Saiba onde buscar atendimento psicossocial na rede pública

O que é o CAPS, CRAS e outros?

Ao falar sobre o tema do #JaneiroBranco, pensei em trazer um texto de caráter informativo, comentando sobre a rede assistencial à saúde mental que a população, de modo geral, muitas vezes desconhece que tem acesso.

Lugares de acolhimento, de tratamento e escuta possíveis para as demandas da população.

Quero comentar também brevemente o histórico da Luta Antimanicomial e a transição para o modelo atual, apontando sobre alguns dos dispositivos de saúde pública onde a psicologia está inserida.

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Luta Antimanicomial

É inviável começar essa conversa sem falar sobre o movimento conhecido como Luta Antimanicomial. Um movimento que se inicia à partir da Reforma Psiquiátrica no final dos anos 70, bem durante a redemocratização do país, uma série de grupos organizados da Sociedade Civil iniciam um questionamento acerca do modelo clássico de assistência.

Com a visita do médico italiano Franco Basaglia, as mudanças se iniciam no sentido de maior atenção ao bem-estar do paciente.

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A Luta Antimanicomial se dá fortalece com a mudança dos hospitais psiquiátricos para os CAPS, por exemplo. Um atendimento humanizado, sem viés religioso e com um zelo pelo PIA (Plano Individual de Atendimento).

Saímos de um modelo arcaico, muito mais generalista e opressor, para um modelo mais humano e com foco nas demandas individuais de cada paciente. Antes os manicômios funcionavam como depositários do que não queríamos ver e lidar, tudo aquilo que nos causava aversão, espanto e confusão.

Um espaço relevante neste cenário, presente ainda hoje Brasil é o  Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. Mais conhecidos como Manicômios Judiciários, são espaços para onde são destinados portadores de transtornos psiquiátricos que cometeram algum tipo de delito. Funcionando como um hospital-presídio à partir de uma lógica ao mínimo questionável, na prática se estabelece um lugar de confinamento onde a duração dos tratamentos é constantemente prolongada por relatórios psiquiátricos periódicos. Um lugar onde o Estado deposita aqueles com quem não sabe lidar.

À título de referência, umas das obras narrativas mais importantes para quem se interessa pelo tema é o clássico “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex, onde a jornalista narra a história do “Colônia”, o maior hospício já criado no Brasil, que era sediado na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido no local.

Hoje, uma rede de dispositivos ligados ao Sistema Único de Saúde responde pelo atendimento a pessoas portadoras de transtornos mentais, e presta suporte às suas famílias.

Saúde Pública e Psicologia

A Psicologia está presente em diversos espaços terapêuticos e assistenciais hoje através do SUS (Sistema Único de Saúde). Existe atendimento psicológico gratuito, por exemplo em Unidades Básicas de Saúde (UBS), mais conhecidos como “Postos de Saúde”, mas que normalmente encontra limitações na extensão e aceitação por parte dos pacientes, além dos já conhecidos problemas de infraestrutura.

CAPS

O CAPS, sigla para “Centro de Atenção Psicossocial”, é talvez o mais conhecido deles. Ele foi o principal substituto aos hospitais psiquiátricos, ou manicômios. Ele oferece atendimento local/regionalizado, para uma população definida. Existem atualmente os modelos abaixo:

“CAPS I – Destinado a um território com população entre 20 000 e 70 000 habitantes (critério para implantação) e é referência para um território com população de até 50 000 habitantes.

Não há limite de idade para a utilização. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita domiciliar e atendimento à família.

CAPS II – Destinado a um território com população entre 70 000 e 200 000 habitantes (critério para implantação) e é referência para um território com população de até 100 000 habitantes.

Não há limite de idade para a utilização. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita domiciliar e atendimento à família.

CAPS III – Destinado a um território com população acima de 200 000 habitantes (critério para implantação) e é referência para um território com população de até 150 000 habitantes.

Não há limite de idade para a utilização. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.

O CAPS III constitui-se no principal dispositivo CAPS e presta um serviço de atenção contínua, durante 24 horas, diariamente, incluindo feriados e finais de semana, com capacidade de acolhimento, observação e repouso noturno. No caso da necessidade do usuário utilizar o leito noturno, a utilização não pode exceder sete dias consecutivos ou dez dias não consecutivos.

Desempenha o papel de principal regulador da porta de entrada da rede assistencial em saúde no âmbito do seu território e/ou do módulo assistencial e é também o principal dispositivo substitutivo da internação em hospital psiquiátrico. É a mais complexa modalidade de CAPS para a prestação do atendimento em transtorno mental.

CAPSi II – Destina-se ao atendimento de crianças e adolescentes e é concebido para atender preferencialmente portadores de transtornos mentais graves. Pode também atender, eventualmente, usuários de álcool e outras drogas. Destinado a um território com população acima de 200 000 habitantes, é referência para um território com população de até cerca de 200 000 habitantes ou outro parâmetro populacional definido pelo gestor local. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.

CAPS ad II – Destina-se ao atendimento de usuários com transtornos mentais decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas (incluindo o álcool). Recebe esses usuários para tratamento e recuperação, com ênfase na redução de danos, com o estímulo a novos hábitos, visando à diminuição de internações hospitalares para desintoxicação e outros tratamentos. Destinado a um território com população acima de 70 000 habitantes. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.

CAPS ad III – É destinado a proporcionar atenção integral e contínua a usuários com transtornos mentais decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas (incluindo o álcool), com funcionamento durante as 24 horas do dia, inclusive nos feriados e finais de semana. Foi idealizado para atender a uma população de 200 000 a 300 000 habitantes por unidade. Nas capitais dos Estados, todos os CAPS ad II passam a ser CAPS ad III.

Em cada região de abrangência, o município sede deverá, através de um plano de ação regional, indicar um hospital geral de referência para o CAPS ad III – Regional, que funcione como apoio qualificado a usuários que apresentem quadros de abstinência, intoxicação aguda ou agravos clínicos relacionados ao consumo de álcool e outras drogas. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.”

CRAS

O Centro de Referência de Assistência Social e é uma unidade de tratamento vinculado ao Sistema Único da Assistência Social. Ele se constitui como uma rede de locais que se prestam à fornecer serviços de proteção básica, e são, frequentemente portas de entrada para demais serviços e benefícios de assistência social.

O Cras é destinado à população que vive em situação de fragilidade decorrente da pobreza, acesso precário ou nulo aos serviços públicos, bem como fragilização de vínculos afetivos (discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiências, dentre outras).

Hospital Dia

Outro espaço importante no acolhimento da população é o Hospital Dia, modelo que recebe o paciente em internação por no máximo 12 horas e funciona como um intermediário entre um ambulatório e um espaço de internação prolongada.

O atendimento psiquiátrico acontece no Hospital Dia e tem se mostrado eficaz na medida em que o paciente não precisa se afastar de sua família, o que é fundamental em casos de ressocialização, por exemplo.

 

Com a Saúde Mental se tornando um tema cada vez mais presente no debate público, julgo importante apontar para o modelo de assistência à saúde mental que temos atualmente no país, fortalecendo o acesso da população à tratamentos fundamentais.

Até a Próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Arbex, D. (2013) Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração Editorial.

Biblioteca Virtual em Saúde. (2018). Recuperado em 30 de janeiro de 2020, de http://bvsms.saude.gov.br/ultimas-noticias/2721-18-5-dia-nacional-da-luta-antimanicomial-2

Cidade de São Paulo: Assistência e Desenvolvimento Social. (2020). Recuperado em 30 de janeiro de 2020, de https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/assistencia_social/protecao_social_basica/index.php?p=1906

Ministério da Saúde. (2012. 26 de janeiro). Portaria Nº 130. Recuperado em 30 de janeiro de 2020, de http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt0130_26_01_2012.html

A Psicanálise hoje

A virulência em tempos de truculência

Muitos declaram hoje que a Psicanálise morreu, eu discordo. Outros tantos acreditam que se trata apenas de charlatanismo (não só hoje em dia).

Nesse texto gostaria de falar um pouco sobre a relevância da ciência da fala, ou da cura pela palavra no século XXI.

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(Imagem retirada da Internet)

A Clínica do Real

Lacan, no final de seu ensino, apontou para uma direção que deveria ser seguida por seus alunos. “A Clínica do Real”, como é nomeada pelos teóricos lacanianos, diz respeito ao período entre o seminário 20 (Mais ainda, 1972-73) e o Seminário 26 (La topologie et le temps, 1978-79).

Lacan denotou uma mudança radical em sua forma de pensar o tratamento e a função da análise. A articulação entre os 3 aros do Nó-Borromeano passa à ser de maior importância do que a estrutura clínica clássica (a tríade clássica: neurose, psicose e perversão).

O laço social mudou, isto é, a forma como nos relacionamos mudou. O mestre francês já falava disso nos anos 70. Não nascemos, crescemos, estudamos, namoramos ou morremos como antigamente. Nossos pais habitaram outro mundo, com certeza.

Outras relações pedem outra clínica. Não escutamos (eu espero) nossos pacientes como Freud o fazia. E nem deveríamos. Nossas intervenções hoje buscam muito mais uma responsabilização do sujeito pelo seu Gozo (sua posição hoje, seu círculo e forma de sofrimento), do que uma explicação dos fatos. Freud explica e Lacan implica, dizem.

Remédios: Solução em cápsulas

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(Imagem retirada da Internet)

Uma questão já batida na clínica psicanalítica é o uso de psico-fármacos durante a análise.

Um tema que normalmente coloca em embate Psiquiatras e psicólogos. Cada um parece puxar a razão para o seu lado, querendo a exclusividade sobre o tratamento daquele sujeito.

Minha crítica vai na direção da ilusão de quem acredita que apenas o remédio é a solução. Parece um sintoma atual, de nós, que não temos tempo para nada, resolver um problema tomando um comprimido duas vezes ao dia.

Com isso não quero dizer que sou contra qualquer tipo de medicação. O tratamento farmacológico é sim muito importante em diversos casos. O problema é quando se espera que um milagre venha de dentro de uma embalagem.

Nós temos é que ser responsáveis por nossas faltas, nossos acertos e erros.

A falta que a falta faz

A parte que falta

(A parte que falta, Shel Silverstein)

Esse subtítulo se refere à um vídeo viral feito pela youtuber “Jout Jout”, falando sobre um livro pequenino de Shel Silverstein, intitulado “A parte que falta” (https://www.youtube.com/watch?v=GFuNTV-hi9M). Livro maravilhoso, que recomendo a leitura, bem como de seu sucessor, “A parte que falta encontra o grande O”.

Parece que vivemos em um momento onde não pode haver falta. “Tempo livre? Mais trabalho, ou dedique horas on-line para realizar cursos de auto-conhecimento”. E as crianças? Não pode haver tédio em nosso tempo. Nossos celulares, que à cada geração vêm com promessas de maior duração de bateria, mantém as crianças entretidas sempre.

Sem querer dar spoilers do livro, mas, encontrar aquilo que nos completa totalmente pode ser chato à beça.

Justamente aí a Psicanálise pode atuar. Ao questionar as certezas cegas, ou sensações ilusórias de completude.

Psicologia das Massas

A psicanálise não é apenas uma ciência que nos ajuda a entender o indivíduo que está ali, deitado em nosso divã, mas é uma forma de ler o social, até porque, entendemos o sujeito sempre como um sujeito do social. Nos formamos à partir do outro, no início nossos pais, depois, tomamos como referenciais outros alhures, como professores, figuras conhecidas na mídia, etc.

Passamos um momento político e social que muitos consideram de polarização. Particularmente, a discordância de idéias me é simpática, se todos pensássemos o mesmo eu ficaria preocupado, todavia, parecia, na eleição presidencial haver duas figuras, dois estereótipos. Um traidor, coisa-ruim, tudo que há de mal na terra, e um salvador, um Messias, caso queiram.

Sugiro a leitura de Psicologia das Massas e Análise do Eu, texto de 1921, de Freud, para localizar esses sintomas de grupo. (Falei sobre o texto em outro lugar).

 

Que sejamos mais sujeitos de nossa própria história.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências Bibliográficas

Forbes, J. (2010) Você quer o que deseja? Rio de Janeiro: BestSeller.

Forbes, J. (2014) Psicanálise – A clínica do Real. Barueri: Manole.

Freud, S. (1921/1996). Além do Princípio do Prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos. (Obras completas de Sigmund Freud, v.18). Rio de Janeiro: Imago.

 

Breve comentário sobre o texto Hello, Brasil, de Contardo Calligaris

 

Hello, Brasil hoje

Em uma semana tão aguardada pelos brasileiros, acho válido comentar sobre um texto que analisa o Brasil (ele mesmo, como se fosse um sujeito), e que, principalmente traz a visão de alguém de fora.

Me refiro à um texto de Contardo Calligaris, psicanalista, escritor e dramaturgo italiano radicado aqui no Brasil. Com origem em Milão, Calligaris se formou em Epistemologia e Letras, na Suíça. Depois, em Paris, em meio ao Doutorado em Semiologia, começa à se analisar, o que desperta seu interesse em Psicanálise.

Seu primeiro contato com o Brasil se dá no final dos anos 80, quando começar a proferir uma série de palestras e aceitar alguns pacientes. Desde os meados dos anos 2000, se estabeleceu de maneira definitiva no país.

Atualmente assina uma coluna semanal no jornal A Folha de São Paulo, além de ser roteirista da série televisiva Psi, do canal HBO.

 

Os artigos que compõe o texto foram compilados e publicados originalmente em 1991, e sofreram uma revisão, tendo sido relançado no ano passado.

Colonizador e Colono

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(Nova edição do texto Hello, Brasil)

Tentarei apontar alguns elementos do texto que acho relevante, e algumas noções que talvez nos sejam úteis ao pensar o nosso eterno “país do futuro”. O importante aqui é questionar como se formou (e se forma) o laço social no Brasil, como as relações são estruturadas. Sugiro que se remetam ao texto original para localizarem as observações completas de Contardo.

No início do texto, Calligaris aponta uma frase que lhe chamou atenção imediatamente após chegar ao país: “Esse país não presta”. Isso lhe escandalizou, de tal maneira que, na Europa não há quem fale algo semelhante.

A noção de que alguém “fala” em nós, ou seja, que ruídos do nosso passado e da história de nossos ancestrais ecoam em nós, é muito importante para balizar as relações que estabelecemos.

Duas figuras são centrais na argumentação do psicanalista, são elas o colonizador e o colono. São figuras historicamente entrelaçadas ao nosso psiquismo tupiniquim. Ou seja, em nós, em nosso discurso, o colonizador e o colono falam.

 

“O colonizador é aquele que veio impor a sua língua a uma nova terra, ou seja, ao mesmo tempo demonstrar a potência paterna (a língua do pai saberá fazer gozar um outro corpo que não o corpo materno) e exercê-la longe do pai. Pois talvez o pai interdite só o corpo da mãe pátria, e aqui, longe dele, a sua potência herdada e exportada me abra o acesso a um corpo que ele não proibiu” (Calligaris, 2017, p.38).

A questão do colonizador se dá em gozar, extrair, tudo que há na nova terra, sem limites. Haja visto que o nome do país é o de seu produto mais presente na exploração inicial, completamente esgotado. Que significante, minha gente. Todavia, esta terra não é a mesma coisa que o corpo materno. Voltaremos a esse ponto.

“O colono é quem, vindo para o Brasil, viajou para outra língua, abandonando a sua língua materna… O colono não é um colonizador atrasado que poderia esperar participar da festa do colonizador. A sua esperança é outra: se ele adere à nova língua, não é para ter acesso a um corpo materno finalmente licencioso. O que o diferencia do colonizador parece ser a procura de um nome. Ele não vem fazer gozar a América, mas, na América, fazer um nome para si. Procura aqui, em outra língua, um novo pai que saiba interditar, colocar limites, e que talvez o reconheça como filho e cidadão” (Calligaris, 2017, p.41-42)

A existência desses dois fantasmas na fundação do “ser brasileiro”,  me parece, pois, uma razão pela qual não há exatamente um sentimento de coletivo, ou coletividade entre nós. Somos nós contra eles, sempre.

As elites no Brasil estão sempre se remetendo à Europa como seu lugar de fato, “lá é que é bom, lá é que presta”. Portanto, nunca vieram verdadeiramente para cá, seu lugar ainda é a velha Europa. E isso reflete nas classes mais baixas da população. Vejam que os produtos de fora são os mais cobiçados, e fazer uma viagem para lá é o sonho de muitos, creio eu que, espelhados no desejo de um Outro (elites).

Uma frase que usa-se no cotidiano e é muito significante (literalmente) é: “Para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei”. Dá-se mais valor às relações particulares do que as públicas. A educação que o diga.

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(Imagem retirada da Internet)

Contardo afirma que não conseguiria escrever o mesmo texto hoje em dia, pois já está tomado por demais pelo “ser brasileiro”. Inclusive comenta desse momento de liberdade entre trazer o peso do passado (da cultura passada), e ser esmagado/inserido na cultura para onde você se destina.

Talvez o que eu queira dizer nessas linhas é apenas que o passado tem seu peso, e nos dirige, nos dias de hoje.

Bom domingo à todos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

PS:

Segue o link para a fala do psicanalista no Café Filosófico:

Referências Bibliográficas

Calligaris, C. (2017). Hello Brasil e outros ensaios. São Paulo: Três estrelas.

 

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

Estruturação frente à falta do Outro

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(Imagem retirada da Internet. Na imagem lê-se: Nós temos os líderes que merecemos?)

Algum tempo atrás, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, intensificou a luta com relação à restrição da entrada no país de imigrantes ilegais.

Com a prática chamada de “tolerância zero”, o presidente determinou que ao serem flagradas ingressando em solo americano ilegalmente, as famílias fossem apartadas, com as crianças sendo direcionadas a abrigos. Antes, sempre que possível, as famílias eram mantidas unidas em prisões.

É importante apontar que parte das crianças que se encontram em abrigos, atravessou a fronteira sozinha, fugindo da violência de seus países de origem.

Muitas das crianças foram separadas dos pais antes dos 04 anos de idade. Isso impacta diretamente na estruturação da criança enquanto sujeito.

As fases do desenvolvimento sexual foram magistralmente descritas pelo meu colega Caio César. Sugiro que se remetam à esse texto para maior enfoque no tema.

Nasce um sujeito

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(Imagem retirada da Internet)

Quando uma criança vem ao mundo, ela “chega ao mundo, portanto, engendrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo” (Flesler, 2012, p.17). Isto é, ela vem carregada já de significação, ela já é falada no discurso dos pais.

A sua entrada na sociedade se dará por meio de uma balização imaginária, de forma especular. Explico. O eu, a noção própria de quem somos, que é diferente dos outros, só é obtida à partir do tu, à partir, justamente do outro, que é encarnado, normalmente, pela mãe, pai, e/ou cuidadores iniciais da criança.

Pouco à pouco começa à emergir na criança o símbolo (Lacan, 1953-1954/1996). A criança começa à entrar no jogo simbólico, começa a estar submetida à regras, na escola e em casa. Aí, efetivamente começa a humanização, o processo de entrada na cultura.

Dois conceitos concebidos por Freud merecem nossa atenção nesse momento, pois interpelam diretamente a estruturação da criança enquanto sujeito.

O primeiro é a noção de Eu Ideal, uma instância primariamente imaginária, ligada ao desejo materno, ao olhar do Outro sobre o bebê. Quando uma criança nasce, há um investimento libidinal muito forte por parte dos pais (ou cuidadores). Eles depositam na criança uma série de afetos muito intensos.

Após o Complexo de Édipo, entra em cena o Ideal de Eu, referência externa à família, que baliza as relações da criança com o grupo social em que está inserida. Ou seja, a criança passa à ter como referência algo externo, um ideal, uma causa que não esteja em seu círculo familiar.

O olhar desejante da mãe para o bebê configura o primeiro objeto da criança, a primeira forma de relação do sujeito. Esse é o Eu Ideal.

Psicoses e outras saídas desfavoráveis

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(Imagem retirada da Internet)

O rompimento abruto do contato da criança com os genitores pode ocasionar uma série de complicações. Buscarei me apoiar também em trabalhos de F. Dolto e D. Winnicott.

A presença de um genitor nessa fase que é crucial para a constituição do sujeito. O atendimento psicanalítico à essas crianças vai na direção de uma aposta em um possível, de uma estruturação possível.

Um exemplo de um caso em que o analista aposta no sujeito, é o Caso Dominque, contado por Françoise Dolto no livro de mesmo nome. É um texto que me parece importante citar, dado que a “criança”, já com 14 anos, apresentava uma  série de comportamentos psicóticos, totalmente desconexos com a realidade.

Naturalmente, a separação vivida por Dominique é bem diferente daquela enfrentada pelos filhos e filhas de imigrantes ilegais, atualmente nos EUA. Todavia, os efeitos psicotizantes da falta de uma figura paterna (ou que faça a função paterna) são notáveis.

Como diz Dolto (2010): “O amor que o ser humano, em sua pessoa em via de estruturação, tem pela mãe e pelas pessoas à sua volta é um amor cuja resultante efetiva é uma mímica de identificação, seguida do processo de introjeção”. Vemos aqui, o reconhecimento em forma de espelho que lhes dizia, uma identificação com os pais ou cuidadores que se rompida abruptamente, resulta em um sujeito preso em tempo passado, não conseguindo elaborar sua perda.

Winnicott, em seu trabalho Privação e Delinquência, fala justamente dos efeitos em crianças que não tiveram o acolhimento necessário, ou que o perderam, em momentos muito precoces da vida. A Criatividade Primária da criança é prejudicada, e surge, o que o autor chama de Tendência Anti-Social. Falando de Criatividade Primária, sugiro a leitura do texto do meu colega Caio Ferreira.

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(Sociedade dos Psicólogos, 2017)

Olhemos pelos pequenos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Referências Bibliográficas

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1953-1954/1996) Os escritos técnicos de Freud – Os Seminários, Livro I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Winnicott, D. (1987). Privação e Delinquência. São Paulo: Martins Fontes.

Contra o relógio

Da miragem da vida perfeita aos 30 anos

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(Imagem retirada da Internet)

Um dia desses presenciei uma cena muito comum no metrô de São Paulo, mas que me fez refletir. Um desses músicos andarilhos tocava canções populares em seu violino. Tocava de forma excepcional, pelo menos aos ouvidos de um estranho à técnica musical como eu.

Tocou algumas músicas, foi aplaudido por uns, agraciado com dinheiro por outros e ignorado pela maioria. Sentada ao meu lado estava uma garota. Percebi no final da apresentação, que ela filmava-o com seu smartphone. Instantes depois o vídeo já estava sendo publicado no Instagram. Vi a “globalização” na minha frente.

Pensei então nesse momento que estamos vivendo, no que diz respeito à velocidade das coisas.

Mensagens instantâneas

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(Imagem retirada da Internet)

Uma das coisas que mais me fascina nesse mundo moderno, é a velocidade com que as informações chegam à nós. Parece haver um achatamento do tempo entre elaborar as coisas e agir em função delas. Explico.

Somos bombardeados com data (como dizem os americanos) todo o tempo, sempre checando o celular, estamos sempre “ligados”. O que é justamente incentivado por algumas companhias. Há quem considere justa a proposta de pagar horas extras quando o funcionário envia mensagens acerca do trabalho, fora do expediente.

Não há tempo para elaborar a resposta quando alguém nos envia um Whatsapp. A resposta deve ser instantânea, como em um contrato assinado, com a obrigatoriedade de responder instantaneamente.

A propagação de notícias em redes sociais sem nenhuma base ou confirmação para tal acontece a todo o momento, e as disputas pela razão em mídias sociais emerge. “A fúria costuma ser inversamente proporcional à informação”, como diz Reinaldo Azevedo.

Carreiras Perfeitas

O mundo corporativo é um ambiente hostil, ou pelo menos é assim falado. Metas e a responsabilização do funcionário são aspectos modernos.

Compramos a ideia de carreira muito rápida. Fascinam-me alguns escritos online que definem marcos à serem atingidos na carreira. “Tantos mil na conta bancária até os 30 anos” e outras bestialidades circulam na rede.

A gestão do trabalho através da noção de projetos coloca o funcionário em uma posição de responsabilidade absoluta pela entrega do resultado final, algo do tipo: “Não deu certo? Por que não fez mais horas extras?”. Estar online a todo tempo é comum. Atender ao outro a todo pedido. O sujeito sente não ter gerência sobre sua própria vida.

Um dos marcos da pós-modernidade é a Síndrome de Burnout, transtorno do momento entre os executivos (vide https://www.theguardian.com/society/2018/feb/21/how-burnout-became-a-sinister-and-insidious-epidemic). Junto com a depressão, o Burnout parece se proliferar à velocidade assustadora na população.

O mercado de trabalho é a personificação do grande Outro. A ele tudo é permitido e legisla sobre a capacidade de cada um com base nos demais. Como se ouve muitas pessoas falarem: “Cuidado para não ficar muito velho, assim o mercado de trabalho não vai te querer”.

E chegamos, então, ao título do texto.

Correndo contra o relógio. Metáfora que é comumente usada pela gente dita “ocupada”. Sempre correndo, como se diz em Recife, “de um canto pra outro”.

Sempre um contrato antes da meta, uma venda que falta para atingir algo que irá dobrar tão logo ficar atingível.

A medicalização parece estar alinhada à noção de resposta rápida. É uma busca incessante por um diagnóstico e um remédio. Fato frequentemente por quem se destina à prática clínica, é o paciente questionar: O que tenho? …ou, O que devo tomar?

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(Imagem retirada da Internet)

Lacan formulou uma noção que chamou de semblante, algo como uma máscara que adotamos em diversas relações. O analista, no início de um tratamento encarna o ideal de alguém que tem a resposta para os problemas e dúvidas daquele que o procura. Em termos técnicos dizemos que o analista carrega o objeto a no bolso (tirada de psicanalista).

Quando um psicanalista acredita de verdade que tem as respostas para tudo que lhe é demandado ocorre a saída do lugar vazio, à qual o analista, por excelência, se destina em uma análise.

O perigo está em não se descolar das mentiras contadas à nós.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências Bibliográficas

Forbes, J. (2010) Você quer o que deseja? Rio de Janeiro: BestSeller.

 

Outros links recomendados:

https://www.corriere.it/salute/neuroscienze/18_marzo_16/trentenni-salute-stress-ansia-depressione-6a3ad27c-2921-11e8-b8d8-0332a0f60590.shtml

http://www.stile.it/2017/02/11/linsonnia-danneggia-la-carriera-lo-studio-id-139704/

Criminalidade, Desigualdade Social e o Mal-Estar na Civilização

É famosa a frase que diz: o crime não compensa. Mas será que a vida em Civilização o faz? Em um de seus últimos trabalhos, Freud (1856-1939) tenta, com o conhecimento que acumulou durante toda a sua vida de neurologista e psicanalista, entender como ocorreu a formação da cultura. E mais: como esta se assemelha e se difere da formação psíquica dos indivíduos que a formam. Entretanto, no atual conjunto de culturas do mundo globalizado, o Brasil é conhecido por traços que cruzam corrupção, futebol, nudez, praias e festas e, mais recentemente, pela alarmante desigualdade de renda e o alto índice de crimes contra o patrimônio. Poderíamos entender estes fenômenos como parte de uma cultura madura ou como sintomas de uma cultura? Mais ainda: quais seriam os sintomas que esta cultura causaria em nossos indivíduos? É o que o artigo a seguir tentará expor em conjunto com uma leve revisada na obra de Sigmund Freud publicada em 1930. Afinal: furtar tornou-se frutífero? No Brasil o Crime compensa o Castigo?

Um estudo conduzido em 2011 por João Paulo de Resende, mestre em economia pela UFMG e por Mônica Viegas Andrade, doutora em economia pela FGV, teve como alvo os crimes cometidos em municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes. Sua conclusão final, baseada exclusivamente em dados empíricos, foi que: os níveis de desigualdade de renda (poucas pessoas ricas, muitas pessoas pobres) nestes municípios estavam frequentemente relacionados aos níveis de ocorrência de crimes contra o patrimônio (furtos, roubos, latrocínios) e pouco aos crimes passionais, onde o indivíduo, quando exposto a alguma situação que o leva a intenso estresse emocional, apresenta um lapso na inibição de seus impulsos e comete um crime – geralmente contra quem o propicia tal estresse.

Esta conclusão empírica nos faz crer, a princípio, que quanto maior o patrimônio de poucos, mais indivíduos (geralmente os de pouco patrimônio), cometerão crimes que têm o patrimônio em si como alvo. Como se nesta relação empírica houvesse uma reivindicação inconsciente da maior recompensa que a civilização capitalista moderna oferece ao indivíduo: a satisfação através dos materiais de consumo. É importante, é claro, ressaltar que quando esta satisfação é buscada através do crime, ela dispensa uma das grandes engrenagens de uma sociedade: o trabalho – e, principalmente, as renúncias de prazer que este envolve. Será que quando falamos dos crimes relacionados ao patrimônio, poderíamos também dizer que, no caso do furto, também o indivíduo furta-se dos sacrifícios às satisfações? Sacrifícios estes que são tão exigidos pelo trabalho. E no roubo, também não rouba-se o prazer, a satisfação que ostenta o Outro, de maneira considerada injusta por um que não a alcança, por mais prometida que esta lhe seja, perante suas renúncias?

 

Desigualdade de Renda no Brasil

Desigualdade-de-renda-no-Brasil

Uma pesquisa recente, realizada pelo economista Thomas Piketty e um conceituadíssimo grupo de pesquisadores em seu apoio, aponta que, no Brasil, quase 30% da renda do país se encontra com apenas 1% da população. E, para complementar, 10% da população mais rica do país também carrega 55% de toda a renda local. A óbvia lógica disso tudo? Mais pessoas dividem menos dinheiro enquanto menos pessoas dividem mais dinheiro.

Isso até poderia ser menos incômodo se, proporcionalmente, todos pagassem taxas de impostos equivalentes ao que ganham. Entretanto, além da progressiva taxa dos impostos de renda, o Brasil traz uma tributação nos bens de consumo – a principal fonte de satisfação insinuada pela nossa atual sociedade – de cerca de 40% do valor. Ou seja, um produto de 100 reais, custa cerca de 40 reais em impostos. Acontece que, quando o salário mínimo do país é um pouco menos de 1000 reais, estes 40 reais se tornam um pouco mais de 4% de todos os ganhos de uma pessoa que recebe um salário mínimo, atualmente considerada como pobre (sem contar o valor que esta pessoa já paga de imposto de renda, cerca de 8%). Mas, ao mesmo tempo, se uma pessoa que recebe um salário que gira em torno de 100.000 reais compra o mesmo produto de 100 reais, se aqui não falhar a matemática de alguém das ciências humanas, esta pessoa gastará apenas 0,1% de seu salário. Ou seja, em termos de proporção do patrimônio, os mais pobres acabam cedendo mais de seu patrimônio em impostos do que os mais ricos. E isso se amplifica mais ainda se falarmos sobre Lucros e Dividendos de empresas (que em alguns casos excede a casa dos milhões), onde praticamente não há imposto cobrado.

Ou seja, mesmo que as pessoas mais pobres sacrifiquem seus impulsos pelo sono, pela farra, pelo sexo e pela agressividade pelo bem da sociedade, estas não serão tão bem recompensadas pelos sacrifícios quanto as pessoas mais ricas. É como teria dito o filósofo Zizek: “há alguém furtando o nosso gozo”. Será que, na suspeita do furto de um gozo, furta-se a metáfora para o retorno literal da palavra? Ou seja: a suspeita do furto (metafórico) do gozo ocasionaria o gozo do furto (literal)?

O Mal-Estar na Civilização

Já no ano de 1930, Sigmund Freud (1856-1939) publica uma de suas obras mais importantes, denominada “O Mal-Estar na Civilização” (“O Mal-Estar na Cultura” em algumas traduções). Arriscando o perigo de sintetizar demais, poderia-se dizer que ali Freud (2011) tentava explicar – através da relação de muitas de suas obras anteriormente produzidas, de poemas e romances de Schiller e Goethe, de apontamentos realizados por Rousseau e outros filósofos ou até criticando a tese do comunismo trazida por Karl Marx  – sua tese de que as exigências de uma cultura (ou de uma civilização), estariam – sem exceção – em desacordo com os impulsos agressivos e/ou destrutivos e sexuais dos indivíduos que a ela pertencem. E, a partir daí, os indivíduos deveriam procurar outras formas de felicidade, seja para o encontro ou prazer ou para o evitar do desprazer. Alguns se isolam, alguns usam drogas lícitas ou ilícitas, alguns amam; alguns trabalham, alguns fazem amigos, alguns adoecem e/ou ficam loucos; alguns fazem bem ao próximo, outros simplesmente infringem as regras e aceitam as punições (ou fogem delas enquanto é possível). Há ainda os que fazem isso tudo ao mesmo tempo enquanto acreditam fazer parte de uma casta, considerada por eles mesmos como boa da sociedade – aqui falamos dos cristãos, mas, sejamos justos: nem todos e nem só estes.

E Freud (2011) continua, dizendo que pode-se até encontrar relação àquilo que frequentemente está inconsciente na neurose mas explícito nos preceitos estabelecidos em uma civilização através de suas Leis e regras – a necessidade de inibição de impulsos agressivos e sexuais que, apesar de causarem satisfação imediata nos indivíduos, estão em desacordo com o considerado necessário para o bom convívio em sociedade. O resultado esperado, segundo o psicanalista (2011), era que a cultura ou civilização, juntamente com o indivíduo, deveriam criar, através da evolução de um sentimento de culpa, uma eficiente instância de censura a estes impulsos – um Supereu. Ou seja, a cultura oferece repressão, através da retirada do Direito à Liberdade (prisão), caso o indivíduo exponha seus impulsos agressivos através de um crime e transgrida as Leis, da mesma forma que a criança perderia o amor dos pais se fizesse o mesmo, ou pior, expusesse sua sexualidade e agressividade inata, fora do que é aceito aos pais daquela época, através da Castração, no Complexo de Édipo.

Mas conforme Freud (2011) explica, o papel do Supereu excederia o medo à repressão através da perda da liberdade ou do amor dos pais, o Supereu teria um papel Superior de censura. Do tipo que forçaria os indivíduos a algo além de renunciar às satisfações que mais acreditam que lhes daria prazer por medo das represálias: o próprio desejo de realizar tais satisfações já causaria culpa e às vezes até autoagressão, não sendo o ato necessário. Como se o processo fosse automático, introjetado e mantido pelos indivíduos. Entretanto, é ressaltado pelo Pai da Psicanálise (2011) que, mesmo que nem tudo seja satisfeito, para que haja algum tipo de organização psíquica no indivíduo saudável, ele precisará direcionar estes impulsos proibidos às formas de expressão aceitas pela sociedade, em sua busca pela sua satisfação. Ou seja, uma criança muito agressiva, por não poder manter este comportamento na vida adulta, em função das Leis da Sociedade, poderá se tornar um adulto lutador de artes marciais – e há de se observar que, paradoxalmente, estes indivíduos costumam ser pessoas calmas e pacíficas, uma vez que conseguem expor seus impulsos agressivos através de suas atividades. Da mesma forma, supõe-se na sociedade que aquele que abdicar do prazer imediato e se dedicar ao trabalho e não cometer crimes, poderá ter dinheiro para consumir os produtos que lhe trarão satisfação – carros, motos, celulares, aparelhos eletrônicos e roupas em geral. Mas o que acontece quando esta abdicação não é recompensada e, ainda por cima, é exibida em Outros que parecem realizá-la em menor ou nula medida?

Se arriscarmos um palpite no que foi dito por Freud (2011), poderíamos dizer que enquanto um sintoma do indivíduo por renunciar os desejos que vê causar prazer no Outro é a neurose, um sintoma da cultura que faz indivíduos renunciarem seus desejos e não lhes dá a satisfação (no caso da cultura capitalista, o consumo) é a criminalidade. E podemos ir adiante dizendo que, assim como o sintoma é a maneira negativa da realização do desejos em paralelo à sublimação como maneira positiva; a criminalidade apareceu como uma maneira negativa desta realização e, além do trabalho, que nem sempre ou quase nunca a cumpre, um novo fenômeno parece encurtar este caminho.

E a tese inicial do neurologista, aquela em que ele diz que haverá sempre uma divergência entre o exigido pela cultura e o que é desejado pelo indivíduo (2011), parece fazer muito mais sentido quando falamos sobre o sentimento de injustiça, sentido através da desigualdade de renda, e o que os Estudos Econômicos de Resende e Andrade (2011) publicaram sobre a relação desta desigualdade com o aumento dos crimes contra o patrimônio. Como se a desigualdade de renda corroborasse uma prévia recusa, através da criminalidade, à renúncia dos indivíduos aos impulsos, mas não ao gozo que é atribuído ao suposto prêmio por tal renúncia.

Conclusão

Poderíamos então dizer que a formação de uma civilização terá como base um mecanismo semelhante à formação psíquica de um indivíduo: para que tudo dê certo, renúncias serão necessárias. Mas supõe-se, erroneamente, que todos os indivíduos partem de uma mesma constituição psíquica na hora de criar-se uma Constituição Federal. Ou seja, esqueceram que haverá um conjunto de indivíduos que não estão dispostos a abrir mão de suas satisfações pelo bem-estar de sua cultura – a partir daí, viu-se necessário a criação de um sistema prisional. Mas, entrelinhas, parece haver a insinuação, por parte da sociedade, que está garantido a quem cumprir com suas renúncias e horas de trabalho, o gozo através do consumo. Contudo, a desigualdade de renda de um país parece acabar desmentindo esta suposição.

Quando o Brasil é tomado como exemplo, vê-se que uma pequena parte da população detém uma enorme parte das riquezas, ou seja, do gozo através do consumo. Em outras palavras, pesquisas recentes sobre a desigualdade de renda apontam, de cara, que alguém irá obter mais satisfação; poucos gozarão mais do que muitos. Isso quer dizer que já está pressuposto a muitos que optarem pelo sacrifício de seus prazeres imediatos a ausência daquela prometida satisfação. Eis a dúvida de quem é pobre por aqui: “a renúncia de minha satisfação, sob o único risco de sofrer a privação da liberdade por algum tempo, vale mais a pena? Por quanto tempo conseguirei assistir ao gozo do Outro com menos sacrifícios do que eu?”.

A pesquisa evidenciada no começo do artigo parece, de alguma forma, apontar que há na Sociedade Brasileira, ao menos nas cidades com mais de 100 mil habitantes, uma constante reivindicação pelo gozo através do patrimônio. Através de uma vasta pequisa de dados empíricos, viu-se que quanto mais patrimônio é reservado à pequenas parcelas da população, mais crimes contra o patrimônio são registrados em uma sociedade. É como se as Massas informassem, de forma violenta e irracional, que recusam o sacrifício desproporcional ao gozo do Outro. Como se a criminalidade fosse o ato de ignorar a placa que diz “não pise na grama”, enquanto o gozo através do patrimônio fosse o ato de chegar ao lado oposto; mas parece que lá já se encontra alguém, separado pela mesma grama, que não precisou dar a cansativa volta que indica aquele caminho preestabelecido. Portanto, parece que, quando se deparam com este outro alguém em pleno gozo com menor sacrifício, mais pessoas optam por pisar na grama e, não obstante, tentam expulsar o Outro do lugar que agora acreditam terem chegado.

Se há mais dinheiro para se dividir com menos gente e, consequentemente, menos sacrifícios para esta pequena parcela, a outra parcela, aquela que dividirá menos dinheiro com mais pessoas, terá mais sacrifícios a fazer. Mas a pesquisa de Resende e Andrade (2011) indica que, nestas situações, parece haver uma recusa às Leis na mesma medida. Uma recusa aos sacrifícios e uma tomada violenta e simbólica do prazer que enxergou o Outro satisfazendo: nega-se o esforço do trabalho exaustivo por pouco dinheiro e acata-se a tomada do patrimônio através do crime. Apesar desta ser uma informação de teor óbvio, é importante ressaltar que este artigo não está legitimando crime algum, muito pelo contrário, as relações entre os meios empregados pelos neuróticos para fugir das restrições da cultura (álcool, amor, isolamento, construções, consumo e trabalho), podem encontrar também, para uma parcela da população, refúgio no crime, quando ele passa a acontecer em proporções tão frequentes que chega a compensar.

O sujeito tem sua constituição psíquica formada da mesma forma que a cultura tem sua Constituição Federal. E assim como o neurótico, que quando finalmente aceita a abdicação da satisfação de seus impulsos agressivos e/ou sexuais em nome das exigências da cultura, sofre com o sintoma da neurose como forma de punição e realização à renúncia destes desejos inconscientes que não foram compensados através da sublimação; a Cultura também poderá sofrer a punição da elevação da criminalidade, crescente à medida em que as pequenas gratificações (o consumo, o gozo de bens materiais) não vêm de encontro, de maneira igualitária, aos sacrifício dos neuróticos que nela vivem mas continuam sendo seu objeto de desejo pregado como ideal dela mesma.

Isso não quer dizer que a ideia comunista seja a solução. O próprio Freud, neste mesmo texto (2011), já refuta esta ideia, dizendo que há no ser humano o impulso à agressividade para com o Outro que excederá sua realização apenas através da propriedade privada; portanto, não será o fim desta o sinônimo do fim da violência. Também sabemos que anos mais tarde, através dos resultados da implantação do sistema econômico transicional do socialismo em vários países do mundo, com o comunismo como finitude, pudemos observar que a suposição de que todos os indivíduos poderiam partilhar de uma renda comum, de um estilo de vida igualitário, acabaria no campo utópico. Confirmando as previsões de Freud, o socialismo acabou mais sendo utilizado como transição a algum Outro tipo de ditadura do que ao comunismo em si.

Mas, para finalizar, algo há de ser dito: seja no capitalismo, socialismo ou comunismo, o ser humano parece não ficar livre de seus impulsos mais primitivos de agressividade e sexualidade, principalmente quando estes se mostram de maneira incessante, como é o caso das Pulsões. E por mais que a cultura exista exclusivamente para conter estes impulsos e permitir uma vida pacífica entre os indivíduos inibidos entre si, ela precisará, de alguma forma, compensar a renúncia de todos estes de maneira satisfatória através de suas possibilidades de sublimação oferecidas. De outro modo, haverá aquilo que a história e agora as estatísticas nos apontam: violência. Roubo (como é o caso explicitado aqui no artigo), homicídio ou suicídio; tomada do Poder, aniquilação do Outro ou aniquilação de si. Para a cultura não importa, o que prejudica um ou outro indivíduo, a prejudica, de um modo ou de Outro, como um todo. Porque se a neurose é um sintoma do indivíduo, a criminalidade é um sintoma da cultura.

Referências

Crime social, castigo social: desigualdade de renda e taxas de criminalidade nos grandes municípios brasileiros – João Paulo de Resende; Mônica Viegas Andrade. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-41612011000100007

Brazil – WID – World Inequality Database (Top 1% fiscal income share, Brazil, 2001-2015 and Top 10% fiscal income share, Brazil, 2001-2015) – Thomas Piketty and group. http://wid.world/country/brazil/

Freud, Sigmund, 1856-1939. O mal-estar na civilização/ Sigmund Freud ; tradução Paulo César de Souza. – 1ª ed. – Sâo Paulo : Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

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Psicologia das Massas e Clube da Luta

Tyler Durden como metáfora do analista

“Ser despedido é a melhor coisa que nos pode acontecer – diz Tyler. – Assim a gente consegue sair do lugar e fazer alguma coisa na vida”.

Palavras fortes, ditas por Tyler Durden, protagonista da estória chamada de Clube da Luta. Em 1996, Chuck Palahniuk publica o livro, que é permeado por uma crítica social ácida. Em 1999 foi adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher.

O texto “Psicologia de Grupos e Análise do Eu” (ou “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, na nova tradução de Paulo César de Souza), publicado em 1921, aborda um tema pouco discutido por Freud até então. Como um grupo se forma, quais as relações estabelecidas entre seus membros e o que os mantêm unidos.

Buscarei orbitar entre as idéias freudianas e o material apresentado na obra de Palahniuk, para pensar as relações de trabalho e consumo hoje. Pensar o mundo corporativo e o sofrimento dos que ali estão.

As idéias de Palahniuk fazem eco no mercado de trabalho de trabalho hoje e merecem ser lembradas.

Clube da Luta, a obra

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(Imagem retirada da Internet)

Clube da Luta é um livro, escrito por Chuck Palahniuk em 1996, e interpretado nas telonas em 1999. Contando com astros como Brad Pitt e Edward Norton, o filme se tornou um clássico cult da virada do milênio.

Na estória, Jack, nosso personagem principal, é um funcionário de uma empresa de seguros, realizando avaliações de acidentes.

Cidadão dos aeroportos, viajando de um lado para outro, preso à uma vida sem sentido. É assim que o personagem se auto-descreve. Compulsivamente compra sempre móveis que estampam as revistas, buscando ter o apartamento-modelo.

Sofrendo de insônia, Jack decide procurar um médico. “Quando se tem insônia, nunca se está realmente acordado ou realmente dormindo”.

Em um determinado ponto do filme, Jack conhece Tyler Durden. À partir desse ponto tudo muda.

O amor pelo líder, uma dascaracterísticas dos grupos é vista na obra, onde os integrantes do “Clube da Luta” amam e seguem inverteradamenteDurden.

A obra de Palahniuk de fato se mostra radical. Especialmente na abordagem dos personagens quanto à critica ao consumismo desenfreado. Fenômeno este que teve seu início já na Revolução Industrial. “As coisas que você tem acabam possuindo você”, diz Tyler em uma passagem do livro.

O “plano final” da trupe de Durden era explodir os prédios que sediam as operadoras de cartão de crédito, acabando assim com a dívida de todos os consumidores. “Zerando” o sistema.

Pensando na gramática lacaniana do nó-borromeano, “explodir” os prédios é algo tanto do registro do Simbólico, quanto do Real. Essa libertação é simbólica, fala ao leitor, diz de libertar-se da lógica de consumo, mas é também da ordem do Real, ao passo que, na história, os personagens o fazem literalmente, colocando dinamite, no concreto.

A Formação de grupos

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(Imagem retirada da Internet)

Freud (1921/1996)ao discutir a obra de Le Bon*, fala de três características que indivíduos apresentam quando em grupo.

A primeira delas é um “sentimento de poder invencível que lhe permite render-se a instintos que, estivesse ele sozinho, teria compulsoriamente mantido sob coerção.” (Freud, 1921/1996, p. 85). Ou seja, em grupo fazemos aquilo que não temos coragem sozinhos.

A segunda característica é o contágio, que se dá quando indivíduos realizam atos por imitação, ou semelhança em relação à seus irmãos de grupo (Freud, 1921/1996).

A terceira é a sugestionabilidade, que diz dos atos que são totalmente estranhos à determinado indivíduo quando  sozinho, mas identificados no mesmo quando está entre os pares do grupo (Freud, 1921/1996).

“Um grupo é impulsivo, mutável e irritável… Não pode tolerar qualquer demora entre seu desejo e a realização do que deseja. Tem um sentimento de onipotência: para o indivíduo num grupo a noção de impossibilidade desaparece” (Freud, 1921/1996, p. 88). Vejamos aí as torcidas de futebol, por exemplo.

Comprar para viver, ou viver para comprar

Temos um amor pelo dinheiro. Só por ter? Somos escravos daquilo que não abrimos mão.

Compramos as coisas muitas vezes por comprar, não é mesmo? Estamos em épocas festivas do ano. Nossos saldos no banco ficam negativos, mas sem problema, estamos comprando nossa felicidade. Compramos porque os outros compram, o grupo é sugestivo.

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(Imagem retirada da Internet)

Lacan (1969-70/1992), no seminário 17, O avesso da Psicanálise, constrói a noção de discurso, para indicar as modulações de laços sociais em diferentes grupos. O discurso se define como “  Essa representação conjuga portanto umaestrutura permanente e elementos cuja situação varia no interior dessa estrutura” (Kauffman , 1998, p.129-130). Ele formula quatro modalidades discursivas, O discurso do Mestre, O discurso da Universidade, O discurso da Histérica, e o discurso do Psicanalista. Após isso, ele indica um quinto discurso, o do capitalista. Que orientaria, segundo ele, nossas relações atualmente.

O discurso do capitalista nos leva à universalização, sempre tirando a originalidade da experiência (Barillot, 2016).

A tarefa da psicanálise é recolocar a castração em seu lugar. A busca incessante por objetos, por likes nas redes sociais, “matchs” nos aplicativos de relacionamento será sem faltante, incompleta.

O discurso da Psicanálise, em sua essência, transmite a falta, ao que Tyler diz: “Sou um estúpido, só o que faço é querer as coisas e precisar delas. Minha vidinha. Meu trabalhinho de merda. Minha mobília sueca”.

Tal qual o analista que aponta para a “falta-a-ser” (Quinet, 2015), Durden, por sua postura, justamente aponta para a falta de Jack. Sua tentativa frustrada de ter o apartamento do momento, tentando tamponar a angústia de viver uma vida sem sentido.

Hoje o Supereu não mais diz: pare, chega, basta, este é o limite. Hoje ele diz: goze, à todo momento. “Assista suas séries favoritas onde e quando quiser”. “Acesse seu e-mail em vários dispositivos”. “Não deu tempo de responder o aquele e-mail do cliente, sem erro, faça isso no caminho de casa, afinal, lhe demos um celular”. Não temos mais limites ou horários. Fica cada vez mais difícil conseguir um horário para ir à análise.

Compramos por que os outros compram. Já dizia Lacan: O desejo é sempre o desejo do Outro (Lacan, 1962-63/2005).

Que a “sexta-feira negra” tenha sido boa para vocês.

Boas festas.

Até ano que vem.

Por Igor Banin

* Gustave Le Bon (1841-1931), psicólogo social, sociólogo e físico amador francês.

Referências Bibliográficas

Barillot, P. (2016). Sair do discurso capitalista?. In Stylus Revista de Psicanálise (pp. 153 – 161, no 33). Rio de Janeiro.

Freud, S. (1921/1996). Psicologia de Grupo e Análise do Ego. In Além do Princípio do Prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos. (pp. 79-156 Obras completas de Sigmund Freud, v.18). Rio de Janeiro: Imago.

Kauffman, P. (1998) Discurso. In Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. O legado de Freud e Lacan. (pp.129-132) Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1962-63/2005) Angústia, signo do desejo. InA angústia. (pp. 25-37, Os Seminários, Livro X). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1969-70/1992) O mestre e a histérica. InO avesso da Psicanálise. (pp. 27-36, Os Seminários, Livro XVII). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Palahniuk, C. (1996/2012). Clube da Luta.Rio de Janeiro: Leya.

Quinet, A. (2015) O Grafo do Desejo. Aula realizada no dia 12/08/2015 no FCCL-Rio. Recuperado em 25 de Outubro de 2016, dehttps://www.youtube.com/watch?v=LFrD1HtPeWE