos até de valores, de forma que fique mais confortável para ambas as partes, pois cada um está em sua residência.

Contudo, o assunto do Novo Coronavirus e os impactos que ele tem na vida das pessoas, naturalmente, se tornou recorrente no consultório. A vida das pessoas mudou e irá mudar. O futuro é um lugar mais incerto do que já era em nossos tempos ditos normais. O que se pôde perceber no consultório em função da Pandemia?

Influência da Pandemia em pacientes que possuem ou não psicopatologias/Transtornos Mentais – Implicações, complicações e manejo;

Como a nossa Psiquê pode perceber a quarentena e o isolamento?

A Itália está com suas ruas vazias. A Espanha tem locais que parecem inabitados. Alguns cidadãos Europeus estão assemelhando os carros da polícia, do exército e a cidade vazia a um cenário de Guerra. E podemos nós dizer que estão errados?

Um membro da Brigada Paraquedista do Exército Espanhol patrulha a icônica Puerta del Sol, praça no centro de Madrid, na Espanha, em 17 de Março de 2020.

Nosso futuro, ao menos o futuro recente, está morto quando pensamos em algum tipo de previsão a respeito do desfecho do cenário atual. Não há ainda pleno saber da dimensão que a Pandemia irá tomar. O vírus não distingue anônimos de famosos, ricos de pobres, ateus de religiosos, brancos e pretos; políticos e apolíticos (incluindo o Presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre).

Não importa quem você seja, você está sujeito a ser contaminado. Não é uma frase tão simples de se dizer ou ouvir. Muito menos quando o preço para não ser contaminado e não contaminar ninguém é a tal da liberdade. E até aquele tal do afeto, que é expressado por abraços, beijos e apertos de mão.

Algumas pessoas podem até não acreditar na veracidade ou da gravidade desta Pandemia. Outras até o fazem, mas se recusam a levar a sério as medidas de precaução, como se suas pessoas já estivessem imunes ou ainda que seja improvável a sua contaminação.

Após recomendação de quarentena de seu Ministro da Saúde, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, vai à frente do Palácio do Planalto cumprimentar e tirar foto com manifestantes. em protesto de apoio ao Presidente e repúdio aos Outros Poderes, no dia 15/03/2020. As manifestações ocorram por todo o país, mesmo após a recorrente solicitação de não aglomeração.

Agora iremos nos deparar com nós mesmos. Mais ainda: com a fragilidade de nosso corpo, com a morte da imagem Imaginária de uma pessoa que não poderia ser nada senão sadia, potente e invulnerável, como se fosse recebesse eternamente o afeto de suas figuras de proteção.

Qual será a plateia para nossas demonstrações de potência? Seja financeira, seja de influência sobre os outros. Em alguns casos sobrará a virtual, em outros não. De onde virá nosso apoio durante este período de solidão e reclusão? E se estivermos sendo descartados do convívio social em função de nossa vulnerabilidade? Como lidar com isso?

Tudo isso poderá ser causador de grande aprendizado e fortalecimento; mas também causador de certa angústia, de certa ansiedade – e o que seria a ansiedade senão também o pensamento nas mil possibilidades de um futuro incerto, mas certamente danoso? Mas que outra chance teríamos de conhecer a nós e a aos pares, trios, grupos e aglomerações afetivas que ficarão conosco durante este isolamento?

É sem dúvida um momento de intensa reflexão: voluntária ou não, mas como fica este cenário em pacientes que já lutavam com alguns aspectos deste dia-a-dia, mas de forma nada deliberada e socialmente estimulada?É triste.

E os que tiverem Transtornos Mentais?

TOC – Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) (CID 10: F42/ DSM 5: 300.3)

Tomando como exemplo o TOC, colocarei em paralelo sintomas e necessidades nos tempos de urgência.

Caracterizado por obsessões — pensamentos ou imagens mentais de natureza recorrente, invasiva, incessante, ordenada e indesejada, que promovem severo desconforto. Nestas, em geral, há regras sobre o que pensar, organizar mentalmente ou imaginar para que haja cessão deste desconforto. E também por compulsões, onde é exigido do sujeito, por si mesmo, a realização de atos, dizeres, movimentos e até a organização do cenário externo para que haja equilíbrio internamente. Estes se tornam uma espécie de ritual, não raro fazendo parte da rotina de indivíduos durantes anos, mas que também podem ter aparição ou intensificação durante períodos específicos de sua vida. Em geral, os atos compulsivos tendem a se alinhar aos pensamentos obsessivos e/ou até serem necessários para sua cessão.

O tipo de ritual e/ou pensamento tende a variar de acordo com cada sujeito. Havendo até tipos de pensamentos e ações de múltipla ordem, em geral associados a muita ansiedade. Mas há duas formas de manifestação do transtorno que escolhi destacar: os relacionados à higienização do corpo e dos objetos/ambientes.

Rituais de Higienização Compulsiva

Para ilustrar melhor um dos casos, trouxe o vídeo a seguir, onde uma pessoa lava as mãos de maneira compulsiva dentro de uma escola:

Contudo, ao assistir este vídeo, além de me compadecer ao sofrimento de quem passa por isso, também me veio à mente algo muito incômodo: esta pessoa seguiu exatamente as recomendações da OMS sobre uma das formas de não contrair o Novo Coronavirus. Inclusive, o próprio vídeo demonstrativo do órgão pode trazer algumas semelhanças com o vídeo acima, confira novamente:

Claro que em alguns casos de TOC desta natureza o ritual chega até a tomar horas do dia do sujeito, sendo repetido até bem mais do que as 5 vezes que a OMS nos recomenda realizar tais ações.

E também não podemos esquecer da compulsão por limpeza de superfícies e ambientes:

  • pessoas que podem lavar a louça duas vezes;
  • higienizar maçanetas várias vezes ao dia;
  • limpar o chão, os móveis e os objetos da casa repetidas vezes e em determinadíssimos horários, entre outros.

Mas o nosso ponto é que:

  • Pensamentos em relação à incerteza, culpa, (pela?) a contaminação, a sujeira e a iminência de morte ou doença, podem estar associados a rituais deste tipo de TOC também. E estes não poderiam se agravar em meio a uma pandemia? Seus atos compulsivos agora podem ter, além de múltiplas e misteriosas motivações internas, uma nova e alarmante motivação externa? Sem dúvida, e este pode ser o problema;
  • Pensamentos obsessivos e atos compulsivos podem aparecer e se intensificar relação à associação de uma linha direta entre a contaminação e morte de terceiros, mais ainda quando estes são pais, mães, avós e pessoas de altíssima estima ao sujeito, que fazem parte dos Grupos de Risco, os mais propensos a complicações severas e até à morte com a COVID-19.
  • Me pergunto se também falamos de pessoas que já podem ter sentido sentimentos dúbios a respeito da vida ou morte dessas pessoas, como toda pessoa pode ter tido em alguns momentos da vida.
  • A culpa — mesmo que apenas em pensamento — de contaminar alguém nessas condições, principalmente por descuido — por sujeira, por falta de higienização e atenção — , é algo que deveras alguém não gostaria de carregar. Muito menos se já houve pensamentos desta ordem em algum momento, mesmo que distante, de sua vida. E geralmente nestes momentos se intensificam os rituais e o sofrimento destes pacientes.
  • Agora que há uma justificativa elevadamente plausível (mesmo que em níveis e intensidades diferentes) para alguns destes atos dos sujeitos, o acompanhamento destes casos será crucial para que os sujeitos consigam diferenciar seus sintomas de seus cuidados.

Transtornos de Ansiedade Generalizada, Social e Pânico; Fobias, Estresse Pós-Traumático; Depressão e Compulsão por Compras (Oniomania)

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Os pensamentos a respeito de um futuro incerto, o medo irracional de objetos e situações e, pasme, aglomerações; o temor em sair de casa e a falta de prazer e vontade em relação às atividades disponíveis durante o isolamento; a compra compulsiva por itens como alimentos, álcool gel e até papel higiênico, e até armas! O conhecido panic buying. Sem contar na ansiedade que é experimentada durante todo contato social, evitando-o ao máximo.

Observando tais comportamentos da maioria da população em suas casas, estabelecimentos, cidades e até países, poderíamos até experimentar um sentimento parecido com aquele de Simão Bacamarte em Itaguaí. Mas definitivamente não podemos apressar nossos julgamentos, conforme fez, erroneamente, o médico português da obra de Machado.

Pessoa idosa se deparando com escassez de produtos de higiene pessoal,

Se em dias normais estaríamos falando de claramente de sintomas de alguns Transtornos Mentais como Depressão, Transtorno do Pânico, Agorafobia, Compra Compulsiva e TOC, nos dias de hoje, comportamentos incomuns como os que foram descritos, podem se tratar de necessidades reais. Mas nem sempre, precisamos de muita atenção neste momento:

Um paciente que sofre de hipocondria (condição caracterizada pelo medo desproporcional de ficar doente e/ou a constante confusão de condições normais a sintomas de doenças graves e/ou recorrentes) poderá experienciar ou acreditar estar vivenciando sintomas da Covid-19 em função de seu estado mental. Assim como um paciente que sofre de algum transtorno de ansiedade poderá experimentar falta de ar durante uma crise de ansiedade e confundí-la com um sintoma da doença causada pelo Novo Coronavirus. Daqui poderia acontecer, por exemplo, uma ida desnecessária aos hospitais que poderá: tirar as escassas vagas de quem precisa e até gerar uma exposição desnecessária que resulte num contágio real.

A sutileza da diferença entre o que pertence ao interno e ao externo nunca foi de tamanha importância. E aí é que entrará a importância do trabalho dos profissionais da saúde mental — mesmo que online!

O isolamento poderá mobilizar o paciente deprimido, assim como o paciente que sofre de Pânico poderá reagir de maneira desproporcional às orientações de ficar em casa. Quando tivemos o surto de outro tipo de coronavirus em 2003, um número considerável de pacientes e profissionais das equipes médicas que cuidaram destes, desenvolveram sintomas e transtornos de ansiedade, estresse pós-traumático, depressão e Agorafobia.

Nosso trabalho envolverá pacientes da doença ou não, acometidos por esta onda esmagadora de tensão que vive o mundo. Equipes médicas sobrecarregadas, familiares em luto e até pacientes que entrem em Cuidados Paliativos necessitarão de profissionais da Saúde Mental como nunca antes visto.

Nosso papel será, além de atenuar o agravamento dos sintomas daqueles que já sofrem destas condições e tentar minimizar o impacto psicológico que estes tempos poderão trazer.

Mas o faremos com calma.

Sugestões, discussões e possíveis soluções para a atuação da Psicologia em meio a este cenário Mundial nunca antes visto em sua história como ciência e profissão

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP e ganhador do Prêmio Jabuti. Foto: O Estado de Sâo Paulo

Os profissionais da psicologia também são treinados para a atuação em situações de emergência e desastres. Esta é, inclusive, uma linha de atuação da profissão. Contudo, e quando eles mesmos estão em quarentena? Quando mesmo não sendo desta especialidade, precisarão agir de forma minimamente semelhante com seus pacientes e clientes que também são afetados por tal condição?

“Se você está exagerando na compulsão por notícias ou no estoque de álcool gel, verifique se não está tentando pular o trabalho de “se acalmar”. Ler, meditar, conversar livremente, escrever são práticas que ajudam para isso”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Em entrevista ao Estadão, Christian Dunker, psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP, e autor de diversas obras, sendo uma delas ganhadora do Prêmio Jabuti. Quando perguntado sobre os efeitos de isolamentos/confinamentos ao redor do mundo, nos faz olhar para a semântica cultural da palavra, que poderia ser muito significante à forma com que fomos apresentados ao que fazia ilusão, em outros momentos, às situações de hoje: “o confinamento é uma experiência psíquica desafiante, pois aprendemos desde cedo que ele é uma forma de punição: ‘vá pensar no seu quarto’ ou pior ‘vá para a prisão'”.

O autor classifica o isolamento como experiência “potencialmente ansiogênica [que cria ansiedade]”, e que “Notícias, informações e cuidados podem nos acalmar desde fora, mas a angústia que a solidão causa, exige que nos pacifiquemos desde dentro..”. A orientação do Ganhador do Prêmio Jabuti é que:

“Se você está exagerando na compulsão por notícias ou no estoque de álcool gel, verifique se não está tentando pular o trabalho de “se acalmar”. Ler, meditar, conversar livremente, escrever são práticas que ajudam para isso”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

O psicanalista nos alerta que este cenário também pode estimular nosso egoísmo, sensibilidade e até negação da realidade severa e preocupante que nos ronda. Para o pós-doutor pela Manchester Metropolitan University, estas situações podem nos remeter a algo semelhante ao desemparo, ao abandono e à desproteção.

O psicólogo ilustra o que o caos de uma pandemia pode mobilizar em nossa psiquê: tanto uma narrativa desesperada, buscando apontar que haja, por parte da humanidade, alguma forma de controle a respeito da situação de exceção, como quais sentimentos poderiam aparecer sem a presença de tais narrativas:

“Podemos simplesmente negar a situação, colocando a cabeça dentro da terra, podemos inventar conspirações delirantes de modo a nos garantirmos que no fundo há “um sentido maior nisso”. Podemos nos sentir desamparados, abandonados, como se nossos protetores tivessem tirado férias”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Fica a pergunta:

Se a presença do vírus e, consequentemente, a ausência da imagem que tentávamos manter perante o mundo persistir, será que o Novo Coronavirus poderá ser um antídoto para o Mal Estar que nossa Civilização estaria vivendo em função do Poder? Pois como algo microscópico poderia ter tanta facilidade em derrubar Grandes Nações e, ao mesmo tempo, nos causar tanta dificuldade perante a Grandeza (ou mania de) de alguns?Esperemos que o psicanalista esteja certo a respeito do aprendizado que este momento poderá nos prover em meio a tanto desprovimento. Pois, ao que parece, sua visão também contém certo otimismo:

“Penso que será uma dose cavalar de vitamina h que está faltando ao Brasil, ou seja menos potência de controle, arrogância e grandiosidade e mais humildade diante da vida e dos pequenos microorganismos que podem nos derrubar”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Leia a entrevista diretamente no site do Estado de São Paulo clicando aqui.

Há males que vem para o Bem? Parece ser exatamente o tipo de discurso que seria criticado por outra e não menos importante referência na área.

“A cada doença são atribuídos significados diferentes, mas o pano de fundo é quase sempre um ódio pela vida urbana como lugar mefítico, perigoso, onde o mal prolifera”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

Já o também psicanalista italiano radicado no Brasil, deixa sua impressão. Contardo Calligaris, que já realizou um doutorado em Semiologia com Roland Barthes e também participava das conferências do famoso psicanalista francês Jacques Lacan, dedicou sua Coluna Semanal à Folha de São Paulo às falas sobre o Novo Coronavius. Numa delas do dia 11/03, avaliou o “Coronavirus como Metáfora“, num genial comparativo da Covid-19 com outras chagas de nossa história.

Calligaris, 2009 (foto:Rodrigo Cancela/CPFL Cultura)

Colocando tais doenças como metáforas (sintomas?) aos acontecimentos de uma determinada cultura, podendo estas serem utilizadas, em discursos oportunistas como formas de castigo aos comportamentos humanos, que alguns grupos radicais querem excluir, usando como exemplo os que era dito durante a epidemia de AIDS nos anos 80:

“A cada doença são atribuídos significados diferentes, mas o pano de fundo é quase sempre um ódio pela vida urbana como lugar mefítico, perigoso, onde o mal prolifera”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

Mas também chamou atenção à doença atual que, por coincidência ou não, poderia até servir de metáfora, de narrativa, para comportamentos e pensamentos inerentes deste determinado período civilizatório:

“Considere a Europa se fechando diante dos refugiados africanos e asiáticos, e os Estados Unidos, diante dos refugiados das Américas. Considere a Inglaterra do brexit. Considere a volta de patriotismos abstratos mundo afora. Considere a estranha vontade de construir muros. Paira no ar uma nostalgia do lar, um suposto “amor” da “nossa terra”, que é sobretudo medo do novo e do estrangeiro”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

E o produtor da serie Ps! (Psi) da HBO ressalta que: “A epidemia de coronavírus será, por um tempo, metáfora da resistência à ampliação do mundo. Mas não é o caso de se preocupar. A epidemia não vai ganhar, não como metáfora”.

É possível ler sua coluna completa clicando neste link.

“[…] é a primeira pandemia em época de televisão e de streaming e, sobretudo, a primeira em que dispomos da possibilidade ilimitada de nos relacionar com amigos, parentes e amantes. Podemos estar isolados mas nunca sozinhos”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Uma semana depois, num considerável aumento da doença pelo mundo, suas cirúrgicas impressões se atualizam um pouco mais — fazendo um deslocamento importante de nossos olhares para o frequente estágio de negação das pessoas perante à doença, ao invés das urgências em realizar estoques de produtos como alimentos e itens de higiene, frequentemente colocado em foco.

Para citar exemplos de tais fenômenos o psicanalista cita que: “um bispo declara que o vírus é simpático e irrelevante, enquanto o medo do vírus é coisa de Satanás”; e também a aparente despreocupação do Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Bolsonaro, frente à Pandemia:

“Outro exemplo de negação nos foi oferecido pelo presidente do Brasil, que se comportou como um garotão, o que o tornaria até simpático, se ele não fosse presidente. O que significa se comportar como um garotão? Significa uma insegurança radical, pela qual nada é tão importante quanto receber um aplauso.

Bolsonaro pode certamente entender os argumentos de seu próprio ministro da Saúde, mas é incapaz de resistir ao charme de um breve momento em que será admirado por um punhado de seguidores”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Para o escritor ítalo-brasileiro, ao caminhar portando a bandeira que antes estava na mão de um de seus apoiadores à porta do Palácio do Planalto, o Presidente demonstrou um “exemplo perfeito de patriotismo abstrato”, pois […]um transtorno narcisista (banal nos adolescentes, mas nem tanto num idoso) prevaleceu sobre qualquer cuidado (este, concreto) com a população brasileira”, um entusiasmo que o presidente acreditava causar em seus apoiadores enquanto tentava demonstrar felicidade e patriotismo, seus atos colocavam em perigo seus “compatriotas”.

Presidente Jair Bolsonaro segurando uma Bandeira do Brasil, pega das mãos de manifestantes no Palácio do Planalto, mesmo contrariando as recomendações de seu Ministro da Saúde

Mas nem tudo é ruim na visão do Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de Provença, na França. Ele também acaba elogiando o canto que revelava o “sentimento de um destino compartilhado” daqueles confinados na quarentena que ocorre em sua Terra Natal, o que considera, de fato, patriotismo.

O psicanalista, que também diz na Coluna que está atendendo seus pacientes de maneira remota (online), ressaltou o lado bom que pode haver neste momento de nossa história:

“[…] é a primeira pandemia em época de televisão e de streaming e, sobretudo, a primeira em que dispomos da possibilidade ilimitada de nos relacionar com amigos, parentes e amantes. Podemos estar isolados mas nunca sozinhos”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Clique aqui e leia o texto de Contardo Calligaris na íntegra.

“O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

O Presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), Bernardo Tanis, publicou no blog da Instituição uma carta de recomendação aos psicanalistas do Instituto. Conhecido por sua tradição, o local que foi pioneiro e é referência em oferecer, oficialmente, uma formação em psicanálise no Brasil, foi responsável pela formação em de muitos profissionais no Brasil. Entre eles, muitos psicólogos, médicos e psiquiatras.

Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP. Foto disponível em: https://psicanaliseblog.com.br/

Dentre estas orientações uma se destaca: “estarmos disponíveis para nossos analisandos, seja de modo presencial quando possível ou pelas ferramentas remotas ao nosso alcance”. Conforme já sabemos, o analista deve mostrar seu desejo: que o analisando se analise! E hoje os meios tecnológicos permitem mais flexibilidade em tempos como este.

Tivemos casos de negação da condição e dimensão reais do vírus, um dado que, mesmo denso, merece receber nosso olhar com atenção nos casos recentes.

Em ligeiro tom de advertência, Bernardo nos lembra a importância de não ficarmos próximos a nada que for extremo:

“O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

Mesmo considerando as medidas adotadas pelos Governos mundo afora como “importantes” e “necessárias”, o psicanalista que também é Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP, deixou um importante recado sobre o momento em que vivemos:

“Como psicanalistas sabemos que a incerteza, o medo e a insegurança têm ressonância com angústias primárias e o nosso desamparo constitutivo e demandam também outras modalidades de contenção. O melhor e o pior da humanidade emergem nestas horas”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

Considerações Finais

Apesar de minhas impressões vazarem ao longo da escrita, a intenção deste artigo não era bem revelá-las, mas aproveitando o inevitável, me vem à cabeça o duro golpe dado pelo vírus em nosso Saber,

Ele danifica nossos pulmões muito menos do que o faz em relação à nossa Imagem de que tudo estaria sob controle. Os Lugares que passaremos a ocupar nesta sociedade que foi contaminada pelo nosso temido e angustiante Não Saber, se tornaram plenamente incertos. O tempo que ficaremos sob o confinamento de todas as nossas certezas é, decerto, muito menos certo do que a única coisa que será Real a respeito de tudo isso: o nosso Não-Saber.

A partir da Pandemia de um vírus invisível, sofreremos daquilo que nos será indizível, inominado e inaudível a tudo que construímos como civilização até hoje, da frase que assola da criança ao Presidente; do terraplanista ao cientista; do religioso ao cirurgião: ainda não somos bons o suficiente.

Mas meus colegas sabem bem que daremos nosso jeito. A dor e a perda farão parte do processo, bem como fizeram de nossa Constituição como Sujeitos; a falta de liberdade nos fará lembrar dos dias de chuva que vivíamos lá atras, mas sem previsão de Sol tão cedo. Contudo, seja pela culpa, pela alegria ou por alguma bondade resista em meio à tantas histórias: sejamos solidários, sejamos lúcidos e pacientes. Mas não sejamos neutros — e que não nos falte ar para gritar, mesmo que pela internet — que resistimos. E será um prazer resistir, dividir e existir, pois, nas últimas aspas deste artigo:

“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.”

Carl Sagan

Por Caio Cesar Rodrigues .

REFERÊNCIAS

(Em ordem e estilo livre)

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014

Organização Mundial da Saúde. CID10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10a rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997.

https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses

http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-188-de-3-de-fevereiro-de-2020-241408388

http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-356-de-11-de-marco-de-2020-247538346

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/03/19/senado-vai-votar-projeto-de-decreto-de-calamidade-publica-nesta-sexta

http://www.saude.sp.gov.br/resources/cve-centro-de-vigilancia-epidemiologica/areas-de-vigilancia/doencas-de-transmissao-respiratoria/influenza/doc/srag18_orientacao_atendimento_casos.pdf

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51803421

https://www.dw.com/pt-br/do-que-os-v%C3%ADrus-precisam-para-sobreviver/a-52573544
(Conselho Federal de Psicologia, 2020. Disponível em: https://site.cfp.org.br/coronavirus-comunicado-a-categoria/ . Acessado em: 19/03/2020).

Coronavírus: Comunicado sobre atendimento on-line

https://brasil.estadao.com.br/blogs/inconsciente-coletivo/saude-mental-durante-a-pandemia-por-christian-dunker/

Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/03/quais-os-efeitos-do-coronavirus-na-cabeca-da-gente.shtml. Acessado em: 20/03/2020

Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/03/quais-os-efeitos-do-coronavirus-na-cabeca-da-gente.shtml. Acessado em: 20/03/2020

Bernardo Tanis, 2020. Via blog de psicanálise da SBPSP. Disponível em: https://psicanaliseblog.com.br/. Acessado em: 20/03/2020

Saiba onde buscar atendimento psicossocial na rede pública

O que é o CAPS, CRAS e outros?

Ao falar sobre o tema do #JaneiroBranco, pensei em trazer um texto de caráter informativo, comentando sobre a rede assistencial à saúde mental que a população, de modo geral, muitas vezes desconhece que tem acesso.

Lugares de acolhimento, de tratamento e escuta possíveis para as demandas da população.

Quero comentar também brevemente o histórico da Luta Antimanicomial e a transição para o modelo atual, apontando sobre alguns dos dispositivos de saúde pública onde a psicologia está inserida.

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Luta Antimanicomial

É inviável começar essa conversa sem falar sobre o movimento conhecido como Luta Antimanicomial. Um movimento que se inicia à partir da Reforma Psiquiátrica no final dos anos 70, bem durante a redemocratização do país, uma série de grupos organizados da Sociedade Civil iniciam um questionamento acerca do modelo clássico de assistência.

Com a visita do médico italiano Franco Basaglia, as mudanças se iniciam no sentido de maior atenção ao bem-estar do paciente.

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A Luta Antimanicomial se dá fortalece com a mudança dos hospitais psiquiátricos para os CAPS, por exemplo. Um atendimento humanizado, sem viés religioso e com um zelo pelo PIA (Plano Individual de Atendimento).

Saímos de um modelo arcaico, muito mais generalista e opressor, para um modelo mais humano e com foco nas demandas individuais de cada paciente. Antes os manicômios funcionavam como depositários do que não queríamos ver e lidar, tudo aquilo que nos causava aversão, espanto e confusão.

Um espaço relevante neste cenário, presente ainda hoje Brasil é o  Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. Mais conhecidos como Manicômios Judiciários, são espaços para onde são destinados portadores de transtornos psiquiátricos que cometeram algum tipo de delito. Funcionando como um hospital-presídio à partir de uma lógica ao mínimo questionável, na prática se estabelece um lugar de confinamento onde a duração dos tratamentos é constantemente prolongada por relatórios psiquiátricos periódicos. Um lugar onde o Estado deposita aqueles com quem não sabe lidar.

À título de referência, umas das obras narrativas mais importantes para quem se interessa pelo tema é o clássico “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex, onde a jornalista narra a história do “Colônia”, o maior hospício já criado no Brasil, que era sediado na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido no local.

Hoje, uma rede de dispositivos ligados ao Sistema Único de Saúde responde pelo atendimento a pessoas portadoras de transtornos mentais, e presta suporte às suas famílias.

Saúde Pública e Psicologia

A Psicologia está presente em diversos espaços terapêuticos e assistenciais hoje através do SUS (Sistema Único de Saúde). Existe atendimento psicológico gratuito, por exemplo em Unidades Básicas de Saúde (UBS), mais conhecidos como “Postos de Saúde”, mas que normalmente encontra limitações na extensão e aceitação por parte dos pacientes, além dos já conhecidos problemas de infraestrutura.

CAPS

O CAPS, sigla para “Centro de Atenção Psicossocial”, é talvez o mais conhecido deles. Ele foi o principal substituto aos hospitais psiquiátricos, ou manicômios. Ele oferece atendimento local/regionalizado, para uma população definida. Existem atualmente os modelos abaixo:

“CAPS I – Destinado a um território com população entre 20 000 e 70 000 habitantes (critério para implantação) e é referência para um território com população de até 50 000 habitantes.

Não há limite de idade para a utilização. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita domiciliar e atendimento à família.

CAPS II – Destinado a um território com população entre 70 000 e 200 000 habitantes (critério para implantação) e é referência para um território com população de até 100 000 habitantes.

Não há limite de idade para a utilização. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita domiciliar e atendimento à família.

CAPS III – Destinado a um território com população acima de 200 000 habitantes (critério para implantação) e é referência para um território com população de até 150 000 habitantes.

Não há limite de idade para a utilização. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.

O CAPS III constitui-se no principal dispositivo CAPS e presta um serviço de atenção contínua, durante 24 horas, diariamente, incluindo feriados e finais de semana, com capacidade de acolhimento, observação e repouso noturno. No caso da necessidade do usuário utilizar o leito noturno, a utilização não pode exceder sete dias consecutivos ou dez dias não consecutivos.

Desempenha o papel de principal regulador da porta de entrada da rede assistencial em saúde no âmbito do seu território e/ou do módulo assistencial e é também o principal dispositivo substitutivo da internação em hospital psiquiátrico. É a mais complexa modalidade de CAPS para a prestação do atendimento em transtorno mental.

CAPSi II – Destina-se ao atendimento de crianças e adolescentes e é concebido para atender preferencialmente portadores de transtornos mentais graves. Pode também atender, eventualmente, usuários de álcool e outras drogas. Destinado a um território com população acima de 200 000 habitantes, é referência para um território com população de até cerca de 200 000 habitantes ou outro parâmetro populacional definido pelo gestor local. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.

CAPS ad II – Destina-se ao atendimento de usuários com transtornos mentais decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas (incluindo o álcool). Recebe esses usuários para tratamento e recuperação, com ênfase na redução de danos, com o estímulo a novos hábitos, visando à diminuição de internações hospitalares para desintoxicação e outros tratamentos. Destinado a um território com população acima de 70 000 habitantes. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.

CAPS ad III – É destinado a proporcionar atenção integral e contínua a usuários com transtornos mentais decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas (incluindo o álcool), com funcionamento durante as 24 horas do dia, inclusive nos feriados e finais de semana. Foi idealizado para atender a uma população de 200 000 a 300 000 habitantes por unidade. Nas capitais dos Estados, todos os CAPS ad II passam a ser CAPS ad III.

Em cada região de abrangência, o município sede deverá, através de um plano de ação regional, indicar um hospital geral de referência para o CAPS ad III – Regional, que funcione como apoio qualificado a usuários que apresentem quadros de abstinência, intoxicação aguda ou agravos clínicos relacionados ao consumo de álcool e outras drogas. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.”

CRAS

O Centro de Referência de Assistência Social e é uma unidade de tratamento vinculado ao Sistema Único da Assistência Social. Ele se constitui como uma rede de locais que se prestam à fornecer serviços de proteção básica, e são, frequentemente portas de entrada para demais serviços e benefícios de assistência social.

O Cras é destinado à população que vive em situação de fragilidade decorrente da pobreza, acesso precário ou nulo aos serviços públicos, bem como fragilização de vínculos afetivos (discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiências, dentre outras).

Hospital Dia

Outro espaço importante no acolhimento da população é o Hospital Dia, modelo que recebe o paciente em internação por no máximo 12 horas e funciona como um intermediário entre um ambulatório e um espaço de internação prolongada.

O atendimento psiquiátrico acontece no Hospital Dia e tem se mostrado eficaz na medida em que o paciente não precisa se afastar de sua família, o que é fundamental em casos de ressocialização, por exemplo.

 

Com a Saúde Mental se tornando um tema cada vez mais presente no debate público, julgo importante apontar para o modelo de assistência à saúde mental que temos atualmente no país, fortalecendo o acesso da população à tratamentos fundamentais.

Até a Próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Arbex, D. (2013) Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração Editorial.

Biblioteca Virtual em Saúde. (2018). Recuperado em 30 de janeiro de 2020, de http://bvsms.saude.gov.br/ultimas-noticias/2721-18-5-dia-nacional-da-luta-antimanicomial-2

Cidade de São Paulo: Assistência e Desenvolvimento Social. (2020). Recuperado em 30 de janeiro de 2020, de https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/assistencia_social/protecao_social_basica/index.php?p=1906

Ministério da Saúde. (2012. 26 de janeiro). Portaria Nº 130. Recuperado em 30 de janeiro de 2020, de http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt0130_26_01_2012.html

Winnicott: Holding, Handling e Apresentação dos Objetos

Expoente da chamada escola inglesa de psicanálise, D. W. Winnicott (1986 – 1971) foi um médico pediatra e psicanalista pós-freudiano que conseguiu criar uma dimensão original na psicanálise. Em sua trajetória, entre outros tópicos, destacam-se:

  • o papel e valor do ambiente/cuidador para com o desenvolvimento do indivíduo;
  • as funções de holding, handling e apresentação de objetos;
  • a descoberta do objeto transicional e da zona potencial;
  • os conceitos de verdadeiro e falso self;
  • a teoria da tendência antissocial e delinquência.

Escola britânica de psicanálise e Donald Winnicott

Winnicott foi supervisando de Melanie Klein (1882-1960) – psicanalista austríaca responsável por pioneiras teorias e descobertas acerca do aparelho psíquico do bebê e da criança – sendo que a teoria kleiniana serviu tanto para Winnicott confirmar algumas de suas investigações, como para o guiar e inspirar sua em própria teoria e abordagem, distinta da clínica de Klein.

O olhar de Winnicott mirou o ambiente e os cuidados maternos que cercam o início da vida de alguém. Diferente de Klein, ele nos diz que não é possível compreender a vida psíquica primitiva do bebê olhando apenas para esse e suas fantasias, mas deve-se analisar também o ambiente no qual ele está inserido e como são os cuidados que ele recebe.

Dessa forma, a teoria winnicottiana nos diz que não existe um bebê separado do seu cuidador (There is no such thing as a baby / a baby alone doesn’t exist) Winnicott,

“Se a dependência realmente significa dependência, então a história de um bebê individualmente não pode ser escrita apenas em termos do bebê. Tem de ser escrita também em termos da provisão ambiental que atende a dependência ou que nisso fracassa”.

(Winnicott, 1975, p. 116)

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(Melanie Klein e Donald W. Winnicott, em jantar para M. Klein, em Londres de 1952).

Dependência e ambiente em Winnicott

Winnicott observou que ao nascer, diferente de alguns outros bichos, o ser humano é completamente dependente de seu cuidador, sendo que, caso esse não provenha alimento e segurança para o bebê, o mesmo certamente morrerá, uma vez que é incapaz de buscar, inicialmente e por conta própria, o conforto no ambiente – ele chamou isso de dependência absoluta.

Na teoria winnicottiana aparecem 3 fases de dependência: absoluta; relativa e rumo à independência. Na dependência absoluta não há separação entre corpo e meio; ainda não existe Eu configurado; o indivíduo é completamente dependente do ambiente. Na dependência relativa começamos a encontrar o self separado do outro; é o início da distinção do ser; há Eu e há outro; envolve a utilização de objeto transicional; o indivíduo começa a buscar o ambiente, mas ainda necessita de cuidados de alguém. No rumo à independência temos o estabelecimento de relacionamentos do indivíduo para com objetos externos baseados no princípio da realidade. Para o autor, o ser humano é um ser potencialmente criativo, que carrega uma tendência inata para a integração e o desenvolvimento, mas cabe ao ambiente oferecer o suporte para que essas potencialidades se realizem. Dessa forma, Winnicott fala de um ambiente facilitador ou suficientemente bom, representado pela mãe suficientemente boa (good enough parent): alguém que consegue, de forma empática, sensível e dinâmica se adaptar aos diversos estágios de desenvolvimento do bebê e responder adequadamente tanto às suas necessidades quanto às suas tolerâncias em suportar a frustração. De acordo com o autor, é função da mãe suficientemente boa: o holding; o handling; e a apresentação dos objetos.

Sustentação (Holding)

Geralmente traduzido como sustentar ou segurar e, por outras vezes, mantido no original “holding”, o termo faz referência ao suporte físico e psíquico oferecido ao bebê pelo seu cuidador. Envolve um padrão empático e uma rotina nos cuidados do bebê e se expressa como um conjunto de comportamentos afetivos relacionados ao alimentar, limpar, proteger, uma vez que o bebê precisa estar fisicamente seguro e psicologicamente acolhido. O holding permite uma certa estabilidade e previsibilidade do ambiente, o que é fundamental para o desenrolar das tendências hereditárias do indivíduo. De acordo com Winnicott, esse processo se dialoga diretamente com a continuidade do ser, com a noção de ilusão e com a integração das partes do self.

“Tudo isso é muito sutil, mas ao longo de muitas repetições, ajuda a assentar os fundamentos da capacidade que o bebê tem de sentir-se real. Com esta capacidade o bebê pode enfrentar o mundo ou (eu diria) pode continuar a desenvolver os processos de maturação que ele ou ela herdaram.”

(Winnicott, 2012, p. 5)

“quando o ato de segurar o bebê é perfeito (e de um modo geral assim é, já que as mães sabem exatamente como fazê-lo),o bebê pode adquirir confiança até mesmo no relacionamento ao vivo, e pode não integrar-se enquanto está sendo seguro. Esta é a experiência mais enriquecedora. Freqüentemente, no entanto, o ato de segurar o bebê é irregular, e pode até mesmo ser desperdiçado pela ansiedade (o controle exagerado da mãe para não deixar o bebê cair) ou pela angústia (a mãe que treme, a pele quente, um coração batendo com muita força, etc.), casos em que o bebê não pode dar-se ao luxo de relaxar. O relaxamento acontece então, nestes casos, apenas por pura exaustão. Aqui, o berço ou a cama oferecem uma alternativa muito bem-vinda.”

(Winnicott, 1990a, p. 61)

Manejo (Handling)

Vibrant Health Mother hugging child – Katie M. Berggren

Traduzido como manejo ou deixado no original “handling”, esse termo deriva de hand (mão) e diz respeito ao contato pele com pele entre bebê e cuidador. Faz referência aos cuidados físicos e envolve o manuseio corporal do bebê durante os suportes básicos como: banho, troca e amamentação, por exemplo. Segundo o autor, o handling auxilia a formar as bordas do corpo, a harmonizar a vida psíquica (realidade interna) com o corpo (esquema corporal), a diferenciar o Eu do outro, e a reconhecer sua própria psique dentro do seu próprio corpo (personalização). Dessa forma, o par segurar-manejar é fundamental para o estabelecimento das bases mínimas que possibilitarão a instauração de um ser saudável e criativo.

“Um bebê pode ser alimentado sem amor, mas um manejo desamoroso, ou impessoal, fracassa em fazer do indivíduo uma criança humana nova e autônoma”.

(Winnicott, 1975, p. 172)

Apresentação de Objetos (Object-presenting)

Por fim, mas não menos importante, a 3ª função que compete à mãe suficientemente boa é a apresentação dos objetos (ou apresentação de mundo), que consiste em oferecer objetos substitutos de satisfação. Relaciona-se com a apresentação da externalidade e da realidade. É fundamental para a avanço da fase de dependência absoluta para dependência relativa, uma vez que possibilita o interesse, curiosidade e a busca por objetos de satisfação para além da cuidadora. A mãe deve apresentar o mundo em pequenas doses, ao passo em que permita a ilusão inicial (onipotência) de que quem criou aquilo foi o bebê. Segundo o autor, essa apresentação carrega a função formativa que permite o estabelecimento das relações objetais.

“O bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma necessidade não-formulada. A mãe, em se adaptando, apresenta um objeto ou uma manipulação que satisfaz as necessidades do bebê, de modo que o bebê começa a necessitar exatamente o que a mãe apresenta. Deste modo o bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato da experiência.”

(Winnicott, 1990b, p.56).

Ambiente e Self

De acordo com o autor, o sucesso dos processos ambientais possibilitará o desenvolvimento e a estruturação saudável do ser (distinto, autêntico e criativo), assim como as falhas ambientais (negligências, intrusões ou desastres) levam ao desenvolvimento adaptativo e reativo de personalidade ao ambiente. O verdadeiro self e a sensação de que a vida vale apena ser vivida, apontada por Winnicott, é a realização da nossa tendência e potencial de desenvolvimento, assim como as estruturações defensivas do self, as neuroses e sensação de futilidade do viver, são características de um falso self que precisou se adaptar e/ou reagir a um ambiente falho.

Para saber mais sobre verdadeiro e falso self, recomendo a leitura do texto Explicando Winnicott: Criatividade Primária, onde abordo mais aspectos do desenvolvimento emocional primitivo e trago algumas relações entre o self e a criatividade primária. Deixo também como recomendação o trecho de “A criatividade humana e a crise contemporânea”, com psicanalista Carlos Plastino, que discorre sobre a temática.

Referências e complementos

Winnicott, D. W. (1975). O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago

Winnicott, D. W. (1990a). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, D. W. (1990b). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.

Winnicott, D. W. (2012). Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.

Por Caio Ferreira

Sociedade dos Psicólogos participa de SIPAT no CDP – Belém I

Na última quarta-feira (23/10/2019) os Psicólogos Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos (CRP 06/139621) e Caio Henrique Ferreira da Costa (CRP 06/147859) participaram da SIPAT que aconteceu no Centro de Detenção Provisória I Chácara Belém, com a palestra “Dependência Química: que droga é essa?”.

Os principais tópicos abordados e discutidos foram:

  • O que é droga?
  • Como chamar quem usa droga?
  • Quem usa droga no Brasil?
  • Internar resolve?
  • Como se livrar da droga?
  • Médico, psicólogo ou igreja?
  • Experimentar vicia?
  • Alterações afetivas e comportamentais do usuário.

Caio Cesar Psicólogo
(Caio Cesar Rodrigues)

As Drogas e suas características

Caio Cesar Rodrigues falou, principalmente, sobre composição, efeitos, características e perfil de usuário, correspondente às substâncias: crack, oxi, cocaína, MDMA, lança perfume, tabaco, maconha, heroína, álcool, cafeína e chocolate (açúcar). Também abordou os tipos de usuários e dependências, bem como os nomes e expressões associadas à esses fenômenos.

expressão facial drogasO afeto e comportamento do usuário

Caio Ferreira expôs os 3 grandes grupos de drogas (depressoras, estimulantes e perturbadoras do sistema nervoso central) e contribuiu, principalmente, com o mapeamento das alterações afetivas e comportamentais da pessoa intoxicada, onde citou a utilização do Facial Action Coding System (FACS) como uma ferramenta auxiliar nos processos de detecção e intervenção.

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