Psicologia Antirracista vs Racismo no Consultório – O Sofrimento Psíquico Gerado pelo Racismo

“Numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista

ANGELA DAVIS

O Racismo Estrutural na Fundação e na História do Brasil

Você sabia que o introdutor da disciplina psiquiátrica no Brasil era negro?

Quantos psicólogos (as) pretos (as) você conhece? Hoje eu poderia dizer que conheço uma quantidade considerável. Mas a maioria imensa dos que eu conheço é composta por pessoas de pele branca. E sabemos que não é uma coincidência, dado que nunca foi o plano de desenvolvimento do Brasil possuir uma população preta em posições de destaque – visto que a ideia anterior à Lei Áurea era a do corpo preto se tornar um maquinário enquanto o corpo branco um maquinista.

Porém a Lei Áurea em si, apesar de ter desprecificado o corpo preto, não o retirou do status de coisa – coisa suja, mecânica, feia, desalmada, hipersexualizada e desumanizada – que o sistema escravocrata se aproveitava para encontrar justificativas para a sucessão de torturas, jornadas de trabalho exaustivas e não remuneradas e até assassinatos durante mais de 300 anos de vigência de escravidão no Brasil. Porém a ideia posterior à Lei Áurea não foi a de uma democracia racial, sendo esta democracia por si algo que não faz função alguma com a realidade senão a de de um mito – como um discurso estruturante da condição dos sujeitos de cor preta, mas que nada a estes sujeitos o discurso em si tem de propriedade.

O Mito da Democracia Racial

O Mito da Democracia Racial se tornou uma forma de relacionar a abolição da escravatura ao fim da imposição de uma inferioridade social, cultural, religiosa, intelectual e estética baseadas em falácias sustentadas inclusive pelo racismo científico – tentativa desesperada de legitimar uma inferioridade preta perante uma superioridade branca através de uma suposta justificativa científica que, em realidade, era e é inexistente. Um exemplo disso foi desmentido pelo Dr. Juliano Moreira – o médico negro que introduziu a disciplina psiquiátrica no Brasil, precedendo grandes nomes como o Dr. Franco da Rocha, Durval Marcondes, que também revolucionou a ciência psiquiátrica e médica no país – a respeito da tese de Raymundo Nina Rodrigues, seu então professor, que defendia que a mestiçagem de raças geraria pessoas mentalmente desiquilibradas e degeneradas em função da inferioridade racial perante os brancos.

Assim como todo mito, o Mito da Democracia racial tem função de manter o negro brasileiro domesticado, reacionário e inofensivo para reaver de seus direitos que lhe garantiriam maior participação na sociedade, seja através de sua formação universitária, sua condição econômica e posição social de destaque e/ou importância – nosso ponto de partida, no caso a psicologia como ciência e profissão.

Em suma, se o racismo que constituiu e instituiu o período escravocrata no Brasil fundou a cultura brasileira, alimentando o discurso de inferioridade racial do negro, o mito da democracia racial, ou seja, a negação da existência de algum desfavorecimento racial após a abolição da escravatura, é uma forma de manter essa mesma inferioridade racial de maneira velada: agora impregnada na cultura, na economia e na política.

Para resumir mais: se admitíssemos que haveria e há o racismo no Brasil desde sua estrutura, ou o racismo estrutural, teríamos que admitir que todas as grandes potências econômicas, políticas, territoriais e discursivas de nosso país tem sangue preto escravizado como fundamento de sua edificação.

O Racismo na Psicologia e na Psiquiatria

O livro “Tornar-se Negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro ema ascenção social”, dissertação de mestrado da psiquiatra Neusa Santos Souza, tem em um de seus pilares o entendimento de que até diagnósticos psiquiátricos se tornaram uma forma de legitimar o sofrimento gerado pelo racismo. Neusa além de produzir uma obra fundamental à psicologia antirracista brasileira, articulando Franz Fanon junto a estudos históricos e sociológicos do racismo no Brasil à Freud e Lacan, foi responsável por um excepcional trabalho com pacientes psicóticos nos hospitais que atuou. Neusa foi uma vítima do suicídio. Aos 60 anos, em 2008, se despede e se desculpa em uma carta, o único sinal dado sobre sua decisão até então. Não era casada e não teve filhos.

AVISO IMPORTANTE: é esperado de quem lê este artigo o prévio entendimento sobre os critérios diagnósticos e o mínimo do entendimento nosológico dos quadros que serão citados, como por exemplo Depressão, Ansiedade, Fobia Social. Se você ainda não entende as características destes que são considerados transtornos, recomendo uma leitura rápida nos textos a seguir:

Um Sintoma no/do Sujeito ou um Sintoma na/da Cultura?

Já entendemos que o racismo estrutural gerou um prejuízo de ordem econômica, social e cultural estendido por sucessivas gerações, privando a população preta das mínimas condições de moradia, emprego, renda, estudo e dignidade cultural e religiosa, para que o Brasil fosse povoado com povos exteriores de cor branca e amarela – todos estes “cotistas” de terras, posses, moradia, empregos, escolas em sau respectiva língua materna, comércios e/ou isenção tributária – para que o Brasil fosse cada vez mais italiano, português, alemão, holandês, japonês e francês do que cabo-verdiano, bissauense, agolano ou moçambicano.

Sim, não houve um engano no que foi dito acima: população estrangeiras que povoaram o Brasil receberam muito mais do que vagas em universidades: houve uma delegação de terras, estudos, inserção cultural e social e possibilidade de ascensão instituídas em planos de governo, também com o foco do plano de branqueamento da população brasileira. Aumento mais ainda o estigma à população negra e fortalecendo o conceito de branquitude, que explicaremos mais adiante.

Uma Estruturação Psicossocioeconômico-cultural Racista

Navio negreiro (1830), de Johann Moritz Rugendas

Já sabemos também que a população preta que veio escravizada e sob condições subumanas nos porões dos navios intercontinentais da época, perdeu coisas muito importantes tanto naquele momento imediato, como no atravessamento da negritude para as próximas gerações. Porém é raro que alguém se atenha a alguns elementos além do eixo econômico que também foram perdidos nesta violenta expatriação. Apagou-se, além da liberdade e dos direitos de quem chegava no Brasil como negro:

  1. o nome próprio;
  2. a cultura familiar, histórica e local;
  3. a religião;
  4. a língua.

Não somos ignorantes a ponto de desconsiderarmos o potencial de organização comunitária e subjetiva que tem um nome próprio, uma narrativa da origem de um sobrenome, da história de uma família, das personalidades que nela viveram; da sensação de proteção e pertencimento que o discurso religioso e/ou mitológico tem a um grupo em específico; muito menos ousaremos desconsiderar que a psiquê, a identidade, a forma de concepção que alguém faz de si mesmo é também influência de uma habilidade exclusivamente hunana de ser falante; mas é também um reflexo de sua língua, que é sua forma primeira de inserção numa cultura com suas regras, valores, afetos e sintomas. Porém a escravidão criou àquelas pessoas o pertencimento subjetivo a uma forma de cultura paralela.

Uma vez que sabemos destes preceitos, somos cognitivamente hábeis de entender que aconteceu na nossa sociedade:

  • a perda destes lugares de organização a uma população preta, enquanto havia a preservação disso nas outras culturas;
  • uma constante exibição midiático-discursiva de um padrão de beleza, de riqueza e de intelectualidade e relevância social que SEMPRE seria branco, levando o que fosse preto ao entendimento opostos (e a isso chamamos de branquitude/brancura, ok?);
  • uma marginalização econômica, em função do abandono à população alforriada e suas gerações seguintes, condenadas ao subemprego, à subeducação e à subserviência, podendo vir mais vezes ao crime pela maior frequência de exposição à miséria e aos forçados testes de sua honestidade;
  • um estigma social e cultural à cor da pele preta que atravessava os afetos, a linguagem e a sensação de pertencimento, o direito de ir e vir (inclusive após a abolição).

Cultura, Imagem e Psiquê

Será que poderíamos começar a imaginar que, mesmo que livre, uma criança que nasce preta, nasceria assujeitada a receber o banho cultural que todo ser falante recebe ao ser recepcionado como membro de um grupo social? Obviamente sim, porém temos a seguinte dúvida: e se este primeiro banho ocorre no seio familiar, que lhe dá amor, carinho, limites e atenção, sua segunda etapa se dá por todos os outros dispositivos de representação da cultura que a cercam, começando pela escola.

Supondo que no seio familiar a imagem de seus traços negroides (nariz, lábios, cabelo crespo e pele escura) ainda não fosse estigmatizada, por conta de seus cuidadores não terem acolhido o racismo à mesa, ainda assim estaríamos falando de uma criança que ao seu primeiro contato com o olhar da cultura (conforme explicamos acima) sobre seu corpo, haveria de reconhecer-se junto ao estigma que cultura pintou em sua origem.

Acredito que quem leu até aqui já deveria ter alguma familiaridade com o conceito do Estadio do Espelho de Jacques Lacan, justamente para que possamos aqui imaginar alguma pequena articulação do impacto do racismo numa constituição subjetiva da própria imagem. Você poderá conhecer mais sobre este conceito nos itens a seguir:

Texto do Blog explicando o conceito do Estádio do Espelho
A Psicanalista Maria Homem comenta brevemente o conceito de Jacques Lacan na atualidade, nos afetos e na cultura.
Uma aula do Psicanalista Christian Dunker sobre o conceito de Jacques Lacan dentro do Instituto de Psicologia da USP
O Conceito de Jacques Lacan explicado no Canal do Youtube do Profº Dr. Christian Dunker

Uma Imagem Espelhada no Racismo – Um Olhar Psicanalítico

Teríamos aqui a possibilidade de expor esta criança a algum contexto parecido com aquele que houvesse: exclusão social pelos colegas de turma; bullying com motivações racistas levando a uma concepção de ódio e contradição em relação à própria imagem; menor expectativa e, consequentemente, atenção ao aprendizado por parte de professores que já enxergam o aluno negro como uma falha escolar; eleição da criança preta à condição de mais feia da sala; constante rejeição afetiva na adolescência, propondo dificuldades de relacionamentos entre muitos outros fatos que sim, são reais e não foram inventados para este artigo.

Estaríamos também falando aqui, conforme já descrito por Franz Fanon na década de 50 (onde sua tese para formar-se psiquiatra à época, fora inclusive rejeitada por tratar deste assunto, que mais tarde se tornaria o livro “Pele Negra Máscaras Brancas”) e também revisitado e atualizado por Neusa Santos Souza em sua dissertação de mestrado em 1983 (Tornar-se Negro: as vicissitudes do negro brasileiro em ascensão social) de um choque: um choque entre a concepção também do Eu Ideal com o Ideal do Eu (clique aqui caso ainda não tenha se familiarizado com este conceito).

É preciso que quem leia este artigo entenda o seguinte: uma cultura racista rasga a imagem que concebe um sujeito. Falamos de uma concepção de si que é diariamente agredida por uma cultura que cerca um corpo que fora e continua sendo rejeitado e açoitado por ela. Uma criança que cresce em um meio social que a acusa constantemente de não possuir um corpo individual e sim um corpo já carregado de significantes estigmatizados, rejeitados e excludentes a quaisquer sonhos, meios e aspirações que ela queira.

O negro se dá conta da irrealidade de muitas das proposições que havia assumido como suas, por referência à atitude subjetiva do branco.

[…] para o negro existe um mito a confrontar. Um mito firmemente ancorado. O negro não tem consciência disso enquanto sua existência decorrer em meio aos seus; mas, ao primeiro olhar branco, ele sente o peso de sua melanina.

FANON, Franz. Pele Negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento e colaboração de Raquel Camargo; Prefácio de Grada Kilomba; Posfácio de Deivison Faustino; Textos Complementares de Francis Jeanson e Paul Gilroy. São Paulo: Ubu Editora, 2020. P. 165.

O negro, conforme nos diz Fanon, responde a um Outro branco, serve, como nos enfatiza Neusa, a um Ideal do Eu, a uma forma de ser-no-mundo, a aspirações profissionais, estéticas, de comportamento e de fala que são sempre Brancos. Pois aqueles associados ao negro lhe são aterrorizantes. Impôs-se aqui a quem nasce sob a negritude: assujeitar-se à estereotipação dela ou negá-la a todo custo. Neusa nos mostra que não há dinheiro ou posição social que permita um escape. A cultura impõe a brancura e estigmatiza a negritude que existe na imagem de si, conhecida no espelho familiar. Aqui não falamos de quem diz-se negro, mas de quem é, literalmente, [mal]dito dentro desta concepção – a partir de seu corpo, que carrega a história de um país racista:

[…]”o negro é diferente”. Diferente, inferior e subalterno ao branco. Porque aqui a diferença em relação a um outro, o branco, proprietário exclusivo do lugar de referência, a partir do qual o negro será definido e se autodefinirá.

[…] para se afirmar ou para se negar, o negra toma o branco como marco referencial. A espontaneidade lhe é direito negado.

SOUZA, Neusa Santos. 2021. Tornar-se negro ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar. p.56

É por isso que, parafraseando a psiquiatra: ser negro é tornar-se negro. Mas a partir do próprio discurso, da militância e da travessia simbólica a esta imagem congelada no estigma racista. Travessia diferente da branca, que se preocupa “apenas” com a neurose histérica, obsessiva, à psicose ou à perversão, pois como disse Fanon:

“Como o drama racial tem lugar a céu aberto, o negro não tem tempo de o “inconscientizar””.

FANON, Franz. Pele Negra, máscaras brancasTradução de Sebastião Nascimento e colaboração de Raquel Camargo; Prefácio de Grada Kilomba; Posfácio de Deivison Faustino; Textos Complementares de Francis Jeanson e Paul Gilroy. São Paulo: Ubu Editora, 2020. p. 165

Este próprio discurso em que torna-se negro, infelizmente, existe a partir do discurso racista impregnado, encardido na cultura, e só poderá ser enunciado se deste Outro discurso racista for, ao mínimo possível desvencilhado por um processo de travessia subjetiva que encontra entraves a cada esquina de um país racista. Se conhecemos bem os mecanismos de defesa, o racismo é uma violência diária, produtora de traumas diversos aos quais também reagimos com negação, projeção, introjeção, intelectualizacão, racionalização, somatização, dissociação e até humor. Porém ele não é um objeto produtor de traumas que conseguimos retirar da cultura com facilidade.

Franz Fanon foi um psiquiatria nascido na colônia então francesa da Martinica, em 1925. Sua vida curta, encerrada em 1961, produziu obras importantíssimas a respeito do antirracismo e do decolonialismo, evidenciando não só o olhar psicológico, psiquiátrico e psicanalítico, mas também o olhar sócio-histórico para a população colonizada e, principalmente, negra.

Em verdade: em 134 anos de abolição da escravatura ainda encontramos o racismo do outro lado da rua. É um cenário de guerra. Uma guerra invisível e silenciada pelo Mito da Democracia Racial. Uma guerra real, que não é visível ou dizível por quem a conduz, que não gera corredores humanitários aos seus civis, pois são estes mesmos os respectivos alvos inimizados histórica e culturalmente. E como sabemos: uma guerra produz prejuízos econômicos, sociais, psicológicos e, dizendo o óbvio que precisa ser dito: ceifa vidas. E esta é apenas uma das faces do racismo. Vamos analisar adiante analisar algumas estatísticas produzidas durante esta guerra.

Aspirações e Referências

Mas teríamos também o adulto exposto à constantes situações constrangedoras como: ser seguido pelos profissionais de segurança em comércios; ser considerado incapaz de comprar algo mais caro em determinada loja e, portanto, não ser atendido ou ser atendido com descaso por vendedores; ser abordado com mais frequência e com menos educação por parte dos policiais; ser 83% da população que foi presa injustamente com base em reconhecimento fotográfico; ter três vezes mais chance de ser morto em operações policiais; perceber surpresa ou descrença, com certa frequência ao revelar a profissão que possui (sendo ela de ordem maior intelectual, técnica ou prestígio), uma mesmo a população preta compondo 54% da população brasileira, ela está em apenas 6% dos cargos de liderança, em 43% dos que cursam ensino superior (em 2000 eram apenas 21%, sendo que entre os que tinham 18-24 anos, 5,5%) e também é possível ver mulheres negras recebendo 70% a menos que mulheres brancas.

Gostaria também de trazer mais alguns dados:

De que maneira estes dados chegam ao consultório?

Gostaria de pensar junto com quem lê este artigo e tem algum conhecimento sobre saúde mental, quase como se compuséssemos um caso clínico com os elementos que elencamos até agora (vide dados históricos, socioeconômicos e psicossociais listados). Numa análise simples, geral e desconsiderando idiossincrasias naturais a todo caso clínico, poderíamos ter os seguintes fenômenos pré-dispostos à parte considerável da população negra brasileira:

  • Perda de repertório, referências, histórico-familiares e socioculturais;
  • Baixa autoestima;
  • Baixo nível de reconhecimento das próprias capacidades;
  • Preocupações constantes e eventualmente desproporcionais à realidade em relação à autoimagem;
  • Dificuldade de encontrar prazer nos diferentes eixos de sua vida;
  • Restrição e/ou negação de acesso a modelos de aspiração social, emocional e profissional (como são retratadas as pessoas negras na televisão e nas grandes mídias?);
  • Diminuição do estímulo necessário ao desenvolvimento pleno das capacidades cognitivas (menor acesso à educação, maior propensão ao bullying e à invisibilidade perante os docentes);
  • Maior tempo em estado de alerta, percepção elevada de risco à própria vida;
  • Elevado histórico de eventos onde houve exposição a diferentes níveis de rejeição afetiva, sexual, profissional, cultural e social;
  • Maior dificuldade de acesso a itens básicos à sobrevivência e ao bem-estar biopsicossocial;
  • Sentimentos de desconfiança, insegurança física, social, econômica e emocional;
  • Ansiedades persecutórias em relação à própria conduta social, constantemente percebida sob suspeita;
  • Comportamento evasivo em relação projeções afetivas e profissionais de médio e longo prazo;
  • Pensamento acelerado, constantemente relacionado à iminência de um acontecimento ruim em um futuro próximo;
  • Medo, recusa ou resistência a sair de casa para seus afazeres cotidianos;
  • Euforia desproporcional perante realizações simples;
  • Idealização de um futuro desconectado com sua realidade imediata;
  • Impulsividade;
  • Baixa tolerância à frustração.

É com toda certeza que o autor deste artigo não está “patologizando” e muito menos supondo sinais e sintomas a uma pessoa apenas pela cor da pele dela. Muito pelo contrário: estou dizendo que o contexto sociocultural que o racismo estrutural impôs a quem pertence à raça negra e possui a cor preta ou parda insere, forçosamente, e com mais frequência, estas pessoas à situações análogas às que produzem o que fora descrito acima. E mais ainda: se quem leu estes elementos for um profissional ou estudante da psiquiatra ou da psicologia, é suposto a este profissional – caso este ainda seja ignorante sobre autores e autoras de uma psicologia antirracista e, pior ainda, do contexto imposto pelo racismo estrutural à pessoa negra que chega a seu consultório – o exercício de localizar estes sinais e sintomas nos critérios diagnósticos descritos no DSM-V e no CID11, e talvez até enquadrar esta pessoa dentro dos seguintes transtornos mentais:

A pergunta que fazemos com este artigo é: estamos falando de um diagnóstico do sujeito ou de um diagnóstico da cultura? Estes sinais e sintomas que descrevemos acima, são produzidos por alguma dificuldade neurofisiológica, endócrina ou comportamental deste sujeito? O questionamento aqui é: qual é o diagnóstico apropriado para que orientemos em nossa prática o tratamento apropriado para que este sujeito, então, consiga se adaptar e aprenda a aceitar e que controle suas respostas físicas, psíquicas e emocionais a estas violências as quais ele vem sendo e provavelmente será submetido a qualquer momento?

Para ilustrar melhor, além do que foi listado acima, podemos pensar em algumas notícias, recentes à publicação deste artigo, para tentarmos entender melhor a quais violências falamos e à quais estados psíquicos estas podem produzir às pessoas próximas e às pessoas que podem ser as próximas:

Que acontece exatamente dois após o Caso George Floyd

Este caso, em que um assassinato a um homem negro, em um contexto claramente racista aconteceu no Dia da Consciência Negra

Racismo estrutural dá as caras no É de Casa

Médico ameaça e é racista com namorada da ex: “Ela é macaca!”

‘Racismo não tem perdão’, diz jovem negro acusado de furtar guarda-chuva na Zona Sul

E até este dado: A cada 23 minutos morre um jovem negro no Brasil.

O Sofrimento Psíquico Gerado pelo Racismo – Os Pseudodiagnósticos como forma de Apagamento

Se o racismo que funda a nossa cultura, ou seja: a cultura brasileira nunca existiu sem o racismo, já foi desconsiderado tantas vezes em diversos âmbitos, por que ele não poderia ter sido em diagnósticos? E se foi, como estes diagnósticos poderiam ganhar nossa ampla confiabilidade? Se um psicólogo/psiquiatra não observa o racismo e a violência produzida por ele como produtores de sinais sintomas na vida daquele paciente, seu diagnóstico terá grandes chances de errado/incompleto.

Como assim? Simples: não estamos falando necessariamente de sintomas, estamos falando de uma resposta a uma violência. Para ilustrar: não falamos de ansiedade, falamos de medo. Não falamos de depressão, falamos de tristeza, trauma e autopreservação a agressões diárias; não falamos de fobia social, falamos prevenção à vida; não se trata de transtorno do pânico, se trata da percepção de um perigo real. Não é um transtorno do estresse pós-traumático: é um estresse traumático.

Se o próprio Dr. Juliano Moreira precisou de muito trabalho para acabar o racismo científico da época, que dizia que doenças mentais estariam relacionadas à raça, se os manicômios que tínhamos antes da Reforma Psiquiátrica em função da Luta Antimanicomial, eram lotados de pessoas pretas, será que consegui abandonar de vez a influência do racismo no sofrimento, no tratamento e no diagnóstico no que tange à saúde mental da população negra?

Frequentemente recebo em minha clínica pessoas negrasque já tiveram, dentro de um consultório de psicologia, seu sofrimento psíquico em função do racismo deslegitimado através de um diagnóstico precipitado ou até de uma acusação de “vitimismo”, “recusa em responsabilizar-se por sua condição”, “falta de aderência ao tratamento” e o famoso “ah, mas isso não foi racismo”, enquanto estas pessoas relatavam situações em que a violência racista as surpreendeu.

Se na formação universitária os autores aqui citados sequer fizeram parte das disciplinas que cursei, como quem não teve contato com uma psicologia antirracista estaria apto a diagnosticar e/ou tratar uma pessoa negra? E não apenas estes mas muitos outros de abordagens diferentes, já trabalhados inclusive em outros países como Wade Nobles, Na’im Akbar, Virgínia Bicudo, Isildinha Nogueira, Lelia Gonzalez, entre outros sequer passam pela graduação. Mas é um conhecimento necessário, visto que uma psicologia antirracista e decolonial não é uma opção no Brasil, é uma obrigação. Quando enxergamos um transtorno mental ao invés de uma resposta ao sofrimento, estamos silenciando mais uma vez uma fala. A solução passa sim, pelo tratamento psicológico e eventualmente farmacológico, mas ela jamais poderá acontecer se o plano de tratamento não considerar desde sua gênese o impacto da violência racista antes, durante e depois do diagnóstico e tratamento.

Se uma pessoa não vê mais prazer no trabalho, não tem vontade de ter relações de amizade e tem medo de sair de casa há duas ou mais semanas, conforme descrito no DSM-V para o diagnóstico de um episódio depressivo, eu preciso, antes de um diagnóstico, entender se esta pessoa não está sendo vítima e uma violência racista e se meu plano de tratamento inclui a possibilidade de ela continuar sendo, uma vez que este é uma condição da própria existência da nossa cultura.

Se o diagnóstico psiquiátrico e psicológico não constata o sofrimento gerado pelo racismo, ele não pode ser diagnóstico, ele é um mito. Um mito mesmo, em sua concepção própria de narrativa que se faz necessária para “ser produto econômico-político-ideológico, um conjunto de representações que expressa e oculta uma ordem de produção de bens de dominação e doutrinação”, como diria a própria Neusa.

Até porque, nos dias de hoje e acredito que na psiquiatria e psicologia em si não estudar sobre racismo e não considerá-lo como um componente crucial à saúde mental é ser conivente com a estruturação politico-ideológica que contribui com o genocídio da população negra. Justamente por ser uma negação, na acepção de “descartar um dado da realidade ou parte deste”. E sabemos que a negação contribui para a manutenção do sintoma violento que possuímos na cultura, mais ainda se atribuirmos ao sujeito um sintoma que é da cultura e que nela está. E não, não está sendo dito que uma pessoa negra não poderia ter tais diagnósticos, e sim estamos nos perguntando: até onde falamos de um organismo que sofre de um transtorno mental ao invés de uma vítima de violência diária? Pois bons profissionais entenderão que em cada um dos casos o manejo clínico deverá ser diferente.

Segundo fonte do próprio documento do Ministério da Saúde, em um estudo realizado com a Universidade de Brasília:

Queixas raciais podem ser subestimadas ou individualizadas, tratadas como
algo pontual, de pouca importância e ainda culpabilizando aquele que sofre o preconceito.
O estigma em torno do suicídio, aliados a elementos estruturantes como o racismo estão
relacionados e contribuem para o silenciamento em torno da questão, além das dificuldades
de se falar abertamente sobre o assunto.

MS. Portaria nº 992/2009 – Institui a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. 2. Análise do Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao
Controle Social (DAGEP/ Ministério da Saúde) utilizando dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM/DATASUS/MS)

As clínicas psicológica, psiquiátrica e psicanalítica que desconsideram o racismo como tanto parte de uma estruturação psíquica, como forma de manutenção de sinais e sintomas de um quadro de sofrimento psíquico, estão, indiretamente, reproduzindo-o dentro de seu consultório.

O Suicídio da População Negra

E por último: se quem lê este artigo sentir que meu relato carece de dados, fatos para sua correlação e indícios para pensarmos no quadro de genocídio da população preta que, caso psicólogos e psiquiatras não atualizem suas leituras e práticas, poderão contribuir utilizando apenas a própria ignorância no manejo clínico com pessoas negras em seu consultórios, aqui temos alguns em um estudo realizado pelo Ministério da Saúde sobre o suicídio:

  • o percentual de suicídio entre jovens e adolescentes negros aumentou 12%;
  • são estatísticamente mais vulneráveis à morte por suicídio: homens, pessoas com pouca escolaridade, idosos, adultos, população indígenas e adolescentes e jovens negros;
  • entre os itens mais frequentemente determinantes para o suicídio, encontram-se: desemprego, migração, isolamento social, rejeição, discriminação, perdas recentes de parentes, amigos; mudanças políticas e financeiras e transtornos mentais;
  • a cada dez jovens que se suicidaram no Brasil em 2016, seis eram negros;
  • “rejeição”, “sentimento de inferioridade” e de não pertencimento, exclusão e não aceitação de si mesmo por parte do próprio adolescente/jovem, sua família e/ou amigos estão entre as razões mais apontadas para condução do suicídio de jovens negros no país;
  • De 2012 a 2016, a proporção de suicídios entre negros aumentou em comparação às demais raças/cores, subindo de 53,3% em 2012 para 55,4% em 2016;
  • O percentual de suicídios aumentou entre os pardos (2012: 46,2% e 2016: 49,3%);

No mesmo documento é apontado que as principais causas associadas ao suicídio em negros são:

a) o não lugar,
b) ausência de sentimento de pertença,
c) sentimento de inferioridade,
d) rejeição,
e) negligência,
f) maus tratos,
g) abuso,
h) violência,
i) inadequação,
j) inadaptação,
k) sentimento de incapacidade,
l) solidão,
m) isolamento social.

Fontes [conforme consultadas pelo MS e UnB]: Miller, et al, 2015 – Role of social support in adolescent suicidal ideation and suicide attempts. 2. Baskin, et al, 2010 – Belongingness as a protective factor against
loneliness and potential depression in a multicultural middle school. 3. Tomek, et al, 2018 – Suicidality in Black American youth living in impoverished neighborhoods: is
school connectedness a protective factor?. 4. Stewart, 1989 – Young, black, and male in America: An endangered species. 5. Hollingsworth, et al, 2017 – Experiencing racial
microaggressionsinfluencessuicide ideation through perceived burdensomenessin African Americans

Quando pensamos em um histórico de acordo com o que é imposto à vivência da população negra, podemos visualizar sobretudo como sua exposição a estes fatores de risco está mais elevada em função do próprio racismo estrutural – não só econômica e institucionalmente na sociedade brasileira, mas também culturalmente, esteticamente; podendo ter influência na própria concepção psicológica que a população afetada por ele tem de si. Conforme dito no estudo:

Os impactos do racismo geram efeitos que incidem diretamente no comportamento das
pessoas negras que normalmente estão associados à humilhação racial e à negação de si,
que podem levar a diversas consequências inclusive às práticas de suicídio.


Os determinantes sociais e principalmente aqueles relacionados ao acesso e permanência na
educação influenciam adolescentes e jovens negros sobre suas perspectivas em relação à
vida.


Destacam-se as ações abaixo como fatores de proteção contra o óbito por suicídio:
• Acompanhamento da frequência escolar;
• Condições para permanência na escola/universidade;
• Cotas raciais nas universidades.

Fonte [conforme verificado por MS e UnB]: 1. MS. Portaria nº 992/2009 – Institui a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. 2. Hollingsworth, et al, 2017 – Experiencing racial microaggressions influences
suicide ideation through perceived burdensomeness in African Americans. 3. Tomek, et al, 2018 – Suicidality in Black American youth living in impoverished neighborhoods: is school
connectedness a protective factor?. 4. Van Ryzin, et al, 2009 – Autonomy,belongingness, and engagement in school as contributorsto adolescent psychologicalwell-being.

Considerações Finais

E para finalmente concluir: podemos pensar que a ideia de uma psicologia antirracista na sociedade brasileira se faz como uma forma de salvar vidas. Um profissional da psicologia despreparado para lidar com questões raciais (e lê-se como despreparado aquele que ainda não acessou concepções específicas sobre este assunto dentro da psicologia) poderá tanto reproduzir o racismo estrutural em sua prática clínica, como não alcançá-lo na dimensão necessária com o limitado repertório teórico-técnico que formação em psicologia tem sobre este assunto.

Corre-se então o risco de gerar diagnósticos incompletos e conduzir tratamentos errôneos que desconsideram o impacto do racismo na formação da identidade, da personalidade, da autoestima e da autoimagem da pessoa negra, bem como sua perpetuação pelas esferas políticas, institucionais, midiáticas e socioeconômicas, que pode e deve gerar impacto no diagnóstico e tratamento. Profissionais da psicologia que não ampliaram seu olhar antirracista correm o severo risco de conduzirem no consultório o mesmo sofrimento que conduziu o paciente até lá. Pelo próprio componente racista que mora na arrogância e na vaidade de acreditar que não há em si falta de conhecimento sobre uma população preta, bem como do Mito da Democracia racial, que sugere a ausência de quaisquer diferenças que a questão racial poderia ter gerado.

Pois neste assunto o binarismo é implícito: é preciso ser antirracista pra deixar de ser racista. Mas a condição para tal postura envolve reconhecer-se como sujeito dentro de um discurso racista. É um pouco mais de preto no branco como paradoxal solução desta dicotomia: ou você é e procura ser cada vez mais antirracista, ou você pode ser racista – adaptação do famoso comentário de Eldrige Cleaver: “se você não é parte da solução, você é parte do problema.”– o que te gera mais desconforto?

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos

Recomendação de leitura (além das referências):

Cartilha do Conselho Federal de Psicologia com Referências Técnicas para atuação de Psicólogas (os) em Relações Raciais

REFERÊNCIAS:

ALTMAN, Neil. (2020). White Privilege: Psychoanalytic Perspectives. New York: Routledge Focus.

BRASIL. Congresso. Câmara dos Deputados. Nova composição da Câmara ainda tem descompasso em relação ao perfil da população brasileira. Fonte: Agência Câmara de Notícias. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/550900-nova-composicao-da-camara-ainda-tem-descompasso-em-relacao-ao-perfil-da-populacao-brasileira/#comentario. Acesso em: 15 jun. 2022

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros 2012 a 2016 / Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Universidade de Brasília, Observatório de Saúde de Populações em Vulnerabilidade – Brasília : Ministério da Saúde, 2018. ISBN 978-85-2672-6

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Relações Raciais: Referências Técnicas para atuação de psicólogas/os. Brasília: CFP, 2017.

FERNANDES, Florestan. 1965. A integração do negro na sociedade de classes: no limiar de uma nova
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FANON, Frantz. 2005. Os condenados da terra; tradução Enilce Albergaria Rocha, Lucy Magalhães.
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FANON, Franz. Pele Negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento e colaboração de Raquel Camargo; Prefácio de Grada Kilomba; Posfácio de Deivison Faustino; Textos Complementares de Francis Jeanson e Paul Gilroy. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

FREUD, Sigmund. (1930) Mal-estar na Civilização. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. XXII.

GONZALEZ, Lélia. 2020. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização: Flavia Rios, Marcia Lima. 1ª ed. Rio de Janeiro. Zahar.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estudos e Análises- Informação Demográfica e Socioeconômica- Número 2. Características Étnico-raciais da População- Classificações e Identidades. Rio de janeiro; 2013. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv63405.pd

Lacan, J., Escritos (1966). RJ: Jorge Zahar Editor, 1998, p 96-103.Trad. de Vera Ribeiro.

LACAN, Jacques. Seminário 17 – o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

REIS FILHO, José Tiago dos. 2005. Negritude e sofrimento psíquico. 142 f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2005.

ROSA, M. D. ; BINKOWSKI, GABRIEL INTICHER ; Souza, Priscilla Santos de . Tornar-se mulher negra: uma face pública e coletiva do luto. CLÍNICA & CULTURA , v. 8, p. 86-100, 2021.

SOUZA, Neusa Santos. 2021. Tornar-se negro ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar.

05 livros para “entender” Lacan

Recomendações de leitura para interessados em Psicanálise Lacaniana

Jacque Lacan (1901-1981)

Entender Lacan é por demais pretensioso. Sua fala e sua escrita são por demais intrincadas, reunindo às vezes no mesmo parágrafo conceitos de matemática, física e antropologia. Sua transmissão nos remete à falta, à nossa ignorância. Seu estilo rebuscado e erudito gera horas e horas de debate sobre uma única frase.

Pensando em abordar diversos aspectos da obra de Lacan, reuni aqui textos de psicanalistas que conviveram, estudaram e repensam a obra do francês. Elas ajudam não só pessoas em formação psicanalítica.

Gostaria de salientar que nenhum texto escrito por terceiros substitui a leitura do autor/pensador por ele mesmo. Sempre vá direto, mas caso queria uma ajuda, aqui vão algumas dicas:

01 – Introdução clínica à psicanálise lacaniana (Bruce Fink)

Escrito por Bruce Fink, um analista norte-americano (o quê, por si só já é notável), este texto serve como introdução para todos aqueles que se destinam à prática clínica e que querem se aproximar da obra de Lacan.

Aqui, Fink discorre sobre várias facetas da prática clínica, sempre com exemplos úteis à mão. Fala sobre Desejo, Diagnóstico e Técnica analítica. Como nesse trecho, onde o autor discute o aspecto sempre desafiador de se manter fora de uma prática de “compreensão” do sofrimento do paciente:

“Na análise, entretanto, analista e analisando não “falam a mesma língua”, embora ambos possam ser falantes nativos de um dado idioma. Suas expressões podem ser muito parecidas, se eles vierem de meios socioeconômicos semelhantes e da mesma região do país, mas, em última instância, eles nunca “falam a mesma língua”” (Fink, 2018, p. 33)

Falando sobre Fantasia Fundamental, Fink (2018), afirma:

“Convém observar que a fantasia fundamental é menos algo que exista em si, antes da análise, do que algo contruído e reconstruído no curso da análise” (p.83).

02 – Alô, Lacan? É claro que não. (Jean Allouch)

Este livro se trata de um compilado de anedotas da vida e trabalho de Lacan. Com passagens em sessões de análise, supervisões clínicas e apresentação de pacientes, onde a escuta e o jeito irreverente do mestre francês despontavam. Como nessa passagem onde a surpresa e o deslocamento do lugar-comum aparecem em uma sessão:

conjuração?

“No tom irritado que é habitualmente o deste tipo de afirmação, ele diz:

– Puxa! eu sou uma besta.

Lacan:

– Não é porque você diz que não é verdade” (p.39)

A prática do chamado tempo lógico causou muita polêmica culminando na saída de Lacan da IPA em 1964. Por vezes ele pedia que o paciente viesse 2 ou 3 vezes no mesmo dia para sessões curtíssimas, e na semana seguinte passava uma hora inteira escutando o mesmo paciente. Sessões com tempo variável são, sem dúvida nenhuma, uma arte. Seleciono aqui duas passagens

sessões curtas

“Ela pergunta a Lacan:

– Por que você me atende por tão pouco tempo?

– Para que isso seja mais sólido.” (p.91)

É um texto revelador e por vezes humorístico que nos mostra o dia-a-dia do trabalho de Lacan com a Psicanálise em suas diversas frentes.

03 – A vida com Lacan (Catherine Millot)

A vida com Lacan trata-se de um texto íntimo que nos mostra a última década de vida de Jacques Lacan à partir do ponto de vista de Catherine Millot. Ela que buscou a formação com o psicanalista já no fim da vida, retrata situações corriqueiras onde o estilo de Lacan se mostra:

“A intensidade de sua expressão, sua dramatização, me fazia pensar no teatro da crueldade de Antonin Artaud. Numa outra noite em Paris, alguns meses antes, na capela do hospital Saint-Anne, ele proclamara que falava com as paredes e que era isso que fazia seu auditório gozar. A teatralização fazia parte da arte oratória de Lacan. A cólera afetada e a raiva ostentosa eram suas marcas recorrentes” (Millot, 2017, p.35)    

Um homem de hábitos, envolto em suas reflexões acerca do humano e sua relação com o Outro, Lacan deixou um legado importantíssimo para a Psicanálise e para o campo mais amplo da Saúde Mental.

04 – 14 conferências sobre Jacques Lacan (Fani Hisgail)

Esta coletânea publicada em 1989 reúne textos de Contardo Calligaris, Oscar Cesarotto entre outros. Textos estes que foram apresentados na chamada “Semana Jacques Lacan”, realizada na PUC-SP, em outubro de 1988. Foram 4 dias de intenso debate e discussão entre filósofos, psicanalistas e semiólogos, debruçando-se sobre diversas áreas do ensino de Lacan.

Nessa coletânea você encontra discussões sobre o “campo psicanalítico”, a ética da psicanálise e como se transmite a mesma. Discorrendo sobre cultura, o saudoso Calligaris diz:

“A necessidade que funda o sujeito neurótico numa filiação à função paterna é que o funda submisso ao automatismo de repetição, o qual a função paterna organiza. E o sintoma não é nada mais do que esta organização” (1989, p.20).

Interessante apontar também o uso do Nó-Borromeano por Oscar Cesarotto (1989) acerca da Transmissão da Psicanálise, falando em três tempos: Formação, Autorização e Reconhecimento.

05 – Introdução à topologia de Lacan (J.D. Nasio)

O período entre 1964 e 1971 ficou conhecido como a virada lógica de Lacan. Nesse texto de 2010, J. D. Nasio, grande divulgador da obra de Lacan, discute e apresenta a construção e uso das estruturas topológicas na psicanálise do francês. Entre elas, encontramos a Banda de Mobius, Toro, Garrafa de Klein e Cross-cap.

Lacan fez uso da Topologia das Superfícies para explicar e ilustrar conceitos psicanalíticos de maneira lógica. Entre eles: Desejo, Inconsciente, Discurso e Objeto a.

Um texto interessantíssimo para os curiosos do uso de conceitos lógico/matemáticos pelo mestre francês.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências

Allouch, J. (1999) – Alô, Lacan? – É claro que não. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Higail, F (org.). (1989) 14 Conferências sobre Jacques Lacan. São Paulo: Editora Escuta.

Fink, B. (2018). Introdução clínica à psicanálise lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Millot, C. (2017). A vida com Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Nasio, J (2011). Introdução à topologia de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

HP Lovecraft e o Real em Psicanálise

Howard Phillips Lovecraft é um dos casos de autores que ganha mais notoriedade após sua morte. Cada vez mais, percebe-se a presença de elementos de sua obra literária em filmes, séries e livros.

Suas contribuições para a literatura de horror e ficção científica são notáveis, adicionando elementos típicos dos gêneros de fantasia. Alguns o comparam a Edgar Allan Poe, ao qual é atribuído a criação do gênero de Romance Policial.

Críticos e fãs costumam nomear o estilo de Lovecraft de Horror Cósmico, ou “Cosmicismo”, por suas histórias envolverem normalmente seres extraterrenos, monstros ou entidades tão antigas que estariam além da Compreensão humana.

Pensando nisso, a ideia aqui é fazer um paralelo entre o estilo de escrita verborrágica, recheada de adjetivos de Lovecraft com a noção de Real em Psicanálise.

Lovecraft, vida e escrita

Nascido em 1890 na cidade de Providence, Rhode Island no seio de uma família aristocrata da Nova Inglaterra, o pequeno Lovecraft foi criado em um ambiente confortável.

Seu pai morreu quando Lovecraft tinha apenas 08 anos de idade, após ficar internado, depois de ter uma crise nervosa em 1893 constantemente em clínicas de repouso. Suspeita-se que o pai tivesse contraído sífilis. Após a morte do pai, Lovecraft foi morar na casa de seu avô.

Seu avô era uma proeminente empresário industrial o que garantiu uma vida confortável para Lovecraft em seu início. Diz-se que a árvore genealógica de Lovecraft pode ser traçada até mais de 400 anos atrás. Sua família foi uma das primeiras a ter chegado aos Estados Unidos.

Após a morte do pai, diz-se que sua mãe desenvolveu um cuidado excessivo com o garoto. Posteriormente, Lovecraft afirma que esse zelo demasiado deixou marcas profundas em sua psiquê e seu relacionamento com o mundo. Lovecraft passava muito tempo em casa, por ter uma saúde frágil. Frequentou pouco a escola, o que o Ele sofria de poiquilotermia, uma raríssima doença que fazia com que sua pele fosse sempre gelada ao toque.

Tendo crescido na vasta biblioteca de seu avô, Lovecraft passou a venerar a cultura clássica e considerava a poesia como literatura de verdade. Para alguém que passava muito tempo em casa, com gosto pela leitura e escrita, não é de se admirar que tenha se tornado um escritor.

Howard Phillips Lovecraft em junho de 1934

Mesmo após a morte do avô, e de sua mãe, com o dinheiro escasso, H.P. não aceitava trabalhar de maneira contínua. Ele se considerava um cavalheiro aristocrata, e ele entendia que trabalhos que não fossem em jornais ou revistas consideradas adequadas, estavam abaixo dele.

Lovecraft faleceu em 15 de Março de 1937, aos 46 anos de idade.

Foi com o esforço de amigos próximos que fundaram a editora Arkham, e começaram a publicar os textos de Lovecraft em formato de livro, que sua obra ficou mais conhecida do público geral. Até então, seus escritos eram conhecidos por uma audiência mais restrita, principalmente de leitores de revistas Pulp, como a Weird Tales.

Weird Tales, 1922

Seu impacto na literatura de horror e ficção científica é profundo, influenciando autores como Neil Gaiman e Stephen King. Para além disso, sua influência em obras cinematográficas de diretores como Stanley Kubrick e John Carpenter é notável, como no filme Enigma de Outro Mundo (1982), de Carpenter.

Lovecraft durante muito tempo teve uma postura racista e xenófoba em seus contos. Especula-se, inclusive, que muitas das descrições dos monstros nas histórias de Lovecraft tenham sido baseados nos preconceitos íntimos do autor. A posição da aristocracia decadente do Nordeste dos Estados Unidos, a reclusão constante no início da vida, bem como as rápidas mudanças sociais que vinham acontecendo à época no continente americano, certamente influenciaram a visão de mundo de H.P.

Outro ponto importante de se notar nas histórias do autor é a pouca ou nenhuma participação de mulheres nos contos. Por toda a obra de Lovecraft, percebe-se um desprezo pela raça humana de maneira geral, sendo considerada sempre inferior ao cosmos.

Curiosamente, ele se casou com Sonia Greene, uma judia que o convenceu a mudar-se para Nova York, lugar onde eles moraram por pouco tempo, antes de sua separação amigável.

Algumas características importantes da escrita de Lovecraft que também são importantes.

  1. O arcaísmo patente no uso de terminologias. O texto parece, em uma primeira olhada, ter sido escrito no século XIX, tamanho o uso de termos fora de uso empregados por Lovecraft.
  2. O uso indiscriminado de adjetivos quando ele busca descrever os monstros/entidades em suas narrativas.

Essa segunda característica é muito criticada nos meios acadêmicos, sendo visto como uma limitação criativa na escrita de Lovecraft.

Um exemplo claro do estilo “Lovecraftiano” se encontra no texto Ele (1926/2017):

“… e as multidões humanas que fervilhavam pelas ruas estreitas eram seres atarracados, forasteiros escuros com caras abrutalhadas e olhos apertados, estranhos traiçoeiros sem sonhos e sem nenhuma relação com o cenário a seu redor, enigmáticos para os descendentes dos antigos habitantes, que amavam as belas alamedas verdes e as aldeias da Nova Inglaterra com suas torres em formato de agulha” (Lovecraft, p. 62).  

A noção de Real na Psicanálise

O Real na psicanálise não se trata da realidade. Talvez, seria melhor dizer que o Real é tudo aquilo que tem que ser extraído da realidade para que ela faça sentido.

O Real se trata daquilo que é inominável, indizível, impensável. No fundo, tudo aquilo que nos confronta com o nosso caráter eternamente faltante. Segundo Lacan (1953/2005): “O real é ou a totalidade ou o instante esvanecido. Na experiência analítica, para o sujeito, é sempre o choque com alguma coisa, por exemplo, com o silêncio do analista” (p. 45).

Simbólico e Imaginário tentam dar conta do Real, do furo, sendo que “o Real será definido como o que escapa ao Simbólico, o real como trauma” (Chaves, 2009, p. 43).

Uma boa definição do Real, a meu ver é dada por Fink (2018):

“O Real, tal como o apresentei até aqui, é aquilo que ainda não foi posto em palavras ou formulado. Podemos pensar nele, em certo sentido, como a ligação ou o elo entre dois pensamentos que sucumbiu ao recalcamento, e que precisa ser reestabelecido” (p.61)

Lacan dizia também que o Real é como o “muro da linguagem”, o limite que resta de não-simbolizável. A morte, por exemplo, é algo do Real. A experiência de perder alguém próximo costuma vir acompanhada da “falta de palavras”. Não existem palavras que deem conta desse sofrimento.

“Ainda nessa qualidade, em sua posição tópica, ele se caracterizará como exsistente (situado fora de todo campo demarcável). Finalmente, e na medida em que lhe é assim conferido o estatuto de um vazio, ele se articulará numa representação “borromeana” com os vazios constitutivos do simbólico e do imaginário” (Kauffman, 1998, p. 445)

Mais a frente na obra Lacaniana, o autor vai formalizar a tríade, Simbólico-Imaginário-Real, a partir do chamado Nó Borromeano, uma formação topológica que consiste de 3 aros interligado, de tal modo que se um se desvencilhar os outros também o são. Assim é o sujeito para Lacan.

O nó Borromeano

O Real em Lovecraft

Os monstros “Lovecraftianos” não apresentam forma, suas formas não podem ser compreendidas pela raça humana. Muitas vezes a geometria de construções alienígenas são consideradas estranhas e incompreensíveis para nós (Lovecraft, 2017).

A própria palavra “Cthulhu”, oriunda do conto “O Chamado de Cthulhu” (talvez seu texto mais conhecido, adaptado para uma infinidade de jogos, RPG’s, etc) publicado em 1928, seria impronunciável. Segundo ele, “a nossa conformação fisiológica não permitiria que o pronunciássemos corretamente” (Lovecraft, 2017, p.120). Não seria um idioma para a laringe humana.

Em Dagon (1919/2017), seu primeiro conto publicado profissionalmente:

“Então, de repente, eu vi. Com apenas uma leve agitação para marcar sua ascensão até a superfície, a coisa deslizou para fora das águas escuras. Tão vasto quanto Polifemo e horrendo, ele dardejou, como um estupendo monstro de pesadelos, contra o monólito, sobre o qual lançou seus gigantescos braços escamosos, enquanto curvava a cabeça hedionda e dava vazão a certos sons compassados. Naquele momento, pensei ter ficado louco” (Lovecraft, p. 26).

Interessante notar que isso se alinha com a noção de Real que escapa a Simbolização. O inominável e impensável vem de encontro aos personagens nos contos de Lovecraft. O horror, muitas vezes se baseia no desconhecido, na incerteza do que está lá. Para além disso, o fato de não haver palavras que descrevam a visão monstruosa denota um encontro com o Real: “O efeito da visão monstruosa era indescritível, já que alguma violação demoníaca das leis naturais parecia uma certeza desde o começo” (Lovecraft, 1936/2017, p. 209).

A incerteza é algo que invariavelmente estará presente nas nossas vidas, lidar com ela e produzir algo a partir disso é um dos objetivos centrais da análise, sempre apontando para onde está o desejo do sujeito.

O Real se impõe como um muro da linguagem para todos. E é nessa direção que é entendida a clínica psicanalítica lacaniana na atualidade. Levamos o sujeito a se confrontar com sua possibilidade maior de escolhas (Forbes, 2014). Com a mudança do laço social, os referenciais tidos como certos no passado não funcionam mais, com isso, temos que nos reinventar constantemente. A mudança na clínica psicanalítica, passa então por, não mais explicar o sintoma (Clínica da Simbólico), mas por implicar (Clínica do Real) o paciente em seu sintoma e em seu desejo.

Imagino o que pensaria Lovecraft se caminhasse entre nós nos dias de hoje. Talvez ele caminhe.

Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Chaves, W. (2009). Considerações a respeito do conceito de Real em Lacan. In Psicologia em Estudo. (pp. 41-46, v. 14). Maringá.

Fink, B. (2018). Introdução clínica à psicanálise lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Forbes, J. (2014) Psicanálise – A clínica do Real. Barueri: Manole.

Kauffman, P. (1998) Real. In Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. O legado de Freud e Lacan. (pp.444-445) Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1953/2005). O simbólico, o imaginário e o real. Em Nomes-do-Pai (T. André, Trad., pp. 11-53). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lovecraft, H.P. (2017). H. P. Lovecraft: medo clássico. Rio de Janeiro: Darkside Books.

Lovecraft, H.P. (2017). Contos, Volume 1 / H. P. Lovecraft. São Pauo: Martin Claret.

O Tempo Lógico de Lacan e os Três Tempos do Sujeito.

T E M P O

Bom dia, Boa Tarde, Boa Noite. No artigo de hoje, que pode terminar de ser lido amanhã, bem como poderá lembrar de algo lido no dia ontem, falaremos sobre um assunto atemporal. Falaremos sobre a lógica do tempo. E não será incorreto dizer que também falaremos sobre o tempo da lógica. Está confuso? Calma, há tempo de finalizar esta leitura, espero, entenderá.

Em Pleno Século XX e, sem vergonha alguma, também no século XXI, uma frase ficou muito famosa: Time is Money – Tempo é Dinheiro. E, se deixarmos as críticas a um certo sistema econômico de lado, poderemos nos adentrar mais ao seu conteúdo e buscar uma influência dele na subjetividade alheia. Nela – e aqui eu começo com meus julgamentos apressados, estejam à vontade para embasar sua censura posterior – o $ujeito se torna um mero agente transformador, aquele único responsável por transformar o intervalo de sua existência, a vírgula que separa seu nascimento de sua morte, na maior matéria de troca simbólica já inventada pelo homem. Seria uma troca justa?

Difícil saber sem conhecer todos os sujeitos, mas o foco aqui é Outro. Quando falamos sobre o tempo em si, podemos lembrar desde os filmes sobre viagem no tempo, as teorias da conspiração, teorias científicas pautadas no assunto e muitas outras relações sobre ele no dia-a-dia. Mas, como um psicanalista, Jacques Lacan resolveu estudar seus efeitos nas relações subjetivas. Mais do que isso: o aplicou à própria relação estabelecida com a lógica.

A relação do psicanalista com o tempo fica famosa nas sessões de 500 euros que às vezes duravam cerca de 20 minutos. O que poderia ser um ultraje, para alguns, se tornava uma maneira de forçar o paciente a expulsar suas falas defensivas durante as sessões, para outros. Se era algo antiético, a alguém que solicita cuidado, para alguns autores, era uma maneira de fazer com que o paciente elaborasse aquele último assunto abordado em casa, no trabalho e em seus relacionamentos, sem que seu inconsciente tivesse tempo de defendê-lo das intervenções — que poderiam causar certa angústia até gerarem organização. E a discussão é extensa.

A tentativa deste artigo será de falar um pouco mais sobre o conceito, deixando aos próprios leitores as conclusões múltiplas que lhes vierem. A única sugestão mandatória aqui é a do gozo de uma excelente trilha sonora que já irá falar sobre o assunto. Não podendo começar por outra, comecemos a leitura deste artigo com uma música homônimamente apropriada.

O Autor

Jacques Lacan é, quando não o mais, um dos mais polêmicos psicanalistas que tivemos em existência. Não é difícil, se estamos entrando no universo psicanalítico, ouvirmos certas reservas à não ortodoxia nos métodos e, principalmente, na escrita e na fala de Lacan. Ouço, frequentemente, colegas se queixando da dificuldade na leitura dos Seminários, o que é entendível, uma vez que são transcrições daquilo falado; mas não é raro quem tenha dificuldade na leitura dos Escritos. E me sobraria arrogância se não me incluísse neste grupo. Lacan tinha uma forma própria de escrever, onde é necessário conter a ansiedade, respeitar cada artigo, cada vírgula, cada frase dita anteriormente; será necessário aceitar a própria ignorância e verificar outros textos citados antes de seguir adiante, respeitar aquela crase que foi inserida e principalmente o Tempo Verbal empregado. Lê-se uma frase que somente fará sentido no final daquele parágrafo, pregando uma peça no leitor ansioso. Faz-se uma referência àquele assunto anteriormente citado com uma vírgula ou uma crase no meio do assunto atual, o que confunde o leitor obsessivo por estrutura; alguns parágrafos demandam uma extensa repetição da leitura (e da releitura). Mais ainda: seu entendimento sobre um mesmo assunto pode até mudar de acordo com o avanço da própria análise do leitor.

É polêmico indagar se o autor fazia tudo isso propositalmente, mas ele, conservando a tradição, nos deixa na dúvida quando fala que o entendimento de seus textos estava longe de ser o seu objetivo. A polêmica já começa em uma indagação básica: que tipo de autor que escreve para não ser entendido? E isso foi dito pelo pelo próprio Lacan:

“Alguma coisa que é característica de meus Escritos é que não os escrevi para que se os compreendesse, eu os escrevi para que se os lesse”.

Jacques Lacan, 1974.
E é de um texto, escrito em 1945, contido neste próprio livro – Escritos (LACAN, 1998) – que o artigo a seguir tentará se basear:
O Tempo Lógico e a Asserção de Certeza Antecipada
Um novo sofisma (LACAN, 1998)

Um Problema de Lógica

Ao início deste capítulo, Lacan apresenta um problema de lógica que serviu de base para discorrer sua argumentação. A partir deste exemplo, haverá por Lacan uma leitura sobre as formas com que a lógica é empregada entre a apresentação do problema e sua solução encontrada. Confira:

A Lógica dos Três Prisioneiros

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O Diretor de um presídio faz com que três prisioneiros compareçam em um local de sua preferência e lhes oferece uma oferta irrefutável: a Liberdade, mas através da Lógica. Lacan não consegue deixar de estender isso à sua própria concepção teórica. Ele utilizar o caso para aplicar essa utilização da lógica em sua teoria sobre os sujeitos, retrata o caso em seu livro (LACAN, 1998), abrindo aspas à fala do Diretor:

“Por razões que não lhes tenho de relatar agora,
devo libertar um de vocês.
Para decidir qual, entrego a sorte a uma prova pela
qual terão de passar, se estiverem de acordo.”

“Vocês são três aqui presentes. Aqui estão cinco discos que
só diferem por sua cor: três são brancos e dois são pretos.
Sem dar a conhecer qual deles terei escolhido, prenderei
em cada um de vocês um desses discos nas costas, isto é,
fora do alcance direto do olhar; qualquer possibilidade
indireta de atingi-lo pela visão está igualmente excluída
pela ausência aqui de qualquer meio de se mirá-los”.

“A partir daí, estarão à vontade para examinar seus companheiros
e os discos de que cada um deles se mostrará portador
sem que lhes seja permitido, naturalmente, comunicar uns aos
outros o resultado da inspeção. O que, aliás, o simples interesse
de vocês os impediria de fazer. Pois o primeiro que puder deduzir
sua própria cor é quem deverá se beneficiar da medida liberatória
de que dispomos”.

“Será preciso ainda que sua conclusão seja fundamentada em
motivos de lógica, e não apenas de probabilidade. Para esse fim,
fica convencionado que, tão logo um de vocês esteja pronto a
formulá-la, ele transporá esta porta, a fim de que, chamado à
parte, seja julgado por sua resposta.”

Após a proposta ser aceita, cada um dos prisioneiros recebe o disco prometido. Entretanto, a exigência do uso da lógica não foi mera coincidência. O desafio foi aceito pelos presos sabendo da existência de três discos brancos e dois discos negros, talvez tivesse lhes parecido tarefa fácil realizar sua missão de adivinhar aquele que está consigo. O detalhe que torna a liberdade, nosso bem mais precioso, não tão fácil assim, é que: sem poder olhar o próprio disco, sem poder se comunicar com o outro que partilha desta mesma ignorância a respeito de si, mas sem deixar de partilhar do conhecimento sobre o disco que está no terceiro semelhante. O que não se imaginava era que todos os detentos receberiam discos brancos.

O que o diretor não esperava, decerto, era que, após algum tempo de hesitação e pensamento: Os três sujeitos dão juntos alguns passos que os levam, simultaneamente, a cruzar a porta. Separadamente, eles se justificam da mesma maneira:

“Sou branco, e eis como sei disso.
Dado que meus companheiros eram brancos,
achei que, se eu fosse preto, cada um deles poderia ter inferido o seguinte:
Se eu também fosse preto, o outro, devendo reconhecer imediatamente que era branco, teria saído na mesma hora, logo, não sou preto.’

E os dois teriam saído juntos, convencidos de ser brancos.

Se não estavam fazendo nada, é que eu era branco como eles.
Ao que saí porta afora, para dar a conhecer minha conclusão.”

Mais intrigante: os três realizaram, ao mesmo tempo, o mesmo exercício do pensamento lógico. E é isso que serviria de base para Lacan explanar suas ideias.

Qual é a Lógica?

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Quando Lacan foca seu olhar no valor lógico da solução apresentada, ele a classifica como um “exemplo significativo para resolver problemas de uma função lógica no momento histórico em que seu problema se apresenta ao exame filosófico” (LACAN, 1998).

Fica mais fácil o entendimento se estiver ouvindo uma música:

Quando procura entender o pensamento lógico empregado por cada um dos detendos, Lacan se encontra em observar o ponto de vista exclusivo de um deles. Chamando-o de A, enquanto os outros dois teriam o nome de B e C.

E aqui espera-se que, quando A enxerga os outros dois portando discos brancos, na adoção da lógica clássica, convencional, sua primeira conclusão seria a de que ele só poderia portar um disco preto. Caberia ao detendo, não podendo perder tempo, correr e informar que, se vê dois que são brancos, ele só poderia ser, pela lógica, aquele que é visto como preto. Uma visão um tanto binária, um tanto imediatista, se pudermos aqui opinar. É, naturalmente, a primeira que nos vêm à cabeça. Não era preciso se aprofundar mais do que isso. Estava óbvio! “Se dois eram brancos, e aqui devo usar a lógica, é por ela que concluo que o terceiro deverá ser preto!”

Mas sabemos que para se tornar um ex-detento, o próprio agiu de forma diferente àquela empregada na hora de cometer seus crimes: ele deteve seus impulsos imediatos, ele se colocou no lugar dos outros e tentou entender como funcionariam seus pensamentos.

É Preciso Considerar os Tons de Cinza

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Nem tudo é apenas Preto ou Branco. Para Lacan, o ato final de se declararem todos brancos, teria a seguinte estrutura no pensamento de A: “Devo estabelecer minha dedução com base na conduta dos outros dois”. E enquanto A espera o movimento ou não dos outros dois, realiza um exercício de empatia notável ao pensar: “No que B e C se baseariam?”, e é assim que ele entende que eles se baseariam exatamente na causalidade mútua de suas condutas e condições. Ou melhor: se o movimento de B depende daquele realizado por C e vice-versa, a inércia de ambos somente poderia ser um resultado do que vêem na cor de A?

É a partir desta indagação que nosso inteligente prisioneiro faz algo que falta muito nos dias de hoje: ele começa a questionar sua própria certeza. Se, por um momento, ele acreditou ser o portador do disco preto, o que isso implicaria àqueles outros dois que ele, diferentemente dos mesmos, vê que estão com os discos brancos nas costas? O que eles fariam, ou melhor, o que eles fariam e pensariam, caso ele realmente estivesse correto em sua lógica imediatista e, de fato, estivesse ele mesmo com o disco preto?

Interrompo o raciocínio e abro um parênteses para dizer que considero importantíssimo, visto que deve ter estar finda a anterior, que mais uma música relacionada ao tempo esteja disponível aos sentidos dos leitores e das leitoras aqui deste artigo.

Moções Suspensas

E esta transição da primeira suposição de A até à chegada de sua conclusão final, começaria a partir daquilo que Lacan vai postular como uma Moção Suspensa. Uma espécie de verificação das possibilidades hipotéticas não partindo delas em si mesmas, mas dos fatos que fariam parte de sua ambiguidade. Estas seriam guiadas por aquele pensamento que não dependeria exclusivamente da experiência externa dos sujeitos, de uma forma pura da lógica que conhecemos. Poderíamos vê-las como uma espécie de fuga do hábito de focar naquele formalismo como ótica principal para se enxergar as coisas, e como forma oficial de se empregar a lógica sobre elas – a partir de sua mera ordem cronológica, objetiva (focada no externo, nos objetos), espacial e contínua. É como se transpuséssemos o emprego da lógica daquilo que imediatamente nos é possível visualizar, pensar, fazer e sentir para um outro momento do tempo, em uma outra situação do espaço, que apenas existem em forma de possibilidade. É como se encontrássemos uma maneira de subverter o emprego da lógica, exatamente para que, paradoxalmente, facilitemos a sua própria aplicação. Seu foco não estaria naquilo visível aos sujeitos, mas exatamente naquilo que só poderá ser entendido a partir do invisível. Ao invés daquele congelamento a partir das impossibilidades lógicas predeterminadas pela falta de um elemento crucial à sua resolução, busca-se combinações possíveis em três tempos de possibilidade. E por mais que este conceito vos possa parecer confuso, é esperado que vá ficando de mais fácil compreensão ao longo desta leitura.

Por exemplo: se considerarmos que a realidade à qual os prisioneiros foram inseridos ali fora previamente pensada, cuidadosamente elaborada para estimular respostas que seriam previsíveis àquelas condições, é possível obtermos algumas conclusões do que se esperava estimular e para quê. Então o fato de que há três prisioneiros e apenas aquele que der a resposta correta primeiro ganhará sua liberdade, pode ser uma conjectura previamente imaginada pelo criador daquele desafio: justamente para que assim induzisse aos ex-condenados um sentimento específico àquele contexto. Qual? A pressa. E talvez houvesse um motivo para isso. O que não era esperado pelo criador seria a astúcia de nossos detentos fazer com que eles pensassem exatamente o que questionaremos a seguir: e se, em um momento de pressa, como neste exemplo, procurássemos descobrir qual influência, qual a função que esta pressa ali implicada teria sobre a nossa percepção das possibilidades lógicas?

A Função da Pressa na Lógica

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Uma resposta possível à tal pergunta, pela parte de Lacan, poderia ser a suposição de que o tempo do presente, o tempo em que estamos agora, e toda a realidade visível apenas a este, se tornem um foco urgente para o emprego de nossa lógica clássica perante aquela pressa que fomos induzidos a sentir. E talvez isso ocorra exatamente porque é este mesmo presente que está em jogo para garantir o futuro tão sonhado, onde haverá liberdade. Mas, ainda na mesma suposição de que é esperado termos pressa neste presente que nos foi imposto, ainda na mesma suposição de que esta pressa fará parte daquilo foi considerado essencial na elaboração do desafio que garantiria liberdade aos presos, é possível começar a imaginar se haveria nela uma função, como por exemplo: induzir um pensamento, um raciocínio lógico correto do ponto de vista clássico, mas errôneo por contas das variáveis essenciais que ainda não são visíveis à consciência. E talvez este fosse o pensamento que forçosamente apareceria naquele Instante do Olhar, naquelas imediatas conclusões que seriam tiradas a partir da lógica clássica pensamento cartesiano: vejo dois brancos, logo sou preto. Mas o que não era esperado pelo criador do desafio era que seria entendido pelos próprios detentos, claramente subestimados, que precisariam ir além da lógica clássica: pois “As formas da lógica clássica nunca trazem nada que não possa ser visto de um só golpe” (LACAN, 1998) e sua liberdade talvez não tivesse um preço tão barato.

As moções suspensas poderiam ser aquelas suposições ultra hipotéticas, feitas exatamente para que fugíssemos desta armadilha da lógica puramente objetiva. Então, se é esperado que nós mesmos, no tempo, no espaço e na situação em que estamos inseridos atualmente, tenhamos um pensamento lógico específico que nos induziria a atos específicos. O outro, em um tempo, em um espaço e em uma situação que ainda não nos é possível de identificar através dos órgãos do sentido em nosso presente (exatamente porque não existe no mundo objetivo, externo, mas apenas no subjetivo, interno – na nossa mente de sujeito), mas é, por exemplo, repleta de possibilidades de um futuro imaginado pela nossa capacidade de exercer o pensamento. Seu papel crucial está em nos forçar a aplicar a lógica em situações além daquelas que estamos enxergando e vivendo no tempo atual.

É como se não seguíssemos aquilo que a pressa teve por função nos induzir a fazer e também como se não ignorássemos a aplicação da lógica exigida no presente, em diferentes instâncias temporais. E se nestas instâncias, onde realizaríamos pequenas paradas em tempos hipotéticos, existentes apenas em possibilidade, para a aplicação da lógica em momentos diferentes daquele que nos é apresentado externamente.

Desta forma, avaliaríamos a qualidade efetiva de nossas conclusões lógicas imediatas, que talvez precisariam de elementos adicionais que não existem na realidade apresentada, necessitando de complemento obtido nesta viagem mental a uma realidade hipotética. Este seria um processo que talvez fizesse com que fosse plausível aplicar a lógica em diferentes tempos de possibilidade. Lugares onde ela teria ou não mais validade do que naquele em que é exposta.

Ou seja: talvez aquilo que posso compreender baseado no que o mundo me apresenta agora, não me sirva para uma conclusão de imediato, mas se eu puder visualizar tal fato, mesmo que apenas em possibilidade, em um Outro tempo hipotético, poderia enxergar mais sobre. Esta modulação dos outros tempos possíveis poderá permitir entender onde estaria, já que não vejo, aquela hipótese que me faria chegar à conclusão que o problema solicita.

Vos deixo aqui mais uma música:

Time Travel: O Passado que só é Presente no Futuro

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Para começar a facilitar o entendimento de algo tão denso e complexo, talvez haja uma melhor visualização se recorrêssemos à gramática para uma rápida leitura:

Bruce Fink, em sua famosa obra “O Sujeito Lacaniano” (1998), lembra de um exemplo utilizado pelo psicanalista ao falar sobre esta lógica temporal, onde o sentido não poderia nos vir de imediato, mas somente após alguns processos que nos fariam pensar em Outro tempo. No tempo que em si haveria de ter um lugar, nesta cronicidade, onde seria possível encontrar o sujeito de verdade. Este seria o momento que está sempre quase chegando, junto ao aparecimento da responsabilidade perante o próprio desejo. No exemplo de Lacan que Fink evidencia, este tempo poderia ser melhor entendido através do próprio tempo verbal em que está inserido o sujeito, ou seja, do próprio tempo da ação subjetiva. E qual seria? Falaremos adiante.

Na frase: “Deux Secondes plus tard, la bombe éclatait” (A Bomba explodiria dois segundos mais tarde) Lacan coloca o verbo “explodir” em seu pretérito. Ou seja, só poderíamos estar falando aqui de uma ação que já ocorreu. Entretanto, este passado só poderia acontecer no futuro. Como se sempre houvesse uma condição implícita, um impedimento para que aquele ato evidenciado no passado só pudesse ser uma possibilidade daquele futuro que só existe a partir de algo que ainda não está explícito (p. 87). É como se tivéssemos a obrigação de imaginar que a bomba não explodiu no período em que podemos observar, mas poderia ter explodido dentro das possibilidades de um futuro alternativo. Qual possibilidade de futuro alternativo? Aquela em que a explosão não fora impedida por algo não mencionado ali, um detonador que falhou, por exemplo, conforme podemos apenas supor.

Entretanto, tais suposições não poderiam ser feitas sem um deslocamento nos tempos de possibilidade que existem nesta situação. Na língua portuguesa, este tempo verbal apresentado é o futuro do pretérito, aquele inexistente passado que é presente no futuro — de possibilidades. E por mais contraditório que seu nome seja, ele faz sentido quando analisamos a lógica empregada pelo nossos prisioneiros.

O exemplo foi utilizado para que entendamos a prevalência de um raciocínio lógico existente para cada um dos tempos de possibilidade diferentes de um mesmo fenômeno. Quando enxergamos, de maneira problematizada, um futuro que só existiria num passado diferente e ainda assim este “passado do futuro” não é o nosso presente (que, pela lógica, deveria ser), é menos angustiante que esta ginástica mental finalmente nos sirva de alguma coisa senão para a adoção desta famosa face a seguir:

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No caso de Lacan, aquilo que nos faz aplicar a lógica naqueles tempos de parada que as moções suspensas exigem, quando finalmente conseguem identificar algumas instâncias do tempo presentes em nosso processo lógico, é chamado de Movimento Lógico. Ele consistirá na aplicação desta logica naqueles tempos em que a pressa nos faz ignorar (nos tempos que só existem em possibilidade), para que nos haja preferência para aplicá-la apenas no presente que enxergamos de imediato. Mas, para que isso aconteça e nosso pensamento dê o salto para a liberdade de nosso corpo, é-nos necessário começar por algo bem mais simples.

A Exclusão Lógica e o Movimento Lógico – O Instante de Olhar

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Para haver de sua parte um movimento lógico que busca, na sua aplicação da lógica em tempos distintos, a visualização de múltiplos momentos de evidência para a falha ou sucesso de suas conclusões, foi preciso que houvesse na mente de A, aquilo que Lacan chamou em seu texto de uma exclusão lógica. Algo simples, mas eximiamente necessário durante o emprego de um pensamento além daquele imediato e limitado à lógica comum. É como se, na linha de construção de sua própria conclusão, fosse necessário ao sujeito validar as diferentes suposições hipotéticas que lhe são possíveis, mas soma-se a isso o que evidencia ou esconde suas reais possibilidades. Como quando numa equação de duas incógnitas, busca-se um artifício matemático para que a revelação de uma se faça útil o suficiente para facilitar a revelação da outra. Mesmo que ela por si não tenha valor para produzir uma certeza para o ato de enunciar a resolução do problema.

Música:

Poderia ser que existisse ali, implícito nas ações do prisioneiro, algo tão óbvio que nos é praticamente ignorado: para que A começasse a indagar as possíveis aplicações da lógica temporal que o cercavam, era necessário tecer indagações sobre qual tempo de possibilidade ele aplicaria sua lógica com sucesso, pois era preciso que descartasse as situações onde não existiria algum valor de evidência para que a lógica empregada lhe produzisse uma conclusão útil.

Por mais que estivesse implícito nas informações iniciais, e por mais que isso só pudesse ocorrer em instâncias temporais imaginadas, distintas àquelas apresentadas ao imediato; por mais que já se soubesse daquilo num só golpe, num só Instante de Olhar, a exclusão lógica foi a base de todo o movimento lógico que permitirá uma conclusão determinante para o ato em direção à liberdade: entender o que falta. Calma, vou explicar.

Num Instante de Olhar, Busca-se Aquilo que Falta para se Chegar ao Tempo Para Compreender

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Quando o prisioneiro A resolve questionar a validade de sua hipótese imediata, aquela em que ele seria preto, ele também pensa que B, em um futuro cenário hipotético, faria conjecturas para também aplicar sua lógica de maneira semelhante. Indo adiante, caso A realmente carregasse um disco preto em suas costas, ele supõe que B poderia pensar:

“Se eu vejo que A é preto e sei que há apenas dois discos pretos, apenas uma pessoa também poderá ter um disco preto além de A. Sei que C, definitivamente não é esta pessoa, pois ele eu mesmo vejo que é branco!

Portanto, sabendo que há no total três discos brancos e dois discos pretos, se meu campo de visão me permite enxergar um disco preto e um branco nos outros dois prisioneiros, mas não posso enxergar a cor do meu próprio, minha lógica me ajuda a crer que o disco pendurado em minhas costas poderá ser tanto preto como branco. Mas o que acontecerá se estiver comigo o disco preto que falta?

Bem, suponho que neste caso C estaria vendo dois discos pretos. Portanto, não sendo ele incapaz de exercer seu raciocínio com maestria, aplicará uma lógica muito simples para suas conclusões: se ele vê dois discos pretos em seu campo visual, não sabe a cor do disco que carrega, mas sabe que o total de discos pretos é exatamente a quantidade que vê. A própria lógica mostrará para C que o disco em suas costas apenas poderá ser branco”.

Ou seja, se há dois discos pretos em meu campo de visão, e sei que existem dois no total, aquele que eu não vejo e que está em mim mesmo, apenas poderá ser branco.

E aqui temos um primeiro momento de evidência para ser validado:

“Estando diante de dois pretos, sabe-se que é branco”.

E esta seria a primeira hipótese daquele que vê dois pretos, caso A fosse realmente preto. Mas este pensamento é rapidamente descartado, pois perde seu valor instantâneo de evidência e é excluído das possibilidades de opções viáveis e que poderiam, num futuro do pretérito, serem tomadas como a verdade que leva ao ato.

Em mais um empréstimo dos termos da linguística, Lacan vai nos dizer que este simples processo se assemelha à preparação de uma frase. Pois se a exclusão lógica nos servirá para chegar ao próximo passo, isso só poderá ocorrer da mesma forma como uma prótase serve uma apódose na estrutura sintática que envolve uma oração.

Ou seja, quando pensamos num futuro de possibilidades hipotéticas, em uma instância do tempo que seria ignorada pela lógica clássica, poderemos fazer com que, No Instante do Olhar o dado da prótase “diante de dois pretos” seja conduzido ao dado da apódose “é-se branco” (LACAN, 1998). Daqui poderá se fazer a seguinte equação lógica: DOIS PRETOS = UM BRANCO.

E é esta exclusão lógica das incógnitas explícitas, para a apresentação daquelas que até agora a lógica clássica fez com que o sujeito ignorasse, mas que se fazem essenciais ao processo lógico, que permitirá uma transição do Instante do Olhar, que tomaria o sujeito por seu imediatismo, para um segundo momento de evidência: o Momento/Tempo de Compreender.

Se uma Parte me Falta, Parto Dela para Produzir sua Existência

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Portanto, é somente a partir da exclusão lógica que se poderá buscar a verdadeira incógnita daquela situação onde a lógica se faz necessária. E se poderá fazer isso agora pois ela FINALMENTE DEIXOU DE SER IGNORADA PELO SUJEITO.

E talvez algo tenha sido ignorado por quem lê este artigo. Exatamente. A música.

Como em uma equação matemática, quando no tempo subjetivo, chamado de Instante do Olhar, o sujeito realizar a exclusão lógica (que o permitirá descartar uma incógnita que ainda velava parte de seu raciocínio lógico final), passará finalmente a raciocinar em direção às hipóteses autênticas, onde poderá visualizar a verdadeira incógnita do problema – aquela que era ignorada durante o uso da lógica comum por sua parte.

Agora que o sujeito deixa de ser aquele guiado pela imediaticidade do Instante de Olhar, ele finalmente poderá ter algum Tempo para Compreender a real dinâmica em que está inserido, já que, se o valor instantâneo de sua lógica naquele momento temporal é o que o permite continuar questionando, é porque este valor há de ser, necessariamente aquele que o permitirá ir mais além: ZERO .

O Sabido Não Saber vs O Não Sabido Saber

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A descoberta de que alguém precisaria enxergar dois discos pretos para concluir ser ele mesmo o portador de um disco branco, deveria ser algo implícito no contexto daquele que supõe-se portador do preto apenas por ver dois brancos. Entretanto, esta lógica só se fez sabida para aquele sujeito na não ocasião de sua lógica imediata se tornar a única a ser considerada.

Exemplo de Questão do Enem que exige o emprego de uma lógica semelhante.

98

Resposta: ( C) 50 ——> Se tirarmos 50 homens, a sala ira ter 49 homens e 1 mulher, no total de 50 pessoas. E podemos chegar a este resultado aplicando a regra de três a cada uma das alternativas até evidenciarmos a porcentagem desejada. Como no exemplo da alternativa C:

Se saírem 50 homens, a sala passaria a ter 49 homens e uma mulher, totalizando 50 pessoas na sala, que correspondem a 100%. Então, 49 pessoas/homens correspondem a quantos %?

Neste caso, então:

50 = 100%
49 = x%

50x = 4900
x = 4900/ 50
x = 98

Pois se, ao primeiro impacto, muitas pessoas se sentem tentadas a responder 1, 2 ou N.d.a por conta dos desafios aqui empregados pelo mero uso da lógica objetiva. Uma vez que a primeira coisa a se pensar é que 100-2 = 98%. Contudo isso não valeria para a porcentagem.

Vejamos bem: não seria esta intuição tão fácil de se fazer com os dados que continuassem produzindo no sujeito apenas pensamentos lógicos restritos àquilo que lhe forneceram para observar?

Mas ao contrário, passou-se a ocorrer a exclusão desta mesma primeira conclusão tirada a partir daquela imediata exposição. O sujeito decide ignorar o próprio conselho imediato que a primeira impressão da consciência lhe dá sobre o fenômeno. E é só a partir daí que começa a refletir sobre sua real necessidade de pensamento reflexivo: sendo agora melhor transpor essa lógica, quase como se estivesse, em hipótese, pensando em um tempo a partir das relações que estabelece com os outros. Um suposto saber num tempo hipotético.

Para exemplificar: ocorrerá exatamente como é retratado no pensamento do Prisioneiro B:

“Um momento: o Prisioneiro C estaria imediatamente correndo para informar a conclusão que chegou de sua própria cor, caso eu também fosse da cor de caso — eu também fosse preto. Logo, se C está em inércia, eu não poderia ser preto!”

E se neste tempo todo que o Prisioneiro B ficara imaginando estas possibilidades, entende-se, a quem o observa, que ele também não saiu correndo, exatamente porque não estava a enxergar dois discos pretos. A partir daí, O Prisioneiro C também poderá concluir que é branco, também por conta do não movimento do Prisioneiro B.

Lacan vai postular que existirá um objetivo e um término do tempo disponível para que os dois brancos elaborem suas conclusões lógicas, estas que definirão suas próximas ações subjetivas. Mas mais do que isso: haverá nestas ações subjetivas as conclusões que seu próprio semelhante e observador poderá extrair delas. E isso irá determinar a conduta seguinte – e o mesmo vale para este semelhante. Portanto, se sua ação for a própria inércia, sendo esta mútua, retratada pelos dois que são brancos à sua vista, então a própria ação (no caso, a não ação) do sujeito, denunciará ao outro que a observa algo não explícito.

Por exemplo: Conclui-se que não foram avistados dois discos pretos em lugar algum, na visão de nenhum dos três. Pois nenhum dos dois se movimentou. Simples. Esta etapa de verificação daquela possibilidade imaginada por A, de ser ele mesmo o disco preto por ver dois brancos, faz com que os prisioneiros B e C concluam-se portadores do disco branco exatamente pela inércia que causaram um no outro.

“Se eu fosse preto, ele já teria saído sem hesitar; se ele hesitou, sou branco”. Não haveria como hesitar vendo dois discos pretos à sua frente, uma vez que cada um possuirá as mesmas possibilidades disponíveis de conclusão em seu presente imediato de saber.

Para Laca, deveria haver algum limite para este Tempo para Compreender. O psicanalista tenta explicar a tênue linha temporal de delimitaria isso, ou não:

“O Tempo de Compreender” pode reduzir-se ao instante do olhar, mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender”. (LACAN, 1998. p. 205)

E é neste momento que se perde um pouco da objetividade deste tempo em relação à sua duração, mas seu sentido se mantém vivo: ele produz sujeitos que dependem de ações recíprocas para que se movimentem, para que possam evoluir suas conclusões. Em outras palavras: sujeitos que apenas desenvolvem seu crescimento a partir de um outro em que ele causa o mesmo que sente. Sujeitos que se libertam de convicções rasas quando entendem que é preciso empatia para que haja tempo para compreender.

Neste caso a inércia do outro se torna a maior informante do disco que ambos carregam:

“Se eu fosse preto, os dois brancos que estou vendo não tardariam a reconhecer que são brancos”.

Afinal, para eles, enxergar um preto e um branco poderia ser fonte de dúvida a respeito da própria cor. As ações daquele que ele vê do outro branco determinariam sua percepção: “Se ele correr, minha conclusão deverá ser: sou preto”. Pois a única justificativa esperada é que tenha corrido por estar vendo exatamente os dois únicos discos pretos, sobrando a si o disco branco”. Valendo o mesmo para o outro.

Todo este movimento de deslocar a própria lógica além do que se vê objetivamente, todo este movimento de deslocar a lógica para outras Instâncias do Tempo é o que permitirá o sujeito chegar ao momento de concluir o seguinte: SOU BRANCO, DEVO CORRER E REVELAR A TEMPO PARA FINALMENTE SABER DE VERDADE.

O Momento de Concluir o Tempo para Compreender: A Asserção da Certeza Subjetiva para Validar a Certeza Objetiva.

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Fiquem tranquilos, uma música que faz referência homônima a este título não vos irá faltar.

Finalmente o prisioneiro conclui que: se os outros dois hesitaram em declarar a própria cor, ele só poderia ser branco. Se B não corre porque não vê C ser preto ao lado de A. E se C não corre por não ver B ser preto ao lado de A. A não pode ser preto. Se A não é preto enquanto vê dois brancos, logo todos são brancos. A deverá se apressar para declarar que é branco antes que os outros brancos o façam pela mesma lógica.

Esta conclusão só foi possível a partir de um lógica diferente da convencional. Entendamos que, objetivamente, apenas era possível enxergar dois brancos. Aplicando a mesma lógica objetiva naquele tempo e espaço, nada se concluiria senão aquilo já visto. Foi preciso do auxílio das moções suspensas até que se chegasse a uma lógica semelhante ao Tempo do Sujeito para Lacan, uma lógica de um tempo que está quase chegando por conta de algo que pode acontecer, algo como um futuro tão certo quanto um suposto passado dependente dele, conforme explicado anteriormente.

Entenderemos aqui que, assim obtida esta certeza, através de uma lógica que atravessa os limites que o sujeito estabelecia apenas por observar os objetos à sua frente, o sujeito agora é dono de uma lógica que apenas a ele pertence. E quando falamos desta lógica subjetiva (do sujeito), falamos de uma lógica que não mais depende do mundo dos objetos (objetiva) apenas por uma condição: que aconteça o ATO.

“Esse, portanto, é o momento de concluir que ele é branco; de fato, se ele se deixar preceder nessa conclusão por seus semelhantes, não poderá mais reconhecer que não é preto. Passado o tempo para compreender o momento de concluir, é o momento de concluir o tempo para compreender

(LACAN, 1945/1998, p. 206. grifo meu.)

O que Lacan quer dizer aqui é simples e pode até ser trazido ao senso comum: “Se você basear seus atos EXCLUSIVAMENTE às percepções externas, ou seja, dos outros, você nunca sairá do lugar”. É quase como a clássica frase: “Se preocupe mais com o que pensa de si mesmo ao invés de se preocupar com o que os outros pensam de você“. E eu explico:

Se o Sujeito A, após assumir que tem certeza de que é branco, decidisse não agir em prol daquela certeza sem hesitar, ou, pior ainda, se tivesse aguardado um segundo a mais: os outros dois brancos se movimentariam a fazer o mesmo. Pois lembram-se de sua moção suspensa? “Eles estariam correndo juntos se eu fosse preto”. Portanto, se A demorasse mais para agir, ou interrompesse sua ação apenas porque os outros também passaram a agir, teria, para sempre, a certeza errônea de ser preto. E aqui a lógica subjetiva perderia para a lógica objetiva. Exatamente porque os outros dois estariam correndo juntos. E não por enxergarem que A é preto, e sim porque todos chegaram ao mesmo tempo ao diretor – exatamente por todos terem utilizado a mesma lógica de A.

E vocês podem perguntar, objetivando: mas se A não tinha certeza plena de ser branco, por que agiu? Ele não havia como provar isso de forma outra senão a partir de meras deduções. E aqui chegamos ao que Lacan chamou de Asserção da Certeza. E é somente através dela que se tem coragem para agir. E é somente agindo que se terá certeza plena.

A Ação do Ato na Subjetividade

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Lacan nos mostrou, neste exemplo, o seguinte: o sujeito não terá direito à própria lógica enquanto estiver preso às ações dos outros. Mais ainda: não será possível que alguém tenha certeza de fato se não a afirmar através do ato.

Se não fosse a tomada de decisão apenas da certeza enunciada, da asserção da certeza, a verdade não poderia ter sido descoberta. A verdade do sujeito mora no ato, no ato subjetivo que o garante transcender na aplicação de sua lógica sobre o mundo. E é por isso que às vezes o tempo cronológico não basta.

Uma análise ou até uma única sessão de análise, se bem pautadas pelo tempo lógico, terão:

O Instante do Olhar – O Tempo para Compreender – O Momento de Concluir

Exatamente para que o sujeito tire proveito do movimento que lhe esperado para fazer em sua vida. Que o sujeito saia do futuro do fato e viva a ação do ato.

O saber, o efeito, o dano ou o sucesso de uma sessão ou de uma análise, em minha opinião, não estão em lugar nenhum a não ser no ato cometido pelo sujeito que antes era acometido pelo ato.

Por Caio Cesar Rodrigues

REFERÊNCIAS

Jacques Lacan em Conferência de imprensa realizada em 29 de
outubro de 1974 no Centre Culturel Français, Roma. Lettres de l’École Freudienne de Paris.
FINK, Bruce, 1956 –, O sujeito lacaniano; entre a linguagem e o gozo/ Bruce Fink; tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara; consultoria: Mirian Aparecida Nogueira Lima. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN, Jacques, 1901-1981. Escritos/ Jacques Lacan; tradução Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

***Todas as imagens contidas neste artigo foram obtidas de forma livre na internet. Caso você seja proprietário de uma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

Estruturação frente à falta do Outro

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(Imagem retirada da Internet. Na imagem lê-se: Nós temos os líderes que merecemos?)

Algum tempo atrás, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, intensificou a luta com relação à restrição da entrada no país de imigrantes ilegais.

Com a prática chamada de “tolerância zero”, o presidente determinou que ao serem flagradas ingressando em solo americano ilegalmente, as famílias fossem apartadas, com as crianças sendo direcionadas a abrigos. Antes, sempre que possível, as famílias eram mantidas unidas em prisões.

É importante apontar que parte das crianças que se encontram em abrigos, atravessou a fronteira sozinha, fugindo da violência de seus países de origem.

Muitas das crianças foram separadas dos pais antes dos 04 anos de idade. Isso impacta diretamente na estruturação da criança enquanto sujeito.

As fases do desenvolvimento sexual foram magistralmente descritas pelo meu colega Caio César. Sugiro que se remetam à esse texto para maior enfoque no tema.

Nasce um sujeito

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(Imagem retirada da Internet)

Quando uma criança vem ao mundo, ela “chega ao mundo, portanto, engendrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo” (Flesler, 2012, p.17). Isto é, ela vem carregada já de significação, ela já é falada no discurso dos pais.

A sua entrada na sociedade se dará por meio de uma balização imaginária, de forma especular. Explico. O eu, a noção própria de quem somos, que é diferente dos outros, só é obtida à partir do tu, à partir, justamente do outro, que é encarnado, normalmente, pela mãe, pai, e/ou cuidadores iniciais da criança.

Pouco à pouco começa à emergir na criança o símbolo (Lacan, 1953-1954/1996). A criança começa à entrar no jogo simbólico, começa a estar submetida à regras, na escola e em casa. Aí, efetivamente começa a humanização, o processo de entrada na cultura.

Dois conceitos concebidos por Freud merecem nossa atenção nesse momento, pois interpelam diretamente a estruturação da criança enquanto sujeito.

O primeiro é a noção de Eu Ideal, uma instância primariamente imaginária, ligada ao desejo materno, ao olhar do Outro sobre o bebê. Quando uma criança nasce, há um investimento libidinal muito forte por parte dos pais (ou cuidadores). Eles depositam na criança uma série de afetos muito intensos.

Após o Complexo de Édipo, entra em cena o Ideal de Eu, referência externa à família, que baliza as relações da criança com o grupo social em que está inserida. Ou seja, a criança passa à ter como referência algo externo, um ideal, uma causa que não esteja em seu círculo familiar.

O olhar desejante da mãe para o bebê configura o primeiro objeto da criança, a primeira forma de relação do sujeito. Esse é o Eu Ideal.

Psicoses e outras saídas desfavoráveis

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(Imagem retirada da Internet)

O rompimento abruto do contato da criança com os genitores pode ocasionar uma série de complicações. Buscarei me apoiar também em trabalhos de F. Dolto e D. Winnicott.

A presença de um genitor nessa fase que é crucial para a constituição do sujeito. O atendimento psicanalítico à essas crianças vai na direção de uma aposta em um possível, de uma estruturação possível.

Um exemplo de um caso em que o analista aposta no sujeito, é o Caso Dominque, contado por Françoise Dolto no livro de mesmo nome. É um texto que me parece importante citar, dado que a “criança”, já com 14 anos, apresentava uma  série de comportamentos psicóticos, totalmente desconexos com a realidade.

Naturalmente, a separação vivida por Dominique é bem diferente daquela enfrentada pelos filhos e filhas de imigrantes ilegais, atualmente nos EUA. Todavia, os efeitos psicotizantes da falta de uma figura paterna (ou que faça a função paterna) são notáveis.

Como diz Dolto (2010): “O amor que o ser humano, em sua pessoa em via de estruturação, tem pela mãe e pelas pessoas à sua volta é um amor cuja resultante efetiva é uma mímica de identificação, seguida do processo de introjeção”. Vemos aqui, o reconhecimento em forma de espelho que lhes dizia, uma identificação com os pais ou cuidadores que se rompida abruptamente, resulta em um sujeito preso em tempo passado, não conseguindo elaborar sua perda.

Winnicott, em seu trabalho Privação e Delinquência, fala justamente dos efeitos em crianças que não tiveram o acolhimento necessário, ou que o perderam, em momentos muito precoces da vida. A Criatividade Primária da criança é prejudicada, e surge, o que o autor chama de Tendência Anti-Social. Falando de Criatividade Primária, sugiro a leitura do texto do meu colega Caio Ferreira.

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(Sociedade dos Psicólogos, 2017)

Olhemos pelos pequenos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Referências Bibliográficas

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1953-1954/1996) Os escritos técnicos de Freud – Os Seminários, Livro I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Winnicott, D. (1987). Privação e Delinquência. São Paulo: Martins Fontes.