Diferenças entre Medo, Fobia e Ansiedade.

Você saberia diferenciar medo, fobia e ansiedade? Sim? Não? Em ambos os casos: este texto será perfeito para você.

O Grito. Obra-prima em óleo sobre tela do pintor expressionista norueguês Edvard Munch. Foi pintada no ano de 1893 e atualmente pertence ao acervo da Galeria Nacional de Oslo. O Pintor se inspirara muito em Vincent Van Gogh, tendo a autoria de sua obra frequentemente confundida, como se fosse do pintor holandês. Suas cores, suas formas, seus traços e as expressões faciais ali representadas são frequentemente associadas ao sentimento de medo, fobia, angústia e ansiedade do ser humano.

O Medo

E se você pudesse sentir medo pela primeira vez?

Outro dia me peguei pensando sobre o que seria uma reação estranha e incômoda de meu corpo. Mais ainda: o que seria esta reação que ao longo de minha vida aprendi a enxergar como algo normal, mas no sentido de quase inexistente: inerente. Tal fato fez com que eu me questionasse: como poderia ser sentir isso pela primeira vez? Este questionamento se deu quando eu estava com meus pensamentos envoltos sobre o ato de sentir medo. Afinal, o que é isso?

O Medo é uma emoção. Uma emoção básica. Se você ainda tiver dúvidas sobre o que é uma emoção, consulte este texto do psicólogo Caio Ferreira. O medo é uma resposta neuropsicofisiológica, com caráter evolutivo, por vezes mais motivado à via cultural, por outras pela via instintiva. Mas sua convergência é uma só: o medo sempre causará fortes desconfortos físicos e/ou psíquicos a quem o experimenta.

Se você encontrar um Leão…

“Hércules luta com o leão de Nemea” é uma pintura de Francisco de Zurbarán exibida no Museu do Prado em Madri, Espanha.

Pra que serve o medo?

O medo é uma emoção que provoca descargas de adrenalina; que aumenta ou diminui o fluxo de sangue do corpo — pode causar vasodilatação ou vasoconstrição – provocando vermelhidão ou palidez na pele; o medo dilata as pupilas para melhorar nossa capacidade de visão até em ambientes mais escuros; o medo é até capaz de provocar a liberação de urina ou fezes de maneira involuntária. E há tantas outras descrições… Embora estas interações emocionais – ocorridas em muitas áreas do cérebro, mas principalmente na integração entre a amígdala, o hipocampo e o hipotálamo – apontem principalmente um caráter de paralisia ou fuga – maior fluxo sanguíneo para maior produção de ATP e maior energia muscular para correr; liberação de urina e/ou fezes com função de afastar predadores através do odor, por exemplo – o medo também pode ser uma forma de preparar nosso corpo para uma luta. Inclusive, paralisia, luta e fuga são respostas autônomas ao medo. Tanto no ser humano como nós animais.

Por exemplo na imagem acima. Hércules, apesar de ter derrotado o Leão de Neméia através de uma árdua luta, provavelmente não teria deixado de sentir medo. Contudo, outras pessoas (e me incluo nessa lista) provavelmente não lutariam contra um leão. Algumas ficariam paralisadas, tremeriam suas mãos e pernas e ficariam com dificuldade para respirar; outras correriam; algumas até poderiam utilizar o córtex pré-frontal em conjunto com o hipocampo para lembrar daquelas técnicas aprendidas na internet sobre como agir perante um leão. Mas aqui falamos de uma exclusividade humana.

Em suma: o medo, apesar de seus desconfortos, serve para proteger a nós mesmos e à nossa espécie. Mas e quando ele acontece de maneira desmedida?

As Fobias

Fobos (Phobos) e seu pai Ares em uma carroagem retratados em Ânfora de aproximadamente 500 anos A.C.

O que une Marte a Vênus é o medo e o terror na Terra.

Phobos e Deimos eram os gêmeos que nasceram da junção do amor, da sensualidade e da beleza de Afrodite (Vênus na versão Romana) em contato com a Guerra, as Armas e os Conflitos de Ares (Marte, na versão Romana). Vale ressaltar que Afrodite era casada com Hefesto, tratando-se, portanto, também de uma traição. Bons filhos que eram, entre seus desejos e aspirações encontrava-se a vontade de sempre acompanhar o pai em suas Guerras. Desta forma, não haveria Guerra em que o Medo (Phobos) e o Terror (Deimos) não acompanhassem os homens.

Em seu papel de Daímon, alguma parte própria natureza humana se manifestava através deles. Se essas divindades não existiram na realidade, com certeza existiram através da força que seu mito tinha para permear o discurso dos guerreiros. Passam a existir no corpo de cada soldado e de cada general — através daquilo que este sente — sua aparição é inerente à Guerra. E não haverá Guerra alguma sem medo ou terror. Mas haveria menos ainda a existência de qualquer um dos dois se até o maior dos guerreiros não precisasse de amor. Então para resumir o mito: a paixão (pathos) que transita entre o amor e a guerra deu a luz ao medo e ao terror dos seres humanos.

A palavra Fobia, em sua raiz grega, deriva deste Deus ou demônio (daímon) que era Phobos, a personificação do medo.

O que é uma Fobia?

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) entendemos como fobia um medo específico e irracional, ou seja, além das perspectivas reais de perigo daquele objeto que causa tal medo — que pode ser um animal, uma situação e/ou um próprio objeto inanimado:

“Os indivíduos com fobia específica são apreensivos, ansiosos ou se esquivam de objetos ou situações circunscritos. Uma ideação cognitiva específica não está caracterizada nesse transtorno como está em outros transtornos de ansiedade. Medo, ansiedade ou esquiva é quase sempre imediatamente induzido pela situação fóbica, até um ponto em que é persistente e fora de proporção em relação ao risco real que se apresenta. Existem vários tipos de fobias específicas: a animais, ambiente natural, sangue-injeção-ferimentos, situacional e outros”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233-234).

A palavra fobia entra como uma representação patológica do que seria a superestimação do perigo real que este medo a um objeto ou evento específico (para ser caracterizado fobia precisa ser em relação a algo específico) pode ou não acompanhar as manifestações fisiológicas mais comum a quem experiencia a emoção do medo em graus elevados. Ex: sudorese, tremores, paralisia, gritos, etc.

Curiosamente, derivando do grego Phobos, o daímon que representava o medo na Mitologia Grega, a nomenclatura deste Transtorno Mental parece ter sido escolhida de forma que também acompanhasse, em partes, a narrativa do mito.

Fobias Específicas

Certa vez, enquanto uma pessoa me relatava sobre uma fobia que possuía, correu um fato curioso: apenas por dar uma descrição mais detalhada do objeto em questão, esta pessoa demonstra tremendo desconforto, visível ao seu rosto e ao seu corpo – ambos passaram a ser protegidos pelas suas mãos.

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A Fobia pode se tornar uma espécie de lente de aproximação dos perigos quem podem ou não representar aquele objeto ou evento específicos.

Talvez você conheça algumas pessoas têm nojo de barata. Sem dúvida também conhece outras que têm medo. Mas você conhece adultos, idosos anônimos e famosos que paralisariam, suariam frio, sofreriam de uma incômoda taquicardia e até chorariam como uma criança perante este mero inseto? Para o caso de conhecer: ajude esta pessoa a buscar por um psicólogo e/ou um psiquiatra, pois é possível que ela sofra de entomofobia, ou insetofobia.

Para o diagnóstico de fobia específica ser considerado, é importante ressaltar que a relação de elevada aversão e ansiedade perante o objeto deverá persistir por período igual ou superior a seis meses. Ainda se faz necessário destacar que para começarmos a distinguir um medo de uma fobia, é também preciso avaliar se e o quanto aquilo causa sofrimento e incapacitação na vida daquele indivíduo.

Alguns exemplos de Fobias Específicas

ATENÇÃO: Caso o leitor sofra de algum caso de Fobia Específica, esta seção poderá conter imagens explícitas de seu objeto fóbico.

Aracnofobia: aranha, de forma real ou imaginada;

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Acrofobia: de altura; de lugares altos, de muros, sacadas, etc;

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Agorafobia: de espaços abertos; shows, concertos, multidões em geral;

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Claustrofobia: de lugares fechados/trancados: elevadores, túneis, etc.;

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Hematofobia: de ter contato ou de apenas ver sangue ou vestígios de.

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A Fobia na Psicanálise

Talvez o caso mais famoso de fobia retratado na psicanálise é o do Pequeno Hans, e sua fobia de cavalos. Caso contado por Freud. Recomendo a leitura da obra, mas para quem quiser conhecer brevemente o caso, o psicanalista Christian Dunker traz um breve resumo em seu Canal no Youtube:

A Ansiedade

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“Chegou o final de semana. Finalmente eu poderei colocar em dia os estudos que deixei atrasar. Dessa vez eu vou conseguir atualizar os detalhes de minha agenda! Agora dará tempo de arrumar o meu quarto, de trocar a lâmpada do forno do meu fogão. Mas hey, primeiro eu preciso levar o cachorro para passear. Também não posso me esquecer de reservar uma hora de cada dia para ir à academia e, com certeza, de ler minhas 50 páginas diárias. É bom que eu também me lembre de relaxar, de ouvir alguma música. Será que não tá na hora de checar as minhas redes sociais? O que as pessoas poderiam estar pensando de mim? Será que aquela foto ficou muito comprometedora para o pessoal do trabalho ver? MAS EU AINDA NÃO ESTUDEI! Imagina se o cachorro ficar o dia inteiro sem passear? Eu deveria me esforçar para me organizar mais. MEU DEUS! Eu ainda não atualizei a agenda e ainda faltam 49 páginas. Acho que vou dormir. É uma pena que eu não consigo fazer nada direito”.

Esta é a síntese de alguns pequenos momentos dentro da mente de alguém que sofre de ansiedade. É como se o pensamento tivesse vida própria, como dizem muitos pacientes. E isso cansa, pensar se torna um trabalho. Um trabalho pra lá de exaustivo.

A ansiedade torna a vida do sujeito atemporal. Vive-se o passado e presente em simbiose com as possibilidades (frequentemente negativas) do futuro. É o medo em sua forma crônica, constante e às vezes invisível. É uma enxurrada de palavras preocupadas que pré-ocupam toda e qualquer atenção e relaxamento na vida de um sujeito.

Quem sofre de Ansiedade não tira Férias

A imagem pode conter: texto
Passagem do Romance “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski.

A ansiedade ocorre na mente e no corpo. Dificilmente ela age isoladamente em um dos dois, por mais que a princípio alguns sintomas dêem a entender tal fato.

Não é incomum que um paciente que sofra de ansiedade descubra isso após seu dentista lhe apontar o desgaste que o bruxismo causa em seus dentes.

Em alguns casos, quem prevê o diagnóstico é o próprio gastroenterologista, após uma forte dor no estômago que mais tarde se descobre ser uma gastrite.

Quando me perguntam sobre a relação entre gastrite e ansiedade, eu gosto de recorrer à seguinte explicação:

– A gastrite é uma condição médica onde o próprio suco gástrico, que, presente no estômago para auxiliar na digestão dos alimentos, acaba corroendo as paredes que revestem o órgão internamente – quadro muitas vezes corroborado por um padrão alimentício rico em acidez.

Contudo, há relatos de pacientes que mesmo em uma dieta praticamente alcalina apresentaram o distúrbio. Por alguma coincidência, esses pacientes geralmente têm um perfil comportamental mais ansioso. Eventualmente temos aqui um diagnóstico de um quadro conhecido como dispepsia funcional. Ou, popularmente falando: Gastrite Nervosa.

– Uma das causas da gastrite nervosa é a liberação de suco gástrico sem a presença de alimento e/ou fisiopatologia que cause tal fato. Mas o que faria o organismo ter este tipo de comportamento? Talvez um chiclete, já que ele simula uma refeição e a pessoa poderá sofrer caso se encontre de “barriga vazia”. Mas e se o paciente sofrer da condição mesmo sem o hábito de mascar chiclete?

Será que isso é algo como se o organismo estivesse pulando etapas? Como se este se atropelasse na pressa de fazer tudo de uma vez? Talvez como se a sua digestão, da mesma forma em que ocorre com os pensamentos apreensivos de um paciente ansioso, esteja lá no futuro, lhe causando desconforto agora.

O que é a Ansiedade, afinal?

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A ansiedade, segundo Dalgalarrondo:

[…] é definida como estado de humor desconfortável, apreensão negativa em relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e fisiológicas (dispneia, taquicardia, vasoconstrição ou dilatação, tensão muscular, parestesias, tremores, sudorese, tontura, etc.) e manifestações psíquicas (inquietação interna, apreensão, desconforto mental, etc.).

(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166).

Portanto, é importante ressaltar que estamos falando de uma condição por vezes altamente incapacitante. A ansiedade costuma trazer insônia, comprometendo a organização dos ciclos circadianos do paciente; pode atrapalhar relações de trabalho com atrasos e faltas frequentes; pode, inclusive, comprometer relações amorosas e familiares. Nada aqui se compara ao famoso “frio na barriga” antes de uma esperada viagem – causado por uma descarga de adrenalina

Lembrando disso me cabe também contar que, ao começo de minha vivência clínica, quando atendia pacientes encaminhados via convênio médico em parceria com uma instituição, era altíssimo o número dos encaminhamentos médicos com a hipótese diagnóstica de algum Transtorno de Ansiedade.

Mas o fato mais curioso, que não me foi ensinado à graduação de psicologia era que a maioria destes pacientes não era composta por pessoas encaminhadas por um psiquiatra, mas sim pelo cardiologista – em geral após uma suspeita de infarto ou cardiopatia ser descartada por uma bateria de exames realizada um pouco depois de o paciente ter dado entrada no Pronto Socorro de um hospital.

Os Sintomas da Ansiedade

Dalgalarrondo (Ibid) divide os sintomas entre mentais, ou seja, relacionados à experiência interna, subjetiva, do indivíduo; e somáticos, relativos ao corpo, à fisiologia; à parte observável diretamente.

Quadrinho
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166. Quadro 16.3)

Contudo, é preciso cuidado. Os sintomas da ansieda não lhe são exclusivos. Eles já apareceram em Outro lugar. Eles são muito semelhantes ao que se sente no medo. Entretanto, o próprio DSM-V faz questão de nos atentar às diferenças entre medo e ansiedade:

“Medo é a resposta emocional à ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, com o medo sendo com mais frequência associado a períodos de excitabilidade autonômica aumentada, necessária para luta ou fuga; pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga e a ansiedade sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e vigilância em preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233).

A partir desta afirmação, se faz importante observar que há uma clara semelhança entre os sintomas da ansiedade com a expressão de uma das sete emoções básicas: o medo. Não é atoa que há eventual confusão entre os dois termos. A ansiedade talvez se pareça mais com um medo que, a princípio, se hospedaria naquele local apenas por um final de semana, mas encontrou lá razões para permanecer por tempo indeterminado.

As próprias manifestações fisiológicas são bem parecidas às do medo e da fobia. Mas a principal diferença é que, pelo menos a princípio: a ansiedade pode não possuir relação com causa/objeto específicos. Em alguns casos, como no Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), uma crise de ansiedade pode acontecer de maneira súbita, sem causa aparente. Quem quiser mais detalhes sobre a ansiedade, recomendo a leitura de um excelente texto da psicóloga Masilvia Diniz clicando aqui.

Transtornos de Ansiedade

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Você sabia que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde?

Os Transtornos de Ansiedade são diagnosticados de acordo com as recomendações da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID 10) – gerido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) –, e/ou pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) – regido pela American Psychiatric Association. Sempre por um psiquiatra. Contudo, o tratamento pode e deve ser realizado com vários profissionais trabalhando em equipe. A multidisciplinaridade, como forte aliada à saúde mental, é indispensável. Desde o psicólogo, o psiquiatra; à nutricionista, o terapeuta ocupacional; até ao educador físico e ao endocrinologista. Caso você sofra de algo parecido, procure urgente um profissional da área da saúde mental.

Exemplos de Transtornos de Ansiedade

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Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Sendo uma de suas marcas o roer de unhas, falamos aqui de um quadro de sintomas ansiosos que persistem por pelo menos seis meses, passando a causar elevados prejuízos aos âmbitos social, produtivo e afetivo do indivíduo que sofre desta condição.

A angústia e a insônia não são raras, confira a lista de sintomas que Dalgarrondo (2008) descreve a respeito desta condição:

TAG
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

O TAG é algo que com alguma frequência parece não ter uma causa aparente em suas crises. E de fato não é fácil estabelecer uma linha entre os fatores que poderiam desencadear a expressão de uma crise de ansiedade.

Para ilustrar tal fato, me recordo de uma situação relatada para mim onde, todos os dias na mesma hora, um pouco após chegar ao trabalho, uma pessoa que sentia muita vontade de ser demitida começava a experimentar uma crise de ansiedade. A princípio, para alguns psicólogos e psicanalistas, a relação entre as duas coisas parecerá evidente. Contudo, foi preciso que mais detalhes fossem buscados para que se começasse, em consultório, recolher as migalhas de pão”deixadas no caminho através da fala do paciente para depois entender mais nuances que o sigilo profissional não me permitirá expor aqui. As informações deste tipo não são tão simples de se chegar ao acesso, exigindo um pouco de paciência e atenção da parte do terapeuta.
O tratamento para o TAG é realizado com psicoterapia e, em casos mais acentuados, há o uso de medicamentos em conjunto.

Transtorno do Pânico

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É o medo de sentir medo. Um dos mais incapacitantes transtornos de ansiedade. Suas manifestações se estendem através de descargas do sistema nervoso autônomo; exatamente por isso, seus sintomas são até mais incapacitantes do que no caso de outros transtornos. Por exemplo: “batedeira ou taquicardia, suor frio,
tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos
em membros e/ou lábios” (Dalgalarrondo, 2008, p. 305).

Panico
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

Ainda de acordo com Dalgalarrondo (2008) , algo é unânime entre os pacientes: a sensação de que irá morrer a qualquer momento. Em crises mais intensas pode haver até certo grau de despersonalização. O ataque de pânico costuma ocorrer por mais tempo que o convencional. Quando estas crises de pânico se repetem com certa frequência por um período de 6 meses, pode-se começar a indagação a respeito de um diagnóstico relacionado ao Transtorno do Pânico (podendo ser com ou sem agorafobia).

Pacientes que sofrem de Transtorno do Pânico começam a evitar sair de casa com medo dos ataques; pedem demissão, terminam relacionamentos e, em casos mais graves até cometem suicídio em função da insuportabilidade de seu sofrimento.

A Ansiedade tem tratamento

Agora que você já sabe a diferença entre medo, fobia (que no DSM-V também é considerada um transtorno de ansiedade) e ansiedade teremos o objetivo principal em pauta: auxiliar na busca pelo tratamento, inclusive estimulando pessoas próximas a fazerem o mesmo. Se o leitor se identifica com a maior parte dos sintomas e algum dos transtornos aqui apresentados, a recomendação é que procure um psicólogo e/ou um psiquiatra o mais rápido possível, mesmo que apenas para tirar a dúvida. A internet não serve para isso.

A diferença é feita na hora da procura por um profissional. Mas a difusão do conhecimento sobre o assunto também poderá ajudar para que mais pessoas consigam entender que talvez seja a hora de escutar a opinião de quem dedicou, e ainda dedica a vida pessoal e profissional para ajudar quem passa por este tipo de sofrimento. Compartilhar este texto e deixar seu feedback também ajudarão à difusão deste conhecimento. Faça a sua parte. Até a próxima.

*Todas as imagens contidas no texto foram obtidas de forma gratuita na internet. Caso alguma delas seja de sua autoria, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos o mais rápido possível*.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERENCIAS:

American Psychiatric Association et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.

Cabral, A.; Nick, E. Dicionário Técnico de Psicologia. São Paulo. Editora Cultrix. 2006.

Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed Editora. 2008.
Darwin, C. A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras. 2009. (Obra original publicada em 1872).
Ekman, P. A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel. 2003.

Lent, R. Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu. 2010.
Rafailov, Igor. “Dicionário Igor de Fobias.” Forum de Fobias, 2003.

Spinelli, M. “O Daimónion de Sócrates”. Revista HYPNOS. São Paulo. Ano 11/nº 16 – 1º sem. 2006 – p. 32-61. acessível em http://revistas.pucsp.br/index.php/hypnos/article/view/4777/3327

Depressão: Conceitos, Sintomas, Mitos e Tratamentos

Por que falar sobre Depressão?

Ser psicólogo, assim como em qualquer outra profissão, faz com que desenvolvamos certa antipatia perante alguns termos do senso comum. E o motivo nem sempre paira a arrogância ou o pedantismo, em grande parte das vezes a causa é o conjunto de danos que a desinformação pode causar a um grupo de indivíduos ou para a sociedade como um todo. O artigo de hoje vem exclusivamente para destrinchar, desmitificar e afastar do senso comum o conceito do grande mal do século XXI: a Depressão.

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Imagem obtida na internet

No lento drama d’um mergulhar de alma em uma lama movediça de pensamentos, emoções e sentimentos negativos e, quando pior ainda: naquele nada que não se pode ou se sabe nomear. Quanto mais se mexe mais se afunda. Quanto mais força se faz, menos intensidade se percebe. A principal causa do suicídio, que por sua vez se tornou a segunda maior causa da morte entre os jovens, se fosse alguma doença infecciosa, já seria considerada uma pandemia passível de decretar calamidade pública mundial.

Este artigo contou com as ilustrações do magnífico trabalho de arte e pesquisa do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram. Nele é ilustrado e escrito, com o auxílio de relatos de pessoas diagnosticadas com o transtorno.

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Imagem obtida e publicada no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.

Você também poderá fazer o download do livro através deste link no Google Drive, mas pedimos que, em forma de retribuição pela qualidade do trabalho, curta a página no Facebook e a Siga no Instagram, exatamente para que mais pessoas possam conhecer este conteúdo de altíssima qualidade.

O Mal do Século

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Imagem obtida na internet.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 300 milhões de pessoas sofrem de Depressão no mundo inteiro. Uma população maior que a de habitantes do Brasil e quase que equivalente à dos Estados Unidos. Ainda de acordo com o órgão, o transtorno mental se tornou a maior causa de incapacitação ao redor do mundo, sendo mais comum (mas longe de ser exclusivo) em mulheres, falamos de algo que, na pior das hipóteses, pode levar quem sofra deste mal ao suicídio – a segunda maior causa de morte de pessoas entre os jovens na faixa etária dos 15 aos 29 anos de idade (OMS, 2019).

Sendo a depressão o transtorno mental que está relacionado à maioria de seus casos, estima-se que ao menos 800.000 pessoas cometam suicídio todos os anos. (Idem).

A Depressão é considerada um Transtorno de Humor. Mas o que é isso?

O Conceito de Humor

mascaras teatro grego
Nas festas dionisíacas, uma espécie de homenagem ao Deus da Mitologia Grega representante do vinho e da farra, máscaras eram utilizadas para designar as emoções, ou os estados de humor dos personagens que encenavam situações em um amplo espaço. Isso ocorria exatamente para que pudesse ser identificado pelo público, à distância, qual sentimento permeava aquela cena. Posteriormente, tais demonstrações deram origem às primeiras peças de teatro na Grécia Antiga. Imagem obtida na internet.

A palavra “Humor” deriva do latim “humore“, significando “líquido” em português. O humor é um estado afetivo, ou seja: é um retrato de como relacionamos nosso mundo interno com o mundo externo; como nossa mente se expressa através de nosso corpo; como equilibramos nosso eu ao mundo e as pessoas à nossa volta. E pode ser considerado mutável, assim como um líquido.

Foi associado durante algum tempo pela antiga medicina grega aos principais fluídos de nosso corpo (sanguefleumabílis amarela e bílis negra), como se estes fossem os verdadeiros responsáveis pela nossa saúde física e mental. Curiosamente, a medicina ainda utiliza, nos dias de hoje, a palavra “humor” para nomear certos líquidos do corpo humano. 

Contudo, apesar da palavra “Humor” ser algo frequentemente relacionado, inclusive pelo senso comum, à habilidade de fazer rir, esta não se resume a induzir alegria e riso através de nossas palavras e ações. O Humor pode ser considerado como aquela parte de nossa personalidade que irá, afetivamente, estabelecer uma conexão de nosso mundo interno com o “exterior”.

death humor
Na imagem uma caveira, envolvida em um manto todo preto com capuz (o que costuma ser uma representação da Morte), tomando um copo do que parece ser cerveja, pergunta a uma mulher loira, que acende um cigarro enquanto tem sobre a mesa um punhal, um vidro de comprimidos, um revólver e uma banana de dinamite: “Você está flertando comigo?”. Dando a entender que esta pessoa estaria prestes a cometer suicídio, por estar “flertando com a morte”. Abaixo a frase: “aqui está um pouco de “humor escuro popularmente apelidado de ‘humor negro’ no Brasil)”. Imagem obtida na internet.

Apesar de lembrar a definição de uma emoção, a principal diferença entre um estado de humor e um estado emocional está em sua duração. Uma vez que, em oposição aos instantes que pautam a duração de uma emoção, um determinado estado de humor pode permanecer por dias, semanas, meses e até anos. Podendo ser considerado deprimido, quando apresenta uma redução em sua “fluidez”, ou mais aflorado, elevado (e até maníaco) quando em maior atividade. Tais fatos irão definir nossa interação afetiva com o meio que nos cerca, bem como o conjunto de emoções e sentimentos que experimentaremos com maior ou menor facilidade e intensidade. Entenda a diferença entre Afetos, Emoções e Sentimentos clicando aqui.

O Conceito de Depressão

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A Depressão como forma de relevo, demonstrando o que o desgaste, ao longo dos anos, provoca numa estrutura geográfica de determinado local. Imagem obtida gratuitamente na internet.
 

É muito provável que a escolha do termo “Depressão” tenha derivado de seu homônimo na Geografia. Se bem for lembrado por quem está lendo, as aulas sobre os tipo de Relevo, no Ensino Fundamental, falavam sobre um local que sofrera grande desgaste por influência do vento e da água (fatores externos), durante anos, tornando-se uma espécie de buraco naquele espaço geográfico. O porquê deste casamento entre campos do conhecimento tão distintos entre si, talvez more nas palavras colhidas em relatos de parte daqueles que sofrem do transtorno: “é como se eu estivesse preso (a) /caindo em um enorme buraco”.

Critérios Diagnósticos

A Classificação Internacional de Doenças (CID-10) estabelece os espectros da Depressão dentro de sua seção de Transtornos de Humor (ou Transtornos Afetivos), localizados no intervalo das classificações F-30 e F39. Sendo as classificações do Transtorno Depressivo em específico localizadas entre F32.1 (Episódio Depressivo Leve) e F33.9 (Transtorno Depressivo Recorrente sem especificação).

No CID-10, a OMS define o que é considerado um Episódio Depressivo:

Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado ou grave, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite [o aumento também pode ocorrer]. Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima e da autoconfiança e freqüentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos “somáticos”, por exemplo perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar […] [os] três graus de um episódio depressivo.

E, para das devidas diferenciações, também define o que é um Transtorno Depressivo:

[O]Transtorno caracterizado pela ocorrência repetida de episódios depressivos correspondentes à descrição de um episódio depressivo (F32.-) […]. O primeiro episódio pode ocorrer em qualquer idade, da infância à senilidade, sendo que o início pode ser agudo ou insidioso e a duração variável de algumas semanas a alguns meses.

Apesar de ser bastante criticado pela abrangência das interpretações possíveis de seus critérios diagnósticos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) é amplamente utilizado no diagnóstico da Depressão. Sua caracterização engloba aquilo que está dentro do que é chamado de Transtorno Depressivo Maior, subdividido em episódio único ou recorrente, especificando também se em grau leve, moderado ou grave. Para o DSM-V, os critérios diagnósticos deste transtorno envolvem:

[A]Presença de pelo menos cinco entre os nove critérios.
[Os]Sintomas devem persistir por pelo menos duas semanas e um deles deve ser obrigatoriamente humor deprimido ou perda de interesse/prazer;

1. Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por relato subjetivo (p. ex. sente-se triste, vazio ou sem esperança) ou por observação feita por outra pessoa (p. ex., parece choroso) (Nota: em crianças e adolescentes, pode ser humor irritável);

2. Acentuada diminuição de interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (conforme indicado por relato subjetivo ou observação);

3. Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (por exemplo, mudança de mais de 5% do peso corporal em menos de um mês) ou redução ou aumento no apetite quase todos os dias. (Nota: em crianças, considerar o insucesso em obter o peso esperado);

4. Insônia ou hipersonia quase diária;

5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias;

6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias;

7. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser delirantes) quase todos os dias (não meramente autorrecriminação ou culpa por estar doente);

8. Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outra pessoa);

9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio.

Depression
Imagem obtida e publicada no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.

Um dos maiores problemas envolvendo o tratamento da depressão, segundo a OMS, está, mais ainda nos países sub-desenvolvidos, na falta de diagnósticos e principalmente nos diagnósticos equivocados a respeito do Transtorno – frequentemente atribuídos as definições amplas e vagas de seus critérios diagnósticos. Tais fatores comprometem desde o tratamento a pessoas que sofrem da condição, estendendo-se às estatísticas que entrarão em desacordo com a realidade que naquele local se apresenta.

Em seguida, ocorrendo de forma simultânea ao diagnóstico errado ou incompleto, vem a forma de tratamento oferecida. Não são raros relatos de diagnósticos que apontaram para um prognóstico limitado apenas ao consumo de antidepressivos, sem a indicação do tratamento psicoterápico.

depression diagnostico
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O problema deste tipo de abordagem estritamente biológica é exatamente o que foi concluído em uma pesquisa da Universidade de Helsinque, na Finlândia, pelo renomado neurocientista Eero Castrén, em conjunto com o professor de farmacologia do curso de psiquiatria da Universidade de Columbia, em Nova York, René Hen.

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Estudando a plasticidade neuronal a partir do uso de antidepressivos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a efetividade do tratamento com antidepressivos apenas se comprovava quando havia uma combinação com a psicoterapia (Castrén, E., & Hen, R. (2013). Confira o estudo (em inglês) clicando aqui.

depression medos
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Tal afirmativa já vinha sendo defendida há algum tempo por profissionais da área da saúde mental, mas a comprovação do estudo endossa a eficiência de um tratamento em conjunto. Afinal, assim como qualquer outro transtorno, não se pode tratar apenas o sintoma – é preciso investigar e intervir na causa.

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Distimia

A Depressão ainda pode aparecer em sua forma considerada mais “leve” e duradoura, a chamada distimia, classificada no DSV-5 como Transtorno Distímico (300.4) e dentro dos Transtornos Persistentes do Humor (F34.0), com o próprio nome de Distimia (F34.1). Sua condição pode permanecer por anos, sendo algo frequente a confusão do quadro com aspectos considerados “normais” à personalidade de suas vítimas.

Mais leve a nível de incapacitação, a distimia oferece constantes pensamentos negativos, marcados pelo pessimismo e característicos de uma baixa autoestima, uma elevada ou nula autocrítica do sujeito. Uma representação caricata e talvez fidedigna desta condição é encontrada no personagem Hardy, do desenho Lippy & Hardy da Hanna Barbera, famoso por seu bordão:

LippyHardy
Imagem obtida na Internet
 

Tratamento e Sintomas

Os sintomas, já descritos na definição, afetam os portadores no âmbito psicológico, social e até em nível neuro-fisiológico. Ainda não há um consenso na comunidade científica se os sintomas neuro-fisiológicos são a causa ou o efeito dos psicológicos (e vice-versa). Ou seja: ainda não se sabe ao certo se as alterações que o transtorno causa no corpo e no cérebro acontecem por causa de um determinado estado da mente do indivíduo ou se o que muda na cabeça deste paciente é uma causa direta daquilo que alterou a organização biológica de seu corpo. Uma espécie de questionamento semelhante ao famoso: “Quem veio primeiro? O ovo ou a galinha?”.

É exatamente por este motivo que o tratamento envolve psicoterapia e, nos casos em que a doença atinge seu nível grave ou moderado, a prescrição e administração de medicamentos específicos para que haja inibição da perda do principal hormônio responsável pelo humor: a serotonina.

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O transtorno altera a vida social, a vida psíquica e até a atividade neurológica do paciente, gerando neste altíssimos índices de incapacitação. Áreas do Sistema Nervoso Central relacionadas ao prazer, à motivação e até à atividade psicomotora do sujeito se encontram com baixíssima atividade sináptica durante um episódio isolado ou (e mais ainda) em um transtorno depressivo. Veja a imagem a seguir:

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Na imagem acima, a atividade sináptica, demarcada em amarelo e laranja, é comparada a partir do cérebro de um paciente Deprimido e outro Não Deprimido. Créditos na Imagem.

Também por ser tratar de uma condição onde a manifestação dos sintomas não se dá maneira explícita no corpo, ou seja, a percepção destes e de seus sinais é mais subjetiva (relacionada ao sujeito) do que objetiva (relacionada aos objetos, ao que se pode observar do meio externo). Sendo este fato bastante associado às tentativas de deslegitimação do Transtorno e do sofrimento experimentado por seus portadores.

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Tais fatores, alimentados pelo senso comum com ditos como “é falta do que fazer”, “é doença de rico” ou até “é frescura”, formam que pode piorar o quadro, uma vez o resultado destas falas se limitaria aumentar a dose de culpa – já muito presente nos pacientes que sofrem desta condição. A depressão é um Transtorno Mental que pode atingir todas as idades e classes sociais.

Depressão é Diferente de Tristeza

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Personagem “Tristeza” da animação da Disney “Divertidamente”. Imagem obtida na internet.

Se a tristeza é uma emoção, a Depressão é uma condição. Uma emoção é uma resposta neuropsicofisiológica, pulsional e instintiva de um organismo ao ambiente que o cerca. Ou seja: é algo que ocorre no corpo, na mente e no cérebro por um breve momento, relacionada a um fator determinado para fins específicos. A tristeza tem seu fim assim que a próxima emoção tomar seu lugar. Não se trata do caso da Depressão.

Enquanto a tristeza pode ser uma emoção que irá se repetir por segundos, minutos ou dias, a depressão perdurará por semanas, meses e até anos na vida de um sujeito.

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A tristeza dificilmente afetará as tarefas do dia-a-dia ou a performance no trabalho por um período significativo; bem como não provocará dores ou desregulará os ciclos do sono (circadianos), do apetite e da vida sexual a ponto de causar prejuízo cognitivo, nutricional, social e afetivo para quem a vivencia. Quem está triste não deixa de sentir o gosto dos alimentos.

Contrariando mais uma vez o senso comum, a Depressão também atingiu um dos maiores líderes religiosos do Brasil: o Padre Marcelo Rossi. Quebrando publicamente os alicerces argumentativos de quem dizia que o Transtorno era “falta de religião”. A Depressão, diferentemente da tristeza, traz déficits reais nas áreas cerebrais que integram a fala, a atenção e a concentração. E seria possível estabelecer e manter excelentes relações pessoais e profissionais com este desfalque?

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Algumas vezes pude perceber em alguns pacientes uma fala sem muita articulação; uma fala lenta em que seu tom de voz não carregava mais a ênfase da vida. Era possível perceber a troca de nuances de volume, intensidade e tempo por um relato retilíneo e monótono na voz dos sujeitos. Era como se toda a carga emocional e afetiva daquele relato estivesse aprisionada dentro de um profundo buraco mal iluminado. Ao início da experiência clínica e teórica, eu mesmo me indagava se a fala de um paciente deprimido não seria algo “artificial”, “falso” e “forçado”. Hoje eu arriscaria dizer que sim, que de fato é. Mas não por alguma encenação ou defesa, muito pelo contrário: pela quantidade sobre-humana de esforço que é exigida do deprimido ao simples ato de interagir com outra pessoa. Ao simples ato de sentir qualquer coisa. Faltará energia, força e vigor para demonstrar uma”emoção” na fala. A verdade é que não lhe falta vontade e, muito menos, culpa pela falta de êxito em colocá-la em prática.

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O Blues, o estilo musical americano que de origem a inúmeros gêneros musicais, incluindo o Rock, ficou marcado por suas letras tristes, costumeiramente associadas à Depressão e à Tristeza. O estimulo musical acabou se tornando uma forma de se referir a um estado emocional e/ou de humor: “I’m blue today” (“Hoje eu estou triste”):

https://www.youtube.com/watch?v=4VBce5OvR-k

É Preciso Falar Sobre

O tratamento da Depressão pode ser longo e trabalhoso, tanto para o paciente como para o (s) terapeuta (s). Não raro será aquele relato de terapeutas que se sentiram “sugados” pela enorme carga afetiva negativa que acompanha uma sessão com um paciente depressivo. Daí a importância do próprio terapeuta sempre fazer terapia e supervisão.

Se há uma dificuldade na vida de um paciente deprimido é a da escuta. Ninguém quer escutá-lo; poucas pessoas permanecem por perto. O terapeuta deverá saber “pescar” as palavras que mais permeiam seu discurso, as dores que marcam seu corpo junto ao seu vocabulário e as sinalizações de seu sofrimento em seu rosto, suas vestimentas e cuidado consigo mesmo.

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A alavanca da melhora estará nas pequenas coisas: nos planos que começam surgir para o futuro, no súbito desejo de pintar as unhas; no ato de ir ao cinema ou tomar uma cerveja, mesmo que sem companhias. No inesperado “vou ali e já volto” em que a pessoa volta mesmo.

Lembro-me que o marco de melhora de um caso grave de depressão que atendi foi uma viagem, feita sem muito tempo de planejamento e sem companhias conhecidos. Duas coisas até então inéditas. Curiosamente, este evento somente foi perceptível ao paciente após alguns meses, quando, em uma objeção minha à sua autocritica direcionada a uma suposta ausência de iniciativa, independência e força de vontade, a viagem foi citada. Curiosamente, o quadro teve grande estabilidade após a tomada de consciência do significado que tinha aquela aventura.

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Psicoterapias de grupo e até grupos de apoio também podem ser de grande efetividade. Uma vez que causam a percepção de que aquilo tudo não lhe é exclusivo, não é uma falha de sua volição. Estas psicoterapias facilitam, inclusive, o estabelecimento de novos vínculos, que podem ajudar no processo de recuperação dos pacientes.

Por fim, Não é o Fim.

A recuperação é uma lenta luta diária. Uma prova de força que supera de longe os desafios propostos aos halterofilistas mais bem preparados. Cada dia é uma nuvem a menos em um horizonte de intensa neblina. A chamada remissão começa com o enxergar daquela mísera fração de cores de um arco-íris em meio às trovoadas de uma tormenta, que apesar de demorar a passar, agora já acontece sem os fortes ventos que a acompanhavam.

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É um lento processo que não é linear, mas que aos poucos permite a escolha de alguns tons de cinza – depois de tanto preto e branco. É um desembaçar de óculos que vai permitindo ver vida e alegria no bege que agora está na sua mais nova paleta de cores. O azul já é quase algo bom – começa a despertar algo diferente do que a dor sentida em todos aqueles Blues; dele surge um tom de verde, pois o amarelo também aparecera por perto. Outro encontro dá origem ao marrom: o vermelho também cruzara seu caminho. A escuridão do preto e a cegueira do branco podem até voltar, mas logo há respingos de outras cores que refletem alguma luz a mais. E assim vai.

Certo dia aparece um sorriso, n’outro duas risadas. Uma inesperada vontade de cheirar uma flor toma conta daquelas primeiras horas manhã. Será que correr pela rua seria uma boa ideia? Ainda há um eco da depressão, mesmo nas maiores histórias de superação e nos melhores momentos da vida; ela é assustadoramente sentida por perto, mas as pernas e os ombros estão mais leves. Haverá sempre a possibilidade de tropeçar e cair àquele lugar úmido e escuro, mas não hoje. Pode até ser que isso aconteça na semana que vem. Mas hoje não; hoje estou curado (a). Hoje dá até pra aproveitar, quem sabe amanhã também dê? Bom, já está na hora de fazer planos.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

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Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5 – Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2014.

CASTRÉN, E., & HEN, R. (2013). Neuronal plasticity and antidepressant actions. Trends in neurosciences36(5), 259–267. doi:10.1016/j.tins.2012.12.010.

CUNHA, J. A. Psicodiagnóstico – V – 5. ed. rev. e ampl. – Porto Alegre: Artmed, 2007.

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais – 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

FUKUYAMA, Y. L. Sim, estou bem. São Paulo: 2019. Disponível neste link. Acesso em 17 jul 2019. Link alternativo.

Portal OMS. Organização Mundial da Saúde; 2019 [acesso em 17 jul 2019]. Disponível em: https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/depression

World Health Association. The ICD-10 Clasification of Mental and Behavioural Disorders. Clinical descriptions and diagnostic guidelines. Geneva: World Health Organization; 1992.

Pulsão ou Instinto? Qual é a diferença?

Instinto ou Pulsão? Qual é o conceito de cada um? Qual é a diferença entre eles? Confira.

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A Guerra Ideológica nas Traduções

É natural a todo principiante nos estudos da psicanálise e, consequentemente, da psicologia moderna, se deparar com versões distintas de tradução nas obras de Freud. Numa versão bastante difundida de sua Obra Completa, termos como Instinto (Instinkt em alemão) e Repressão (Unterdrückung em alemão) , por exemplo, eventualmente são utilizados para descrever os conceitos de Pulsão (Trieb em alemão) e Recalque (Verdrängung em alemão).

Alguns estudiosos vão dizer que há aqui um componente ideológico, inserido durante as traduções do alemão para o inglês, dando abertura para interpretações que eventualmente destoariam do que fora originalmente proposto por Freud. Mas deixaremos esta discussão para um outro momento. Contudo, vamos começar pela diferença etimológica entre pulsão e instinto.

Etimologia

Conforme já sabemos, Sigmund Freud era Austríaco, tendo como sua língua materna o alemão. Naturalmente, nos é necessário buscar o significado das palavras usadas pelo psicanalista na língua em que foram escritas.

Instinto – Instinktgrafado de maneira idêntica ao que é postulado na biologia, é algo mais pautado ao comportamento de uma espécie, comumente usado como instinto sexual. Naturalmente, a palavra instinto é também utilizada, em alguns contextos, como sinônimo da palavra “impulso”.

Pulsão – Trieb: grafado de maneira semelhante ao verbo trieben – ação de impelir.
Trieb: impulsão, fazer avançar à força; empurrar, impulsionar; força motriz (usado na física e na engenharia); impulso da força instintual (instinkt).

Vemos que Trieb também pode vir a ser utilizado como um sinônimo de Instinkt na língua alemã. Então por que ainda se fala em “Erro de Tradução”, ou ainda em “Guerra Ideológica” através da mudança do termo? Para chegarmos a algo que nos aproxime de tal entendimento, será necessário conhecer um pouco mais sobre as definições.

As Definições

Se lembrarmos do uso da palavra Instinto antes de chegarmos a sua definição, podemos lembrar que em línguas latinas e também na língua inglesa não é incomum que nos deparemos com uma semelhança no emprego de Instinto, Intuição e Impulso.

Ex: “Eu agi por instinto”; “My instinct told me to act like that (Meu instinto me disse para agir daquele jeito)”; “O instinto materno é algo incrível!”.

Um consenso sobre como houve essa aproximação de conceitos caberia aos bons linguistas. Quando buscamos uma definição de instinto, o resultado dificilmente não se aproxima de um conceito Darwinista:

“Considera-se ordinariamente como instinto um ato desempenhado por um animal, sobretudo quando é novo e sem experiência, ou um ato desempenhado por muitos indivíduos, da mesma maneira[…]” (DARWIN, C. 2003. p. 273).

Um instinto poderia ser, em outras palavras, um comportamento biologicamente herdado, igual em todos os membros de uma determinada espécie, que perante um estímulo motiva ações com a finalidade ligada à sobrevivência e/ou reprodução.

Mas devemos nos atentar a um detalhe: o instinto nos impulsiona de acordo com o que acontece em nosso meio, com uma finalidade específica. A confusão entre instinto e pulsão é legítima, dadas as semelhanças, mas deve ser extinta, uma vez que falamos de funções e finalidades diferentes.

Por exemplo: se falta alimento no local onde estamos, devemos usar nossos músculos para que haja movimento até conseguirmos o alimento no mundo externo.

A partir do momento em que tal finalidade é atingida, deixamos de sentir toda aquela urgência instintiva que nos impulsiona a algo. E, naturalmente, agimos de acordo com o que é esperado para nossa espécie.

Quando algo deixa de ser Instintivo?

Cena de: “La grande bouffle” (em italiano: La grande abbuffata; no Brasil, A Comilança; em Portugal, A Grande Farra), filme franco-italiano de 1973 em que um grupo de pessoas se reúne com o objetivo de comer tudo aquilo que desejam até a morte.

As Pulsões

Em sua obra, quando se refere às Pulsões, Freud não deixa de utilizar o termo Trieb. E em seus usos do termo Instinkt (“Nova Série das Conferências de Introdução à Psicanálise“, Freud, 1933/1964, p. 106) mostra que seu entendimento de Instinto era diferente daquilo que viria a ser o grande cerne de sua teoria: As Pulsões (Trieb) – bastante retratadas em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), As Pulsões e seus Destinos (1915) e Além do Princípio do Prazer (1920).

Para “resumir a síntese de uma resenha” deste conceito, poderíamos utilizar uma passagem que adaptamos de Freud para definir o que seria uma Pulsão:

Um conceito-limite entre o psíquico e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que provém do interior do corpo e alcançam a psique, como uma medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo. (Freud, 1915, p. 4-5)”

Pulsões seriam, então, representantes de forças impulsionadoras que se originam no interior do corpo e são transmitidas ao aparelho mental, pressionando no sentido de descarga. São Inconscientes e fazem parte do que Freud chamou de Processo Primário, ou seja: ocorrem antes da ação do Recalque. As Pulsões buscam restaurar um estado anterior das coisas (Freud, 1920). Contudo, o processo de recalque não as cessa, apenas as direciona para um tipo mais elaborado de descarga.

Já é possível perceber aqui que, diferentemente dos instintos, os estímulos de uma Pulsão estão exclusivamente do mundo interno de um sujeito. Ou seja, enquanto nosso instinto de sobrevivência só nos permite mover os músculos para fugir quando encontrarmos um leão na selva, nossa Pulsão utilizará de combustível para impulsionar o que está em nosso mundo interno em busca de descarga: a libido.

A Pulsão não ocorrerá para desencadear um comportamento em específico. Ela muito menos se limita a se apresentar de maneira igual em indivíduos de uma mesma espécie. Cada um encontrará a satisfação de seus impulsos pulsionais em objetos que façam acordo com sua própria história subjetiva.

Se é da ordem do instinto ingerirmos determinada quantidade de alimento para a nossa sobrevivência, é além da ordem de algum tipo de princípio do prazer, impulsionado por uma grande força que tenta restaurar algum estado anterior das coisas, aquela nossa compulsão por repetir à exaustão o consumo de determinados alimentos que sequer têm algum valor nutritivo. Ou será que comemos apenas para nutrir nosso organismo? Você conhece alguém que ingere alimentos apenas pela pela motivação da fome? Se isso fosse verdade, colocaríamos em xeque todo o entendimento de dietas para múltiplos fins; toda a variedade de temperos e técnicas de culinária empregadas por toda a dedicação que há nos Chefs de cozinha. Comemos por algo a mais.

Explico a relação da comida com a fase oral do desenvolvimento neste texto. Confira.

Se o instinto acaba no ato de sua finalidade, a pulsão continua até deixar de existir – o que só aconteceu antes do nascimento; aquilo que só poderá acontecer após o fim do último batimento cardíaco. O fim da pulsão estará sempre aliado ao fim de toda a atividade cerebral de um indivíduo: a morte.

Tipos de Pulsão

Se o instinto sexual nos conduz à reprodução de nossa espécie, à continuidade de nossos genes num futuro próximo, a Pulsão de Vida (Eros – Pulsão Sexual) se tornou uma tentativa de postergar – através das pequenas doses de prazer obtidas após uma serie de tensões e conflitos, oriundos no contato com o mundo externo – até onde for possível a última finalidade de toda e qualquer vida: o retorno para aquele pacífico estado inanimado, semelhante a algo antes de seu começo – a morte (Thanatos, Pulsão de Morte).

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Se no início as pulsões encontraram satisfação no próprio sujeito, direcionando a descarga em áreas específicas do corpo durante as fases de seu desenvolvimento psicossexual, após certo momento, seus alvos foram se tornando objetos no mundo externo.

Se sabemos que a Pulsão de Morte é aquilo que conduz o indivíduo ao prazer de não sentir desprazer algum, ou seja, um estado onde não há o conjunto de complicações da vida, nos é previsível indagar o que faria essa força impulsionadora diminuir sua intensidade para nos deixar vivos por mais tempo.

Se quisermos desenhar, ilustrar a possibilidade de nosso próprio organismo tentar nos conduzir a morte a partir de seu movimento natural, podemos lembrar da própria mitose, o processo de desenvolvimento das células através de sua igual repartição. Quando esta ocorre de maneira desenfreada em alguma célula do organismo, conduz seu crescimento constante até que esta se torne uma anomalia que se tornou a segunda principal causa de morte no mundo.

E por falar em câncer, o que seria um de seus maiores causadores, senão uma fixação, um retorno da libido àquele momento da vida em que era predominante a satisfação das tensões, ou seja: uma descarga das Pulsões libidinais através da via oral? Naturalmente, recorrer ao cigarro em momentos de estresse e tensão deve ser algo que aproxime o sujeito, mesmo numa pequena fração, à primeira satisfação que lhe proporcionou o seio materno.

E esta seria uma forma de representar uma pulsão se direcionando a um objeto, num momento em que esta deixou de poder encontrar satisfação apenas no indivíduo. Freud vai nos dizer (1920) que, sem a pulsão de vida, nossa compulsão à repetição daquilo que nos dá prazer, motivada por Thanatos, nos conduziria à morte rapidamente. A Pulsão de vida (Pulsão Sexual), seria uma forma de encontrar pequenas pausas, uma mudança temporária da rota ao destino final.

A relação sexual é uma forma de descarga da Pulsão que envolve o contato com um outro. Contudo, para que esta aconteça, escolhe-se o conjunto adversidades  naturais do contato interpessoal para encontrar tal descarga de libido. O sujeito escolhe, inclusive, passar pelas etapas de um processo de sedução, pela a exposição perante a rejeição do desejo pelo outro e muitas outras dificuldades que envolvem a busca por sexo; uma vez que conseguir obter o intermédio do outro, através do consentimento e suas condições, é uma forma de satisfazer minimamente a pulsão e respeitar as leis sociais. Caso contrário, se um sujeito obedecesse estritamente a a intensidade máxima de sua Pulsão e agisse sem a ação do Supereu – de fazê-lo entender os limites e leis da sociedade – ele provavelmente cometeria um crime sexual.

Assim como se eu comer bacon sem parar, se eu fumar um cigarro atrás do outro sem intervalo algum para viver o prazer de forma ininterrupta, meu tempo de vida estará em jogo. Para Freud (1920), a Pulsão de Vida (Eros) será responsável pela interrupção dos comportamentos impulsionados por Thanatos através da busca pelo contato com o outro.

É como se, ao reparar nas semelhanças daquele objeto (o outro) com aquilo que eu acredito ter me dado prazer em tempos primórdios de minha infância, eu buscasse uma forma de satisfação quase tão boa quanto, mas que só aconteceria após uma boa dose de estresse e tensão – componentes naturais quando falamos da divergência existente no contato entre seres humanos diferentes. E nessa satisfação obtida através do ato sexual, da investigação científica (como forma forma de sublimação), etc. desvia-se um pouco da morte iminente que causaria o cega busca pela satisfação das Pulsões de Morte.

“A pulsão seria, então um estímulo para o psíquico que vem do interior do organismo, que não age como uma força momentânea de impacto, mas como uma força constante. (Freud, 1920)”.
Enquanto a pulsão de morte tenta adiantar o objetivo da vida, a Pulsão de vida tenta mostrar outro caminho que pode prolongar a experiência durante este objetivo.

A Ambivalência

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“Se uma relação de amor com um dado objeto for rompida, freqüentemente o ódio surgirá em seu lugar, de modo que temos a impressão de uma transformação do amor em ódio. Esse relato do que acontece leva ao conceito de que o ódio, que tem seus motivos reais, é aqui reforçado por uma regressão do amor” (Freud, 1915, p. 15)

Uma das mais antigas funções do aparelho psíquico é sujeitar os impulsos pulsionais que se chocam com ele, ou seja, fazer com que se tornem parte do sujeito. Se são predominados pelo processo primário, ou seja, aquilo que ocorre antes do recalque, após o acontecimento deste mecanismo, deverão encontrar sua pequena dose de satisfação a partir de atividades socialmente aceitas, que trazem rastros do prazer anterior ao recalcamento. O prazer na atividade atual se liga a algum prazer de Outros tempos.

É mais ou menos assim que um sádico se torna um cirurgião – seu prazer em ferir alguém se transforma na habilidade de curar, de salvar uma vida a partir de um uma ferida na pele. Assim toda aquela libido que ficaria livre num Eu se torna repousada, quiescente naquilo que agora serve ao indivíduo e o meio que este pertence.

As pulsões de vida, ou seja, o contato com o mundo externo e com o outro, podem nos tirar certa paz. Podem nos dar certa tensão, certas desavenças e algum estresse, é verdade. Mas não se pode negar que há pequenos intervalos de prazer e de alívio destas tensões, de satisfação levemente plena. Podemos até mencionar daquele sentimento oceânico que Freud menciona em O Mal Estar na Civilização (1929). E é daí que vale a pena todo este estresse que nos causa a renúncia de retornar ao estado zero. A morte, a ausência de problemas e preocupações e tensões deixa de ser tão atrativa nestes intervalos de prazer em que a vida vale a pena.

Para que servem as Pulsões?

“Retirantes”, de Cândido Portinari. Uma obra que retrata a morte presente em corpos vivos. A Vida e a Morte ocorrendo ao mesmo tempo.

Eros e Thanatos agem em conjunto. Se nossa capacidade de seguir as Pulsões de Vida não obtivesse interferência das forças impulsionadoras ao fim, é possível que sequer sentíssemos alguma urgência de prosseguir com algo. É possível que sequer buscaríamos aquilo que Lacan uma vez chamou de objeto a.

Não haveria desejo sem Pulsão de Morte. A urgência do desejo, o impulsionamento do indivíduo a buscar uma nova versão de tudo aquilo de bom que já experimentou depende de suas Pulsões. Mas se o contato com este desejo não for intermediado pelas relações humanas, é bem possível que nos prenderíamos exclusivamente a qualquer ilusão de pleno prazer. Por sexo e masturbação compulsivos, pelo sabor de uma comida favorita ou pela satisfação e pela euforia que causam certas substâncias lícitas ou ilícitas. O sujeito estará, lenta ou rapidamente, a caminho da morte, pois é a ela que serve o princípio do prazer.

E é por isso que Eros e Thanatos andam juntas. É por isso que nossas vidas subjetivas são repletas de ambivalência. Nossa capacidade de odiar algo ou alguém, ou seja, de buscar sua destruição através de toda a força pulsional que as Pulsões de Morte nos oferecem, é equivalente ao quanto aquilo nos poderia ter acalentado a libido através das Pulsões Sexuais (Pulsões de Vida), mas infelizmente foi algo que se perdeu nos conflitos inerentes ao contato humano.

Se amar alguém não é algo fácil, odiar também se torna um grande esforço libidinal. É preciso forte investimento para ambos. Não é atoa que eventualmente nos deparamos com notícias como esta:

Ex-líder da Ku Klux Klan é flagrado fazendo sexo com homem negro.

Considerações Finais

Portanto, se as Pulsões são confundidas com instintos, estaríamos determinando comportamentos igualitários para toda a espécie humana. Estaríamos contrariando esta pesquisa. Postulando um conjunto normativo de comportamentos. Se justificarmos o desejo de ser mãe de uma mulher como algo equivalente ao “Instinto Materno”, outras mulheres, aquelas que não querem ser mães; aquelas que não possuem o impulso que este “Instinto” causa, poderiam ser colocadas em uma categoria marginalizada (à margem) daquilo que é normal. Se justificarmos o ato sexual como unicamente proveniente do instinto humano, tornaríamos as relações sexuais homo, bin e pan afetivas uma anomalia do comportamento humano. E a história nos mostra o contrário. E isso poderia servir à múltiplas ideologias – e aqui respondemos uma hipótese ao que fora dito no início do texto: ideologias que poderiam ir contra aquilo que a teoria de Freud defendeu, ou seja, a liberdade dos sujeitos serem quem são.

Se a psicanálise nasce estudando os sintomas oriundos das repressões presentes em uma cultura uniformizante, como aquela da Era Vitoriana, por que dialogaria com a possibilidade de uniformizar o comportamento humano através da noção de Instinto?

Daí podemos pensar que a tradução de “Trieb” por “Instinto” poderia ter muita servidão a grupos mais conservadores à revolução trazida pela teoria que:

  • Foi contra a repressão da sexualidade feminina;
  • Apontou a existência de uma sexualidade infantil;
  • Explicitou a presença de um desejo incestuoso na sexualidade;
  • Explicitou uma agressividade não condizente com o que era permitido exibir;

Mas também mostrou que a história de cada sujeito permite que este module as variações daquilo que lhe é inerente. Apontou que o conhecimento obtido na análise pode permitir que o sujeito reconheça a origem e mude o destino de alguns de seus impulsos ou, ao menos, aprenda a conviver melhor com estes.

A psicanálise não poderia ser instintual, uma vez que sua ética para com o sujeito pulsional estará sempre à frente da hipocrisia pregada pela moral social.

REFERÊNCIAS

DARWIN, Charles (2003). A Origem das Espécies, no meio da seleção natural ou a luta pela existência na natureza, 1 vol., tradução do doutor Mesquita Paul.

Freud, S. (2006). Além do princípio de prazer. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.). Obras Psicológicas de Sigmund  Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 2, pp. 123-198). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1920).

Freud, S. (2004). Pulsões e destinos da pulsão. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.) Obras Psicológicas de Sigmund Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 1, pp. 133-173.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1915)

FREUD, S. (1905). Trois essais sur la théorie de la sexualité. Paris, Gallimard, 1987.

HANNS, Luiz Alberto. Dicionário comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996

 

 

O que é a Resistência em Psicanálise? Como vencê-la?

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Der WiderstandA Resistência

O Conceito

Na Arte da Guerra, falaríamos do ato de ocupar e contra-ocupar determinadas posições estratégicas para vencer um inimigo; na Física, o campo da eletricidade – mais especificamente o da eletrostática – fará menção à capacidade de um corpo se opor à passagem de uma corrente elétrica, ou ainda como: uma dificuldade para que haja passagem de corrente elétrica por um condutor submetido a uma determinada tensão. Já no Direito, falaremos de uma certa oposição a cumprir um ato legal, enquanto na Ecologia, da capacidade de um ecossistema manter sua estrutura e funcionamento diante de um distúrbio.

Até na Política encontraremos este termo. Nela, falamos do movimento de um povo contra um poder ilegítimo, ou seja: num conjunto de iniciativas postas em prática por pessoas que, unidas por uma causa comum (libertar seu território de alguém considerado um invasor), irão lutar contra uma imposta dominação e, consequentemente, pelo restabelecimento da ordem anterior das coisas. Charles de Gaulle e Jean-Paul Sartre são exemplos de pessoas que, de maneira diferente, exerceram um papel de resistência política na França da Segunda Guerra Mundial.

O Dicionário Aurelio, muito popular no Brasil, nos complementará:

1 – Força por meio da qual um corpo reage contra a ação de outro corpo.
2 – Defesa contra o ataque.
3 – Oposição.
4 – Delito que comete aquele que não obedece à intimação da autoridade.

Até às mentes menos focadas na física, na guerra de infantarias, na política, no direito, na medicina, etc. a palavra resistência tem seu significado bem compreendido. E digo isso pois, de alguma forma, até sua definição acordada num senso (em) comum poderá obter proximidade à representação deste conceito noutras áreas. Mesmo o mais leigo saberá que se trata de algum tipo de imposição à mudanças e influências externas, de um certo impedimento ou tentativa deste perante algum fenômeno. Seja na prevenção de danos ao chuveiro elétrico, no tratamento de infecções bacterianas com antibióticos ou em grandes revoluções, o conceito de resistência traz nestas e noutras áreas do conhecimento e até no imaginário popular palavras que, em uma cadeia sinônima, carregam em sua denominação um comum objetivo: barrar/bloquear, se opor e impedir.

Mas e na Psicanálise?

O Início

Vasculhando a obra de Sigmund Freud, podemos entender que seu deparar-se com o fenômeno da resistência de seus pacientes aos tratamentos foi algo que, em certo momento, começou a captar uma maior parte de sua energia e atenção. Mais especificamente quando Freud passou a trabalhar com Breuer seus Estudos sobre a histeria (Breuer, J., & Freud, S. 1895/1987).

Em um dos cinco casos clínicos descritos na obra, foi justamente no caso da Srta. Elizabeth que Freud começa a se interessar pelo mesmo fato que, mesmo mais de um século depois, ainda continua sendo grande responsável por uma elevada taxa de evasão de pacientes em consultórios de psicologia, psiquiatria e psicanálise: a resistência.

O caso que Freud descreve como “a primeira análise integral de uma histeria” teria seu início marcado pela dificuldade que Freud encontrara para conduzir a paciente a um transe hipnótico (método que, à época, era considerada uma forma de acessar conteúdos alheios à consciência). Mesmo com algum sucesso temporário, utilizando a chamada “técnica de pressão“, onde um toque à testa do paciente acompanha a informação de que, a partir daquele momento as lembranças “esquecidas” poderiam ser lembradas, Freud começa a ficar inquieto, já que, segundo o psicanalista: “parecia haver impedimentos de cuja natureza eu não desconfiava na época” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 166).

Segundo o Pai da Psicanálise, a forma encontrada para que sua “técnica de pressão” voltasse a oferecer o resultado desejado, foi informar verbalmente à paciente “saber muito bem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando […], mas que jamais se livraria de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 167).

A partir daí, o neurologista mais famoso do ocidente nos informa que passou “a atribuir maior importância à resistência oferecida pela paciente na reprodução de suas lembranças e a compilar cuidadosamente as ocasiões em que era particularmente acentuada” (ibid., p. 167). Sua subsequente conclusão teve o caminho de entender que: existiria alguma correspondência entre a energia com que uma representação incompatível às suas associações atuais fosse refutada de sua consciência e sua resistência em reproduzir cenas vividas de maneira traumática (ibid. p. 170). Portanto, houve, da parte da paciente, uma “forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência” (ibid. p. 177).

Em seu Vocabulário da psicanálise, Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. (1988), apontam que a resistência à hipnose e à sugestão foi, inclusive, uma razão pela qual Freud desistira destas em seus pacientes, uma vez que “a resistência maciça que lhes apunham certos pacientes lhe parecia ser por um lado legítima, e, por outro, não poder ser superada nem interpretada” (p. 596).

Tipos de Resistência

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Já sendo um termo mais frequente em A interpretação dos sonhos (Freud, 1900/1987), o nosso primeiro psicanalista fala da resistência como algo a impedir lembranças, a chegada de conteúdos à consciência e, mais ainda: a resistência à interpretação.

Para Freud, se havia na irracionalidade dos conteúdos presentes nos sonhos algum propósito, este só poderia ser: “[…]escapar da censura imposta pela resistência” (Freud, 1900/1987, p. 297). A justificativa do psicanalista era que o aparelho psíquico precisaria de algum tipo de descarga de energia que trouxesse satisfação, mesmo que mínima, à mente que estaria privada de realizar seus desejos inconscientes incompatíveis com as normas sociais vigentes. Desta forma, haveria sucesso se aqueles conteúdos viessem, quase que incompreensíveis, à consciência (através do sonho) e carregassem apenas fragmentos daqueles desejos – através de representações feitas pelo similar som das palavras; por sinônimos; por alusões e associações realizadas no que Freud chamara de Trabalho do Sonho, regidas principalmente pelos mecanismos de defesa da Condensação e do Deslocamento.

O psicanalista, segundo Freud, teria a singela missão de ajudar o paciente a realizar as associações necessárias para, de alguma forma, interpretar a mensagem que é transmitida a partir das associações presentes no sonho. Aquela mesma mensagem que seria barrada da própria consciência por conta ser considerada, por algum motivo, ameaçadora a integralidade psíquica daquele sujeito. Naturalmente, as interpretações do analista ofereceriam certo risco às verdades carregadas durante uma vida inteira, uma vez que poderiam revelar desejos jamais antes permitidos à consciência em forma outra senão a de Tabu, como por exemplo, o incesto e o parricídio. Era de se esperar que houvesse, também, uma resistência à interpretação.

Para Freud “Sua opinião de que o sonho é absurdo significa apenas que você tem uma resistência interna contra a interpretação dele” (p. 154).

Talvez a resistência esteja mais centrada no Supereu, quando a análise está prestes a apresentar um forte conflito dos desejos inconscientes do analisando com suas crenças, a moral vigente e seus valores; possivelmente estará mais focada no Eu quando se evita falar para não causar problemas, conflitos e julgamentos a respeito daquela imagem idealizada que se tem de si mesmo, principalmente daquela que se imagina que os outros tenham, mas certamente também será possível encontrar morada para a resistência em nossa dificuldade de sermos transparentes em relação ao nosso inconsciente. De toda forma, ela existe para preservar a organização psíquica anterior a uma análise, uma vez que por algum tempo esta trouxe ao paciente grande satisfação – posta em cheque pela investigação de seu inconsciente.

Você poderá conhecer melhor os conceitos sobre a Interpretação dos Sonhos e os Mecanismos de Defesa dentro da obra de Freud nos textos a seguir, também publicados na Sociedade dos Psicólogos:

– Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: A Interpretação dos Sonhos e a Primeira Tópica Freudiana
– A Interpretação dos Sonhos
– Reflexões sobre o Aqueronte: Como alcançar o inconsciente em uma análise.
– O Que São Mecanismos de Defesa do Eu

A Definição

Por conta disso, é comum que entendamos hoje a resistência perante interpretações, associações e junções de representações, como uma certa força de expulsão para proteger o eu e o núcleo patógeno da lembrança e do acesso. Uma vez que o sintoma, a repetição e o sonho, mesmo que hoje tragam sofrimento, foram já um dia uma forte maneira de obter acesso a uma fração de seus desejos inconscientes – conforme visto na obra de Freud, que na mesma obra já nos diz que “A quantidade de afeto que devotamos à primeira associação de um objeto oferece resistência a que ela entre numa nova associação com outro objeto […]” (Freud, 1893/1987, p. 190).

E qual seria o papel da análise senão o da ressignificação, a formação de novas associações e, eventualmente, a interpretação de representações do inconsciente? Sabendo disso, não é incomum que o próprio fato da análise em si também seja alvo da resistência.

Referências no assunto nos dirão que se poderá definir a resistência como:

“o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise” (Roudinesco & Plon, 1998, p. 659)

Ou ainda:

“[…] tudo o que, no actos e palavras do analisando, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente” (Laplanche & Pontalis, 1988, p. 595-6).

Mas será na página 475 de sua Obra Magna, A Interpretação dos Sonhos, que Freud baterá o martelo:

“A psicanálise é justificadamente desconfiada. Uma de suas regras é que tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência (Freud, 1900/1987, p. 475).

Portando, para Freud, até as melhores justificativas para atrasos, faltas, remarques e refutações de interpretações ou até pontuações de atos falhos e lapsos, são uma forma de resistência. É claro que a palavra do analista não é Lei, este também poderá se enganar. Mas, via de regra, com o devido estudo, análise e supervisão do analista, será mais fácil se deparar com a resistência do paciente do que um erro de cálculo.

A Resistência é do Analista? Como Lidar com a Resistência ao Tratamento?

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Em tradução livre: “Você realmente pensa que é uma resistência?”

Em sua Introdução Clínica à Psicanálise Lacaniana (Zahar, Rio de Janeiro, 2018), Bruce Fink consegue trazer partes da obra de Jacques Lacan e Sigmund Freud a respeito do assunto. Leitura recomendada para quem deseja iniciar uma imersão neste tema.

O começo de seu primeiro capítulo é o refutar de uma antiga piada sobre psicólogos e psicanalistas:

“Quantos psicólogos são necessários para trocar uma lâmpada? Um, mas a lâmpada realmente precisa querer mudar”.

A crítica do psicanalista é exatamente sobre o ato de responsabilizar o paciente pelo tratamento inteiro. Ora, se a resistência interage com a relação transferencial e os mecanismos de defesa do Eu, o tratamento deixará de dar certo, caso o paciente continue com suas projeções, deslocamentos, racionalizações, falte às sessões, chegue atrasado, ataque o analista, correto? Correto. Mas o paciente realmente quer mudar? O paciente realmente quer se livrar de seu sintoma? É o paciente que deverá se livrar da resistência?
É óbvio que sim, mas é claro que não.

“O simples fato de as pessoas lhe pedirem algo não significa que elas realmente querem que você lhes dê”. LACAN, Seminário 13, 23 de março de 1966.

Se a resistência, conforme vimos anteriormente, tem fortes influências inconscientes, como poderá o paciente se livrar dela apenas com sua consciência? A própria ferida narcísica introduzida à humanidade por Freud já nos mostrava que existiria uma força muito maior no inconsciente.

Os franceses vão chamar Jouissance [gozo], aquele “barato”, aquela “onda” que se tira de situações dolorosas. Seja um castigo ou uma autopunição. É como se de tanta dor houvesse de sair algum prazer. Mais ainda: como se de tanto prazer vazasse dor. E isso, a psicanálise já nos diz: há ou houve nos sintomas, nos sonhos e na repetida e desejada vontade de certa ignorância sobre os aspectos do inconsciente uma dose de satisfação, de gozo, que permitia aos sujeitos um leve acesso aos seus desejos recalcados e/ou reprimidos, por que então o sujeito iria aceitar de prontidão uma mudança?

É natural que na clínica busque-se apenas uma manutenção do sintoma, ou, como diria Fink:

“em meio a uma crise de gozo esperam que o terapeuta a resolva, faça o sintoma funcionar como funcionava antes [gerando satisfação, gozo, de maneira paralela]. Não pedem para ser livrados do sintoma, e sim de sua recente ineficácia, de sua recente insuficiência. Sua demanda é que o terapeuta restabeleça sua satisfação no nível anterior” (2018, p. 19).

E não será responsabilizando imediatamente o paciente pelo que ocorre, denunciando explicitamente seus mecanismos de defesa a partir de uma interpretação precoce ou, ainda culpabilizando o paciente pela própria resistência e, consequentemente, pela ineficácia do tratamento, que irá haver sobreposição a este fato.

O analisando resiste porque quer seu gozo de volta, resiste porque decifrar seu inconsciente ameaçará muito do que se acredita; resiste porque teme, lá no fundo, ficar sem nada em que até hoje se escorou para suportar as exigências do inconsciente versus exigências da sociedade. Se tirarmos, de prontidão, as fontes de gozo do analisando, o que poderemos oferecer em troca para que este diminua sua resistência ao tratamento? Porque já sabemos: se o sintoma tem seu papel, sua ausência abrupta poderá trazer demandas piores. O que será oferecido ao sujeito no processo de análise?

Fink vai nos dizer que:

“uma satisfação substituta diferente: o estranho tipo de satisfação que vem da relação transferencial e da decifração do inconsciente” (ibid).

“Haverá uma nova abordagem das coisas, uma nova maneira de lidar com pessoas, um novo modo de funcionar no mundo” que poderão e deverão trazer mais satisfação que o antigo sintoma, pois só assim haverá engajamento na análise ao invés de abandono.

E este processo só poderá ser vencido se for vencida a única resistência que pode ser vencida de fato: a resistência do analista ao seu desejo.

A Resistência e o Desejo do Analista

Se não é possível ao paciente entender a troca que fará, muito menos a resistência que enfrentará, é esperado que seja ao analista. Se alguém procura terapia porque houve uma dificuldade em obter satisfação, gozo, da maneira que lhe era possível anteriormente (sintoma), caberá ao analista se esforçar para que esta pessoa obtenha algum resultado, ou seja, alguma satisfação ao se livrar gradativamente deste antigo modo que lhe servia (quase) muito bem.

No Seminário I (1953-54), Lacan explica que a Transferência (sobre a qual farei um texto em breve), é o motor da análise. E como já sabemos que é dela que vem algum tipo de satisfação substituta àquela do sintoma, essa informação se torna importante para que entendamos que o estabelecimento desta ocorrerá simultaneamente à uma pequena superação da resistência.

Lacan revisita Freud em seus Escritos Técnicos mostrando que tudo que intervém suspendendo, destruindo ou interrompendo a continuidade do tratamento é uma resistência do analista.

Para Lacan, se o analista não atentar à realidade do discurso, ou seja, da ordem do Simbólico, sua atenção à realidade factual, da ordem do Imaginário, irá empurrar o analisando para os chamados acting outs, ao invés de iniciar uma verdadeira análise. Ex: pedidos de demissão repentinos; bruscas rupturas em relacionamentos estáveis. Portanto, se há uma resistência, Lacan vai nos dizer que ela é sempre do analista.

Isso quer dizer que não há, portanto, uma resistência do analisando para com seu desejo inconsciente? Há sim. Mas a resistência ao tratamento faz parte de uma resistência do analista para com seu único desejo que deverá ser explicitado ao analisando: o chamado desejo do analista – o desejo para que o analisado continue análise. O desejo de que ele compareça à próxima sessão.

O analista não desejará nada senão o retorno do analisando. O analista desejará, unicamente, que análise aconteça. Quer que o analisando conte seus sonhos, faça associações, entenda seus lapsos e atos falhos, critique suas relações estabelecidas e questione os padrões que regem suas escolhas antes mais inconscientes. Consequentemente, nasce aqui a transferência que, em sua essência, é a força motriz de toda análise.

A Análise nasce do desejo do analista e mora no desejo do sujeito

A análise se move a partir da transferência que, por sua vez, é o que ocasionará uma trégua à resistência. A relação transferencial tem origem no próprio desejo do analista de que o analisando continue a análise. Esta mesma relação transferencial é o motor da análise e também aquilo que vence a resistência ao substituir o que é trazido pelo sintoma. Ela dificilmente existirá se o desejo do analista resistir a aparecer. Quando o analista expressa seu desejo, ele permite o aparecimento do desejo do sujeito em análise, mesmo de maneira não explícita. Portanto, se há resistência do analista em mostrar seu desejo, esta, por osmose, também será transferida ao analisando.

Seja realizando uma ligação perante um atraso de mais de 15 minutos, ou até insistindo para que o analisando venha, mesmo que restem apenas poucos minutos de análise; seja cobrando sessões em que houve faltas sem um aviso com 24 horas de antecedência, seja mostrando ao analisando que a análise deverá tomar o lugar de um compromisso inadiável em sua vida; seja exigindo reposições ou ainda solicitando uma sessão extra; seja valorizando na sessão o conteúdo que traga realmente o discurso do inconsciente; seja tolerando toda a resistência que supostamente seria do paciente: o analista expressará sempre o desejo de que o analisando se analise. O desejo de que ele venha, o desejo de que a análise continue. Assim será vencida a resistência, cremos hoje.

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Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERÊNCIAS:

BREUER, J., & FREUD, S. (1895/1987). Estudos sobre a histeria. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 2) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1900/1987). A interpretação dos sonhos. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vols. 4-5) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1905/1987). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 7) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
LACAN, J. Seminário I Escritos técnicos 1953-1954. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1986.

LAPLANCHE, J., & PONTALIS, J.-B. (1988). Vocabulário da psicanálise (10a ed.). São Paulo: Martins Fontes.

ROUDINESCO, E., & PLON, M. (1998). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

(TODAS AS IMAGENS UTILIZADAS NESTE TEXTO FORAM OBTIDAS NA INTERNET. CASO VOCÊ DETENHA OS DIREITOS DE ALGUMA DELAS, ENTRE EM CONTATO COM A SOCIEDADE DOS PSICÓLOGOS IMEDIATAMENTE).

Como é a Avaliação Psicológica para Posse/Porte de Armas no Brasil?

No início do ano o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, assinou o DECRETO Nº 9.684, DE 14 DE JANEIRO DE 2019. Das atribuições ali presentes, encontrava-se a alteração do Decreto nº 5.123, de 1º de julho de 2004, que regulamenta a LEI No 10.826, DE 22 DE DEZEMBRO DE 2003, que, por sua vez, dispõe sobre o registro, a posse e a comercialização de armas de fogo e munição; sobre o Sistema Nacional de Armas – SINARM e sobre a definição de crimes.

A partir desta publicação houve uma flexibilização para a Posse de Arma de Fogo no Brasil, sendo mais a parte mais comentada desta alteração a que retira o critério de “comprovação de efetiva necessidade”, para que o cidadão comum possa adquirir o registro para comprar uma arma de fogo. Alegou-se que este seria um critério por demais subjetivo.

Porém mesmo com as exigências flexibilizadas no novo decreto, a aquisição de uma Arma de Fogo no Brasil continua a exigir um conjunto rigoroso de etapas e, entre estes, inclui-se a necessidade de uma certa “aptidão psicológica, que deverá ser atestada por psicólogo credenciado pela Polícia Federal ” (LEI No 10.826, DE 22 DE DEZEMBRO DE 2003.).

Esta aptidão psicológica é avaliada a partir de um laudo, que é emitido por um psicólogo que ateste que tal pessoa submeteu-se a uma Avaliação Psicológica. E este Laudo, por sua vez, considerará se aquele indivíduo, no momento daquela avaliação, estaria apto ou inapto para o manuseio de uma arma de fogo. Mas o que é e como é feita uma Avaliação Psicológica?

O que é uma Avaliação Psicológica?

Segundo a Resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) nº 07/2003 uma Avaliação psicológica é:

[…] o processo técnico-científico de coleta de dados, estudos e interpretação de informações a respeito dos fenômenos psicológicos, que são resultantes da relação do indivíduo com a sociedade, utilizando-se, para tanto, de estratégias psicológicas – métodos, técnicas e instrumentos.

A Resolução 07/2003 também é clara ao dizer que os resultados de tal processo observam e avaliação o impacto de condicionantes históricos e sociais no psiquismo, ou seja: as influências à saúde mental de alguém perante o ambiente em que se está inserido, sejam as atuais e imediatas ou aquelas que precederam sua vivência. Tal fato acontece para que se saiba diferenciar se as suas manifestações comportamentais seriam volúveis ou não, de acordo com o local e o tempo em que aquele sujeito vive. Por exemplo: se um morador de uma zona urbana teve seu registro e/ou porte negado por encontrar-se em situação de extremo estresse naquele momento, é possível que tal quadro fosse diferente e/ou revertido em uma eventual mudança de vida bem adaptada – daquele mesmo cidadão – para uma zona rural, o que poderia, em uma nova avaliação, facilitar a obtenção de um laudo que ateste sua aptidão para o manuseio de uma arma de fogo.

Para que um psicólogo realize uma Avaliação Psicológica apropriada, este necessita respeitar alguns critérios específicos, também descritos na Resolução 07/2003 do CFP. Entre eles:

  • adotar como princípios norteadores as técnicas da linguagem escrita e os princípios éticos, técnicos e científicos da profissão de psicólogo;
  • basear suas informações na observância dos princípios e dispositivos do Código de Ética Profissional do Psicólogo, com ênfase nos cuidados em relação aos deveres do psicólogo nas suas relações com a pessoa atendida, ao sigilo profissional, às relações com a justiça e ao alcance das informações – identificando riscos e compromissos em relação à utilização das informações presentes nos documentos em sua dimensão de relações de poder;
  • se basear exclusivamente nos instrumentais técnicos (entrevistas, testes, observações, dinâmicas de grupo, escuta, intervenções verbais) que se configuram como métodos e técnicas psicológicas para a coleta de dados, estudos e interpretações de informações a respeito da pessoa ou grupos atendidos, bem como sobre outros materiais e  documentos produzidos anteriormente e pertinentes à matéria em questão. Esses instrumentais técnicos devem obedecer às condições mínimas requeridas de qualidade e de uso, devendo ser adequados ao que se propõem a investigar.
  • deve-se utilizar linguagem precisa, clara, inteligível e concisa, ou seja, deve-se restringir pontualmente às informações que se fizerem necessárias, recusando qualquer tipo de consideração que não tenha relação com a finalidade do documento específico.

Relatório ou Laudo Psicológico

Exemplo de Laudo Psicológico conforme sugerido pela Polícia Federal para a avaliar a aptidão ao manuseio de armas de fogo.

Entre as múltiplas modalidades de documentos escritos, os Relatórios Psicológicos (ou Laudos Psicológicos) trazem características especificamente solicitadas em sua composição. Dentre eles:

  • uma apresentação descritiva acerca de situações e/ou condições psicológicas e suas determinações históricas, sociais, políticas e culturais, pesquisadas no processo de avaliação psicológica;
  • em dados colhidos e analisados, à luz de um instrumental técnico (entrevistas, dinâmicas, testes psicológicos, observação, exame psíquico, intervenção verbal), consubstanciado em referencial técnico-filosófico e científico adotado pelo psicólogo;
  • apresentar os procedimentos e conclusões gerados pelo processo da avaliação psicológica, relatando sobre o encaminhamento, as intervenções, o diagnóstico, o prognóstico e evolução do caso, orientação e sugestão de projeto terapêutico, bem como, caso necessário, solicitação de acompanhamento psicológico, limitando-se a fornecer somente as informações necessárias e relacionadas à demanda, solicitação ou petição;
  • conter narrativa detalhada e didática, com clareza, precisão e harmonia, tornando-se acessível e compreensível ao destinatário

A Estrutura deverá respeitar os seguintes critérios:

  1. Identificação: dados sobre o autor do laudo, o interessado ou solicitante e o assunto/finalidade do documento;
  2. Descrição da Demanda: narração das informações referentes à problemática apresentada e dos motivos, razões e expectativas que produziram o pedido do documento;
  3. Procedimento: os recursos e instrumentos técnicos utilizados para coletar as informações (número de encontros, pessoas ouvidas etc) à luz do referencial teórico-filosófico que os embasa, tudo de acordo com a complexidade da demanda;
  4. Análise: uma exposição descritiva de forma metódica, objetiva e fiel dos dados colhidos e das situações vividas relacionados à demanda em sua complexidade;
  5. Conclusão: o resultado e/ou considerações a respeito de sua investigação a partir das referências que subsidiaram o trabalho.

É importante ressaltar que o psicólogo poderá responder por este laudo pelos próximos 5 (cinco) anos subsequentes à data de sua elaboração, portanto, este deverá ser guardado em seu consultório ou em sua clínica. A seguir foram separados alguns critérios específicos a respeito de uma Avaliação Psicológica com o objetivo para considerar alguém apto ou inapto para o Registro e/ou Porte de Arma de Fogo.

Avaliação Psicológica para Registro e/ou Porte de Arma de Fogo

Agora que já foram explicados os aspectos de uma Avaliação Psicológica, é importante saber diferenciar uma da outra. A principal diferença entre as avaliações psicológicas em geral é, sem dúvidas, os objetivos de quem as solicita. A finalidade deverá nortear o psicólogo a respeito de quais tipos e quais instrumentos e técnicas irá utilizar.

Uma Avaliação Psicológica para uma Cirurgia Bariátrica pode, assim como uma Avaliação Psicológica para Registro e/ou Posse de Arma de Fogo, oferecer diferentes perspectivas do mesmo resultado de um teste. Por exemplo: uma pessoa que possua um Distúrbio Alimentar moderado ou grave poderá ainda ser inapta para uma Cirurgia Bariátrica mas, talvez (e aqui dependerá da avaliação de outros aspectos de sua personalidade) a maneira com que este distúrbio alimentar se manifeste não interfira no resultado de sua aptidão para o manuseio de uma arma de fogo. 

Assim como o contrário também pode acontecer: uma pessoa apta a reduzir o tamanho de seu estômago poderá ser considerada inapta ao manuseio de uma arma de fogo. E é exatamente por isso que se avalia mais de um critério e que é importantíssimo que a Avaliação se mantenha alinhada à demanda solicitada. Caso tenha dúvidas e/ou interesse sobre como funciona uma Avaliação Psicológica para uma Cirurgia Bariátrica, consulte este artigo: Qual é a Importância da Avaliação Psicológica antes de uma Cirurgia Bariátrica (o que é e como fazer).

O que será avaliado?

Uma Avaliação Psicológica não oferece um resultado exato, ou seja: não se trata uma certeza de que aquele indivíduo avaliado não irá apresentar um comportamento violento no futuro. Ela avalia principalmente características de comportamento, temperamento, traços de personalidade que podem oferecer pistas sobre a agressividade; o controle dos impulsos; o exibicionismo; em geral: a tendência de algum indivíduo apresentar respostas favoráveis ou desfavoráveis ao que é esperado dele ao possuir uma arma de fogo. É também possível perceber quais mecanismos de defesa podem ou não ser utilizados numa possível tentativa de alguém omitir ou mentir algumas características de si mesmo para manipular um resultado desejado.

Ainda nas disposições da Lei 10.825/2003 fica especificado que apenas psicólogos credenciados à Policia Federal poderão realizar tal avaliação (Caso você seja um psicólogo e deseja saber como realizar o cadastro, clique aqui e seja direcionado ao site da PF).

Art. 2º A aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo, de que trata o artigo 4º, inciso III, da Lei nº 10.826/2003 e os artigos 12, inciso VII, 36, 37 e 43, todos do Decreto nº 5.123/2004, deverá ser atestada em laudo psicológico conclusivo, conforme modelo do Anexo II, emitido por psicólogo da Polícia Federal ou por esta credenciado.


Instrução Normativa de Psicólogos para Emissão do Laudo de Aptidão Psicológica para manuseio de arma de fogo e para o exercício da profissão de vigilante – Polícia Federal
Logotipo da Polícia Federal no Brasil

Quando fala a respeito da aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo e para o exercício da profissão de vigilante, por exemplo, a Polícia Federal especifica em sua Instrução Normativa que:

  • A comprovação da aptidão psicológica será exigida nos procedimentos de aquisição, registro, renovação de registro, transferência, porte de arma de fogo, credenciamento de armeiros e instrutores de armamento e tiro;
  • A avaliação para a aptidão psicológica deverá ter sido realizada em período não superior a 01 (um) ano do respectivo requerimento;
  • O laudo de que trata o caput deverá considerar o interessado como APTO ou INAPTO para o manuseio de arma de fogo, sem mencionar os nomes dos instrumentos psicológicos utilizados e as características de personalidade aferidas;
  • A bateria de instrumentos de avaliação psicológica utilizados na aferição das características de personalidade e habilidades específicas dos usuários de arma de fogo e dos vigilantes deverá contar com 1 teste projetivo, 1 teste expressivo, 1 teste de memória, 1 teste de atenção difusa e concentrada e 1 entrevista semi-estruturada;
  • Os testes psicológicos utilizados devem ser reconhecidos pelo Conselho Federal de Psicologia

Mais informações no site da da Polícia Federal.

O que torna alguém APTO ou INAPTO ao manuseio de uma arma de fogo?

Os indicadores necessários para o manuseio de uma arma de fogo são múltiplos. Este artigo irá apenas enumerar alguns para fins de elucidação.

Além de funções cognitivas como atenção, concentração e memória, é importante frisar que alguém que irá manusear uma arma de fogo deverá apresentar a capacidade e a salubridade psicológica para exibir:

  • maturidade emocional;
  • habilidade de empatia;
  • bom raciocínio lógico e habilidade de senso crítico na tomada de decisões;
  • flexibilidade e adaptação;
  • capacidade preservada de autocrítica;
  • autoimagem preservada;
  • capacidade preservada de tolerância à frustração;
  • equilíbrio e estabilidade emocional;
  • autoestima preservada;
  • forte tolerância ao estresse;
  • boa capacidade de seguir regras sociais;
  • honestidade, responsabilidade;
  • bom controle dos impulsos; entre outros.

Essas características se fazem importantes pois é avalia-se o papel que a arma de fogo desempenhará na vida de quem a possuir. Alguém que tem, mesmo que não saiba, uma baixa autoestima e um forte desequilíbrio no controle de suas emoções, por exemplo, poderia enxergar a arma de fogo como uma forma de compensação por suas incapacidades – sendo uma pessoa mais propensa a sacá-la e/ou dispará-la perante alguma frustração e/ou provocação. Assim como alguém que não possua uma boa habilidade de concentração, de exercer seu raciocínio lógico e seu senso crítico na hora da tomada de decisões, poderá reagir de maneira indevida a uma situação onde o uso da arma, ao contrário do exemplo anterior, se faria necessário.

O que poderia restringir o acesso de um indivíduo às armas de fogo?

Alguém que irá possuir e/ou manusear uma arma de fogo deverá estar livre das seguintes possibilidades:

  • cometer um homicídio – salvo em casos onde é comprovada a legítima defesa;
  • cometer um suicídio;
  • cometer imprudências que resultem nos dois itens acima (disparo acidental, disparo indevido, facilitar o acesso a pessoas inaptas a manusear uma arma de fogo).

É esperado que a pessoa que utilize a arma de fogo cause o menor dano possível, sempre priorizando a imobilização ao uso de força letal.

Naturalmente é importante que esta pessoa não sofra de algum grave transtorno de humor (depressão, transtorno afetivo bipolar, mania, transtorno esquizoafetivo, etc), de algum transtorno somatoforme (Transtorno Dismórfico Corporal, Transtorno Hipocondríaco, etc), de algum transtorno psicótico (Esquizofrenia, Transtorno Delirante) e também transtornos de personalidade Borderline, Antissocial (psicopatia/sociopatia), etc. Entre outros aspectos, podemos enumerar:

  • transtornos mentais causados por uma condição médica geral;
  • transtornos mentais causados por uso de substância;
  • dependência de substâncias;
  • transtornos severos de ansiedade;
  • fanatismo e preconceito;
  • traços sádicos de personalidade;
  • indícios de comportamento suicida;
  • traços acentuados de descontrole e/ou agressividade;
  • comprometimento das funções cognitivas; entre outros;
  • indícios de volubilidade, influenciabilidade, insegurança, irritabilidade, negativismo, obsessividade, exibicionismo, forte competitividade, indecisão, instabilidade, imaturidade, explosibilidade, imprevisibilidade, hostilidade, etc.

É claro que outros pontos que serão avaliados, mas aqui estão enumerados alguns dos principais aspectos a partir de uma entrevista semi-estruturada e a aplicação de testes projetivos, expressivos, de memória, atenção e concentração. Novamente: as observações do profissional qualificado excederão apenas os relatos verbais dos indivíduos, evitando e evidenciando a possibilidade de omissão e/ou mentira, caso haja alguma tentativa do avaliado de condicionar o resultado àquilo que deseja. Exatamente por este motivo que há o uso de entrevista semi-estruturada, teste (s) expressivo (s) e teste (s) projetivo (s) na hora de avaliar a personalidade.

Considerações Finais

Uma avaliação psicológica deverá seguir todos os critérios estabelecidos pelo Conselho Federal de Psicologia e ocorrer dentro das Leis e diretrizes estabelecidas pelos órgãos responsáveis pela concessão do registro e/ou porte de armas de fogo no Brasil.

O Avaliado deverá mostrar sinais de que tem condições mentais para que nele seja suposta uma conduta exemplar caso possua uma arma de fogo. Não deverá ser portador de nenhum transtorno mental grave e seu conjunto de traços de personalidade deverão ser medidos a partir de instrumentos de avaliação (testes psicológicos e entrevistas) apropriados para a solicitação em questão.

Entretanto é importante frisar que, mesmo indivíduos considerados aptos ao manuseio de uma arma de fogo em um avaliação psicológica, como é o caso de policiais, guardas civis, vigilantes e instrutores de tiro, já foram acusados, condenados e envolvidos em crimes, acidentes e violência envolvendo armas de fogo. Este fato jamais retira a credibilidade de uma boa avaliação psicológica, mas reforça que ela é, apesar de sua abrangência, apenas mais uma forma de prevenção necessária antes de garantir a alguém o acesso a um bem que pode ser mortal a si ou às pessoas próximas.

A avaliação observa tendências e traços de um indivíduo em um dado momento de sua vida. Mas a mente humana ainda é considerada imprevisível, principalmente em situações de grande estresse emocional.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo.

Referências (em ordem e estilo livre):

PASSOS, Gilson & PASSOS Ludmila. O Perfil do Vigilante A Partir de uma Análise de Função. Gráfica e Papelaria Distrital Ltda. Brasília, 1994.

American Psychiatric Association (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition. Arlinton, VA: American Psychiatric Association.

Classificação Brasileira de Ocupações. Disponível em: http://www.mtecbo.gov.br. Acesso em 02/10/2013 (conforme utilizada pela Polícia Federal no link: http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/credenciamento-psicologos/instrucao-normativa_78_10defevereiro2014-1.pdf)

Resolução CFP 08/2018. Link para Acesso: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2008/12/resolucao2008_18.pdf

LEI No 10.826, DE 22 DE DEZEMBRO DE 2003. 
Link para acesso:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.826.htm

RESOLUÇÃO CFP N.º 007/2003
Link para acesso: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2003/06/resolucao2003_7.pdf

MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA. DEPARTAMENTO DE POLÍCIA FEDERAL. DIRETORIA DE COMBATE AO TRÁFICO ILÍCITO DE ARMAS. NÚCLEO DE CONTROLE DE INSTRUTORES DE TIRO, ARMEIROS E PSICÓLOGOS. RECOMENDAÇÕES AOS PSICÓLOGOS CREDENCIADOS.
Link para acesso: http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/credenciamento-psicologos/recomendacoes_psicologos_novo.pdf

Instrução Normativa n. 78/2014 – Publicada no D.O.U. 05/03/2014; Estabelece procedimentos para o credenciamento, fiscalização da aplicação e correção dos exames psicológicos realizados por psicólogos credenciados, responsáveis pela expedição do laudo que ateste a aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo e para exercer a profissão de vigilante.
Disponível para download em: http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/credenciamento-psicologos/psicologos-crediciados/IN%2078-2014.docx/view

 

 

 

 

Tudo Sobre Terapia Online: Como Funciona? Prós e Contras; Como se Cadastrar? Passo a Passo com Fotos.

Nova Resolução do Conselho Federal de Psicologia

Resolução 11/2018

Recentemente houve uma atualização sobre o que é ou não permitido a respeito do atendimento psicológico online ou, para quem preferir: a terapia mediada por tecnologias. O serviço, que é permitido desde 2012, passou por uma regulamentação mais moderna, com o objetivo de adequar a prática da psicologia à nossa Sociedade atual, que vive na Revolução Tecnológica 4.0.

A Resolução Nº11, de 11 de maio de 2018 entrou em vigor após 180 dias de sua publicação. Nela, considerou-se como “meios tecnológicos de informação e comunicaçãocelulares, tablets, SmarTV’s, websites, aplicativos e plataformas digitais; em suma: “qualquer outro modo de interação que possa vir a ser implementado e que atenda ao objeto da Resolução”. A crescente demanda pelo atendimento psicológico online, inegavelmente, aparenta ter tido uma grande influência sobre a Nova Resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

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Em novembro de 2018 a Resolução nº11/2018, publicada pelo CFP, entrou em vigor. E junto dela, uma série de adequações e atualizações na norma vigente sobre Atendimento Psicológico Online. Sem dúvidas, é uma portaria que abre caminhos para o futuro da ciência e profissão dos psicólogos, mas que também não deixa de ser alvo de muitas polêmicas e discussões entre profissionais e setores específicos. Mas e agora, o que muda? O que é proibido? Como eu faço para atender, supervisionar e/ou ser/supervisionado por meio de tecnologias? Quais programas são recomendados? Existem riscos? Qual atendimento é melhor: online ou presencial?

A Sociedade dos Psicólogos preparou este artigo especial para tentar sanar todas as dúvidas envolvidas nesta nova Resolução: acompanhe!

O Que Mudou?


O Início

Um dos grandes precedentes para que as novas tecnologias começassem a fazer parte da Psicologia no Brasil foi a Resolução CFP N° 010/97, que regulamentou a divulgação publicitária dos serviços de psicologia através dos meios de comunicação. Alguns anos mais tarde, em 2000 e 2005 “o atendimento psicológico mediado por computador” passou a ser permitido. Contudo, este só poderia ser praticado para fins de pesquisa, sem que o psicólogo recebesse honorários – em caráter estritamente experimental.

Como era até a chegada desta nova Resolução?

Finalmente, em 2012, através da Resolução nº 011/2012 os psicólogos passaram a poder realizar Orientação Psicológica através de plataformas online, que era caracterizada por “até 20 encontros ou contatos virtuais” e poderiam acontecer também os Processos Seletivos, Supervisões do Trabalho dos Psicólogos e o Atendimento Eventual de clientes em trânsito ou com dificuldades ou impossibilidades de mobilidade.

Todavia, a principal discussão era sobre uma especificidade desta Resolução que determinava que a plataforma utilizada (site que garantiria acesso ao atendimento) deveria obter uma autorização dos Conselhos Regionais de Psicologia em que o profissional estivesse inscrito. A partir daí, tais autorizações aconteceriam mediante a solicitação de um cadastro e uma espera de até 60 dias para a análise que emitiria um parecer favorável ou não. Somente após a autorização do site que o profissional poderia efetuar seus atendimentos.


Como Ficou?

Na Resolução CFP 11/2018, os psicólogos agora contam com apoio jurídico através do Marco Civil da Internet desde 2014, que estabelece direitos, garantias legais e deveres para o uso da Internet no Brasil. E a importância disso reside na preservação do sigilo profissional, que poderia ficar comprometido ou até ameaçado, sem sequer oferecer punições a quem oferecesse danos ao mesmo – caso a internet continuasse, como no início, sendo uma espécie de Terra sem Lei.



(Imagem: Uma breve explicação sobre o Marco Civil da Internet)

Resolução CFP 11/2018

A nova resolução encontrou respaldo Legal para que um dos pilares mais importantes da Psicologia fosse preservado: o sigilo. Além disso, um conjunto de garantias, deveres e direitos também fazem parte daquilo que garantirá o exercício do profissional da psicologia através da internet. A inexistência de disposições deste tipo em 2012, quando a antiga Resolução havia sido disposta, também pareceu mostrar-se uma das inseguranças a respeito do tema à época.

Sendo assim, a partir de agora, desde que não firam as disposições do Código de Ética do Profissional Psicólogo, será possível realizar:

  1. As consultas e/ou atendimentos psicológicos de múltiplos tipos;

  2. Os processos de Seleção de Pessoal;

  3. A Utilização de Instrumentos psicológicos e testes que obtenham parecer favorável do Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos (SATEPSI);

  4. A Supervisão técnica dos serviços prestados pelos (as) profissionais da psicologia em setores de atuação diversos.

Contudo, ainda será necessária a realização de um Cadastro Nacional Individual, atualizado anualmente, para que haja a autorização de atuação no ambiente virtual. Se o cadastro for aprovado, caberá à psicóloga ou ao psicólogo a responsabilidade técnica e ética a respeito do serviço que irá prestar. O profissional e seu supervisor (se houver) serão os únicos responsáveis pela avaliação daquilo que cabe ou não à modalidade online de atendimento. Com exceção, é claro, daquilo já dito como vedado na Resolução 11/2018, que será explicado adiante.

O que Será Proibido?

Neste novo modelo de setting terapêutico, as psicólogas e psicólogos deverão se atentar aos possíveis descuidos e infrações à ética e à técnica – que já previstos pelo CFP como essenciais para o funcionamento deste novo modelo. Ainda assim, consideramos importante uma explanação daquilo que é vedado aos profissionais que realizarão atendimento virtual, ou seja, não será permitido:

  1. Realizar atendimento por meios tecnológicos de comunicação sem o cadastramento no CRP local;

  2. Manter o Cadastro desatualizado e/ou irregular perante o CFP;

  3. Realizar o atendimento virtual de crianças e/ou adolescentes sem a autorização dos pais ou responsáveis legais;

  4. O atendimento de pessoas e grupos em situação de emergência e desastres pelos meios de tecnologia, sendo este aquele que deverá ser sempre executado de forma presencial;

  5. O atendimento de pessoas e grupos em situação de violação de direitos ou de violência, devendo este também ser realizado de forma presencial;

  6. Desrespeitar as especificidades e adequação dos métodos e instrumentos utilizados em relação às pessoas com deficiência na forma da legislação vigente.

O que Dizem os Profissionais da Área?

Atendimento Psicológico, Orientação Vocacional, Seleção de Pessoal, Avaliação Psicológica com ou sem Instrumentação. Estes são alguns dos principais serviços que poderão ser oferecidos através de plataformas virtuais por psicólogos de todo o Brasil.

Numa tradição das ciências humanas, a psicologia segue o padrão de evitar grandes consensos teóricos a respeito de suas principais linhas de pensamento. Há até certa rivalidade entre linhas mais opostas como, por exemplo, Behaviorismo e Psicanálise. Não poderia ser diferente à respeito dos atendimentos à distância. A polêmica envolve considerações com conteúdo deveras pertinente a favor ou contrário à Nova Resolução.

Para este artigo, alguns profissionais foram consultados a respeito de suas visões a respeito do assunto.

Bruno de Brito

Quando perguntado, o psicólogo Bruno Davidson de Brito comparou a terapia mediada por tecnologias às modalidades de Ensino à Distância (EAD):

“São até boas como complemento, mas nunca poderão substituir a lição presencial, pois existe algo mais que o conteúdo. Não é qualquer caso que pode ser atendido online. Existe a relação aluno e mestre. Do mesmo modo existe toda essa relação paciente e analista […] contudo, a demanda de tempo e as relações superficiais contemporâneas fazem com que o atendimento online seja preferido”.

Bruno Davison de Brito Psicólogo

Bruno de Brito (CRP 06/141245)

O entrevistado, que também é colunista da Sociedade dos Psicólogos, acredita que esta modalidade de atendimento seja válida para psicodiagnósticos ou intervenções menos complexas. Entretanto, o profissional ressalta que o atendimento online “nunca poderia substituir o atendimento face a face”.

Bruno é profissional atuante na psicologia clínica e sua especialização em Semiótica Psicanalítica – Clínica da Cultura, na PUC-SP se soma também à vivência que a psicologia pôde lhe proporcionar através dos trabalhos que realizava no Poder Judiciário.

As Tecnologias

Não é incomum percebermos crianças, adolescentes, adultos e até idosos utilizando tablets, celulares e (cada vez menos) computadores em todos os lugares. A pergunta que fica é: por que não no consultório? Se durante décadas as modalidades técnicas e estruturais da psicologia sofreram mudanças constantes, seria esta mais uma que chegou para ficar?

Caio Ferreira

O que afirma Caio Ferreira, psicólogo especialista em comportamento não-verbal. Segundo ele, a psicologia não poderia ficar de fora de um “mundo conectado” onde a internet passa a fazer parte da vida das pessoas com uma intensidade cada vez maior. Fundador do Centro de Investigação do Comportamento das Emoções (CICEM) , o psicólogo afirma que “o saber psicológico é vivo, bem como a sua clínica” e que, assim como ocorrera no passado com os testes psicológicos, “haverá, em breve, com o acúmulo de experiências clínicas e pesquisas específicas, desenvolvidas, alguma mudança e/ou estabelecimento de novos paradigmas naquilo que diz respeito à psicoterapia à distância”.

Contudo, há também uma ressalva do também Co-Fundador da Sociedade dos Psicólogos:

É razoável pensar que estamos pisando em ovos, sendo que algumas problemáticas e cautelas iniciais são óbvias, como a questão do sigilo e do controle do setting terapêutico à distância, ou na limitação de um atendimento infantil, onde muitas vezes recursos lúdicos concretos fazem parte do trabalho, ou na própria percepção do corpo e das reações do cliente/paciente. Mas também é razoável pensar que estamos pisando em um terreno de possibilidades, descobertas e expansões da psicologia”.

Caio Ferreira
Caio Ferreira (CRP 06/147859)

De toda e qualquer forma, as discussões são riquíssimas para conhecermos cada vez mais sobre esta nova modalidade. Entretanto, se engana quem acredita que bastará apenas iniciar o atendimento de uma hora para a outra. O Cadastro necessário envolve a checagem do registro nos Conselhos Regionais e no Conselho Federal, bem como acontece apenas mediante aprovação.

Igor Banin

O que afirma Igor Banin, psicólogo, psicanalista e co-fundador da Sociedade dos Psicólogos é que apesar do fato de que “o atendimento psicológico/psicanalítico online configura uma modalidade nova, e talvez um pouco estranha à comunidade Psi de modo geral”, haja um conjunto de benefícios que se ligam à abrangência do número de pessoas que obterão tratamento através da escuta. O psicanalista acredita que a principal vantagem do atendimento online é de fato esta abrangência, que permite que mais pessoas sejam ajudadas de diferentes lugares.

Igor, que já atende alguns pacientes por videoconferência diz que, sempre que pode, procura realizar algumas sessões em seu consultório, localizado na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo. Ele ainda afirma que há casos em que, de maneira agendada, os atendimentos também podem ocorrer de forma alternada: “uma vez no mês nos vemos presencialmente, e as demais, via web”.

Igor Banin é Psicólogo (CRP 06/135177) Psicanalista e Membro Fundador da Sociedade dos Psicólogos.

Apesar de afirmar que ainda haja a necessidade de discussões sobre as técnicas quem envolvem o antedimento online especificamente, Banin afirma que o próprio tempo de deslocamento elevado, hoje uma realidade nos grandes centros urbanos, pode ser uma outra condição que aumente a demanda dos atendimentos virtuais. O psicanalista ainda arrisca um palpite, levando em consideração a crescente demanda pelos serviços de saúde através da tela: “Algum dia, talvez, uma ligação pelo Skype será a única forma de se consultar com um oftalmologista, por exemplo”.

Contudo, há uma ressalva do também Co-Fundador da Sociedade dos Psicólogos:

Naturalmente, o aspecto técnico da Psicanálise frente à essa novidade ainda carece de pesquisa e discussão. Se a resistência é maior em atendimentos desse tipo, se isso influencia no estabelecimento ou não da transferência.

A Sociedade dos Psicólogos criou um passo-a-passo em imagens colhidas diretamente do portal oficial e-Psi.

Como Realizar o Cadastro? Passo a Passo.

Acesse o Site

Para que o profissional se enquadre no Novo Modelo de exigências do CFP para Atendimento Online, o profissional deverá acessar o site https://e-psi.cfp.org.br/

Cadastre-se

Assim que o link for acessado será possível visualizar uma página idêntica à da imagem a seguir, podendo verificar quais profissionais estão cadastrados no portal. Mas para que o profissional inicie a primeira etapa para se adequar à Nova Resolução, deverá clicar em “Cadastre-se“:

Apresentação1

Inscreva-se

Em seguida, você será direcionado a uma página que dará início ao seu processo de inscrição. Conforme apontado na imagem abaixo, você deverá clicar em “Inscreva-se Agora”

Apresentação2

Encontrar Registro

Para que o Sistema encontre o profissional que está registrado em um dos Conselhos Regionais de Psicologia, será necessário digitar o CPF do psicólogo e selecionar a qual Conselho Regional este está associado. Ex: CPF: 123.456.789-00 CRP 6ª Região (São Paulo) e em seguida clicar em “Encontrar” vide imagem abaixo:

Apresentação3

Verifique e Confirme sua Identidade – CONFIRMAÇÃO POSITIVA

Em seguida, para fins de verificação e confirmação de identidade, o profissional deverá responder algumas perguntas referentes a seus dados pessoais, de acordo com que foi o informado ao solicitar o Registro e a Carteira de Identidade Profissional na sede do Conselho Regional de Psicologia (CRP) em sua cidade. Selecionando as informações corretas, clique em “CONFIRMAR”.

Apresentação4

Crie seu Usuário

Após confirmar algumas informações de acordo com o que consta em sua Carteira de Identificação Profissional, você deverá criar um nome de usuário que ainda não exista no banco de dados do Portal e-Psi e verificar se o e-mail ali apresentado está de acordo com o seu atual.

Observe na imagem:

PASSO A PASSO EPSI

É importante lembrar: caso você não tenha mais acesso ao endereço de e-mail informado ao Órgão do Conselho Regional, será necessário realizar uma atualização cadastral no mesmo.

Verifique seu Email

Assim que você inserir um Nome de Usuário que seja válido, você deverá visualizar a seguinte página:

Apresentação5

Neste momento, você deverá acessar seu e-mail cadastrado e lá verificar um e-mail parecido com este abaixo:

PASSO A PASSO EPSeeredsdsdsdsdsdsdsdsdsdseI

Confirme o Usuário

Clique em Confirmar usuário

Após a Confirmação, aparecerá uma tela com as suas informações de login e senha. Guarde sua senha em um local seguro para poder acessar o portal.

A seguir, clique em ENTRAR

Acesse sua Conta

Você será direcionado a uma página do CFP que exigirá seu Nome de Usuário e Senha previamente cadastrados:

PASSO A PAddddI

Insira seu Usuário e Senha e clique em Acessar. Você será direcionado para o Painel da (o) Psicóloga (o).

Painel da (o) Psicólogo

revisado

Clique em Histórico de Cadastro.

Novo Cadastro

revisado 2

Você irá visualizar uma mensagem dizendo “Aviso: Você ainda não possui um cadastro.”, clique em + NOVO CADASTRO.

Confirme seus Dados Cadastrais

PASSO A PASSO EPSwwwI

Verifique e confirme as suas informações e caso estas não estejam de acordo com a realidade, procure o Conselho Regional de Psicologia em sua cidade.

Em seguida, clique em CONTINUAR.

Especifique suas Atividades

Agora você deverá selecionar quais tecnologias, dispositivos e (se houver) aplicativos irá utilizar na nova modalidade de atendimento. Você também irá informar quais serviços irá oferecer e qual público irá atender.

Apresentação13

Apresentação14

Após selecionar tudo, clique em CONTINUAR.

Proposta de Prestação de Serviços

Após terminar os passos anteriores, você será direcionado a esta página que irá solicitar que você correlacione os aspectos dos serviços oferecidos, dos recursos tecnológicos e do público alvo selecionado, justificando tal compatibilidade.

Em seguida, você deverá dizer como e por quê a plataforma que você irá proteger o sigilo de seus atendimentos. Observe a imagem.

Apresentação15

Clique em SALVAR.

Leia e Aceite o Termo de Orientação e Declaração para Prestação de Serviços Psicológicos por Meio de Tecnologias da Informação e da Comunicação.

O termo poderá ser checado na íntegra Clicando Aqui.

Apresentação16

Após realizar o cadastro, os seguintes itens deverão ser lidos e, caso o profissional concorde e queira prosseguir, deverá clicar em “Concordo”.

Revisar Cadastro

Em seguida, verifique mais uma vez todos os seus dados.

Apresentação17

Confirme e Envie para a Avaliação do CFP

Por fim, após verificar a veracidade e a acuracidade de todas as informações, é o momento de CONFIRMAR E ENVIAR PARA AVALIAÇÃO, conforme a imagem.

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Após realizar tal passo a seguinte tela irá aparecer para você:

Apresentação19

Isso significa que tudo foi um sucesso. Agora você deverá aguardar a resposta do CFP a respeito de seu cadastro.

Cadastro Submetido com Sucesso

Para ter certeza de que seu cadastro foi enviado corretamente, você poderá checar no Histórico de Cadastro se aparece algo semelhante à imagem a seguir:

submetido

Aguarde a Avaliação pelo seu Conselho Regional de Psicologia

Agora que seu cadastro foi enviado, ele será avaliado pelas partes competentes. Você poderá verificar o status de sua solicitação realizando Login neste mesmo portal ou aguardar a notificação que você receberá por e-mail.

SOLICITAÇÃO

Caso tenha alguma dificuldade, o próprio CFP disponibiliza um tutorial em vídeo, podendo ser acompanhado a seguir:

https://www.youtube.com/watch?v=9XbuX4GQnas&feature=youtu.be

Cadastro Realizado

Assim que seu cadastro for aprovado, você poderá iniciar seus atendimentos utilizando as plataformas de sua preferência. Alguns profissionais utilizam o próprio site, alguns sites oferecem suas próprias plataformas mediante assinatura, bem como há a possibilidade do uso de aplicativos.

Mas cuidado: Programas como o Skype, por exemplo, podem utilizar partes das conversas para agregar a seu banco de dados informações sobre os usuários. Fique atento aos Termos e Condições de Uso e às Políticas de Privacidade das plataformas que utilizar.

Um bom trabalho a todos!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo.

REFERÊNCIAS:

Resolução CFP N° 010/97 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 003/2000 – Disponível Aqui

Resolução CFP N° 012/2005 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 011/2012 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 11/2018 – Disponível Aqui

Lei Nº 12.965, de 23 de Abril de 2014 – Disponível Aqui

Revista CRP-SP nº 194. pp 6-7. • Novembro | Dezembro | Janeiro • 2018/2019. – Disponível Aqui

O Tempo Lógico de Lacan e os Três Tempos do Sujeito.

T E M P O

Bom dia, Boa Tarde, Boa Noite. No artigo de hoje, que pode terminar de ser lido amanhã, bem como poderá lembrar de algo lido no dia ontem, falaremos sobre um assunto atemporal. Falaremos sobre a lógica do tempo. E não será incorreto dizer que também falaremos sobre o tempo da lógica. Está confuso? Calma, há tempo de finalizar esta leitura, espero, entenderá.

Em Pleno Século XX e, sem vergonha alguma, também no século XXI, uma frase ficou muito famosa: Time is Money – Tempo é Dinheiro. E, se deixarmos as críticas a um certo sistema econômico de lado, poderemos nos adentrar mais ao seu conteúdo e buscar uma influência dele na subjetividade alheia. Nela – e aqui eu começo com meus julgamentos apressados, estejam à vontade para embasar sua censura posterior – o $ujeito se torna um mero agente transformador, aquele único responsável por transformar o intervalo de sua existência, a vírgula que separa seu nascimento de sua morte, na maior matéria de troca simbólica já inventada pelo homem. Seria uma troca justa?

Difícil saber sem conhecer todos os sujeitos, mas o foco aqui é Outro. Quando falamos sobre o tempo em si, podemos lembrar desde os filmes sobre viagem no tempo, as teorias da conspiração, teorias científicas pautadas no assunto e muitas outras relações sobre ele no dia-a-dia. Mas, como um psicanalista, Jacques Lacan resolveu estudar seus efeitos nas relações subjetivas. Mais do que isso: o aplicou à própria relação estabelecida com a lógica.

A relação do psicanalista com o tempo fica famosa nas sessões de 500 euros que duravam cerca de 20 minutos. O que poderia ser um ultraje para alguns, se tornava uma maneira de forçar o paciente a expulsar suas falas defensivas durante as sessões, para outros. Se era algo antiético a alguém que solicita cuidado para alguns autores, era uma maneira de fazer com que o paciente elaborasse aquele último assunto abordado em casa, no trabalho e em seus relacionamentos, sem que este tivesse tempo de se defender das intervenções. E a discussão é extensa.

A tentativa deste artigo será de falar um pouco mais sobre o conceito, deixando aos próprios leitores as conclusões múltiplas que lhes vierem. A única sugestão mandatária aqui é a do gozo de uma excelente trilha sonora que já irá falar sobre o assunto. Não podendo começar por Outra, comecemos a leitura deste artigo com uma música homônimamente apropriada.

O Autor

Jacques Lacan é, quando não o mais, um dos mais polêmicos psicanalistas que tivemos em existência. Não é difícil, se estamos entrando no universo psicanalítico, ouvirmos certas reservas à não ortodoxia nos métodos e, principalmente, na escrita e na fala de Lacan. Ouço, frequentemente, colegas se queixando da dificuldade na leitura dos Seminários, o que é entendível, uma vez que são transcrições daquilo falado; mas não é raro quem tenha dificuldade na leitura dos Escritos. E me sobraria arrogância se não me incluísse neste grupo. Lacan tinha uma forma própria de escrever, onde é necessário conter a ansiedade, respeitar cada artigo, cada vírgula, cada frase dita anteriormente; será necessário trocar a voz ativa pela voz passiva, respeitar aquela crase que foi inserida e principalmente o Tempo Verbal empregado. Lê-se uma frase que somente fará sentido no final daquele parágrafo, pregando uma peça no leitor ansioso. Faz-se uma referência àquele assunto anteriormente citado com uma vírgula ou uma crase no meio do assunto atual, o que confunde o leitor obsessivo por estrutura; alguns parágrafos demandam uma extensa repetição da leitura (e da releitura). Mais ainda: seu entendimento sobre um mesmo assunto pode até mudar de acordo com o avanço da própria análise.

É polêmico indagar se o autor fazia tudo isso propositalmente, mas ele, conservando a tradição, nos deixa na dúvida quando fala que o entendimento de seus textos estava longe de ser o seu objetivo. A polêmica já começa em uma indagação básica: que tipo de autor que escreve para não ser entendido? E isso foi dito pelo pelo próprio Lacan:

“Alguma coisa que é
característica de meus
Escritos é que não os escrevi para que se os compreendesse, eu os escrevi para que se os lesse”.

Jacques Lacan, 1974.
E é de um texto, escrito em 1945, contido neste próprio livro – Escritos (LACAN, 1998) – que o artigo a seguir tentará se basear:
O Tempo Lógico e a Asserção de Certeza Antecipada
Um novo sofisma (LACAN, 1998)

Um Problema de Lógica

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Ao início deste capítulo, Lacan apresenta um problema de lógica que serviu de base para o discorrer de toda a sua argumentação. A partir deste exemplo, haverá por Lacan uma leitura sobre as formas com que a lógica é empregada entre a apresentação do problema e sua solução encontrada. Confira:

A Lógica dos Três Prisioneiros

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O Diretor de um presídio faz com que três prisioneiros compareçam em um local de sua preferência e lhes oferece uma oferta irrefutável: A Liberdade, mas através da Lógica. Lacan não consegue deixar de estender isso à sua concepção subjetiva, e antes de utilizá-lo para aplicar essa utilização lógica em sua teoria sobre os sujeitos, retrata o caso em seu livro (LACAN, 1998), abrindo aspas à fala do Diretor:

“Por razões que não lhes tenho de relatar agora,
devo libertar um de vocês.
Para decidir qual, entrego a sorte a uma prova pela
qual terão de passar, se estiverem de acordo.”

“Vocês são três aqui presentes. Aqui estão cinco discos que
só diferem por sua cor: três são brancos e dois são pretos.
Sem dar a conhecer qual deles terei escolhido, prenderei
em cada um de vocês um desses discos nas costas, isto é,
fora do alcance direto do olhar; qualquer possibilidade
indireta de atingi-lo pela visão está igualmente excluída
pela ausência aqui de qualquer meio de se mirá-los”.

“A partir daí, estarão à vontade para examinar seus companheiros
e os discos de que cada um deles se mostrará portador
sem que lhes seja permitido, naturalmente, comunicar uns aos
outros o resultado da inspeção. O que, aliás, o simples interesse
de vocês os impediria de fazer. Pois o primeiro que puder deduzir
sua própria cor é quem deverá se beneficiar da medida liberatória
de que dispomos”.

“Será preciso ainda que sua conclusão seja fundamentada em
motivos de lógica, e não apenas de probabilidade. Para esse fim,
fica convencionado que, tão logo um de vocês esteja pronto a
formulá-la, ele transporá esta porta, a fim de que, chamado à
parte, seja julgado por sua resposta.”

Após a proposta ser aceita, cada um dos prisioneiros recebe o disco prometido. Entretanto, a exigência do uso da lógica não foi mera coincidência. O desafio foi aceito pelos presos sabendo da existência de três discos brancos e dois discos negros, talvez tivesse lhes parecido tarefa fácil realizar sua missão de adivinhar aquele que está consigo. O detalhe que torna a liberdade, nosso bem mais precioso, não tão fácil assim, é que: sem poder olhar o próprio disco, sem poder se comunicar com o Outro que partilha desta mesma ignorância a respeito de si, mas também partilha do conhecimento sobre o disco do semelhante, o que não se imaginava era que todos os detentos receberiam discos brancos.

O que o diretor não esperava, decerto, era que, após algum tempo de hesitação e pensamento: Os três sujeitos dão juntos alguns passos que o levam, simultaneamente, a cruzar a porta. Separadamente, eles se justificam da mesma maneira:

“Sou branco, e eis como sei disso.
Dado que meus companheiros eram brancos,
achei que, se eu fosse preto, cada um deles poderia ter inferido o seguinte:
Se eu também fosse preto, o outro, devendo reconhecer imediatamente que era branco, teria saído na mesma hora, logo, não sou preto.’

E os dois teriam saído juntos, convencidos de ser brancos.

Se não estavam fazendo nada, é que eu era branco como eles.
Ao que saí porta afora, para dar a conhecer minha conclusão.”

Mais intrigante: os três realizaram, ao mesmo tempo, o mesmo exercício do pensamento lógico. E é isso que serviria de base para Lacan explanar suas ideias.

Qual é a Lógica?

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Quando Lacan foca seu olhar no valor lógico da solução apresentada, ele a classifica como um “exemplo significativo para resolver problemas de uma função lógica no momento histórico em que seu problema se apresenta ao exame filosófico” (LACAN, 1998).

Fica mais fácil o entendimento se estiver ouvindo uma música:

Quando procura entender o pensamento lógico empregado por cada um dos detendos, Lacan se encontra em observar o ponto de vista exclusivo de um deles. Chamando-o de A, enquanto os outros dois teriam o nome de B e C.

E aqui espera-se que, quando A enxerga os outros dois portando discos brancos, na adoção da lógica clássica, convencional, sua primeira conclusão seria a de que ele só poderia portar um disco preto. Caberia ao detendo, não podendo perder tempo, correr e informar que, se vê dois que são brancos, ele só poderia ser, pela lógica, aquele que é visto como preto. Uma visão um tanto binária, um tanto imediatista, se pudermos aqui opinar. É, naturalmente, a primeira que nos vêm à cabeça. Não era preciso se aprofundar mais do que isso. Estava óbvio! “Se dois eram brancos, e aqui devo usar a lógica, é por ela que concluo que o terceiro deverá ser preto!”

Mas sabemos que para se tornar um ex-detento, o próprio agiu de forma diferente àquela empregada na hora de cometer seus crimes: ele deteve seus impulsos imediatos, ele se colocou no lugar dos outros e tentou entender como funcionariam seus pensamentos.

É Preciso Considerar os Tons de Cinza

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Nem tudo é apenas Preto ou Branco. Para Lacan, o ato final de se declararem todos brancos, teria a seguinte estrutura no pensamento de A: “Devo estabelecer minha dedução com base na conduta dos outros dois”. E enquanto A espera o movimento ou não dos outros dois, realiza um exercício de empatia notável ao pensar: “No que B e C se baseariam?”, e é assim que ele entende que eles se baseariam exatamente na causalidade mútua de suas condutas e condições. Ou melhor: se o movimento de B depende daquele realizado por C e vice-versa, a inércia de ambos somente poderia ser um resultado do que vêem na cor de A?

É a partir desta indagação que nosso inteligente prisioneiro faz algo que falta muito nos dias de hoje: ele começa a questionar sua própria certeza. Se, por um momento, ele acreditou ser o portador do disco preto, o que isso implicaria àqueles outros dois que ele, diferentemente dos mesmos, vê que estão com os discos brancos nas costas? O que eles fariam, ou melhor, o que eles fariam e pensariam, caso ele realmente estivesse correto em sua lógica imediatista e, de fato, estivesse ele mesmo com o disco preto?

Entretanto, abro um parênteses para dizer que considero importantíssimo, visto que deve ter estar finda a anterior, que mais uma música relacionada ao tempo esteja disponível aos sentidos dos leitores e das leitoras aqui deste artigo.

Moções Suspensas

E esta transição da primeira suposição de A até à chegada de sua conclusão final, começaria a partir daquilo que Lacan vai postular como uma Moção Suspensa. Uma espécie de verificação das possibilidades hipotéticas não partindo delas em si mesmas, mas dos fatos que fariam parte de sua ambiguidade. Estas seriam guiadas por aquele pensamento que não dependeria exclusivamente da experiência externa dos sujeitos, de uma forma pura da lógica que conhecemos. Poderíamos vê-las como uma espécie de fuga do hábito de focar naquele formalismo como ótica principal para se enxergar as coisas e como forma oficial de se empregar a lógica sobre elas – a partir de sua mera ordem cronológica, objetiva (focada no externo, nos objetos), espacial e contínua. É como se transpuséssemos o emprego da lógica daquilo que imediatamente nos é possível visualizar, pensar, fazer e sentir para um outro momento do tempo, em uma outra situação do espaço, que apenas existem em forma de possibilidade. É como se encontrássemos uma maneira de subverter o emprego da lógica, exatamente para que, paradoxalmente, facilitemos a sua própria aplicação. Seu foco não estaria naquilo visível aos sujeitos, mas exatamente naquilo que só poderá ser entendido a partir do invisível. Ao invés daquele congelamento a partir das impossibilidades lógicas predeterminadas pela falta de um elemento crucial à sua resolução, busca-se combinações possíveis em três tempos de possibilidade. E por mais que este conceito vos possa parecer confuso, é esperado que vá ficando de mais fácil compreensão ao longo desta leitura.

Por exemplo, se considerarmos que a realidade à qual os prisioneiros foram inseridos ali fora previamente pensada, cuidadosamente elaborada para estimular respostas que seriam previsíveis àquelas condições, é possível obtermos algumas conclusões do que se esperava estimular e para quê. Por exemplo, o fato de que há três prisioneiros e apenas aquele que der a resposta correta primeiro ganhará sua liberdade, pode ser uma conjectura previamente imaginada pelo criador daquele desafio: justamente para que assim induzisse aos ex-condenados um sentimento específico àquele contexto. Qual? A pressa. E talvez houvesse um motivo para isso. O que não era esperado pelo criador seria a astúcia de nossos detentos fazer com que eles pensassem exatamente o que questionaremos a seguir: e se, em um momento de pressa, como neste exemplo, procurássemos descobrir qual influência, qual a função que esta pressa ali implicada teria sobre a nossa percepção das possibilidades lógicas?

A Função da Pressa na Lógica

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Uma resposta possível à tal pergunta, pela parte de Lacan, poderia ser a suposição de que o tempo do presente, o tempo em que estamos agora, e toda a realidade visível apenas a este, se tornem um foco urgente para o emprego de nossa lógica clássica perante aquela pressa que fomos induzidos a sentir. E talvez isso ocorra exatamente porque é este mesmo presente que está em jogo para garantir o futuro tão sonhado, onde haverá liberdade. Mas, ainda na mesma suposição de que é esperado que tenhamos pressa neste presente que nos foi imposto, ainda na mesma suposição de que esta pressa fará parte daquilo foi considerado essencial na elaboração do desafio que garantiria liberdade aos presos, é possível começar a imaginar se haveria nela uma função, como por exemplo: induzir um pensamento, um raciocínio lógico correto do ponto de vista clássico, mas errôneo por contas das variáveis essenciais que ainda não são visíveis à consciência. E talvez este fosse o pensamento que forçosamente apareceria naquele Instante do Olhar, naquelas imediatas conclusões que seriam tiradas a partir da lógica clássica pensamento cartesiano: Vejo dois brancos, logo sou preto. Mas o que não era esperado pelo criador do desafio era que seria entendido pelos próprios detentos, claramente subestimados, que precisariam ir além da lógica clássica, pois “As formas da lógica clássica nunca trazem nada que não possa ser visto de um só golpe” (LACAN, 1998) e sua liberdade talvez não tivesse um preço tão barato.

As moções suspensas poderiam ser aquelas suposições ultra hipotéticas, feitas exatamente para que fugíssemos desta armadilha da lógica puramente objetiva. Então, se é esperado que nós mesmos, no tempo, no espaço e na situação em que estamos inseridos atualmente, tenhamos um pensamento lógico específico que nos induziria a atos específicos, o que poderia o outro, em um tempo, em um espaço e em uma situação que ainda não nos são possíveis de identificar através dos órgãos do sentido em nosso presente (exatamente porque não existe no mundo objetivo, externo, mas apenas no subjetivo, interno – na nossa mente de sujeito), mas são, por exemplo, possibilidades de um futuro imaginado pela nossa capacidade de exercer o pensamento? Seu papel crucial está nos forçarem aplicar a lógica em situações aquém daquelas que estamos enxergando e vivendo no tempo atual.

É como se não seguíssemos aquilo que a pressa teve por função nos induzir a fazer e também como se não ignorássemos a aplicação da lógica exigida no presente, em diferentes instâncias temporais. E se nestas instâncias, onde realizaríamos pequenas paradas em tempos existentes apenas em possibilidade, para a aplicação da lógica em momentos diferentes daquele que nos é apresentado externamente. Desta forma, avaliaríamos a qualidade efetiva de nossas conclusões lógicas imediatas, que talvez precisariam de elementos adicionais que não existem na realidade apresentada. E estes seriam os próprios elementos faltantes à sua possibilidade de verificação. Este seria um processo que talvez faça com que seja possível aplicar a lógica em diferentes tempos de possibilidade. Lugares onde ela teria ou não mais validade do que naquele em que é exposta. Ou seja: talvez aquilo que posso compreender baseado no que o mundo me apresenta agora, não me sirva para uma conclusão de imediato, mas se eu puder visualizar tal fato, mesmo que apenas em possibilidade, em um Outro tempo hipotético. Esta modulação dos tempos de possíveis poderá permitir entender onde estaria, já que não vejo, aquela hipótese que me faria chegar à conclusão que o problema solicita.

Vos deixo aqui mais uma música:

Time Travel: O Passado que só é Presente no Futuro

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Para começar a facilitar o entendimento de algo tão denso e complexo, talvez haja uma melhor visualização se recorrêssemos à gramática para uma rápida leitura:

Bruce Fink, em sua famosa obra “O Sujeito Lacaniano” (1998), logo após comentar a influência que o Seminário 8 de Lacan teria sobre a interpretação da obra “O Banquete”, de Platão, lembra de um exemplo utilizado pelo psicanalista ao falar sobre esta lógica temporal, onde o sentido não poderia nos vir de imediato, mas somente após alguns processos que nos fariam pensar em Outro tempo. No tempo em si haveria de ter um lugar, nesta cronicidade, onde seria possível encontrar o sujeito. Este seria aquele que está sempre quase chegando, junto ao aparecimento da responsabilidade perante o próprio desejo. No exemplo de Lacan que Fink evidencia, este tempo poderia ser melhor entendido através do próprio tempo do verbo em que está inserido o sujeito, ou seja, do próprio tempo da ação subjetivada.

Na frase: “Deux Secondes plus tard, la bombe éclatait” (A Bomba explodiria dois segundos mais tarde) Lacan coloca o verbo “explodir” em seu pretérito. Ou seja, só poderíamos estar falando aqui de uma ação que já ocorreu. Entretanto, este passado só poderia acontecer no futuro. Como se sempre houvesse uma condição implícita, um impedimento para que aquele ato evidenciado no passado só pudesse ser uma possibilidade daquele futuro que só existe a partir de algo que ainda não está explícito (p. 87). É como se tivéssemos a obrigação de imaginar que a bomba não explodiu no período que podemos observar, mas poderia ter explodido dentro das possibilidades de um futuro alternativo. Qual possibilidade de futuro alternativo? Aquela em que a explosão não fora impedida por algo não mencionado ali, um detonador que falhou, por exemplo, conforme podemos apenas supor. Entretanto, tais suposições não poderiam ser feitas sem um deslocamento nos tempos de possibilidade que existem nesta situação. Na língua portuguesa, este tempo verbal apresentado é o futuro do pretérito, aquele inexistente passado que é presente no futuro de possibilidades. E por mais contraditório que seu nome seja, ele faz sentido quando analisamos a lógica empregada pelo nossos prisioneiros.

O exemplo foi utilizado para que entendamos a prevalência de um raciocínio lógico existente para cada um dos tempos de possibilidade diferentes de um mesmo fenômeno. Quando enxergamos, de maneira problematizada, um futuro que só existiria num passado diferente e ainda assim este passado do futuro não é o nosso presente, é menos angustiante que esta ginástica mental finalmente nos sirva de alguma coisa senão para a adoção desta famosa face a seguir:

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No caso de Lacan, aquilo que nos faz aplicar a lógica naqueles tempos de parada que as moções suspenas exigem quando finalmente conseguem identificar algumas instâncias do tempo presentes em nosso processo lógico, é chamado de Movimento Lógico. Ele consistirá na aplicação desta logica naqueles tempos em que a pressa nos faz ignorar que existem em possibilidade, para que nos haja preferência para aplicá-la apenas no presente que enxergamos. Mas, para que isso aconteça e nosso pensamento dê o salto para a liberdade de nosso corpo, é-nos necessário começar por algo bem mais simples.

A Exclusão Lógica e o Movimento Lógico – O Instante de Olhar

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Para haver de sua parte um movimento lógico que busca, na sua aplicação da lógica em tempos distintos, para a visualização de múltiplos momentos de evidência para a falha ou sucesso de suas conclusões, foi preciso que houvesse na mente de A, aquilo que Lacan chamou em seu texto de uma exclusão lógica. Algo simples, mas eximiamente necessário durante o emprego de um pensamento além daquele imediato e limitado à lógica comum. É como se, na linha de construção de sua própria conclusão, fosse necessário ao sujeito validar as diferentes suposições hipotéticas que lhe são possíveis, mas soma-se a isso aquilo que evidencia ou esconde suas reais possibilidades. Como quando, uma equação de duas incógnitas, busca-se um artifício para que uma se faça, ao menos, útil o suficiente para facilitar a revelação da outra. Mesmo que ela por si não tenha valor para produzir uma certeza para o ato de enunciar a resolução do problema.

Música:

Poderia ser que existisse ali, implícito nas ações do prisioneiro, algo tão óbvio que nos é praticamente ignorado: para que A começasse a indagar as possíveis aplicações da lógica temporal que o cercavam, era necessário tecer indagações sobre qual tempo de possibilidade ele aplicaria sua lógica com sucesso, pois era preciso que descartasse as situações onde não existiria algum valor de evidência para que a lógica empregada lhe produzisse uma conclusão útil.

Por mais que estivesse implícito nas informações iniciais, e por mais que isso só pudesse ocorrer instâncias temporais imaginadas, distintas àquelas apresentados ao imediato; por mais que já se soubesse daquilo num só golpe, num só Instante de Olhar, a exclusão lógica foi a base de todo o movimento lógico que permitirá uma conclusão determinante para o ato em direção à liberdade: entender o que falta. Calma, vou explicar.

Num Instante de Olhar, Busca-se Aquilo que Falta para Chegar a Tempo Para Compreender

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Quando o prisioneiro A resolve questionar a validade de sua hipótese imediata, aquela em que ele seria preto, ele também pensa que B, em um futuro cenário hipotético, faria conjecturas para também aplicar sua lógica de maneira semelhante. Indo adiante, caso A realmente carregasse um disco preto em suas costas, B poderia pensar:

“Se eu vejo que A é preto e sei que há apenas dois discos pretos, apenas uma pessoa também poderá ter um disco preto além de A. Sei que C, definitivamente não é esta pessoa, pois ele eu mesmo vejo que é branco! Portanto, sabendo que há no total três discos brancos e dois discos pretos, se meu campo de visão me permite enxergar um disco preto e um branco nos outros dois prisioneiros, mas não posso enxergar a cor do meu próprio, minha lógica me ajuda a crer que o disco pendurado em minhas costas poderá ser tanto preto como branco. Mas o que acontecerá se estiver comigo o disco preto que falta? Bem, suponho que neste caso C estaria vendo dois discos pretos. Portanto, não sendo ele incapaz de exercer seu raciocínio com maestria, aplicará uma lógica muito simple para suas conclusões: se ele vê dois discos pretos em seu campo visual, não sabe a cor do disco que carrega, mas sabe que o total de discos pretos é exatamente a quantidade que vê, a própria lógica mostrará para C que o disco em suas costas apenas poderá ser branco”.

Ou seja, se há dois discos pretos em meu campo de visão, e sei que existem três no total, aquele que eu não vejo, e que está em mim mesmo apenas poderá ser branco.

E aqui temos um primeiro momento de evidência para ser validado:

“Estando diante de dois pretos, sabe-se que é branco”.

E esta seria a primeira hipótese daquele que vê dois pretos, caso A fosse realmente preto. Mas este pensamento é rapidamente descartado, pois perde seu valor instantâneo de evidência e é excluído das possibilidades de opções viáveis e que poderiam, num futuro do pretérito, serem tomadas como a verdade que leva ao ato.

Em mais um empréstimo dos termos da linguística, Lacan vai nos dizer que este simples processo se assemelha à preparação de uma frase. Pois se a exclusão lógica nos servirá para chegar ao próximo passo, isso só poderá ocorrer da mesma forma como uma prótase serve uma apódose na estrutura sintática que envolve uma oração.

Ou seja, quando pensamos num futuro de possibilidades hipotéticas, em uma instância do tempo que seria ignorada pela lógica clássica, poderemos fazer com que, No Instante do Olhar o dado da prótase “diante de dois pretos” seja conduzido ao dado da apódose “é-se branco” (LACAN, 1998). Daqui poderá se fazer a seguinte equação lógica: DOIS PRETOS = UM BRANCO.

E é esta exclusão lógica das incógnitas explícitas, para a apresentação daquelas que até agora a lógica clássica fez com que o sujeito ignorasse, mas que se fazem essenciais ao processo lógico que permitirá uma transição do Instante do Olhar, que tomaria o sujeito por seu imediatismo, para um segundo momento de evidência, chamado Momento de Compreender.

Se uma Parte me Falta, Parto Dela para Produzir sua Existência

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Portanto, é somente a partir da exclusão lógica que se poderá buscar a verdadeira incógnita daquela situação onde a lógica se faz necessária. E se poderá fazer isso agora pois ela FINALMENTE DEIXOU DE SER IGNORADA PELO SUJEITO.

E talvez algo tenha sido ignorado por quem lê este artigo. Exatamente. A música.

Como em uma equação matemática, quando no tempo subjetivo, chamado de Instante do Olhar, o sujeito realizar a exclusão lógica que o permitirá descartar uma incógnita que ainda velava parte de seu raciocínio lógico final, passará finalmente a raciocinar em direção às hipóteses autênticas, onde poderá visualizar a verdadeira incógnita do problema – aquela que era ignorada durante o uso da lógica comum por sua parte. Agora que o sujeito deixa de ser aquele guiado pela imediaticidade do Instante de Olhar, ele finalmente poderá ter algum Tempo para Compreender a real dinâmica em que está inserido, já que, se o valor instantâneo de sua lógica naquele momento temporal é o que o permite continuar questionando, é porque este valor há de ser, necessariamente aquele que o permitirá ir mais além: ZERO .

O Sabido Não Saber vs O Não Sabido Saber

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À descoberta de que alguém precisaria enxergar dois discos pretos para concluir ser ele mesmo o portador de um disco branco deveria ser algo implícito no contexto daquele que supõe-se portador do preto apenas por ver dois brancos. Entretanto, esta lógica só se fez sabida para aquele sujeito, na não ocasião de sua presunção lógica imediata se tornar a única a ser considerada por ele.

Exemplo de Questão do Enem que exige o emprego de uma lógica semelhante.

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Resposta: ( C) 50 ——> Se tira 50 homens, a sala ira ter 49 homens e 1 mulher no total 50 pessoas se fizer a regra de três simples 100% x50 —– 49=98%) Ao primeiro impacto, muitas pessoas se sentem tentadas a responder 1, 2 ou N.d.a por conta dos desafios aqui empregados pelo mero uso da lógica objetiva.

Vejamos bem: não seria esta intuição tão fácil de se fazer com os dados que a aparência da situação, em que se encontrava o sujeito, continuassem produzindo nele apenas pensamentos lógicos restritos àquilo que lhe forneceram para observar. Mas ao contrário, ela passou a ocorrer por derivar da exclusão desta mesma conclusão que só poderia ser tirada a partir daquela primeira exposição. O sujeito decide ignorar o próprio conselho imediato que a primeira impressão lhe dá sobre o fenômeno, e é só a partir daí que começa a refletir sobre sua necessidade de pensamento: sendo agora melhor aplicar a lógica como se estivesse em um tempo a partir das relações que estabelece com os outros.

Para exemplificar: ocorrerá exatamente como é retratado no pensamento do Prisioneiro B:

“Um momento: o Prisioneiro C estaria imediatamente correndo para informar a conclusão que chegou de sua própria cor, caso eu também fosse da cor de A, caso eu também fosse preto. Logo, se C está em inércia, eu não poderia ser preto!”

E se neste tempo todo que o Prisioneiro B ficara imaginando estas possibilidades, entende-se que ele também não saiu correndo, exatamente porque não estava a enxergar dois discos pretos. A partir daí, O Prisioneiro C também poderá concluir que é branco, também por conta do não movimento do Prisioneiro B.

Lacan vai postular que, existirá um objetivo e um término do tempo disponível para que os dois brancos elaborem suas conclusões lógicas que definirão suas próximas ações subjetivas. Mas mais do que isso: haverá nestas ações subjetivas as conclusões que seu próprio semelhante e observador poderá extrair delas irá determinar a conduta seguinte – e vice-versa. Portanto, se sua ação for a própria inércia mútua retratada pelos dois que são brancos, no problema dos prisioneiros em questão, a ação própria do sujeito denunciará àquele outro que a observa algo não dito em explícito. Por exemplo: que não foram avistados dois discos pretos em lugar algum se nenhum dos dois se movimentou. Como assim? Simples. Esta etapa de verificação daquela possibilidade imaginada por A, de ser ele mesmo preto por ver dois brancos, faz com que os prisioneiros B e C concluam-se portadores do disco branco exatamente pela inércia que causaram um no Outro:

“Se eu fosse preto, ele já teria saído sem hesitar; se ele hesitou, sou branco. Não haveria como hesitar aquele que vê dois discos pretos à sua frente, uma vez que este possuirá todas as suas possibilidades disponíveis em seu presente imediato de saber, pela lógica simples, que é ele mesmo o único portador de um disco branco.

Para Lacan, deveria haver algum limite para este Tempo para Compreender que os sujeitos usufruem na utilização de uma lógica temporal. O psicanalista tenta explicar a tênue linha temporal de delimitaria isso, ou não:

“O Tempo de Compreender” pode reduzir-se ao instante do olhar, mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender”. (LACAN, 1998. p. 205)

E é neste momento que se perde um pouco da objetividade deste tempo em relação à sua duração, mas seu sentido se mantém vivo: ele produz sujeitos que dependem de ações recíprocas para que se movimentem, para que possam evoluir suas conclusões. Em Outras palavras: sujeitos que apenas desenvolvem seu crescimento a partir de um Outro em que ele causa o mesmo que é sentido. Sujeitos que se libertam de convicções rasas quando entendem que é preciso empatia para que haja tempo para compreender.

Neste caso a inércia do outro se torna a maior informante do disco que ambos carregam:

“Se eu fosse preto, os dois brancos que estou vendo não tardariam a se reconhecer como sendo brancos”.

Afinal, para eles, enxergar um preto e um branco poderia ser fonte de dúvida a respeito da própria cor invisível que ainda é a si”. As ações daquele que ele vê do outro branco determinariam sua percepção: “Se ele correr, minha conclusão deverá ser: sou preto”. Pois a única justificativa esperada é que tenha corrido por estar vendo exatamente os dois únicos discos pretos, sobrando a si o disco branco”.

Todo este movimento de deslocar a própria lógica além do que se vê objetivamente, todo este movimento de deslocar a lógica para outras Instâncias do Tempo é o que permitirá o sujeito chegar ao momento de concluir o seguinte: SOU BRANCO, DEVO CORRER E REVELAR A TEMPO PARA FINALMENTE SABER DE VERDADE.

O Momento de Concluir o Tempo para Compreender: A Asserção da Certeza Subjetiva para Validar a Certeza Objetiva.

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Fiquem tranquilos, uma música que faz referência homônima a este título não vos irá faltar.

Finalmente o prisioneiro conclui que: se os outros dois hesitaram em declarar a própria cor, ele só poderia ser preto. Se B não corre porque não vê C ser preto ao lado de A. E se C não corre por não ver B ser preto ao lado de A. A não pode ser preto. Se A não é preto enquanto vê dois brancos, logo todos são brancos. A deverá se apressar para declarar que é branco antes que os outros brancos o façam pela mesma lógica.

Esta conclusão só foi possível a partir de um lógica diferente da convencional. Entendamos que, objetivamente, apenas era possível enxergar dois brancos. Aplicando a mesma lógica objetiva naquele tempo e espaços, nada se concluiria senão aquilo já visto. Foi preciso do auxílio das moções suspensas até que se chegasse a uma lógica semelhante ao Tempo do Sujeito para Lacan, uma lógica de um tempo que está quase chegando por conta de algo que pode acontecer, algo como um futuro tão certo quanto um suposto passado dependente dele, conforme explicado anteriormente.

Entenderemos aqui que, assim obtida esta certeza, através de uma lógica que atravessa os limites que o sujeito estabelecia apenas por observar os objetos à sua frente, o sujeito agora é dono de uma lógica que apenas a ele pertence. E quando falamos desta lógica subjetiva, falamos de uma lógica que não mais depende do mundo dos objetos apenas por uma condição: que aconteça o ATO.

“Esse, portanto, é o momento de concluir que ele é branco; de fato, se ele se deixar
preceder nessa conclusão por seus semelhantes, não poderá mais reconhecer que não é preto. Passado o tempo para compreender o momento de concluir, é o
momento de concluir o tempo para compreender

(LACAN, 1945/1998, p. 206. grifo meu.)

O que Lacan quer dizer aqui é simples e pode até ser trazido ao senso comum: “Se você basear seus atos EXCLUSIVAMENTE às percepções externas, ou seja, dos outros, você nunca sairá do lugar”. É quase como a clássica frase: “Se preocupe mais com o que pensa de si mesmo ao invés de se preocupar com o que os outros pensam de você“. E eu explico:

Se o Sujeito A, após assumir que tem certeza de que é branco, decidisse não agir em prol daquela certeza sem hesitar, ou, pior ainda, se tivesse aguardado um segundo a mais: os outros dois brancos se movimentariam a fazer o mesmo. Pois lembram-se de sua moção suspensa? “Eles estariam correndo juntos se eu fosse preto”. Portanto, se A demorasse mais para agir, ou interrompesse sua ação apenas porque os outros também passaram a agir, teria, para sempre, a certeza errônea de ser preto. E aqui a lógica subjetiva perderia para a lógica objetiva. Exatamente porque os outros dois estariam correndo juntos. E não por enxergarem que A é preto, e sim porque todos chegaram ao mesmo tempo ao diretor – exatamente por todos terem utilizado a mesma lógica de A.

E vocês podem perguntar, objetivando: mas A não tinha certeza plena de ser branco. Ele não havia como provar isso de forma outra senão a partir de meras deduções. E aqui chegamos ao que Lacan chamou de Asserção da Certeza. E é somente através dela que se tem coragem para agir. E é somente agindo que se terá certeza plena.

A Ação do Ato na Subjetividade

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Lacan nos mostrou, neste exemplo, o seguinte: o sujeito não terá direito à própria lógica enquanto estiver preso às ações dos outros. Mais ainda: não será possível que alguém tenha certeza de fato se não a afirmar através do ato.

Se não fosse a tomada de decisão apenas da certeza enunciada, da asserção da certeza, a verdade não poderia ter sido descoberta. A verdade do sujeito mora no ato, no ato subjetivo que o garante transcender na aplicação de sua lógica sobre o mundo. E é por isso que às vezes o tempo cronológico não basta.

Uma análise ou até uma única sessão de análise, se bem pautadas pelo tempo lógico, terão:
O Instante do Olhar – O Tempo para Compreender – O Momento de Concluir

Exatamente para que o sujeito tire proveito do movimento que lhe esperado para fazer em sua vida. Que o sujeito saia do futuro do fato e viva a ação do ato.

O saber, o efeito, o dano ou o sucesso de uma sessão ou de uma análise, em minha opinião, não estão em lugar nenhum a não ser no ato cometido pelo sujeito que era acometido pelo ato.

Por Caio Cesar Rodrigues

REFERÊNCIAS

Jacques Lacan em Conferência de imprensa realizada em 29 de
outubro de 1974 no Centre Culturel Français, Roma. Lettres de l’École Freudienne de Paris.
FINK, Bruce, 1956 –, O sujeito lacaniano; entre a linguagem e o gozo/ Bruce Fink; tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara; consultoria: Mirian Aparecida Nogueira Lima. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN, Jacques, 1901-1981. Escritos/ Jacques Lacan; tradução Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

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