Você Conhece o Estado de Flow?

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

(Fernando Pessoa)

Você já realizou uma atividade onde não percebeu o tempo passar? Deixou de comer ou ir ao banheiro? Sentiu extremo prazer e conexão com aquilo que estava fazendo? Provavelmente você já experimentou essa sensação em alguns momentos da sua vida ou mesmo do seu dia-a-dia. Essa experiência vem sendo estudada pela psicologia como flow (ou estado de fluxo) e é sobre ela que vamos falar no texto de hoje 😉

Mihaly Csikszentmihalyi

É um psicólogo de origem croata considerado um dos pais da psicologia positiva (ao lado de Martin Seligman) e o pai da teoria flow. De acordo com sua biografia, teve a família destruída pela 2ª Grande Guerra Mundial e chegou a ser mantido em campo de concentração italiano quando criança. Teria descoberto a primeira “atividade flow” por meio do xadrez, depois pela pintura e fotografia. Durante os estudo de psicologia, chegou a assistir palestra de Carl Jung e interessou-se pela felicidade após conhecer húngaros que estiveram presos na União Soviética e se questionar por que alguns mantinham-se sãos enquanto outros estavam psicologicamente destruídos. Graduou-se no ano de 1959 e recebeu seu doutorado em 1964, ambos pela Universidade de Chicago (Kamei, 2018).

Foi observando pintores durante sua pesquisa de doutorado (sobre criatividade) que percebeu características daquilo que, mais tarde, viria a chamar de estado de flow. Mihaly ficou impressionado como os artistas ficavam imersos, concentrados, envolvido e absorvidos durante o processo de pintura, esquecendo-se também do tempo, das necessidades biológicas, da fadiga e das obrigações sociais, por exemplo. O mais interessante era que isso durava enquanto a pintura estivesse incompleta e sendo construída, pois, assim que o quadro era concluído, os artistas perdiam o interesse por aquela obra e se voltavam para a próxima tela. Ele entendeu que a motivação para a pintura estava no próprio processo de pintar, e não na antecipação frente a um belo quadro pronto – a qualidade da experiência já era suficientemente recompensadora.

Charles Spencelayh (England 1865-1958) The Old Copyist

Buscando explicações para o que estava descobrindo, teve dificuldades em encontrar respostas ou elucidações nas chamadas 1ª e 2ª força da psicologia (behaviorismo e psicanálise), mas encontrou um ponto de partida na psicologia humanista de A. Maslow, que já apontava dois tipos de comportamento criativo (orientado para o produto e orientado para o processo). A proposta de Maslow entendia a autorrealização por meio de experiências culminantes, o que envolvia o descobrimento das potencialidades e limitações do eu a partir das atividades e vivências. Foi o mais perto que Mihaly encontrou sobre o que estava estudando. Por meio da observação de crianças e de pesquisas realizadas com pessoas que despendiam grande parte de tempo em atividades das quais não tinham nenhum tipo de remuneração (como atletas amadores, dançarinos, compositores, alpinistas…), que ele descreveu as características e condições da experiência flow.

“Em um mundo supostamente regrado pela busca por dinheiro, poder, prestígio e prazer, é surpreendente encontrar certas pessoas que sacrificaram todas essas metas por nenhuma razão aparente: pessoas que arriscam suas vidas escalando montanhas, que devotam suas vidas à arte, que despendem suas energias jogando xadrez. Descobrindo por que elas estão dispostas a desistir de recompensas materiais pela elusiva experiência de desempenhar ações satisfatórias, nós esperamos aprender algo que nos permitirá tornar a vida cotidiana mais significativa.”

(Csikszentmihalyi, 1975)

Modelo de Experiência Flow

De acordo com o autor, existem 3 principais condições para a ocorrência do estado de flow: 1) metas claras; 2) feedback imediato; 3) equilíbrio entre habilidades, desafios e oportunidades de ação.

  1. Metas Claras: para o flow, não interessam tanto as metas finais, mas sim a série de pequenos objetivos momento a momento. Como cada nova pincelada em um quadro; como um próximo movimento preciso para a execução de uma dança; como o escrever de algumas palavras para avançar em um texto, por exemplo.
  2. Feedback Imediato: essa condição informa sobre o andamento da performance e se o autor está se aproximando do seu objetivo em cada ação. Em toda pincelada a modificação visual ocorre e isso aproxima ou distancia do efeito desejado; cada nota musical executada ou improvisada informa sobre a qualidade da performance e pode sugerir alteração na dinâmica das próximas notas; cada traço no papel do desenhista; um domínio de bola para um futebolista; uma bela figura inserida em um slide de alguém que monta uma aula…
  3. Equilíbrio Entre Habilidades, Desafios e Oportunidades de Ação: buscando mapear o espectro da experiência flow, Mihaly trabalhou, inicialmente, com 3 experiências: tédio, flow e ansiedade, relacionando-as enquanto correspondentes à combinação entre habilidades (que se possui) e desafios (a serem atingidos) envolvidos em uma tarefa. Em linhas gerais, uma pessoa com grandes habilidades frente a um desafio baixo, vai experienciar tédio, assim como uma pessoa de baixas habilidades frente a um desafio alto, vai experienciar ansiedade. Dessa forma, a experiência flow se encontra no equilíbrio entre as habilidades e os desafios, com base em uma situação de oportunidades de ação (que podem ser bem ou más sucedidas – um saque de tênis, por exemplo). Abaixo está o modelo atual de compreensão do estado de flow.
Modelo de Flow de 8 Canais – Adaptado de Csikszentmihalyi (1997)

Características do Flow

Durante o flow, as pessoas relatam sensações de estar no controle de suas ações frente ao cenário em que a atividade se desenvolve. A atenção é forte e focal, sendo que o contato acontece no aqui e agora e é presente nos fatos, deixando de lado tanto questões ruminativas sobre passado ou futuro, quanto questões relacionadas aos papeis sociais e profissionais – é comum a sensação de unicidade com a criação, o músico e o instrumento são um quando fazem a música; a bailarina e a dança torna-se uma coisa só. Essa experiência também impacta a percepção temporal, sendo que alguns relatos falam sobre o tempo discorrendo de forma muito mais rápida, mas também muito mais lenta. Assim como uma aula de horas pode parecer ter durado alguns minutos para o professor que gosta de lecionar, um movimento coreografado de milésimos de segundo pode parecer uma eternidade na percepção da bailarina. Outra característica foi chamada de experiência autotélica e diz respeito a atividade ser um fim em si mesma, sem depender de fatores posteriores – ela é satisfatória, extremamente agradável, intrinsecamente recompensadora e gratificante por si própria. Abaixo listei as principais características:

  1. Sensação de controle
  2. Concentração profunda
  3. Fusão entre ação e consciência
  4. Foco temporal no presente (aqui e agora)
  5. Distorção da experiência temporal
  6. Perda da autoconsciência social
  7. Experiência autotélica

Aplicando o Flow

Vale dizer que o estado de flow não é exclusivo dos artistas e atletas, ou de pessoas que trabalham diretamente com a criatividade, mas é uma forma de experiência que todos podem alcançar e em diversos afazeres. Em seu artigo de 1975, Csikszentmihalyi defendeu que a aplicação do modelo flow deveria ser urgente nas escolas e trabalhos, uma vez que as pessoas tendem a passar a maior parte da vida nessas instituições. Ao longo de sua obra ele fala sobre o estado de flow acontecendo nas atividades produtivas (como trabalho e estudo), atividades de manutenção (manter o corpo em forma, limpar, descansar) e atividades de lazer (consumo de mídia, conversa, hobbies), e relaciona com consequências no aumento das emoções positivas, no crescimento do self, no fortalecimento da autoestima e no próprio desempenho da tarefa que é executada.

Para empregar o flow, em linhas gerais, é necessário compreender a relação entre as habilidades (que se tem) e os desafios (necessários) para a realização de uma tarefa. Caso a tarefa seja muito difícil, ela deve ser reduzida; caso seja muito fácil, deve ser elevada. E o mesmo acontece para as habilidades de alguém, que dependem de treinamento e prática. Nas primeiras aulas de música, o professor propõe exercícios fáceis e, conforme o aluno vai aprendendo a executá-los, o grau de dificuldade deve subir, caso contrário o aluno tende a se entediar com a experiência. Da mesma forma que se o desafio for muito elevado, desde o início, a experiência tenderá à preocupação, estresse e ansiedade. O flow está no equilíbrio entre as habilidades e os desafios.

Gostou do assunto? Aproveite para assistir à palestra com o Dr. Csikszentmihalyi. Se quiser saber mais, matricule-se no nosso curso EAD sobre psicologia positiva.

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Referências e Recomendações

Csikszentmihalyi, M. (1975). Beyond Boredom and Anxiety. Washington: Jossey-Bass Publishers.

Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow. New York: Harper Perennial Modern Classics.

Csikszentmihalyi, M. (1997). The masterminds series. Finding flow: The psychology of engagement with everyday life. Basic Books.

Kamei, H. (2018). Flow e psicologia positiva: estado de fluxo, motivação e alto desempenho. Goiânia: Editora IBC.

Snyder, C. R.; Lopez, S. J. Psicologia positiva: uma abordagem científica e prática das qualidades humanas. Porto Alegre: Artmed, 2009

As 3 Grandes Forças em Psicologia

A Psicologia Positiva e o Estudo da Felicidade

Explicando Seligman: Felicidade Autêntica e Florescimento (Psicologia Positiva)

Lista de 10 Emoções Positivas

Por Caio Ferreira

Zoom Fatigue: O que é esse esgotamento mental e como amenizá-lo

O termo “Zoom Fatigue” começou a circular pela mídia em 2020 e tem se intensificado cada vez mais devido a adoção e popularização das videoconferências

Desde março de 2020, quando nos vimos forçados a adaptar a rotina e relações sociais por conta da pandemia de COVID-19, o uso de aplicativos para vídeo conferência, como Teams, Google Meets e Zoom mais que duplicaram. Segundo pesquisa da CNN Brasil (2020), o download do aplicativo Microsoft Teams cresceu cerca de 500% em 2020, quando comparado o mesmo período em anos anteriores. 

Impulsionado pelo aumento no uso dos aplicativos de vídeo conferência, o professor Jeremy Bailenson, fundador do Laboratório de Interação Humana Virtual de Stanford (VHIL), examinou as consequências psicológicas de passar muitas horas por dia na frente do computador e plataformas de comunicação. Assim como o nome “Google” e “Twitter” se tornaram verbos com o passar dos anos, o termo “Zoom” (empresa estadunidense que fornece serviço de chamadas por vídeo, criada em 2020) passou a ser utilizado como um verbo genérico, sinônimo de reuniões. 

Jeremy identificou quatro causas, em nosso corpo e mente ,decorrente das exposições virtuais prolongadas que contribuem para o chamado “Zoom fatigue” também traduzido como o cansaço do Zoom.

  • Quantidade excessiva de contato visual durante uma reunião por vídeo conferência

Quando estamos em uma reunião com mais de duas pessoas e todas estão com suas câmeras abertas, fazemos contato visual com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, enviando estímulos excessivos ao cérebro, algo que não aconteceria no formato presencial, onde nosso campo de visão limita a quantidade de pessoas e de informações em um mesmo espaço de tempo.

  • Visualizar a si mesmo durante uma reunião é altamente estressante 

Já imaginou se alguém te seguisse fisicamente com um espelho e você pudesse observar a si mesmo a todo instante? Certamente lhe causaria um incômodo ou até mesmo um mal-estar. Mas, é o que acontece quando estamos diante de uma reunião, consulta, chamada com as câmeras ligadas. 

  • O dia a dia virtual reduz drasticamente a mobilidade 

Muitas vezes permanecemos por um longo período de tempo na mesma posição, seja por reuniões ou pelo dia a dia de trabalho virtual, algo que no numa rotina “normal” seria diferente, pois teria o deslocamento entre casa x trabalho, estudo, compromissos, etc. Assim, nossos movimentos são limitados de um jeito não natural. 

  • Aumento na carga cognitiva durante videoconferências

Durante uma chamada, nosso cérebro tem que trabalhar muito mais para assimilar os sinais verbais e não verbais emitidos por todos os envolvidos. 

Em uma conversa presencial, comunicações não verbais fluem naturalmente, ao ponto que raramente prestamos atenção em nossos gestos. No contato virtual, essa realidade já não se aplica como antes. A depender da mensagem que queremos passar, necessitamos dar mais ou menos ênfase aos gestos, expressões faciais, olhares, tom de voz, entre outros, o que nos exige mais atenção e, consequentemente, atividade cerebral. Por isso, além da exaustão, queixas em relação a dores de cabeça, dores musculares, olhos cansados e irritados também são comuns. 

Como encontrar um equilíbrio entre a demanda de interações virtuais e o bem-estar físico e emocional?

Entendendo alguns dos motivos que nos leva a esse estado de exaustão, é possível adotar algumas medidas práticas para amenizar seus efeitos: 

  • Estabeleça uma rotina onde você possa organizar suas tarefas, ter horários para as refeições e também pausas durante suas atividades;
  • Continue ou crie rituais que possam te ajudar a ter hábitos e rotinas saudáveis. Se antes você achava que seu dia só começava depois de tomar banho ou de uma xícara de café, mantenha isso mesmo estando em casa, por exemplo. 
  • Prepare o ambiente em que você passará grande parte do dia para que você se sinta bem e confortável. Isso vale desde verificar a luz do ambiente até questões de ergonomia. 
  • Estabeleça limites de horário para as suas diferentes atividades e compromissos. Encontrar um equilíbrio entre as nossas atividades também é importante, seja trabalho, estudo, obrigações de casa e/ou autocuidado. Todos são pilares importantes que merecem nossa atenção e tempo. 

E a Síndrome de Burnout?

Embora a Síndrome de Burnout e o Zoom Fatigue possam parecer semelhantes, não o são. O Zoom Fatigue é um estado de exaustão causado pela exposição virtual prolongada, enquanto que a síndrome expõe a complexidade das relações de trabalho e sentimentos negativos associados a ele.

A Síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes, sejam elas físicas, emocionais e/ou psicológicas. 

O transtorno está registrado no grupo 24 do CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) como um dos fatores que influenciam a saúde ou o contato com serviços de saúde, entre os problemas relacionados ao emprego e desemprego. A síndrome se manifesta, principalmente, em profissionais que têm envolvimento interpessoal direto e intenso e apresenta sintomas característicos como perda de interesse, isolamento, alterações de humor, dificuldade de se desconectar do trabalho, entre outros. 

Tanto a Síndrome de Burnout quanto o Zoom Fatigue são assuntos relevantes e cada vez mais presentes na vida dos brasileiros, trazendo efeitos negativos para os âmbitos individual e coletivo e, portanto, exigindo atenção dos profissionais da saúde e também organizações. O resgate da qualidade de vida e bem-estar individual não é só fundamental, mas possível. 

Por Bruna Passarelli

Referências

CNN Brasil. Videoconferências aumentam na pandemia. Abril, 2020. Disponível aqui.

Stanford University. Four causes of zoom fatigue and solutions. Fevereiro, 2021. Disponível aqui

Da empatia às relações

Empatia é uma palavra realmente comentada nos últimos anos, seja por ser um conceito extremamente humanizado e vivemos cada vez mais uma realidade virtual e liquida, onde não é difícil ridicularizar, zombar ou menosprezar a dor e sofrimento alheio, ou talvez pelo contexto do mundo, onde tantas coisas ruins acontecem e sempre se buscam artifícios para sensibilizar as pessoas a respeito do que acontece a sua volta. Dessa forma a maioria de nós já se deparou com essa palavrinha por ai, seja em uma palestra motivacional, um livro, um post em rede social ou até uma ou outra tatuagem por aí. Mas como o que é de fato essa tal “empatia”? Seria simplesmente se colocar no lugar do outro? Bom, qualquer ser humano faz este movimento racional de simular estar em outras condições, então qual é a grande “sacada” para a empatia ser tão falada por ai?

Em primeiro lugar precisamos trabalhar a ideia de empatia em seu contexto teórico, então vamos falar sobre um dos que mais pontuou sobre o papel deste conceito: Carl Rogers, psicólogo estadunidense, e que nos presenteou com uma das grandes correntes de pensamento e atuação na psicologia, a Abordagem Centrada na Pessoa. Rogers era esse cara que olhava o que se fazia em psicologia em sua época, sabia a importância, entretanto não ficava satisfeito, achava que a ótica behaviorista radical de seus contemporâneos era um tanto mecanicista e a visão psicanalítica apenas baseada no inconsciente, um tanto reducionista. Dessa forma Rogers compreende a importância da pessoa, do momento, da relação, do aqui e agora, deixando para trás a ideia do terapeuta que se foca apenas na doença, não, Carl queria era aprofundar-se nas pessoas que o procuravam. Bom com certeza textos virão para nos aprofundarmos na ACP (abordagem centrada na pessoa) de Rogers, então onde entra a empatia aqui?

Bom a ideia de psicoterapia que o bom terapeuta estadunidense propôs, se apoiava em um determinado tripé, congruência, ou seja, uma pessoa que age como realmente é, livrando-se de amarras sociais ou máscaras, válido tanto para o terapeuta quando para o cliente (no caso, chegar a congruência geralmente é parte do processo). O segundo apoio seria a aceitação positiva incondicional, um tipo de respeito pelo indivíduo a sua frente enquanto ser humano, e estar aberto ao que este expor com amabilidade e aceitação. E por fim a tão esperada empatia, ou ainda para Rogers, compreensão empática, como uma parte deste tripé facilitador para o movimento terapêutico.

Essa ideia de empatia começa com uma atitude, onde o terapeuta se dedica a compreender objetivamente as dificuldades do cliente, todavia, não de uma maneira fria e distante, tampouco uma atitude nada emocionalmente exagerado, o objetivo aqui é que a pessoa a sua frente sinta que existe alguém o ouvindo de fato.

Outro ponto rogeriano que se liga a essa construção de uma atitude empática, é a não-diretividade do terapeuta, deixar que essa pessoa que procura ajuda fale livremente, daquilo que precisa falar, Rogers aqui não foi inconsequente de entender um profissional que fica calado e deixa a pessoa falar sozinha, não, a ideia aqui é a de um terapeuta que permite o outro ser quem ele é em seu discurso, e também de não colocar-se como a autoridade na sala, que vai dizer o que deve ou não ser dito sobre a vida do outro, o que Carl propõe é humanidade e humildade, o maior especialista da sua vida é você, então, por favor, me conte o que acontece com você. Quando chegamos a este ponto na concepção de Rogers, vemos que a ideia de compreender o cliente ficou pra trás, aqui o cliente já pode compreender a si mesmo, e o terapeuta se coloca como quem cria um ambiente onde isso é possível.

Á frente, Carl Rogers vai desenvolver mais essas ideias e chegar a uma postura reflexiva, onde o terapeuta trabalha a partir da ideia de refletir de maneira suave e compreensiva as questões, emoções e sentimentos do cliente, podendo este perceber assim as possibilidades que envolvem a situação que se desenvolve na sessão.

Dessa forma a compreensão empática será um desenvolvimento da ideia de empatia, onde o terapeuta se propõe a uma sensibilidade aos sentimentos e vivências do cliente, e busca apreendê-los a partir de sua subjetividade, na tentativa de aproximar-se da experiência do cliente, e assim poder buscar êxito em comunicar essa compreensão. Veja bem, não falamos aqui de ideia racional, difundida em senso-comum, de “eu sei como você se sente”, o que se propõe aqui é um sentir a vivência do outro, como sua, mas sem se desfazer de sua identidade, e buscar mudança a partir daí.

E usando suas próprias palavras, podemos aqui citar o que ele mesmo compreende como este processo de empatia:

significa penetrar no mundo perceptual do outro e sentir-se totalmente a vontade dentro dele. Requer sensibilidade constante para com as mudanças que se verificam nesta pessoa em relação aos significados que ela percebe, ao medo, à raiva, à ternura, à confusão ou ao que quer que ele/ela esteja vivenciando. Significa viver    temporariamente sua    vida, mover-se delicadamente dentro dela sem julgar, perceber os significados que ele/ela quase não percebe, tudo isto sem tentar revelar sentimentos dos quais a pessoa não tem consciência, pois isto poderia ser muito ameaçador. Implica em transmitir a maneira como você sente o mundo dele/dela à medida que examina sem viés e sem medo os aspectos que a pessoa teme. Significa frequentemente avaliar com ele/ela a precisão do que sentimos e nos guiarmos pelas respostas obtidas. Passamos a ser um companheiro confiante dessa pessoa em seu mundo interior.  Mostrando os possíveis significados presentes no fluxo de suas vivências, ajudamos a pessoa a focalizar esta modalidade útil de ponto de referência, a vivenciar os significados de forma mais plena e a progredir nesta vivência.  Estar com o outro desta maneira significa deixar de  lado, neste momento, nossos próprios pontos de vista e valores, para entrar no  mundo  do outro sem preconceitos; num certo sentido, significa pôr de lado nosso próprio eu (Rogers, 1974/1977, p.73).

O que pretendo deixar aqui é a ideia de que empatia não é algo dado, algo pronto, ou algo que se alcança e acabou, muito menos vai haver o terapeuta que magicamente será empático e compreender tudo com um olhar, empatia é este processo que se ganha com respeito e confiança direcionados as pessoas que nos relacionamos, sejam cliente ou qualquer outra relação, isso se constrói ao passo em que nos permitimos sentir o outro sem pretensões ou preconceitos.

Referencial

Rogers,  C.  R.  Pode  a  aprendizagem  abranger  ideias e  sentimentos?  (R.  Rosenberg, Trad.). Em C. R. Rogers & R. Rosenberg. A pessoa como centro(pp. 143-161). São Paulo: EPU. 1977. (Original publicado em 1974).

Rogers, C. R. Tornar-se pessoa. Tradução Manuel J. do Carmo Ferreira e Alvamar Lamparelli. 6ª edição – São Paulo : Editora WMF Martins Fontes. 2009.

Atenciosamente

Patricio Lauro

O cuidar de quem cuida: traços da realidade dos protagonistas do Autismo

A manutenção do cuidado de quem cuida. Uma dedicação e um pedido de atenção aos pais. 

Neste mês de Abril, em referência ao Autismo, nada mais justo do que a dedicação em falar sobre aqueles que tanto se dedicam e assumem a linha de frente desta realidade. Em outras palavras, se trata de um momento especial para retratar a relação de cuidado daqueles que cuidam, os pais

Em explicações gerais, o transtorno do espectro autista, conhecido como TEA, caracteriza-se pelo comprometimento das habilidades sociais, comunicativas e comportamentais, impactando no desenvolvimento infantil, interferindo na prática das atividades diárias e nas relações sociais. Por ora, segundo MAIA et al. (2016), o TEA ainda é pouco conhecido e o seu tratamento é um processo lento.  

Mas tratando-se dos bastidores ao redor das crianças autistas, os familiares se configuram como protagonistas no desenrolar das histórias de seus filhos, desde a gestação até mesmo da descoberta do diagnóstico adiante. E considerando que estes mesmos pais também possuem suas próprias histórias construídas antes mesmo da geração de seus filhos, é propício se aproximar do impacto, das consequências e mudanças geradas entre o desenrolar de uma situação à outra. 

É possível considerar que antes dos pais vivenciarem a dinâmica familiar e de cuidado aos filhos, eles se caracterizavam como indivíduos que seguiam com suas próprias vidas, cultivando os próprios interesses, valores e necessidades pertinentes aos seus contextos sociais, profissionais, afetivos e de qualquer outro aspecto que se enquadra/ enquadravam em suas rotinas. 

Porém, a chegada de um filho, especificamente de uma criança autista, acarreta na necessidade, quase com teor de imposição e/ou aparente única saída, em abrir mão de pedaços pertinentes a sua própria história. A exemplo, SILVA et at. (2018), menciona sobre as renúncias do próprio trabalho e do convívio social que as mães assumem. A condição de renúncia dos pais de modo geral e das mães especificamente, considerando o contexto familiar do Brasil, manifesta grandes mudanças em suas rotinas, em suas prioridades, em suas relações e principalmente no gesto do cuidar de si e dos demais aspectos lhes importam, além do filho. 

Neste processo entre o parto, a descoberta do diagnóstico e as vivências cotidianas com a criança autista, propiciam aos pais o constante confronto com o desconhecido, e a frequente necessidade em adaptar-se e mudar-se conforme as limitações do contexto em geral, desde as características de seus filhos até mesmo das questões financeiras, estruturais, relacionais e do repertório de informações. 

O confronto com o desconhecido, com as limitações e a frequente necessidade perante o adaptar-se, tende a gerar nos pais possíveis manifestações de frustração, raiva, tristeza e até mesmo de medo, ao questionar-se sobre as perspectivas futuras tanto deles quanto de seus filhos. Como também os pais estão sujeitos a vivenciar a condição de sobrecarga, desgaste emocional, cansaço mental e físico, desesperança e por fim, até mesmo a solidão e o desamparo, advindos de possível isolamento social. 

Ao considerar brevemente o cenário citado acima, é necessário ressaltar a importância e a necessidade do cuidado em relação aos próprios pais. A relação de cuidado é algo subjetivo, que implica aspectos individuais de cada um. Mas de modo geral, alguns pontos em comuns podem ser compartilhados entre os pais que são protagonistas de histórias permeadas pelo enredo do autismo.

Modos de cuidado aos pais

  • manter-se em uma rede de apoio, como: terapia em grupo ou grupos de apoio, em geral.  

O acolhimento se faz necessário, a fim de minimizar manifestações de angústia e o sentimento de desamparo, por exemplo. 

  • vincular-se ao processo de psicoterapia.  

O autoconhecer, desenvolver a inteligência emocional, e fortalecer a autoestima, a autoconfiança e o gesto de autocuidado geram grandes diferenciais. Tais aspectos fortalecem a condição de segurança e confiança perante as escolhas diárias e os relacionamentos.

É importante potencializar a esperança e a melhor aderência aos tratamentos sugeridos pelas equipes de saúde e dos estudos de profissionais da área.

  • aproximar-se de conteúdos de pessoas que compartilham da mesma experiência. A exemplo de vídeos, textos, posts nas redes sociais e até artigos científicos.  

Identificar a própria história através da história do outro é um importante recurso acolhedor, de alívio e fortalecimento emocional.

  • manter o convívio familiar e social.  

Aproximar as pessoas à sua realidade tende a ser uma construção, que gera reorganização e adaptação. Porém contar com as pessoas ao seu redor, tende a minimizar os impactos advindos do isolamento social, tal como o sentimento de rejeição.

  • organização em relação aos compromissos diários e o tempo.  

Seja quem for, a organização das atividades diárias tende a ser um recurso para minimizar estados ansiosos 

  • praticar exercícios físicos, manter o cuidado com a alimentação e a prática de hobbies, são importantes recursos para manutenção do bem-estar e a saúde.  

  • em relação ao cuidado com o filho, é importante manter práticas que o ajude a fortalecer a independência e o cultivo do contexto social, apesar das dificuldades.  

É importante sinalizar que manter o filho envolvido em suas terapias e em atividades grupais, são oportunidades para desenvolver a independência e as habilidades sociais.

Reflexões finais

O autismo não tende a ser uma realidade apenas das crianças e dos pais que convivem com ela, mas de todos. A condição de sobrecarga mental e emocional, de descuido de e de isolamento social, neste caso, possivelmente também reflete a desinformação, o possível “pre conceito” e a dificuldade em recepcionar aquilo que se difere do aparente e do enganoso “normal”

Em termos gerais, é notário o quão se faz necessário o amparo social e profissional aqueles que cuidam. O cuidado que os pais geram a si mesmo ou até falta deles, é também um compromisso da sociedade. E este compromisso implica a construção e o compartilhamento de informações pertinentes ao repertório do mundo do Autismo. Informações essas que não cabem somente às características do diagnóstico, mas também sobre a realidade das crianças e de todos os seus bastidores, incluindo as mudanças e as necessidades vivenciadas por seus pais. E neste trabalho, em paralelo as informações, o gesto de respeito, compreensão, empatia e receptividade à esta realidade, também se faz extremamente necessário.

Normal é tratar bem, é cuidar! Normal é estar junto e respeitar! 

O Autismo pode ensinar e agregar. Ele é uma realidade minha e sua. Ele é azulzinho, como o céu e o mar, pra todos poderem olhar e se entregar. Você e eu, podemos cuidar. 

E só pra lembrar, a dedicação aqui é para os pais, os grandes protagonistas da parte azulzinha deste mundo tão colorido.   

Por Tayna Wasoncellos Damaceno.

Referências

MAIA, Fernanda Alves et al. Importância do acolhimento de pais que tiveram diagnóstico do transtorno do espectro do autismo de um filho. Cad. saúde colet., Rio de Janeiro, v.24, n.2, p.228-234, Junho de 2016.

Disponível Aqui. Acesso em 14/04/2021. 

SILVA SED, Santos AL, Sousa YM, Cunha NMF, Costa JL, Araújo JS. A família, o cuidar e o desenvolvimento da criança autista. J Health Biol Sci., 6(3): 334-341, Julho-Setembro de 2018.

Disponível Aqui. Acesso em 14/04/2021. 

Sociedade dos Psicólogos – O que é Autismo? Sintomas e Tratamento.