Coringa: Uma corda sobre o Abismo

Nietzsche em seu livro ‘Assim Falou Zaratustra’, narra a história de um homem que após anos em meditação isolado da civilização, deixa a caverna, desce da montanha para iniciar suas pregações.

Em suas andanças, depara-se com a figura de um equilibrista que fazendo seu número numa corda içada ao alto da praça e acima do povo, quando este chega ao meio do caminho, é molestado verbalmente por um homem com vestes coloridas semelhantes a um palhaço que ao chamar mais atenção do público, solta um grito “diabólico” para o equilibrista, pula entre os populares e sai ileso. O equilibrista acaba desconcentrando-se e cai, ainda consegue dizer algumas palavras antes de morrer nos braços de Zaratustra.

Ao sair da sessão de cinema de Coringa (Joker, 2019. Warner Bros) na minha mente veio a imagem deste palhaço. Contrapondo a Marvel em sua visão de mundo colorido e conectado em que todos se unem em prol do bem maior “custe o que custar”, a DC com este filme assume a postura do palhaço de Zaratustra: aquele quer desestabilizar o sistema.

Trailer do filme Coringa

Aviso este texto está repleto de spoilers do filme Coringa. Deste trecho em diante é por sua conta e risco.

Ao lutar contra os Monstros

Na trilogia do Cavalheiro das Trevas (2005/2012. Warnes Bros), tem a versão do mais aclamada do Coringa produzida pelo cinema. Grande parte disso é atribuído ao fato que a origem do Coringa não é definida. Cada vez que ele está em frente de uma vítima, ele conta uma versão diferente de como ganhou o sorriso estampado em seu rosto.

Heath Ledger, na sua construção de personagem, se trancou em seu apartamento por um mês, fazendo um diário de com colagens de referencias diversas de cinema e pinturas do Francis Bacon. A celebre interpretação consumiu muito mais do que seu talento, e talvez por isto, lhe rendeu o Oscar póstumo de ator coadjuvante.

Pensava-se até então, que era muito difícil superar algo tão icônico como: “Por que você está tão sério?”. O que este filme do Coringa traria de novo para os espectadores?

Seria necessário subverter certas convenções para ser mais sombrio do que as versões anteriores. A inspiração veio do enredo da Graphic Novel “Piada Mortal”, no qual “Batman e Coringa são faces de uma mesma moeda”, segundo Antunes, em sua tese: Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman.

Caro leitor, o que é mais sombrio do que a própria realidade?

Numa cidade infestada por ratos gigantes e doenças, em meio a uma greve de lixeiros que dura semanas, vemos que comerciantes estão falindo e a economia está em declínio. A crescente taxa desemprego tem correlação direta com o aumento da criminalidade.

Vemos Arthur Fleck tentando ‘ganhar a vida’ como palhaço nas ruas de Gotham City. Numa espécie de reality show, que vai muito além de acompanhar seu dia a dia, o convite é para passearmos em sua mente.

Evite tornar-se um monstro

Em vez de mais uma explicação cartunesca, do tipo cair no tanque de ácido e sair vivo, a risada característica do personagem é atribuída ao distúrbio neurológico faz com o que ele ria em situações que usualmente as pessoas não riem, tais como raiva, stress, ansiedade e medo. Uma risada involuntária que causa aversão nas pessoas e que ele tenta aflitivamente evitar sem sucesso.

Além desta condição, o personagem apresenta um quadro psicopatológico que o filme não deixa claro de propósito. O ator Joaquin Phoenix assim quis em sua construção, para que ele pudesse passear sobre diversas formas de expressar a desregulação emocional, inabilidade social, pensamentos catastróficos, sofrimento e dor psíquica e seu corpo representasse efeitos similares que os pacientes de doenças mentais apresentam ao longo dos anos.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não o tivesse.”

Arthur Fleck

Ele mora com sua mãe, cuida dela fazendo a comida, dando banho e sendo atencioso. Ele alimenta aspirações de se tornar um comediante de stand up, mas sua mãe sentencia: “para ser comediante precisa ser engraçado, Arthur”.

Perceba, esta filme fora construído minuciosamente para que o espectador tenha compaixão por um homem que vive num mundo sem compaixão.

Quando se olha muito tempo para um abismo

Nos anos 70 fora inaugurado o subgênero da ultraviolência no cinema. Devido a grupos jovens saíram agredido cidadãos porque se sentiram inspirados pelo que viram, o diretor Stanley Kubrick, indignado porque as pessoas não entenderam seu objetivo, teve que se desculpar publicamente e retirar “Laranja Mecânica” das salas de exibição.

Menos estiloso e conceitual, mais direto ao ponto, não é à toa que este filme do Coringa se inspire nos filmes de Martin Scorsese, como Taxi Driver. Parte da sensação de crescente de angústia durante a exibição do filme e manter o espectador em suspensão de descrença. O mundo precisa ser semelhante à nossa realidade e as reações que o personagem tem poderiam ser as suas caso se encontrasse na mesma situação.

Artur tenta recusar a oferta de ter uma arma dizendo ao companheiro do trabalho, que devido a sua condição não deveria portar uma arma. Mas este insiste, mesmo assim vende a arma para ele se ‘proteja do mundo violento’. Em seguida, esta é a arma que cai no chão dentro de um hospital infantil enquanto ele se apresentava (semelhante ao Doutores da Alegria). Por isto ao tentando se explicar ao seu chefe ligando de um telefone público ele é despedido.

Voltando para casa ele vê três homens assediando uma mulher no metro, e começa rir compulsivamente sem desejar fazê-lo. A mulher foge e os três começam agredi-lo moral e fisicamente. Ele saca a arma para se defender da agressão física, matando dois instantaneamente e persegue o terceiro na estação até matá-lo.

Este é o momento sem volta do personagem. No vídeo Anatomy of a Scene, em que vemos Arthur demonstrando um vislumbre do Coringa. Em vez de se assustar e/ou questionar moralmente o que acaba de acontecer, não há remorso ou arrependimento. Em vez disso, ele se tranca num banheiro público e dança como uma expressão de se empoderar de si pela violência.

O diretor Todd Phillips narra a cena do filme Coringa

O abismo olha para você

Apesar da temática ser histórias em quadrinhos, o nome do filme é Coringa, portanto estamos acompanhando o desenvolvimento de um vilão. Ao Coringa serve a sentença de Nietzsche: “Torna-te quem tu és!”. As pessoas na sala de cinema, que minimamente tem repertório em Batman, sabe aonde filme quer chegar. A questão é como os espectadores são impactados pelo que estão vendo.

Tempos depois, sabemos que três homens mortos pelo palhaço no metro eram cidadãos de bem e funcionários das Indústrias Wayne. Interessado em salvar a cidade do caos, o Sr. Thomas Wayne se candidata ao cargo de prefeito. Ao ser questionado pela morte dos seus funcionários diz: “Que tipo de covarde faria algo tão frio? Alguém que se esconde atrás de uma máscara. Alguém que tem inveja daqueles são mais bem-sucedidos. No entanto, eles têm medo de mostrar seu próprio rosto. Pessoas que mudam o mundo para melhor, são capazes de criar algo de nossas vidas, sempre olharão para aqueles que não o fizeram nada, apenas como meros palhaços”.

Os cidadãos de Gothan então resolvem protestar nas ruas contra os bem-sucedidos usando máscaras do palhaço, cujo retrato-falado povoa as manchetes de jornal. Notem, um novo elemento surge: a mídia.

Ao contrário do que se imagina, fake news não são um fenômeno da pós-modernidade. Num passado recente, jornais de baixo orçamento propagavam manchetes sensacionalistas (hoje conhecimento como clickbait) apenas para vender mais exemplares.

A arte imita ou revela a vida?

Diferente de outro filme da DC, V de Vingança (V for Vendetta, 2005. Warner Bros.) na qual a revolta popular fazia parte do projeto planejado de vingança contra o sistema, Arthur e levado pelo sabor dos acontecimentos. Algo que ele causa sem pretensão alguma traz para ele uma enorme satisfação ao ver o palhaço estampado na primeira página dos tabloides. “As pessoas me tratam como se eu não existisse, nem eu mesmo acreditava que não existia, mas eu existo.” Nas manchetes, a população o vê como um vigilante justiceiro, e ele por sua vez, apenas quer ser notado, reconhecido, quer os aplausos.

Anamnese do Palhaço

Este ano, ‘O Homem Morcego’ completa 80 anos do seu lançamento nas bancas de jornal e o Coringa era vilão da edição Batman#1. Aficionados afirmam que somente no filme Batman, 1989, que o diretor Tim Burton que sugere uma correlação entre Batman x Coringa, colocando este arqui-inimigo como o assassino dos seus pais. Neste filme, isto é elevado à enésima potência.

Desempregado, Arthur é notificado que o programa assistencial teve verbas cortadas e que ele não terá acesso as medicações. Ele resolve se apresentar como comediante de Stand up num clube. Ao chegar tarde em casa, coloca sua mãe na cama, que insiste que ele envie pela manhã a carta que ela tinha escrito. A mãe do Arthur sempre manda cartas para o mesmo destinatário, o Sr. Wayne. Conta frequentemente ao seu filho que trabalhou para ele por anos e que aguardava uma resposta para que pudesse ajudá-los a sair da situação de pobreza. Naquela noite, Arthur resolve ler aquela carta e descobre sua mãe pede ajuda a Thomas Wayne alegando que ele é o seu pai.

Ao confrontar a mãe, ela alega que foi obrigada a omitir esta informação ao seu filho porque assinou alguns documentos. Artur vai em busca do seu suposto pai. O Sr. Wayne que rechaça está possibilidade, diz que sua mãe Penny é uma desequilibrada e que ele vai descobrir a verdade nos arquivos dela no asilo Arkham. Perceba a subversão, esta é a primeira vez que vemos o pai do Batman não sendo a figura paterna altruísta que costuma ser pintado nos quadrinhos. Arthur entre a risada involuntária e o choro desesperado, diz ao Sr. Wayne: “Por que todo mundo me trata tão mal? Por quê?”.

Ao voltar para casa, descobre que sua mãe teve um mal estar e precisou ser hospitalizada. Em meio a tudo isto, alguém gravou sua performance no clube de stand up e encaminhou para o talk show da TV. Ele se vê exposto em rede nacional de forma humilhante pelo apresentador/comediante Murray Abraham (não ao acaso, vivido por Robert De Niro, protagonista de Taxi Driver) que diz ironicamente: “Todo mundo acha que consegue fazer meu ofício, este cara não passa de um Coringa (uma gíria para piadista medíocre)”.

Determinado a saber seu passado, vai ao asilo Arkham e consegue furtar o prontuário da mãe. Entre os documentos, descobre papeis de adoção e um extenso arquivo de manchetes de jornal no qual ele criança fora vítima de maus tratos pelos ex-namorados da mãe. Estes abusos ocasionaram o traumatismo craniano que gerou seu riso incontrolável. A mãe era conivente com os maus-tratos e ao ser questionada se não ouvia seu filho chorar ela disse “Não, porque ele sempre estava tão feliz”. Agora que temos uma parte da anamnese, o leitor não sairá daqui com as mãos abanando, recomendo a leitura do texto “As Psicologias do Psicopata: o crime e a personalidade”.

That’s Life

Após esta revelação sobre seu passado, Arthur Fleck sai definitivamente de cena. Ao longo do filme, vemos ele subindo pesarosamente com as costas arqueadas, os degraus intermináveis de uma escada que leva a sua casa, assim como Sisifo empurra a pedra de mármore até o topo da montanha. Perto do fim, quem desce a mesma escada dançando e se regurgitando ao assumir a máscara do palhaço como sua identidade é o Coringa.

Convidado como entrevistado, ele vai a caráter ao programa de TV e pede para ser introduzido como tal. Durante a entrevista, o Coringa dispara: “Não há mais civilidade Murray, uns gritam com os outros, as pessoas não são empáticas, não se colocam no lugar do outro. Thomas Wayne espera que eu seja o cara bonzinho, mas não, seremos lobisomens e enlouqueceremos.” Isto não acontece por acaso, em sua tese de mestrado “O Famoso Infame”, Fabricio Marques Franco atribui ao Coringa  ‘sua ausência de regras em suas ações perversas e o gozo desmedido sobretudo e contra todos se mostra o fundamento do seu carisma’ com seu superpoder.

Não é o objetivo deste texto estragar totalmente a experiência de assistir este filme, por isto a maioria dos acontecimentos do filme foi omitido ou deixado no último bloco deste texto, Cenas Pós Crédito.

E quanto a propagada violência do filme? A violência aparece de outra forma, menor que em filmes do gênero de ação; mas contundente, pois serve de espelho para os espectadores. Perturbador, talvez seja, o quanto a identificação do público com o vilão seja orgânica. Principalmente, quando torcem para o Coringa no momento que ele executa seus algozes ou quando riem de cenas que deveriam despertar sensações de aversão e choque.

Enfim, ‘That’s Life de Frank Sinatra, a música que conduz o personagem nesta evolução até se tornar o ‘Palhaço do Crime’, traz em suas estrofes as seguintes frases: “Eu tenho sido um fantoche, um pobre, um pirata / Um poeta, um peão e um rei / Estive de cima a baixo, sem parar / E eu sei uma coisa / Cada vez que me vejo de cara no chão / Eu me levanto e volto à corrida”.  

That’s Life interpretada por Frank Sinatra e uma montagem com cenas do filme

Psicóloga Masilvia Diniz

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Cenas Pós Créditos

Elizabeth Loftus psicóloga americana entre os anos 80/90, postulou a “Síndrome da Falsa Memória”. Uma forma bastante simplista de explicar este conceito é com uma pergunta: o que é a verdade, aquilo que aconteceu, o que acreditamos ter ocorrido? Realizando um experimento social, verificou-se que 24% das pessoas assimilara com verdadeira uma história falsa sobre estar perdido num shopping quando criança. O que isto significa, que é possível que o que acreditamos ser real e mais potente do que os fatos.

Lembra quando eu me referi sobre o passeio na mente de Arthur? O mundo é sombrio e escuro quando é real ou colorido quando vemos suas fantasias? Vemos o mundo trata-lo mau, ou ele só enxerga que o mundo o trata mau? No início do filme, vemos a assistente social dizendo que ele já havia sendo internado, e se ele nunca saiu do hospício? Quem deixaria uma criança vítima de maus-tratos a cargo de uma mulher que foi conivente com a violência? Se o pai do Batman fosse mesmo pai do Coringa ele teria abandonado seu filho? Nos anos 80, seria necessário um equipamento gigantesco para gravar a performance de Arthur no clube, por que ele não viu? Principalmente, se uma mulher é perseguida por um stalker, por que teria um relacionamento com ele? A única vez que o diretor pega na mão do espectador e esclarece que relacionamento não era real.  

No fim, o filme se abre um corredor branco de pegadas vermelhas para infinitas possibilidades.

Referências consultadas

Antunes, Debora. Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman. XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Curitiba, PR – 4 a 7 de setembro de 2009. Disponível em: https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/30880501/R4-0676-1.pdf?response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DEntre_o_heroi_e_o_vilao_uma_analise_de_C.pdf&X-Amz-Algorithm=AWS4-HMAC-SHA256&X-Amz-Credential=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A%2F20191010%2Fus-east-1%2Fs3%2Faws4_request&X-Amz-Date=20191010T040744Z&X-Amz-Expires=3600&X-Amz-SignedHeaders=host&X-Amz-Signature=d522cee01887a402c4530388ff774de07b4066deaa3468b85bbfb7b135c7594e

Batman no cinema. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Batman_no_cinema&oldid=55895295>. Acesso em: 2 ago. 2019.

Batman nas revistas em quadrinhos. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Batman_(revista_em_quadrinhos)&oldid=56353462>. Acesso em: 28 set. 2019.

Camus, Albert. O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Lisboa. Editora Livros Brasil S/C.

Coringa (Joker). Direção: Todd Phillips: Warner Bros. Pictures, 2019. (121 minutos).

Existencialismo. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Existencialismo&oldid=56404173>. Acesso em: 5 out. 2019.

Franco M, Fabricio. O famoso infame: um estudo sobre a persistência do vilão Coringa nas mídias e sua relevância na cultura midiática. PUC-SP. 2017.

Joker (DC COMICS). In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Joker_(DC_Comics)&oldid=56433989>. Acesso em: 9 out. 

Nietzsche, Friedrich. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Friedrich_Nietzsche&oldid=56087153>. Acesso em: 26 ago. 2019.

Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra (tradução de Mário da Silva). São Paulo: Civilização Brasileira, 1977.

Joker Best Movie Quotes – ‘Is it just me, or is it getting crazier out there?’ (Roteiro completo do filme). Movie Quotes and More. Disponível em: https://www.moviequotesandmore.com/joker-best-movie-quotes/. Acesso em 10 out. 2019.

Setembro Amarelo: Enquanto há vida há esperança.

No mês de setembro, os laços amarelos invadem as redes sociais e os meios de comunicação. Esta é uma homenagem ao Mike de 17 anos que morreu por suicídio em 1994. Em seu funeral foi distribuído por amigos e familiares um cartão com um laço amarelo e mensagem apoio para aqueles que estivessem em sofrimento.

Em vez de citar estatísticas de suicídio no Brasil e no Mundo (mesmo porque meu colega Caio Cesar Rodrigues de Araújo parceiro deste site vez isto brilhantemente no texto Por Que Não Devemos Falar sobre Suicídio?) ou fazer uma sopa de letrinhas com palavras rebuscadas, vou aproveitar este espaço para fazer a mesma coisa, vou entregar nesta publicação o meu cartão  com uma mensagem de como podemos ajudar pessoas que estão em sofrimento.

Todos nós seres humanos temos um mundo dentro de si. Experimentamos a vida de uma forma única e particular. Ao mesmo tempo, vivemos neste mundo pós-moderno digital, em constante mudança, no qual precisamos fazer muitas tarefas ao mesmo. Enquanto isto tudo acontece, dentro de nós, pode existir uma tempestade de pensamentos e um tsunami de emoções, que geram sentimentos e sensações físicas.

Como não sabermos o que se passa na mente uns do outros, ficamos sem entender certas atitudes e comportamentos das pessoas. Por isto, seguindo as orientações da OMS, MS e do Manual de Comunicação Consciente, destaco quatro dicas que podem ser úteis quando perceber que alguém está em risco de suicídio.

1º Dica: Ouvir

A Psicologa Karina O. Fukumitsu, autora do livro “A Vida não é do Jeito que a gente Quer”, afirma que não há uma única causa, mas “são várias situações que faz com que a pessoa vá se definhando na vida” e isto ela chama de processo de morrência. Como este tipo de processo não escolhe cor, raça, crença religiosa, idade, sexo e condição social, a recomendação é ouvir a pessoa sem julgamento, com a mente aberta e no local apropriado para que a pessoa se sentir segura. Lembre-se que quem pede ajuda, tem o direito de ser respeitado, levado a sério e ter seu sofrimento em consideração. Caso você não se sinta preparado, tudo bem, oriente a entrar em contato com CVV no 188 e explique que neste telefone há uma equipe de pessoas capacitadas que estão dispostas a dar apoio emocional e de forma sigilosa.

2º Dica: Acompanhar

Não é porque você não sabe o que dizer ou fazer, que sua presença é dispensável. Doe seu tempo e mantenha contato. Se você quer ajudar verdadeiramente seu presente será sua presença.

3º Dica: Buscar ajuda profissional

De onde eu estou, posso ouvir frases como: “não preciso de um médico de cabeça” e o clássico “psicólogo é médico de louco”. Se um osso foi quebrado, levamos a pessoa no Pronto Socorro e solicitamos o médico ortopedista. Se o celular parar de funcionar, imediatamente procuramos uma assistência técnica. Se o carro apresenta problema, na sua agenda tem o contato do mecânico, do funileiro e borracheiro. Por que quando a dificuldade está dentro da mente tem que ser diferente? Nas pessoas em dor e sofrimento, o turbilhão de pensamentos e tsunami de emoções seria equivalente a óculos de lentes embaçadas e visão turva: o mundo fica parecendo um reality show de sobrevivência na selva. Portanto, oriente a pessoa que contate um profissional especializado de saúde mental, seja psicólogo ou psiquiatra, que indicará o tratamento adequado de acordo com a necessidade. Se você tiver disponibilidade, lembre-se da 2º dica e se ofereça para ser acompanhante na consulta.

4º  Dica: Proteção

Segurança é uma necessidade básica da vida e sempre estamos buscando nos proteger. Pessoas que estão em dor e sofrimento precisam de proteção, inclusive delas mesmas. Prevenção é estar atendo e diminuir quais quer tipo de riscos que possam estar no ambiente.

Finalizo está mensagem com a frase do psicólogo Shneidman, um dos maiores especialista neste assunto: ‘O suicídio é um ato definitivo para um problema que tende a ser temporário.’ Se é temporário, é porque precisa de mais tempo para ser entendido e superado. Quando uma vida se apaga o tempo para, e isto ocorre para quem vai e para quem fica. Enquanto há vida há esperança. Por isto é importante que possamos fazer com que as pessoas se permitam ter tempo para enfrentar sua dor e seu sofrimento, não importando qual seja.

Psicóloga Masilvia Diniz

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Serviço de utilidade pública: Onde buscar ajuda para prevenir o suicídio?

CAPS e UBS – Unidades Básicas de Saúde – Postos e Centros de Saúde UPA 24H / SAMU 192 e Pronto Socorro e Hospitais CVV – Centro de Valorização da Vida – 188 (Ligação Gratuita)

Referências consultadas

http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/suicidio

https://www.karinafukumitsu.com.br

FaceApp – Fascinação e medo na clínica dos idosos

Por que o aplicativo que nos mostra mais velhos chama tanta atenção?

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(Imagem retirada da Internet)

De tempos em tempos um aplicativo chamado FaceApp cai no gosto do povo e chama a atenção geral. Já conseguiu “mudar” o gênero da face das pessoas e transformá-las em bebês. Nos últimos meses, outra aplicabilidade interessante causou alvoroço geral na rede. A possibilidade de “predizer” como você estará daqui à alguns anos. Ou seja, com base em uma foto de sua escolha, realiza um processo de envelhecimento artificial e apresentava um resultado (na maioria das vezes bizarro).

Não deu outra, a internet foi abaixo. O aplicativo acumulou mais de 150 milhões de fotos em questão de dias.

O debate acerca da privacidade envolvendo esses aplicativos fica para outro dia (e recomendo essa reportagem).

Espelho e formação da imagem

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(Imagem retirada da Internet)

A nossa imagem corporal é constituída em um longo processo mental, que é sempre pautado pela relação com o Outro. Jacques Lacan (1901 – 1981) introduziu a noção de estádio do espelho, que, resumidamente,  nos auxilia a compreender a constituição do sujeito em relação ao outro. Sugiro que todos se remetam ao próprio texto, mas para já é importante apontar que o aporte corporal do sujeito é dado pelo outro. A nomeação de nosso corpo e filiação é dada pelo Outro, e é simbolizada pelo sujeito.

“Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficiente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago.” (Lacan, 1951/1998, p. 97)

Logo após a constituição dessa unidade imaginária (Eu), o sujeito passa de uma relação auto-erótica, anterior, primária, a uma relação de narcisismo, onde o investimento libidinal volta-se sobre si mesmo, mas de uma maneira organizada.

 

Diana e Mario Corso (2018) falam da formação da imagem no adolescente, e como esse período determinará nossa relação com o espelho para o resto da vida. A adolescência é o momento onde formamos nossa assinatua visual, como fala Diana. “Sempre que olharmos para o espelho, é esse adolescente que vamos enxergar, e ele vai nos cobrar”. As selfies insistentes dos adolescentes (e dos nem tão jovens) podem ser entendidos como esse apoio para a formação da imagem.

 

 

A morte, segundo Freud se coloca como a castração final. E nos é impossível, conceber a nossa propria morte em seu aspecto completo, realmente imaginar nosso desfalecimento.

Muitos pacientes relatam imaginar e fantasiar sobre o seu próprio funeral. O que aconteceria, quem viria, se haveriam lágrimas sendo derramadas ou sorrisos exibidos.

O que argumento é, talvez o que importa no fato do app nos transformar em velhos é a possibilidade de poder mostrar para o outro. Olhar e ser olhado. Toda relação é a três como já dizia o velho Freud. Em uma passagem interessante do livro Como ler Lacan? (2010), do irreverente Slavoj Žižek, ele comenta esse aspecto (o leitor me perdoará desde já a longa citação):

“Essa referência inerente ao Outro é o tópico de uma piada infame sobre um pobre camponês que, tendo sofrido um naufrágio, vê-se abandonado numa ilha com, digamos, a Cindy Crawford. Depois de fazer sexo com ela, ela lhe pergunta como foi; sua resposta é “Foi ótimo”, mas ele ainda tem um favorinho a pedir para completar sua satisfação: poderia ela se vestir como seu melhor amigo, usar calças e pintar um bigode no rosto? Ele lhe garante não ser um pervertido enrustido, como ela verá assim que lhe fizer o favor. Quando ela o faz, ele se aproxima dela, dá-lhe um tapinha nas costas e lhe diz com o olhar malicioso da cumplicidade masculina: “Sabe o que me aconteceu? Acabo de transar com a Cindy Crawford!”

 

A clínica psicanalítica com idosos

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(Imagem retirada da Internet)

É possível analisar idosos? Agora, respondo que sim. Antes, talvez tivesse mais resistência para com isso. A kilometragem de divã nos ajuda bastante.

Para Freud (1898/1996), analisar idosos poderia não ser uma boa idéia pelo fato da neurose estar tão arraigada que não haveria tempo de realizar o tratamento psicanalítico, haveria “muito material”.

 

A psicanálise faz com que o sujeito reflita sobre seu próprio desejo, e muitas vezes ajuda a recriá-lo. A velhice pode ser tida por alguns como período de espera pela morte. O analista aposta no sujeito, para que ele ainda podem ter sonhos.

A clínica psicanalítica faz com que o sujeito possa se re-inventar, encontrar outras formas de satisfação e lidar de maneira menos tóxica com a perda dos objetos.

 

Lembro de um episódio específico da série televisiva “Friends” quando todos fazem 30 anos, onde a forma como cada um lida com isso é mostrado. Muitos não aceitam, alguns inclusive querem fazer um pacto com Deus para não mais envenlhecer.

Como dizia Freud: Existe vida antes da morte.

Até a próxima,

Por Igor Banin

PS:

Sobre esse tema, acho interessante a leitura dos textos abaixo. Um deles trata de um experimento feito por um fotógrafo onde ele junta imagens de pessoas idosas, com retratos das mesmas quando jovens. O outro é um artigo da psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, que também faz uma análise do aplicativo FaceApp. Além disso, seguem também os comentários do psicanalista Christian Dunker acerca da clínica na velhice.

https://extra.globo.com/noticias/mundo/fotografo-americano-poe-idosos-para-se-verem-mais-jovens-no-espelho-em-ensaio-10969068.html

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2019/07/vida-longa-as-vovozinhas-assanhadas.shtml

 

Referências Bibliográficas

Crane, D & Kauffman, M. (2000). Friends: The one where they all turn thirty. Estados Unidos da América: Warner Bros. Television.

Freud, S. (1898/1996). A sexualidade n aetiologia das neuroses. In Primeiras publicações psicanalíticas. (pp. 249-272, Obras completas de Sigmund Freud, v.3). Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1951/1998). O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In Escritos. (pp 96 – 103). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Zizek, S. (2010). Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

“Adolescentes e adultos: tudo fora do eixo”. Palestra da série: Adolescência em cartaz por Mario Corso e Diana Corso, feita em 2018. Promovido pela CPFL Cultura.

Diferenças entre Medo, Fobia e Ansiedade.

Você saberia diferenciar medo, fobia e ansiedade? Sim? Não? Em ambos os casos: este texto será perfeito para você.

O Grito. Obra-prima em óleo sobre tela do pintor expressionista norueguês Edvard Munch. Foi pintada no ano de 1893 e atualmente pertence ao acervo da Galeria Nacional de Oslo. O Pintor se inspirara muito em Vincent Van Gogh, tendo a autoria de sua obra frequentemente confundida, como se fosse do pintor holandês. Suas cores, suas formas, seus traços e as expressões faciais ali representadas são frequentemente associadas ao sentimento de medo, fobia, angústia e ansiedade do ser humano.

O Medo

E se você pudesse sentir medo pela primeira vez?

Outro dia me peguei pensando sobre o que seria uma reação estranha e incômoda de meu corpo. Mais ainda: o que seria esta reação que ao longo de minha vida aprendi a enxergar como algo normal, mas no sentido de quase inexistente: inerente. Tal fato fez com que eu me questionasse: como poderia ser sentir isso pela primeira vez? Este questionamento se deu quando eu estava com meus pensamentos envoltos sobre o ato de sentir medo. Afinal, o que é isso?

O Medo é uma emoção. Uma emoção básica. Se você ainda tiver dúvidas sobre o que é uma emoção, consulte este texto do psicólogo Caio Ferreira. O medo é uma resposta neuropsicofisiológica, com caráter evolutivo, por vezes mais motivado à via cultural, por outras pela via instintiva. Mas sua convergência é uma só: o medo sempre causará fortes desconfortos físicos e/ou psíquicos a quem o experimenta.

Se você encontrar um Leão…

“Hércules luta com o leão de Nemea” é uma pintura de Francisco de Zurbarán exibida no Museu do Prado em Madri, Espanha.

Pra que serve o medo?

O medo é uma emoção que provoca descargas de adrenalina; que aumenta ou diminui o fluxo de sangue do corpo — pode causar vasodilatação ou vasoconstrição – provocando vermelhidão ou palidez na pele; o medo dilata as pupilas para melhorar nossa capacidade de visão até em ambientes mais escuros; o medo é até capaz de provocar a liberação de urina ou fezes de maneira involuntária. E há tantas outras descrições… Embora estas interações emocionais – ocorridas em muitas áreas do cérebro, mas principalmente na integração entre a amígdala, o hipocampo e o hipotálamo – apontem principalmente um caráter de paralisia ou fuga – maior fluxo sanguíneo para maior produção de ATP e maior energia muscular para correr; liberação de urina e/ou fezes com função de afastar predadores através do odor, por exemplo – o medo também pode ser uma forma de preparar nosso corpo para uma luta. Inclusive, paralisia, luta e fuga são respostas autônomas ao medo. Tanto no ser humano como nós animais.

Por exemplo na imagem acima. Hércules, apesar de ter derrotado o Leão de Neméia através de uma árdua luta, provavelmente não teria deixado de sentir medo. Contudo, outras pessoas (e me incluo nessa lista) provavelmente não lutariam contra um leão. Algumas ficariam paralisadas, tremeriam suas mãos e pernas e ficariam com dificuldade para respirar; outras correriam; algumas até poderiam utilizar o córtex pré-frontal em conjunto com o hipocampo para lembrar daquelas técnicas aprendidas na internet sobre como agir perante um leão. Mas aqui falamos de uma exclusividade humana.

Em suma: o medo, apesar de seus desconfortos, serve para proteger a nós mesmos e à nossa espécie. Mas e quando ele acontece de maneira desmedida?

As Fobias

Fobos (Phobos) e seu pai Ares em uma carroagem retratados em Ânfora de aproximadamente 500 anos A.C.

O que une Marte a Vênus é o medo e o terror na Terra.

Phobos e Deimos eram os gêmeos que nasceram da junção do amor, da sensualidade e da beleza de Afrodite (Vênus na versão Romana) em contato com a Guerra, as Armas e os Conflitos de Ares (Marte, na versão Romana). Vale ressaltar que Afrodite era casada com Hefesto, tratando-se, portanto, também de uma traição. Bons filhos que eram, entre seus desejos e aspirações encontrava-se a vontade de sempre acompanhar o pai em suas Guerras. Desta forma, não haveria Guerra em que o Medo (Phobos) e o Terror (Deimos) não acompanhassem os homens.

Em seu papel de Daímon, alguma parte própria natureza humana se manifestava através deles. Se essas divindades não existiram na realidade, com certeza existiram através da força que seu mito tinha para permear o discurso dos guerreiros. Passam a existir no corpo de cada soldado e de cada general — através daquilo que este sente — sua aparição é inerente à Guerra. E não haverá Guerra alguma sem medo ou terror. Mas haveria menos ainda a existência de qualquer um dos dois se até o maior dos guerreiros não precisasse de amor. Então para resumir o mito: a paixão (pathos) que transita entre o amor e a guerra deu a luz ao medo e ao terror dos seres humanos.

A palavra Fobia, em sua raiz grega, deriva deste Deus ou demônio (daímon) que era Phobos, a personificação do medo.

O que é uma Fobia?

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) entendemos como fobia um medo específico e irracional, ou seja, além das perspectivas reais de perigo daquele objeto que causa tal medo — que pode ser um animal, uma situação e/ou um próprio objeto inanimado:

“Os indivíduos com fobia específica são apreensivos, ansiosos ou se esquivam de objetos ou situações circunscritos. Uma ideação cognitiva específica não está caracterizada nesse transtorno como está em outros transtornos de ansiedade. Medo, ansiedade ou esquiva é quase sempre imediatamente induzido pela situação fóbica, até um ponto em que é persistente e fora de proporção em relação ao risco real que se apresenta. Existem vários tipos de fobias específicas: a animais, ambiente natural, sangue-injeção-ferimentos, situacional e outros”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233-234).

A palavra fobia entra como uma representação patológica do que seria a superestimação do perigo real que este medo a um objeto ou evento específico (para ser caracterizado fobia precisa ser em relação a algo específico) pode ou não acompanhar as manifestações fisiológicas mais comum a quem experiencia a emoção do medo em graus elevados. Ex: sudorese, tremores, paralisia, gritos, etc.

Curiosamente, derivando do grego Phobos, o daímon que representava o medo na Mitologia Grega, a nomenclatura deste Transtorno Mental parece ter sido escolhida de forma que também acompanhasse, em partes, a narrativa do mito.

Fobias Específicas

Certa vez, enquanto uma pessoa me relatava sobre uma fobia que possuía, correu um fato curioso: apenas por dar uma descrição mais detalhada do objeto em questão, esta pessoa demonstra tremendo desconforto, visível ao seu rosto e ao seu corpo – ambos passaram a ser protegidos pelas suas mãos.

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A Fobia pode se tornar uma espécie de lente de aproximação dos perigos quem podem ou não representar aquele objeto ou evento específicos.

Talvez você conheça algumas pessoas têm nojo de barata. Sem dúvida também conhece outras que têm medo. Mas você conhece adultos, idosos anônimos e famosos que paralisariam, suariam frio, sofreriam de uma incômoda taquicardia e até chorariam como uma criança perante este mero inseto? Para o caso de conhecer: ajude esta pessoa a buscar por um psicólogo e/ou um psiquiatra, pois é possível que ela sofra de entomofobia, ou insetofobia.

Para o diagnóstico de fobia específica ser considerado, é importante ressaltar que a relação de elevada aversão e ansiedade perante o objeto deverá persistir por período igual ou superior a seis meses. Ainda se faz necessário destacar que para começarmos a distinguir um medo de uma fobia, é também preciso avaliar se e o quanto aquilo causa sofrimento e incapacitação na vida daquele indivíduo.

Alguns exemplos de Fobias Específicas

ATENÇÃO: Caso o leitor sofra de algum caso de Fobia Específica, esta seção poderá conter imagens explícitas de seu objeto fóbico.

Aracnofobia: aranha, de forma real ou imaginada;

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Acrofobia: de altura; de lugares altos, de muros, sacadas, etc;

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Agorafobia: de espaços abertos; shows, concertos, multidões em geral;

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Claustrofobia: de lugares fechados/trancados: elevadores, túneis, etc.;

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Hematofobia: de ter contato ou de apenas ver sangue ou vestígios de.

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A Fobia na Psicanálise

Talvez o caso mais famoso de fobia retratado na psicanálise é o do Pequeno Hans, e sua fobia de cavalos. Caso contado por Freud. Recomendo a leitura da obra, mas para quem quiser conhecer brevemente o caso, o psicanalista Christian Dunker traz um breve resumo em seu Canal no Youtube:

A Ansiedade

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“Chegou o final de semana. Finalmente eu poderei colocar em dia os estudos que deixei atrasar. Dessa vez eu vou conseguir atualizar os detalhes de minha agenda! Agora dará tempo de arrumar o meu quarto, de trocar a lâmpada do forno do meu fogão. Mas hey, primeiro eu preciso levar o cachorro para passear. Também não posso me esquecer de reservar uma hora de cada dia para ir à academia e, com certeza, de ler minhas 50 páginas diárias. É bom que eu também me lembre de relaxar, de ouvir alguma música. Será que não tá na hora de checar as minhas redes sociais? O que as pessoas poderiam estar pensando de mim? Será que aquela foto ficou muito comprometedora para o pessoal do trabalho ver? MAS EU AINDA NÃO ESTUDEI! Imagina se o cachorro ficar o dia inteiro sem passear? Eu deveria me esforçar para me organizar mais. MEU DEUS! Eu ainda não atualizei a agenda e ainda faltam 49 páginas. Acho que vou dormir. É uma pena que eu não consigo fazer nada direito”.

Esta é a síntese de alguns pequenos momentos dentro da mente de alguém que sofre de ansiedade. É como se o pensamento tivesse vida própria, como dizem muitos pacientes. E isso cansa, pensar se torna um trabalho. Um trabalho pra lá de exaustivo.

A ansiedade torna a vida do sujeito atemporal. Vive-se o passado e presente em simbiose com as possibilidades (frequentemente negativas) do futuro. É o medo em sua forma crônica, constante e às vezes invisível. É uma enxurrada de palavras preocupadas que pré-ocupam toda e qualquer atenção e relaxamento na vida de um sujeito.

Quem sofre de Ansiedade não tira Férias

A imagem pode conter: texto
Passagem do Romance “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski.

A ansiedade ocorre na mente e no corpo. Dificilmente ela age isoladamente em um dos dois, por mais que a princípio alguns sintomas dêem a entender tal fato.

Não é incomum que um paciente que sofra de ansiedade descubra isso após seu dentista lhe apontar o desgaste que o bruxismo causa em seus dentes.

Em alguns casos, quem prevê o diagnóstico é o próprio gastroenterologista, após uma forte dor no estômago que mais tarde se descobre ser uma gastrite.

Quando me perguntam sobre a relação entre gastrite e ansiedade, eu gosto de recorrer à seguinte explicação:

– A gastrite é uma condição médica onde o próprio suco gástrico, que, presente no estômago para auxiliar na digestão dos alimentos, acaba corroendo as paredes que revestem o órgão internamente – quadro muitas vezes corroborado por um padrão alimentício rico em acidez.

Contudo, há relatos de pacientes que mesmo em uma dieta praticamente alcalina apresentaram o distúrbio. Por alguma coincidência, esses pacientes geralmente têm um perfil comportamental mais ansioso. Eventualmente temos aqui um diagnóstico de um quadro conhecido como dispepsia funcional. Ou, popularmente falando: Gastrite Nervosa.

– Uma das causas da gastrite nervosa é a liberação de suco gástrico sem a presença de alimento e/ou fisiopatologia que cause tal fato. Mas o que faria o organismo ter este tipo de comportamento? Talvez um chiclete, já que ele simula uma refeição e a pessoa poderá sofrer caso se encontre de “barriga vazia”. Mas e se o paciente sofrer da condição mesmo sem o hábito de mascar chiclete?

Será que isso é algo como se o organismo estivesse pulando etapas? Como se este se atropelasse na pressa de fazer tudo de uma vez? Talvez como se a sua digestão, da mesma forma em que ocorre com os pensamentos apreensivos de um paciente ansioso, esteja lá no futuro, lhe causando desconforto agora.

O que é a Ansiedade, afinal?

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A ansiedade, segundo Dalgalarrondo:

[…] é definida como estado de humor desconfortável, apreensão negativa em relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e fisiológicas (dispneia, taquicardia, vasoconstrição ou dilatação, tensão muscular, parestesias, tremores, sudorese, tontura, etc.) e manifestações psíquicas (inquietação interna, apreensão, desconforto mental, etc.).

(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166).

Portanto, é importante ressaltar que estamos falando de uma condição por vezes altamente incapacitante. A ansiedade costuma trazer insônia, comprometendo a organização dos ciclos circadianos do paciente; pode atrapalhar relações de trabalho com atrasos e faltas frequentes; pode, inclusive, comprometer relações amorosas e familiares. Nada aqui se compara ao famoso “frio na barriga” antes de uma esperada viagem – causado por uma descarga de adrenalina

Lembrando disso me cabe também contar que, ao começo de minha vivência clínica, quando atendia pacientes encaminhados via convênio médico em parceria com uma instituição, era altíssimo o número dos encaminhamentos médicos com a hipótese diagnóstica de algum Transtorno de Ansiedade.

Mas o fato mais curioso, que não me foi ensinado à graduação de psicologia era que a maioria destes pacientes não era composta por pessoas encaminhadas por um psiquiatra, mas sim pelo cardiologista – em geral após uma suspeita de infarto ou cardiopatia ser descartada por uma bateria de exames realizada um pouco depois de o paciente ter dado entrada no Pronto Socorro de um hospital.

Os Sintomas da Ansiedade

Dalgalarrondo (Ibid) divide os sintomas entre mentais, ou seja, relacionados à experiência interna, subjetiva, do indivíduo; e somáticos, relativos ao corpo, à fisiologia; à parte observável diretamente.

Quadrinho
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166. Quadro 16.3)

Contudo, é preciso cuidado. Os sintomas da ansieda não lhe são exclusivos. Eles já apareceram em Outro lugar. Eles são muito semelhantes ao que se sente no medo. Entretanto, o próprio DSM-V faz questão de nos atentar às diferenças entre medo e ansiedade:

“Medo é a resposta emocional à ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, com o medo sendo com mais frequência associado a períodos de excitabilidade autonômica aumentada, necessária para luta ou fuga; pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga e a ansiedade sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e vigilância em preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233).

A partir desta afirmação, se faz importante observar que há uma clara semelhança entre os sintomas da ansiedade com a expressão de uma das sete emoções básicas: o medo. Não é atoa que há eventual confusão entre os dois termos. A ansiedade talvez se pareça mais com um medo que, a princípio, se hospedaria naquele local apenas por um final de semana, mas encontrou lá razões para permanecer por tempo indeterminado.

As próprias manifestações fisiológicas são bem parecidas às do medo e da fobia. Mas a principal diferença é que, pelo menos a princípio: a ansiedade pode não possuir relação com causa/objeto específicos. Em alguns casos, como no Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), uma crise de ansiedade pode acontecer de maneira súbita, sem causa aparente. Quem quiser mais detalhes sobre a ansiedade, recomendo a leitura de um excelente texto da psicóloga Masilvia Diniz clicando aqui.

Transtornos de Ansiedade

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Você sabia que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde?

Os Transtornos de Ansiedade são diagnosticados de acordo com as recomendações da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID 10) – gerido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) –, e/ou pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) – regido pela American Psychiatric Association. Sempre por um psiquiatra. Contudo, o tratamento pode e deve ser realizado com vários profissionais trabalhando em equipe. A multidisciplinaridade, como forte aliada à saúde mental, é indispensável. Desde o psicólogo, o psiquiatra; à nutricionista, o terapeuta ocupacional; até ao educador físico e ao endocrinologista. Caso você sofra de algo parecido, procure urgente um profissional da área da saúde mental.

Exemplos de Transtornos de Ansiedade

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Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Sendo uma de suas marcas o roer de unhas, falamos aqui de um quadro de sintomas ansiosos que persistem por pelo menos seis meses, passando a causar elevados prejuízos aos âmbitos social, produtivo e afetivo do indivíduo que sofre desta condição.

A angústia e a insônia não são raras, confira a lista de sintomas que Dalgarrondo (2008) descreve a respeito desta condição:

TAG
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

O TAG é algo que com alguma frequência parece não ter uma causa aparente em suas crises. E de fato não é fácil estabelecer uma linha entre os fatores que poderiam desencadear a expressão de uma crise de ansiedade.

Para ilustrar tal fato, me recordo de uma situação relatada para mim onde, todos os dias na mesma hora, um pouco após chegar ao trabalho, uma pessoa que sentia muita vontade de ser demitida começava a experimentar uma crise de ansiedade. A princípio, para alguns psicólogos e psicanalistas, a relação entre as duas coisas parecerá evidente. Contudo, foi preciso que mais detalhes fossem buscados para que se começasse, em consultório, recolher as migalhas de pão”deixadas no caminho através da fala do paciente para depois entender mais nuances que o sigilo profissional não me permitirá expor aqui. As informações deste tipo não são tão simples de se chegar ao acesso, exigindo um pouco de paciência e atenção da parte do terapeuta.
O tratamento para o TAG é realizado com psicoterapia e, em casos mais acentuados, há o uso de medicamentos em conjunto.

Transtorno do Pânico

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É o medo de sentir medo. Um dos mais incapacitantes transtornos de ansiedade. Suas manifestações se estendem através de descargas do sistema nervoso autônomo; exatamente por isso, seus sintomas são até mais incapacitantes do que no caso de outros transtornos. Por exemplo: “batedeira ou taquicardia, suor frio,
tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos
em membros e/ou lábios” (Dalgalarrondo, 2008, p. 305).

Panico
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

Ainda de acordo com Dalgalarrondo (2008) , algo é unânime entre os pacientes: a sensação de que irá morrer a qualquer momento. Em crises mais intensas pode haver até certo grau de despersonalização. O ataque de pânico costuma ocorrer por mais tempo que o convencional. Quando estas crises de pânico se repetem com certa frequência por um período de 6 meses, pode-se começar a indagação a respeito de um diagnóstico relacionado ao Transtorno do Pânico (podendo ser com ou sem agorafobia).

Pacientes que sofrem de Transtorno do Pânico começam a evitar sair de casa com medo dos ataques; pedem demissão, terminam relacionamentos e, em casos mais graves até cometem suicídio em função da insuportabilidade de seu sofrimento.

A Ansiedade tem tratamento

Agora que você já sabe a diferença entre medo, fobia (que no DSM-V também é considerada um transtorno de ansiedade) e ansiedade teremos o objetivo principal em pauta: auxiliar na busca pelo tratamento, inclusive estimulando pessoas próximas a fazerem o mesmo. Se o leitor se identifica com a maior parte dos sintomas e algum dos transtornos aqui apresentados, a recomendação é que procure um psicólogo e/ou um psiquiatra o mais rápido possível, mesmo que apenas para tirar a dúvida. A internet não serve para isso.

A diferença é feita na hora da procura por um profissional. Mas a difusão do conhecimento sobre o assunto também poderá ajudar para que mais pessoas consigam entender que talvez seja a hora de escutar a opinião de quem dedicou, e ainda dedica a vida pessoal e profissional para ajudar quem passa por este tipo de sofrimento. Compartilhar este texto e deixar seu feedback também ajudarão à difusão deste conhecimento. Faça a sua parte. Até a próxima.

*Todas as imagens contidas no texto foram obtidas de forma gratuita na internet. Caso alguma delas seja de sua autoria, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos o mais rápido possível*.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERENCIAS:

American Psychiatric Association et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.

Cabral, A.; Nick, E. Dicionário Técnico de Psicologia. São Paulo. Editora Cultrix. 2006.

Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed Editora. 2008.
Darwin, C. A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras. 2009. (Obra original publicada em 1872).
Ekman, P. A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel. 2003.

Lent, R. Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu. 2010.
Rafailov, Igor. “Dicionário Igor de Fobias.” Forum de Fobias, 2003.

Spinelli, M. “O Daimónion de Sócrates”. Revista HYPNOS. São Paulo. Ano 11/nº 16 – 1º sem. 2006 – p. 32-61. acessível em http://revistas.pucsp.br/index.php/hypnos/article/view/4777/3327

Depressão: Conceitos, Sintomas, Mitos e Tratamentos

Por que falar sobre Depressão?

Ser psicólogo, assim como em qualquer outra profissão, faz com que desenvolvamos certa antipatia perante alguns termos do senso comum. E o motivo nem sempre paira a arrogância ou o pedantismo, em grande parte das vezes a causa é o conjunto de danos que a desinformação pode causar a um grupo de indivíduos ou para a sociedade como um todo. O artigo de hoje vem exclusivamente para destrinchar, desmitificar e afastar do senso comum o conceito do grande mal do século XXI: a Depressão.

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Imagem obtida na internet

No lento drama d’um mergulhar de alma em uma lama movediça de pensamentos, emoções e sentimentos negativos e, quando pior ainda: naquele nada que não se pode ou se sabe nomear. Quanto mais se mexe mais se afunda. Quanto mais força se faz, menos intensidade se percebe. A principal causa do suicídio, que por sua vez se tornou a segunda maior causa da morte entre os jovens, se fosse alguma doença infecciosa, já seria considerada uma pandemia passível de decretar calamidade pública mundial.

Este artigo contou com as ilustrações do magnífico trabalho de arte e pesquisa do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram. Nele é ilustrado e escrito, com o auxílio de relatos de pessoas diagnosticadas com o transtorno.

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Imagem obtida e publicada no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.

Você também poderá fazer o download do livro através deste link no Google Drive, mas pedimos que, em forma de retribuição pela qualidade do trabalho, curta a página no Facebook e a Siga no Instagram, exatamente para que mais pessoas possam conhecer este conteúdo de altíssima qualidade.

O Mal do Século

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Imagem obtida na internet.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 300 milhões de pessoas sofrem de Depressão no mundo inteiro. Uma população maior que a de habitantes do Brasil e quase que equivalente à dos Estados Unidos. Ainda de acordo com o órgão, o transtorno mental se tornou a maior causa de incapacitação ao redor do mundo, sendo mais comum (mas longe de ser exclusivo) em mulheres, falamos de algo que, na pior das hipóteses, pode levar quem sofra deste mal ao suicídio – a segunda maior causa de morte de pessoas entre os jovens na faixa etária dos 15 aos 29 anos de idade (OMS, 2019).

Sendo a depressão o transtorno mental que está relacionado à maioria de seus casos, estima-se que ao menos 800.000 pessoas cometam suicídio todos os anos. (Idem).

A Depressão é considerada um Transtorno de Humor. Mas o que é isso?

O Conceito de Humor

mascaras teatro grego
Nas festas dionisíacas, uma espécie de homenagem ao Deus da Mitologia Grega representante do vinho e da farra, máscaras eram utilizadas para designar as emoções, ou os estados de humor dos personagens que encenavam situações em um amplo espaço. Isso ocorria exatamente para que pudesse ser identificado pelo público, à distância, qual sentimento permeava aquela cena. Posteriormente, tais demonstrações deram origem às primeiras peças de teatro na Grécia Antiga. Imagem obtida na internet.

A palavra “Humor” deriva do latim “humore“, significando “líquido” em português. O humor é um estado afetivo, ou seja: é um retrato de como relacionamos nosso mundo interno com o mundo externo; como nossa mente se expressa através de nosso corpo; como equilibramos nosso eu ao mundo e as pessoas à nossa volta. E pode ser considerado mutável, assim como um líquido.

Foi associado durante algum tempo pela antiga medicina grega aos principais fluídos de nosso corpo (sanguefleumabílis amarela e bílis negra), como se estes fossem os verdadeiros responsáveis pela nossa saúde física e mental. Curiosamente, a medicina ainda utiliza, nos dias de hoje, a palavra “humor” para nomear certos líquidos do corpo humano. 

Contudo, apesar da palavra “Humor” ser algo frequentemente relacionado, inclusive pelo senso comum, à habilidade de fazer rir, esta não se resume a induzir alegria e riso através de nossas palavras e ações. O Humor pode ser considerado como aquela parte de nossa personalidade que irá, afetivamente, estabelecer uma conexão de nosso mundo interno com o “exterior”.

death humor
Na imagem uma caveira, envolvida em um manto todo preto com capuz (o que costuma ser uma representação da Morte), tomando um copo do que parece ser cerveja, pergunta a uma mulher loira, que acende um cigarro enquanto tem sobre a mesa um punhal, um vidro de comprimidos, um revólver e uma banana de dinamite: “Você está flertando comigo?”. Dando a entender que esta pessoa estaria prestes a cometer suicídio, por estar “flertando com a morte”. Abaixo a frase: “aqui está um pouco de “humor escuro popularmente apelidado de ‘humor negro’ no Brasil)”. Imagem obtida na internet.

Apesar de lembrar a definição de uma emoção, a principal diferença entre um estado de humor e um estado emocional está em sua duração. Uma vez que, em oposição aos instantes que pautam a duração de uma emoção, um determinado estado de humor pode permanecer por dias, semanas, meses e até anos. Podendo ser considerado deprimido, quando apresenta uma redução em sua “fluidez”, ou mais aflorado, elevado (e até maníaco) quando em maior atividade. Tais fatos irão definir nossa interação afetiva com o meio que nos cerca, bem como o conjunto de emoções e sentimentos que experimentaremos com maior ou menor facilidade e intensidade. Entenda a diferença entre Afetos, Emoções e Sentimentos clicando aqui.

O Conceito de Depressão

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A Depressão como forma de relevo, demonstrando o que o desgaste, ao longo dos anos, provoca numa estrutura geográfica de determinado local. Imagem obtida gratuitamente na internet.
 

É muito provável que a escolha do termo “Depressão” tenha derivado de seu homônimo na Geografia. Se bem for lembrado por quem está lendo, as aulas sobre os tipo de Relevo, no Ensino Fundamental, falavam sobre um local que sofrera grande desgaste por influência do vento e da água (fatores externos), durante anos, tornando-se uma espécie de buraco naquele espaço geográfico. O porquê deste casamento entre campos do conhecimento tão distintos entre si, talvez more nas palavras colhidas em relatos de parte daqueles que sofrem do transtorno: “é como se eu estivesse preso (a) /caindo em um enorme buraco”.

Critérios Diagnósticos

A Classificação Internacional de Doenças (CID-10) estabelece os espectros da Depressão dentro de sua seção de Transtornos de Humor (ou Transtornos Afetivos), localizados no intervalo das classificações F-30 e F39. Sendo as classificações do Transtorno Depressivo em específico localizadas entre F32.1 (Episódio Depressivo Leve) e F33.9 (Transtorno Depressivo Recorrente sem especificação).

No CID-10, a OMS define o que é considerado um Episódio Depressivo:

Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado ou grave, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite [o aumento também pode ocorrer]. Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima e da autoconfiança e freqüentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos “somáticos”, por exemplo perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar […] [os] três graus de um episódio depressivo.

E, para das devidas diferenciações, também define o que é um Transtorno Depressivo:

[O]Transtorno caracterizado pela ocorrência repetida de episódios depressivos correspondentes à descrição de um episódio depressivo (F32.-) […]. O primeiro episódio pode ocorrer em qualquer idade, da infância à senilidade, sendo que o início pode ser agudo ou insidioso e a duração variável de algumas semanas a alguns meses.

Apesar de ser bastante criticado pela abrangência das interpretações possíveis de seus critérios diagnósticos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) é amplamente utilizado no diagnóstico da Depressão. Sua caracterização engloba aquilo que está dentro do que é chamado de Transtorno Depressivo Maior, subdividido em episódio único ou recorrente, especificando também se em grau leve, moderado ou grave. Para o DSM-V, os critérios diagnósticos deste transtorno envolvem:

[A]Presença de pelo menos cinco entre os nove critérios.
[Os]Sintomas devem persistir por pelo menos duas semanas e um deles deve ser obrigatoriamente humor deprimido ou perda de interesse/prazer;

1. Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por relato subjetivo (p. ex. sente-se triste, vazio ou sem esperança) ou por observação feita por outra pessoa (p. ex., parece choroso) (Nota: em crianças e adolescentes, pode ser humor irritável);

2. Acentuada diminuição de interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (conforme indicado por relato subjetivo ou observação);

3. Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (por exemplo, mudança de mais de 5% do peso corporal em menos de um mês) ou redução ou aumento no apetite quase todos os dias. (Nota: em crianças, considerar o insucesso em obter o peso esperado);

4. Insônia ou hipersonia quase diária;

5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias;

6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias;

7. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser delirantes) quase todos os dias (não meramente autorrecriminação ou culpa por estar doente);

8. Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outra pessoa);

9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio.

Depression
Imagem obtida e publicada no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.

Um dos maiores problemas envolvendo o tratamento da depressão, segundo a OMS, está, mais ainda nos países sub-desenvolvidos, na falta de diagnósticos e principalmente nos diagnósticos equivocados a respeito do Transtorno – frequentemente atribuídos as definições amplas e vagas de seus critérios diagnósticos. Tais fatores comprometem desde o tratamento a pessoas que sofrem da condição, estendendo-se às estatísticas que entrarão em desacordo com a realidade que naquele local se apresenta.

Em seguida, ocorrendo de forma simultânea ao diagnóstico errado ou incompleto, vem a forma de tratamento oferecida. Não são raros relatos de diagnósticos que apontaram para um prognóstico limitado apenas ao consumo de antidepressivos, sem a indicação do tratamento psicoterápico.

depression diagnostico
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O problema deste tipo de abordagem estritamente biológica é exatamente o que foi concluído em uma pesquisa da Universidade de Helsinque, na Finlândia, pelo renomado neurocientista Eero Castrén, em conjunto com o professor de farmacologia do curso de psiquiatria da Universidade de Columbia, em Nova York, René Hen.

depression efeito
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Estudando a plasticidade neuronal a partir do uso de antidepressivos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a efetividade do tratamento com antidepressivos apenas se comprovava quando havia uma combinação com a psicoterapia (Castrén, E., & Hen, R. (2013). Confira o estudo (em inglês) clicando aqui.

depression medos
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Tal afirmativa já vinha sendo defendida há algum tempo por profissionais da área da saúde mental, mas a comprovação do estudo endossa a eficiência de um tratamento em conjunto. Afinal, assim como qualquer outro transtorno, não se pode tratar apenas o sintoma – é preciso investigar e intervir na causa.

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Distimia

A Depressão ainda pode aparecer em sua forma considerada mais “leve” e duradoura, a chamada distimia, classificada no DSV-5 como Transtorno Distímico (300.4) e dentro dos Transtornos Persistentes do Humor (F34.0), com o próprio nome de Distimia (F34.1). Sua condição pode permanecer por anos, sendo algo frequente a confusão do quadro com aspectos considerados “normais” à personalidade de suas vítimas.

Mais leve a nível de incapacitação, a distimia oferece constantes pensamentos negativos, marcados pelo pessimismo e característicos de uma baixa autoestima, uma elevada ou nula autocrítica do sujeito. Uma representação caricata e talvez fidedigna desta condição é encontrada no personagem Hardy, do desenho Lippy & Hardy da Hanna Barbera, famoso por seu bordão:

LippyHardy
Imagem obtida na Internet
 

Tratamento e Sintomas

Os sintomas, já descritos na definição, afetam os portadores no âmbito psicológico, social e até em nível neuro-fisiológico. Ainda não há um consenso na comunidade científica se os sintomas neuro-fisiológicos são a causa ou o efeito dos psicológicos (e vice-versa). Ou seja: ainda não se sabe ao certo se as alterações que o transtorno causa no corpo e no cérebro acontecem por causa de um determinado estado da mente do indivíduo ou se o que muda na cabeça deste paciente é uma causa direta daquilo que alterou a organização biológica de seu corpo. Uma espécie de questionamento semelhante ao famoso: “Quem veio primeiro? O ovo ou a galinha?”.

É exatamente por este motivo que o tratamento envolve psicoterapia e, nos casos em que a doença atinge seu nível grave ou moderado, a prescrição e administração de medicamentos específicos para que haja inibição da perda do principal hormônio responsável pelo humor: a serotonina.

depression não observável
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O transtorno altera a vida social, a vida psíquica e até a atividade neurológica do paciente, gerando neste altíssimos índices de incapacitação. Áreas do Sistema Nervoso Central relacionadas ao prazer, à motivação e até à atividade psicomotora do sujeito se encontram com baixíssima atividade sináptica durante um episódio isolado ou (e mais ainda) em um transtorno depressivo. Veja a imagem a seguir:

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Na imagem acima, a atividade sináptica, demarcada em amarelo e laranja, é comparada a partir do cérebro de um paciente Deprimido e outro Não Deprimido. Créditos na Imagem.

Também por ser tratar de uma condição onde a manifestação dos sintomas não se dá maneira explícita no corpo, ou seja, a percepção destes e de seus sinais é mais subjetiva (relacionada ao sujeito) do que objetiva (relacionada aos objetos, ao que se pode observar do meio externo). Sendo este fato bastante associado às tentativas de deslegitimação do Transtorno e do sofrimento experimentado por seus portadores.

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Tais fatores, alimentados pelo senso comum com ditos como “é falta do que fazer”, “é doença de rico” ou até “é frescura”, formam que pode piorar o quadro, uma vez o resultado destas falas se limitaria aumentar a dose de culpa – já muito presente nos pacientes que sofrem desta condição. A depressão é um Transtorno Mental que pode atingir todas as idades e classes sociais.

Depressão é Diferente de Tristeza

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Personagem “Tristeza” da animação da Disney “Divertidamente”. Imagem obtida na internet.

Se a tristeza é uma emoção, a Depressão é uma condição. Uma emoção é uma resposta neuropsicofisiológica, pulsional e instintiva de um organismo ao ambiente que o cerca. Ou seja: é algo que ocorre no corpo, na mente e no cérebro por um breve momento, relacionada a um fator determinado para fins específicos. A tristeza tem seu fim assim que a próxima emoção tomar seu lugar. Não se trata do caso da Depressão.

Enquanto a tristeza pode ser uma emoção que irá se repetir por segundos, minutos ou dias, a depressão perdurará por semanas, meses e até anos na vida de um sujeito.

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A tristeza dificilmente afetará as tarefas do dia-a-dia ou a performance no trabalho por um período significativo; bem como não provocará dores ou desregulará os ciclos do sono (circadianos), do apetite e da vida sexual a ponto de causar prejuízo cognitivo, nutricional, social e afetivo para quem a vivencia. Quem está triste não deixa de sentir o gosto dos alimentos.

Contrariando mais uma vez o senso comum, a Depressão também atingiu um dos maiores líderes religiosos do Brasil: o Padre Marcelo Rossi. Quebrando publicamente os alicerces argumentativos de quem dizia que o Transtorno era “falta de religião”. A Depressão, diferentemente da tristeza, traz déficits reais nas áreas cerebrais que integram a fala, a atenção e a concentração. E seria possível estabelecer e manter excelentes relações pessoais e profissionais com este desfalque?

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depression fala devagar
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Algumas vezes pude perceber em alguns pacientes uma fala sem muita articulação; uma fala lenta em que seu tom de voz não carregava mais a ênfase da vida. Era possível perceber a troca de nuances de volume, intensidade e tempo por um relato retilíneo e monótono na voz dos sujeitos. Era como se toda a carga emocional e afetiva daquele relato estivesse aprisionada dentro de um profundo buraco mal iluminado. Ao início da experiência clínica e teórica, eu mesmo me indagava se a fala de um paciente deprimido não seria algo “artificial”, “falso” e “forçado”. Hoje eu arriscaria dizer que sim, que de fato é. Mas não por alguma encenação ou defesa, muito pelo contrário: pela quantidade sobre-humana de esforço que é exigida do deprimido ao simples ato de interagir com outra pessoa. Ao simples ato de sentir qualquer coisa. Faltará energia, força e vigor para demonstrar uma”emoção” na fala. A verdade é que não lhe falta vontade e, muito menos, culpa pela falta de êxito em colocá-la em prática.

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O Blues, o estilo musical americano que de origem a inúmeros gêneros musicais, incluindo o Rock, ficou marcado por suas letras tristes, costumeiramente associadas à Depressão e à Tristeza. O estimulo musical acabou se tornando uma forma de se referir a um estado emocional e/ou de humor: “I’m blue today” (“Hoje eu estou triste”):

https://www.youtube.com/watch?v=4VBce5OvR-k

É Preciso Falar Sobre

O tratamento da Depressão pode ser longo e trabalhoso, tanto para o paciente como para o (s) terapeuta (s). Não raro será aquele relato de terapeutas que se sentiram “sugados” pela enorme carga afetiva negativa que acompanha uma sessão com um paciente depressivo. Daí a importância do próprio terapeuta sempre fazer terapia e supervisão.

Se há uma dificuldade na vida de um paciente deprimido é a da escuta. Ninguém quer escutá-lo; poucas pessoas permanecem por perto. O terapeuta deverá saber “pescar” as palavras que mais permeiam seu discurso, as dores que marcam seu corpo junto ao seu vocabulário e as sinalizações de seu sofrimento em seu rosto, suas vestimentas e cuidado consigo mesmo.

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A alavanca da melhora estará nas pequenas coisas: nos planos que começam surgir para o futuro, no súbito desejo de pintar as unhas; no ato de ir ao cinema ou tomar uma cerveja, mesmo que sem companhias. No inesperado “vou ali e já volto” em que a pessoa volta mesmo.

Lembro-me que o marco de melhora de um caso grave de depressão que atendi foi uma viagem, feita sem muito tempo de planejamento e sem companhias conhecidos. Duas coisas até então inéditas. Curiosamente, este evento somente foi perceptível ao paciente após alguns meses, quando, em uma objeção minha à sua autocritica direcionada a uma suposta ausência de iniciativa, independência e força de vontade, a viagem foi citada. Curiosamente, o quadro teve grande estabilidade após a tomada de consciência do significado que tinha aquela aventura.

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Psicoterapias de grupo e até grupos de apoio também podem ser de grande efetividade. Uma vez que causam a percepção de que aquilo tudo não lhe é exclusivo, não é uma falha de sua volição. Estas psicoterapias facilitam, inclusive, o estabelecimento de novos vínculos, que podem ajudar no processo de recuperação dos pacientes.

Por fim, Não é o Fim.

A recuperação é uma lenta luta diária. Uma prova de força que supera de longe os desafios propostos aos halterofilistas mais bem preparados. Cada dia é uma nuvem a menos em um horizonte de intensa neblina. A chamada remissão começa com o enxergar daquela mísera fração de cores de um arco-íris em meio às trovoadas de uma tormenta, que apesar de demorar a passar, agora já acontece sem os fortes ventos que a acompanhavam.

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É um lento processo que não é linear, mas que aos poucos permite a escolha de alguns tons de cinza – depois de tanto preto e branco. É um desembaçar de óculos que vai permitindo ver vida e alegria no bege que agora está na sua mais nova paleta de cores. O azul já é quase algo bom – começa a despertar algo diferente do que a dor sentida em todos aqueles Blues; dele surge um tom de verde, pois o amarelo também aparecera por perto. Outro encontro dá origem ao marrom: o vermelho também cruzara seu caminho. A escuridão do preto e a cegueira do branco podem até voltar, mas logo há respingos de outras cores que refletem alguma luz a mais. E assim vai.

Certo dia aparece um sorriso, n’outro duas risadas. Uma inesperada vontade de cheirar uma flor toma conta daquelas primeiras horas manhã. Será que correr pela rua seria uma boa ideia? Ainda há um eco da depressão, mesmo nas maiores histórias de superação e nos melhores momentos da vida; ela é assustadoramente sentida por perto, mas as pernas e os ombros estão mais leves. Haverá sempre a possibilidade de tropeçar e cair àquele lugar úmido e escuro, mas não hoje. Pode até ser que isso aconteça na semana que vem. Mas hoje não; hoje estou curado (a). Hoje dá até pra aproveitar, quem sabe amanhã também dê? Bom, já está na hora de fazer planos.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

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Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5 – Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2014.

CASTRÉN, E., & HEN, R. (2013). Neuronal plasticity and antidepressant actions. Trends in neurosciences36(5), 259–267. doi:10.1016/j.tins.2012.12.010.

CUNHA, J. A. Psicodiagnóstico – V – 5. ed. rev. e ampl. – Porto Alegre: Artmed, 2007.

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais – 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

FUKUYAMA, Y. L. Sim, estou bem. São Paulo: 2019. Disponível neste link. Acesso em 17 jul 2019. Link alternativo.

Portal OMS. Organização Mundial da Saúde; 2019 [acesso em 17 jul 2019]. Disponível em: https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/depression

World Health Association. The ICD-10 Clasification of Mental and Behavioural Disorders. Clinical descriptions and diagnostic guidelines. Geneva: World Health Organization; 1992.

Ansiedade, Atenção Plena e Black Mirror

“Agora, mais uma vez, concentre-se na sua respiração… Repare como a sua respiração continua por si só… Sua mente pode vagar. Simplesmente observe… Calmamente… Sem julgamento…”

Assim começa o segundo episódio da quinta temporada de Black Mirror – Smithereens. Não parece, é um App Mindfulness (ou em português Atenção Plena), a narração transcrita acima é uma meditação guiada. Amplamente utilizada para tratamento complementar dos Transtornos de Ansiedade ou como uma maneira de ser manter o indivíduo focado no momento presente.

Charlie Brooker aparentemente trabalhou com uma paleta de cores pastel na quinta temporada do seriado Black Mirror (2011/____ ), diferente da temática do filme-evento Bandersnach. Em vez da usual crônica da vida privada sobre possibilidades de futuro HI-TEC distópico/pessimista, neste episódio vemos algo contemporâneo situado em 2018.

Black Mirror: Season 5 | Official Trailer | Netflix

Black Mirror é o convite a reflexão sobre efeito da tecnologia em nossas vidas, uma noção que se perde à medida que as facilidades vão aumentando. Você pode dizer que os dispositivos ou ‘modo de usar’ apresentados no seriado nem sejam inventados, mas o que está em jogo é que todos os dias novas tecnologias são criadas sem regulamentação jurídica ou vinculadas a um código de ética.

Quando você posta uma opinião no campo comentário, ou fotos em rede sociais, ou expia a vida alheira, curtidas, deslikes, retweets, solicita transporte, remédios, amenidades, roupas, peças de carros, aparelhos eletrônicos ou comidas, cada vez que você clica em botão aceito, seu bem mais precioso pode ser utilizado sem sua percepção: suas informações pessoais.

“Meios cada vez mais precisos para fins cada vez mais vagos, são uma característica da nossa época”.

Albert Einstein

Desde os primórdios, nossos ancestrais desenvolvem tecnologia para facilitar a execução e/ou minimizar o tempo de trabalho. Tecnologia Digital faz isto com maestria, cada vez menos intervenções humanas e cada vez mais algoritmos proporcionando autosserviço ao toque das suas mãos. Como sobra mais espaço em nossas agendas, podemos consumir outros conteúdos, e com isto, nosso tempo de vida é consumido.

Persona – Conectando você com o que importa

Após um dia de trabalho, o motorista do App de transporte vai a cafeteria, e ao ouvir o alarme de notificação dos celulares a sua volta, tem visível aumento de sudorese, demonstra irritabilidade e alteração comportamento. O intuito desta cena sem diálogos é instigar o espectador através da edição, sugerindo que o personagem apresenta sintomas de ansiedade. Geralmente, quando se menciona a palavra ansiedade, esta é sempre referida pelo escopo psicopatológico, descrição dos possíveis transtornos, sintomatologia, posologia e tratamento psicológico.

Afinal de conta, o que é Ansiedade?

Ansiedade é o medo de uma ameaça antecipada ou real e incerteza sobre a capacidade de lidar com isso, definição que consta no The Ekman Atlas of Emotions (tradução livre: Altas das Emoções de Paul Ekman). Semelhante ao sinal amarelo do semáforo (farol ou sinaleira, entre outro regionalismos do Brasil) que indica atenção, mostrando a iminência da parada obrigatória.

Por que nos sentimos ansiosos frente as situações?

A Psicologia Evolucionista, disciplina resultante da síntese entre a Psicologia Cognitiva e a Biologia Evolutiva, que engloba conhecimentos da Antropologia, Paleontropologia, das Ciências Cognitivas e das Neurociência, aponta que a perpetuação da espécie equipou seres humanos com este mecanismo biológico das emoções.

Você encontrará neste blog no texto a Psicologia das Emoções, a evolução dos estudos e embasamento teórico, mas adianto que medo é uma emoção humana, cuja função principal é preservar a vida. Se o dispositivo emocional de ansiedade de um individuo não sinaliza frente há uma situação de perigo, existe a possibilidade deste não ser humano.

Em outro texto também publicado neste blog (Por que todos desejam ser como Spock?) descrevo mecanismos do desenvolvimento biopsicossoal na Teoria Comportamental Cognitiva, mas neste ponto irei me ater aos mecanismos cognitivos do desenvolvimento humano.

“As funções executivas do cérebro humano podem ser consideradas um conjunto de processos cognitivos que de forma integrada, permitem ao individuo direcionar comportamentos a metas, avaliar eficiência e adequação destes comportamentos, abandonar estratégias ineficazes em prol de outras mais eficientes e, desse modo, resolver problemas de médio e de longo prazo (Malloy-Diniz, de Paula, Sedó, Fuentes e Leite, 2014).”

Todos os seres humanos deste planeta, independente de ter acesso a educação escolar, possuem este conjunto de capacidades. Porque aprendemos com nossas experiências, podemos ter respostas adaptativas aos problemas apresentados, é com isto, começamos em anteciparmos os acontecimentos. Então, podemos supor que em teoria, quanto maior for o repertório do sujeito, melhor será resposta frente as situações. Certo?

Daniel Kahneman, o Prêmio Nobel de Economia em 2002, afirma em seu livro Pense Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, que há dois sistemas funcionando em paralelo no cérebro: e o que pensa depressa e é automático – ligado a memória e as emoções – e o que pensa devagar é racional – isto leva tempo e consome energia. Podemos supor que o cérebro funciona no módulo avião (recurso que limita o consumo da bateria do seu celular), talvez por isto muitas funções são automatizadas, inclusive o pensamento.

Quando ansiedade vira doença?

De acordo com Robert L. Leahy no seu livro Livre de Ansiedade a reposta é clara e objetiva: é quando o sujeito começa sentir o medo certo na hora errada.

Uma mente pode estar com a sensação de algo está acontecendo novamente, ou que está perdendo o controle. Imagine como é ficar tentando antecipar possibilidades cuja evidências não corroboram para que se realizem?

Leahy afirma que, quando somos dominados pela ansiedade, a mente funciona 24/7, como se o botão liga/desliga estivesse sempre ligado. Um tsunami de pensamentos invade a mente do individuo, independe se a vida estiver com alegrias e as coisas estão indo bem, este fica preocupado demais com as ansiedades do passado e do futuro, que tudo que está a sua volta fica imperceptível. Isto mesmo, ao contrário do que dizem a ansiedade não é a mente pensando somente no futuro, a mente pode estar presa em algo que aconteceu e revivendo a sensação constantemente.

Ansiedade: Aviso de Utilidade Pública

Os Transtornos de Ansiedade são categorizados nos compêndios médicos CID 10 – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde publicado pela OMS em fase de atualização para CID 11 e DSM V – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Para saber se você é acometido por uma psicopatologia deste grupo, é necessário um diagnóstico adequado que nenhum site de busca não dará para você. O tratamento deve ser realizado com acompanhamento psicológico e medicamentoso, dependendo do grau de comprometimento do paciente.

Aos familiares, amigos e pessoas próximas é sempre importante lembrar que tentar acalmar dizendo ‘não se preocupe’ e ‘vai ficar tudo bem’, quase nunca ajuda efetivamente. A sensações físicas e sofrimentos psicológicos são reais é devem ser tratados com empatia genuína, gentileza e cuidado.

A orientação é buscar profissionais capacitados e treinados que irão auxiliar o indivíduo e familiares o caminho da melhor qualidade de vida.

Vale ressaltar que deste ponto em diante entraremos nos questionamentos e reflexões propostos neste episódio, portanto spoilers estão chegando.

“Descobre o que você puder sobre este cara.”

No início deste episódio, vemos o motorista de App de transporte (usando um App de Mindfulness) indo pegar uma passageira na porta Smithereens, que é um App de Rede Social. Ele pergunta para a mulher se ela trabalha naquela empresa, e a resposta é: “nem estava prestando atenção no que disse, mas não, quem me dera se eu trabalhasse.”

Dia seguinte novo passageiro, mesmo local de embarque, mesma pergunta: “você trabalha na Smithereens?” O rapaz em sua primeira semana de emprego, responde com um sorridente sim. Em seguida o motorista diz: “o App esta sinalizando trânsito no caminho para o aeroporto, posso utilizar um caminho alternativo?” Duas respostas afirmativas em seguida num episódio de Black Mirror, nunca é bom sinal. O motorista pacato se revela um sequestrador armado cujo o único objetivo é conseguir contato com o ‘Todo Poderoso’ criador/CEO do Smithereens (apenas para registrar é o App de Rede Social).  

O sequestro ganha contornos dramáticos quando o carro do sequestrador é cercado por várias viaturas da polícia. Os agentes têm dificuldades identificar o motorista, pois a placa do veículo está no nome de uma mulher. Enquanto isto, o sequestrador segue com seu plano, entrega seu celular na mão do sequestrado e o ameaça a ligar na Smithereens, ao fazer o que foi mandado, o número é rastreado.

Alguns cliques depois, os funcionários da rede social fictícia conseguem, como dizem no jargão policial, levantar a capivara do sequestrador. Gostos musicais, quantidades de acessos, compras, documentos, viagens, e entre outros padrões de comportamento comum em redes sociais. Como um passe de mágica um hacker disponibiliza o áudio do celular de dentro do carro e passamos a ouvir tudo que sequestrador e sequestrado conversam. Até os agentes da polícia, que não conseguiram identificar a placa, se impressionam…

Enquanto vidas correm perigo, usar a tecnologia para nossa proteção pode ser uma estratégia fantástica. No filme V de Vingança, o terrorista V diz: “eu entendo por que o medo fez com o que as pessoas entregassem sua liberdade em troca de segurança”. Bauman fala em seus livros sobre o Medo Líquido, que ocorre em relações amorosas, conflito entre países e instituições, que deixaram a ultrapassada solidez para um estado líquido impermanente, isto é atribuído ao medo.

“Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.”

Zygmunt Bauman

Você pode me dizer que não teve escolha. O mundo ficou grande demais, populoso, globalizado e concentrou riqueza em pouquíssimas mãos, e talvez por isto, o controle comportamental pelas plataformas digitais se tornou como vilão dos filmes da Marvel Thanos se auto proclama: inevitável.

No mesmo dia da postagem deste texto, o especialista em cibersegurança Marcelo Lau em entrevista ao Programa Pânico explicando como as mídias digitais impactam sua vida.

“Quero que você apenas me escute, apenas me escute.”

Enquanto isto, o sequestrador permanece irredutível, a única maneira de evitar uma tragédia é ter que interromper o retiro de dez dias em silêncio (uma espécie de detox sem eletrônicos, sem falar e sem contato humano) do “Todo Poderoso” criador/CEO do Smithereens, que ao ficar ciente da gravidade do caso, prontamente se oferece para atender a exigência do sequestrador. Muito suspense, manipulação e jogo de poder, jurídico e assessores tentam sem sucesso demover ideia do seu chefe. Quando o criador/CEO toma a decisão, dispensa seu staff e diz a sua assistente pessoal: “a vantagem de estar na minha posição é que eu posso brincar de ser Deus”. Ele mesmo captura o número e entra em contato com o sequestrador.

Neste momento, uma pausa para reflexão. Em tradições religiosas seculares, Deus é onipresente e onisciente, ou seja, está em todo lugar e sabe tudo. A ideia de falar com o criador é um desejo antigo do ser humano, Mary Shelley assombrou o mundo literário com seu romance Frankenstein em 1816, desde de então a ficção nos brinda com a mesma dinâmica, seja em Blade Runner (1982) ou até mesmo no recente seriado Westword (2016/___ ) da HBO.

O criador/CEO se identifica no outro lado da linha, dá a voz ao sequestrador que desejava confessar uma falha, algo que vez com que ele perdesse a razão do seu viver. Apenas porque naquele instante, ele deixou o momento presente e foi olhar em seu celular, que disparou uma notificação aleatória de algo de menor importância. O “Todo Poderoso”, com aparência messiânica de fala calma e tranquila, diz que não foi por isto que seu App foi criado. O objetivo inicial se perdeu com o tempo, cada vez mais pessoas subordinadas entravam no circuito, dando sugestões de melhorias que fizessem com que a rede social se tornasse mais atrativa, estimulante e consequentemente, mais viciante.

Não vou revelar o final do episódio, para não estragar a experiência, entenda isto como um convite. O objetivo é expor o quanto associamos ansiedade com o mundo contemporâneo em que vivemos, devido a constante eminência do perigo tecnológico e Black Mirror faz isto como nenhuma outra proposta de entretenimento.

O fato também inegável é que não há como parar a Revolução Digital. Antes bastava pensar para existir. A exigência agora é que para existir é preciso ser visto, curtido e compartilhado, nem que seja por seguidores comprados.

Talvez seja necessário regularizar, criar jurisprudência, aprender com os erros passados e ter mecanismos de segurança, pelo menos esta é a bandeira do Mark Zuckerberg, dono do Facebook.

“Não é possível que eu não possa fazer nada por você.”

Assim como no seriado, é fácil encontrar aplicativos de Mindfulness em loja de App para celular. Repare que há uma crítica no episódio na forma de utilização, o sequestrador usa Atenção Plena para aparentar calma ao manter-se na execução do seu plano. Este definitivamente não é o “para que” da Atenção Plena. Pesquisas cientificas revelam que mentes que conseguem manter-se no momento presente são mais funcionais e tem uma melhor qualidade de vida.

Recentemente, ouvi numa palestra na Taverna Medieval em São Paulo, na semana do Pint of Science, o Lama Rinchen dizendo que meditação “não é dizer o que uma pessoa deva fazer, mas guiá-la para que ela encontre a si mesmo no processo”.

Conheça a ti mesmo’, frase ainda hoje é atribuída ao filosofo Sócrates, mas tratava-se do lema dos cidadãos de Delfos na Grécia. Alegam que fora no Templo de Apolo que oráculo proclamou Sócrates ‘o homem mais sábio na Grécia’, e ele prontamente teria respondido: “se assim fosse, isso faria com que fosse o único homem que estava ciente da sua própria ignorância”. Na Enciclopédia Grega Suda do século X, há este interessante complemento à esta conhecida frase: “o provérbio é aplicado àqueles que tentam ultrapassar o que são“, ou “ainda um aviso para não prestar atenção à opinião da multidão.”

Psicóloga Masilvia Diniz

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BLACK MIRROR – Smithereens (5S2E). Criação: Charlie Brooker: Netflix, 2019. Streaming (70 minutos).

BAUMAN, ZYGMUNT – Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004b BAUMAN, ZYGMUNT –

CONHECE A TI MESMO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Conhece_a_ti_mesmo&oldid=55470184>. Acesso em: 12 jun. 2019.

LEAHY, Robert L. Livre de ansiedade / tradução: Vinicius Figuiera; revisão técnica: Edwiges Ferreira de Mattos, Rodrigo Fernando Pereira – Porto Alegre: Artmed, 2011. 248p.

KAHNEMAN, DANIEL. Rápido e devagar [recurso eletrônico]: duas formas de pensar / Daniel Kahneman; tradução Cássio de Arantes Leite. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS: DSM V [ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition], Tradução Maria Inês Correa Nascimento. Porto Alegre. Ed.: Artmed, 2014

MALLOY-DINIZ, Leandro F.; CAMARGO, (Org.). Neuropsicologia: aplicações clinicas. Porto Alegre: Artmed, 2016.p. 291.

MLA style: Daniel Kahneman – Biographical. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2019. Thu. 20 Jun 2019. <https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/2002/kahneman/biographical/

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. CID-10 : Classificação Internacional de Doenças. São Paulo : EDUSP, 1994, 1ª ed.

A análise é de graça?

Como funciona a pagamento e porque ele é importante

O tema do pagamento na clínica é algo que é sempre discutido e parece dar medo em muita gente. Algo que não podemos nos furtar na nossa práxis é pensar qual valor damos a ela.

Os tratamentos em regime de gratuidade, ou com valores baixíssimos, praticados em universidades ou outros centros de formação colocam em xeque preceitos enunciados desde Freud.

Tentarei aqui, apresentar alguns dos principais elementos considerados na prática da psicanálise de orientação lacaniana quanto à questão de pagamento e valor das sessões. Naturalmente não trata-se de encerrar o assunto, mas meramente apontar caminhos de pesquisa.

Na Psicanálise

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(Imagem retirada da Internet)

“Nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez” (Freud, 1913/1996, p. 148).

O valor da análise é intrínseco ao próprio andamento do processo. Ele se diferencia de qualquer outro tratamento na medida em que o analista não responde à uma demanda de um comprador (e não responde mesmo).

A Psicanálise (e especial aqui no Brasil) se manteve (e ainda bem) de maneira mais artesanal, isto é, sem ser regrado por uma tabelação de preços (como o CRP propõe, e bem, para a atuação de psicólogos), e sem estar ligada à grandes corporações da área da saúde. Ela foge das chamadas “práticas de mercado” ou “tendências”.

A análise não é algo que se compra em um balcão, um serviço com orçamento, como outro qualquer.

O dinheiro é tratado por Freud como um elemento do circuito anal (para saber mais sobre as fases do desenvolvimento psicossexual clique aqui). Trata-se de dar ou não o que o outro pede, como quando uma criança pequena tem o poder de ir ou não no banheiro quando a mãe pede (dar ou não o que o outro quer).

Há também, claro, o caso do enfezado, aquele que segura tudo, nada escapa.

“De fato, em uma análise, quando o paciente aborda a questão do dinheiro, o analista não deve ouvir isso como se fosse uma relação comercial, e sim entende-la como algo a ser tratado, semelhante a uma formação do inconsciente, como ato falho, esquecimento, sonho e sintoma. A colocação do pagamento já é o inconsciente trabalhando” (Macedo, 2014, p. 91).

Lacan sempre teve uma fama de cobrar caro. Cobrava sim, mas de quem podia, e em caso, o pagamento era intrínseco ao andamento da análise. Em um conjunto de relatos fabulosos, Jean Allouch, conta passagens de intervenções de Lacan com seus pacientes, nas apresentações de doentes e nas supervisões com analistas em formação. Em muitas delas, pode-se notar o caráter fundamental atribuído ao preço das sessões:

“conflito sobre a próxima sessão

– Quando você volta?

– Segunda,… segunda-feira próxima…

– Volte então sexta-feira.

– É que estou cheio de problemas agora: não tenho mais um tostão. Estou sem trabalho. E pedi que X não me mandasse mais nada…

– Bom, volte sexta-feira e se vire para ter com que me pagar. Até a vista.

Saindo, ele se dá conta: pela primeira vez Lacan lhe disse: “até a vista”.”

(Allouch, 1999, p.38)

Essa passagem tomada de maneira isolada pode parecer para os desavisados algo de arrogante por parte de Lacan, todavia, o mestre francês sabia como ninguém implicar alguém em seu próprio processo de análise.

Trata-se exatamente disso, responsabilizar o sujeito em seu próprio processo de “torção discursiva”, como diria o último Lacan. Ou seja, fazer com que o sujeito se reposicione psiquicamente diante da vida e das situações. Uma análise é cara, mas não necessariamente em seu valor financeiro, e sim, no investimento que o sujeito coloca de si no processo.

“Na prática, o valor cobrado considera a possibilidade de cada um e a disponibilidade do analista” (Macedo, 2014, p. 86).  O quanto um sujeito banca sua própria análise é refletido em parte no valor que paga em sua sessão.

Nessa medida, não é viável uma análise “de graça”, pois, o sujeito ficaria eternamente em dívida com o Outro. “… se o analisante não pagar a análise, o analista o está deixando no registro eterno da culpa. É interessante que na língua alemã se usa a mesma palavra, Schuld, para dívida e para culpa” (Macedo, 2014, p. 92).

Em outro momento, Freud (1913/1996) diz:

“O tratamento gratuito aumenta enormemente algumas das resistências do neurótico – em moças, por exemplo, a tentação inerente à sua relação transferencial, e, em moços, sua oposição oriunda de seu complexo paterno e que apresenta um dos mais perturbadores obstáculos à aceitação de auxílio médico.” (p. 147)

Em determinados casos pode-se pensar em um pagamento mensal ou quinzenal, todavia, normalmente, segue-se um pagamento por sessão, o que auxilia a organização e estabelecimento de limite para o paciente. Em minha prática, costumo acertar o valor inicial nas primeiras sessões, deixando claro, naturalmente, que o valor poderá ser revisto com o andar das sessões.

E na análise com as crianças?

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(Imagem retirada da Internet)

Linha bem tênue, na Clínica da Infância, pensando à partir da perspectiva lacaniana, podemos apontar para um conceito criado por Françoise Dolto (1908 – 1988), chamado de “pagamento simbólico”.

Naturalmente, os honorários do analista são pagos em dinheiro pelos pais/responsáveis que trazem a criança, em valor acordado também nas primeiras sessões.

Quanto à criança, Dolto (2013) trabalha com o chamado pagamento simbólico, onde a criança é também responsabilizada por seu tratamento, onde, a mesma fica incumbida de trazer objetos, como desenhos, cartas ou outras produções que sirvam como pagamento e testamento do progresso da análise.

Alcance social

A Psicanálise é para todos? Sim, e não.

Muito se discute sobre o alcance que a Psicanálise tem na sociedade. Se ela é cara, e a percepção de que é coisa de elite. Na realidade não é. Todavia, tem que se pensar que fazer uma análise não é um empreendimento fácil.

Lacan dizia que não basta querer se conhecer, não é o suficiente. Tem que se procurar uma mudança profunda, para que se suporte o andar das sessões.

É importante que sempre se ressalte que a Psicanálise é uma clínica do singular, cada analista maneja os tratamentos de maneira única. Termino, pois, com uma passagem de Freud (1913/1996):

“Todo aquele que espera aprender o nobre jogo de xadrez nos livros, cedo descobrirá que somente as aberturas e os finais dos jogos admitem uma apresentação sistemática exaustiva e que a infinita variedade de jogadas que se desenvolvem após a abertura desafia qualquer descrição desse tipo. Esta lacuna na instrução só pode ser preenchida por um estudo diligente dos jogos travados pelos mestres. As regras estabelecidas para o exercício do tratamento psicanalítico acham-se sujeitas a limitações semelhantes” (p.139).

Até a próxima.

Por Igor Banin

 

Ps: Ficam aqui algumas recomendações de vídeo falando mais sobre esse tema:

 

 

Referências Bibliográficas

Allouch, J. (1999) – Alô, Lacan? – É claro que não. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Dolto, F. (2013). Seminário de Psicanálise de crianças. São Paulo: Editora WWF Martins Fontes.

Macedo, E. (2014) A sessão e seu preço: A análise lacaniana custa sempre caro?. In Psicanálise – A clínica do Real (pp. 85 – 102). Barueri: Manole.

Freud, S. (1913/1996). Sobre o início do tratamento(Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise I). In O caso de Scheber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. (pp. 137-158, Obras completas de Sigmund Freud, v.12). Rio de Janeiro: Imago.