O Tempo Lógico de Lacan e os Três Tempos do Sujeito.

T E M P O

Bom dia, Boa Tarde, Boa Noite. No artigo de hoje, que pode terminar de ser lido amanhã, bem como poderá lembrar de algo lido no dia ontem, falaremos sobre um assunto atemporal. Falaremos sobre a lógica do tempo. E não será incorreto dizer que também falaremos sobre o tempo da lógica. Está confuso? Calma, há tempo de finalizar esta leitura, espero, entenderá.

Em Pleno Século XX e, sem vergonha alguma, também no século XXI, uma frase ficou muito famosa: Time is Money – Tempo é Dinheiro. E, se deixarmos as críticas a um certo sistema econômico de lado, poderemos nos adentrar mais ao seu conteúdo e buscar uma influência dele na subjetividade alheia. Nela – e aqui eu começo com meus julgamentos apressados, estejam à vontade para embasar sua censura posterior – o $ujeito se torna um mero agente transformador, aquele único responsável por transformar o intervalo de sua existência, a vírgula que separa seu nascimento de sua morte, na maior matéria de troca simbólica já inventada pelo homem. Seria uma troca justa?

Difícil saber sem conhecer todos os sujeitos, mas o foco aqui é Outro. Quando falamos sobre o tempo em si, podemos lembrar desde os filmes sobre viagem no tempo, as teorias da conspiração, teorias científicas pautadas no assunto e muitas outras relações sobre ele no dia-a-dia. Mas, como um psicanalista, Jacques Lacan resolveu estudar seus efeitos nas relações subjetivas. Mais do que isso: o aplicou à própria relação estabelecida com a lógica.

A relação do psicanalista com o tempo fica famosa nas sessões de 500 euros que duravam cerca de 20 minutos. O que poderia ser um ultraje para alguns, se tornava uma maneira de forçar o paciente a expulsar suas falas defensivas durante as sessões, para outros. Se era algo antiético a alguém que solicita cuidado para alguns autores, era uma maneira de fazer com que o paciente elaborasse aquele último assunto abordado em casa, no trabalho e em seus relacionamentos, sem que este tivesse tempo de se defender das intervenções. E a discussão é extensa.

A tentativa deste artigo será de falar um pouco mais sobre o conceito, deixando aos próprios leitores as conclusões múltiplas que lhes vierem. A única sugestão mandatária aqui é a do gozo de uma excelente trilha sonora que já irá falar sobre o assunto. Não podendo começar por Outra, comecemos a leitura deste artigo com uma música homônimamente apropriada.

O Autor

Jacques Lacan é, quando não o mais, um dos mais polêmicos psicanalistas que tivemos em existência. Não é difícil, se estamos entrando no universo psicanalítico, ouvirmos certas reservas à não ortodoxia nos métodos e, principalmente, na escrita e na fala de Lacan. Ouço, frequentemente, colegas se queixando da dificuldade na leitura dos Seminários, o que é entendível, uma vez que são transcrições daquilo falado; mas não é raro quem tenha dificuldade na leitura dos Escritos. E me sobraria arrogância se não me incluísse neste grupo. Lacan tinha uma forma própria de escrever, onde é necessário conter a ansiedade, respeitar cada artigo, cada vírgula, cada frase dita anteriormente; será necessário trocar a voz ativa pela voz passiva, respeitar aquela crase que foi inserida e principalmente o Tempo Verbal empregado. Lê-se uma frase que somente fará sentido no final daquele parágrafo, pregando uma peça no leitor ansioso. Faz-se uma referência àquele assunto anteriormente citado com uma vírgula ou uma crase no meio do assunto atual, o que confunde o leitor obsessivo por estrutura; alguns parágrafos demandam uma extensa repetição da leitura (e da releitura). Mais ainda: seu entendimento sobre um mesmo assunto pode até mudar de acordo com o avanço da própria análise.

É polêmico indagar se o autor fazia tudo isso propositalmente, mas ele, conservando a tradição, nos deixa na dúvida quando fala que o entendimento de seus textos estava longe de ser o seu objetivo. A polêmica já começa em uma indagação básica: que tipo de autor que escreve para não ser entendido? E isso foi dito pelo pelo próprio Lacan:

“Alguma coisa que é
característica de meus
Escritos é que não os escrevi para que se os compreendesse, eu os escrevi para que se os lesse”.

Jacques Lacan, 1974.
E é de um texto, escrito em 1945, contido neste próprio livro – Escritos (LACAN, 1998) – que o artigo a seguir tentará se basear:
O Tempo Lógico e a Asserção de Certeza Antecipada
Um novo sofisma (LACAN, 1998)

Um Problema de Lógica

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Ao início deste capítulo, Lacan apresenta um problema de lógica que serviu de base para o discorrer de toda a sua argumentação. A partir deste exemplo, haverá por Lacan uma leitura sobre as formas com que a lógica é empregada entre a apresentação do problema e sua solução encontrada. Confira:

A Lógica dos Três Prisioneiros

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O Diretor de um presídio faz com que três prisioneiros compareçam em um local de sua preferência e lhes oferece uma oferta irrefutável: A Liberdade, mas através da Lógica. Lacan não consegue deixar de estender isso à sua concepção subjetiva, e antes de utilizá-lo para aplicar essa utilização lógica em sua teoria sobre os sujeitos, retrata o caso em seu livro (LACAN, 1998), abrindo aspas à fala do Diretor:

“Por razões que não lhes tenho de relatar agora,
devo libertar um de vocês.
Para decidir qual, entrego a sorte a uma prova pela
qual terão de passar, se estiverem de acordo.”

“Vocês são três aqui presentes. Aqui estão cinco discos que
só diferem por sua cor: três são brancos e dois são pretos.
Sem dar a conhecer qual deles terei escolhido, prenderei
em cada um de vocês um desses discos nas costas, isto é,
fora do alcance direto do olhar; qualquer possibilidade
indireta de atingi-lo pela visão está igualmente excluída
pela ausência aqui de qualquer meio de se mirá-los”.

“A partir daí, estarão à vontade para examinar seus companheiros
e os discos de que cada um deles se mostrará portador
sem que lhes seja permitido, naturalmente, comunicar uns aos
outros o resultado da inspeção. O que, aliás, o simples interesse
de vocês os impediria de fazer. Pois o primeiro que puder deduzir
sua própria cor é quem deverá se beneficiar da medida liberatória
de que dispomos”.

“Será preciso ainda que sua conclusão seja fundamentada em
motivos de lógica, e não apenas de probabilidade. Para esse fim,
fica convencionado que, tão logo um de vocês esteja pronto a
formulá-la, ele transporá esta porta, a fim de que, chamado à
parte, seja julgado por sua resposta.”

Após a proposta ser aceita, cada um dos prisioneiros recebe o disco prometido. Entretanto, a exigência do uso da lógica não foi mera coincidência. O desafio foi aceito pelos presos sabendo da existência de três discos brancos e dois discos negros, talvez tivesse lhes parecido tarefa fácil realizar sua missão de adivinhar aquele que está consigo. O detalhe que torna a liberdade, nosso bem mais precioso, não tão fácil assim, é que: sem poder olhar o próprio disco, sem poder se comunicar com o Outro que partilha desta mesma ignorância a respeito de si, mas também partilha do conhecimento sobre o disco do semelhante, o que não se imaginava era que todos os detentos receberiam discos brancos.

O que o diretor não esperava, decerto, era que, após algum tempo de hesitação e pensamento: Os três sujeitos dão juntos alguns passos que o levam, simultaneamente, a cruzar a porta. Separadamente, eles se justificam da mesma maneira:

“Sou branco, e eis como sei disso.
Dado que meus companheiros eram brancos,
achei que, se eu fosse preto, cada um deles poderia ter inferido o seguinte:
Se eu também fosse preto, o outro, devendo reconhecer imediatamente que era branco, teria saído na mesma hora, logo, não sou preto.’

E os dois teriam saído juntos, convencidos de ser brancos.

Se não estavam fazendo nada, é que eu era branco como eles.
Ao que saí porta afora, para dar a conhecer minha conclusão.”

Mais intrigante: os três realizaram, ao mesmo tempo, o mesmo exercício do pensamento lógico. E é isso que serviria de base para Lacan explanar suas ideias.

Qual é a Lógica?

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Quando Lacan foca seu olhar no valor lógico da solução apresentada, ele a classifica como um “exemplo significativo para resolver problemas de uma função lógica no momento histórico em que seu problema se apresenta ao exame filosófico” (LACAN, 1998).

Fica mais fácil o entendimento se estiver ouvindo uma música:

Quando procura entender o pensamento lógico empregado por cada um dos detendos, Lacan se encontra em observar o ponto de vista exclusivo de um deles. Chamando-o de A, enquanto os outros dois teriam o nome de B e C.

E aqui espera-se que, quando A enxerga os outros dois portando discos brancos, na adoção da lógica clássica, convencional, sua primeira conclusão seria a de que ele só poderia portar um disco preto. Caberia ao detendo, não podendo perder tempo, correr e informar que, se vê dois que são brancos, ele só poderia ser, pela lógica, aquele que é visto como preto. Uma visão um tanto binária, um tanto imediatista, se pudermos aqui opinar. É, naturalmente, a primeira que nos vêm à cabeça. Não era preciso se aprofundar mais do que isso. Estava óbvio! “Se dois eram brancos, e aqui devo usar a lógica, é por ela que concluo que o terceiro deverá ser preto!”

Mas sabemos que para se tornar um ex-detento, o próprio agiu de forma diferente àquela empregada na hora de cometer seus crimes: ele deteve seus impulsos imediatos, ele se colocou no lugar dos outros e tentou entender como funcionariam seus pensamentos.

É Preciso Considerar os Tons de Cinza

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Nem tudo é apenas Preto ou Branco. Para Lacan, o ato final de se declararem todos brancos, teria a seguinte estrutura no pensamento de A: “Devo estabelecer minha dedução com base na conduta dos outros dois”. E enquanto A espera o movimento ou não dos outros dois, realiza um exercício de empatia notável ao pensar: “No que B e C se baseariam?”, e é assim que ele entende que eles se baseariam exatamente na causalidade mútua de suas condutas e condições. Ou melhor: se o movimento de B depende daquele realizado por C e vice-versa, a inércia de ambos somente poderia ser um resultado do que vêem na cor de A?

É a partir desta indagação que nosso inteligente prisioneiro faz algo que falta muito nos dias de hoje: ele começa a questionar sua própria certeza. Se, por um momento, ele acreditou ser o portador do disco preto, o que isso implicaria àqueles outros dois que ele, diferentemente dos mesmos, vê que estão com os discos brancos nas costas? O que eles fariam, ou melhor, o que eles fariam e pensariam, caso ele realmente estivesse correto em sua lógica imediatista e, de fato, estivesse ele mesmo com o disco preto?

Entretanto, abro um parênteses para dizer que considero importantíssimo, visto que deve ter estar finda a anterior, que mais uma música relacionada ao tempo esteja disponível aos sentidos dos leitores e das leitoras aqui deste artigo.

Moções Suspensas

E esta transição da primeira suposição de A até à chegada de sua conclusão final, começaria a partir daquilo que Lacan vai postular como uma Moção Suspensa. Uma espécie de verificação das possibilidades hipotéticas não partindo delas em si mesmas, mas dos fatos que fariam parte de sua ambiguidade. Estas seriam guiadas por aquele pensamento que não dependeria exclusivamente da experiência externa dos sujeitos, de uma forma pura da lógica que conhecemos. Poderíamos vê-las como uma espécie de fuga do hábito de focar naquele formalismo como ótica principal para se enxergar as coisas e como forma oficial de se empregar a lógica sobre elas – a partir de sua mera ordem cronológica, objetiva (focada no externo, nos objetos), espacial e contínua. É como se transpuséssemos o emprego da lógica daquilo que imediatamente nos é possível visualizar, pensar, fazer e sentir para um outro momento do tempo, em uma outra situação do espaço, que apenas existem em forma de possibilidade. É como se encontrássemos uma maneira de subverter o emprego da lógica, exatamente para que, paradoxalmente, facilitemos a sua própria aplicação. Seu foco não estaria naquilo visível aos sujeitos, mas exatamente naquilo que só poderá ser entendido a partir do invisível. Ao invés daquele congelamento a partir das impossibilidades lógicas predeterminadas pela falta de um elemento crucial à sua resolução, busca-se combinações possíveis em três tempos de possibilidade. E por mais que este conceito vos possa parecer confuso, é esperado que vá ficando de mais fácil compreensão ao longo desta leitura.

Por exemplo, se considerarmos que a realidade à qual os prisioneiros foram inseridos ali fora previamente pensada, cuidadosamente elaborada para estimular respostas que seriam previsíveis àquelas condições, é possível obtermos algumas conclusões do que se esperava estimular e para quê. Por exemplo, o fato de que há três prisioneiros e apenas aquele que der a resposta correta primeiro ganhará sua liberdade, pode ser uma conjectura previamente imaginada pelo criador daquele desafio: justamente para que assim induzisse aos ex-condenados um sentimento específico àquele contexto. Qual? A pressa. E talvez houvesse um motivo para isso. O que não era esperado pelo criador seria a astúcia de nossos detentos fazer com que eles pensassem exatamente o que questionaremos a seguir: e se, em um momento de pressa, como neste exemplo, procurássemos descobrir qual influência, qual a função que esta pressa ali implicada teria sobre a nossa percepção das possibilidades lógicas?

A Função da Pressa na Lógica

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Uma resposta possível à tal pergunta, pela parte de Lacan, poderia ser a suposição de que o tempo do presente, o tempo em que estamos agora, e toda a realidade visível apenas a este, se tornem um foco urgente para o emprego de nossa lógica clássica perante aquela pressa que fomos induzidos a sentir. E talvez isso ocorra exatamente porque é este mesmo presente que está em jogo para garantir o futuro tão sonhado, onde haverá liberdade. Mas, ainda na mesma suposição de que é esperado que tenhamos pressa neste presente que nos foi imposto, ainda na mesma suposição de que esta pressa fará parte daquilo foi considerado essencial na elaboração do desafio que garantiria liberdade aos presos, é possível começar a imaginar se haveria nela uma função, como por exemplo: induzir um pensamento, um raciocínio lógico correto do ponto de vista clássico, mas errôneo por contas das variáveis essenciais que ainda não são visíveis à consciência. E talvez este fosse o pensamento que forçosamente apareceria naquele Instante do Olhar, naquelas imediatas conclusões que seriam tiradas a partir da lógica clássica pensamento cartesiano: Vejo dois brancos, logo sou preto. Mas o que não era esperado pelo criador do desafio era que seria entendido pelos próprios detentos, claramente subestimados, que precisariam ir além da lógica clássica, pois “As formas da lógica clássica nunca trazem nada que não possa ser visto de um só golpe” (LACAN, 1998) e sua liberdade talvez não tivesse um preço tão barato.

As moções suspensas poderiam ser aquelas suposições ultra hipotéticas, feitas exatamente para que fugíssemos desta armadilha da lógica puramente objetiva. Então, se é esperado que nós mesmos, no tempo, no espaço e na situação em que estamos inseridos atualmente, tenhamos um pensamento lógico específico que nos induziria a atos específicos, o que poderia o outro, em um tempo, em um espaço e em uma situação que ainda não nos são possíveis de identificar através dos órgãos do sentido em nosso presente (exatamente porque não existe no mundo objetivo, externo, mas apenas no subjetivo, interno – na nossa mente de sujeito), mas são, por exemplo, possibilidades de um futuro imaginado pela nossa capacidade de exercer o pensamento? Seu papel crucial está nos forçarem aplicar a lógica em situações aquém daquelas que estamos enxergando e vivendo no tempo atual.

É como se não seguíssemos aquilo que a pressa teve por função nos induzir a fazer e também como se não ignorássemos a aplicação da lógica exigida no presente, em diferentes instâncias temporais. E se nestas instâncias, onde realizaríamos pequenas paradas em tempos existentes apenas em possibilidade, para a aplicação da lógica em momentos diferentes daquele que nos é apresentado externamente. Desta forma, avaliaríamos a qualidade efetiva de nossas conclusões lógicas imediatas, que talvez precisariam de elementos adicionais que não existem na realidade apresentada. E estes seriam os próprios elementos faltantes à sua possibilidade de verificação. Este seria um processo que talvez faça com que seja possível aplicar a lógica em diferentes tempos de possibilidade. Lugares onde ela teria ou não mais validade do que naquele em que é exposta. Ou seja: talvez aquilo que posso compreender baseado no que o mundo me apresenta agora, não me sirva para uma conclusão de imediato, mas se eu puder visualizar tal fato, mesmo que apenas em possibilidade, em um Outro tempo hipotético. Esta modulação dos tempos de possíveis poderá permitir entender onde estaria, já que não vejo, aquela hipótese que me faria chegar à conclusão que o problema solicita.

Vos deixo aqui mais uma música:

Time Travel: O Passado que só é Presente no Futuro

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Para começar a facilitar o entendimento de algo tão denso e complexo, talvez haja uma melhor visualização se recorrêssemos à gramática para uma rápida leitura:

Bruce Fink, em sua famosa obra “O Sujeito Lacaniano” (1998), logo após comentar a influência que o Seminário 8 de Lacan teria sobre a interpretação da obra “O Banquete”, de Platão, lembra de um exemplo utilizado pelo psicanalista ao falar sobre esta lógica temporal, onde o sentido não poderia nos vir de imediato, mas somente após alguns processos que nos fariam pensar em Outro tempo. No tempo em si haveria de ter um lugar, nesta cronicidade, onde seria possível encontrar o sujeito. Este seria aquele que está sempre quase chegando, junto ao aparecimento da responsabilidade perante o próprio desejo. No exemplo de Lacan que Fink evidencia, este tempo poderia ser melhor entendido através do próprio tempo do verbo em que está inserido o sujeito, ou seja, do próprio tempo da ação subjetivada.

Na frase: “Deux Secondes plus tard, la bombe éclatait” (A Bomba explodiria dois segundos mais tarde) Lacan coloca o verbo “explodir” em seu pretérito. Ou seja, só poderíamos estar falando aqui de uma ação que já ocorreu. Entretanto, este passado só poderia acontecer no futuro. Como se sempre houvesse uma condição implícita, um impedimento para que aquele ato evidenciado no passado só pudesse ser uma possibilidade daquele futuro que só existe a partir de algo que ainda não está explícito (p. 87). É como se tivéssemos a obrigação de imaginar que a bomba não explodiu no período que podemos observar, mas poderia ter explodido dentro das possibilidades de um futuro alternativo. Qual possibilidade de futuro alternativo? Aquela em que a explosão não fora impedida por algo não mencionado ali, um detonador que falhou, por exemplo, conforme podemos apenas supor. Entretanto, tais suposições não poderiam ser feitas sem um deslocamento nos tempos de possibilidade que existem nesta situação. Na língua portuguesa, este tempo verbal apresentado é o futuro do pretérito, aquele inexistente passado que é presente no futuro de possibilidades. E por mais contraditório que seu nome seja, ele faz sentido quando analisamos a lógica empregada pelo nossos prisioneiros.

O exemplo foi utilizado para que entendamos a prevalência de um raciocínio lógico existente para cada um dos tempos de possibilidade diferentes de um mesmo fenômeno. Quando enxergamos, de maneira problematizada, um futuro que só existiria num passado diferente e ainda assim este passado do futuro não é o nosso presente, é menos angustiante que esta ginástica mental finalmente nos sirva de alguma coisa senão para a adoção desta famosa face a seguir:

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No caso de Lacan, aquilo que nos faz aplicar a lógica naqueles tempos de parada que as moções suspenas exigem quando finalmente conseguem identificar algumas instâncias do tempo presentes em nosso processo lógico, é chamado de Movimento Lógico. Ele consistirá na aplicação desta logica naqueles tempos em que a pressa nos faz ignorar que existem em possibilidade, para que nos haja preferência para aplicá-la apenas no presente que enxergamos. Mas, para que isso aconteça e nosso pensamento dê o salto para a liberdade de nosso corpo, é-nos necessário começar por algo bem mais simples.

A Exclusão Lógica e o Movimento Lógico – O Instante de Olhar

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Para haver de sua parte um movimento lógico que busca, na sua aplicação da lógica em tempos distintos, para a visualização de múltiplos momentos de evidência para a falha ou sucesso de suas conclusões, foi preciso que houvesse na mente de A, aquilo que Lacan chamou em seu texto de uma exclusão lógica. Algo simples, mas eximiamente necessário durante o emprego de um pensamento além daquele imediato e limitado à lógica comum. É como se, na linha de construção de sua própria conclusão, fosse necessário ao sujeito validar as diferentes suposições hipotéticas que lhe são possíveis, mas soma-se a isso aquilo que evidencia ou esconde suas reais possibilidades. Como quando, uma equação de duas incógnitas, busca-se um artifício para que uma se faça, ao menos, útil o suficiente para facilitar a revelação da outra. Mesmo que ela por si não tenha valor para produzir uma certeza para o ato de enunciar a resolução do problema.

Música:

Poderia ser que existisse ali, implícito nas ações do prisioneiro, algo tão óbvio que nos é praticamente ignorado: para que A começasse a indagar as possíveis aplicações da lógica temporal que o cercavam, era necessário tecer indagações sobre qual tempo de possibilidade ele aplicaria sua lógica com sucesso, pois era preciso que descartasse as situações onde não existiria algum valor de evidência para que a lógica empregada lhe produzisse uma conclusão útil.

Por mais que estivesse implícito nas informações iniciais, e por mais que isso só pudesse ocorrer instâncias temporais imaginadas, distintas àquelas apresentados ao imediato; por mais que já se soubesse daquilo num só golpe, num só Instante de Olhar, a exclusão lógica foi a base de todo o movimento lógico que permitirá uma conclusão determinante para o ato em direção à liberdade: entender o que falta. Calma, vou explicar.

Num Instante de Olhar, Busca-se Aquilo que Falta para Chegar a Tempo Para Compreender

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Quando o prisioneiro A resolve questionar a validade de sua hipótese imediata, aquela em que ele seria preto, ele também pensa que B, em um futuro cenário hipotético, faria conjecturas para também aplicar sua lógica de maneira semelhante. Indo adiante, caso A realmente carregasse um disco preto em suas costas, B poderia pensar:

“Se eu vejo que A é preto e sei que há apenas dois discos pretos, apenas uma pessoa também poderá ter um disco preto além de A. Sei que C, definitivamente não é esta pessoa, pois ele eu mesmo vejo que é branco! Portanto, sabendo que há no total três discos brancos e dois discos pretos, se meu campo de visão me permite enxergar um disco preto e um branco nos outros dois prisioneiros, mas não posso enxergar a cor do meu próprio, minha lógica me ajuda a crer que o disco pendurado em minhas costas poderá ser tanto preto como branco. Mas o que acontecerá se estiver comigo o disco preto que falta? Bem, suponho que neste caso C estaria vendo dois discos pretos. Portanto, não sendo ele incapaz de exercer seu raciocínio com maestria, aplicará uma lógica muito simple para suas conclusões: se ele vê dois discos pretos em seu campo visual, não sabe a cor do disco que carrega, mas sabe que o total de discos pretos é exatamente a quantidade que vê, a própria lógica mostrará para C que o disco em suas costas apenas poderá ser branco”.

Ou seja, se há dois discos pretos em meu campo de visão, e sei que existem três no total, aquele que eu não vejo, e que está em mim mesmo apenas poderá ser branco.

E aqui temos um primeiro momento de evidência para ser validado:

“Estando diante de dois pretos, sabe-se que é branco”.

E esta seria a primeira hipótese daquele que vê dois pretos, caso A fosse realmente preto. Mas este pensamento é rapidamente descartado, pois perde seu valor instantâneo de evidência e é excluído das possibilidades de opções viáveis e que poderiam, num futuro do pretérito, serem tomadas como a verdade que leva ao ato.

Em mais um empréstimo dos termos da linguística, Lacan vai nos dizer que este simples processo se assemelha à preparação de uma frase. Pois se a exclusão lógica nos servirá para chegar ao próximo passo, isso só poderá ocorrer da mesma forma como uma prótase serve uma apódose na estrutura sintática que envolve uma oração.

Ou seja, quando pensamos num futuro de possibilidades hipotéticas, em uma instância do tempo que seria ignorada pela lógica clássica, poderemos fazer com que, No Instante do Olhar o dado da prótase “diante de dois pretos” seja conduzido ao dado da apódose “é-se branco” (LACAN, 1998). Daqui poderá se fazer a seguinte equação lógica: DOIS PRETOS = UM BRANCO.

E é esta exclusão lógica das incógnitas explícitas, para a apresentação daquelas que até agora a lógica clássica fez com que o sujeito ignorasse, mas que se fazem essenciais ao processo lógico que permitirá uma transição do Instante do Olhar, que tomaria o sujeito por seu imediatismo, para um segundo momento de evidência, chamado Momento de Compreender.

Se uma Parte me Falta, Parto Dela para Produzir sua Existência

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Portanto, é somente a partir da exclusão lógica que se poderá buscar a verdadeira incógnita daquela situação onde a lógica se faz necessária. E se poderá fazer isso agora pois ela FINALMENTE DEIXOU DE SER IGNORADA PELO SUJEITO.

E talvez algo tenha sido ignorado por quem lê este artigo. Exatamente. A música.

Como em uma equação matemática, quando no tempo subjetivo, chamado de Instante do Olhar, o sujeito realizar a exclusão lógica que o permitirá descartar uma incógnita que ainda velava parte de seu raciocínio lógico final, passará finalmente a raciocinar em direção às hipóteses autênticas, onde poderá visualizar a verdadeira incógnita do problema – aquela que era ignorada durante o uso da lógica comum por sua parte. Agora que o sujeito deixa de ser aquele guiado pela imediaticidade do Instante de Olhar, ele finalmente poderá ter algum Tempo para Compreender a real dinâmica em que está inserido, já que, se o valor instantâneo de sua lógica naquele momento temporal é o que o permite continuar questionando, é porque este valor há de ser, necessariamente aquele que o permitirá ir mais além: ZERO .

O Sabido Não Saber vs O Não Sabido Saber

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À descoberta de que alguém precisaria enxergar dois discos pretos para concluir ser ele mesmo o portador de um disco branco deveria ser algo implícito no contexto daquele que supõe-se portador do preto apenas por ver dois brancos. Entretanto, esta lógica só se fez sabida para aquele sujeito, na não ocasião de sua presunção lógica imediata se tornar a única a ser considerada por ele.

Exemplo de Questão do Enem que exige o emprego de uma lógica semelhante.

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Resposta: ( C) 50 ——> Se tira 50 homens, a sala ira ter 49 homens e 1 mulher no total 50 pessoas se fizer a regra de três simples 100% x50 —– 49=98%) Ao primeiro impacto, muitas pessoas se sentem tentadas a responder 1, 2 ou N.d.a por conta dos desafios aqui empregados pelo mero uso da lógica objetiva.

Vejamos bem: não seria esta intuição tão fácil de se fazer com os dados que a aparência da situação, em que se encontrava o sujeito, continuassem produzindo nele apenas pensamentos lógicos restritos àquilo que lhe forneceram para observar. Mas ao contrário, ela passou a ocorrer por derivar da exclusão desta mesma conclusão que só poderia ser tirada a partir daquela primeira exposição. O sujeito decide ignorar o próprio conselho imediato que a primeira impressão lhe dá sobre o fenômeno, e é só a partir daí que começa a refletir sobre sua necessidade de pensamento: sendo agora melhor aplicar a lógica como se estivesse em um tempo a partir das relações que estabelece com os outros.

Para exemplificar: ocorrerá exatamente como é retratado no pensamento do Prisioneiro B:

“Um momento: o Prisioneiro C estaria imediatamente correndo para informar a conclusão que chegou de sua própria cor, caso eu também fosse da cor de A, caso eu também fosse preto. Logo, se C está em inércia, eu não poderia ser preto!”

E se neste tempo todo que o Prisioneiro B ficara imaginando estas possibilidades, entende-se que ele também não saiu correndo, exatamente porque não estava a enxergar dois discos pretos. A partir daí, O Prisioneiro C também poderá concluir que é branco, também por conta do não movimento do Prisioneiro B.

Lacan vai postular que, existirá um objetivo e um término do tempo disponível para que os dois brancos elaborem suas conclusões lógicas que definirão suas próximas ações subjetivas. Mas mais do que isso: haverá nestas ações subjetivas as conclusões que seu próprio semelhante e observador poderá extrair delas irá determinar a conduta seguinte – e vice-versa. Portanto, se sua ação for a própria inércia mútua retratada pelos dois que são brancos, no problema dos prisioneiros em questão, a ação própria do sujeito denunciará àquele outro que a observa algo não dito em explícito. Por exemplo: que não foram avistados dois discos pretos em lugar algum se nenhum dos dois se movimentou. Como assim? Simples. Esta etapa de verificação daquela possibilidade imaginada por A, de ser ele mesmo preto por ver dois brancos, faz com que os prisioneiros B e C concluam-se portadores do disco branco exatamente pela inércia que causaram um no Outro:

“Se eu fosse preto, ele já teria saído sem hesitar; se ele hesitou, sou branco. Não haveria como hesitar aquele que vê dois discos pretos à sua frente, uma vez que este possuirá todas as suas possibilidades disponíveis em seu presente imediato de saber, pela lógica simples, que é ele mesmo o único portador de um disco branco.

Para Lacan, deveria haver algum limite para este Tempo para Compreender que os sujeitos usufruem na utilização de uma lógica temporal. O psicanalista tenta explicar a tênue linha temporal de delimitaria isso, ou não:

“O Tempo de Compreender” pode reduzir-se ao instante do olhar, mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender”. (LACAN, 1998. p. 205)

E é neste momento que se perde um pouco da objetividade deste tempo em relação à sua duração, mas seu sentido se mantém vivo: ele produz sujeitos que dependem de ações recíprocas para que se movimentem, para que possam evoluir suas conclusões. Em Outras palavras: sujeitos que apenas desenvolvem seu crescimento a partir de um Outro em que ele causa o mesmo que é sentido. Sujeitos que se libertam de convicções rasas quando entendem que é preciso empatia para que haja tempo para compreender.

Neste caso a inércia do outro se torna a maior informante do disco que ambos carregam:

“Se eu fosse preto, os dois brancos que estou vendo não tardariam a se reconhecer como sendo brancos”.

Afinal, para eles, enxergar um preto e um branco poderia ser fonte de dúvida a respeito da própria cor invisível que ainda é a si”. As ações daquele que ele vê do outro branco determinariam sua percepção: “Se ele correr, minha conclusão deverá ser: sou preto”. Pois a única justificativa esperada é que tenha corrido por estar vendo exatamente os dois únicos discos pretos, sobrando a si o disco branco”.

Todo este movimento de deslocar a própria lógica além do que se vê objetivamente, todo este movimento de deslocar a lógica para outras Instâncias do Tempo é o que permitirá o sujeito chegar ao momento de concluir o seguinte: SOU BRANCO, DEVO CORRER E REVELAR A TEMPO PARA FINALMENTE SABER DE VERDADE.

O Momento de Concluir o Tempo para Compreender: A Asserção da Certeza Subjetiva para Validar a Certeza Objetiva.

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Fiquem tranquilos, uma música que faz referência homônima a este título não vos irá faltar.

Finalmente o prisioneiro conclui que: se os outros dois hesitaram em declarar a própria cor, ele só poderia ser preto. Se B não corre porque não vê C ser preto ao lado de A. E se C não corre por não ver B ser preto ao lado de A. A não pode ser preto. Se A não é preto enquanto vê dois brancos, logo todos são brancos. A deverá se apressar para declarar que é branco antes que os outros brancos o façam pela mesma lógica.

Esta conclusão só foi possível a partir de um lógica diferente da convencional. Entendamos que, objetivamente, apenas era possível enxergar dois brancos. Aplicando a mesma lógica objetiva naquele tempo e espaços, nada se concluiria senão aquilo já visto. Foi preciso do auxílio das moções suspensas até que se chegasse a uma lógica semelhante ao Tempo do Sujeito para Lacan, uma lógica de um tempo que está quase chegando por conta de algo que pode acontecer, algo como um futuro tão certo quanto um suposto passado dependente dele, conforme explicado anteriormente.

Entenderemos aqui que, assim obtida esta certeza, através de uma lógica que atravessa os limites que o sujeito estabelecia apenas por observar os objetos à sua frente, o sujeito agora é dono de uma lógica que apenas a ele pertence. E quando falamos desta lógica subjetiva, falamos de uma lógica que não mais depende do mundo dos objetos apenas por uma condição: que aconteça o ATO.

“Esse, portanto, é o momento de concluir que ele é branco; de fato, se ele se deixar
preceder nessa conclusão por seus semelhantes, não poderá mais reconhecer que não é preto. Passado o tempo para compreender o momento de concluir, é o
momento de concluir o tempo para compreender

(LACAN, 1945/1998, p. 206. grifo meu.)

O que Lacan quer dizer aqui é simples e pode até ser trazido ao senso comum: “Se você basear seus atos EXCLUSIVAMENTE às percepções externas, ou seja, dos outros, você nunca sairá do lugar”. É quase como a clássica frase: “Se preocupe mais com o que pensa de si mesmo ao invés de se preocupar com o que os outros pensam de você“. E eu explico:

Se o Sujeito A, após assumir que tem certeza de que é branco, decidisse não agir em prol daquela certeza sem hesitar, ou, pior ainda, se tivesse aguardado um segundo a mais: os outros dois brancos se movimentariam a fazer o mesmo. Pois lembram-se de sua moção suspensa? “Eles estariam correndo juntos se eu fosse preto”. Portanto, se A demorasse mais para agir, ou interrompesse sua ação apenas porque os outros também passaram a agir, teria, para sempre, a certeza errônea de ser preto. E aqui a lógica subjetiva perderia para a lógica objetiva. Exatamente porque os outros dois estariam correndo juntos. E não por enxergarem que A é preto, e sim porque todos chegaram ao mesmo tempo ao diretor – exatamente por todos terem utilizado a mesma lógica de A.

E vocês podem perguntar, objetivando: mas A não tinha certeza plena de ser branco. Ele não havia como provar isso de forma outra senão a partir de meras deduções. E aqui chegamos ao que Lacan chamou de Asserção da Certeza. E é somente através dela que se tem coragem para agir. E é somente agindo que se terá certeza plena.

A Ação do Ato na Subjetividade

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Lacan nos mostrou, neste exemplo, o seguinte: o sujeito não terá direito à própria lógica enquanto estiver preso às ações dos outros. Mais ainda: não será possível que alguém tenha certeza de fato se não a afirmar através do ato.

Se não fosse a tomada de decisão apenas da certeza enunciada, da asserção da certeza, a verdade não poderia ter sido descoberta. A verdade do sujeito mora no ato, no ato subjetivo que o garante transcender na aplicação de sua lógica sobre o mundo. E é por isso que às vezes o tempo cronológico não basta.

Uma análise ou até uma única sessão de análise, se bem pautadas pelo tempo lógico, terão:
O Instante do Olhar – O Tempo para Compreender – O Momento de Concluir

Exatamente para que o sujeito tire proveito do movimento que lhe esperado para fazer em sua vida. Que o sujeito saia do futuro do fato e viva a ação do ato.

O saber, o efeito, o dano ou o sucesso de uma sessão ou de uma análise, em minha opinião, não estão em lugar nenhum a não ser no ato cometido pelo sujeito que era acometido pelo ato.

Por Caio Cesar Rodrigues

REFERÊNCIAS

Jacques Lacan em Conferência de imprensa realizada em 29 de
outubro de 1974 no Centre Culturel Français, Roma. Lettres de l’École Freudienne de Paris.
FINK, Bruce, 1956 –, O sujeito lacaniano; entre a linguagem e o gozo/ Bruce Fink; tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara; consultoria: Mirian Aparecida Nogueira Lima. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN, Jacques, 1901-1981. Escritos/ Jacques Lacan; tradução Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

***Todas as imagens contidas neste artigo foram obtidas de forma livre na internet. Caso você seja proprietário de uma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

Estruturação frente à falta do Outro

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(Imagem retirada da Internet. Na imagem lê-se: Nós temos os líderes que merecemos?)

Algum tempo atrás, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, intensificou a luta com relação à restrição da entrada no país de imigrantes ilegais.

Com a prática chamada de “tolerância zero”, o presidente determinou que ao serem flagradas ingressando em solo americano ilegalmente, as famílias fossem apartadas, com as crianças sendo direcionadas a abrigos. Antes, sempre que possível, as famílias eram mantidas unidas em prisões.

É importante apontar que parte das crianças que se encontram em abrigos, atravessou a fronteira sozinha, fugindo da violência de seus países de origem.

Muitas das crianças foram separadas dos pais antes dos 04 anos de idade. Isso impacta diretamente na estruturação da criança enquanto sujeito.

As fases do desenvolvimento sexual foram magistralmente descritas pelo meu colega Caio César. Sugiro que se remetam à esse texto para maior enfoque no tema.

Nasce um sujeito

2

(Imagem retirada da Internet)

Quando uma criança vem ao mundo, ela “chega ao mundo, portanto, engendrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo” (Flesler, 2012, p.17). Isto é, ela vem carregada já de significação, ela já é falada no discurso dos pais.

A sua entrada na sociedade se dará por meio de uma balização imaginária, de forma especular. Explico. O eu, a noção própria de quem somos, que é diferente dos outros, só é obtida à partir do tu, à partir, justamente do outro, que é encarnado, normalmente, pela mãe, pai, e/ou cuidadores iniciais da criança.

Pouco à pouco começa à emergir na criança o símbolo (Lacan, 1953-1954/1996). A criança começa à entrar no jogo simbólico, começa a estar submetida à regras, na escola e em casa. Aí, efetivamente começa a humanização, o processo de entrada na cultura.

Dois conceitos concebidos por Freud merecem nossa atenção nesse momento, pois interpelam diretamente a estruturação da criança enquanto sujeito.

O primeiro é a noção de Eu Ideal, uma instância primariamente imaginária, ligada ao desejo materno, ao olhar do Outro sobre o bebê. Quando uma criança nasce, há um investimento libidinal muito forte por parte dos pais (ou cuidadores). Eles depositam na criança uma série de afetos muito intensos.

Após o Complexo de Édipo, entra em cena o Ideal de Eu, referência externa à família, que baliza as relações da criança com o grupo social em que está inserida. Ou seja, a criança passa à ter como referência algo externo, um ideal, uma causa que não esteja em seu círculo familiar.

O olhar desejante da mãe para o bebê configura o primeiro objeto da criança, a primeira forma de relação do sujeito. Esse é o Eu Ideal.

Psicoses e outras saídas desfavoráveis

3

(Imagem retirada da Internet)

O rompimento abruto do contato da criança com os genitores pode ocasionar uma série de complicações. Buscarei me apoiar também em trabalhos de F. Dolto e D. Winnicott.

A presença de um genitor nessa fase que é crucial para a constituição do sujeito. O atendimento psicanalítico à essas crianças vai na direção de uma aposta em um possível, de uma estruturação possível.

Um exemplo de um caso em que o analista aposta no sujeito, é o Caso Dominque, contado por Françoise Dolto no livro de mesmo nome. É um texto que me parece importante citar, dado que a “criança”, já com 14 anos, apresentava uma  série de comportamentos psicóticos, totalmente desconexos com a realidade.

Naturalmente, a separação vivida por Dominique é bem diferente daquela enfrentada pelos filhos e filhas de imigrantes ilegais, atualmente nos EUA. Todavia, os efeitos psicotizantes da falta de uma figura paterna (ou que faça a função paterna) são notáveis.

Como diz Dolto (2010): “O amor que o ser humano, em sua pessoa em via de estruturação, tem pela mãe e pelas pessoas à sua volta é um amor cuja resultante efetiva é uma mímica de identificação, seguida do processo de introjeção”. Vemos aqui, o reconhecimento em forma de espelho que lhes dizia, uma identificação com os pais ou cuidadores que se rompida abruptamente, resulta em um sujeito preso em tempo passado, não conseguindo elaborar sua perda.

Winnicott, em seu trabalho Privação e Delinquência, fala justamente dos efeitos em crianças que não tiveram o acolhimento necessário, ou que o perderam, em momentos muito precoces da vida. A Criatividade Primária da criança é prejudicada, e surge, o que o autor chama de Tendência Anti-Social. Falando de Criatividade Primária, sugiro a leitura do texto do meu colega Caio Ferreira.

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(Sociedade dos Psicólogos, 2017)

Olhemos pelos pequenos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Referências Bibliográficas

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1953-1954/1996) Os escritos técnicos de Freud – Os Seminários, Livro I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Winnicott, D. (1987). Privação e Delinquência. São Paulo: Martins Fontes.

O Que São Afetos, Emoções e Sentimentos? Quais as Diferenças entre Eles?

Monalisa

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Monalisa, de Leonardo da Vinci, é um quadro que ficou famoso pela confusão causada àquele que o vê. Não se sabe ao certo se a moça sorri, se sofre, se desdenha, suspeita ou odeia. Não se sabe ao certo quais emoções estão ali representadas. Caberá sempre ao expectador da obra nomear os afetos, sentimentos e emoções. Mas a condição primordial para o sucesso do quadro é: apenas aqueles por ele enxergados. É claro que, na variedade da experiência humana, estes poderão ser variados de acordo com a experiência individual de quem vê.

Afeto, Emoção e Sentimento: Conceitos, Semelhanças e Diferenças

Segundo Karen Quigley et al (2014), não existe uma definição amplamente aceita sobre o que é a emoção. Talvez ela fosse um conjunto de pacotes coordenados de experiências de mudanças fisiológicas e de comportamento, ou um Estado Mental que as pessoas associam a algo dito no senso comum (raiva, medo, nojo, tristeza, alegria). E talvez emoções envolvam mudanças no afeto, mas mudanças no afeto nem sempre se transformam em emoções. Mas se preferirmos as definições aqui apresentadas, estaremos longe de algum tipo de consenso ou imparcialidade teórico-científica (QUINGLEY, K.S.; LINDQUIST, K.A. & BARRET, L.F., 2014).

E aqui falamos sobre a psicologia, as neurociências e a psicanálise. Estas que, às vésperas do segundo século de duração, discutem frequentemente um consenso definitivo ou próprio destas emoções, sentimentos e afetos.

A Sociedade dos Psicólogos tentará, com muita parcialidade (já que esta é bastante afetada pela psicanálise), trazer alguns destes conceitos e suas diferenças. Lembramos que isso acontecerá a partir de engendramentos oriundos de múltiplas fontes de leitura. Entretanto, há aqui um aviso: a maioria é psicanalítica. Por isso, são mais do que bem-vindos os comentários, as críticas e os complementos dos leitores deste artigo. Boa leitura.

Emoções e Sentimentos: Psicologia Experimental

Em 1879, em Leipzig, na Alemanha, surge o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Um de seus fundadores foi Wilhelm Wundt, o mesmo autor que, em 1873, publica o trabalho intitulado Principles of Physiological Psychology (Princípios de Psicologia Fisiológica). A intenção declarada de Wundt era, segundo ele mesmo, criar um novo campo do conhecimento: a psicologia.

Como um médico, naturalmente Wundt seria orientado pelas evidências observáveis necessárias para que um conceito seja aprovado pelo método científico. Portanto, o desejo de ser chamado de psicólogo o fez deparar-se, à época, com a dificuldade de explicar aquilo que se experiencia individualmente, aquilo que se passa dentro da cabeça, ou mente, de alguém. Aquilo que a dissecação do cérebro de um cadáver não poderia explicar por si só. Aquilo que se apresenta no relato, pois necessita dele, poderia se tornar, de fato, ciência?
Wundt diz que as sensações e os sentimentos seriam as duas formas básica de experiência humana, postulando ainda que, para que fossem observadas, seria necessária um exame do estado mental experienciado. O autoexame dos estados mentais era chamado por ele de introspecção.

A sensação seria um resultado da comunicação entre o Sistema Nervoso Central e os órgãos dos sentido [no Sistema Nervoso Periférico]. Ou seja, os impulsos resultantes da estimulação do tato, paladar, olfato, visão ou audição atingem o cérebro e aí se “sente” algo. O sentimento, para Wundt, já estaria ligado ao que se percebe na experiência imediata, ou seja, o prazer e o desprazer; a tensão e o relaxamento, e a excitação e a depressão. Para o filósofo, psicólogo e fisiologista, as emoções poderiam englobar este conjunto de percepções fisiológicas que acompanham a experiência.

Sigmund Freud (1856-1939)

Os séculos XIX e XX pareciam carregar, especialmente na França, Alemanha e Império Austro-Húngaro (futura Áustria, após o término da Primeira Guerra Mundial), um interesse especial dos médicos pela mente humana.

Após sua especialização na área de neurologia, o médico Sigmund Freud não se contenta: se encanta com os Estudos de Charcot sobre a Hipnose e o Inconsciente. Decide investigar mais detalhadamente os resultados da experiência, mas não só aquele oriundo das percepções fisiológicas, como também no comportamento contínuo e nas patologias que a medicina não conseguia explicar com sua biologia observável através do método científico.

Em obras importantes à sua teoria, como Estudos Sobre a Histeria (1893-1895), A Interpretação dos Sonhos (1899-1900), A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Totem e Tabu (1913), O Eu e o Id (1923) e O Mal-Estar na Civilização/Cultura (1930) é possível observar que Freud, aos poucos, em uma crescente de seus conceitos, vai creditando à experiência da mente mais do que meros resultados fisiológicos captados pelos órgãos dos sentidos. As experiências postuladas por Wundt – de prazer e desprazer; tensão e relaxamento e excitação e depressão – eram também vistas por Freud através da relação daquele sujeito com aquilo e aqueles que o cercavam. Melhor dizendo, estas experiências seriam moldadas pelos afetos, os fluxos energéticos que acompanhavam as representações mentais criadas nas relações com os objetos externos à experiência individual. O sujeito seria afetado ao longo de suas relações interpessoais. Sua experiência individual era afetada por aqueles que lhe apresentavam e representavam o mundo (a linguagem). Portanto, a introspecção consciente não bastaria para entender as complexidades da mente – a própria consciência não o faria! Suas emoções apareciam de acordo com sua experiência afetiva histórica (talvez até pré-histórica!), ou seja, experienciaria sua raiva da maneira que aprendeu a fazê-lo a partir da relação com o Outro. E isso não seria diferente em sua alegria, medo, tristeza, nojo, vergonha ou culpa.

Contudo, na obra de Freud, o conceito de Pulsão se tornou o cerne de sua teoria. É altamente recomendado que você o conheça melhor ou o reveja no link a seguir:

O que é Pulsão? Qual é a Diferença entre Pulsão e Instinto?

Ao longo de sua obra, Freud enfatiza que estes processos acontecem em Instâncias Psíquicas diferentes que operam de forma conjunta. Seus nomes evoluem junto com seus estudos, mas, em geral, fixa-se o conceito de que: a consciência não governa os sujeitos, apenas auxilia na conciliação das exigências de seu Real Governador (o Inconsciente) e seus Simbólicos Órgãos de Fiscalização – A Leis, a Moral, as regras de convivência em Sociedade (1900). Freud ainda enfatiza que muitas experiências se perdem à consciência, e que a censura oriunda desta é uma forma de proteção ao desprazer, à tensão e à constante necessidade de excitação sensorial que as proibições sociais podem causar àquele que não consegue realizar e, portanto, satisfazer e obter descarga de excitação aos desejos oriundos do próprio Inconsciente. Tudo isso guiado por forças desconhecidas à consciência. Estas forças iriam além das instintivas, comuns aos animais. Portanto, falamos de forças que excederiam as buscas por sobrevivência e reprodução, mas que moveriam a experiência histórica dos seres humanos.

A questão é que tudo isso só aconteceria na relação do sujeito com o Outro. Na maneira em que o sujeito é afetado, após ser invadido pela linguagem, que o ligaria à sociedade, bem como às leis estruturais que a cercam. Portanto, as emoções e os sentimentos poderiam ser produtos da influência destas relações afetivas nas percepções sensoriais. De maneira mais simples: a maneira com que somos afetados subjetivamente, mentalmente, por algo ou alguém, nos permitirá experienciar no corpo o conjunto de sensações e percepções fisiológicas atreladas por associação e/ou causalidade àquilo. Isso ocorre à medida que nos relacionamos com o quê, quem, ou com representação simbólica daquilo que originalmente nos afetou. E, a partir da gravação mnêmica disso, poderíamos repetir um conjunto de afetos antigos a partir de um novo que é experienciado. Ou seja: se me entristece a morte de meu papagaio, em conjunto, a própria tristeza deste fato em si me fará entristecer mais uma vez pela morte de minha avó, algo ocorrido há dez anos.

Esboçamos um sorriso ao recebermos aquilo que fomos ensinados, através linguagem, como sendo um elogio. E o fazemos porque isso também implica que, da maneira que acreditamos ser que somos, nos tornamos objeto de desejo a alguém. Talvez o destino disso se chame alegria. Talvez alguns poetas relatem de uma maneira que se chame amor. Mas é certo que isso também poderá lembrar uma experiência antiga, como a alegria de saber-se amado pelos cuidadores que se tornaram nossas referência afetivas.

Os Outros Afetos

O psiquiatra francês Jacques Lacan (1901-1981) acata a maioria dos ensinamentos Freudianos e, de maneira que pode até lembrar uma crítica ou ruptura, os tenta complementar com o que traz do Estruturalismo de Ferdinand de Saussure, Claude Lévi-Strauss entre outros renomados autores. Mas aqui são citados os que falam mais sobre a linguagem e o estruturalismo.

Sua frase mais famosa é, sem dúvidas, aquela em que diz que O Inconsciente é Estruturado como uma Linguagem. As polêmicas interpretações possíveis são temporárias. Talvez, o mais aceito para o que se quis dizer aqui, pelo nem sempre simpático franco-psiquiatra, poderia ser que: assim como uma linguagem é estruturada, segundo Saussure (1916), a partir de um signo, significante e significado, o Inconsciente Freudiano, conforme Lacan o entenderia, também teria uma estrutura semelhante a esta em sua formação. E Lacan diria isso ao entender que os sujeitos estariam inseridos, invadidos, amarrados e barrados na sociedade através da linguagem. E as mesmas regras sobre a arbitrariedade do signo de Saussure, nas mesmas regras regentes da linguagem, Lacan viu semelhanças às regras que também poderiam reger o inconsciente de Freud. Por exemplo: os Mecanismos de Defesa de Condensação e Deslocamento, postulados por Freud como comuns aos sonhos, poderiam seguir as mesmas estruturas de figuras de linguagem como a metáfora e a metonímia, no que diria respeito à similaridade e contiguidade dos conteúdos. Sendo assim, A Interiorização das Regras dependeria da Interiorização da Linguagem. E a noção, a nomeação do próprio corpo, também. A linguagem se inscreveria nos corpos através de seus significantes, ou melhor, daqueles que vêm do Outro. Portanto, a linguagem estaria no corpo e na mente de maneira estruturada, sempre (bem ou mal) representada através de significantes ligados metafórica e metonimicamente em cadeia associativa.

A questão é que, segundo Lacan, muitos destes significantes, diferentemente do que é postulado por Saussure, poderiam carecer de significado se os observarmos apenas pela sua lógica conceitual. O significado dos signos, daquilo que está nas formas de representação, para Lacan, estaria nas relações com Outros significantes, em uma cadeia de representações inconscientes quase interminável. E de tudo isso dito, se indaga se os significantes também carregariam afeto. Em seu tom de voz, no volume de sua fala, na ordem escolhida para as palavras ou na velocidade do discurso adotado. Neste caso, os significantes também afetariam os sujeitos.

Como escutamos algo? Como somos afetados por algo? Através do que aquilo representa para nós.

E não seriam as emoções, portanto, resultados, destinos e traduções, daquilo que nosso corpo e nossa mente (ambos em função de uma cadeia de significantes) experienciam a partir dos afetos? Ou, pelo menos, como aprendemos a nomear tais coisas?

Aquela bronca que levei de meu pai quando andava de bicicleta na infância, por, segundo ele, estar indo muito rápido. Aquilo me gerou certa raiva ao momento. Sei que é raiva, uma vez que a linguagem, concedida, incidida em mim por meus semelhantes, me ensinou que este era o nome dado ao meu cerrar de punhos e lábios, do ranger de meus dentes e do calor facial (por conta do aumento do fluxo sanguíneo) que acompanham aquela vontade de praticar violência, aquela agressividade ou hostilidade. Entretanto, por ser uma criança em busca do amor de meus pais, eu que não me permitiria sentir esta vontade de aniquilação por quem tanto fazia e poderia fazer por mim. Portanto, consegui expulsá-la de minha consciência à tempo. Ufa! Mas, trinta anos depois, aconteceu um caso curioso: como que uma pessoa tão calma e serena como eu agrediria, violentamente, um guarda de trânsito num surto incontrolável de cólera? Apenas por este me dar uma multa por excesso de velocidade que pratiquei em minha motocicleta superpotente? Ou será que foi a adoção do mesmo tom de voz que, há muitos anos, fora empregado por meu pai? Será que o infeliz guarda de trânsito recebeu toda aquela raiva guardada por trinta anos, apenas por conta de seu timbre, entonação ou volume de voz? Ou foi também alguma outra relação desta cena com a aquela antiga, da bicicleta, que para a realização de um desejo infantil, se tornou uma moto muito potente? Será que foi a semelhança entre o conteúdo da multa e da bronca? Talvez tenha sido todo o conjunto de afetos associados a uma só emoção: a raiva.

Talvez no caso fictício acima tenhamos uma expressão da presença do afeto na linguagem e nas emoções. E aqui falamos de um em especial que tenha sofrido certa repressão da consciência (e é importante diferenciar esta do recalque, mas talvez em um texto à parte) e, anos mais tarde, através de significantes em cadeia de representação (bronca por andar de bicicleta muito rápido – multa por excesso de velocidade; raiva do pai – raiva da figura da Lei, o guarda; tom de voz do guarda – fonte de mobilização do afeto reprimido ao pai: a partir disso tudo, a percepção fisiológica atrelada à raiva – calor, cerrar de punhos, ranger de dentes – se liga ao ato e desejo anterior de agressividade).

Portanto, através da linguagem, os afetos se ligam às percepções sensoriais e podem provocar respostas fisiológicas aos estímulos externos, objetos externos ou significantes (podendo estes três serem um só). Seria isso então a emoção? Uma resposta fisiológica mobilizada pela apreensão de determinados afetos à certas representações de experiência subjetiva?

Os Três Afetos Sociais

A ligação dos afetos à linguagem parece ser tanta, que, para Lacan, três destes seriam exclusivamente sociais: A vergonha, o nojo e a culpa.

Tal afirmação se faria possível pois, para que estas aconteçam, seria preciso que já tenha havido a Interiorização das Regras. Ou seja, a criança ou o adulto precisam conhecer aquilo que se exige e se proíbe socialmente. É necessário já ter sido apresentado, invadido, barrado, representado e afetado pela Linguagem.

Os bebês não parecem sentir vergonha da percepção que teriam os alheios ao cheiro de suas fezes. Mas, é no mínimo curioso, que alguns adultos sofram até de sérias complicações intestinais porque a mera possibilidade de passar vergonha apenas lhes permite defecar em sua própria casa. Talvez pelo medo do julgamento alheio sobre seus próprios odores. Paralelamente, as crianças, nos primeiros anos de vida, não parecem sentir nojo das próprias fezes. Em certa idade, é até possível vê-las exibindo estas aos adultos, como uma espécie de orgulho; as deixando por aí, quase como presentes de fabricação própria: na sala, no quarto ou em algum lugar da casa de fácil visualização.

Antes da Interiorização das Regras, ou seja, da vivência da Castração, no Complexo de Édipo, na Fase Fálica (3-6 anos) da teoria do desenvolvimento psicossexual freudiano, não se tem vergonha dos próprios órgãos genitais à mostra na praia, na rua ou na reunião de família. O próprio manuseio destes, em forma de obtenção de prazer, às vezes acontece em público até que os adultos ensinem a criança que isso não é aceitável. Em contrapartida, já me foi possível conhecer o relato de mulheres que não conseguiram tirar a roupa em um quarto de motel; de homens que utilizavam objetos como desodorantes, pilhas, controle remoto, etc. para que fizesse volume em sua sunga antes de ir à praia. Suas óbvias motivações eram a vergonha do próprio corpo nu.

A culpa também parece ser ausente na criança que, se não guiada corretamente pelos cuidadores, pode até maltratar, agredir e machucar animais, insetos e até outras crianças – enquanto demonstra o deleite daquele divertimento através de seu sorriso puro e simples. Há ali uma diversão não permitida pelas regras sociais que acompanham a invasão da linguagem.

Portanto, a linguagem também afeta as emoções, principalmente aquelas homônimas a estes afetos supracitados, que são experienciadas através da relação com o Outro. Através do ser visto fazendo; do fazer sendo visto; do se ver fazendo, do ver fazendo e sobre como tudo isso lhe afeta.

O Mais ‘Puro’ dos Afetos

Para Lacan (1901-1981), a angústia seria o mais puro dos afetos. Por ser aquilo que se experiencia logo ao saber, ao estranhar, ao separar a imagem de si próprio daquela do Outro.

Os Outros afetos derivariam da angústia. Seja de deformações desta, seja de formas a fugir dela como ela mesma, como possibilidade. A vergonha poderia ser angústia de saber-se não amado e/ou tal possibilidade? O nojo poderia ser a fuga da angústia que poderia causar a memória de algo que já foi prazer em outros tempos? Ex: a criança que brincava com as próprias fezes não consegue sequer ouvir tal palavra sem sentir um grande incômodo psíquico na vida aduta.

Numa investigação mais detalhada, talvez seja possível até encontrar na essência de uma vergonha, nojo ou culpa, a presença de uma ou algumas fantasias inconscientes. Acredito ser bem possível, a não ser que se considere, na psicanálise, uma mera coincidência a ampla presença da fala “eu sou tímido” no meio artístico. Curiosamente, esta acaba sendo uma fala recorrente no meio que concerne à prática do teatro, talvez a maior exposição do próprio ser ao julgamento alheio – aquilo que os tímidos abominam à todo custo. Como ator amador, não foram raras as vezes que a ouvi de algumas pessoas que, momentos antes, observei, explicitamente, quebrarem muitas “regras sociais” ao palco. Mas aí entraríamos na discussão do que representaria a figura do personagem ao sujeito, coisa para Outro texto.

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"Vamos para casa". A negação é um dos Mecanismos de Defesa do Eu mais primitivos, geralmente o primeiro estágio do luto. Em Deusumanos (19/05 à 03/06 de 2018) o personagem Augusto entra em profundo estado de negação perante a morte de sua filha Ingrid (Vivian Bianchin). Na negação descarta-se, desconsidera-se um dado da realidade quando este é oriundo de um enorme sofrimento ou possibilidade deste. Para Augusto, toda a dor ligada à culpa e à angústia daquele momento foram substituídas por sua dissociação da realidade. Preferiu acreditar que iria levar sua filha para casa, que esta estaria a dormir, já que, inconscientemente, "sabia" que não lhe restavam mais recursos para lidar com aquela perda.

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Considerações Finais

Quando se diz que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, inclui-se a dimensão do afeto, já que a linguagem também traz afeto através de suas entonações, timbres e, principalmente, por quem (o quê) a traz.

O afeto e as emoções, talvez não pudessem ser uma descarga de excitações endógenas dos órgãos perceptivos, exclusivamente, uma vez que eles acompanham muitos significantes em suas apresentações e representações. Se a emoção é o destino do afeto, esta rota entre origem e destino só poderia ser traçada através da linguagem. Por exemplo, a angústia perante possibilidade de não ser amado pelo Outro ao falar palavrões, impede que algumas pessoas os falem ou os escutem sem enrubescer de vergonha ou que os falem de fato. Em casos extremos, a própria escuta ou possibilidade de fala de tais significantes barrados pela linguagem, poderia angariar descargas de angústia através de sintomas como ansiedade, pânico e fobias em geral.

O afeto acontece na relação do sujeito com o Outro. Acontece em como o sujeito, sem querer querendo, se afeta nesta relação. O Outro o afeta com sua linguagem e este, quando a aprende, inevitavelmente carrega as excitações por esta produzida em seu corpo e, principalmente, ao conteúdo psíquico ao qual estas ficaram ligadas (através de representações e/ou significantes). Se aprendo a linguagem com o Outro, aprendo à maneira com que esta me afeta na relação intra e intersubjetiva. Portanto, se a emoção é o destino do afeto, individualmente falando, aprendo com meus pais que sinto raiva enquanto a percebo através da linguagem apresentada por eles. Sendo afetado por eles, através das representações simbólicas associadas através da linguagem, ligo estes afetos que carrego junto à minha definição de raiva às minhas percepções de experiências sensoriais neurobiofisiológicas. Isso tudo, através de uma relação estabelecida na cadeia de significantes que também carregam afeto. É preciso dizer que este processo seria inconsciente?

Estas percepções neuro biofisiológicas me causam calor, aumento do fluxo e pressão sanguíneos, contração dos músculos da face (sobrancelhas franzidas, lábios cerrados, olhos brilhantes), das mãos e de outras áreas do corpo. Entendo que, na relação que tenho com os Outros que me afetam, que minha emoção (raiva) é o resultado da não satisfação imediata daquilo que acredito que me trará prazer; da ausência de alívio de minha tensão, e/ou da descarga de excitação sensorial (ver grifo em A Interpretação dos Sonhos, Freud, S. 1900. cap. 7) que agora só me parece possível através da agressividade. Mas é também importante saber que isso me foi trazido também através da linguagem.

Entretanto, se isso é nomeado e apresentado por aqueles que diariamente me afetaram, de alguma forma mais intensa, em algum período mais crítico de minha formação psíquica, poderá haver certa ligação entre meus atos, aquilo que entendo destes e a percepção disto em meu corpo com desejos, expectativas e valores destas pessoas – geralmente subjetivamente entendidos como próprios. Sendo dado o nome de emoção a esta resposta fisiológica àquilo que me cerca, variando sua excitação sensorial de acordo com o que meu corpo e mente seriam, histórica e pré-históricamente programados. Há uma descarga de excitação biológica, uma experiência de um conjunto de hormônios, sensações e percepções aos órgãos dos sentido e do Sistema Nervoso Central e Periférico, a partir de um conjunto de afetos que um determinado ato pode representar com um significante, objeto externo e/ou estímulo.

Se fui censurado na infância pelo meu pai, e tive que reprimir ou até recalcar a maneira com que fui afetado por isso, talvez com raiva, ódio ou desejo de aniquilação através da força impulsionada por minha agressividade (situação inaceitável à consciência, que obrigaria o sentimento de gratidão ao amor dos pais), alguém que me censurar com uma fechada no trânsito poderia, em seu azar, experimentar toda aquela descarga bio-psico-fisiológica que aquela raiva, agora representada num soco, produziu e reservou décadas atrás. Se isso for verdade, certamente seria por conta desta pessoa da fechada ser responsável, sem saber, por eliciar uma representação afetiva simbólica (significante) linguisticamente associada às respostas e movimentos de meu organismo.

A Emoção se torna condicionada às representações do afeto que a linguagem foi capaz amarrar ao corpo, mas ainda da maneira que o indivíduo a experiencia por conta própria. Mas pra quê serve, então?

É preciso dizer que nos primórdios existenciais do Homo Sapiens, as descargas fisiológicas oriundas das emoções que eram experienciadas poderiam até apresentar um papel relativo à sobrevivência e à reprodução da espécie. Como por exemplo: há uma descarga de adrenalina (frio na barriga), dilatação da pupila (visão mais precisa do mundo externo), aumento da produção de energia (oxigênio – coração disparado ao extremo) para que se corra ou se lute perante uma ameaça à vida. Mas, nos dias de hoje, esta experiência é descrita perfeitamente por aqueles encaminhados ao psicólogo ou psicanalista pelo cardiologista, que visitaram com um ataque agudo de ansiedade, geralmente confundido com um infarto agudo do miocárdio.

Curiosamente, isso acontece fora da floresta. Bem distante mesmo. Geralmente em situações que não oferecem risco algum á vida, como por exemplo: sentados no confortável sofá da própria casa.

Para Não Dizer que Não Falei dos Sentimentos

Os sentimentos, por último, poderiam ser aqueles afetos e emoções que estão unidos através do laço social. A tradução social dos afetos. Através da linguagem compartilhada. Os sentimentos poderiam ser os afetos que chegaram ao coletivo, já que a maioria é sentida de maneira tão pessoal e única que parece não haver compreensão daquilo por alguém que não seja o sujeito ele próprio.

Os escritores e poetas e músicos são aclamados porque conseguem transformar os afetos vivenciados em sentimentos, pois foram, através da linguagem, traduzidos do individual para o coletivo. Isto é, através do que eles escrevem é possível ao leitor ler e escutar os próprios afetos. Encontrar representação. Estes seriam dificilmente verbalizados durante a própria experiência, mas agora estão perfeitamente localizados, representados nos significantes escolhidos por aqueles que souberam unir sua experiência idiossincrática à coletiva. Algo possível apenas àqueles dotados de uma avançada percepção da linguagem, perante aquilo que os afeta.

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(Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso seja o proprietário de uma delas, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente)

REFERÊNCIAS – *Também considerar as bibliografias citadas apresentadas ao longo do texto (Por ordem livre).

Afeto, emoção e sentimento na psicanálise | Christian Dunker | Falando nIsso 146

Paiva, Maria Lucia de Souza Campos. (2011). Recalque e repressão: uma discussão teórica ilustrada por um filme. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 2(2), 229-241. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-64072011000200007&lng=pt&tlng=pt.

Quingley, K. S.; Lindquist, K. A. & Barret, L. F. (2004). Inducing and Measuring Emotion and Affect. In Handbook of Research Methods in Social and Personality Psychology. Ed(s) Reis, H.T.; Judd, C.M. Cambridge University Press. p. 220-252

Pinheiro, Elaine, & Herzog, Regina. (2017). Psicanálise e neurociências: visões antagônicas ou compatíveis?. Tempo psicanalitico, 49(1), 37-61. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382017000100003&lng=pt&tlng=pt.

Ravanello, Tiago, Dunker, Christian Ingo Lenz, & Beividas, Waldir. (2018). Para uma Concepção Discursiva dos Afetos: Lacan e a Semiótica Tensiva. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(1), 172-185. https://dx.doi.org/10.1590/1982-37030004312016

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: Interpretação dos Sonhos e Primeira Tópica Freudiana

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Em 1899, o médico neurologista Sigmund Freud (1856-1939) se vê plenamente despreparado para conter sua ansiedade e aguardar o ano seguinte para publicar sua obra de maior destaque. O livro, publicado em 1899 saiu com a data de 1900. Depois de se dedicar por um bom tempo aos sintomas psiconeuróticos da histeria, Freud sentia que era a hora de lançar sua Obra-prima: A Interpretação dos Sonhos (1900). O motivo da alteração da data? O fato de estarmos falando sobre o livro do século.

Os sonhos já foram interpretados como mensagens dos Deuses, previsões do futuro e até falta de imersão religiosa. O motivo de toda esta especulação milenar pode estar na seguinte pergunta: como podem imagens e narrativas, às vezes tão aleatórias, tão carentes de sentido, se tornarem por alguns momentos nossa nova e incontestável realidade? Um lugar específico, duas pessoas aleatórias – que só se conectariam em vida pelo enorme abismo entre si! Mas tudo vivenciado com tanta realidade… A ponto de só ser digno de observação após uma falta de ar, uma aceleração dos batimentos cardíacos e/ou uma enorme quantidade de suor de acompanhamento a um súbito acordar. Aquele acordar. Aquele que dependendo do conteúdo do sonho, fora implorado (ou não!) para acontecer. Claro que há um detalhe: é preciso se lembrar do sonho – e isso nem sempre acontece. E às vezes acontece por pouquíssimo tempo.
Mas será que Freud explica isso? Neste artigo que segue, a tentativa será de responder a pergunta tanto feita por muitos, a partir de uma explicação de pontos da obra considerada a mais importante da psicanálise. E para lhes desejar uma boa leitura, A Sociedade dos Psicólogos parafraseia com um grande hit musical, recomendando este para que sua leitura faça como o sonho: tenha mais do que imagens ou pensamentos – tenha estímulos sensoriais. Sweet Dreams.

Prelúdio – A Sonata dos Sonhos

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Nascer em uma Europa do século XXVII e crescer na do século XXVIII pode ser uma experiência interessante. Sentir os efeitos diretos de um recente Renascimento do pensamento ocidental e, através de uma pequena fresta que começa a se abrir, ser atingido pelos primeiros raios da luz do pensamento Iluminista. Não se pode dizer ao certo quanto, mas este foi um dos backgrounds que influenciaram desde o nascimento a psique de Giuseppe Tartini (1692 – 1770), um dos mais famosos compositores deste período. Sua relação com a obra que pautou este texto, A Interpretação dos Sonhos (1900), está na referência que Sigmund Freud (1856-1939) faz ao músico e à Obra-prima deste durante a escrita de sua própria. Freud (2001) pega como exemplo a sonata mais famosa do compositor, enquanto explica que boa parte de nosso saber não está na consciência; para o Pai da Psicanálise, Il Trillo del Diavolo  é um exemplo de música que recebeu um “[…] auxílio prestado por obscuras forças procedentes das profundezas da mente[…]” (p. 585).

Para fins de entendimento, é melhor deixar a fala ao próprio Giuseppe Tartini (1692 – 1770):

“Uma noite sonhei que tinha feito um pacto com o diabo, o qual se dispôs a me obedecer, em troca de minha alma. Meu novo servo antecipava meus desejos e os satisfazia. Tive a ideia de entregar-lhe meu violino para ver se ele sabia tocá-lo. Qual não foi meu espanto ao ouvir uma Sonata tão bela e insuperável, executada com tanta arte. Senti-me extasiado, transportado, encantado; a respiração falhou-me e despertei. Tomando meu violino, tentei reproduzir os sons que ouvira, mas foi tudo em vão. Pus-me então a compor uma peça – Il Trillo del Diavolo – que, embora seja a melhor que jamais escrevi, é muito inferior à que ouvi no sonho”.

Parece até que estamos diante da admissão de um plágio. O diabo, a representação do Mal da humanidade, esbanja sua sensibilidade musical! Trouxe, em um sonho, estímulos tanto sensoriais, quanto emocionais. A excitação de seus sentidos foi tão forte que o músico acordou num lapso de sua própria respiração! Como um presente, como uma dádiva não celestial, Tartini conseguiu produzir o que considerou sua melhor composição. Mas seu lamento final deixa uma irresistível pergunta – que vai até além da básica curiosidade sobre as dimensões do talento violinístico da “Estrela da Manhã“, de Lúcifer, d'”O Portador da Luz“, que iluminou a criatividade de um músico em pleno Iluminismo –, uma pergunta meio paradoxal: se esta Obra-prima é muito inferior àquela que ouviu no sonho, o que o impediria de usar sua memória até que houvesse a equação de ambas? Teria ele esquecido parte do que ouviu? E caso tenha, como poderia comparar o que sabe com o que não sabe?
Mais do que isso: numa hipótese de que um sonho só poderia reproduzir o que já fora captado pelos órgãos dos sentidos e pela consciência, como algo pudera ser ali ouvido pela primeira vez?; como pudera algo completamente inédito, ser ali apresentado como um som exclusivo de um instrumento musical (que é dominado pelo sonhante), mas, ao mesmo tempo, se tornar irreproduzível neste mesmo instrumento musical? Não estava esta melodia ecoando ainda há pouco nos confins de uma mente brilhante? De qualquer maneira, parece que lhe permaneceu para sempre a lembrança da qualidade superior daquela versão tocada pelo próprio Anjo Caído – no instrumento que é considerado o dono do som mais angelical no Imaginário popular. Bem, depois da harpa, é claro.

Sendo esta o próprio pedido de desculpas por si, uma interrupção ao desenvolvimento do artigo a seguir será agora necessária. O motivo: um sentimento de obrigação de quem escreve. Há aqui uma necessidade de exímia importância: acabar com uma descortesia estendida até agora. Uma leitura poderá ser muito mais interessante e significante com uma trilha sonora mais adequada. E o sentimento é que este texto deva conter sua sugestão.  E é claro que, no primeiro flerte da leitora ou do leitor com o óbvio, já se saberá qual música tem este propósito.

Seguirá agora em anexo a Sonata de Tartini: “O Trinado do Diabo”.
Em um começo que se dispõe a soar uma calma quase melancólica, anterior a um contraste já anunciado em seu Nome de batismo: a rápida, libertadora e genial repetição de notas – O Trinado –, notas que parecem ter perdido repentinamente a timidez e agora voam, vão às alturas! Quase lembrando aquela pessoa que agora é boêmia, mas que é também egressa de uma vida beata. Algo próximo a uma libertação das amarras religiosas, como aquela promovida pelo Renascimento. Praticamente a mesma libertação que favoreceu o início da escuta o Homem e de sua fala sem censura, sem os resquícios das Trevas em uma Outra Idade. Quase como se agora o homem fosse o Portador da Luz de seu pensamento Iluminista.
Portanto, este artigo da Sociedade dos Psicólogos sobre A Interpretação dos Sonhos terá uma  trilha sonora diabólica. Uma música feita pelo próprio diabo. Uma música que estava recalcada sob sete peles de censura inconsciente. Um autêntico plágio onírico. Um autêntico plágio do Próprio Eu Desconhecido.

Sonhar: O  Realizar um Desejo Originário Inconsciente

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Os sonhos

Freud é categórico: os Sonhos não são destituídos de sentido e têm o “simples” propósito de realização de um desejo inconsciente. Ele também nos alerta de que sua produção é resultado de uma atividade mental altamente complexa. Os sonhos são as produções do inconsciente que, sobrevivendo a certas restrições que falaremos mais adiante, encontraram em nossa vida psíquica alguma representação que seja boa o suficiente para aludir a alguns de nossos mais profundos desejos originados na infância. Pois é exatamente a estes desejos que Freud atribui o papel de “força propulsora” da formação de nossos sonhos, mas nunca os colocando como o único conteúdo ali presente. Além de advertir que não se deve fazer uma leitura literal dos sonhos, levando em conta que isso conduz à mesma falta de sentido já existente. Freud se afasta de qualquer definição que pudesse levar A Interpretação dos Sonhos ao estreito entendimento de uma mera criptografia – onde bastaria substituir um elemento por outro e se teria obtido a chave universal condutora ao significado encoberto em todos os sonhos.

Não é raro observar Freud ressaltando  que os conteúdos do sonho estão distorcidos, ele relaciona isso à constante presença de imagens que aparentemente são carentes de sentido; tal fato, para ele, se deveria à explicação das incompatibilidades que os desejos residentes dali apresentariam às exigências de nossa atual vida em sociedade. Sua distorção serviria à proteção de nosso próprio desprazer – levando em consideração a repulsa que nos causaria o encontro de tais desejos às Leis e regras que aprendemos e internalizamos através da linguagem que nos foi imposta. Entretanto, estes não ficariam perdidos para sempre  — au contraire –, apesar de fugirem frequentemente à memória consciente. Aqui mora a hipótese de que nosso Inconsciente encontrará por si alguma maneira de dar vazão às excitações causadas por estes desejos.  Ao menos ao eco dos gritos emitidos pela demanda de tal realização.

Mas, antes de falar das complexas atividades mentais que envolvem a formação dos sonhos e também destes desejos em si, será necessário buscar algum significado para que é o inconsciente. Principalmente para nortear uma leitura a partir da diferenciação que Freud faz às já eram levemente postuladas por outros autores. Mas e aí? O que é o Inconsciente?

O Inconsciente e o Desejo Originário

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(Imagem retirada da Internet)

É possível que um pediatra, daqueles mais interessados à neonatologia, tenha mais propriedade  de informação sobre a ordem em que o corpo de um recém-nascido começa a identificar as excitações que o mundo externo têm sobre seus órgãos dos sentidos do que um psicólogo. E aqui se fala mais sobre os sentidos imediatos, inatos: o tato, a visão, a audição, o paladar e o olfato; do que sobre os outros mais complexos, de desenvolvimento progressivo a posteriori, como o equilíbrio, por exemplo.
O motivo da constatação acima é que, para se falar sobre o Inconsciente, deve-se falar sobre seu suposto início. Portanto, antes da próxima leitura, existirá um pedido a quem lê: lhe é de possibilidade imaginar o choque de realidade que deve ser a saída de um bebê recém nascido do útero de sua mãe? Aquele mesmo Lugar que lhe foi tomado por realidade desde a primeira existência? A agressiva transição do calor, do silêncio e da confortável escuridão presentes em uma placenta para o frio, o barulhento, o odoro (ou fétido) e iluminado ambiente do nascimento. Caso seja possível imaginar este cenário de seu primeiro contato com a nova realidade, parecerá mais difícil uma visualização que envolva a ausência de desprazer. Em um paralelo à vida adulta, é possível que uma pessoa que perde sua moradia a partir de um desastre natural reviva este mesmo primeiro sentimento, de maneira quase idêntica. Talvez o angustiante discurso desta pessoa seja o que se mais se aproximaria do de um recém-nascido, se este já fosse um ser falante que nos permitisse tal comparação. Mas esta é uma visualização essencial para um começo do que envolve a noção de inconsciente.

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O desprazer é possivelmente o primeiro alvo da catexia de alguém que chega ao nosso mundo. E sabe-se que, antes de falar em Pulsão e aproximar os dois conceitos, Freud entendia a catexia como uma espécie de direcionamento de uma ou mais de nossas energias, de nossas funções mentais (afetos/emoções, cognições e volições) para as excitações advindas de nossa percepção sensorial ou para nossos pensamentos. E este ato por si só já era capaz de estabelecer uma maneira de representação mútua entre estes fatores: o desprazer daquilo que eu ainda não sei nomear como frio, é levemente inibido em contato com o calor do corpo de minha mãe – que eu ainda vejo como uma extensão de meu próprio Eu. E isso já pode trazer ao recém-nascido (que se tornou quase que um refém-desabrigado) uma primeira experiência de prazer, que virá em equivalente contraste à primeira sensação de desprazer anteriormente experimentada. Tal representação será melhor adaptada ao Imaginário popular se, além do calor corporal, algo inserido à boca do recém-nascido saciar outro de seus inúmeros desprazeres ainda não nomeados. Este desprazer é a sensação de fome. Que como as outras, “nasce” junto com o bebê. Portanto: “aquilo que me incomoda, que me traz um desprazer imenso, que eu ainda não sei que é a fome e o frio, acaba quando sinto o calor do corpo e a nutrição do leite oriundo do seio daquela pessoa, que eu ainda entendo como uma parte externa de mim”. Percebe-se aqui o registro de um conjunto de primeiras experiências de satisfação que, para Freud, terão como lar o Inconsciente até que consigam alguma forma de revivência através da representação. Uma vez que, a quem foi possível imaginar todo aquele primeiro desprazer simultâneo de antes, também possa ser possível entender a proporção de prazer experimentada nesta primeira experiência de satisfação. A eterna tentativa de reviver este momento é chamada por Freud de Desejo. E talvez seja como se aquela pessoa que acaba de perder sua moradia por um desastre natural, passasse a cavar incessantemente, cavar porque sabe que nos escombros de sua antiga casa há um baú de dinheiro que lhe fará comprar outra maior ainda. A questão é que o desastre foi de proporções muito grandes, portanto, não se sabe exatamente qual é a própria casa perante tantas outras escombradas naquele Lugar.

Consciência e Inconsciente: Um Só Lugar.

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Antes do início do assunto, é importante continuar a estimulação mútua dos sentidos de quem lê o artigo em questão. Se, de acordo com a expectativa do autor, o leitor não percebeu que a música anterior acabou, pode este ser um sinal de um bom engajamento. Mas, não só para este caso uma nova música significante seguirá para acompanhar a leitura.


Quando Freud contesta a afirmativa predominante na época: o fato de que não haveria como tais fatos inconscientes, tais registros de prazer e desprazer de tempos remotos influenciarem na vida psíquica adulta de um sujeito, pois seriam eventos inacessíveis à consciência – sendo esta, a partir de uma recente herança Iluminista, a fonte dominante de toda a mente. Freud considera A Interpretação dos Sonhos o Livro do Século exatamente por este subverter, por esta grande ruptura com o conceito de que a consciência é centro da vida psíquica. Freud dirá que o Inconsciente já registra estes primeiros momentos de catexia – direcionamentos das funções da mente ao que se experienciou ou se experiencia, ou seja, a percepção o prazer e o desprazer – e os utiliza como parâmetro na condução da vida daquele semi-Sujeito. Já adverte desde cedo que o indivíduo dificilmente conseguirá uma satisfação equivalente à primeira, mas, através daquilo que se chamou de Desejo, tentar-se-á eternamente, pois as pequenas descargas de excitação sensorial irão regular a sensação de prazer e desprazer, que por sua vez, vão remeter às primeiras experiências de satisfação e insatisfação. E aqui se fala das experiências de satisfação que serão requisitadas pelo Inconsciente até que encontrem representação para a fuga das censuras da consciência.
E é aqui que está o ponto principal da definição sobre o Inconsciente de Freud: ele já existe antes do próprio consciente. Para Freud, o Inconsciente regula a consciência e não o inverso. E não, a pedido de Freud, este não pode ser observado como uma instância propriamente física, mas sim como todo um conjunto de representações de experiências, percepções e catexias, pensamentos e tudo que a faculdade de fazer representações mentais nos permitiu dar um Nome que fosse Significante – e mais ainda, o que não se foi possível nomear, mas ainda assim se tornou significante. Os registros conscientes futuros serão apenas um mero elo de ligação, encontrados a partir de uma nova e repetida busca pelos registros por aquela tal imensa primeira experiência de satisfação, aqueles primeiros prazeres e desprazeres – que moram nas profundezas das cadeias de pensamento contidas nas representações inconscientes. Tudo isso por fins de revivescência ou evitação. Ou seja: alguns de nossos desejos mais distantes, mais absurdos à consciência, ainda vivem no Inconsciente. E mesmo sofrendo toda a censura demandada por seu conteúdo, hão de encontrar um caminho à consciência. Nem que este seja através dos sintomas psiconeuróticos, dos atos falhos, das piadas e trocadilhos (chistes) e principalmente dos sonhos.
Portanto, para refutar a onipotência dada à consciência até a época, Freud vai dizer que a consciência, que nasce e se amplia de acordo o desenvolvimento bio-psico-social do ser, aparecerá como uma pequena fração do inconsciente, constituída através de representações que a maturação de algumas funções mentais foi permitindo. Freud rebaixa a patente da consciência: de maior representante da mente, para mero órgão sensorial da percepção de atividades psíquicas. E o pensamento é uma delas. Sendo inclusive, encontrado nos sonhos.

 

Antes da ida para o próximo assunto, mais uma pequena pausa será feita. Saiba o leitor e a leitora que aqui há um bom motivo. É hora de continuar as músicas que acompanham quem lê este artigo, pois é possível que a anterior já tenha chegado ao seu final. E, tendo em vista que, ao menos a princípio, o objetivo do artigo não era instituir algum tipo de Falta às audições dos que aqui leem. Estas que já devem estar acostumadas com um som durante esta leitura. Portanto, por que não mais uma música cheia de representações significantes como acompanhamento?

Pensamento e Percepção Sensorial

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Sem dúvida, o pensamento é um privilégio da especie humana. A habilidade de transformação de estímulos sensoriais, captados pelo sistema perceptivos, em representações é, sem dúvidas, um diferencial. Através do pensamento, transforma-se em um livro repleto de palavras aprendidas as nossas Outras funções mentais e/ou da percepção sensorial. As meras percepções sensoriais auditivas, táteis, visuais, palatórias e olfativas, junto com alguns pensamentos, se transformaram no objeto de identificação de milhões de pessoas no mundo. Tudo isso graças à capacidade de representação mental que alguns escritores encontraram em suas relações com as palavras, com o que lhes é significante. Através deste tipo de representação, cuja meta é realizar uma comunicação, uma ligação do que não é observável nem a nós mesmos ao mundo externo. Através da linguagem, o pensamento torna o ser comunicante consigo e com o Outro, dividindo as palavras que lhe foram significantes até aqui. O pensamento é uma representação que, acompanhada de nossas catexias, faz elo entre a nossa Real percepção de tudo, o Simbólico processo de linguagem e/ou nosso Imaginário arcabouço de representações sensoriais. Poderíamos pensar no aparelho psíquico que Freud chama de Pré-Consciente, como um intermediário que funciona de maneira semelhante. Para finalmente ir direto ao ponto, pois é nele que se encontra o processo de Formação do Sonho, retirando partes da consciência enquanto tentar filtrar aquilo que irrompe do Inconsciente. Mas ainda é importante ressaltar: até o pensamento considerado mais insignificante e até as lembranças do dia e da vida menos dotadas de catexias, serão levadas ao Inconsciente, através da representação.

O Pensamento, Os Sintomas e os Sonhos

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Sem muitas delongas, deve-se manter o costume que adquiriu quem lê este texto: a música precisa continuar!

Pensamentos e Sonhos

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É bem possível que a ideia da soberania da consciência tenha vindo em decorrência de nossa constante percepção do próprio pensamento em conjunto com os órgãos sensoriais e motores. Se levarmos em consideração que o fato de estarmos acordados é um simples evento de nossa faculdade de catexia da função cognitiva da atenção, ou seja, esta se direcionando à percepção sensorial de alguns órgãos dos sentidos e habilidades motoras. É também parte deste fato, a ação da consciência à mobilização de nossa função volitiva (vontade) ao desempenho de funções motoras que nos movimentem aos objetivos de vida. Os mesmos que creditamos acontecerem apenas pela nossa própria decisão. E aqui temos um bom exemplo de catexias evocadas a partir de representações que contém uma meta de realização de desejo. A única coisa que escapa ao entendimento geral é o fato de que este desejo que nos faz acordar, caminhar e falar já é uma representação mais elaborada de uma busca por realização de um desejo do Inconsciente. E também escapa que, muito do que encontramos no dia-a-dia, muito do que pensamos nele e muito do que nele vivenciamos, pode e talvez vá fazer alguma representação com um desejo do Inconsciente. E podemos falar até da tentativa de reviver aquela primeira experiência de satisfação. De maneira mais metafórica, é claro. Já que a Real é impossível.

Alguns destes pensamentos que podemos ter, são chamados por Freud de “Pensamentos Diurnos”, e eles também fazem parte do conjunto de pensamentos oníricos (referentes ao sonho). Eles são os pensamentos que são de acesso à nossa consciência e que, eventualmente, parecem ter aparecido em nossos sonhos a partir relações onde se distanciam de algum sentido ao conteúdo que antes foram relacionados. Dificilmente é possível explicar estas aparições. Mais difícil ainda: estabelecer uma relação lógica de imediato à consciência, uma vez que os pensamentos que se tornam sonho eles sofrem uma grande censura – oriunda do trabalho ali realizado. E tal fato os distorce, afastando-os de seu Real significado. Às vezes, são pegos pelo inconsciente aqueles pensamentos mais insignificantes, aqueles que ignoramos com veemência durante o dia e, em um sonho, podem até nos fazer acordar numa explícita falta de ar e sudorese, como se fossem pensamentos irracionais – outros que também fazem parte do sonho. Mas como isso pode acontecer?

Freud vai dizer que, tanto a confusão da percepção sensorial como a tomada de fragmentos insignificantes de pensamentos diurnos e/ou irracionais que eventualmente a acompanham, estão ali porque de alguma maneira se tornaram forma de representação para algum desejo inconsciente. Mas como isso acontece?

Pensamentos e Traços de Caráter, Sintomas e Sonhos
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É ainda necessário introduzir um questionamento importante aos que leem o artigo: é de entendimento do autor o demorado tempo de leitura deste artigo, e é claro que o próximo será mais breve. Entretanto, não podemos escapar à importantíssima questão: a música já acabou? Se já, a próxima está pronta para trazer seu conjunto de referências e representações na letra e nas imagens. Na verdade, foi deixada em espera pelo play que virá.

Pensamentos e Traços de Caráter

É primeiro preciso entender como é a composição do sonho e como esta vem de encontro à realidade. É preciso entender que nosso dia-a-dia é visualizado pela nossa consciência como um conjunto de excitações sensoriais que se juntam aos pensamentos que levam ou não as catexias, isto é, a concentração de nossas funções mentais (afeto, cognição e volição) – vivemos a partir deste conjunto de representações. A partir deste pedaço de lucidez plena dentro do Inconsciente.

Algumas representações têm metas de realização de desejo à consciência, algumas outras são parcialmente ignoradas e assentadas ao inconsciente, como palavras jogadas no meio de um livro, sem uma localização pensada, em uma língua qualquer. E isso é explicado pela notícia que Freud nos traz: mesmo que haja uma ausência de catexia aos pensamentos ou às excitações sensoriais, nada fugirá do olhar do Inconsciente. É bem possível que uma conversa, uma imagem, uma percepção sensitiva ou um pensamento de nosso dia-a-dia faça algum tipo de alusão aos desejos da infância, que estão à plena procura por descarga de excitação – e já situados há algum tempo no inconsciente. E não é segredo que lá se encontram todas estas características carentes de representação, uma vez que a censura operada por nossa resistência jamais permitiria o contato destes à consciência, muito menos uma explícita descarga das excitações, que seria expressamente proibidas aos dias de hoje.  Mas, em nosso dia-a-dia, houve a transformação destas excitações sensoriais em pensamentos, em representações. Ou seja, se meu olfato percebe o perfume de quem me atrai visualmente, meu pensamento consegue representar tal pessoa através da associação destes dois sentidos. Temos aí mais um Traço Mnêmico guardado. Há um progresso, uma progressão da excitação dos receptores sensoriais até que estes se tornem uma representação mental digna ou não de catexia. E isso, que aconteceu durante toda a vida de vigília, toma o caminho inverso nos sonhos: o de regressão dos pensamentos à meras excitações sensoriais, imagens da percepção. É importante acentuar que isso acontece na tentativa de se realizar um desejo de infância apenas a partir das percepções sensoriais que foram bastantes intensas nestes, como se elas fossem apenas um fragmento daquele desejo: pequeno o suficiente para driblar a censura; grande o suficiente para uma leve descarga de excitação. E isso pode acontecer mesmo que apenas se liguem a uma representação e/ou um pensamento desconexos com tal desejo, até porque estes vão servir apenas de bode expiatório, dos mais disfarçados; vão servir apenas como uma ação de Impeachment parcial da censura a partir da redução da força da consciência – obtida através do estado de sono. Isso pode começar a explicar as sensações físicas ligadas às imagens irracionais e aparentemente sem sentido de alguns sonhos. É importante lembrar que também poderá acontecer exatamente o inverso. Mas esta parte continua depois.
E apesar desta parte continuar depois, é importante lembrar que a música não; a música continua agora caso ela tenha acabado, basta o play do leitor. E mantendo a tradição deste artigo, foi escolhida uma outra música que poderia até estar a fazer alusão aos pensamentos oníricos: repleta de signos.

Traços Mnêmicos e Pré-Consciente

Freud diz que, em um sistema intermediário, há o contato dos pensamentos inconscientes com algumas das representações encontradas em nosso cotidiano. Ele chamará este sistema psíquico de Pré-Consciente. Nele,teremos os registros das excitações sensoriais e das representações que formamos através de um traço que Freud chamará de Traço Mnêmico, que carregará imagens perceptivas e relações lógicas e que, se for de escolha do inconsciente, encontrará representação também no que lá fora assentado. Além disso, são estes traços o que sobra das percepções sensoriais associadas à memória, à motricidade. Temos aqui impressões que causaram o maior impacto em nós, situações que mobilizaram descarga de adrenalina (frio na barriga), sudorese, tremores, sorrisos e até as de maior efeito na infância, que nunca se tornaram conscientes e moldaram nosso caráter. Em suma: caráter é o conjunto dos Traços Mnêmicos que mais encontraram representação no apaziguamento dos desejos residentes de nosso Inconsciente. Pode até haver a pessoa dita como possuidora de “mau caráter”, mas nunca a “sem caráter”, uma vez que uma pessoa “sem caráter”, careceria de representações psíquicas de suas percepções sensoriais, de seus pensamentos e vivências – e aqui não é falado apenas das boas.

Quem acompanhou o desenvolvimento da psicanálise, principalmente no que diz respeito à análise dos sintomas histéricos, sabe que algumas manifestações do inconsciente só podiam encontrar vazão através de uma redução das forças de censura da consciência, ou através de uma configuração psicopatológica. A hipnose representou bem este papel de redução da censura consciente. Quando Freud se depara com os Estudos de Charcot (tal encontro é representado no cinema através do filme Freud Além da Alma) e percebe que a redução das forças de censura da conscîencia exercida através da hipnose era capaz de “curar” um sintoma da histeria apenas através da sugestão, nascerá, posteriormente, uma nova configuração psicopatológica para com o sintoma histérico.

O Sintoma Histérico

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Freud vai nos dizer que, para presença de um sintoma histérico, era necessário que houvesse a realização de dois desejos opostos em expressões convergentes. Ou seja, para que algum desejo do Inconsciente fosse realizado, a consciência e suas censuras deveriam receber a atenção equivalente. Num exemplo fictício: um sintoma de falta de desejo sexual em conjunto com um ato de comer compulsivamente – desenvolvido após um abuso sexual na infância. Este ato, primeiramente, foi trazido pela vítima como uma maneira de não possuir um corpo considerado atraente àquela agressão. Ou seja, um corpo que teoricamente não estimularia desejo sexual. Entretanto, há um sentimento de culpa toda vez que se come. E tal sentimento de culpa aparece lado a lado com um sentimento de prazer pela comida. A culpa aparece exatamente porque há prazer. Porque o ato de comer, no relato da vítima, estabelece relação com o ato sexual através de um único significante: prazer. E o ato sexual, por sua vez, estabelece relação com aquela agressão que se tornou um trauma. E já é possível perceber de onde vem o Outro sintoma, o da falta de desejo sexual. Observando essa relação de representações, será permitido sentir o prazer da comida apenas se houver algo que anule a relação da comida ao ato sexual: pois caso contrário, o prazer da comida poderia, a partir de alguma representação de pensamento irracional inconsciente, ser associado à dor do trauma. Uma dor  que impediria a alimentação (o que pode acontecer em alguns casos de anorexia nervosa), como já impede a realização de qualquer ato sexual. Após o trauma, a vítima nunca mais se permitiu sentir qualquer tipo de prazer que se distanciasse da extrema dor ou extrema culpa, pela simples associação (aparentemente irracional) da palavra em si.  Seria um problema se, o prazer sentido ao comer, fizesse qualquer tipo de alusão àquele ato, pois ele também evocaria uma enorme culpa. E para tal culpa, há o desejo de punição. Pois, para que seja permitido algum tipo de prazer, esta pessoa não poderia ser objeto de desejo de alguém – e em seu conceito, faria isso possuindo um corpo que sua cultura não considerasse sexualmente atraente. O prazer sentido através da comida faria a vítima ignorar boa parte de suas necessidades sexuais, entretanto, este prazer produziria culpa pela distorção de seu corpo. Só que esta culpa seria preferível à qualquer outra resultante de algum tipo de alusão a prazer perante aquela agressão que só lhe causou dor. Portanto, os sintomas histéricos fariam encontro de dois desejos mutuamente opostos, sendo um do Inconsciente e sua cadeia de representações irracionais; e outro que ocorreria como forma de afastar o primeiro da consciência, nem que para isso houvesse a distorção deste desejo. No caso do sintoma histérico, a dor do sintoma seria uma alusão, em proporções menores, à angústia que seria causada pelo rápido porte daquele desejo à consciência, mesmo que por uma representação irracional – para que entendamos a dimensão da discrepância entre o teor dos desejos inconscientes originários na infância e as leis que regem a psiquê daquele sujeito social. Entretanto, é importante mencionar que esta vítima fictícia trouxe durante sua análise que, no mesmo período etário em que ocorreu o abuso, talvez até um pouco antes, esta pessoa havia começado a se masturbar. E o fazia mesmo em uma família religiosa, onde o ato era expressamente proibido. Neste caso, será deixado aos leitores a tarefa de investigar, perante o que já lhes foi explicado, como esta última informação se conectaria às outras. É por isso que este tipo de trauma costuma ser melhor elaborado através da verbalização, da ressignificação de algumas palavras: porque ele é uma própria expressão de algumas palavras. Ou seja, o sintoma é um conjunto de representações psíquicas da infância, com fins de realização de desejo que se encontra com representações psíquicas atuais em profunda oposição, com fins de realização de um desejo oposto ao primeiro. O sintoma somático liga o pensamento proibido à consciência através das percepções sensoriais do corpo.

O Sono e o Desejo de Dormir

Freud pensamento ensaio

(Créditos da Imagem: Freud Sagaz)

Freud vai nos dizer que o estado de sono é sim, como a hipnose, um poderoso redutor das forças de censura que atuam não só na consciência, mas também no que ele vai chamar de Pré-Consciente em sua Primeira Tópica. E todo redutor das forças de censura se torna, consequentemente, um facilitador da descarga de excitação daquilo que é de repúdio à consciência: nossos desejos mais profundos. A revivência de primeiras experiências de satisfação, mesmo que estas jamais sejam facilmente aceitas pelas leis que fomos submetidos dentro da civilização. Entretanto, há no Pré-Consciente um trabalho que permite que tais desejos possam ter sua descarga de excitação sem que necessariamente apareçam explicitamente à consciência, de maneira parecida com a que ocorre nos sintomas histéricos, mas através do sonho.

Se o sintoma histérico é o encontro de dois desejos opostos numa via convergente, o sono faz algo semelhante. Após o dia inteiro filtrando pensamentos, percepções sensoriais e representações com ou sem propósito à consciência, o Pré-Consciente é encarado por Freud como aquele que vai abrigar o desejo de permanecer dormindo. E a única coisa que afetaria este desejo (apenas para lembrar: Freud sempre falou de representações, de esquemas de pensamentos e palavras, nunca de instâncias biológicas) de continuar dormindo, seria a possibilidade iminente de algum desejo originado na infância irromper para a consciência. O processo que permite isso se chama regressão, pois ele é capaz de transformar pensamentos em percepções sensoriais, fazendo o inverso do que fazemos na vida de vigília. Ou seja, durante o dia, o Pré-Consciente pode tomar o Traço Mnêmico que a excitação sensorial de uma descarga de adrenalina (frio na barriga) apenas para fazer alusão ao que se pensou enquanto a sentia, ou ele pode apenas pegar fragmentos de uma notícia mal lida no jornal da banca, relacionando-a a alguma excitação sensorial de um antigo desejo do inconsciente que se relacionou através de uma foto, uma palavra da manchete ou algo do tipo. Logo, se durante o dia transformamos o que sentimos em pensamento, durante a noite transformamos os pensamentos no que sentimos. E principalmente: aquele pensamento, aquele desejo que passou despercebido, pode se ligar a algum dos mais repudiados que um ser humano pode carregar. O sonho, formado no Pré-Consciente, pode tomar o significado inteiro de pequenos fragmentos de algo – e isso tem exatamente o propósito de levar um desejo originário do inconsciente à sua realização, sem que ele invada a consciência. Entretanto, é preciso que haja alguma descarga de excitação. Às vezes, como numa piada, o segundo sentido de uma palavra, que é costumeiramente ignorado, tem mais importância para a realização de um desejo e para o disfarce desta.

O processo de driblar a censura e realizar um desejo que busca uma urgente descarga de excitação (talvez por ter encontrado alguma analogia a si durante o dia, talvez por ser algo pensado impossível durante o dia, talvez os dois!), exige que os sonhos realizem algumas modificações nos seus conteúdos. Como por exemplo, tomar a excitação sensorial de um evento do passado em uma imagem ou narrativa do dia de hoje. E talvez isso aconteça porque algum fragmento daquela imagem pode fazer referência e, consequentemente, representação àquele primeiro desejo por busca de satisfação. Um exemplo fictício: um indivíduo sonha que consegue finalmente se eleger deputado – seu desejo dos dias de hoje –, entretanto, quando alguém lhe diz que “irá cassar seu mandato por quebra de decoro”, este sente um medo surreal, entra em pânico e acorda logo em seguida. Suando, tremendo e chorando. Um sonho aparentemente irracional, mas que, se este indivíduo pára para lembrar, lá no passado, a pronúncia de seu pai ao dizer a palavra “mandado judicial de busca e apreensão” lembraria a palavra mandato. E nisso não haveria problema nenhum, se seu pai não a tivesse pronunciado perante os policiais que vieram lhe levar preso àquele dia que o garoto nunca esqueceu. As palavras “mandato” e mandado são parônimos, o que as torna coisa suficiente para o escape daquela representação mental consciente encontrar o desejo inconsciente – mas o inverso também poderia acontecer. E tal fato só acontece porque o pré-consciente prefere realizar um conjunto de processos de Trabalho do Sonho do que interromper o sono. Ou seja: o desejo de permanecer dormindo e, logo, manter a baixa censura à consciência, ajuda a continuar com a realização do desejo, ou da visualização do trauma infantil que não são permitidos à consciência, por conta das fortes emoções negativas e do desprazer ali promovido. O indivíduo acorda suando e tremendo, pois as duas palavras conectaram os dois eventos demais, a censura do Pré-Consciente não foi suficiente. Então, enquanto o desejo do consciente (ter mandato de parlamentar) é realizado, a imagem do pai sendo levado (cassar/caçar/buscar/ter mandado de busca e apreensão) lhe evoca a mesma tremedeira e sudorese que sentira àquela época, ele se sente tão apreensivo quanto àquela época. E talvez isso até se localize por ter sentido raiva do pai àquele dia, já que ficara de castigo, pois ficou de castigo e apanhou com o cinto de couro (quebra de decoro) por não ter feito o que o Outro lhe havia mandado – informação que o sujeito pode trazer ao narrar seu sonho.

A questão é que ele acorda exatamente porque a sudorese, a tremedeira são percepções sensoriais – e, diferentemente dos pensamentos, que estão distorcidos de sentido, estas são visíveis à consciência. Freud diz que o sonho é um despertador, pois este é o momento que a consciência começaria a perceber fragmentos (agora apenas sensoriais) que representariam a intensidade daqueles desejos proibidos. E há nomes para os processos que fazem este trabalho de distorção do sentido do sonhos: deslocamento e condensação. 

Deslocamento e Condensação – Aqui se “Perde” o Sonho

Deslocamento

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Em definição rápida: o processo de deslocamento é obra da censura psíquica; sua consistência está em deslocar o sentido de uma representação que contenha nosso desejo para uma outra que aparentemente não traz relação nenhuma à anterior. E não só o sentido, podemos falar da própria intensidade. Se voltarmos ao exemplo de nosso Deputado com Mandato Cassado, a ação do mecanismo de deslocamento estaria em atribuir à palavra Mandato, as excitações sensoriais de seu par parônimo: Mandado.  Ora, sabemos que é muito difícil e burocrático para um deputado ter o mandato cassado. Toda aquele susto não era necessário, já que se trata de um processo longo e digno de muitos recursos. A questão é que houve a ligação de toda aquela angústia acoplada à palavra mandato, através do deslocamento ela que se ligou à culpa do menino por ter sentido raiva do pai ao apanhar e ficar de castigo, como se esta culpa encobrisse um suposto desejo de seu desaparecimento, uma raiva proibida, já que o castigo era injusto, uma vez que ele só havia deixado de fazer o que o Outro Mandou. O processo de deslocamento é o movimento (deslocamento) da intensidade psíquica presente em uma representação, isto é, atribui-se muita importância no sonho ao que jamais teria tanta importância na vida real, mas o faz exatamente porque há representações daquilo que já se sentiu na vida Real. Mas, após um trabalho de análise do sonho, é possível que se possa entender a ligação entre as duas representações.

É como se, após anos realizando o mesmo trajeto até em casa, alguém fica perdido numa rua de seu bairro que nunca entrou, numa rota alternativa ao mesmo destino que nunca utilizou; a verdade é que, eventualmente alguma rua ou avenida irá se cruzar e o sentido de seu trajeto nunca esteve perdido, apesar de só conseguir enxergar as coisas assim àquele momento. Freud vai nos dizer que é possível encontrar os desejos que impulsionaram os sonhos em seus detalhes mais insignificantes, pois estes são os que sofreram o deslocamento para driblar a censura; pois estes são os que, em paradoxo, detém mais sentido perante sua própria aparente ausência de sentido. Em geral, estes pensamentos sem sentido são aqueles que foram ignorados pela consciência enquanto outros, considerados mais importantes, receberam a catexia da atenção.

Jacques Lacan (1901-1981), em seu Seminário 6 (26 de novembro de 1958), ao se referir a este processo de deslocamento utiliza uma analogia interessante, mostrando este próprio efeito de contiguidade dos sentidos completos a partir mínimos fragmentos:

[…] Vejam, sigam os textos, vejam de que se fala, em que exemplos se apoiam, e
reconhecerão perfeitamente que a contiguidade não é outra coisa senão esta combinação discursiva na qual se funda o efeito que chamamos aqui a metonímia” (p.56-57). “Contiguidade por outro lado que distinguimos por exemplo numa experiência de palavras induzidas. Uma palavra virá com uma outra: se a propósito da palavra ‘cereja’, evoco evidentemente a palavra ‘mesa’, isso seria uma relação de contiguidade porque em tal dia havia cerejas em cima da mesa” (p.57).

Como é possível observar, Lacan utiliza uma figura de linguagem para se referir ao processo de deslocamento. E, para quem estudar tal figura de linguagem, também será possível encontrar um sentido similar em sua definição perante o que disse Freud sobre o Deslocamento.

Entretanto, é inadmissível à consciência de quem escreve este artigo, saber que há algum tipo de deslocamento da trilha sonora deste artigo, portanto, as músicas continuarão a trazer seus significantes ao texto. E esta talvez seja a mais exemplificadora de todas. Dê o play.

Condensação

Transparent bowl with condensed milk and teaspoon on table

Existe uma linha tênue entre o deslocamento e a condensação. Enquanto o deslocamento retira o sentido e a intensidade de uma representação (do desejo) e as coloca em outra que, de alguma forma, estabelece ligação com ela a partir de pequenos fragmentos, palavras e imagens aparentemente insignificantes; a condensação é o ato de se reduzir todo o sentido em um lugar só.  O deslocamento troca as partes de um quebra-cabeças e as coloca em Outro, que se assemelha pelo tamanho das peças, mas deixa claro ali a ausência de sentido nas imagens de encaixe; além disso, ambas as peças também têm cores parecidas além do mesmo tamanho. A condensação é reduzir o quebra-cabeças a uma única peça. A uma única parte. E, se este quebra-cabeças completo é o desejo que vem do inconsciente, esta única parte é o sonho, após sua condensação.

Em uma metáfora mais próxima à realidade brasileira, é possível utilizar perfeitamente o exemplo do Leite Condensado da marcar Nestlé – O Famoso Leite Moça. Se o processo de condensação do leite está em transformar 5 litros de leite com açúcar em 1 litro de leite condensado, o processo de deslocamento está em transformar 1 litro de leite condensado em apenas Leite Moça. Ou seja: tomar o nome do produto pelo nome da marca. Entretanto, se já conhecemos o processo de condensação, saberemos que temos ali 5 litros de leite com açúcar. Mas vale ressaltar: quando falamos das forças de censura, o deslocamento poderia acontecer na própria palavra açúcar, por si só.

E, se Jacques Lacan (1901-1981) toma o deslocamento como uma metonímia, não seria sem sentido que ele também tomasse a condensação por uma figura de linguagem – a metáfora. Em seu Seminário 3 (2 de Maio de 1965), ele fala sobre o mesmo assunto que se estendeu até agora:

“Se uma parte, tardia, da investigação analítica, aquela que concerne à identificação e ao simbolismo, está do lado da metáfora, não negligenciamos o outro lado, o da articulação e o de contiguidade, com o que aí se esboça de inicial e de estruturante na noção de causalidade. A forma retórica que se opõe à metáfora tem um nome – ela se chama metonímia. Ela concerne à substituição de alguma coisa que se trata de nomear – estamos, com efeito, ao nível do nome. Nomeia-se uma coisa por uma outra que é o seu continente, ou a parte, ou que está em conexão com” (p.251).
“A oposição da metáfora e da metonímia é fundamental, pois o que Freud colocou
originalmente no primeiro plano nos mecanismos da neurose, bem como naqueles dos fenômenos marginais da vida normal ou do sonho, não é nem a dimensão metafórica, nem a identificação. É o contrário. De uma forma geral, o que Freud chama a condensação, é o que se chama em retórica a metáfora, o que ele chama o deslocamento é a metonímia” (p.252).

É possível entender então que a metáfora toma por forma Simbólica o significado de um conjunto de palavras em uma só – e aí, após o que disse Lacan, pode-se dizer o mesmo do processo de condensação.

Portanto, o sonho existe para a vazão de nossos desejos mais intensos oriundos da infância, segundo Freud. Eles são uma forma conhecermos aquilo que nos foi negado através da linguagem, da Lei. Os sintomas são Outra. O Sonho naturalmente passará por dificuldades em ser recordado, pois passa por severo trabalho de censura antes de chegar à consciência e, mesmo que seja, corre o risco de ser gradualmente esquecido de acordo com o despertar da censura. Entretanto, neste texto foi falado apenas sobre os chamados Processos Primários, deixando o recalque e outros assuntos do Processo Secundário para uma continuação. E nesta continuação é prometida uma elaboração maior de alguns conceitos que, infelizmente, foram tocados com bastante superficialidade por aqui.

Fim.

A partir de tudo isso escrito, fica a esperança do autor para que haja algum entendimento sobre a leitura que faz Freud sobre o que acontece nos sonhos. E, se neste texto for possível encontrar algum leitor ou leitora de boa memória, lhe virá a lembrança de que ele foi iniciado a partir de um sonho. O sonho que Tartini tem com o diabo, tendo este tomado a representação de toda a sua parte negada como seu escravo, que lhe toca a melhor das sonatas no violino que pega emprestado de seu Senhor. A Interpretação deste Sonho caberá a cada leitor ou leitora que se arrisque.

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REFERÊNCIAS:

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Tradução de Walderedo Ismael de Oliveira: Rio de Janeiro: Imago Ed. 2001.

LACAN, Jacques. O seminário livro 3; as psicoses (1955-1956). Texto estabelecido
por Jacques-Alain Miller. Trad. Aluísio Menezes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1985.

Seminário 6, o desejo e sua interpretação:  Aula de 26 de novembro de 1958 Lacan, Jacques, 1901-1981. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação/Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução Claudia Berliner. – 1.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.