Mulheres na fenomenologia brasileira

Dicas de livros na abordagem fenomenológico-existencialista

Em 2013, o Conselho Federal de Psicologia lançou o livro “Quem é a Psicóloga brasileira: Mulher, Psicologia e trabalho” e apresentou dados de uma pesquisa revelando que 88% da nossa classe é formada por mulheres. Apesar desta porcentagem significativa, a atuação de mulheres na ciência se tornou uma possibilidade muitos anos depois da dos homens. Nossa existência nessa área vem trazendo inúmeros desafios. Lidamos com estereótipos e preconceitos de diversas formas.

Uma pesquisa feita em pelo CNPQ (Conselho Nacional de desenvolvimento Científico) em 2020 aponta que, no Brasil, a presença feminina dentro das instituições de ensino diminui à medida que os estudos avançam. Ocupamos 58% das bolsas de iniciação científica durante a graduação e apenas 38% quando se consideram as bolsas de produtividade em pesquisas ( mestrado e doutorado).

Seguimos enfrentando os desafios de sermos Psicólogas brasileiras e profissionais da ciência!

Quem são as autoras e pesquisadoras da área que você têm interesse?

Alguns dias atrás troquei reflexões com um colega de profissão sobre a quantidade de autores homens e autoras mulheres que estudamos durante a graduação e desde então. Percebi que eu nunca tinha levantado este questionamento antes e gostaria de compartilhá-lo com vocês também. Vamos dar mais visibilidade para as autoras e pesquisadoras dentro da Psicologia? Convido-lhes a conhecer uma pequena amostra de obras brasileiras sobre a teoria fenomenológico-existencialista.

Psicologia fenomenológica: Fundamentos, método e pesquisa

Yolanda Cintrão Forghieri

capa do livro retirada da pesquisa no Google

Com uma extensa caminhada acadêmica e docente, Yolanda Cintrão Forghieri desenvolveu diversos trabalhos em Psicologia.

Nesta obra, apresenta de forma fluída alguns fundamentos sobre a fenomenologia e traz pontos sobre a metodologia de pesquisas na área.

Recebi a indicação deste livro como conteúdo extracurricular para revisar alguns pontos sobre a feno. A clareza de sua linguagem torna possível a assimilação sobre a apresentação das bases teóricas.

Outras obras e palestras da autora podem ser encontradas facilmente através de sites de busca.

Conversa sobre terapia

Bilê Tatit Sapienza

Capa do livro retirada de pesquisa no Google

Com uma linguagem sensível e poética, Bilê Tatit Sapienza discorre sobre o processo Psicoterapêutico dando luz a aspectos sutis e profundamente significativos. Desta maneira, a autora promove reflexões sobre o relacionamento que se dá entre terapeuta e cliente.

Meu contato com esta obra aconteceu antes do início do estágio em atendimento clínico na abordagem fenomenológica. Digo-lhes que foi uma leitura transformadora e extremamente acolhedora. Lembro-me que as discussões sobre o livro proporcionaram uma nova possibilidade de olhar para o processo psicoterapêutico.

Deixo aqui o convite para que conheçam também outras obras da autora como “Do desabrigo à confiança”(2013) e “Encontro com a Daseinsanalyse” (2015) .

Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil

Organização de Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo e Elaine Lopez Feijoo

Capa retirada do site da editora IFEN.

Publicado pela Editora Científica IFEN (Instituto de Psicologia Fenomenológico Existencial do Rio de Janeiro), este livro traz reflexões sobre o modo de ser-criança na contemporaneidade, desenvolvimento infantil, entre outros temas.

Além de Feijoo e Feijoo, outras quatro autoras estão presentes: Cristine Monteiro Mattar, Joannelise de Lucas Freitas, Débora Candido de Azevedo e Débora Gil.

Para aquelas que trabalham com crianças ou tem interesse em, fica ai a indicação!

PS: A Editora IFEN publicou diversas coleções temáticas com outros artigos de autoras mulheres.

Pesquisa em Psicologia Fenomenológico-Existencial: Interpretações do Sofrimento na Contemporaneidade

Organização de Elza Dutra e Ana Andrea Barbosa Maux

Capa retirada do site da editora

Esta obra traz um pouco do que vem sendo desenvolvido em pesquisa em fenomenologia e aborda algumas inquietações que motivaram o ingresso de Psicólogas no campo acadêmico, visando produzir conhecimento crítico.

Considerando os diversos sofrimentos da existência humana, são apresentadas temáticas como suicídio, relacionamentos amorosos, tecnologia, maternidade e relações de trabalho.

O livro pode ser encontrado em formato digital e físico no site da editora e em outras livrarias online.

Elza Dutra é Professora Titular de Psicologia Clínica Fenomenológica, orienta Mestrado e Doutorado na UFRN ( Universidade Federal do Rio Grande do Norte), além de outros títulos, e coordena um núcleo de Psicologia chamado Poiesis que desenvolve diversas atividades.

Ana Andrea Barbosa Maux desenvolveu vários estudos com temáticas envolvendo a fenomenologia, incluindo estudos sobre adoção e a relação entre masculinidade e infertilidade.

Por último

Você gostaria de deixar nos comentários o nome de alguma autora brasileira, livro ou artigo como indicação? O espaço é todo seu (:

Até mais!

Bárbara de Souza Miranda

Referências:

FORGUIERI, Y.C. Psicologia fenomenológica: Fundamentos, método e pesquisa.

SAPIENZA, B. T. Conversa sobre Terapia.

FEIJOO, A. M. C.; FEIJOO, E. L. Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil.

DUTRA, E.; MAUX, A. A. B. Pesquisa em Psicologia Fenomenológico-Existencial: Interpretações do Sofrimento na Contemporaneidade.

Todas as outras referências foram feitas nos links.

Motivação: Um mecanismo biológico que impacta nossas vidas

Falta de motivação também pode ser um problema biológico. Entenda como o ambiente alimenta um mecanismo biológico conectado a motivação e cinco dicas para a estimular em seu dia a dia.

A pandemia tem gerado inúmeras reflexões para cada um de nós. Uma delas, muito presente em discussões e estudos recentes, é a produtividade e a motivação. Que a produtividade de quem está em modelo homeoffice aumentou, não temos dúvidas. Mas, será que a motivação acompanha essa alta? E sendo a motivação tão importante para a nossa produtividade, é possível a estimular? 

Para responder essa pergunta, me peguei refletindo sobre o que é produtividade. Em qualquer busca online, encontro que produtividade “é uma relação entre o que foi produzido e os recursos empregados para se atingir tal objetivo”.

É fácil entender que, culturalmente, associa-se produtividade com a quantidade de atividades que alguém produz. E a qualidade, ou seja, o resultado daquilo que se produziu é deixado de lado ou não recebe a mesma evidência que o fator quantidade. Levando em consideração esse conceito, será que as pessoas Será que as pessoas continuarão a se motivar 

Quando estamos motivados, certamente nosso engajamento em certa atividade e produtividade aumentam, algo que podemos associar com o Estado de Flow, teoria já explicada por aqui pelo psicólogo Caio Ferreira. 

A motivação pode ser intrínseca, algo que vem de dentro de nós, e extrínseca, externo ao ser humano, aquele reforço presente no ambiente ou advindo das pessoas ao nosso redor. Seja qual for o tipo de motivação, uma dose de autoconhecimento se faz necessária para entender o que o ambiente pode nos oferecer e que irá alimentar nossa motivação

Daniel M. Cable em seu livro chamado “Vivo no trabalho”, de Daniel M. Cable, explora o conceito de motivação para além de variáveis físicas e emocionais conectadas a ela. Segundo o autor, a motivação não se restringe apenas aos nossos interesses. Há um mecanismo biológico conectado a ela, que quando compreendido e bem trabalhado pode potencializar a motivação e os resultados. 

O ser humano tem um mecanismo natural, chamado “seeking system”, ou em tradução livre “sistema de busca”. Esse modelo de comportamento e de reação neurológica faz com que sejamos motivados a explorar novos territórios para extrair significado deles e, com isso, aprendizado. Quando o sistema é ativado e a curiosidade despertada, o sistema neurológico libera um neurotransmissor em nosso corpo e células, chamado dopamina, responsável pela sensação de prazer e regulação de humor. A dopamina em conjunto com outros neurotransmissores, como a adrenalina e noradrenalina, alimenta um sistema de recompensas no corpo, como, por exemplo, o sono, a fome e o humor. 

Isso significa na prática que quando temos algo que desperta nossa atenção e curiosidade, somos impulsionados a responder esse estímulo, ressignificando o que nos é apresentado e, com isso, aumentando nosso interesse e motivação para encontrar novos estímulos que despertam novamente nossa curiosidade e liberem, novamente, as sensações de prazer em nosso corpo. 

Ideia que faz sentido e aparenta ser simples, mas difícil de ser implementada, pois não são raras as vezes em que precisamos ser produtivos (no sentido de quantitativo) e deixamos o piloto automático e a rotina tomar conta de nossos dias (a própria rotina cumpre um papel importante em nossa vida social moderna, pois nos economiza tempo e energia).

Então, o que fazer para estimular esse sistema de busca e aumentar nossa motivação?

Não existe uma receita de bolo para aumentar a motivação. Mas, se pudesse desenhar passo a passo, diria que em primeiro lugar é importante ser gentil consigo mesmo. Entender que a motivação pode estar ausente em alguns dias e se permitir dar uma folga é um passo libertador para não se cobrar tanto e evitar frustrações futuras. 

Em segundo lugar, aumentar a consciência sobre si mesmo. Isso significa entender o que te motiva e o que não motiva. Encontre um propósito para si mesmo. E ele não precisa ser algo grandioso, para a vida. Pode começar de forma tímida, levando em consideração o seu dia atual, talvez a próxima semana e com o passar do tempo se transformar em algo que tenha um horizonte maior.

Em terceiro lugar, permita-se expressar o melhor de si em seu dia a dia e com as pessoas que te cercam. Há estudos que afirmam que quando temos a oportunidade de exercitar nossos talentos e pontos fortes todos os dias, a probabilidade de obter maior satisfação com nossas entregas e desfrutar de melhor qualidade de vida aumentam em até três vezes. (Buckingham, Marcus, 2015)

Em quarto lugar, exercite olhar para o que te cerca sob uma ótica diferente do que você faria de costume. Inclua a curiosidade na sua rotina e valorize a diversidade, pois ela tem um grande poder para construir perspectivas inovadoras. 

Em quinto e último lugar, valorize a si mesmo e experimente aprender e ensinar coisas novas todos os dias. Somos eternos aprendizes e uma vez que nos reconhecemos como tais, a vida se torna uma jornada cada vez mais interessante e motivadora.  

Referências e Recomendações

Buckingham, Marcus. Descubra seus pontos fortes. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

Cable, Daniel M. Alive at work: The neuroscience of helping your people love what they do. Boston: Harvard Business Review Press, 2018.

Você conhece o Estado de Flow?

Zoom Fatigue: O que é esse esgotamento mental e como amenizá-lo

Por Bruna Passarelli

04 Filmes que VOCÊ JÁ DEVERIA TER ASSISTIDO sobre Psicologia

Se você é estudante ou profissional de psicologia, estes filmes são considerados OBRIGATÓRIOS na sua lista.

A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Não é raro encontrarmos coincidências de fatos da vida em livros, peças de teatro, filmes, séries, desenhos e videogames. Mas em algumas ocasiões também visualizamos fatores apresentados nestes cenários, a princípio vistos com fictícios, eclodindo com um improvável e ensurdecedor eco de suas características em situações da realidade.

É pressuposto que o leitor compreenda as linhas cruzadas da arte na realidade não como causa, mas como efeito. Um sujeito não age em cópia ao cenário artístico por indução, influência ou sugestão da obra, mas pela localização deste cenário ser próxima a de um abrigo, de um acolhimento às representações de sua própria vida interior. Mesmo se estivermos falando de um sujeito cuja mente abrigou qualquer suposta clivagem, qualquer diáspora de palavras soltas do sentido, quando pensamos num alguém que carrega aquele discurso distante da realidade. Conforme conhecido a partir de alguns casos de psicose. Ainda nestes sujeitos, a busca de um sentido Ideal continua vigente, mesmo que parcialmente.

Longe da irresponsabilidade de reduzir estes casos à psicose ou qualquer outra estrutura não-neurotípica, utilizo este exemplo para ilustrar que o cenário ficcional é apenas mais um – dos inúmeros lugares para alguém que sofre de algum tipo de desorganização psíquica – hospedeiro dos discursos por trás ou por frente de cada ato. Toda ação é andarilha, errante e vagal até encontrar sua representação: cabendo ela na realidade ou não. E nesta encruzilhada entre aquilo que é da imagem, do simbólico e do real, é possível ver, bem decorada e jamais carente de acabamento: a casa, de alvenaria, que é a arte.

É através da arte que o garrancho, para quem o fez e o interpreta, encontra semelhança com o desenho e a pintura que foram bem feitos. É através desta ferramenta de compreensão e exibição da realidade humana, que uma música escuta um sujeito; que um filme oferece a narrativa que alguém tanto buscou em sua vida; com seu auxílio, um livro é capaz de realizar a leitura nunca antes feita da história de alguém, e uma peça de teatro exibe ao público toda a vida psíquica que parecia ser privada àquele ser. E o videogame oferece o controle, ou o joystick, sobre a ação dos [im]pulsos que não tinham nome ou história.

Em suma: se não for na arte, será em algum [O]outro [L]lugar que aquele sujeito irá depositar as economias de uma vida inteira, ou parcial, de pensamentos. Ele apenas empresta dela a cor, o movimento e, principalmente: o discurso e a narrativa. Coisas que, pela necessidade deste, seriam encontradas em algum o[O]utro l[L]ugar a qualquer momento.

E acredito que a pessoa que agora lê, já concluiu que a arte não se faz tão diferente para representar o que, silenciosamente ou ruidosamente, se apresentava na vida das pessoas. Ou seria possível a uma escritora ou escritor fugir de aspectos de sua própria história de vida? Não estariam representados na arte aquilo que quem a produz é, foi, será ou poderia ter sido? Não mora em cada personagem da dramaturgia um momento captado por retinas, labirintos do ouvido, ou receptores olfativos? Não está no sabor de uma obra algum registro que pousou nas papilas gustativas do autor? Ou estaria lá apenas o calor do corpo de outra pessoa, que em algum momento foi transmitido através de um toque, um gesto à pele, de quem mais tarde resolveu criar uma produção artística?

Se a autoria de uma obra de arte não foi vivida, sem dúvidas ela foi testemunhada. E a partir daí, seria no mínimo paradoxal que esta não pudesse vir a ser testemunho à realidade do espectador, que até então tanto esperava pelo seu próprio.

A seguir alguns destes exemplos. Se são, ou não, relato ou inspiração: que comentem as leitoras e os leitores!

01 – Clube da Luta – Fight Club – (1999):

Banner do filme (imagem encontrada gratuitamente na internet)

Aqui o personagem de Edward Norton não se mostra muito diferente da maioria da classe trabalhadora: insatisfeito com seu emprego atual, comprando compulsivamente coisas que imagina lhe trazerem satisfação e soterrando suas dores entre as múltiplas quatro paredes do dia-a-dia. A reviravolta se dá no encontro que este tem com o personagem de Brad Pitt. Conhecer Tyler Durden foi o ponto de partida para a criação do Clube da Luta e suas duas regras: 1) você não fala sobre o Clube da Luta; 2) Se é a sua primeira vez por lá, então você vai lutar.

O filme que abriga questões que vão desde um relacionamento abusivo, até os resultados das necessidades de se encontrar uma forma de expressão, ao que tanto fora suprimido pelo capitalismo e a masculinidade. Se este dito já não for, o restante é spoiler.

02 – Cisne Negro – Black Swan (2010)

Cartaz de divulgação do filme (imagem obtida gratuitamente na internet).

Neste filme, a atriz e psicóloga Natalie Portman encarna uma bailarina, que visualizará sua performance protagonizar a obra O Lago dos Cisnes. Entretanto, tamanho destaque na considerada Obra Magna de Tchaikovski, oferece à dançarina uma lupa sobre suas relações mais íntimas: com sua mãe, com seu talento e trabalho e até consigo mesma. Se é faltante ou excessiva a cisão de sua personalidade para lidar com cada um estes aspectos, é uma análise que caberá a quem assistiu ou está em atraso para assistir esta obra magnífica.

Quais aspectos do psiquismo humano são evidenciados neste filme? Por gentileza, minha cara leitora e meu caro leitor, faça, em partes, como nossa dançarina: seja protagonista! Comente aqui suas impressões!

03 – Ilha do Medo – Shutter Island (2010):

Cartaz de divulgação do filme. Imagem obtida livramente na internet.

Nesta película, a investigação mais importante a ser feita não é, definitivamente, os motivos que cercam a óbvia preferência do premiado diretor Martin Scorcese por um tal ator, visto pelos fãs como o maior injustiçado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Óscar.

Mas uma outra investigação se torna o portal de entrada na imersiva narrativa do filme: um agente do FBI investiga o desaparecimento de uma pessoa que, além de ter escapado de um hospital destinado a criminosos acometidos de transtornos mentais, também tem em seu histórico um grave assassinato. Um filme solidário ao espectador: coloca-o dentro da ilha que abriga todo tipo de possibilidade. Quem assiste ao filme, descobre-se ali como mais um dos investigadores.

Há apenas uma forma deste caso nunca ser solucionado: se quem lê este artigo sucumbir à procrastinação de conhecer melhor a si e à psicologia como ciência e profissão, isso é: continuar sem assistir a este filme.

04 – Uma Mente Brilhante – A Beautiful Mind (2001)

Cartaz de divulgação do filme. Imagem obtida livremente na internet.

Este filme jamais deixaria de ser recomendado pela Sociedade dos Psicólogos. Muito menos por este colunista que vos escreve. Ele não foi deixado por último: ele na verdade foi o primeiro a ser comentado. Existe um post exclusivo, feito sobre a biografia em que se baseou esta obra: a do matemático e ganhador do Prêmio Nobel de Economia, John Forbes Nash. E você conhecerá gratuitamente clicando aqui.

Voltando ao filme: como seria possível explicar os atalhos que as sinapses de um gênio tomam, de maneira tão inadvertida, a ponto de causarem espanto naqueles que testemunham os destinos de tais rotas alternativas? É difícil encontrar qualquer gênio que ainda não tenha sido confundido com um louco. Em verdade, é mais frequente (e não menos frustrante), encontrarmos sentido antes no delírio do que na genialidade de alguém. Se isso se deve ao fato de um delírio eventualmente compartilhar algo que poderíamos nós mesmos ter pensado, não cabe agora discutirmos.

Outro cartaz de divulgação do filme. Imagem obtida gratuitamente na internet.

Mas, sem dúvidas, este emocionante filme estrelado por Russell Crowe, retira do espectador, por alguns breves momentos, tanto a certeza da própria genialidade, como da própria sanidade. Narrando a trajetória de John Nash dentro da Universidade de Princeton, a trama aponta como o excêntrico aluno se tornou professor, marido, pai e ganhador do Premio Nobel. Mas não faz isso sem transitar pelas adversidades que envolveram estas posições na vida do matemático. E talvez o fato deste filme ser Vencedor de 4 Estatuetas do Óscar convença mais o leitor do que a retórica deste parcial colunista que vos escreve.

E como falamos de matemática, aqui vai uma equação aos leitores e às leitoras:

assistir ao filme + indicá-lo a quem também se interessa por psicologia = não fazer mais do que a obrigação

(e aqui é feita propositalmente uma alusão à frase muito comumente utilizada por figuras de autoridade, no mero (e não necessariamente perverso!) intuito de evocar, nesta recomendação, a força de seus respectivos Supereus).

Portanto, separem a pipoca, o chocolate, refrigerante, vinho, cerveja, cigarros, charutos e todos os confortos que um retorno, via objetos de transição, à fase oral podem proporcionar! Desejo a vocês a melhor das [re]vivências da pulsão escópica: uma boa sessão de cinefilia!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos

A natureza chama a Psicologia e todo e qualquer indivíduo

A proximidade do ser humano a natureza, como compromisso de cuidado seu e da Psicologia.

“REIMAGINE. REICRIE. RESTAURE.”, este é o tema do Dia Mundial do Meio Ambiente, neste mês de Junho de 2021.

Tema tendenciosamente curioso que pode despertar ao novo. Afinal, ele aparenta retratar sobre o recomeço. E recomeço do quê ou de quem? Do Meio Ambiente, claro! Mas principalmente da relação do ser humano com a natureza. Um convite para restabelecer esta relação através do gesto de cuidado, respeito, responsabilidade, consciência e principalmente, de reaproximação do homem a natureza.

De acordo com os últimos noticiários e depoimentos a respeito das mudanças climáticas e ambientais, “O clima não está bom… e vai piorar!”, título do artigo publicado pela Greenpeace, em Maio de 2021, faz referência a situação atual do Brasil. Segundo especialistas da organização, o país vivencia problemas vinculados ao “aumento de C02, poluição, chuvas em excesso, enchentes e inundações, deslizamentos de terras, aumento do nível do oceano, perda de espécies e secas em algumas regiões.”

E fica uma instigante questão? Qual é o sentido de abordar sobre o tema do Dia Mundial do Meio Ambiente e de sinalizar sobre a problemática ambiental do país, em uma página voltada ao público cativado pela Psicologia e seus estudos?

O sentido desta curiosa ponte é que cabe a Psicologia estudar o homem enquanto ser biopsicossocial. E assumir a responsabilidade em cultivar práticas e ações que preservem a vida do ser humano, contribuindo para o gesto de autocuidado e de cuidador. E é nesta exata tarefa, que a Ecopsicologia retrata sobre a importância em minimizar comportamentos destrutivos e de negligência, que coloquem a natureza em risco, assim como a vida do homem.

Onde houver natureza, haverá vida humana. Mas onde houver vida humana, haverá natureza?

O homem se enquadra como o ser originário da natureza, assim como as árvores, os animais, a água, o ar e outros. Porém, será que o homem mantém condições de viver sem estas outras formas de natureza? Aparentemente, um tanto quanto distante e com certas dosagens dela, ele mantém condições de se sobreviver. A exemplo é possível citar a sociedade que em sua grande maioria reside em zonas urbanas, com rotinas extensas de trabalho e de proximidade aos aparelhos tecnológicos. Se distanciando assim, de zonas rurais ou de paisagens naturais. E claro, é desta forma que os indivíduos em sua grande maioria seguem vivendo, em paralelo a globalização que também vai ganhando cada vez mais vida.

E como contraponto, sabe o que também se amplia? Os problemas de saúde, transtornos mentais, questões como pobreza e desigualdades. A distância e o descuido com a natureza aumentam, o cuidado com a economia material e financeira se amplia, e a saúde se coloca em risco. A vida humana sem as outras formas de natureza se aproxima de limites. E esta é a uma das mensagens da Ecopsicologia, a fim de fortalecer a conscientização de que o ser humano enquanto homem que se assemelha a sua natureza ao seu redor. E que assim como ela, carece de cuidado, de atenção, de respeito, de conhecimento e autoconhecimento, de relação, de troca e de mudanças.

A natureza muda o tempo todo! E neste momento a perspectiva futura é de que ela seguirá mudando, mas não em uma condição infinita e controlável. Mas sim como tudo na vida, finita e carente de cuidado. Neste momento, estudos apontam que ela se encontra desprotegida, ameaçada, isolada e em risco. É preciso cuidá-la! Seu boletim médico se assemelha muito as estatísticas da sociedade. Parece que seus quadros são um tanto quanto parecidos. É preciso cuidá-los!

E como dá conta disso?

Usando ainda da analogia sobre avalições médicas, em alguns casos, pessoas que se deparam com a notícia de um diagnóstico ou a descoberta de um processo de adoecimento, tendem a negar a situação. Tendem a afastar-se dos gestos de autocuidado e se envolverem com ações mais destrutivas, mais prejudiciais, recorrendo até mesmo aos vícios, por exemplo. Assumir e aceitar o que ocorre consigo mesmo dói! Mas tende a doer mais ainda manter ações que ferem a permanência da própria vida. Negligenciar custa caro.

Mas e o que fazer? Assumir e aceitar aparentam ser ações difíceis!

O caminho é se aliar ao processo de se amparar de informações, esclarecer dúvidas, traçar novos objetivos e expectativas dentro das condições favoráveis, cultivar novos hábitos e seguir com as providências prescritas com gesto de confiança e esperança por uma evolução melhor. O caminho é de se aproximar desta situação, para sentir afeto e se vincular, assumindo a responsabilidade rumo às melhores mudanças.

A natureza adoece e o ser humano também. Mas um tem condições de amparar e de cuidar do outro. Mas é preciso “REIMAGINAR, RECRIAR E RESTAURAR“. E a Ecopsicologia parece ser a possível facilitadora para este recomeço e reparo desta relação. Suas práticas são terapêuticas, e mantem o homem próximo a SUA natureza, interna e externa. Ela é interdisciplinar e transdisciplinar. Ela é nova, mas sua missão vai de encontro com o conceito inicial da Psicologia, com o propósito de manter ações preventivas e de cuidado com a saúde biopsicossocial do indivíduo. Ou seja, nunca fez tanto sentido a Psicologia manter a devida atenção à saúde e se aproximar das questões ambientais da sociedade.

Este é o nosso momento.

Não podemos voltar no tempo. Mas podemos cultivar árvores, tornar nossas cidades verdes, renovar nossos jardins, mudar nossas dietas e limpar rios e encostas. Somos a geração que pode fazer as pazes com a natureza.

Vamos ficar ativos, não ansiosos. Sejamos ousados, não tímidos.

Junte-se a #GeraçãoRestauração!

Mensagem de campanha da World Environment Day

Como cultivar o cuidado da relação com a natureza?

  • Aproxime-se de conteúdos informativos ou de entretenimento que compartilham informações sobre o funcionamento, contexto atual e formas de cuidar do meio ambiente. Sites de artigos e notícias, blogues, filmes, documentários e séries são ótimos canais para resgatar esta relação com a natureza.

A informação favorece o processo de conscientização. E em paralelo, contribui para o manejo de afeto e vínculo com a situação, propiciando ao senso de responsabilização e de ação

  • Mantenha hábitos alimentares saudáveis, a fim de preservar recursos naturais que carecem de cuidado

  • Pratique atividades em locais de paisagens naturais. Mantenha-se atento e usufrua de seus detalhes

A prática de atividades físicas, principalmente em locais em contato com a natureza, promove bem-estar e contribuem para saúde.

  • Vincule-se às marcas, organizações e ações que investem neste compromisso de cuidado. E atente-se as instituições que potencializam os prejuízos ambientais

  • Permita-se conhecer mais sobre e Ecopsicologia e suas formas de atuação, seja como profissional e/ ou cliente deste segmento

  • Faça psicoterapia

É difícil dar conta de tudo! E muitas vezes compreender e mudar comportamentos que se apresentam prejudiciais muitas vezes também são atos com suas dificuldades. E a psicoterapia pode ser um caminho pra ajudá-lo a REIMAGINAR, RECRIAR E RESTAURAR.

Por Tayna Wasconcellos Damaceno

Referências

DOSS, E.; RODRIGUES, E. P.; BAVARESCO, A. M.; BAVARESCO, P. R. ECOPSICOTERAPIA: A NATUREZA COMO FERRAMENTA TERAPÊUTICA. Anuário Pesquisa e Extensão Unoesc São Miguel do Oeste[S. l.], v. 3, p. e19698, 2018.

Disponível aqui. Acesso em 11/06/2021


SILVA, K., & SAMMARCO, Y. RELAÇÃO SER HUMANO E NATUREZA: UM DESAFIO ECOLÓGICO E FILOSÓFICO. Revista Monografias Ambientais, 14(2), 01-12., 2015.

Disponível aqui. Acesso em 11/06/2021

Feno na Ficção: Raya e o último Dragão

Compreendendo alguns pontos do olhar da Psicologia de base fenomenológica-existencialista através do filme Raya e o último Dragão

O processo de ensino e aprendizagem da Fenomenologia-existencialista pode ser um tanto quanto desafiador. Lembro-me da quantidade de esforço e atenção que eu direcionava às aulas e dos comentários partilhados entre os colegas de formação. Parecia ser uma aula que nos ensinava a pensar de maneira totalmente diferente. Novos sentidos estavam sendo apresentados a termos e palavras que antes não eram entendidos assim. Grande admiração aos Mestres encarregados de lecionar Feno!

Jardim (2013) abordou os desafios presentes no processo de assimilação desta base teórica e apresentou a ideia de buscar se adotar uma postura fenomenológica inclusive neste processo.

“A aproximação com a fenomenologia para aquele que se dedica a estudá-la é algo que pede em si uma permanência, um demorar-se nos estudos para que a fenomenologia possa se mostrar por si. A compreensão fenomenológica caminha lado a lado com o colocar-se em uma postura fenomenológica, de modo que também o aprendizado da fenomenologia acontece agindo-se fenomenologicamente” (JARDIM, 2013)

Uma proposta de caminho: exemplos que fazem sentido

Nesta caminhada de compreensão da fenomenologia, nos deparamos com alguns termos e conceitos importantes. Pensar em contextos que possam exemplificar estes pontos pertinentes à teoria pode ser uma possibilidade para o início desta caminhada. Considerando esta intenção didática convido-lhes a conhecer um pouco sobre o Filme “Raya e o último dragão”. Fica o aviso sobre spoilers a partir daqui!

Raya e o último Dragão

Poster do trailer encontrado no site da Disney https://disney.com.br/filmes

Há 500 anos, as populações da Terra conviviam em harmonia com Dragões mágicos. Havia prosperidade, segurança e tranquilidade. Juntos, todos os povoados formavam Kumandra. Surgiram os Drums, seres fruto da discórdia humana que consumiam toda a vida e transformavam tudo em pedra.

Com o objetivo de conter os Drums, os dragões uniram suas magias e criaram uma jóia protetora. Sisu, um dos dragões, foi a última a adicionar sua magia à jóia. Com a jóia, todos os seres humanos que haviam sido transformados em pedra ganharam vida novamente. Nenhum dos dragões retomou a vida e Sisu desapareceu.

O sacrifício dos dragões pela vida não foi vivenciado pelos humanos com gratidão e paz. Kumandra foi dividida por fronteiras e os povos se viraram uns para os outros.

É neste contexto que existem Raya e Namari, princesas de dois povos distintos que em épocas passadas formavam Kumandra.

Uma pitada teórica

Alguns conceitos importantes para os estudos da fenomenologia são: ser-aí, consciência intencional e tonalidades afetivas. Vamos explorá-los dentro do contexto do filme?

O conceito de Ser-aí diz respeito a como a fenomenologia compreende a relação homem-mundo. Ser-aí traz a ideia de que existe uma co-pertinência entre homem e mundo. É como pensar que o homem está lançado e sua existência se dá através e em relação com este mundo. Isto inclui considerar que as existências acontecem em horizontes históricos e as possibilidades existenciais se dão neste contexto.

Imagem encontrada no site Adoro cinema

Raya e Namaari, por exemplo, são duas princesas de diferentes povos e cada uma é da maneira que é em relação as possibilidades de “como ser uma princesa” que existem dentro destes contextos. Raya é do povo do Coração e Namaari é do povo da Garra. Quem você chutaria que pode ter mais abertura para sentimentos e quem pode ser mais arisca, por exemplo? Como as princesas estão vivendo neste contexto de rivalidade entre os povos, como poderíamos supor que o relacionamento entre as duas poderia ser?

Dentro da Fenomenologia-existencialista, o termo Consciência é empregado com significado bem diferente do encontrado dentro das teorias Psicanalíticas. Aqui a ideia de consciência relacional consiste na ideia de que estabelecemos consciência para com os outros seres e coisas. Sisu, o último dragão, traz em sua personagem uma maneira de ser com os seres humanos específica dela, específica da maneira que ela compreende os seres humanos. Então, poderíamos considerar, por exemplo, que isto diz respeito à consciência que ela estabeleceu para com os seres humanos.

E o que seriam as tonalidades afetivas? De uma maneira simples, tonalidades afetivas são como uma ótica, uma afinação ou uma cor. É como se todas as experiências da existência humana se dessem com algum sentimento presente que as tonalizassem. Sabe os Drums, os seres avassaladores que consomem tudo? Na animação eles são uma ameaça e trazem medo e preocupações para as pessoas. A presença dos Drums traz rigidez e imobilidade literalmente para os personagens, o que pode exemplificar o quanto o sentir medo “coloriu” a existência destes personagens. Já a personagem Raya parece vivenciar o temor dos Drums com coragem, buscando outras possibilidades. A tonalidade afetiva presente para ela parece ser outra.

A teoria presente na prática clínica

Na animação a personagem Raya realiza uma jornada em busca de Sisu com a intenção de ter seu pai de volta e restaurar a vida no reino de Kumandra. Ela vivencia conflitos, reflexões, ressignificações. Raya vai da desconfiança para a confiança. O processo psicoterapêutico possui suas particularidades em relação a cada pessoa. O desdobrar de cada processo é único e pode apresentar conflitos, reflexões e ressignificações assim como a jornada de Raya.

Muitas vezes, faz parte do processo psicoterapêutico de base fenomenológica acompanhar o cliente no movimento de olhar para a história de vida dele e acolher com ele o se sentir desconfiado, desacolhido pela vida. A retomada de sentidos, o se sentir confiante em relação ao mundo e à própria existência também podem aparecer no decorrer do processo.

Por último, uma consideração

A intenção deste texto foi proporcionar uma pequena abertura para olhar a teoria fenomenológica de maneira introdutória e simples. Fica o convite a todos os curiosos para se aprofundarem nos textos referências. Ah, e também recomendo o filme!

Sintam-se à vontade para comentar ou apresentar sugestões.

Até mais!

Bárbara de Souza Miranda

Referências

FEIJOO, A. M., O homem em crise e a Psicoterapia fenomenológico-existencial.

JARDIM, L. E. F. Ação e compreensão na clínica fenomenológica existencial. In: EVANGELISTA, P. E. (ORG). Psicologia Fenomenológica-existencial: Possibilidades da atitude clínica fenomenológica. Rio de Janeiro. 2013.

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