As 3 Grandes Forças em Psicologia

Psicologia? Psicanálise? Behaviorismo? Gestalt-Terapia? Perls? Skinner? Freud? Como é estruturado o saber psicológico? O que é o que?

O texto de hoje visa explanar sobre as chamadas 3 Grandes Forças em Psicologia, a fim de traçar uma organização teórica e cronológica acerca do behaviorismo, psicanálise e das linhas humanistas-existenciais.

A Psicologia enquanto ciência

Wundt e estudantes de psicologia em Leipzig

1879 é considerado o ano de nascimento da psicologia. Naturalmente que já se falava de psicologia e de temas como mente, comportamento, felicidade, sofrimento, percepção, inteligência, emoção, saúde, doença, entre outros tópicos basilares, desde a antiguidade, porém, 1879 é o ano em que W. M. Wundt (1832-1920) funda o 1º laboratório de psicologia experimental (Psychologische Institut, na Universidade de Leipzig – Alemanha). É a partir dessa data que a psicologia começa a criar um campo de conhecimento próprio, com metodologia própria e separada do saber filosófico.

Esta ciência tem de investigar os fatos da consciência, suas combinações e relações, de tal modo que possam, finalmente, descobrir as leis que governam tais relações e combinações.

(Wundt, 1912/1973, p. 1)

Os primeiros psicólogos experimentais (além de Wundt vale citar Ernst Heinrich Weber [1795-1878] e Gustav Theodor Fechner [1801-1889]) se debruçaram sobre temas como consciência, introspecção, sensação e percepção, limiares de percepção, atenção e emoções, por exemplo e utilizaram, principalmente, técnicas da chamada psicometria e psicofísica, para analisar e medir esses fenômenos.

A partir dessas investigações surgem ramificações, movimentos e escolas próprias como o estruturalismo, o funcionalismo, o behaviorismo (1ª grande força), a psicanálise (2ª grande força) e a psicologia humanista-existencial (3ª grande força). Essas correntes psicológicas são arcabouços teórico-práticos que influenciam a forma com que o psicólogo compreende e intervém sobre as questões humanas.

1ª Grande Força em Psicologia: o Behaviorismo

skinner, watson e pavlov
(Skinner, Watson e Pavlov com um cão, respectivamente)

O behaviorismo (ou comportamentalismo) nasce como uma crítica ao introspeccionismo e às teorias mentalistas (como a psicanálise), isto é, quando o indivíduo busca acessar, se conscientizar e relatar seus estados internos. Para os behavioristas, o introspeccionismo é falho e, além de fornecer informações errôneas, afasta a psicologia do seu verdadeiro objeto de estudo – o comportamento.

O problema mentalista pode ser evitado com procurarmos diretamente as causas físicas anteriores, desviando-nos dos sentimentos ou estados mentais intermediários. A maneira mais rápida de fazer isto consistem em limitarmo-nos àquilo que um dos primeiros behavioristas, Max Meyer, chamou de “a psicologia do outro”; considerar apenas aqueles fatos que podem ser objetivamente observados no comportamento de alguém em relação com a sua história ambiental prévia. Se todas as ligações são lícitas, não se perde nada por desconsiderar uma ligação supostamente imaterial.

(Skinner, 1974/2006, p. 16)

Dessa forma, essa corrente da psicologia se debruçou sobre o que pode ser observado e mensurado diretamente, isto é, o ambiente e o comportamento da pessoa, ou seja, as contingencias ambientas e comportamentais (estímulos anteriores e posteriores referentes à uma ação).

Podemos entender estímulo como “uma alteração detectável no meio em que o indivíduo está inserido” (Lombard-Platet, Watanabe & Cassetari, p. 37, 2008), o que compreende, por exemplo, alterações na luminosidade, temperatura, sons, cheiros e qualquer coisa captada pelos órgãos sensoriais. O comportamento, em um primeiro momento, tem ser uma ação observável e mensurável, isto é, o behaviorista não analisa o “sofrer” ou a “diversão”, mas pode analisar, em intensidade e frequência, o chorar, a diminuição da fala, a mudança na postura, o gritar, o sorrir, o pular, o correr…. Também falamos de comportamentos involuntários (respondentes, como alteração de pupila, sudorese, salivação, erubescer…) e voluntários (operantes, como acender a luz, pegar uma revista, andar até a padaria…). De uma forma resumida, os comportamentos involuntários são eliciados pelos estímulos antecedentes (condicionamento clássico, pavloviano ou respondente) enquanto os comportamentos voluntários são emitidos, reforçados, punidos ou extintos pelas suas consequências – o estímulo posterior (condicionamento operante). Com o avanço da corrente behaviorista passou-se a falar também dos chamados comportamentos encobertos, isto é, aqueles que não são observados diretamente por outrem (como pensar, sonhar, imaginar…). É importante dizer também que seu desenrolar/legado fez nascer a TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental.

Autores do Behaviorismo

Os 3 principais e “clássicos” autores do behaviorismo são I. Pavlov (1849-1936), responsável pela descoberta do comportamento respondente; J. B. Watson (1878-1958), considerado o fundador da corrente, pai do behaviorismo metodológico e famoso pelo experimento do pequeno Albert; e B. F. Skinner (1904-1990), pai do behaviorismo radical, que ampliou as “Leis do Efeito” (de E. L. Thorndike) enquanto compreensão do comportamento operante, grande autor sobre processo de aprendizagem, criador da Caixa de Skinner, famoso pelos experimentos e demonstrações com ratos e pombos.

2ª Grande Força em Psicologia: a Psicanálise

consciente inconsciente id ego superego
(Representação da compreensão Freudiana sobre o aparelho psíquico humano: 1ª e 2ª tópica)

Aqui temos o papel do influente Sigmund Freud (1856-1939) e a importância da vida psíquica inconsciente, onde emergem temas como psicossomática, desenvolvimento psicossexual, neurose, histeria, mecanismos de defesa, sonhos, desejos e censuras. A psicanálise nasce na psicologia e dialoga, principalmente, com a psicologia clínica, todavia, hoje ela está para além da questão clínica, aparecendo como uma forma de estudar os aspectos dinâmicos da sociedade, economia, política e pensamento. Dessa forma, hoje temos muitos psicanalistas que não são psicólogos, mas possuem formação básica em filosofia, sociologia, medicina, letras e outras graduações. Falamos também de psicanálises, isso pois se trata de uma das linhas teórico-práticas que mais apresentam diferenças conceituais e intervencionistas de autor para autor, o costuma causar confusões naquilo que diz respeito às compreensões iniciais na temática. Mas, independente das diferenças do psicanalista em questão e como ele vai compreender aspectos do psiquismo, as psicanálises se aproximam quando compreendem um processo de conhecimento/tratamento/cura que, necessariamente e para sua efetividade, precisa passar pelo outro. Isto é, só sei de mim, pelo outro – e sobre essa questão específica, recomendo o seminário A Utopia do Autoconhecimento, veiculado no Café Filosófico, por Ricardo Goldenberg.

As psicanálises também costumam compartilhar a questão da transferência, isso é, padrões específicos relacionados às relações interpessoais passadas que direcionam a forma como a relação presente se manifesta e se estabelece – a transferência diz sobre seu portador e seu manejo pode ressignificar/resolver conflitos reprimidos. A noção da influência dos processos inconscientes também é basilar sobre o discurso do sujeito (discurso aqui, não compreende apenas a fala).

Digamos que alguém — um paciente em análise, por exemplo — nos relata um de seus sonhos. Nós supomos que desse modo ele faz uma das comunicações que se comprometeu a fazer iniciando um tratamento psicanalítico. Uma comunicação com meios inadequados, é certo, pois o sonho não é uma expressão social, um meio de entendimento. Não compreendemos o que ele quer dizer, e ele próprio não sabe o que é. Então temos que tomar rapidamente uma decisão: ou o sonho, como nos asseguram os médicos que não são psicanalistas, é um indício de que a pessoa dormiu mal, de que nem todas as partes do seu cérebro descansaram igualmente, de que alguns pontos quiseram continuar trabalhando, sob a influência de estímulos desconhecidos, e só puderam fazê-lo de modo bastante incompleto. Se assim for, será correto não nos ocuparmos mais do produto — psiquicamente sem valor — da perturbação noturna; pois o que tal pesquisa traria de útil para nossos propósitos? Ou então — percebemos que desde o início já decidimos de outra forma. Fizemos o pressuposto, adotamos o postulado — bem arbitrariamente, deve-se admitir — de que também esse sonho incompreensível teria de ser um ato psíquico inteiramente válido, de sentido e valor plenos, que podemos usar como qualquer outra comunicação na análise.

(Freud, 2010 pp. 95-96)

O clínico Freud foi influenciado, principalmente, por J.-M. Charcot (1825-1893), com quem aprendeu sobre histeria e hipnose, e J. Breuer (1942-1925) com quem estudou o método catártico (a cura pela fala). Sua obra é grande, estruturada e desenvolve o nascimento da psicanálise por meio de contato com outros saberes (biologia, física e literatura) e por meio dos processos de análise clínica e da autoanálise do próprio Freud.

Durante muito tempo, o aspecto mais conhecido e discutido da obra de Freud era o da teoria da libido, que ele elaborou inspirado nos modelos da eletrodinâmica ou da hidrodinâmica vigentes na ciência da época. Assim, o conceito de libido, que Freud concebeu como sendo a manifestação psicológica do instinto sexual, recebeu sua origem na tentativa de explicar fenômenos, tais como os da histeria, que Freud explicava como sendo resultantes do fato de que a energia sexual era impedida de expandir-se através de sua saída natural e fluía, então, para outros órgãos, ficando restringida ou contida em certos pontos e manifestando-se através de sintomas vários. Freud chegara à conclusão de que as neuroses, como a histeria, a neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia (fobia), teriam sua causa imediata no aspecto “econômico” da energia psíquica, ou seja, num represamento quantitativo da libido sexual.

(Zimerman, 2007, p.23)

Autores da Psicanálise

Para além do próprio Freud, podemos citar a influência de nomes como J. Lacan (1901-1981), que propôs um retorno sistemático à obra de Freud e a relacionou com os saberes da antropologia, linguística e estruturalismo, além de ter desenvolvido conceitos como Real, Simbólico e Imaginário; M. Klein (1882-1960), expoente da chamada “escola inglesa de psicanálise” foi uma das primeiras psicanalistas a atender crianças e sua contribuição se dá, principalmente, na compreensão dos componentes e fenômenos associados à vida psíquica primitiva; D. Winnicott (1896-1971) que abordou o papel do ambiente-cuidador para com o desenvolvimento emocional do sujeito e trouxe, entre outros, os conceitos de criatividade primária e tendência antissocial.

3ª Grande Força em Psicologia: a Psicologia Humanista-Existencial

Como uma reação ao behaviorismo e à psicanálise, a partir da segunda metade dos anos 1950 (e ganhado maior desenvolvimento e destaque durante as duas décadas posteriores), surge a 3ª Força. Contrária a uma visão determinista do homem (seja pela questão dos condicionamentos comportamentais ou pelo determinismo do inconsciente), ela valoriza a experiência consciente e trabalha com tópicos como: livre arbítrio; autorrealização; criatividade; esperança; potencial; sentido; contato; decisão; congruência; responsabilidade; entre outros…

(Abraham Maslow)

Seu fundador é considerado A. Maslow (1908-1970), famoso por desenvolver a “pirâmide hierárquica das necessidades básicas” e quem primeiro cunhou o termo “psicologia positiva“, em uma contraposição à chamada “psicologia negativa” – tradicional e focada na doença, no transtorno, no sofrimento e em seu tratamento/cura. Dessa forma, a Psicologia Humanista incorporou a visão de homem e mundo referente aos movimentos intelectuais do humanismo, do existencialismo e da fenomenologia. Dentro dela, vamos encontrar abordagens distintas como a Gestalt-Terapia, a Abordagem Centrada na Pessoa, ou a Logoterapia, por exemplo, onde cada uma tem suas particularidades clínicas e acabam por se aproximar mais do humanismo ou do existencialismo, a depender da linha téorico-prática, mas todas fazem parte da 3ª força que, segundo Schultz & Schultz (2008), integra os seguintes pontos essenciais:

  1. uma ênfase na experiência consciente;
  2. uma crença na integralidade da natureza e da conduta do ser humano;
  3. a concentração no livre-arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do indivíduo;
  4. o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição humana.

Dentre as abordagens clínicas dessa corrente psicológica, aquela que mais me identifico e acabei por estudar é a Gestalt-Terapia (não confundir com Psicologia da Gestalt). Essa abordagem é sempre uma terapia do contato e seu manejo é pautado no aqui-agora, sendo que a relação terapeuta-paciente funciona do ponto de vista dialógico, onde o terapeuta confronta e frustra o paciente que tenta se esquivar ou fugir do seu contato e experiência com o presente. A fenomenologia pauta o setting clínico e, desta forma, a interpretação não é adequada, mas sim a descrição. A farsa, as atuações e as incongruências não se sustentam na Gestalt-Terapia, uma vez que são valorizadas e validadas as experiências mais espontâneas e verdadeiras de alguém.

Gestalt-terapia é uma das forças rebeldes, humanistas e existenciais da psicologia, que procura resistir à avalanche de forças autodestrutivas, autoderrotistas, existentes entre alguns membros de nossa sociedade. Ela é “existencial” num sentido amplo. […] Nosso objetivo como terapeutas é ampliar o potencial humano através do processo de integração. Nós fazemos isto apoiando os interesses, desejos e necessidades genuínas do indivíduo.

(Perls, 1977, p.19)

A Gestalt-Terapia deve ser experimentada para melhor compreensão – ela não se basta enquanto teoria. Caso tenha curiosidade em saber como é uma sessão com abordagem gestáltica, recomendamos que participe de uma 😉 E recomendamos também que assista um, das várias sessões gravadas, com F. Perls – pai da GT. (após esse vídeo, colocamos também um atendimento de Carl Rogers, com a mesma mulher, para finalidades didáticas e comparativas).

Autores da Psicologia Humanista-Existencial

Como já foi dito antes, há abordagens mais humanistas e outras mais existenciais. C. Roger (1902-1987) pai da Abordagem Centrada na Pessoa e dos Grupos de Encontro, estudou sobre o crescimento pessoal, as relações interpessoais e os processos experienciais; F. Perls (1893-1970) ex-psicanalista, pai da Gestalt-Terapia, contribuiu naquilo que diz respeito à visão holística sobre o indivíduo, sobre o papel do terapeuta na conscientização das incongruências, bem como sobre as dificuldades da pessoa em experienciar e desfrutar do presente. V. Frankl (1905-1997), pai da Logoterapia, tem uma abordagem mais existencialista que se relaciona com a temática do sentido da vida – que começou a ser desenvolvida quando esse foi prisioneiro em um campo de concentração nazista.

Referências

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras.

Lombard-Platet, V. L. V.; Watanabe, O. M. & Cassetari, L. (2008). Psicologia experimental: Manual teórico e prático de análise do comportamento. São Paulo: Edicon.

Schultz, D. P. & Schultz, S. E. (2008). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Stevens, J. O. (Perls, F. et al.) (1977). Isto é Gestalt. São Paulo. Summus.

Wundt, W. (1912/1973). An introduction to psychology. Translation R. Pintner. London: George Allen & Company, Ltd.

Zimerman, D. E. (2007). Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

7 Livros Para Estudar Psicologia

O post de hoje visa recomendar algumas das principais referências de bibliografia para quem busca estudar psicologia e não sabe por onde começar.

Uma vez que falamos também de escolas, movimentos ou linhas psicológicas – que possuem teorias e implicações distintas entre si – o seguinte texto apresenta, pelo menos, uma referência que contemple cada movimento.

Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia

Psicologias Ana Bock
(Tiragem atual – Editora Saraiva, 14ª Edição)

Este é um livro que muito inspirou a Sociedade dos Psicólogos na organização dos nossos cursos e publicações, pois deixa claro, desde o título, que o “saber psicológico” é resultado de muitas “psis” – conhecimento e postura ética que buscamos difundir.

Apresenta as visões históricas, teóricas e práticas relacionadas aos movimentos psicológicos, isto é, suas formas de compreensão da psicologia, desde o conceito desta, até seu objeto de estudo, compreensão e atuação sobre este. A nível de exemplo, a psicanálise se debruça sobre o inconsciente e as características psicodinâmicas da psique, enquanto o behaviorismo se debruça sobre o comportamento e as contingências do ambiente que são relacionadas à esse.

PSICOLOGIAS é uma introdução ao estudo da Psicologia, que é apresentada em seus vários aspectos: sua história, as abordagens teóricas, os temas básicos, as áreas de conhecimento, as principais características da profissão, os temas cotidianos (vistos sob a ótica da Psicologia). Enfim, desde a primeira edição, sempre tivemos a certeza de que ensinar a diversidade do universo da Psicologia é a melhor forma de iniciar o aprendizado dessa ciência. Daí o título escolhido: PSICOLOGIAS.

(Bock, A. M. B.; Furtado, O. & Teixeira, M. L. T., 2001, p. 5)

O livro é uma das grandes referências para quem começa a estudar psicologia, estando entre os principais livros de bibliografia obrigatória nos primeiros semestres dos cursos de psicologia. Foi escrito por Ana Mercês Bahia Bock, Odair Furtado e Maria de Lourdes Trassi Teixeira.

História da Psicologia Moderna

(Cengage do Brasil, 10ª Edição)

Esse é outro livro muito utilizado nos primeiros semestres da psicologia. Foi escrito por Duane P. Schultz e Sydney Ellen Schultz.

Embora o livro esteja organizado em termos das escolas de pensamento —
as diferentes definições que marcam a evolução da psicologia — , reconhecemos que essas idéias e abordagens são obra de estudiosos, pesquisadores e sistematizadores. Afinal, são seres humanos, e não forças abstratas, que escrevem os artigos, fazem as pesquisas, apresentam comunicações de pesquisa e ensinam a próxima geração de psicólogos. Fazendo isso, esses homens e mulheres desenvolveram e promoveram as escolas de pensamento da psicologia. Desse modo, discutimos a vida das eminentes personalidades que moldaram o campo,
chamando a atenção para o fato de o seu trabalho ter sido influenciado não só pela época em que floresceu como também pelo contexto de suas próprias experiências pessoais.
(Schultz, D. P. & Schultz, S. E., 2014, p. 4)

A publicação percorre dados biográficos e teóricos fundamentais para a compreensão do desenvolvimento das ciências psicológicas e apresenta também uma série de contribuições resultantes de investigações sobre a psicologia pré-Wundt.

Desenvolvimento Humano

(Artmed, 12ª Edição)

Livro ilustrado e repleto de referências científicas que abordam o desenvolvimento humano desde a concepção, passando pelas fases da infância, a adolescência, idade adulta, terceira idade, fim da vida e separando desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial.

A medida que o campo do desenvolvimento humano tornou-se uma disciplina científica, seus objetivos evoluíram para incluir a descrição, explicação, predição e modificação do comportamento. Descrição é uma tentativa de retratar o comportamento com precisão. Explicação é a revelação das possíveis causas do comportamento. Predição é prever o desenvolvimento futuro com base no desenvolvimento pregresso ou presente. Modificação é a intervenção para promover o desenvolvimento ideal.

(Papalia, D. E.; Olds, S. W. & Feldman, R. D., 2006, p. 44)

A edição mais atual foi escrita por Diane E. Paplia e Ruth Duskin Feldman e também é uma das principais bibliografias obrigatórias nas disciplinas de psicologia do desenvolvimento, ao lado da obra O Desenvolvimento da Pessoa: da infância à terceira idade, de K. S. Berger e A Criança em Desenvolvimento, de H. Bee.

A Interpretação dos Sonhos

(Edição comemorativa de 100 anos – Imago, 1999)

Considerada a obra prima de Sigmund Freud esse livro foi escrito em 1899, mas foi lançado como 1900 pois seria o livro do século (e foi!). Essa publicação extensa apresenta não apenas a compreensão e o manejo do trabalho com os sonhos, mas tece uma forte tese sobre a metapsicologia freudiana, isto é, sua compreensão do aparelho psíquico a nível de estrutura e funcionamento deste, sendo que, por exemplo, é nesta publicação que o autor apresenta o seu primeiro modelo de aparelho psíquico conhecido como primeira tópica (inconsciente e pré-consciente/consciente).

Uma prova convincente do fato de que o esquecimento dos sonhos é tendencioso e serve aos propósitos da resistência é fornecida quando se tem a possibilidade de observar, nas análises, um estágio preliminar de esquecimento. Não é infreqüente que, no meio do trabalho de interpretação, uma parte omitida do sonho venha à luz e seja descrita como tendo sido esquecida até então. Ora, uma parte do sonho assim resgatada do esquecimento é, invariavelmente, a mais importante; situa-se sempre no caminho mais curto para a solução do sonho e por isso foi mais exposta à resistência do que qualquer outra parte.

(Freud, S., 1899/1999, p. 121)

Descrições oníricas, autoanálise, interpretações, exemplos, esquecimentos, conceitos como censura, resistência, deslocamento, condensação, desejo, histeria etc compõe esta referência fundamental para o estudante das psis e obrigatória para o estudante da psicanálise (que deverá se aventurar também em Psicologia das Massas e Análise do Eu; Luto e Melancolia; Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade; Totem e Tabu, Mal Estar na Civilização; Além do Princípio do Prazer e outros…

Princípios Básicos de Análise do Comportamento

(Artmed, 1ª Edição)

Essa publicação apresenta, de forma bem didática e com vários exercícios de fixação, os pressupostos e desenvolvimentos da visão comportamental (behaviorista) sobre psicologia. Sendo assim, compila e apresenta autores como I. Pavlov, F. S. Keller, E. L. Thorndike, John B. Watson e B. F. Skinner. Diferencia o behaviorismo metodológico do radical e explica conceitos como: as leis do comportamento, contingências ambientais, controle de estímulos, emparelhamento, condicionamento clássico, condicionamento operante, reforçamento, punição, modelagem etc.

As consequências de nossos comportamentos vão influenciar suas ocorrências futuras. Dizer que as consequências dos comportamentos chegam a afetá-los é o mesmo que dizer que as consequências determinarão, em algum grau, se os comportamentos que as produziram ocorrerão ou não outra vez, ou se ocorrerão com maior ou menor frequência.

(Moreira, M. B. & Medeiros, C. A., 2007, p. 42)

Caso goste da temática, aproveitamos para sugerir também o Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição, de A. C. Catania.

Gestalt-Terapia

(Summus Editorial, 2ª Edição)

Uma das correntes de pensamento que faz parte do chamado “terceiro movimento” (ou também “terceira força”) em psicologia é a Gestalt-Terapia, que é uma abordagem com bases, principalmente, humanistas, existenciais e fenomenológicas – desenvolvida no pós II Grande Guerra Mundial.

A publicação destacada é considerada uma das pedras angulares da teoria e reúne textos de F. Perls, P. Goodman e R. Hefferline – fundadores da corrente. Percorre, portanto, conceitos como experiência, sentir, assimilar, contato, insight, awareness, gestalten, neurose, figura/fundo, organismo, teoria de campo, entre outros, e traça uma nova teoria de compreensão do self e dos fenômenos terapêuticos.

A terapia consiste, assim, em analisar a estrutura interna da experiência concreta, qualquer que seja o grau de contato desta; não tanto o que está sendo experienciado, relembrado, feito, dito etc., mas a maneira como o que está sendo relembrado é relembrado, ou como o que é dito é dito, com que expressão facial, tom de voz, sintaxe, postura, afeto, omissão, consideração ou falta de consideração para com a outra pessoa etc. Trabalhando a unidade e a desunidade dessa estrutura da experiência aqui e agora, é possível refazer as relações dinâmicas da figura e fundo até que o contato se intensifique, a awareness se ilumine e o comportamento se energize. E o mais importante de tudo, a realização de uma gestalt vigorosa é a própria cura, porquanto a figura de contato não é apenas uma indicação da integração criativa da experiência, mas é a própria integração.

(Perls, F.; Hefferline, R. & Goodman, P., 1997, p. 46)

Cartas a um Jovem Terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos

(Elsevier/Alta Books, 3ª Edição)

Apesar de ser um livro escrito por um autor psicanalista – Contardo Calligaris – a obra transcende abordagens e, por meio de vários relatos e reflexões, dá toques pertinentes de realidade (com situações concretas e hipotéticas) para qualquer pessoa que tenha intentos de adentrar ou seguir na psicologia clínica e nos caminhos da psicoterapia.

Quando chegou o dia da primeira entrevista do primeiro paciente, eu tinha uma preocupação dupla: queria que o apartamento tivesse cara de consultório, mas também queria que não tivesse cara de consultório no dia de sua inauguração. Afinal, eu pensava, qual paciente gostaria de descobrir que o analista em que ele vem depositar uma esperança de cura é um novato absoluto? Cuidei dos detalhes: uma certa desordem de papéis e notas na mesa, uma pequena desarrumação do acolchoado do divã, para mostrar que alguém já deitara ali, três ou quatro baganas no cinzeiro (na época não só eu, mas a França inteira fumava), para mostrar que, naquela tarde, já me debruçara sobre outros destinos cabeludos.

Esse primeiro paciente se analisou comigo durante sete anos. Era um jovem psiquiatra, que se tornou analista por sua vez. Alguns anos depois dele terminar sua análise, quando eu já era um analista reconhecido e estabelecido, nos encontramos, por acaso, num congresso e conversamos um pouco. De repente, ele me perguntou: “Eu fui seu primeiro paciente, não fui?”.

(Calligaris, C., 2007, pp. 20-21)

É uma publicação não muito extensa e de fácil leitura, que tem se mostrado muito interessante quando discutida por grupos de alunos/estagiários em supervisões clínicas, pois aborda questões, conflitos, fantasias e dúvidas comuns para o universo desse perfil que está em formação – é um livro que pode fascinar ou frustrar muito.

Espero que tenha apreciado as sugestões, caso queira recomendar um livro também, deixe sua sugestão nos comentários 😉

Referências

Bock, A. M. B.; Furtado, O. & Teixeira, M. L. T. (2001). Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva.

Calligaris, C. (2007). Cartas a um jovem terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos. São Paulo: Elsevier.

Freud, S. (1899/1999). A interpretação dos sonhos. Obras Completas – Vol. 05 (1900-1901). Rio de Janeiro: Imago.

Moreira, M. B. & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise de comportamento. Porto Alegre: Artmed.

Papalia, D. E.; Olds, S. W. & Feldman, R. D. (2006). Desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed.

Perls, F.; Hefferline, R. & Goodman, P. (1997). Gestalt-terapia. São Paulo: Summus Editorial.

Schultz, D. P. & Schultz (2014). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Por Caio Ferreira

Explicando a Gestalt-Terapia

Muitas pessoas confundem a Psicologia da Gestalt com a Gestalt-Terapia (Gestalt Therapy) e outras tantas pessoas nem sequer sabem que existe essa abordagem em psicoterapia. Sendo assim, buscarei, no aqui e agora, desmistificar algumas dessas confusões e apresentar os principais fundamentos desta corrente psicológica, além de sugerir, no final, um vídeo exemplificativo com uma sessão. Faço questão de dizer que a explicação que virá, faz parte de como a Gestalt se apresenta para mim neste momento e como eu a sinto agora enquanto escrevo este texto.

Psicologia da Gestalt X Gestalt-Terapia

Primeiramente, Gestalt é uma palavra alemã de difícil tradução para o português, mas que guarda relação com os conceitos de forma ou configuração e a psicologia da Gestalt é, portanto, uma teoria que apresenta leis da boa forma. Leis estas, desenvolvidas por Max Wertheimer (1880-1943), Wolfgang Köhler (1887-1967) e Kurt Koffka (1886-1940), que preocuparam-se em criar sólidos conceitos para que a Psicologia da Gestalt ganhasse consenso internacional e essa, de fato, é ainda hoje, uma das teorias da psicologia que menos ganhou controversas, contradições ou “polêmicas”.

Uma das principais visões dessa teoria é a noção de que “o todo é maior que a soma das partes”, que pode ser visto nos exemplos de imagens abaixo, que apresentam, respectivamente o Cubo de Necker e o Vaso de Rubin (este, contemplando também o conceito de “figura e fundo”).

cubo-de-necker - psicologia da gestalt - psicologia da formapsicologia da gestalt - psicologia da forma - vaso de rubin

Alguns dos fundamentos da psicologia da gestalt foram incorporados, por exemplo, às artes, à publicidade, ao design e também à Gestalt Terapia (como a noção de figura-fundo) que é para aonde estamos caminhando.

Psicologia da Forma - Psicologia da Gestalt - Sociedade dos Psicólogos - CC BY 4.0
(CC BY 4.0)

As Influências da Gestalt-Terapia

Essa abordagem teve influências da psicanálise, da psicologia da Gestalt, da teoria de campo (Kurt Lewin [1890-1947]), , do Humanismo (Martin Bubber [1878-1965]), dos aportes filosóficos da fenomenologia (Edmund Husserl [1859 – 1938]) e do existencialismo (Jean Paul-Sartre [1905-1980] e Maurice Merleau-Ponty [1908-1961]), além de contribuições vindas do zen-budismo e da teoria organísmica (Kurt Goldstein [1878-1965]), por exemplo.

Slide utilizado durante o curso Psicologias: Introdução aos seus Principais Pensadores e Teorias, que ocorreu em 19/10/2019 e apresentou a Gestalt-Terapia aos participantes.

A Gestalt-Terapia

É uma corrente pertencente ao chamado 3ª Grande Força em Psicologia (humanista-fenomenológico-existencial), como uma reação ao behaviorismo à psicanálise. Foi desenvolvida, no pós-guerra, pelo “Grupo dos Sete”, onde se encontrava Friederich Salomon Perls (1893-1970), mais conhecido como Fritz Perls. Esse grupo foi composto, originalmente, por Fritz Perls, Laura Perls, Isadore From, Paul Goodman, Paul Weisz, Sysvester Eastman e Elliot Shapiro, onde, posteriormente, houve a entrada de Ralph Hefferline .

Em resumo, esta corrente da psicologia apresenta um modelo de psicoterapia do contato, da consciência e da relação dialógica, que vê o indivíduo de forma holística (sem separação entre mente e corpo, por exemplo), onde o psicoterapeuta acredita, pelas bases do existencialismo, nos potenciais que o cliente dispõe, para alcançar a experiência significativa positiva, criativa, proveitosa e de responsabilidade para com o seu mundo.

“Diferentemente da dialética, que pretende alcançar uma síntese racional, a dialógica se propõe a ficar com aquilo que é figura na relação terapeuta cliente”

(Ribeiro, 2007, p. 4)

De acordo com Hall e Lindzey (1973) “o dogma principal da psicologia gestaltista sustenta que a maneira pela qual um objeto é percebido é determinada pelo contexto ou configuração total em que o objeto está envolvido. A percepção é determinada pelas relações entre os componentes de um campo perceptivo, e não pelas características físicas dos componentes individuais”. O gestalt-terapeuta não interpreta as ações do seu cliente, mas o convida a entrar em contato com e elas e descrevê-las – busca o fenômeno puro e utiliza de redução fenomenológica.

Vale dizer também que, sobre uma das posturas que acompanham esta abordagem psicoterápica, Perls afirma, em seu texto Gestalt-terapia e potencialidades humanas, contido no livro Isto é gestalt (1977), que “Gestalt-terapia é uma das forças rebeldes, humanistas e existenciais da psicologia, que procura resistir à avalanche de forças autodestrutivas, autoderrotistas, existentes entre alguns membros da nossa sociedade. […] Nosso objetivo como terapeutas é ampliar o potencial humano através do processo de integração”.

Sendo assim, este profissional está, durante a sessão, buscando chamar a atenção e experimentando como ele mesmo e o cliente se portam e se relacionam no momento presente, tendo em vista se este aceita os convites à conscientização – que inclui a atenção aos próprios pensamentos, sentimentos, emoções e comportamentos atuais – ou se este recusa a conscientização, por meio do fuga, do acting out e das incongruências emocionais. Não é raro, por exemplo, que o Gestalt-Terapeuta observe e aponte elementos incongruentes e/ou que caibam desenvolvimento ou amplificação naquilo que diz respeito à comunicação não-verbal do indivíduo e sua atuação não é interpretativa, mas fenomenológica e visa a descrição e a compreensão do fenômeno (aquilo que se manifesta na sessão).

De acordo com o livro Técnicas em Gestalt: aconselhamento e psicoterapia (2016), os autores apontam 5 características que acreditam serem adequadas para a boa prática desta, que são:

  • “um foco nas experiências que emergem aqui e agora (por meio da awareness, da fenomenologia e do princípio paradoxal da mudança);
  • um compromisso com uma perspectiva relacional cocriada;
  • a oferta por parte do terapeuta de uma relação dialógica;
  • uma perspectiva teórica de campo;
  • uma atitude criativa e experimental com relação à vida e ao processo terapêutico.”

Perls & Gloria

A fim de ilustrar e exemplificar melhor como pode ser uma prática com esta abordagem, indico a sessão abaixo, que está gravada em vídeo e mostra um encontro de Gloria com Fritz Perls, com legendas em português.

Em 1964, o psicólogo canadense, Dr. Everett Shostrom, produziu uma série de 3 filmes educativos, que trazem 3 renomados psicoterapeutas (Carl Rogers; Albert Ellis; & Fritz Perls), durante uma sessão de 30 min. com uma mulher de 30 anos, chamada Gloria.

Vídeo original do YouTube.

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Referências:

Hall, C. S. & Lindzey, G. (1973). Teorias da personalidade. São Paulo: EPU.

Joyce, P. & Silis, C. (2016). Técnicas em Gestalt: aconselhamento e psicoterapia. Petrópolis: Vozes.

Ribeiro, E. C. (2007). A perspectiva de intersubjetividade na abordagem gestáltica. Revista IGT na Rede, v. 4, n° 6, 2007, p.2-5.

Shostrom, E. (1964). Three approaches to psychotherapy.

Stevens, J. O. (Perls, F. et al.) (1977). Isto é Gestalt. São Paulo. Summus.

 

Por Caio Ferreira