Winnicott: Holding, Handling e Apresentação dos Objetos

Expoente da chamada escola inglesa de psicanálise, D. W. Winnicott (1986 – 1971) foi um médico pediatra e psicanalista pós-freudiano que conseguiu criar uma dimensão original na psicanálise. Em sua trajetória, entre outros tópicos, destacam-se:

  • o papel e valor do ambiente/cuidador para com o desenvolvimento do indivíduo;
  • as funções de holding, handling e apresentação de objetos;
  • a descoberta do objeto transicional e da zona potencial;
  • os conceitos de verdadeiro e falso self;
  • a teoria da tendência antissocial e delinquência.

Escola britânica de psicanálise e Donald Winnicott

Winnicott foi supervisando de Melanie Klein (1882-1960) – psicanalista austríaca responsável por pioneiras teorias e descobertas acerca do aparelho psíquico do bebê e da criança – sendo que a teoria kleiniana serviu tanto para Winnicott confirmar algumas de suas investigações, como para o guiar e inspirar sua em própria teoria e abordagem, distinta da clínica de Klein.

O olhar de Winnicott mirou o ambiente e os cuidados maternos que cercam o início da vida de alguém. Diferente de Klein, ele nos diz que não é possível compreender a vida psíquica primitiva do bebê olhando apenas para esse e suas fantasias, mas deve-se analisar também o ambiente no qual ele está inserido e como são os cuidados que ele recebe.

Dessa forma, a teoria winnicottiana nos diz que não existe um bebê separado do seu cuidador (There is no such thing as a baby / a baby alone doesn’t exist) Winnicott,

“Se a dependência realmente significa dependência, então a história de um bebê individualmente não pode ser escrita apenas em termos do bebê. Tem de ser escrita também em termos da provisão ambiental que atende a dependência ou que nisso fracassa”.

(Winnicott, 175, p. 116)

melanie klein e donnald winnicott
(Melanie Klein e Donald W. Winnicott, em jantar para M. Klein, em Londres de 1952).

Dependência e ambiente em Winnicott

Winnicott observou que ao nascer, diferente de alguns outros bichos, o ser humano é completamente dependente de seu cuidador, sendo que, caso esse não provenha alimento e segurança para o bebê, o mesmo certamente morrerá, uma vez que é incapaz de buscar, inicialmente e por conta própria, o conforto no ambiente – ele chamou isso de dependência absoluta.

Na teoria winnicottiana aparecem 3 fases de dependência: absoluta; relativa e rumo à independência. Na dependência absoluta não há separação entre corpo e meio; ainda não existe Eu configurado; o indivíduo é completamente dependente do ambiente. Na dependência relativa começamos a encontrar o self separado do outro; é o início da distinção do ser; há Eu e há outro; envolve a utilização de objeto transicional; o indivíduo começa a buscar o ambiente, mas ainda necessita de cuidados de alguém. No rumo à independência temos o estabelecimento de relacionamentos do indivíduo para com objetos externos baseados no princípio da realidade. Para o autor, o ser humano é um ser potencialmente criativo, que carrega uma tendência inata para a integração e o desenvolvimento, mas cabe ao ambiente oferecer o suporte para que essas potencialidades se realizem. Dessa forma, Winnicott fala de um ambiente facilitador ou suficientemente bom, representado pela mãe suficientemente boa (good enough parent): alguém que consegue, de forma empática, sensível e dinâmica se adaptar aos diversos estágios de desenvolvimento do bebê e responder adequadamente tanto às suas necessidades quanto às suas tolerâncias em suportar a frustração. De acordo com o autor, é função da mãe suficientemente boa: o holding; o handling; e a apresentação dos objetos.

Sustentação (Holding)

Geralmente traduzido como sustentar ou segurar e, por outras vezes, mantido no original “holding”, o termo faz referência ao suporte físico e psíquico oferecido ao bebê pelo seu cuidador. Envolve um padrão empático e uma rotina nos cuidados do bebê e se expressa como um conjunto de comportamentos afetivos relacionados ao alimentar, limpar, proteger, uma vez que o bebê precisa estar fisicamente seguro e psicologicamente acolhido. O holding permite uma certa estabilidade e previsibilidade do ambiente, o que é fundamental para o desenrolar das tendências hereditárias do indivíduo. De acordo com Winnicott, esse processo se dialoga diretamente com a continuidade do ser, com a noção de ilusão e com a integração das partes do self.

“Tudo isso é muito sutil, mas ao longo de muitas repetições, ajuda a assentar os fundamentos da capacidade que o bebê tem de sentir-se real. Com esta capacidade o bebê pode enfrentar o mundo ou (eu diria) pode continuar a desenvolver os processos de maturação que ele ou ela herdaram.”

(Winnicott, 2012, p. 5)

“quando o ato de segurar o bebê é perfeito (e de um modo geral assim é, já que as mães sabem exatamente como fazê-lo),o bebê pode adquirir confiança até mesmo no relacionamento ao vivo, e pode não integrar-se enquanto está sendo seguro. Esta é a experiência mais enriquecedora. Freqüentemente, no entanto, o ato de segurar o bebê é irregular, e pode até mesmo ser desperdiçado pela ansiedade (o controle exagerado da mãe para não deixar o bebê cair) ou pela angústia (a mãe que treme, a pele quente, um coração batendo com muita força, etc.), casos em que o bebê não pode dar-se ao luxo de relaxar. O relaxamento acontece então, nestes casos, apenas por pura exaustão. Aqui, o berço ou a cama oferecem uma alternativa muito bem-vinda.”

(Winnicott, 1990a, p. 61)

Manejo (Handling)

Vibrant Health Mother hugging child – Katie M. Berggren

Traduzido como manejo ou deixado no original “handling”, esse termo deriva de hand (mão) e diz respeito ao contato pele com pele entre bebê e cuidador. Faz referência aos cuidados físicos e envolve o manuseio corporal do bebê durante os suportes básicos como: banho, troca e amamentação, por exemplo. Segundo o autor, o handling auxilia a formar as bordas do corpo, a harmonizar a vida psíquica (realidade interna) com o corpo (esquema corporal), a diferenciar o Eu do outro, e a reconhecer sua própria psique dentro do seu próprio corpo (personalização). Dessa forma, o par segurar-manejar é fundamental para o estabelecimento das bases mínimas que possibilitarão a instauração de um ser saudável e criativo.

“Um bebê pode ser alimentado sem amor, mas um manejo desamoroso, ou impessoal, fracassa em fazer do indivíduo uma criança humana nova e autônoma”.

(Winnicott, 1975, p. 172)

Apresentação de Objetos (Object-presenting)

Por fim, mas não menos importante, a 3ª função que compete à mãe suficientemente boa é a apresentação dos objetos (ou apresentação de mundo), que consiste em oferecer objetos substitutos de satisfação. Relaciona-se com a apresentação da externalidade e da realidade. É fundamental para a avanço da fase de dependência absoluta para dependência relativa, uma vez que possibilita o interesse, curiosidade e a busca por objetos de satisfação para além da cuidadora. A mãe deve apresentar o mundo em pequenas doses, ao passo em que permita a ilusão inicial (onipotência) de que quem criou aquilo foi o bebê. Segundo o autor, essa apresentação carrega a função formativa que permite o estabelecimento das relações objetais.

“O bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma necessidade não-formulada. A mãe, em se adaptando, apresenta um objeto ou uma manipulação que satisfaz as necessidades do bebê, de modo que o bebê começa a necessitar exatamente o que a mãe apresenta. Deste modo o bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato da experiência.”

(Winnicott, 1990b, p.56).

Ambiente e Self

De acordo com o autor, o sucesso dos processos ambientais possibilitará o desenvolvimento e a estruturação saudável do ser (distinto, autêntico e criativo), assim como as falhas ambientais (negligências, intrusões ou desastres) levam ao desenvolvimento adaptativo e reativo de personalidade ao ambiente. O verdadeiro self e a sensação de que a vida vale apena ser vivida, apontada por Winnicott, é a realização da nossa tendência e potencial de desenvolvimento, assim como as estruturações defensivas do self, as neuroses e sensação de futilidade do viver, são características de um falso self que precisou se adaptar e/ou reagir a um ambiente falho.

Para saber mais sobre verdadeiro e falso self, recomendo a leitura do texto Explicando Winnicott: Criatividade Primária, onde abordo mais aspectos do desenvolvimento emocional primitivo e trago algumas relações entre o self e a criatividade primária. Deixo também como recomendação o trecho de “A criatividade humana e a crise contemporânea”, com psicanalista Carlos Plastino, que discorre sobre a temática.

Referências e complementos

Winnicott, D. W. (1975). O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago

Winnicott, D. W. (1990a). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, D. W. (1990b). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.

Winnicott, D. W. (2012). Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.

Por Caio Ferreira

Sociedade dos Psicólogos participa de SIPAT no CDP – Belém I

Na última quarta-feira (23/10/2019) os Psicólogos Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos (CRP 06/139621) e Caio Henrique Ferreira da Costa (CRP 06/147859) participaram da SIPAT que aconteceu no Centro de Detenção Provisória I Chácara Belém, com a palestra “Dependência Química: que droga é essa?”.

Os principais tópicos abordados e discutidos foram:

  • O que é droga?
  • Como chamar quem usa droga?
  • Quem usa droga no Brasil?
  • Internar resolve?
  • Como se livrar da droga?
  • Médico, psicólogo ou igreja?
  • Experimentar vicia?
  • Alterações afetivas e comportamentais do usuário.

Caio Cesar Psicólogo
(Caio Cesar Rodrigues)

As Drogas e suas características

Caio Cesar Rodrigues falou, principalmente, sobre composição, efeitos, características e perfil de usuário, correspondente às substâncias: crack, oxi, cocaína, MDMA, lança perfume, tabaco, maconha, heroína, álcool, cafeína e chocolate (açúcar). Também abordou os tipos de usuários e dependências, bem como os nomes e expressões associadas à esses fenômenos.

expressão facial drogasO afeto e comportamento do usuário

Caio Ferreira expôs os 3 grandes grupos de drogas (depressoras, estimulantes e perturbadoras do sistema nervoso central) e contribuiu, principalmente, com o mapeamento das alterações afetivas e comportamentais da pessoa intoxicada, onde citou a utilização do Facial Action Coding System (FACS) como uma ferramenta auxiliar nos processos de detecção e intervenção.

Leve você também a Sociedade dos Psicólogos para sua empresa/instituição: https://spsicologos.com/servicos/palestras-personalizadas/

Quer saber mais sobre as substâncias psicoativas?

 

 

logo Sociedade dos Psicólogos

Venha emergir como sujeito de sua própria história!

Coringa: Uma corda sobre o Abismo

Nietzsche em seu livro ‘Assim Falou Zaratustra’, narra a história de um homem que após anos em meditação isolado da civilização, deixa a caverna, desce da montanha para iniciar suas pregações.

Em suas andanças, depara-se com a figura de um equilibrista que fazendo seu número numa corda içada ao alto da praça e acima do povo, quando este chega ao meio do caminho, é molestado verbalmente por um homem com vestes coloridas semelhantes a um palhaço que ao chamar mais atenção do público, solta um grito “diabólico” para o equilibrista, pula entre os populares e sai ileso. O equilibrista acaba desconcentrando-se e cai, ainda consegue dizer algumas palavras antes de morrer nos braços de Zaratustra.

Ao sair da sessão de cinema de Coringa (Joker, 2019. Warner Bros) na minha mente veio a imagem deste palhaço. Contrapondo a Marvel em sua visão de mundo colorido e conectado em que todos se unem em prol do bem maior “custe o que custar”, a DC com este filme assume a postura do palhaço de Zaratustra: aquele quer desestabilizar o sistema.

Trailer do filme Coringa

Aviso este texto está repleto de spoilers do filme Coringa. Deste trecho em diante é por sua conta e risco.

Ao lutar contra os Monstros

Na trilogia do Cavalheiro das Trevas (2005/2012. Warnes Bros), tem a versão do mais aclamada do Coringa produzida pelo cinema. Grande parte disso é atribuído ao fato que a origem do Coringa indefinida. Cada vez que ele está em frente de uma vítima, ele conta uma versão diferente de como ganhou o sorriso estampado em seu rosto.

Heath Ledger, na sua construção de personagem, se trancou em seu apartamento por um mês, fazendo um diário de com colagens de referencias diversas de cinema e pinturas do Francis Bacon. A celebre interpretação consumiu muito mais do que seu talento, e talvez por isto, lhe rendeu o Oscar póstumo de ator coadjuvante.

Pensava-se até então, que era muito difícil superar algo tão icônico como: “Por que você está tão sério?”.

Afinal, o que este filme do Coringa traria de novo para os espectadores?

Seria necessário subverter certas convenções para ser mais sombrio do que as versões anteriores. A inspiração veio da Graphic Novel “A Piada Mortal” em que “Batman e Coringa são faces de uma mesma moeda”, segundo Antunes, em sua tese: Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman.

Caro leitor, o que é mais sombrio do que a própria realidade?

Numa cidade infestada por ratos gigantes e doenças, em meio a uma greve de lixeiros que dura semanas, vemos que comerciantes estão falindo e a economia está em declínio. A crescente taxa desemprego tem correlação direta com o aumento da criminalidade.

Vemos Arthur Fleck tentando ‘ganhar a vida’ como palhaço em Gotham City. Numa espécie de reality show, que vai muito além de acompanhar seu dia a dia, o convite é para passearmos em sua mente.

Evite tornar-se um monstro

Em vez de mais uma explicação cartunesca, do tipo cair no tanque de ácido e sair vivo, a risada característica do personagem é atribuída a ter um distúrbio neurológico que faz com o que ele ria em situações que usualmente as pessoas não riem, destoando das emoções que sente como raiva, stress, ansiedade e medo. Uma risada involuntária que causa aversão nas pessoas e que ele tenta aflitivamente evitar sem sucesso.

Além desta condição, o personagem apresenta um quadro psicopatológico que o filme não deixa claro de propósito. O ator Joaquin Phoenix assim quis em sua construção, para que ele pudesse passear sobre diversas formas de expressar a desregulação emocional, inabilidade social, pensamentos catastróficos, sofrimento e dor psíquica e seu corpo representasse efeitos similares que os pacientes de doenças mentais apresentam ao longo dos anos.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não o tivesse.”

Arthur Fleck

Ele mora com sua mãe, cuida dela fazendo a comida, dando banho e sendo atencioso. Ele alimenta aspirações de se tornar um comediante de stand up, mas sua mãe sentencia: “para ser comediante precisa ser engraçado, Arthur”.

Perceba, esta filme fora construído minuciosamente para que o espectador tenha compaixão por um homem que vive num mundo sem compaixão.

Quando se olha muito tempo para um abismo

Nos anos 70 fora inaugurado o subgênero da ultraviolência no cinema. Devido a grupos jovens saíram agredido cidadãos porque se sentiram inspirados pelo que viram, o diretor Stanley Kubrick, indignado porque as pessoas não entenderam seu objetivo, teve que se desculpar publicamente e retirar “Laranja Mecânica” das salas de exibição.

Menos estiloso e conceitual, mais direto ao ponto, não é à toa que este filme do Coringa se inspire nos filmes de Martin Scorsese, como Taxi Driver. Parte da sensação de crescente de angústia durante a exibição do filme e manter o espectador em suspensão de descrença. O mundo precisa ser semelhante à nossa realidade e as reações que o personagem tem poderiam ser as suas caso se encontrasse na mesma situação.

Artur tenta recusar a oferta de ter uma arma dizendo ao companheiro do trabalho, que devido a sua condição não deveria portar uma arma. Mas este insiste, mesmo assim vende a arma para ele se ‘proteja do mundo violento’. Em seguida, esta é a arma que cai no chão dentro de um hospital infantil enquanto ele se apresentava (semelhante ao Doutores da Alegria). Por isto ao tentando se explicar ao seu chefe ligando de um telefone público ele é despedido.

Voltando para casa ele vê três homens assediando uma mulher no metro, e começa rir compulsivamente sem desejar fazê-lo. A mulher foge e os três começam agredi-lo moral e fisicamente. Ele saca a arma para se defender da agressão física, matando dois instantaneamente e persegue o terceiro na estação até matá-lo.

Este é o momento sem volta do personagem. No vídeo Anatomy of a Scene, em que vemos Arthur demonstrando um vislumbre do Coringa. Em vez de se assustar e/ou questionar moralmente o que acaba de acontecer, não há remorso ou arrependimento. Em vez disso, ele se tranca num banheiro público e dança como uma expressão de se empoderar de si pela violência.

O diretor Todd Phillips narra a cena do filme Coringa

O abismo olha para você

Apesar da temática ser proveniente das histórias em quadrinhos, o nome do filme é Coringa, portanto estamos acompanhando o desenvolvimento de um vilão. Ao Coringa serve a sentença de Nietzsche: “Torna-te quem tu és!”. As pessoas na sala de cinema, que minimamente tem repertório em Batman, sabe aonde filme quer chegar. A questão é como os espectadores são impactados pelo que estão vendo.

Dias depois, sabemos que três homens mortos pelo palhaço no metro eram cidadãos de bem e funcionários das Indústrias Wayne. Interessado em salvar a cidade do caos, o Sr. Thomas Wayne se candidata ao cargo de prefeito. Ao ser questionado pela morte dos seus funcionários diz: “Que tipo de covarde faria algo tão frio? Alguém que se esconde atrás de uma máscara. Alguém que tem inveja daqueles são mais bem-sucedidos. No entanto, eles têm medo de mostrar seu próprio rosto. Pessoas que mudam o mundo para melhor, são capazes de criar algo de nossas vidas, sempre olharão para aqueles que não o fizeram nada, apenas como meros palhaços”.

Os cidadãos de Gothan então resolvem protestar nas ruas contra os bem-sucedidos usando máscaras do palhaço, cujo retrato-falado povoa as manchetes de jornal. Notem, um novo elemento surge: a mídia.

Ao contrário do que se imagina, fake news não são um fenômeno da internet. Num passado recente, jornais de baixo orçamento propagavam manchetes sensacionalistas (hoje conhecido como clickbait) apenas para vender mais exemplares.

A arte imita ou revela a vida?

Diferente de outro filme da DC, V de Vingança (V for Vendetta, 2005. Warner Bros.) na qual a revolta popular fazia parte do projeto planejado de vingança contra o sistema, Arthur e levado pelo sabor dos acontecimentos. Algo que ele causa sem pretensão alguma traz para ele uma enorme satisfação ao ver o palhaço estampado na primeira página dos tabloides. “As pessoas me tratam como se eu não existisse, nem eu mesmo acreditava que não existia, mas eu existo.” Nas manchetes, a população o vê como um vigilante justiceiro, e ele por sua vez, apenas quer ser notado, reconhecido, quer os aplausos.

Anamnese do Palhaço

Este ano, ‘O Homem Morcego’ completa 80 anos do seu lançamento nas bancas de jornal e o Coringa era vilão da edição Batman#1. Aficionados afirmam que somente no filme Batman, 1989, que o diretor Tim Burton que sugere uma correlação entre Batman x Coringa, colocando este arqui-inimigo como o assassino dos seus pais. Neste filme, isto é elevado à enésima potência.

Desempregado, Arthur é notificado que o programa assistencial teve verbas cortadas e que ele não terá acesso as medicações. Ele resolve se apresentar como comediante de Stand up num clube. Ao chegar tarde em casa, coloca sua mãe na cama, que insiste que ele envie pela manhã a carta que ela tinha escrito. A mãe do Arthur sempre manda cartas para o mesmo destinatário, o Sr. Wayne. Conta frequentemente ao seu filho que trabalhou para ele por anos e que aguardava uma resposta para que pudesse ajudá-los a sair da situação de pobreza. Naquela noite, Arthur resolve ler aquela carta e descobre sua mãe pede ajuda a Thomas Wayne alegando que ele é o seu pai.

Ao confrontar a mãe, ela alega que foi obrigada a omitir esta informação ao seu filho porque assinou alguns documentos. Artur vai em busca do seu suposto pai. O Sr. Wayne que rechaça está possibilidade, diz que sua mãe Penny é uma desequilibrada e que ele vai descobrir a verdade nos arquivos dela no asilo Arkham. Perceba a subversão, esta é a primeira vez que vemos o pai do Batman não sendo a figura paterna altruísta que costuma ser pintado nos quadrinhos. Arthur entre a risada involuntária e o choro desesperado, diz ao Sr. Wayne: “Por que todo mundo me trata tão mal? Por quê?”.

Ao voltar para casa, descobre que sua mãe teve um mal estar e precisou ser hospitalizada. Em meio a tudo isto, alguém gravou sua performance no clube de stand up e encaminhou para o talk show da TV. Ele se vê exposto em rede nacional de forma humilhante pelo apresentador/comediante Murray Abraham (não ao acaso, vivido por Robert De Niro, protagonista de Taxi Driver) que diz ironicamente: “Todo mundo acha que consegue fazer meu ofício, este cara não passa de um Coringa (uma gíria para piadista medíocre)”.

Determinado a saber seu passado, vai ao asilo Arkham e consegue furtar o prontuário da mãe. Entre os documentos, descobre papeis de adoção e um extenso arquivo de manchetes de jornal no qual ele criança fora vítima de maus tratos pelos ex-namorados da mãe. Estes abusos ocasionaram o traumatismo craniano que gerou seu riso incontrolável. A mãe era conivente com os maus-tratos e ao ser questionada se não ouvia seu filho chorar ela disse “Não, porque ele sempre estava tão feliz”. Agora que temos uma parte da anamnese, o leitor não sairá daqui com as mãos abanando, recomendo a leitura do texto As Psicologias do Psicopata: o crime e a personalidade” e o artigo para Rollings Stones Neuro criminalista elogia Coringa e considera o filme “uma ótima ferramenta educacional.

That’s Life

Após esta revelação sobre seu passado, Arthur Fleck sai definitivamente de cena. Ao longo do filme, vemos ele subindo pesarosamente com as costas arqueadas, os degraus intermináveis de uma escada que leva a sua casa, assim como Sisifo empurra a pedra de mármore até o topo da montanha. Perto do fim, quem desce a mesma escada dançando e se regurgitando ao assumir a máscara do palhaço como sua identidade é o Coringa.

Convidado como entrevistado, ele vai a caráter ao programa de TV e pede para ser introduzido como tal. Durante a entrevista, o Coringa dispara: “Não há mais civilidade Murray, uns gritam com os outros, as pessoas não são empáticas, não se colocam no lugar do outro. Thomas Wayne espera que eu seja o cara bonzinho, mas não, seremos lobisomens e enlouqueceremos.” Isto não acontece por acaso, em sua tese de mestrado “O Famoso Infame”, Fabricio Marques Franco atribui ao Coringa  ‘sua ausência de regras em suas ações perversas e o gozo desmedido sobretudo e contra todos se mostra o fundamento do seu carisma’ com seu superpoder.

Não é o objetivo deste texto estragar totalmente a experiência de assistir este filme, por isto a maioria dos acontecimentos do filme foi omitido ou deixado no último bloco deste texto, Cenas Pós Crédito.

E quanto a propagada violência do filme? A violência aparece de outra forma, menor que em filmes do gênero de ação; mas contundente, pois serve de espelho para os espectadores. Perturbador, talvez seja, o quanto a identificação do público com o vilão seja orgânica. Principalmente, quando torcem para o Coringa no momento que ele executa seus algozes ou quando riem de cenas que deveriam despertar sensações de aversão e choque.

Enfim, ‘That’s Life de Frank Sinatra, a música que conduz o personagem nesta evolução até se tornar o ‘Palhaço do Crime’, traz em suas estrofes as seguintes frases: “Eu tenho sido um fantoche, um pobre, um pirata / Um poeta, um peão e um rei / Estive de cima a baixo, sem parar / E eu sei uma coisa / Cada vez que me vejo de cara no chão / Eu me levanto e volto à corrida”.  

That’s Life interpretada por Frank Sinatra e uma montagem com cenas do filme

Psicóloga Masilvia Diniz

Contribua conosco, concordou, discordou ou deseja outras análises neste formato deixem seu comentário na caixa de descrição.

Cenas Pós Créditos

Elizabeth Loftus psicóloga americana entre os anos 80/90, postulou a “Síndrome da Falsa Memória”. Uma forma bastante simplista de explicar este conceito é com uma pergunta: o que é a verdade, aquilo que aconteceu, o que acreditamos ter ocorrido? Realizando um experimento social, verificou-se que 24% das pessoas assimilara com verdadeira uma história falsa sobre estar perdido num shopping quando criança. O que isto significa, que é possível que o que acreditamos ser real e mais potente do que os fatos.

Lembra quando eu me referi sobre o passeio na mente de Arthur? O mundo é sombrio e escuro quando é real ou colorido quando vemos suas fantasias da sua mente? O espectador vê que o mundo trata-lo mau, ou o protagonista percebe somente o mundo o tratando o mau? No início do filme, vemos a assistente social dizendo que ele já havia sendo internado, e se ele nunca saiu do hospício? Quem deixaria uma criança vítima de maus-tratos a cargo de uma mulher internada num hospício que foi conivente com a violência com seu próprio filho? Se o pai do Batman fosse mesmo pai do Coringa ele teria abandonado seu filho? Nos anos 80, seria necessário um equipamento gigantesco para gravar a performance de Arthur no clube, por que ele não viu? Principalmente, se uma mulher é perseguida por um stalker, por que teria um relacionamento com ele? A única vez que o diretor pega na mão do espectador e esclarece que relacionamento não era real.  

No fim, o filme se abre um corredor branco de pegadas vermelhas para infinitas possibilidades.

Referências consultadas

Antunes, Debora. Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman. XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Curitiba, PR – 4 a 7 de setembro de 2009. Disponível em: https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/30880501/R4-0676-1.pdf?response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DEntre_o_heroi_e_o_vilao_uma_analise_de_C.pdf&X-Amz-Algorithm=AWS4-HMAC-SHA256&X-Amz-Credential=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A%2F20191010%2Fus-east-1%2Fs3%2Faws4_request&X-Amz-Date=20191010T040744Z&X-Amz-Expires=3600&X-Amz-SignedHeaders=host&X-Amz-Signature=d522cee01887a402c4530388ff774de07b4066deaa3468b85bbfb7b135c7594e

Batman no cinema. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Batman_no_cinema&oldid=55895295>. Acesso em: 2 ago. 2019.

Batman nas revistas em quadrinhos. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Batman_(revista_em_quadrinhos)&oldid=56353462>. Acesso em: 28 set. 2019.

Camus, Albert. O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Lisboa. Editora Livros Brasil S/C.

Coringa (Joker). Direção: Todd Phillips: Warner Bros. Pictures, 2019. (121 minutos).

Existencialismo. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Existencialismo&oldid=56404173>. Acesso em: 5 out. 2019.

Franco M, Fabricio. O famoso infame: um estudo sobre a persistência do vilão Coringa nas mídias e sua relevância na cultura midiática. PUC-SP. 2017.

Joker (DC COMICS). In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Joker_(DC_Comics)&oldid=56433989>. Acesso em: 9 out. 

Nietzsche, Friedrich. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Friedrich_Nietzsche&oldid=56087153>. Acesso em: 26 ago. 2019.

Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra (tradução de Mário da Silva). São Paulo: Civilização Brasileira, 1977.

Joker Best Movie Quotes – ‘Is it just me, or is it getting crazier out there?’ (Roteiro completo do filme). Movie Quotes and More. Disponível em: https://www.moviequotesandmore.com/joker-best-movie-quotes/. Acesso em 10 out. 2019.

Setembro Amarelo: Enquanto há vida há esperança.

No mês de setembro, os laços amarelos invadem as redes sociais e os meios de comunicação. Esta é uma homenagem ao Mike de 17 anos que morreu por suicídio em 1994. Em seu funeral foi distribuído por amigos e familiares um cartão com um laço amarelo e mensagem apoio para aqueles que estivessem em sofrimento.

Em vez de citar estatísticas de suicídio no Brasil e no Mundo (mesmo porque meu colega Caio Cesar Rodrigues de Araújo parceiro deste site vez isto brilhantemente no texto Por Que Não Devemos Falar sobre Suicídio?) ou fazer uma sopa de letrinhas com palavras rebuscadas, vou aproveitar este espaço para fazer a mesma coisa, vou entregar nesta publicação o meu cartão  com uma mensagem de como podemos ajudar pessoas que estão em sofrimento.

Todos nós seres humanos temos um mundo dentro de si. Experimentamos a vida de uma forma única e particular. Ao mesmo tempo, vivemos neste mundo pós-moderno digital, em constante mudança, no qual precisamos fazer muitas tarefas ao mesmo. Enquanto isto tudo acontece, dentro de nós, pode existir uma tempestade de pensamentos e um tsunami de emoções, que geram sentimentos e sensações físicas.

Como não sabermos o que se passa na mente uns do outros, ficamos sem entender certas atitudes e comportamentos das pessoas. Por isto, seguindo as orientações da OMS, MS e do Manual de Comunicação Consciente, destaco quatro dicas que podem ser úteis quando perceber que alguém está em risco de suicídio.

1º Dica: Ouvir

A Psicologa Karina O. Fukumitsu, autora do livro “A Vida não é do Jeito que a gente Quer”, afirma que não há uma única causa, mas “são várias situações que faz com que a pessoa vá se definhando na vida” e isto ela chama de processo de morrência. Como este tipo de processo não escolhe cor, raça, crença religiosa, idade, sexo e condição social, a recomendação é ouvir a pessoa sem julgamento, com a mente aberta e no local apropriado para que a pessoa se sentir segura. Lembre-se que quem pede ajuda, tem o direito de ser respeitado, levado a sério e ter seu sofrimento em consideração. Caso você não se sinta preparado, tudo bem, oriente a entrar em contato com CVV no 188 e explique que neste telefone há uma equipe de pessoas capacitadas que estão dispostas a dar apoio emocional e de forma sigilosa.

2º Dica: Acompanhar

Não é porque você não sabe o que dizer ou fazer, que sua presença é dispensável. Doe seu tempo e mantenha contato. Se você quer ajudar verdadeiramente seu presente será sua presença.

3º Dica: Buscar ajuda profissional

De onde eu estou, posso ouvir frases como: “não preciso de um médico de cabeça” e o clássico “psicólogo é médico de louco”. Se um osso foi quebrado, levamos a pessoa no Pronto Socorro e solicitamos o médico ortopedista. Se o celular parar de funcionar, imediatamente procuramos uma assistência técnica. Se o carro apresenta problema, na sua agenda tem o contato do mecânico, do funileiro e borracheiro. Por que quando a dificuldade está dentro da mente tem que ser diferente? Nas pessoas em dor e sofrimento, o turbilhão de pensamentos e tsunami de emoções seria equivalente a óculos de lentes embaçadas e visão turva: o mundo fica parecendo um reality show de sobrevivência na selva. Portanto, oriente a pessoa que contate um profissional especializado de saúde mental, seja psicólogo ou psiquiatra, que indicará o tratamento adequado de acordo com a necessidade. Se você tiver disponibilidade, lembre-se da 2º dica e se ofereça para ser acompanhante na consulta.

4º  Dica: Proteção

Segurança é uma necessidade básica da vida e sempre estamos buscando nos proteger. Pessoas que estão em dor e sofrimento precisam de proteção, inclusive delas mesmas. Prevenção é estar atendo e diminuir quais quer tipo de riscos que possam estar no ambiente.

Finalizo está mensagem com a frase do psicólogo Shneidman, um dos maiores especialista neste assunto: ‘O suicídio é um ato definitivo para um problema que tende a ser temporário.’ Se é temporário, é porque precisa de mais tempo para ser entendido e superado. Quando uma vida se apaga o tempo para, e isto ocorre para quem vai e para quem fica. Enquanto há vida há esperança. Por isto é importante que possamos fazer com que as pessoas se permitam ter tempo para enfrentar sua dor e seu sofrimento, não importando qual seja.

Psicóloga Masilvia Diniz

Contribua conosco deixando seu comentário na caixa de descrição.

Serviço de utilidade pública: Onde buscar ajuda para prevenir o suicídio?

CAPS e UBS – Unidades Básicas de Saúde – Postos e Centros de Saúde UPA 24H / SAMU 192 e Pronto Socorro e Hospitais CVV – Centro de Valorização da Vida – 188 (Ligação Gratuita)

Referências consultadas

http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/suicidio

https://www.karinafukumitsu.com.br

FaceApp – Fascinação e medo na clínica dos idosos

Por que o aplicativo que nos mostra mais velhos chama tanta atenção?

Imagem 1

(Imagem retirada da Internet)

De tempos em tempos um aplicativo chamado FaceApp cai no gosto do povo e chama a atenção geral. Já conseguiu “mudar” o gênero da face das pessoas e transformá-las em bebês. Nos últimos meses, outra aplicabilidade interessante causou alvoroço geral na rede. A possibilidade de “predizer” como você estará daqui à alguns anos. Ou seja, com base em uma foto de sua escolha, realiza um processo de envelhecimento artificial e apresentava um resultado (na maioria das vezes bizarro).

Não deu outra, a internet foi abaixo. O aplicativo acumulou mais de 150 milhões de fotos em questão de dias.

O debate acerca da privacidade envolvendo esses aplicativos fica para outro dia (e recomendo essa reportagem).

Espelho e formação da imagem

Imagem 4

(Imagem retirada da Internet)

A nossa imagem corporal é constituída em um longo processo mental, que é sempre pautado pela relação com o Outro. Jacques Lacan (1901 – 1981) introduziu a noção de estádio do espelho, que, resumidamente,  nos auxilia a compreender a constituição do sujeito em relação ao outro. Sugiro que todos se remetam ao próprio texto, mas para já é importante apontar que o aporte corporal do sujeito é dado pelo outro. A nomeação de nosso corpo e filiação é dada pelo Outro, e é simbolizada pelo sujeito.

“Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficiente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago.” (Lacan, 1951/1998, p. 97)

Logo após a constituição dessa unidade imaginária (Eu), o sujeito passa de uma relação auto-erótica, anterior, primária, a uma relação de narcisismo, onde o investimento libidinal volta-se sobre si mesmo, mas de uma maneira organizada.

 

Diana e Mario Corso (2018) falam da formação da imagem no adolescente, e como esse período determinará nossa relação com o espelho para o resto da vida. A adolescência é o momento onde formamos nossa assinatua visual, como fala Diana. “Sempre que olharmos para o espelho, é esse adolescente que vamos enxergar, e ele vai nos cobrar”. As selfies insistentes dos adolescentes (e dos nem tão jovens) podem ser entendidos como esse apoio para a formação da imagem.

 

 

A morte, segundo Freud se coloca como a castração final. E nos é impossível, conceber a nossa propria morte em seu aspecto completo, realmente imaginar nosso desfalecimento.

Muitos pacientes relatam imaginar e fantasiar sobre o seu próprio funeral. O que aconteceria, quem viria, se haveriam lágrimas sendo derramadas ou sorrisos exibidos.

O que argumento é, talvez o que importa no fato do app nos transformar em velhos é a possibilidade de poder mostrar para o outro. Olhar e ser olhado. Toda relação é a três como já dizia o velho Freud. Em uma passagem interessante do livro Como ler Lacan? (2010), do irreverente Slavoj Žižek, ele comenta esse aspecto (o leitor me perdoará desde já a longa citação):

“Essa referência inerente ao Outro é o tópico de uma piada infame sobre um pobre camponês que, tendo sofrido um naufrágio, vê-se abandonado numa ilha com, digamos, a Cindy Crawford. Depois de fazer sexo com ela, ela lhe pergunta como foi; sua resposta é “Foi ótimo”, mas ele ainda tem um favorinho a pedir para completar sua satisfação: poderia ela se vestir como seu melhor amigo, usar calças e pintar um bigode no rosto? Ele lhe garante não ser um pervertido enrustido, como ela verá assim que lhe fizer o favor. Quando ela o faz, ele se aproxima dela, dá-lhe um tapinha nas costas e lhe diz com o olhar malicioso da cumplicidade masculina: “Sabe o que me aconteceu? Acabo de transar com a Cindy Crawford!”

 

A clínica psicanalítica com idosos

Imagem 2

(Imagem retirada da Internet)

É possível analisar idosos? Agora, respondo que sim. Antes, talvez tivesse mais resistência para com isso. A kilometragem de divã nos ajuda bastante.

Para Freud (1898/1996), analisar idosos poderia não ser uma boa idéia pelo fato da neurose estar tão arraigada que não haveria tempo de realizar o tratamento psicanalítico, haveria “muito material”.

 

A psicanálise faz com que o sujeito reflita sobre seu próprio desejo, e muitas vezes ajuda a recriá-lo. A velhice pode ser tida por alguns como período de espera pela morte. O analista aposta no sujeito, para que ele ainda podem ter sonhos.

A clínica psicanalítica faz com que o sujeito possa se re-inventar, encontrar outras formas de satisfação e lidar de maneira menos tóxica com a perda dos objetos.

 

Lembro de um episódio específico da série televisiva “Friends” quando todos fazem 30 anos, onde a forma como cada um lida com isso é mostrado. Muitos não aceitam, alguns inclusive querem fazer um pacto com Deus para não mais envenlhecer.

Como dizia Freud: Existe vida antes da morte.

Até a próxima,

Por Igor Banin

PS:

Sobre esse tema, acho interessante a leitura dos textos abaixo. Um deles trata de um experimento feito por um fotógrafo onde ele junta imagens de pessoas idosas, com retratos das mesmas quando jovens. O outro é um artigo da psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, que também faz uma análise do aplicativo FaceApp. Além disso, seguem também os comentários do psicanalista Christian Dunker acerca da clínica na velhice.

https://extra.globo.com/noticias/mundo/fotografo-americano-poe-idosos-para-se-verem-mais-jovens-no-espelho-em-ensaio-10969068.html

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2019/07/vida-longa-as-vovozinhas-assanhadas.shtml

 

Referências Bibliográficas

Crane, D & Kauffman, M. (2000). Friends: The one where they all turn thirty. Estados Unidos da América: Warner Bros. Television.

Freud, S. (1898/1996). A sexualidade n aetiologia das neuroses. In Primeiras publicações psicanalíticas. (pp. 249-272, Obras completas de Sigmund Freud, v.3). Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1951/1998). O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In Escritos. (pp 96 – 103). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Zizek, S. (2010). Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

“Adolescentes e adultos: tudo fora do eixo”. Palestra da série: Adolescência em cartaz por Mario Corso e Diana Corso, feita em 2018. Promovido pela CPFL Cultura.

Diferenças entre Medo, Fobia e Ansiedade.

Você saberia diferenciar medo, fobia e ansiedade? Sim? Não? Em ambos os casos: este texto será perfeito para você.

O Grito. Obra-prima em óleo sobre tela do pintor expressionista norueguês Edvard Munch. Foi pintada no ano de 1893 e atualmente pertence ao acervo da Galeria Nacional de Oslo. O Pintor se inspirara muito em Vincent Van Gogh, tendo a autoria de sua obra frequentemente confundida, como se fosse do pintor holandês. Suas cores, suas formas, seus traços e as expressões faciais ali representadas são frequentemente associadas ao sentimento de medo, fobia, angústia e ansiedade do ser humano.

O Medo

E se você pudesse sentir medo pela primeira vez?

Outro dia me peguei pensando sobre o que seria uma reação estranha e incômoda de meu corpo. Mais ainda: o que seria esta reação que ao longo de minha vida aprendi a enxergar como algo normal, mas no sentido de quase inexistente: inerente. Tal fato fez com que eu me questionasse: como poderia ser sentir isso pela primeira vez? Este questionamento se deu quando eu estava com meus pensamentos envoltos sobre o ato de sentir medo. Afinal, o que é isso?

O Medo é uma emoção. Uma emoção básica. Se você ainda tiver dúvidas sobre o que é uma emoção, consulte este texto do psicólogo Caio Ferreira. O medo é uma resposta neuropsicofisiológica, com caráter evolutivo, por vezes mais motivado à via cultural, por outras pela via instintiva. Mas sua convergência é uma só: o medo sempre causará fortes desconfortos físicos e/ou psíquicos a quem o experimenta.

Se você encontrar um Leão…

“Hércules luta com o leão de Nemea” é uma pintura de Francisco de Zurbarán exibida no Museu do Prado em Madri, Espanha.

Pra que serve o medo?

O medo é uma emoção que provoca descargas de adrenalina; que aumenta ou diminui o fluxo de sangue do corpo — pode causar vasodilatação ou vasoconstrição – provocando vermelhidão ou palidez na pele; o medo dilata as pupilas para melhorar nossa capacidade de visão até em ambientes mais escuros; o medo é até capaz de provocar a liberação de urina ou fezes de maneira involuntária. E há tantas outras descrições… Embora estas interações emocionais – ocorridas em muitas áreas do cérebro, mas principalmente na integração entre a amígdala, o hipocampo e o hipotálamo – apontem principalmente um caráter de paralisia ou fuga – maior fluxo sanguíneo para maior produção de ATP e maior energia muscular para correr; liberação de urina e/ou fezes com função de afastar predadores através do odor, por exemplo – o medo também pode ser uma forma de preparar nosso corpo para uma luta. Inclusive, paralisia, luta e fuga são respostas autônomas ao medo. Tanto no ser humano como nós animais.

Por exemplo na imagem acima. Hércules, apesar de ter derrotado o Leão de Neméia através de uma árdua luta, provavelmente não teria deixado de sentir medo. Contudo, outras pessoas (e me incluo nessa lista) provavelmente não lutariam contra um leão. Algumas ficariam paralisadas, tremeriam suas mãos e pernas e ficariam com dificuldade para respirar; outras correriam; algumas até poderiam utilizar o córtex pré-frontal em conjunto com o hipocampo para lembrar daquelas técnicas aprendidas na internet sobre como agir perante um leão. Mas aqui falamos de uma exclusividade humana.

Em suma: o medo, apesar de seus desconfortos, serve para proteger a nós mesmos e à nossa espécie. Mas e quando ele acontece de maneira desmedida?

As Fobias

Fobos (Phobos) e seu pai Ares em uma carroagem retratados em Ânfora de aproximadamente 500 anos A.C.

O que une Marte a Vênus é o medo e o terror na Terra.

Phobos e Deimos eram os gêmeos que nasceram da junção do amor, da sensualidade e da beleza de Afrodite (Vênus na versão Romana) em contato com a Guerra, as Armas e os Conflitos de Ares (Marte, na versão Romana). Vale ressaltar que Afrodite era casada com Hefesto, tratando-se, portanto, também de uma traição. Bons filhos que eram, entre seus desejos e aspirações encontrava-se a vontade de sempre acompanhar o pai em suas Guerras. Desta forma, não haveria Guerra em que o Medo (Phobos) e o Terror (Deimos) não acompanhassem os homens.

Em seu papel de Daímon, alguma parte própria natureza humana se manifestava através deles. Se essas divindades não existiram na realidade, com certeza existiram através da força que seu mito tinha para permear o discurso dos guerreiros. Passam a existir no corpo de cada soldado e de cada general — através daquilo que este sente — sua aparição é inerente à Guerra. E não haverá Guerra alguma sem medo ou terror. Mas haveria menos ainda a existência de qualquer um dos dois se até o maior dos guerreiros não precisasse de amor. Então para resumir o mito: a paixão (pathos) que transita entre o amor e a guerra deu a luz ao medo e ao terror dos seres humanos.

A palavra Fobia, em sua raiz grega, deriva deste Deus ou demônio (daímon) que era Phobos, a personificação do medo.

O que é uma Fobia?

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) entendemos como fobia um medo específico e irracional, ou seja, além das perspectivas reais de perigo daquele objeto que causa tal medo — que pode ser um animal, uma situação e/ou um próprio objeto inanimado:

“Os indivíduos com fobia específica são apreensivos, ansiosos ou se esquivam de objetos ou situações circunscritos. Uma ideação cognitiva específica não está caracterizada nesse transtorno como está em outros transtornos de ansiedade. Medo, ansiedade ou esquiva é quase sempre imediatamente induzido pela situação fóbica, até um ponto em que é persistente e fora de proporção em relação ao risco real que se apresenta. Existem vários tipos de fobias específicas: a animais, ambiente natural, sangue-injeção-ferimentos, situacional e outros”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233-234).

A palavra fobia entra como uma representação patológica do que seria a superestimação do perigo real que este medo a um objeto ou evento específico (para ser caracterizado fobia precisa ser em relação a algo específico) pode ou não acompanhar as manifestações fisiológicas mais comum a quem experiencia a emoção do medo em graus elevados. Ex: sudorese, tremores, paralisia, gritos, etc.

Curiosamente, derivando do grego Phobos, o daímon que representava o medo na Mitologia Grega, a nomenclatura deste Transtorno Mental parece ter sido escolhida de forma que também acompanhasse, em partes, a narrativa do mito.

Fobias Específicas

Certa vez, enquanto uma pessoa me relatava sobre uma fobia que possuía, correu um fato curioso: apenas por dar uma descrição mais detalhada do objeto em questão, esta pessoa demonstra tremendo desconforto, visível ao seu rosto e ao seu corpo – ambos passaram a ser protegidos pelas suas mãos.

Resultado de imagem para insects phobia

A Fobia pode se tornar uma espécie de lente de aproximação dos perigos quem podem ou não representar aquele objeto ou evento específicos.

Talvez você conheça algumas pessoas têm nojo de barata. Sem dúvida também conhece outras que têm medo. Mas você conhece adultos, idosos anônimos e famosos que paralisariam, suariam frio, sofreriam de uma incômoda taquicardia e até chorariam como uma criança perante este mero inseto? Para o caso de conhecer: ajude esta pessoa a buscar por um psicólogo e/ou um psiquiatra, pois é possível que ela sofra de entomofobia, ou insetofobia.

Para o diagnóstico de fobia específica ser considerado, é importante ressaltar que a relação de elevada aversão e ansiedade perante o objeto deverá persistir por período igual ou superior a seis meses. Ainda se faz necessário destacar que para começarmos a distinguir um medo de uma fobia, é também preciso avaliar se e o quanto aquilo causa sofrimento e incapacitação na vida daquele indivíduo.

Alguns exemplos de Fobias Específicas

ATENÇÃO: Caso o leitor sofra de algum caso de Fobia Específica, esta seção poderá conter imagens explícitas de seu objeto fóbico.

Aracnofobia: aranha, de forma real ou imaginada;

Resultado de imagem para spider man bitten

Acrofobia: de altura; de lugares altos, de muros, sacadas, etc;

Resultado de imagem para phobia glass bridge

Agorafobia: de espaços abertos; shows, concertos, multidões em geral;

Resultado de imagem para 25 de março

Claustrofobia: de lugares fechados/trancados: elevadores, túneis, etc.;

Resultado de imagem para claustrofobia

Hematofobia: de ter contato ou de apenas ver sangue ou vestígios de.

Imagem relacionada

A Fobia na Psicanálise

Talvez o caso mais famoso de fobia retratado na psicanálise é o do Pequeno Hans, e sua fobia de cavalos. Caso contado por Freud. Recomendo a leitura da obra, mas para quem quiser conhecer brevemente o caso, o psicanalista Christian Dunker traz um breve resumo em seu Canal no Youtube:

A Ansiedade

Resultado de imagem para anxiety photography

“Chegou o final de semana. Finalmente eu poderei colocar em dia os estudos que deixei atrasar. Dessa vez eu vou conseguir atualizar os detalhes de minha agenda! Agora dará tempo de arrumar o meu quarto, de trocar a lâmpada do forno do meu fogão. Mas hey, primeiro eu preciso levar o cachorro para passear. Também não posso me esquecer de reservar uma hora de cada dia para ir à academia e, com certeza, de ler minhas 50 páginas diárias. É bom que eu também me lembre de relaxar, de ouvir alguma música. Será que não tá na hora de checar as minhas redes sociais? O que as pessoas poderiam estar pensando de mim? Será que aquela foto ficou muito comprometedora para o pessoal do trabalho ver? MAS EU AINDA NÃO ESTUDEI! Imagina se o cachorro ficar o dia inteiro sem passear? Eu deveria me esforçar para me organizar mais. MEU DEUS! Eu ainda não atualizei a agenda e ainda faltam 49 páginas. Acho que vou dormir. É uma pena que eu não consigo fazer nada direito”.

Esta é a síntese de alguns pequenos momentos dentro da mente de alguém que sofre de ansiedade. É como se o pensamento tivesse vida própria, como dizem muitos pacientes. E isso cansa, pensar se torna um trabalho. Um trabalho pra lá de exaustivo.

A ansiedade torna a vida do sujeito atemporal. Vive-se o passado e presente em simbiose com as possibilidades (frequentemente negativas) do futuro. É o medo em sua forma crônica, constante e às vezes invisível. É uma enxurrada de palavras preocupadas que pré-ocupam toda e qualquer atenção e relaxamento na vida de um sujeito.

Quem sofre de Ansiedade não tira Férias

A imagem pode conter: texto
Passagem do Romance “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski.

A ansiedade ocorre na mente e no corpo. Dificilmente ela age isoladamente em um dos dois, por mais que a princípio alguns sintomas dêem a entender tal fato.

Não é incomum que um paciente que sofra de ansiedade descubra isso após seu dentista lhe apontar o desgaste que o bruxismo causa em seus dentes.

Em alguns casos, quem prevê o diagnóstico é o próprio gastroenterologista, após uma forte dor no estômago que mais tarde se descobre ser uma gastrite.

Quando me perguntam sobre a relação entre gastrite e ansiedade, eu gosto de recorrer à seguinte explicação:

– A gastrite é uma condição médica onde o próprio suco gástrico, que, presente no estômago para auxiliar na digestão dos alimentos, acaba corroendo as paredes que revestem o órgão internamente – quadro muitas vezes corroborado por um padrão alimentício rico em acidez.

Contudo, há relatos de pacientes que mesmo em uma dieta praticamente alcalina apresentaram o distúrbio. Por alguma coincidência, esses pacientes geralmente têm um perfil comportamental mais ansioso. Eventualmente temos aqui um diagnóstico de um quadro conhecido como dispepsia funcional. Ou, popularmente falando: Gastrite Nervosa.

– Uma das causas da gastrite nervosa é a liberação de suco gástrico sem a presença de alimento e/ou fisiopatologia que cause tal fato. Mas o que faria o organismo ter este tipo de comportamento? Talvez um chiclete, já que ele simula uma refeição e a pessoa poderá sofrer caso se encontre de “barriga vazia”. Mas e se o paciente sofrer da condição mesmo sem o hábito de mascar chiclete?

Será que isso é algo como se o organismo estivesse pulando etapas? Como se este se atropelasse na pressa de fazer tudo de uma vez? Talvez como se a sua digestão, da mesma forma em que ocorre com os pensamentos apreensivos de um paciente ansioso, esteja lá no futuro, lhe causando desconforto agora.

O que é a Ansiedade, afinal?

Resultado de imagem para ansiedade

A ansiedade, segundo Dalgalarrondo:

[…] é definida como estado de humor desconfortável, apreensão negativa em relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e fisiológicas (dispneia, taquicardia, vasoconstrição ou dilatação, tensão muscular, parestesias, tremores, sudorese, tontura, etc.) e manifestações psíquicas (inquietação interna, apreensão, desconforto mental, etc.).

(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166).

Portanto, é importante ressaltar que estamos falando de uma condição por vezes altamente incapacitante. A ansiedade costuma trazer insônia, comprometendo a organização dos ciclos circadianos do paciente; pode atrapalhar relações de trabalho com atrasos e faltas frequentes; pode, inclusive, comprometer relações amorosas e familiares. Nada aqui se compara ao famoso “frio na barriga” antes de uma esperada viagem – causado por uma descarga de adrenalina

Lembrando disso me cabe também contar que, ao começo de minha vivência clínica, quando atendia pacientes encaminhados via convênio médico em parceria com uma instituição, era altíssimo o número dos encaminhamentos médicos com a hipótese diagnóstica de algum Transtorno de Ansiedade.

Mas o fato mais curioso, que não me foi ensinado à graduação de psicologia era que a maioria destes pacientes não era composta por pessoas encaminhadas por um psiquiatra, mas sim pelo cardiologista – em geral após uma suspeita de infarto ou cardiopatia ser descartada por uma bateria de exames realizada um pouco depois de o paciente ter dado entrada no Pronto Socorro de um hospital.

Os Sintomas da Ansiedade

Dalgalarrondo (Ibid) divide os sintomas entre mentais, ou seja, relacionados à experiência interna, subjetiva, do indivíduo; e somáticos, relativos ao corpo, à fisiologia; à parte observável diretamente.

Quadrinho
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166. Quadro 16.3)

Contudo, é preciso cuidado. Os sintomas da ansieda não lhe são exclusivos. Eles já apareceram em Outro lugar. Eles são muito semelhantes ao que se sente no medo. Entretanto, o próprio DSM-V faz questão de nos atentar às diferenças entre medo e ansiedade:

“Medo é a resposta emocional à ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, com o medo sendo com mais frequência associado a períodos de excitabilidade autonômica aumentada, necessária para luta ou fuga; pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga e a ansiedade sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e vigilância em preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233).

A partir desta afirmação, se faz importante observar que há uma clara semelhança entre os sintomas da ansiedade com a expressão de uma das sete emoções básicas: o medo. Não é atoa que há eventual confusão entre os dois termos. A ansiedade talvez se pareça mais com um medo que, a princípio, se hospedaria naquele local apenas por um final de semana, mas encontrou lá razões para permanecer por tempo indeterminado.

As próprias manifestações fisiológicas são bem parecidas às do medo e da fobia. Mas a principal diferença é que, pelo menos a princípio: a ansiedade pode não possuir relação com causa/objeto específicos. Em alguns casos, como no Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), uma crise de ansiedade pode acontecer de maneira súbita, sem causa aparente. Quem quiser mais detalhes sobre a ansiedade, recomendo a leitura de um excelente texto da psicóloga Masilvia Diniz clicando aqui.

Transtornos de Ansiedade

Resultado de imagem para brasil pais mais ansioso

Você sabia que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde?

Os Transtornos de Ansiedade são diagnosticados de acordo com as recomendações da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID 10) – gerido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) –, e/ou pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) – regido pela American Psychiatric Association. Sempre por um psiquiatra. Contudo, o tratamento pode e deve ser realizado com vários profissionais trabalhando em equipe. A multidisciplinaridade, como forte aliada à saúde mental, é indispensável. Desde o psicólogo, o psiquiatra; à nutricionista, o terapeuta ocupacional; até ao educador físico e ao endocrinologista. Caso você sofra de algo parecido, procure urgente um profissional da área da saúde mental.

Exemplos de Transtornos de Ansiedade

Resultado de imagem para transtorno de ansiedade generalizada

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Sendo uma de suas marcas o roer de unhas, falamos aqui de um quadro de sintomas ansiosos que persistem por pelo menos seis meses, passando a causar elevados prejuízos aos âmbitos social, produtivo e afetivo do indivíduo que sofre desta condição.

A angústia e a insônia não são raras, confira a lista de sintomas que Dalgarrondo (2008) descreve a respeito desta condição:

TAG
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

O TAG é algo que com alguma frequência parece não ter uma causa aparente em suas crises. E de fato não é fácil estabelecer uma linha entre os fatores que poderiam desencadear a expressão de uma crise de ansiedade.

Para ilustrar tal fato, me recordo de uma situação relatada para mim onde, todos os dias na mesma hora, um pouco após chegar ao trabalho, uma pessoa que sentia muita vontade de ser demitida começava a experimentar uma crise de ansiedade. A princípio, para alguns psicólogos e psicanalistas, a relação entre as duas coisas parecerá evidente. Contudo, foi preciso que mais detalhes fossem buscados para que se começasse, em consultório, recolher as migalhas de pão”deixadas no caminho através da fala do paciente para depois entender mais nuances que o sigilo profissional não me permitirá expor aqui. As informações deste tipo não são tão simples de se chegar ao acesso, exigindo um pouco de paciência e atenção da parte do terapeuta.
O tratamento para o TAG é realizado com psicoterapia e, em casos mais acentuados, há o uso de medicamentos em conjunto.

Transtorno do Pânico

Resultado de imagem para Transtorno do Pânico

É o medo de sentir medo. Um dos mais incapacitantes transtornos de ansiedade. Suas manifestações se estendem através de descargas do sistema nervoso autônomo; exatamente por isso, seus sintomas são até mais incapacitantes do que no caso de outros transtornos. Por exemplo: “batedeira ou taquicardia, suor frio,
tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos
em membros e/ou lábios” (Dalgalarrondo, 2008, p. 305).

Panico
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

Ainda de acordo com Dalgalarrondo (2008) , algo é unânime entre os pacientes: a sensação de que irá morrer a qualquer momento. Em crises mais intensas pode haver até certo grau de despersonalização. O ataque de pânico costuma ocorrer por mais tempo que o convencional. Quando estas crises de pânico se repetem com certa frequência por um período de 6 meses, pode-se começar a indagação a respeito de um diagnóstico relacionado ao Transtorno do Pânico (podendo ser com ou sem agorafobia).

Pacientes que sofrem de Transtorno do Pânico começam a evitar sair de casa com medo dos ataques; pedem demissão, terminam relacionamentos e, em casos mais graves até cometem suicídio em função da insuportabilidade de seu sofrimento.

A Ansiedade tem tratamento

Agora que você já sabe a diferença entre medo, fobia (que no DSM-V também é considerada um transtorno de ansiedade) e ansiedade teremos o objetivo principal em pauta: auxiliar na busca pelo tratamento, inclusive estimulando pessoas próximas a fazerem o mesmo. Se o leitor se identifica com a maior parte dos sintomas e algum dos transtornos aqui apresentados, a recomendação é que procure um psicólogo e/ou um psiquiatra o mais rápido possível, mesmo que apenas para tirar a dúvida. A internet não serve para isso.

A diferença é feita na hora da procura por um profissional. Mas a difusão do conhecimento sobre o assunto também poderá ajudar para que mais pessoas consigam entender que talvez seja a hora de escutar a opinião de quem dedicou, e ainda dedica a vida pessoal e profissional para ajudar quem passa por este tipo de sofrimento. Compartilhar este texto e deixar seu feedback também ajudarão à difusão deste conhecimento. Faça a sua parte. Até a próxima.

*Todas as imagens contidas no texto foram obtidas de forma gratuita na internet. Caso alguma delas seja de sua autoria, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos o mais rápido possível*.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERENCIAS:

American Psychiatric Association et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.

Cabral, A.; Nick, E. Dicionário Técnico de Psicologia. São Paulo. Editora Cultrix. 2006.

Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed Editora. 2008.
Darwin, C. A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras. 2009. (Obra original publicada em 1872).
Ekman, P. A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel. 2003.

Lent, R. Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu. 2010.
Rafailov, Igor. “Dicionário Igor de Fobias.” Forum de Fobias, 2003.

Spinelli, M. “O Daimónion de Sócrates”. Revista HYPNOS. São Paulo. Ano 11/nº 16 – 1º sem. 2006 – p. 32-61. acessível em http://revistas.pucsp.br/index.php/hypnos/article/view/4777/3327