A Psicanálise hoje

A virulência em tempos de truculência

Muitos declaram hoje que a Psicanálise morreu, eu discordo. Outros tantos acreditam que se trata apenas de charlatanismo (não só hoje em dia).

Nesse texto gostaria de falar um pouco sobre a relevância da ciência da fala, ou da cura pela palavra no século XXI.

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(Imagem retirada da Internet)

A Clínica do Real

Lacan, no final de seu ensino, apontou para uma direção que deveria ser seguida por seus alunos. “A Clínica do Real”, como é nomeada pelos teóricos lacanianos, diz respeito ao período entre o seminário 20 (Mais ainda, 1972-73) e o Seminário 26 (La topologie et le temps, 1978-79).

Lacan denotou uma mudança radical em sua forma de pensar o tratamento e a função da análise. A articulação entre os 3 aros do Nó-Borromeano passa à ser de maior importância do que a estrutura clínica clássica (a tríade clássica: neurose, psicose e perversão).

O laço social mudou, isto é, a forma como nos relacionamos mudou. O mestre francês já falava disso nos anos 70. Não nascemos, crescemos, estudamos, namoramos ou morremos como antigamente. Nossos pais habitaram outro mundo, com certeza.

Outras relações pedem outra clínica. Não escutamos (eu espero) nossos pacientes como Freud o fazia. E nem deveríamos. Nossas intervenções hoje buscam muito mais uma responsabilização do sujeito pelo seu Gozo (sua posição hoje, seu círculo e forma de sofrimento), do que uma explicação dos fatos. Freud explica e Lacan implica, dizem.

Remédios: Solução em cápsulas

remédios

(Imagem retirada da Internet)

Uma questão já batida na clínica psicanalítica é o uso de psico-fármacos durante a análise.

Um tema que normalmente coloca em embate Psiquiatras e psicólogos. Cada um parece puxar a razão para o seu lado, querendo a exclusividade sobre o tratamento daquele sujeito.

Minha crítica vai na direção da ilusão de quem acredita que apenas o remédio é a solução. Parece um sintoma atual, de nós, que não temos tempo para nada, resolver um problema tomando um comprimido duas vezes ao dia.

Com isso não quero dizer que sou contra qualquer tipo de medicação. O tratamento farmacológico é sim muito importante em diversos casos. O problema é quando se espera que um milagre venha de dentro de uma embalagem.

Nós temos é que ser responsáveis por nossas faltas, nossos acertos e erros.

A falta que a falta faz

A parte que falta

(A parte que falta, Shel Silverstein)

Esse subtítulo se refere à um vídeo viral feito pela youtuber “Jout Jout”, falando sobre um livro pequenino de Shel Silverstein, intitulado “A parte que falta” (https://www.youtube.com/watch?v=GFuNTV-hi9M). Livro maravilhoso, que recomendo a leitura, bem como de seu sucessor, “A parte que falta encontra o grande O”.

Parece que vivemos em um momento onde não pode haver falta. “Tempo livre? Mais trabalho, ou dedique horas on-line para realizar cursos de auto-conhecimento”. E as crianças? Não pode haver tédio em nosso tempo. Nossos celulares, que à cada geração vêm com promessas de maior duração de bateria, mantém as crianças entretidas sempre.

Sem querer dar spoilers do livro, mas, encontrar aquilo que nos completa totalmente pode ser chato à beça.

Justamente aí a Psicanálise pode atuar. Ao questionar as certezas cegas, ou sensações ilusórias de completude.

Psicologia das Massas

A psicanálise não é apenas uma ciência que nos ajuda a entender o indivíduo que está ali, deitado em nosso divã, mas é uma forma de ler o social, até porque, entendemos o sujeito sempre como um sujeito do social. Nos formamos à partir do outro, no início nossos pais, depois, tomamos como referenciais outros alhures, como professores, figuras conhecidas na mídia, etc.

Passamos um momento político e social que muitos consideram de polarização. Particularmente, a discordância de idéias me é simpática, se todos pensássemos o mesmo eu ficaria preocupado, todavia, parecia, na eleição presidencial haver duas figuras, dois estereótipos. Um traidor, coisa-ruim, tudo que há de mal na terra, e um salvador, um Messias, caso queiram.

Sugiro a leitura de Psicologia das Massas e Análise do Eu, texto de 1921, de Freud, para localizar esses sintomas de grupo. (Falei sobre o texto em outro lugar).

 

Que sejamos mais sujeitos de nossa própria história.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências Bibliográficas

Forbes, J. (2010) Você quer o que deseja? Rio de Janeiro: BestSeller.

Forbes, J. (2014) Psicanálise – A clínica do Real. Barueri: Manole.

Freud, S. (1921/1996). Além do Princípio do Prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos. (Obras completas de Sigmund Freud, v.18). Rio de Janeiro: Imago.

 

Breve comentário sobre o texto Hello, Brasil, de Contardo Calligaris

 

Hello, Brasil hoje

Em uma semana tão aguardada pelos brasileiros, acho válido comentar sobre um texto que analisa o Brasil (ele mesmo, como se fosse um sujeito), e que, principalmente traz a visão de alguém de fora.

Me refiro à um texto de Contardo Calligaris, psicanalista, escritor e dramaturgo italiano radicado aqui no Brasil. Com origem em Milão, Calligaris se formou em Epistemologia e Letras, na Suíça. Depois, em Paris, em meio ao Doutorado em Semiologia, começa à se analisar, o que desperta seu interesse em Psicanálise.

Seu primeiro contato com o Brasil se dá no final dos anos 80, quando começar a proferir uma série de palestras e aceitar alguns pacientes. Desde os meados dos anos 2000, se estabeleceu de maneira definitiva no país.

Atualmente assina uma coluna semanal no jornal A Folha de São Paulo, além de ser roteirista da série televisiva Psi, do canal HBO.

 

Os artigos que compõe o texto foram compilados e publicados originalmente em 1991, e sofreram uma revisão, tendo sido relançado no ano passado.

Colonizador e Colono

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(Nova edição do texto Hello, Brasil)

Tentarei apontar alguns elementos do texto que acho relevante, e algumas noções que talvez nos sejam úteis ao pensar o nosso eterno “país do futuro”. O importante aqui é questionar como se formou (e se forma) o laço social no Brasil, como as relações são estruturadas. Sugiro que se remetam ao texto original para localizarem as observações completas de Contardo.

No início do texto, Calligaris aponta uma frase que lhe chamou atenção imediatamente após chegar ao país: “Esse país não presta”. Isso lhe escandalizou, de tal maneira que, na Europa não há quem fale algo semelhante.

A noção de que alguém “fala” em nós, ou seja, que ruídos do nosso passado e da história de nossos ancestrais ecoam em nós, é muito importante para balizar as relações que estabelecemos.

Duas figuras são centrais na argumentação do psicanalista, são elas o colonizador e o colono. São figuras historicamente entrelaçadas ao nosso psiquismo tupiniquim. Ou seja, em nós, em nosso discurso, o colonizador e o colono falam.

 

“O colonizador é aquele que veio impor a sua língua a uma nova terra, ou seja, ao mesmo tempo demonstrar a potência paterna (a língua do pai saberá fazer gozar um outro corpo que não o corpo materno) e exercê-la longe do pai. Pois talvez o pai interdite só o corpo da mãe pátria, e aqui, longe dele, a sua potência herdada e exportada me abra o acesso a um corpo que ele não proibiu” (Calligaris, 2017, p.38).

A questão do colonizador se dá em gozar, extrair, tudo que há na nova terra, sem limites. Haja visto que o nome do país é o de seu produto mais presente na exploração inicial, completamente esgotado. Que significante, minha gente. Todavia, esta terra não é a mesma coisa que o corpo materno. Voltaremos a esse ponto.

“O colono é quem, vindo para o Brasil, viajou para outra língua, abandonando a sua língua materna… O colono não é um colonizador atrasado que poderia esperar participar da festa do colonizador. A sua esperança é outra: se ele adere à nova língua, não é para ter acesso a um corpo materno finalmente licencioso. O que o diferencia do colonizador parece ser a procura de um nome. Ele não vem fazer gozar a América, mas, na América, fazer um nome para si. Procura aqui, em outra língua, um novo pai que saiba interditar, colocar limites, e que talvez o reconheça como filho e cidadão” (Calligaris, 2017, p.41-42)

A existência desses dois fantasmas na fundação do “ser brasileiro”,  me parece, pois, uma razão pela qual não há exatamente um sentimento de coletivo, ou coletividade entre nós. Somos nós contra eles, sempre.

As elites no Brasil estão sempre se remetendo à Europa como seu lugar de fato, “lá é que é bom, lá é que presta”. Portanto, nunca vieram verdadeiramente para cá, seu lugar ainda é a velha Europa. E isso reflete nas classes mais baixas da população. Vejam que os produtos de fora são os mais cobiçados, e fazer uma viagem para lá é o sonho de muitos, creio eu que, espelhados no desejo de um Outro (elites).

Uma frase que usa-se no cotidiano e é muito significante (literalmente) é: “Para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei”. Dá-se mais valor às relações particulares do que as públicas. A educação que o diga.

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(Imagem retirada da Internet)

Contardo afirma que não conseguiria escrever o mesmo texto hoje em dia, pois já está tomado por demais pelo “ser brasileiro”. Inclusive comenta desse momento de liberdade entre trazer o peso do passado (da cultura passada), e ser esmagado/inserido na cultura para onde você se destina.

Talvez o que eu queira dizer nessas linhas é apenas que o passado tem seu peso, e nos dirige, nos dias de hoje.

Bom domingo à todos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

PS:

Segue o link para a fala do psicanalista no Café Filosófico:

Referências Bibliográficas

Calligaris, C. (2017). Hello Brasil e outros ensaios. São Paulo: Três estrelas.

 

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

Estruturação frente à falta do Outro

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(Imagem retirada da Internet. Na imagem lê-se: Nós temos os líderes que merecemos?)

Algum tempo atrás, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, intensificou a luta com relação à restrição da entrada no país de imigrantes ilegais.

Com a prática chamada de “tolerância zero”, o presidente determinou que ao serem flagradas ingressando em solo americano ilegalmente, as famílias fossem apartadas, com as crianças sendo direcionadas a abrigos. Antes, sempre que possível, as famílias eram mantidas unidas em prisões.

É importante apontar que parte das crianças que se encontram em abrigos, atravessou a fronteira sozinha, fugindo da violência de seus países de origem.

Muitas das crianças foram separadas dos pais antes dos 04 anos de idade. Isso impacta diretamente na estruturação da criança enquanto sujeito.

As fases do desenvolvimento sexual foram magistralmente descritas pelo meu colega Caio César. Sugiro que se remetam à esse texto para maior enfoque no tema.

Nasce um sujeito

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(Imagem retirada da Internet)

Quando uma criança vem ao mundo, ela “chega ao mundo, portanto, engendrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo” (Flesler, 2012, p.17). Isto é, ela vem carregada já de significação, ela já é falada no discurso dos pais.

A sua entrada na sociedade se dará por meio de uma balização imaginária, de forma especular. Explico. O eu, a noção própria de quem somos, que é diferente dos outros, só é obtida à partir do tu, à partir, justamente do outro, que é encarnado, normalmente, pela mãe, pai, e/ou cuidadores iniciais da criança.

Pouco à pouco começa à emergir na criança o símbolo (Lacan, 1953-1954/1996). A criança começa à entrar no jogo simbólico, começa a estar submetida à regras, na escola e em casa. Aí, efetivamente começa a humanização, o processo de entrada na cultura.

Dois conceitos concebidos por Freud merecem nossa atenção nesse momento, pois interpelam diretamente a estruturação da criança enquanto sujeito.

O primeiro é a noção de Eu Ideal, uma instância primariamente imaginária, ligada ao desejo materno, ao olhar do Outro sobre o bebê. Quando uma criança nasce, há um investimento libidinal muito forte por parte dos pais (ou cuidadores). Eles depositam na criança uma série de afetos muito intensos.

Após o Complexo de Édipo, entra em cena o Ideal de Eu, referência externa à família, que baliza as relações da criança com o grupo social em que está inserida. Ou seja, a criança passa à ter como referência algo externo, um ideal, uma causa que não esteja em seu círculo familiar.

O olhar desejante da mãe para o bebê configura o primeiro objeto da criança, a primeira forma de relação do sujeito. Esse é o Eu Ideal.

Psicoses e outras saídas desfavoráveis

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(Imagem retirada da Internet)

O rompimento abruto do contato da criança com os genitores pode ocasionar uma série de complicações. Buscarei me apoiar também em trabalhos de F. Dolto e D. Winnicott.

A presença de um genitor nessa fase que é crucial para a constituição do sujeito. O atendimento psicanalítico à essas crianças vai na direção de uma aposta em um possível, de uma estruturação possível.

Um exemplo de um caso em que o analista aposta no sujeito, é o Caso Dominque, contado por Françoise Dolto no livro de mesmo nome. É um texto que me parece importante citar, dado que a “criança”, já com 14 anos, apresentava uma  série de comportamentos psicóticos, totalmente desconexos com a realidade.

Naturalmente, a separação vivida por Dominique é bem diferente daquela enfrentada pelos filhos e filhas de imigrantes ilegais, atualmente nos EUA. Todavia, os efeitos psicotizantes da falta de uma figura paterna (ou que faça a função paterna) são notáveis.

Como diz Dolto (2010): “O amor que o ser humano, em sua pessoa em via de estruturação, tem pela mãe e pelas pessoas à sua volta é um amor cuja resultante efetiva é uma mímica de identificação, seguida do processo de introjeção”. Vemos aqui, o reconhecimento em forma de espelho que lhes dizia, uma identificação com os pais ou cuidadores que se rompida abruptamente, resulta em um sujeito preso em tempo passado, não conseguindo elaborar sua perda.

Winnicott, em seu trabalho Privação e Delinquência, fala justamente dos efeitos em crianças que não tiveram o acolhimento necessário, ou que o perderam, em momentos muito precoces da vida. A Criatividade Primária da criança é prejudicada, e surge, o que o autor chama de Tendência Anti-Social. Falando de Criatividade Primária, sugiro a leitura do texto do meu colega Caio Ferreira.

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(Sociedade dos Psicólogos, 2017)

Olhemos pelos pequenos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Referências Bibliográficas

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1953-1954/1996) Os escritos técnicos de Freud – Os Seminários, Livro I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Winnicott, D. (1987). Privação e Delinquência. São Paulo: Martins Fontes.

Contra o relógio

Da miragem da vida perfeita aos 30 anos

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(Imagem retirada da Internet)

Um dia desses presenciei uma cena muito comum no metrô de São Paulo, mas que me fez refletir. Um desses músicos andarilhos tocava canções populares em seu violino. Tocava de forma excepcional, pelo menos aos ouvidos de um estranho à técnica musical como eu.

Tocou algumas músicas, foi aplaudido por uns, agraciado com dinheiro por outros e ignorado pela maioria. Sentada ao meu lado estava uma garota. Percebi no final da apresentação, que ela filmava-o com seu smartphone. Instantes depois o vídeo já estava sendo publicado no Instagram. Vi a “globalização” na minha frente.

Pensei então nesse momento que estamos vivendo, no que diz respeito à velocidade das coisas.

Mensagens instantâneas

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(Imagem retirada da Internet)

Uma das coisas que mais me fascina nesse mundo moderno, é a velocidade com que as informações chegam à nós. Parece haver um achatamento do tempo entre elaborar as coisas e agir em função delas. Explico.

Somos bombardeados com data (como dizem os americanos) todo o tempo, sempre checando o celular, estamos sempre “ligados”. O que é justamente incentivado por algumas companhias. Há quem considere justa a proposta de pagar horas extras quando o funcionário envia mensagens acerca do trabalho, fora do expediente.

Não há tempo para elaborar a resposta quando alguém nos envia um Whatsapp. A resposta deve ser instantânea, como em um contrato assinado, com a obrigatoriedade de responder instantaneamente.

A propagação de notícias em redes sociais sem nenhuma base ou confirmação para tal acontece a todo o momento, e as disputas pela razão em mídias sociais emerge. “A fúria costuma ser inversamente proporcional à informação”, como diz Reinaldo Azevedo.

Carreiras Perfeitas

O mundo corporativo é um ambiente hostil, ou pelo menos é assim falado. Metas e a responsabilização do funcionário são aspectos modernos.

Compramos a ideia de carreira muito rápida. Fascinam-me alguns escritos online que definem marcos à serem atingidos na carreira. “Tantos mil na conta bancária até os 30 anos” e outras bestialidades circulam na rede.

A gestão do trabalho através da noção de projetos coloca o funcionário em uma posição de responsabilidade absoluta pela entrega do resultado final, algo do tipo: “Não deu certo? Por que não fez mais horas extras?”. Estar online a todo tempo é comum. Atender ao outro a todo pedido. O sujeito sente não ter gerência sobre sua própria vida.

Um dos marcos da pós-modernidade é a Síndrome de Burnout, transtorno do momento entre os executivos (vide https://www.theguardian.com/society/2018/feb/21/how-burnout-became-a-sinister-and-insidious-epidemic). Junto com a depressão, o Burnout parece se proliferar à velocidade assustadora na população.

O mercado de trabalho é a personificação do grande Outro. A ele tudo é permitido e legisla sobre a capacidade de cada um com base nos demais. Como se ouve muitas pessoas falarem: “Cuidado para não ficar muito velho, assim o mercado de trabalho não vai te querer”.

E chegamos, então, ao título do texto.

Correndo contra o relógio. Metáfora que é comumente usada pela gente dita “ocupada”. Sempre correndo, como se diz em Recife, “de um canto pra outro”.

Sempre um contrato antes da meta, uma venda que falta para atingir algo que irá dobrar tão logo ficar atingível.

A medicalização parece estar alinhada à noção de resposta rápida. É uma busca incessante por um diagnóstico e um remédio. Fato frequentemente por quem se destina à prática clínica, é o paciente questionar: O que tenho? …ou, O que devo tomar?

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(Imagem retirada da Internet)

Lacan formulou uma noção que chamou de semblante, algo como uma máscara que adotamos em diversas relações. O analista, no início de um tratamento encarna o ideal de alguém que tem a resposta para os problemas e dúvidas daquele que o procura. Em termos técnicos dizemos que o analista carrega o objeto a no bolso (tirada de psicanalista).

Quando um psicanalista acredita de verdade que tem as respostas para tudo que lhe é demandado ocorre a saída do lugar vazio, à qual o analista, por excelência, se destina em uma análise.

O perigo está em não se descolar das mentiras contadas à nós.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências Bibliográficas

Forbes, J. (2010) Você quer o que deseja? Rio de Janeiro: BestSeller.

 

Outros links recomendados:

https://www.corriere.it/salute/neuroscienze/18_marzo_16/trentenni-salute-stress-ansia-depressione-6a3ad27c-2921-11e8-b8d8-0332a0f60590.shtml

http://www.stile.it/2017/02/11/linsonnia-danneggia-la-carriera-lo-studio-id-139704/

Criminalidade, Desigualdade Social e o Mal-Estar na Civilização

É famosa a frase que diz: o crime não compensa. Mas será que a vida em Civilização o faz? Em um de seus últimos trabalhos, Freud (1856-1939) tenta, com o conhecimento que acumulou durante toda a sua vida de neurologista e psicanalista, entender como ocorreu a formação da cultura. E mais: como esta se assemelha e se difere da formação psíquica dos indivíduos que a formam. Entretanto, no atual conjunto de culturas do mundo globalizado, o Brasil é conhecido por traços que cruzam corrupção, futebol, nudez, praias e festas e, mais recentemente, pela alarmante desigualdade de renda e o alto índice de crimes contra o patrimônio. Poderíamos entender estes fenômenos como parte de uma cultura madura ou como sintomas de uma cultura? Mais ainda: quais seriam os sintomas que esta cultura causaria em nossos indivíduos? É o que o artigo a seguir tentará expor em conjunto com uma leve revisada na obra de Sigmund Freud publicada em 1930. Afinal: furtar tornou-se frutífero? No Brasil o Crime compensa o Castigo?

Um estudo conduzido em 2011 por João Paulo de Resende, mestre em economia pela UFMG e por Mônica Viegas Andrade, doutora em economia pela FGV, teve como alvo os crimes cometidos em municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes. Sua conclusão final, baseada exclusivamente em dados empíricos, foi que: os níveis de desigualdade de renda (poucas pessoas ricas, muitas pessoas pobres) nestes municípios estavam frequentemente relacionados aos níveis de ocorrência de crimes contra o patrimônio (furtos, roubos, latrocínios) e pouco aos crimes passionais, onde o indivíduo, quando exposto a alguma situação que o leva a intenso estresse emocional, apresenta um lapso na inibição de seus impulsos e comete um crime – geralmente contra quem o propicia tal estresse.

Esta conclusão empírica nos faz crer, a princípio, que quanto maior o patrimônio de poucos, mais indivíduos (geralmente os de pouco patrimônio), cometerão crimes que têm o patrimônio em si como alvo. Como se nesta relação empírica houvesse uma reivindicação inconsciente da maior recompensa que a civilização capitalista moderna oferece ao indivíduo: a satisfação através dos materiais de consumo. É importante, é claro, ressaltar que quando esta satisfação é buscada através do crime, ela dispensa uma das grandes engrenagens de uma sociedade: o trabalho – e, principalmente, as renúncias de prazer que este envolve. Será que quando falamos dos crimes relacionados ao patrimônio, poderíamos também dizer que, no caso do furto, também o indivíduo furta-se dos sacrifícios às satisfações? Sacrifícios estes que são tão exigidos pelo trabalho. E no roubo, também não rouba-se o prazer, a satisfação que ostenta o Outro, de maneira considerada injusta por um que não a alcança, por mais prometida que esta lhe seja, perante suas renúncias?

 

Desigualdade de Renda no Brasil

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Uma pesquisa recente, realizada pelo economista Thomas Piketty e um conceituadíssimo grupo de pesquisadores em seu apoio, aponta que, no Brasil, quase 30% da renda do país se encontra com apenas 1% da população. E, para complementar, 10% da população mais rica do país também carrega 55% de toda a renda local. A óbvia lógica disso tudo? Mais pessoas dividem menos dinheiro enquanto menos pessoas dividem mais dinheiro.

Isso até poderia ser menos incômodo se, proporcionalmente, todos pagassem taxas de impostos equivalentes ao que ganham. Entretanto, além da progressiva taxa dos impostos de renda, o Brasil traz uma tributação nos bens de consumo – a principal fonte de satisfação insinuada pela nossa atual sociedade – de cerca de 40% do valor. Ou seja, um produto de 100 reais, custa cerca de 40 reais em impostos. Acontece que, quando o salário mínimo do país é um pouco menos de 1000 reais, estes 40 reais se tornam um pouco mais de 4% de todos os ganhos de uma pessoa que recebe um salário mínimo, atualmente considerada como pobre (sem contar o valor que esta pessoa já paga de imposto de renda, cerca de 8%). Mas, ao mesmo tempo, se uma pessoa que recebe um salário que gira em torno de 100.000 reais compra o mesmo produto de 100 reais, se aqui não falhar a matemática de alguém das ciências humanas, esta pessoa gastará apenas 0,1% de seu salário. Ou seja, em termos de proporção do patrimônio, os mais pobres acabam cedendo mais de seu patrimônio em impostos do que os mais ricos. E isso se amplifica mais ainda se falarmos sobre Lucros e Dividendos de empresas (que em alguns casos excede a casa dos milhões), onde praticamente não há imposto cobrado.

Ou seja, mesmo que as pessoas mais pobres sacrifiquem seus impulsos pelo sono, pela farra, pelo sexo e pela agressividade pelo bem da sociedade, estas não serão tão bem recompensadas pelos sacrifícios quanto as pessoas mais ricas. É como teria dito o filósofo Zizek: “há alguém furtando o nosso gozo”. Será que, na suspeita do furto de um gozo, furta-se a metáfora para o retorno literal da palavra? Ou seja: a suspeita do furto (metafórico) do gozo ocasionaria o gozo do furto (literal)?

O Mal-Estar na Civilização

Já no ano de 1930, Sigmund Freud (1856-1939) publica uma de suas obras mais importantes, denominada “O Mal-Estar na Civilização” (“O Mal-Estar na Cultura” em algumas traduções). Arriscando o perigo de sintetizar demais, poderia-se dizer que ali Freud (2011) tentava explicar – através da relação de muitas de suas obras anteriormente produzidas, de poemas e romances de Schiller e Goethe, de apontamentos realizados por Rousseau e outros filósofos ou até criticando a tese do comunismo trazida por Karl Marx  – sua tese de que as exigências de uma cultura (ou de uma civilização), estariam – sem exceção – em desacordo com os impulsos agressivos e/ou destrutivos e sexuais dos indivíduos que a ela pertencem. E, a partir daí, os indivíduos deveriam procurar outras formas de felicidade, seja para o encontro ou prazer ou para o evitar do desprazer. Alguns se isolam, alguns usam drogas lícitas ou ilícitas, alguns amam; alguns trabalham, alguns fazem amigos, alguns adoecem e/ou ficam loucos; alguns fazem bem ao próximo, outros simplesmente infringem as regras e aceitam as punições (ou fogem delas enquanto é possível). Há ainda os que fazem isso tudo ao mesmo tempo enquanto acreditam fazer parte de uma casta, considerada por eles mesmos como boa da sociedade – aqui falamos dos cristãos, mas, sejamos justos: nem todos e nem só estes.

E Freud (2011) continua, dizendo que pode-se até encontrar relação àquilo que frequentemente está inconsciente na neurose mas explícito nos preceitos estabelecidos em uma civilização através de suas Leis e regras – a necessidade de inibição de impulsos agressivos e sexuais que, apesar de causarem satisfação imediata nos indivíduos, estão em desacordo com o considerado necessário para o bom convívio em sociedade. O resultado esperado, segundo o psicanalista (2011), era que a cultura ou civilização, juntamente com o indivíduo, deveriam criar, através da evolução de um sentimento de culpa, uma eficiente instância de censura a estes impulsos – um Supereu. Ou seja, a cultura oferece repressão, através da retirada do Direito à Liberdade (prisão), caso o indivíduo exponha seus impulsos agressivos através de um crime e transgrida as Leis, da mesma forma que a criança perderia o amor dos pais se fizesse o mesmo, ou pior, expusesse sua sexualidade e agressividade inata, fora do que é aceito aos pais daquela época, através da Castração, no Complexo de Édipo.

Mas conforme Freud (2011) explica, o papel do Supereu excederia o medo à repressão através da perda da liberdade ou do amor dos pais, o Supereu teria um papel Superior de censura. Do tipo que forçaria os indivíduos a algo além de renunciar às satisfações que mais acreditam que lhes daria prazer por medo das represálias: o próprio desejo de realizar tais satisfações já causaria culpa e às vezes até autoagressão, não sendo o ato necessário. Como se o processo fosse automático, introjetado e mantido pelos indivíduos. Entretanto, é ressaltado pelo Pai da Psicanálise (2011) que, mesmo que nem tudo seja satisfeito, para que haja algum tipo de organização psíquica no indivíduo saudável, ele precisará direcionar estes impulsos proibidos às formas de expressão aceitas pela sociedade, em sua busca pela sua satisfação. Ou seja, uma criança muito agressiva, por não poder manter este comportamento na vida adulta, em função das Leis da Sociedade, poderá se tornar um adulto lutador de artes marciais – e há de se observar que, paradoxalmente, estes indivíduos costumam ser pessoas calmas e pacíficas, uma vez que conseguem expor seus impulsos agressivos através de suas atividades. Da mesma forma, supõe-se na sociedade que aquele que abdicar do prazer imediato e se dedicar ao trabalho e não cometer crimes, poderá ter dinheiro para consumir os produtos que lhe trarão satisfação – carros, motos, celulares, aparelhos eletrônicos e roupas em geral. Mas o que acontece quando esta abdicação não é recompensada e, ainda por cima, é exibida em Outros que parecem realizá-la em menor ou nula medida?

Se arriscarmos um palpite no que foi dito por Freud (2011), poderíamos dizer que enquanto um sintoma do indivíduo por renunciar os desejos que vê causar prazer no Outro é a neurose, um sintoma da cultura que faz indivíduos renunciarem seus desejos e não lhes dá a satisfação (no caso da cultura capitalista, o consumo) é a criminalidade. E podemos ir adiante dizendo que, assim como o sintoma é a maneira negativa da realização do desejos em paralelo à sublimação como maneira positiva; a criminalidade apareceu como uma maneira negativa desta realização e, além do trabalho, que nem sempre ou quase nunca a cumpre, um novo fenômeno parece encurtar este caminho.

E a tese inicial do neurologista, aquela em que ele diz que haverá sempre uma divergência entre o exigido pela cultura e o que é desejado pelo indivíduo (2011), parece fazer muito mais sentido quando falamos sobre o sentimento de injustiça, sentido através da desigualdade de renda, e o que os Estudos Econômicos de Resende e Andrade (2011) publicaram sobre a relação desta desigualdade com o aumento dos crimes contra o patrimônio. Como se a desigualdade de renda corroborasse uma prévia recusa, através da criminalidade, à renúncia dos indivíduos aos impulsos, mas não ao gozo que é atribuído ao suposto prêmio por tal renúncia.

Conclusão

Poderíamos então dizer que a formação de uma civilização terá como base um mecanismo semelhante à formação psíquica de um indivíduo: para que tudo dê certo, renúncias serão necessárias. Mas supõe-se, erroneamente, que todos os indivíduos partem de uma mesma constituição psíquica na hora de criar-se uma Constituição Federal. Ou seja, esqueceram que haverá um conjunto de indivíduos que não estão dispostos a abrir mão de suas satisfações pelo bem-estar de sua cultura – a partir daí, viu-se necessário a criação de um sistema prisional. Mas, entrelinhas, parece haver a insinuação, por parte da sociedade, que está garantido a quem cumprir com suas renúncias e horas de trabalho, o gozo através do consumo. Contudo, a desigualdade de renda de um país parece acabar desmentindo esta suposição.

Quando o Brasil é tomado como exemplo, vê-se que uma pequena parte da população detém uma enorme parte das riquezas, ou seja, do gozo através do consumo. Em outras palavras, pesquisas recentes sobre a desigualdade de renda apontam, de cara, que alguém irá obter mais satisfação; poucos gozarão mais do que muitos. Isso quer dizer que já está pressuposto a muitos que optarem pelo sacrifício de seus prazeres imediatos a ausência daquela prometida satisfação. Eis a dúvida de quem é pobre por aqui: “a renúncia de minha satisfação, sob o único risco de sofrer a privação da liberdade por algum tempo, vale mais a pena? Por quanto tempo conseguirei assistir ao gozo do Outro com menos sacrifícios do que eu?”.

A pesquisa evidenciada no começo do artigo parece, de alguma forma, apontar que há na Sociedade Brasileira, ao menos nas cidades com mais de 100 mil habitantes, uma constante reivindicação pelo gozo através do patrimônio. Através de uma vasta pequisa de dados empíricos, viu-se que quanto mais patrimônio é reservado à pequenas parcelas da população, mais crimes contra o patrimônio são registrados em uma sociedade. É como se as Massas informassem, de forma violenta e irracional, que recusam o sacrifício desproporcional ao gozo do Outro. Como se a criminalidade fosse o ato de ignorar a placa que diz “não pise na grama”, enquanto o gozo através do patrimônio fosse o ato de chegar ao lado oposto; mas parece que lá já se encontra alguém, separado pela mesma grama, que não precisou dar a cansativa volta que indica aquele caminho preestabelecido. Portanto, parece que, quando se deparam com este outro alguém em pleno gozo com menor sacrifício, mais pessoas optam por pisar na grama e, não obstante, tentam expulsar o Outro do lugar que agora acreditam terem chegado.

Se há mais dinheiro para se dividir com menos gente e, consequentemente, menos sacrifícios para esta pequena parcela, a outra parcela, aquela que dividirá menos dinheiro com mais pessoas, terá mais sacrifícios a fazer. Mas a pesquisa de Resende e Andrade (2011) indica que, nestas situações, parece haver uma recusa às Leis na mesma medida. Uma recusa aos sacrifícios e uma tomada violenta e simbólica do prazer que enxergou o Outro satisfazendo: nega-se o esforço do trabalho exaustivo por pouco dinheiro e acata-se a tomada do patrimônio através do crime. Apesar desta ser uma informação de teor óbvio, é importante ressaltar que este artigo não está legitimando crime algum, muito pelo contrário, as relações entre os meios empregados pelos neuróticos para fugir das restrições da cultura (álcool, amor, isolamento, construções, consumo e trabalho), podem encontrar também, para uma parcela da população, refúgio no crime, quando ele passa a acontecer em proporções tão frequentes que chega a compensar.

O sujeito tem sua constituição psíquica formada da mesma forma que a cultura tem sua Constituição Federal. E assim como o neurótico, que quando finalmente aceita a abdicação da satisfação de seus impulsos agressivos e/ou sexuais em nome das exigências da cultura, sofre com o sintoma da neurose como forma de punição e realização à renúncia destes desejos inconscientes que não foram compensados através da sublimação; a Cultura também poderá sofrer a punição da elevação da criminalidade, crescente à medida em que as pequenas gratificações (o consumo, o gozo de bens materiais) não vêm de encontro, de maneira igualitária, aos sacrifício dos neuróticos que nela vivem mas continuam sendo seu objeto de desejo pregado como ideal dela mesma.

Isso não quer dizer que a ideia comunista seja a solução. O próprio Freud, neste mesmo texto (2011), já refuta esta ideia, dizendo que há no ser humano o impulso à agressividade para com o Outro que excederá sua realização apenas através da propriedade privada; portanto, não será o fim desta o sinônimo do fim da violência. Também sabemos que anos mais tarde, através dos resultados da implantação do sistema econômico transicional do socialismo em vários países do mundo, com o comunismo como finitude, pudemos observar que a suposição de que todos os indivíduos poderiam partilhar de uma renda comum, de um estilo de vida igualitário, acabaria no campo utópico. Confirmando as previsões de Freud, o socialismo acabou mais sendo utilizado como transição a algum Outro tipo de ditadura do que ao comunismo em si.

Mas, para finalizar, algo há de ser dito: seja no capitalismo, socialismo ou comunismo, o ser humano parece não ficar livre de seus impulsos mais primitivos de agressividade e sexualidade, principalmente quando estes se mostram de maneira incessante, como é o caso das Pulsões. E por mais que a cultura exista exclusivamente para conter estes impulsos e permitir uma vida pacífica entre os indivíduos inibidos entre si, ela precisará, de alguma forma, compensar a renúncia de todos estes de maneira satisfatória através de suas possibilidades de sublimação oferecidas. De outro modo, haverá aquilo que a história e agora as estatísticas nos apontam: violência. Roubo (como é o caso explicitado aqui no artigo), homicídio ou suicídio; tomada do Poder, aniquilação do Outro ou aniquilação de si. Para a cultura não importa, o que prejudica um ou outro indivíduo, a prejudica, de um modo ou de Outro, como um todo. Porque se a neurose é um sintoma do indivíduo, a criminalidade é um sintoma da cultura.

Referências

Crime social, castigo social: desigualdade de renda e taxas de criminalidade nos grandes municípios brasileiros – João Paulo de Resende; Mônica Viegas Andrade. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-41612011000100007

Brazil – WID – World Inequality Database (Top 1% fiscal income share, Brazil, 2001-2015 and Top 10% fiscal income share, Brazil, 2001-2015) – Thomas Piketty and group. http://wid.world/country/brazil/

Freud, Sigmund, 1856-1939. O mal-estar na civilização/ Sigmund Freud ; tradução Paulo César de Souza. – 1ª ed. – Sâo Paulo : Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

(Todas as imagens contidas neste artigo foram retiradas da internet. Caso os direitos sobre alguma destas imagens lhe pertença e você deseja a remoção desta, entre imediatamente em contato com a Sociedade dos Psicólogos)

Psicologia das Massas e Clube da Luta

Tyler Durden como metáfora do analista

“Ser despedido é a melhor coisa que nos pode acontecer – diz Tyler. – Assim a gente consegue sair do lugar e fazer alguma coisa na vida”.

Palavras fortes, ditas por Tyler Durden, protagonista da estória chamada de Clube da Luta. Em 1996, Chuck Palahniuk publica o livro, que é permeado por uma crítica social ácida. Em 1999 foi adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher.

O texto “Psicologia de Grupos e Análise do Eu” (ou “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, na nova tradução de Paulo César de Souza), publicado em 1921, aborda um tema pouco discutido por Freud até então. Como um grupo se forma, quais as relações estabelecidas entre seus membros e o que os mantêm unidos.

Buscarei orbitar entre as idéias freudianas e o material apresentado na obra de Palahniuk, para pensar as relações de trabalho e consumo hoje. Pensar o mundo corporativo e o sofrimento dos que ali estão.

As idéias de Palahniuk fazem eco no mercado de trabalho de trabalho hoje e merecem ser lembradas.

Clube da Luta, a obra

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(Imagem retirada da Internet)

Clube da Luta é um livro, escrito por Chuck Palahniuk em 1996, e interpretado nas telonas em 1999. Contando com astros como Brad Pitt e Edward Norton, o filme se tornou um clássico cult da virada do milênio.

Na estória, Jack, nosso personagem principal, é um funcionário de uma empresa de seguros, realizando avaliações de acidentes.

Cidadão dos aeroportos, viajando de um lado para outro, preso à uma vida sem sentido. É assim que o personagem se auto-descreve. Compulsivamente compra sempre móveis que estampam as revistas, buscando ter o apartamento-modelo.

Sofrendo de insônia, Jack decide procurar um médico. “Quando se tem insônia, nunca se está realmente acordado ou realmente dormindo”.

Em um determinado ponto do filme, Jack conhece Tyler Durden. À partir desse ponto tudo muda.

O amor pelo líder, uma dascaracterísticas dos grupos é vista na obra, onde os integrantes do “Clube da Luta” amam e seguem inverteradamenteDurden.

A obra de Palahniuk de fato se mostra radical. Especialmente na abordagem dos personagens quanto à critica ao consumismo desenfreado. Fenômeno este que teve seu início já na Revolução Industrial. “As coisas que você tem acabam possuindo você”, diz Tyler em uma passagem do livro.

O “plano final” da trupe de Durden era explodir os prédios que sediam as operadoras de cartão de crédito, acabando assim com a dívida de todos os consumidores. “Zerando” o sistema.

Pensando na gramática lacaniana do nó-borromeano, “explodir” os prédios é algo tanto do registro do Simbólico, quanto do Real. Essa libertação é simbólica, fala ao leitor, diz de libertar-se da lógica de consumo, mas é também da ordem do Real, ao passo que, na história, os personagens o fazem literalmente, colocando dinamite, no concreto.

A Formação de grupos

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(Imagem retirada da Internet)

Freud (1921/1996)ao discutir a obra de Le Bon*, fala de três características que indivíduos apresentam quando em grupo.

A primeira delas é um “sentimento de poder invencível que lhe permite render-se a instintos que, estivesse ele sozinho, teria compulsoriamente mantido sob coerção.” (Freud, 1921/1996, p. 85). Ou seja, em grupo fazemos aquilo que não temos coragem sozinhos.

A segunda característica é o contágio, que se dá quando indivíduos realizam atos por imitação, ou semelhança em relação à seus irmãos de grupo (Freud, 1921/1996).

A terceira é a sugestionabilidade, que diz dos atos que são totalmente estranhos à determinado indivíduo quando  sozinho, mas identificados no mesmo quando está entre os pares do grupo (Freud, 1921/1996).

“Um grupo é impulsivo, mutável e irritável… Não pode tolerar qualquer demora entre seu desejo e a realização do que deseja. Tem um sentimento de onipotência: para o indivíduo num grupo a noção de impossibilidade desaparece” (Freud, 1921/1996, p. 88). Vejamos aí as torcidas de futebol, por exemplo.

Comprar para viver, ou viver para comprar

Temos um amor pelo dinheiro. Só por ter? Somos escravos daquilo que não abrimos mão.

Compramos as coisas muitas vezes por comprar, não é mesmo? Estamos em épocas festivas do ano. Nossos saldos no banco ficam negativos, mas sem problema, estamos comprando nossa felicidade. Compramos porque os outros compram, o grupo é sugestivo.

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(Imagem retirada da Internet)

Lacan (1969-70/1992), no seminário 17, O avesso da Psicanálise, constrói a noção de discurso, para indicar as modulações de laços sociais em diferentes grupos. O discurso se define como “  Essa representação conjuga portanto umaestrutura permanente e elementos cuja situação varia no interior dessa estrutura” (Kauffman , 1998, p.129-130). Ele formula quatro modalidades discursivas, O discurso do Mestre, O discurso da Universidade, O discurso da Histérica, e o discurso do Psicanalista. Após isso, ele indica um quinto discurso, o do capitalista. Que orientaria, segundo ele, nossas relações atualmente.

O discurso do capitalista nos leva à universalização, sempre tirando a originalidade da experiência (Barillot, 2016).

A tarefa da psicanálise é recolocar a castração em seu lugar. A busca incessante por objetos, por likes nas redes sociais, “matchs” nos aplicativos de relacionamento será sem faltante, incompleta.

O discurso da Psicanálise, em sua essência, transmite a falta, ao que Tyler diz: “Sou um estúpido, só o que faço é querer as coisas e precisar delas. Minha vidinha. Meu trabalhinho de merda. Minha mobília sueca”.

Tal qual o analista que aponta para a “falta-a-ser” (Quinet, 2015), Durden, por sua postura, justamente aponta para a falta de Jack. Sua tentativa frustrada de ter o apartamento do momento, tentando tamponar a angústia de viver uma vida sem sentido.

Hoje o Supereu não mais diz: pare, chega, basta, este é o limite. Hoje ele diz: goze, à todo momento. “Assista suas séries favoritas onde e quando quiser”. “Acesse seu e-mail em vários dispositivos”. “Não deu tempo de responder o aquele e-mail do cliente, sem erro, faça isso no caminho de casa, afinal, lhe demos um celular”. Não temos mais limites ou horários. Fica cada vez mais difícil conseguir um horário para ir à análise.

Compramos por que os outros compram. Já dizia Lacan: O desejo é sempre o desejo do Outro (Lacan, 1962-63/2005).

Que a “sexta-feira negra” tenha sido boa para vocês.

Boas festas.

Até ano que vem.

Por Igor Banin

* Gustave Le Bon (1841-1931), psicólogo social, sociólogo e físico amador francês.

Referências Bibliográficas

Barillot, P. (2016). Sair do discurso capitalista?. In Stylus Revista de Psicanálise (pp. 153 – 161, no 33). Rio de Janeiro.

Freud, S. (1921/1996). Psicologia de Grupo e Análise do Ego. In Além do Princípio do Prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos. (pp. 79-156 Obras completas de Sigmund Freud, v.18). Rio de Janeiro: Imago.

Kauffman, P. (1998) Discurso. In Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. O legado de Freud e Lacan. (pp.129-132) Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1962-63/2005) Angústia, signo do desejo. InA angústia. (pp. 25-37, Os Seminários, Livro X). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1969-70/1992) O mestre e a histérica. InO avesso da Psicanálise. (pp. 27-36, Os Seminários, Livro XVII). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Palahniuk, C. (1996/2012). Clube da Luta.Rio de Janeiro: Leya.

Quinet, A. (2015) O Grafo do Desejo. Aula realizada no dia 12/08/2015 no FCCL-Rio. Recuperado em 25 de Outubro de 2016, dehttps://www.youtube.com/watch?v=LFrD1HtPeWE

Como Vencer o Vício em Drogas? Dependência Química: Internação Resolve?

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Afina, o que é dependência química?  É caso de polícia ou de Saúde Pública? O que fazer?

Ainda se alguém não conheceu um dependente químico, com certeza já ouviu falar sobre o assunto nos noticiários. Seja sobre a famosa "cracolândia", seja sobre as ações politico-policiais que a envolvem. Mas o que caracteriza a dependência química? Qual a diferença entre um usuário eventual e um dependente? A melhor solução seria cadeia, internação ou nenhum dos dois? 
A Sociedade dos Psicólogos preparou um texto exclusivo sobre o assunto.

O que é Dependência? Quem pode ser considerado um dependente químico?

Como podemos diferenciar um usuário de um dependente? É muito comum observarmos na grande mídia a utilização de termos como “usuários” e “dependentes”. Mas o que significa cada um destes termos?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) a dependência química é uma doença crônica, progressiva (piora com o passar do tempo) e primária — pois outras doenças aparecem em sua decorrência. A dependência química é um transtorno mental caracterizado por um grupo de sinais e sintomas decorrentes do uso de drogas.
De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em junho de 2017, 5% da população mundial consumiu algum tipo de droga em 2015 (aproximadamente 250 milhões de pessoas) e pelo menos 190 mil morreram neste mesmo ano por causas diretas relacionadas com entorpecentes.
O Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, mostra especial preocupação pois há cerca de 29,5 milhões de pessoas que sofrem com transtornos graves pelo consumo de drogas.

Uso, Uso nocivo e Dependência:

Pode-se entender que o Uso é caracterizado como a administração de qualquer quantidade de substância psicoativa no organismo.
Na definição dada pela OMS, através da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), o chamado "abuso", é chamado de Uso Nocivo, caracterizado por:

• Evidência de correlação entre o uso da substância e danos físicos, psicológicos e/ou comprometimento das capacidades de julgamento ou disfunções comportamentais; 
• Dano claramente identificável à vida do usuário;
• Uso contínuo durante um mês ou repetido ao longo de 12 meses;
• Com exceção da intoxicação aguda, não há critérios que identifiquem outro transtorno relacionado à substância em questão.

Ainda seguindo os padrões do CID-10, a Dependência é caracterizada por:

• Forte desejo ou compulsão pelo uso da droga;
• Incapacidade de controlar os níveis de consumo;
• Presença da Síndrome de Abstinência (conjunto de Sinais e Sintomas físicos e/ou psicológicos após interrupção do uso de substâncias);
• Tolerância à substância;
• Abandono de atividades prazerosas ou de grande interesse para o consumo de drogas;
• Uso contínuo apesar das consequências.

O Uso de Drogas no Brasil

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Uma vez que conseguimos entender melhor as definições tão utilizadas na grande mídia, será possível que possamos nos aprofundar mais no assunto. Entretanto, é necessário algum embasamento: como é o uso de drogas no Brasil?
Apesar de poucas pesquisas realizadas, existem dados que mostram um pouco sobre como o brasileiro se relaciona com as drogas.
A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) realizou duas pesquisas para entender como se dava a relação da população brasileira com as drogas lícitas e ilícitas.
Tais pesquisas foram realizadas em domicílios e em universidades.

Uso de Drogas — Um Levantamento Domiciliar

Em 2005, 7.939 pessoas passaram por entrevistas feitas diretamente em domicílios de todo o país. Foram feitas perguntas específicas e garantia de sigilo. Assim, foi realizado o II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: Estudo Envolvendo as 108 Maiores Cidades do País. Realizado pelo SENAD. 
Através dele, foi possível identificar que, entre os brasileiros:

• 74,3% já fizeram uso de Álcool na vida, enquanto 38,3% no último mês;
• 44,0% já fizeram uso de Tabaco na vida, enquanto 18,4% no último mês;
• 8,8% já fizeram uso de Maconha na vida, enquanto 1,9% no último mês;
• 2,9% já fizeram uso de Cocaína na vida, enquanto 0,4% no último mês;
• 0,7% já fizeram uso de Crack na vida, enquanto 0,1% no último mês.
Confira a pesquisa completa.

Uso de Drogas entre Universitários:

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Já em um outro estudo, alguns resultados são um pouco mais elevados. No estudo realizado com 12.711 universitários em Instituições de Ensino Superior (públicas e privadas) em todas as regiões do país em 2010, a Secretaria Nacional de Politicas sobre Drogas, ao realizar o I Levantamento Nacional sobre o uso de álcool,tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras, constatou:

• 86,7% já havia feito uso de Álcool alguma vez na vida, enquanto 60,5% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 26,1% já havia feito uso de Maconha ou variações dela alguma vez na vida, enquanto 9,1% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 7,7% já havia feito uso de Cocaína alguma vez na vida, enquanto 1,8% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 1,2% já havia feito uso de Crack alguma vez na vida, enquanto 0,2% fizeram uso nos últimos 30 dias.
Confira a pesquisa completa.

Há uma Epidemia de Dependência Química no Brasil?

A impressão que temos ao observar os noticiários ou ações policiais é de que o Brasil apresenta índices altíssimos de dependência de drogas. Entretanto, as pesquisas acima parecem não justificar todo este alarde.
Mas o que poderia, então, ser motivo de tanta preocupação e veiculação do assunto à nossa mídia?
Por que há a preocupação de alguns políticos em mobilizar forças policiais, autorizações de internação compulsória e uma clara política de combate às drogas no país?
As crackolândias são problemas reais, mas o uso de drogas não parece ser tão alarmante assim. Então o que poderia ocasionar este fenômeno nas grandes cidades?
Ainda é difícil dar uma resposta definitiva a esta pergunta. Entretanto, algo é fato: existe um perfil específico de usuário que frequenta as crackolândias — e é possível que aqui more algum tipo de explicação.

O Perfil do Usuário — Quem usa Crack no Brasil?


perfil usuário crack

Em 2013, juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz e o Ministério da Saúde, a Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas (Ministério da Justiça) realizou outra pesquisa, desta vez diretamente sobre o uso de Crack e outras drogas, tentando identificar o perfil dos usuários.
Os pesquisadores entrevistaram cerca de 7 (sete) mil usuários de crack/similares em todos os estados do Brasil e no Distrito Federal.
Era necessário ter mais de 18 (dezoito) anos e ter usado Crack, Pasta Base, Merla ou Oxi em pelos 25 dias nos últimos 6 (seis) meses.
A partir desta pesquisa, pode-se finalmente traçar um perfil dos usuários de Crack no Brasil com uma amostra significativa. Algo inédito até então.

Segundo a pesquisa, temos:

A "cara" do Dependente Químico:

• Mais de 50% dos usuários de Crack têm entre 18 e 29 anos;
• Cerca de 80% são do sexo masculino;
• 80% são de etnia considerada "não-branca" (pardos ou negros).

Nível de Escolaridade:

• 5% não terminou nenhuma série sequer;
• 55% tem escolaridade localizada no período da 4ª à 8ª série do Ensino Fundamental;
• Cerca de 20% possuí Ensino Médio completo ou Incompleto 
• 5% possui Ensino Superior.

Onde mora o Dependente Químico?

• 40% dos usuários declaram morar em casa ou apartamento próprio ou da família;
• 35% relataram estar em situação de rua.

Drogas Utilizadas em Conjunto com o Crack e Similares:

• 92,1% admite ter feito uso de Tabaco;
• 83,8% admite ter feito uso de Álcool;
• 76,1% admite ter feito uso Maconha;
• 52,2% admite ter feito uso Cocaína.

Fatores que Motivaram o Uso de Crack/Similares:

• 58% dos usuários dizem que o uso se deu por ter conseguido a droga ou ter sentido vontade/curiosidade de conhecer seus efeitos;
• 29,2% relacionam o uso às perdas afetivas (lutos, términos de relacionamento, etc), problemas familiares e/ou abuso sexual;
• 26,7% alegam que foi a pressão dos amigos;
• 8,8% à falta de perspectiva ou uma vida ruim;
• 1,6% à perda do emprego ou fonte de renda.

Outro dado alarmante é que 78,9% dos usuários de crack e/ou similares disseram vontade de realizar tratamento.

A pesquisa conclui, portanto, que o usuário de Crack no Brasil costuma ser um homem jovem, negro ou pardo, que foi pouco escolarizado; que mora na rua, usa mais de uma droga, tem pouco contato com a família e/ou amigos ou histórico de violência física e/ou sexual; além de querer realizar tratamento contra a dependência.
Clique aqui para visualizar a pesquisa na íntegra.

Um Relato em Primeira Pessoa

Será que é possível estabelecer uma relação entre o relato do usuário acima e os dados da pesquisa?

• O homem aparenta ter entre 30 e 40 anos, é negro e está desempregado;
• Sua residência é uma moradia improvisada — uma casa de madeira;
• Relata que o uso da droga o afugenta de seus problemas pessoas (20-25 pedras por dia) e também faz uso de outras drogas;
• Possui uma relação distante de sua família;
• Quer realizar tratamento (já realizou 12 vezes);
• Sente-se sem forças, sem perspectiva de vida e socialmente estigmatizado;
• Tem um histórico de perdas

Observando o perfil dos usuários e a desestabilização que a dependência em crack causa, podemos até, por alguns momentos, a entendermos também como um problema social.
Contudo, este viés dificilmente é abordado nas soluções oferecidas aos usuários — frequentemente vistos como criminosos reais ou potenciais.
Mas quais são as soluções atualmente oferecidas? 
Seriam elas as mais efetivas?

A Solução

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Em função do aumento exponencial da concentração de usuários de crack nas grandes cidades, podemos observar maiores índices de roubos, furtos e tráfico de drogas nas redondezas de onde se instalam as crackolândias. Em uma relação lógica, o aumento da criminalidade fará necessária a mobilização de um maior emprego da força policial.  Entretanto, há quase um consenso entre os especialistas: este é um problema de saúde pública.

Após anos e mais anos da adoção de medidas como: o aumento do policiamento, das investigações criminais e  de ações violentas de dispersão de usuários, as políticas de combate à crackolância pareceram finalmente visualizá-la como um problema de Saúde Pública. Entretanto, na Cidade de São Paulo, por exemplo, um dos pontos mais polêmicos desta nova visão foi a solicitação de prévia autorização judicial para a internação compulsória. 
Afinal, seria esta a solução mais adequada para o tratamento da drogadição?

Internação Compulsória é Efetiva?

Em fevereiro de 2016, um grupo de pesquisadores publicou no The International Journal of Drug Policy o artigo: The effectiveness of compulsory drug treatment: A systematic review.
O artigo tinha exatamente o objetivo de analisar se há indícios científicos de eficiência nas políticas de tratamentos compulsórios que eram impostas a alguns usuários — no que diz respeito às reduções de reincidências no uso de drogas e crimes praticados por seus usuários.
Foram selecionados 430 estudos em potencial (em língua inglesa, espanhola e portuguesa) para que a partir daí fosse feita uma triagem dos que serviriam ao critério. Entretanto, a deficiência no número de pesquisas sobre o assunto foi alarmante: apenas 9 (nove) estudos puderam ser utilizados.
Os estudos incluíam vários tipos de tratamento compulsório — inclusive aqueles que aconteciam após prisões por uso de drogas (como acontece em alguns estados dos EUA — um país que apresentou dados compatíveis aos que o estudo necessitava).
Dentro destes casos, avaliou-se como os tratamentos impostos (entre eles a internação compulsória) seriam eficientes para cessar o uso de substâncias, bem como a reduzir as taxas de reincidência nos crimes praticados por usuários após a realização do tratamento compulsório.

Dentre os nove estudos que puderam ser utilizados, concluiu-se que:

• Em três destes estudos (33%), não foram encontrados impactos significativos nos tratamentos compulsórios quando estes são comparados com políticas de prevenção do uso de drogas;
• Em dois estudos (22%), os resultados foram considerados equivocados, mas não foram comparados com as políticas de prevenção;
• Em dois estudos (22%), os resultados observados foram considerados negativos no que diz respeito aos impactos dos tratamentos compulsórios na reincidência de crimes;
• Em dois estudos, os resultados observados foram considerados positivos, no que diz respeito aos impactos do tratamento compulsório na reincidência de crimes.

Em uma conclusão final o artigo concluiu que, de fato, a literatura científica ainda está limitada, no que diz respeito à avaliação da eficiência dos tratamentos compulsórios perante o uso de drogas.

Entretanto, também diz que os poucos estudos disponíveis não sugerem melhores resultados nas abordagens de tratamento compulsórias.
Os autores ainda enfatizaram que alguns estudos sugeriam potenciais danos em tais abordagens.

A mensagem final deixada pelos cientistas foi que: considerando o potencial que o tratamento compulsório tem para o abuso dos direitos humanos, deve-se priorizar as modalidades de tratamento não-compulsórias buscando reduzir os danos relacionados.

Apesar de o estudo não ser focado exclusivamente na Internação Compulsória, ele no mínimo aponta que não há evidências diretas na eficácia de tratamentos realizados contra a vontade do usuário.

Confira o artigo (em inglês) na íntegra.

Qual é a melhor solução?

Com a precariedade de estudos científicos sobre o tema, ainda é muito difícil definir a melhor abordagem sobre o assunto.  No vídeo a seguir, temos o relato de alguns ex-usuários falando sobre como foram seus tratamentos, suas novas perspectiva de vida e as dicas que dão aos que buscam ajuda.

Há também no vídeo, o posicionamento do Doutor Arthur Guerra, que já foi Presidente do International Council on Alcohol and Addictions -ICAA e hoje é Professor Titular de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC e Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.

Complementando o posicionamento do ex-usuários e do especialista, a Sociedade do Psicólogos também acredita que pode-se combater a dependência química com mais veemência a partir:

• Da Realização de Programas de Prevenção ao Uso de Drogas nas escolas e comunidades:
Se os leitores bem se lembram, existe um perfil dos usuários de drogas. Dentro deste perfil, podemos observar que o nível de escolaridade mais comum entre os usuários de crack no Brasil é definido nas séries do Ensino Fundamental. A partir desta informação, é possível que haja uma abordagem de prevenção focada principalmente nos estudantes deste curso. Recomenda-se que esta abordagem seja realizada por profissionais do ramo — psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e agentes de saúde;

• Do Aumento Significativo no Investimento e Incentivo de Pesquisas Científicas:
Não só no Brasil, mas no mundo inteiro ainda existe um número precário de pesquisas a respeito da eficácia das diferentes modalidades de abordagem nos tratamentos de drogadição. O investimento em pesquisas científicas sobre o assunto é algo considerado crucial para que surjam novas modalidades de tratamento ou melhoria nas que estão atualmente disponíveis;

• Do Aumento da Inclusão de Políticas Sociais — Moradia, Reinserção no Mercado de Trabalho, Reinserção no Ambiente Escolar, etc:
Levando em consideração que os usuários mais comuns pertencem a um grupo em situação de vulnerabilidade social, é possível identificar (ou ao menos supor) que muitas vezes o uso de drogas está relacionado à ausência de condições básicas que garantem a dignidade humana (uma vez que uma parcela significativa dos usuários está em situação de rua, tem baixa escolaridade e pouco ou nenhum contato afetivo). Uma hipótese neste caso ,seria se a recuperação do que foi perdido (ou nunca conquistado) poderia impactar nos níveis do uso de substâncias.

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Deixe seu comentário. Você poderá nos apresentar pesquisas sobre o assunto, críticas, elogios ou até (se assim desejar) compartilhar experiências pessoais que envolvam tal situação. Sua opinião será muito bem-vinda e com certeza será bem acolhida.