Ansiedade, Atenção Plena e Black Mirror

“Agora volte novamente a sua respiração. Pausa. Repare como a sua respiração continua por conta própria. Pausa. Sua mente pode se dispersar, apenas deixa ela ir embora, com calma.” E é assim que começa o segundo episódio da quinta temporada de Black Mirror – Smithereens. Não parece não, é um App Mindfulness (ou em português Atenção Plena), a narração transcrita acima é uma meditação guiada. Amplamente utilizado para tratamento complementar dos Transtornos de Ansiedade ou como uma maneira de ser manter o indivíduo focado no momento presente.

Charlie Brooker pode parecer ter diminuído o volume do impacto na quinta temporada do seriado Black Mirror (2011/ ), que já foi tema de texto meu publicado neste blog, Bandersnach. Em vez de propor uma visão de um futuro pessimista de como seria nossas vidas com o avanço da tecnologia na Revolução Digital, neste episódio estamos vendo algo recente, mais especificamente 2018.

Black Mirror: Season 5 | Official Trailer | Netflix

Black Mirror é sobre refletir o efeito da tecnologia em nossas vidas, uma noção que se perde à medida que as facilidades vão aumentando. Você pode dizer que talvez os dispositivos e aplicações apresentadas no seriado nem sejam inventadas, mas o que está em jogo é que todos os dias novas tecnologias são criadas sem regulamentação jurídica e código de ética.

Quando postamos nossas opiniões, fotos em rede sociais, expiamos a vida alheira com likes, curtidas e retweets, solicitamos transporte, remédios, amenidades, roupas, peças de carros, aparelhos eletrônicos e comidas por aplicativos, cada vez que você clica em botão aceito, seu bem mais precioso pode ser utilizado sem sua percepção: suas informações pessoais.

“Meios cada vez mais precisos para fins cada vez mais vagos, são uma característica da nossa época”.

Albert Einstein

Desde os primórdios nossos ancestrais desenvolvem tecnologia, exemplo a invenção da roda, para facilitar a execução e/ou minimizar o tempo de trabalho. Tecnologia Digital faz isto com maestria, cada vez menos intervenções humanas e cada vez mais algoritmos proporcionando autosserviço ao toque das suas mãos. Como sobra mais espaço em nossas agendas, podemos consumir outros conteúdos, e com isto, nosso tempo de vida é consumido.

Persona – Conectando você com o que importa

Após um dia de trabalho nosso personagem vai a cafeteria. Ao ouvir o alarme de notificação dos celulares a sua volta, tem visível aumento de suor, demonstra irritabilidade e alteração comportamento. O intuito desta cena é que seus espectadores identifiquem mecanismos de ansiedade. Geralmente, quando se menciona ansiedade, esta é sempre referida pelo escopo patológico, descrição de transtornos, sintomatologia e tratamentos.

Afinal de conta, o que é Ansiedade?

Ansiedade é o medo de uma ameaça antecipada ou real e incerteza sobre a capacidade de lidar com isso, definição que consta no The Ekman Atlas of Emotions (tradução livre: Altas das Emoções de Paul Ekman). Semelhante ao sinal amarelo do semáforo (farol ou sinaleira, como é conhecido) que indica atenção, mostrando a iminência da parada obrigatória.

Por que nos sentimos ansiosos frente as situações?

A Psicologia Evolucionista aponta que a perpetuação da espécie humana e/ou o instinto de sobrevivência nos equipou com este mecanismo biológico. Você encontrará neste blog no texto a Psicologia das Emoções, a evolução dos estudos e embasamento teórico, mas adianto que medo é uma emoção humana, cuja função principal preservar a vida. Se você não sente ansiedade em certa medida frente a uma situação de perigo, definitivamente você não é humano.

Em outro texto também publicado neste blog (Por que todos desejam ser como Spock?) descrevo mecanismos do desenvolvimento biopsicossoal na Teoria Comportamental Cognitiva, mas aqui irei me ater aos mecanismos cognitivos do desenvolvimento humano.

“As funções executivas do cérebro humano podem ser consideradas um conjunto de processos cognitivos que de forma integrada, permitem ao individuo direcionar comportamentos a metas, avaliar eficiência e adequação destes comportamentos, abandonar estratégias ineficazes em prol de outras mais eficientes e, desse modo, resolver problemas de médio e de longo prazo (Malloy-Diniz, de Paula, Sedó, Fuentes e Leite, 2014).”

Todos os seres humanos deste planeta, independente de ter acesso a educação escolar, possuem este conjunto de capacidades. Porque aprendemos com nossas experiências, podemos ter respostas adaptativas aos problemas apresentados, é com isto, começamos em anteciparmos os acontecimentos.

Daniel Kahneman, o Prêmio Nobel de Economia em 2002, afirma em seu livro Pense Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, que há dois sistemas funcionando em paralelo no cérebro: e o que pensa depressa e é automático – ligado a memória e as emoções – e o que pensa devagar é e racional – isto leva tempo e consome energia. De uma maneira simplificada, podemos dizer que o cérebro funciona no módulo avião, parte do processo de sobrevivência da espécie foi desenvolver uma forma de economizar energia, por isto muitas funções são automatizadas, inclusive o pensamento.

Quando ansiedade vira doença?

De acordo com Robert L. Leahy no seu livro Livre de Ansiedade a reposta é clara e objetiva: é quando o sujeito começa sentir o medo certo na hora errada.

Uma mente pode estar com a sensação de algo está acontecendo novamente, ou que está perdendo o controle. Imagine como é ficar tentando antecipar possibilidades cuja evidências não corroboram para que se realizem?

Leahy afirma que, quando somos dominados pela ansiedade, a mente funciona 24/7, como se o botão liga/desliga estivesse sempre ligado. Um tsunami de pensamentos invade a mente, independe se a vida estiver com alegrias e as coisas estão indo bem, o indivíduo fica preocupado demais com as ansiedades do passado e do futuro, que tudo que está a sua volta fica imperceptível. Isto mesmo, ao contrário do que dizem a ansiedade não é a mente pensando somente no futuro, a mente pode estar presa em algo que aconteceu e revivendo a sensação constantemente.

Ansiedade: Aviso de Utilidade Pública

Os Transtornos de Ansiedade são categorizados nos compêndios médicos CID 10 – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde publicado pela OMS em fase de atualização para CID 11 e DSM V – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Para saber se você é acometido por uma psicopatologia deste grupo, é necessário um diagnóstico adequado que nenhum site de busca não dará para você. O tratamento deve ser realizado com acompanhamento psicológico e medicamentoso, dependendo do grau de comprometimento do paciente.

Aos familiares, amigos e pessoas próximas é sempre importante lembrar que tentar acalmar dizendo ‘não se preocupe’ e ‘vai ficar tudo bem’, quase nunca ajuda efetivamente. A sensações físicas e sofrimentos psicológicos são reais é devem ser tratados com empatia genuína, gentileza e cuidado.

A orientação é buscar profissionais capacitados e treinados que irão auxiliar o indivíduo e familiares o caminho da melhor qualidade de vida.

Vale ressaltar que deste ponto em diante entraremos nos questionamentos e reflexões propostos neste episódio, portanto spoilers estão chegando.

“Descobre o que você puder sobre este cara.”

No início deste episódio, temos um motorista de App de transporte (usando um App de Mindfulness) indo pegar uma passageira na porta Smithereens, que é um App de Rede Social. Ele pergunta para ela se ela trabalha naquela empresa, e a resposta é: “nem estava prestando atenção no que disse, mas não, quem me dera se eu trabalhasse.”

Dia seguinte novo passageiro, mesmo local de embarque, mesma pergunta: “você trabalha na Smithereens?” O rapaz em sua primeira semana de emprego, responde contente com um sonoro sim. Em seguida o motorista diz: “posso utilizar um caminho alternativo?” Duas respostas afirmativas em seguida num episódio de Black Mirror, nunca é bom sinal. O motorista pacato se revela um sequestrador armado, com ações premeditadas e com um único objetivo: falar com o ‘Todo Poderoso’ dono do Smithereens (App de Rede Social).  

O sequestro ganha contornos dramáticos quando o carro do sequestrado e sequestrador é cercado por várias viaturas da polícia. Os agentes têm dificuldades identificar o motorista, pois a placa do veículo está no nome de uma mulher. Quando o sequestrado liga do celular do sequestrador para Smithereens, o número é rastreado. Alguns cliques depois, os funcionários da rede social fictícia conseguem, como dizem por aí, levantar a capivara do sujeito do motorista/sequestrador. Gostos musicais, quantidades de acessos, compras, documentos, viagens, e como um passe de mágica um hacker disponibiliza o áudio do celular, e passamos a ouvir tudo que sequestrador e sequestrado conversam no carro. Até os agentes da polícia se impressionam…

Enquanto vidas correm perigo, usar a tecnologia para nossa proteção pode ser uma estratégia fantástica. No filme V de Vingança, o terrorista V diz: “eu entendo por que o medo fez com o que as pessoas entregassem sua liberdade em troca de segurança”. Bauman fala em seus livros sobre o Medo Líquido, que ocorre em relações amorosas, conflito entre países e instituições, que deixaram a ultrapassada solidez para um estado líquido impermanente, isto é atribuído ao medo.

“Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.”

Zygmunt Bauman

Você pode me dizer que não teve escolha. O mundo ficou grande demais, populoso, globalizado e concentrou riqueza em pouquíssimas mãos, e talvez por isto, o controle comportamental pelas plataformas digitais se tornou como vilão dos filmes da Marvel Thanos se auto proclama: inevitável.

No mesmo dia da postagem deste texto, o especialista em cibersegurança Marcelo Lau em entrevista ao Programa Pânico explicando como as mídias digitais impactam sua vida.

“Quero que você apenas me escute, apenas me escute.”

Enquanto isto, o sequestrador permanece irredutível, a única maneira de evitar uma tragédia é ter que interromper o retiro de dez dias em silêncio do “Todo Poderoso” dono da Smithereens (uma espécie de detox sem eletrônicos, sem falar e sem contato humano) que se demonstra disponível para atender a exigência e falar com o sequestrador. Muito suspense, manipulação e jogo de poder, jurídico e assessores dentam demover seu patrão a mudar de ideia, mas não conseguem. Aqui uma frase reveladora, quando este resolve atender a demanda do sequestrador, diz: “a vantagem de estar na minha posição é que eu posso brincar de ser Deus”.

Neste momento, uma pausa para uma reflexão. Em tradições religiosas seculares, Deus é onipresente e onisciente, ou seja, está em todo lugar e sabe de tudo. A ideia de falar com o criador é um desejo antigo do ser humano, espantou muitos quando Mary Shelley assombrou o mundo literário com seu romance Frankenstein em 1816, e de vez em sempre, a ficção nos assombra com mesmo tema passando por Blade Runner (1982) ao seriado Westword (2016/ ) do HBO.

Neste caso, nosso sequestrador apenas queria confessar uma falha, algo que vez com que ele perder sua razão do seu viver. Apenas porque naquele instante ele deixou o momento presente e foi olhar seu celular, que disparou uma notificação aleatória. Nosso “Todo Poderoso”, que tem aparência messiânica, fala calmo e tranquilo diz que não foi por isto que seu App foi criado. O objetivo inicial se perdeu com o tempo, cada vez mais pessoas subordinadas entravam no circuito, dando sugestões de melhorias que fizessem a rede social mais atrativa, estimulante e consequente mais viciante.

Não vou revelar o final do episódio aqui, para não estragar a experiência, entenda isto como um convite. O objetivo é expor o quanto associamos ansiedade com o mundo contemporâneo em que vivemos, devido a constante eminência do perigo tecnológico e Black Mirror faz isto como nenhuma outra proposta de entretenimento.

O fato também inegável é que não há como parar a Revolução Digital. Antes bastava pensar para existir. A exigência agora é que para existir é preciso ser visto, curtido e compartilhado, nem que seja por seguidores comprados. Talvez seja necessário regularizar, criar jurisprudência, aprender com os erros passados e ter mecanismos de segurança, pelo menos esta é a bandeira do Mark Zuckerberg, dono do Facebook.

“Não é possível que eu não possa fazer nada por você.”

Assim como no seriado, você encontrar com uma facilidade aplicativos de Mindfulness na sua loja de App. Repare que há uma crítica ao formato como vem sido utilizada. O sequestrador usa Atenção Plena para aparentar calma ao manter-se na execução do seu plano. Este definitivamente não é para que que a Atenção Plena foi desenvolvida. Como qualquer tipo de atividade, precisa fazer sentido para quem a faz, sem isto, qualquer que seja a prática perde sentido e com isto, deixa de ser praticada.

Pesquisas cientificas revelam que mentes que conseguem manter-se no momento presente são mais funcionais e tem uma melhor qualidade de vida. Como o texto está bem longo, prometo dedicar um próximo texto sobre aplicações e efeitos de Mindfulness.

Recentemente, ouvi numa palestra na Taverna Medieval em São Paulo, na semana do Pint of Science, o Lama Rinchen dizendo que meditação “não é dizer o que uma pessoa deva fazer, mas guiá-la para que ela encontre a si mesmo no processo”.

Diante de qualquer que seja a sua necessidade, se faz necessário recordar a frase que ficava no pátio do Templo de Apolo em Delfos na Grécia Antiga: ‘Conheça a ti mesmo’. Observe este interessante complemento da Enciclopédia Grega Suda de conhecimento do século X, a frase citada: “o provérbio é aplicado àqueles que tentam ultrapassar o que são“, ou “ainda um aviso para não prestar atenção à opinião da multidão.”

Psicóloga Masilvia Diniz

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BLACK MIRROR – Smithereens (5S2E). Criação: Charlie Brooker: Netflix, 2019. Streaming (70 minutos).

BAUMAN, ZYGMUNT – Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004b BAUMAN, ZYGMUNT –

CONHECE A TI MESMO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Conhece_a_ti_mesmo&oldid=55470184>. Acesso em: 12 jun. 2019.

LEAHY, Robert L. Livre de ansiedade / tradução: Vinicius Figuiera; revisão técnica: Edwiges Ferreira de Mattos, Rodrigo Fernando Pereira – Porto Alegre: Artmed, 2011. 248p.

KAHNEMAN, DANIEL. Rápido e devagar [recurso eletrônico]: duas formas de pensar / Daniel Kahneman; tradução Cássio de Arantes Leite. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS: DSM V [ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition], Tradução Maria Inês Correa Nascimento. Porto Alegre. Ed.: Artmed, 2014

MALLOY-DINIZ, Leandro F.; CAMARGO, (Org.). Neuropsicologia: aplicações clinicas. Porto Alegre: Artmed, 2016.p. 291.

MLA style: Daniel Kahneman – Biographical. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2019. Thu. 20 Jun 2019. <https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/2002/kahneman/biographical/

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. CID-10 : Classificação Internacional de Doenças. São Paulo : EDUSP, 1994, 1ª ed.

Game of Thrones or Game of Words

Game of Thrones chegou ao fim.

Durantes anos, uma legião de espectadores assistiram na HBO e compartilharam suas opiniões através de inúmeras teorias, memes e spoilers dos episódios tentando prever quem ascenderia ao Trono de Ferro.

Há uma década antes de ser o seriado mais assistido/pirateado da história recente, inúmeros e ávidos leitores clamavam por uma adaptação das Crônicas de Gelo e Fogo, publicação de uma série dos atuais cinco e pretensos sete livros escritos por George R. R. Martin, jornalista de formação, escritor desde da década de 70 de ficção cientifica, terror e fantasia e roteirista de series de TV entre os anos 80/90.

O autor estava cansado de ver seus enredos anteriores mutilados para servir ao propósito comercial dos produtores de TV. O objetivo inicial de Martin com suas Crônicas era contar uma história que não pudesse limitar-se por questões geográficas, introdução de personagens e principalmente por prazo de entrega. O último livro da saga foi lançado em 2011. Nos anos que se seguiram, o autor produziu contos, novelas e livros dentro do mesmo universo, seguindo o seu projeto original enquanto a série estava indo por outros caminhos.

Algo em particular despertou o fascínio do público tanto nos livros quanto na série. Quando se pergunta ao seduzido espectador o porquê gosta do Universo de Game of Thrones, a resposta comumente é a mesma: não há a dicotomia, que é tão habitualmente é utilizada nas histórias de gênero, ou seja, nenhum personagem essencialmente do Bem ou do Mal. Dentro deste contexto qualquer personagem pode fazer uma coisa abominável com o objetivo de fazer ‘o melhor para o bem de todos’.

As Crônicas de Gelo e Fogo são um tratado sobre o discurso, a habilidade de colocar em palavras as estratégias sem dizer qual é o próximo passo aos seus oponentes. O Jogo dos Tronos é muito mais do que uma disputa para ver quem governará os Sete Reinos, é um jogo das palavras.

Alerta de Spoilers

Este texto foi construído com o objetivo de introduzir dos conceitos do um outro livro, Comportamento Verbal de B. F. Skinner, por isto, utilizei alguns diálogos dos livros/série sem revelar nenhum detalhe da trama. Devido a crescente decepção no final com a série, neste texto exponho argumentos sobre que lições podemos aprender sobre expectativa versus realidade.

Sala das Faces, na Casa do Preto e do Branco. É sim, está na foto sou eu.

Você não sabe nada, Jon Snow.

Ygritte, 2º Ep. 7º Temp.

Quando bem escritas, obras de ficção nos apresentam personagens com coerência narrativa, cujas ações/emoções sempre estão no volume máximo ou mínimo e categoricamente com efeito distorcido. Um bom exemplo de personagem coerente passível de análise psicológica é Hamlet, tragédia escrita por Willian Shakespeare, que posteriormente foi analisada pelo psicanalista Ernest Jones no livro ‘Hamlet e o Édipo’ (Ed. Zahar 1970).

As Crônicas de Gelo e Fogo é uma obra ficcional, que é contada pelo ponto de vista do personagem que está narrando o capítulo. Os entendedores sabem que para ter uma visão panorâmica da história é necessário montar um quebra cabeça intricado. Nos livros como a narrativa esta em primeira pessoa, em alguns capítulos temos um vislumbre do que se passa dentro da mente de um personagem quando este está pensando. No capítulo seguinte, outro personagem assume a narrativa, novas informações são inclusas na história, e isto fornece mais dúvidas do que certezas sobre, digamos assim, o caráter dos personagens. Especificamente na Dança dos Dragões, quando os acontecimentos são interrompidos apresentam nuanças jamais vistas dos personagens, vide exemplo Lord Varys.

No caso da série de TV, a complexidade ainda é maior, pois os espectadores tem uma visão ampla, com pontos de vistas diferentes da mesma cena sendo contada ao mesmo tempo. Como parte do entretenimento é tornar a história imprevisível e não há tantos diálogos expositivos, o espectador é capturado para dentro do episódio através da visão de um dos personagens. Quanto mais coesa e coerente a narrativa é, mais seus espectadores conseguem manter a suspensão de descrença, a capacidade de assimilar os acontecimentos da historia sem perceber, como dizem, ‘que algo de errado não esta certo’.

“O homem que dita a sentença deve brandir a espada.”

Ned Stark, 1º Ep. 1º Temp.

Na Psicologia Comportamental, B. F. Skinner em estudos no seu laboratório, percebeu que o quê falamos também expressa comportamento. Isto pode parecer se tratar da língua materna e da aprendizagem por fonemas (sons), mas é um pouco mais complexo do que isto, há uma correlação entre o conteúdo e a forma.

Segundo Skinner, o comportamento verbal é comportamento operante, agindo sobre o ambiente e sofrendo as consequências da alteração que provoca nele. Estas consequências – como o reforço e a punição – determinarão a probabilidade de emissão futura da classe de respostas que integram o operante (Passos, 2003). Porém isto é compartilhado com uma comunidade social constrói esta mediação moldando as ações de seus membros para poderem ensinar outros membros como verbalizarem efetivamente através de formas apropriadas de ação (Vargas, 2007).

“A humanidade age sobre o mundo, e o modifica, e é mudada por sua vez, pelas consequências de suas ações

Skinner, Comportamento Verbal

Através da evolução genética e organização social, ensinamos e praticamos a linguagem como parte do nosso conjunto de comportamentos emitidos. Ressalto que o contexto de análise deva considerar o conjunto dos comportamentos verbais e não verbais para uma avaliação, e com isto, evitar descontextualização.

Imagine que ao aprender a falar a sua primeira frase uma criança diga: “o céu é azul”, o comportamento fora emitido, porém este será validado assim que passar pela aprovação em conteúdo e contexto, ou seja, sua mãe respondendo: “sim o céu é azul”. Nosso indivíduo pode continuar repetindo sua fala sobre o céu, mas se a comunidade ao seu redor não concordar com o que foi dito, ele terá que reavaliar sua fala até que esteja readequada. Você pode me dizer que nada mudará a cor do céu, isto é fato; mas não é exatamente típico um adulto puxar uma conversar dizendo ‘o céu é azul’.

Algo em Game of Thrones fornece substância aos personagens e que conecta com sua linhagem e trajetória. Seja por autoafirmação ou para se posicionar no jogo ou em diálogos com outros personagens que fazem sempre se lembrem quem são e qual é o papel eles tem nesta história: o lema das casas.

Casa Targaryen

Lema: Fogo e Sangue. Estandarte: Dragão vermelho com três cabeças num fundo preto escrito.

“Sou Daenerys, filha da tempestade, da casa dos Targaryen, do sangue da antiga Valíria. Eu sou a filha dos dragões, e eu juro que aqueles que querem prejudicá-los morrerão gritando.” Daenerys Targaryen

Casa Stark

Lema: O Inverno Está Chegando.
Estandarte: Lobo gigante cinza com fundo preto.

“O homem que dita a sentença deve brandir a espada.” Ned Stark

Casa Lannister

Lema: Ouça-me rugir. Eles preferem dizer que “Lannister sempre pagam as suas dívidas”.
Estandarte: Leão dourado num fundo vermelho.

“Quando se entra no jogo dos tronos, ou ganha ou morre.” Cersei Lanister

Como afirma Skinner, os indivíduos são moldados de acordo com as consequências de suas ações. Em GoT, os personagens em suas falas, expõem aos outros quais são suas motivações internas e os demais podem validar ou não dependendo das circunstancias.

Valar Morghulis*

Jaqen H’ghar, 2º Ep. 10º Temp. *Todos os homens tem que morrer. Alto Valeriano língua fictícia dos livros.

Expectadores estão (digamos assim) decepcionados com os rumos tomados pelos produtores da série de TV, David Benioff e D. B. Weiss (comumente conhecidos como D&D). Nas redes sociais após a exibição do último episódio, o gosto agridoce que Martin disse que a história teria no fim, quando transposto para TV ficou amargo.

Em seu início a série de TV era promissora, conseguiu adaptar com qualidade ‘O Jogo dos Tronos’, primeiro livro das Crônicas. Quanto mais se avançava, mais complexa a narrativa dos livros ficava, mas o fandom questionava decisões ora inexistente nos livros ora sem nexo dos personagens.

Se compararmos a adaptação do Senhor dos Anéis pelo diretor Peter Jackson, muitos dirão que os filmes superaram os livros. Isto acontece porque Tolkien não era um escritor, ele não tinha habilidade de contar uma história. Martin é, leva em média cinco anos para escrever um livro. Frequentemente seus leitores não se sentem representados com o que assistem na HBO.

Trailer do 6º Episódio 8º Temporada Season Finale

Valar Dohaeris**

Verme Cinzento, 3º Ep. 8º Temp. **Todos os homens devem servir. Alto Valeriano língua fictícia dos livros.

Os argumentos que sustentam a defesa dos produtores, apontam que eles compraram o desafio de transpor uma história que não havia sido apropriadamente terminada. Quando a série ultrapassou os livros em enredo, negociaram com Martin quais seriam os pontos chaves da trama, assumindo a responsabilidade de preencher lacunas.

Martin afirmou que não ficou muito satisfeito com as resoluções da série, mas também confessou aos 60 Minutes Overtime que não forneceu detalhes de como estes eventos impactariam no comportamento dos personagens e tramas secundárias que facilitam a narrativa.

Conveniências de roteiro fizeram com que uma personagem citasse ipsis litteris Maquiavel – O Príncipe cujo o capítulo XVII – Da Crueldade e da Piedade – Se é Melhor ser Amado ou Temido. Será que na Cidadela temos um exemplar desta obra clássica? Brincadeiras a parte, Martin também poderia se inspirar em Maquiavel, mas certamente seria mais sutil.

George R.R. Martin o autor em entrevista para 60 Minutes Overtime

Será que os personagens terão o mesmo destino da série nos livros?

Assim como seus personagens, um escritor também tem que pagar suas dívidas. Martin disse que não optou ver como a série acabaria para dar sequência à história da sua maneira. “Os livros estarão prontos quando estiverem prontos.” Se um dia veremos a história terminar como está sendo concebida pelo seu autor, somente o tempo dirá.

D&D cumpriram o que se prometeram em fazer: maior série de TV de todos os tempos. Em retrospecto, Game of Thrones, pode ter inovado em efeitos especiais, elenco e quantidade de figurantes, filmagens em locações ao redor do mundo e outros números fabulosos que serão revelados no documentário Game of Thrones: “The Last Watch”.

Trailer do documentário Game of Thrones: The Last Watch

Realmente o ficará na memória dos que viveram este momento, é o fato de milhões de pessoas ao redor do mundo terem a sensação pertencerem a uma comunidade: ter o aumento do número de ‘likes’ ao marcar #gameofthrones nas redes sociais, tendo argumentos para iniciar um papo com desconhecidos, repetir frases dos seus personagens favoritos e receberem feedbacks emocionais, e quem sabe, sentirem-se validados por outras pessoas naquilo que com o que se identificam. Talvez seja esta a maior parte da frustação, o fato é que a realidade bate a porta, depois de nove anos a série chegou ao fim.

O fim da série não é o fim da comunidade, o comportamento verbal precisa se manter acesso. Está aberta a temporada de ‘fanfics’, versões alternativas escritas pelos fãs para editarem o final que satisfaçam as expectativas frustradas. Enquanto isto, HBO pode se gabar da série ser a primeira vez que veremos esta história, mas certamente não será a última.

Masilvia Diniz, primeira de seu nome e Psicóloga

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A SONG OF ICE AND FIRE. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=A_Song_of_Ice_and_Fire&oldid=55076890>. Acesso em: 8 mai. 2019.

EMBLEMA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Emblema&oldid=52569191>. Acesso em: 5 jul. 2018.

GAME OF THRONES – Seasson Finaly. Criação David Benioff e D. B. Weiss: 2019. TV Series. HBO.

GEORGE R. R. MARTIN. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=George_R._R._Martin&oldid=54941523>. Acesso em: 25 abr. 2019.

GEORGE R. R. MARTIN. (2010) As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro 1 a Livro 5. São Paulo. Editora Leya.

J. R. R. TOLKIEN. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=J._R._R._Tolkien&oldid=54930581>. Acesso em: 24 abr. 2019.

MAQUIAVEL. (1999). O Príncipe. Maquiavel – Vida e Obra. São Paulo. Editora Nova Cultural.

PASSOS, L. R. F, Maria. A análise funcional do comportamento verbal em Verbal Behavior (1957) de B. F. Skinner. (2003). Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Rio de Janeiro. Vol. V, nº 2, 195-213. Disponível: https://scholar.google.com.br/scholar?hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5&q=A+an%C3%A1lise+funcional+do+comportamento+verbal+em+Verbal+Behavior+%281957%29+de+B.+F.+Skinner&btnG=

SKINNER, B. F. (1957) O Comportamento Verbal. Cambridge, MA: B. F. Skinner Foundation.

60 MINUTES OVERTIME. How will George R.R. Martin’s final “Game of Thrones” books end? 2019. (3m3s). Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=SjDentEr9c4&t=11s

VARGAS, A. Ernst.  O Comportamento Verbal de B. F. Skinner: uma introdução. (2007). Belo Horizonte. Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Belo Horizonte-MG, 2007, Vol. IX, nº 2, 153-174172. Disponível: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452007000200002

Por que todos desejam ser como Spock?

“O espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de cinco anos para a exploração de novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve!”.

Esta é abertura padrão de todos os episódios da consagrada série Star Trek, que no Brasil nas décadas de 80/90 passava na TV aberta com o nome de Jornada nas Estrelas. A série originalmente produzida para TV americana com 3º temporadas e 79 episódios procedimentais,

estruturados para serem histórias fechadas, tinha como elenco principal o comandante da tripulação o Capitão James T. Kirk e seus homens de confiança o oficial chefe médico Leonard McCoy e o primeiro oficial, segundo em comando e oficial de ciências Sr. Spock.

Algo particular sobre Sr. Spock era pontuado pelos demais personagens, além de ser um alienígena originário do planeta Vulcano, possuía a habilidade de resolver problemas de forma lógica desprezando emoções, é isto causava desconforto com os outros personagens do seriado. Em diversos momentos, o estranhamento era percebido quando uma resposta lógica desconsiderava valores morais e/ou questões éticas. Porque ainda hoje pessoas desejam resolver questões vitais de forma pragmática? É se isto fosse possível, o Homo sapiens evoluiria neste contexto?

Antes de seguirmos em frente, ressalto que existem várias analises psicológicas sobre a representação simbólica da tríade Kirk, McCoy e Spock, portanto nossa missão não irá por este sistema solar. Neste texto, o que irei assumir de forma isolada a dimensão que o personagem Spock ganhou em nossa cultura. Como ponto de partida, uma abordagem que é também contemporânea da série, a Teoria Comportamental Cognitiva, nos acompanhará na aventura.

Neste diário de bordo data estelar 282.17, o fenômeno eletromagnético conhecido como Efeito Murasaki 312 (citação do Episódio 17º “O primeiro em comando” da 1º Temporada) se espalha como uma tormenta no fantástico mundo da internet: o embate entre razão versus emoção.

Na ponte de comando, o Capitão Kirk ordenaria a velocidade para o início da aventura ‘Sr. Sulu, mantenha em velocidade de dobra 7’.

“É curioso como vocês humanos conseguem tantas vezes obter aquilo que não querem.”

Spock, Star Trek T03E01

Spock povoa a cultura pop mais de 50 anos. Mascote informal da Agência Espacial NASA, o ator Leonard Nimoy que imortalizou o personagem, fora recepcionado Cabo Canaveral em 1967 pelo astronauta John Glenn após o termino da primeira temporada.

Quando fora ameaçada de ser cancelada por baixa audiência no final da segunda temporada, a emissora teve a informação de quem era seu público cativo: assistido por cientistas, curadores de museus, psiquiatras, doutores e professores de universidade, a grande maioria de pessoas letradas. Se não fosse uma mobilização em massa, a série não chegaria a terceira temporada. Começou com uma enxurrada de cartas (tecnologia da época) que se igualava a série mais famosa da emissora, o The Moonkes (um grupo de rock que tinha um apelo semelhante aos The Beatles), chegando a uma manifestação de estudante do centro de Instituto de Tecnologia da Califórnia marchou para frente dos estúdios da NBC carregando cartazes dizendo “Escolham Spock” e “Poder Vulcano”. Apesar de ser efetivo, não foi eficiente, com orçamento muito menor do que as temporadas anteriores, não agradou o público e não foi renovada. Em suas reprises, ganhou público cativo e passou a fazer parte do imaginário da cultura pop.

Nas décadas seguintes, o Sr. Spock, foi reverenciado em musicas, filmes, seriados, desenhos (inclusive o aclamado The Simpson), videoclipes e até no WhatsApp tem um emoji com sua saudação típica. Inúmeras vezes o personagem Sheldon desejou ser Spock na série The Big Bang Theory ( Warner Bros. Television  em sua ultima temporada). No lançamento do terceiro filme da recente leva Star Trek: Beyond (2016), nos despedíamos de Nimoy (falecido em fevereiro/2015) e ao mesmo tempo seu filho lançava o documentário contando a vida do ator intitulado “For the Love of Spock” disponível na Netflix.

“Como eu posso ter sido tão tolo? Ao ponto de seguir uma raça alienígena inventada pela televisão? Sheldon, The Big Bang Theory. T9EP07

Se esta pergunta titulo deste texto fosse feita ao personagem da série clássica exibida de setembro entre 1966 a 1969,originalmente produzida o canal de televisão americano NBC e disponível na plataforma Netflix, provavelmente a resposta seria:

“Após algum tempo, você vai perceber que ter não é tão agradável como querer. Não é lógico, mas é normalmente verdade.” (citação do 1º episódio da segunda temporada Amok Time).

“A mudança é um processo essencial a toda a existência.”

Spock, Star Trek – T03E15

No começo anos 1960 também nos Estados Unidos, Aaron Beck com formação psicanalista (especialista na teoria desenvolvida pelo Dr. Sigmund Freud) e seus colaboradores, começaram a trabalhar em pesquisas de dados dos sonhos dos seus pacientes e encontrará um padrão de sonhos masoquistas em pacientes deprimidos. Após inúmeros estudos fizeram com que a equipe abandonasse a hipótese inicial, concluiu que “certos padrões cognitivos poderiam ser responsáveis pela tendência de o paciente fazer julgamento de si mesmo, de seu ambiente e do futuro que, embora menos proeminentes no período fora o episodio depressivo, se ativariam facilmente durante os períodos de depressão. (Beck,1967)”

Descartes cunhou a frase iluminista “Penso, logo existo”, certo? Bem, até Antônio Damásio, neurocientista em seu livro o “O Erro de Descartes” descrevendo o caso Phineas Gage, colocou em xeque está máxima, dado que a perda de massa cerebral do lobo frontal ocasiona drástica mudança de comportamento. Considerando que isto ocorre com uma porção mínima da população mundial, os que possuem o frontal intacto em teoria, possuem a capacidade de pensar. Portanto é seguro fazer a seguinte pergunta: é se o que você pensa te faz você existir em sofrimento?

Digamos que ocorreu uma situação, imagine um fato qualquer, enquanto você lê este texto ouve, por exemplo, uma freada de carro. Primeiro o barulho, instantaneamente isto pode ter mobilizado uma mudança de humor e/ou sensação física, que de acordo com a sua história de vida, gera um (ou uma cadeia de) pensamento(s), estes sendo desagradáveis podem retroalimentar as mesmas sensações físicas e/ou alterações do estado de humor. Esta mesma situação pode gerar reações distintas em pessoas diferente, ou até a mesma pessoa pode interpretar a mesma situação de formas diferentes em diferentes fases da sua própria vida. Uma mente em constante atividade, cuja as emoções tem como base o pensamento, gerando raciocínio, afetos e condutas que permitem o indivíduo ter maior ou menor percepção da realidade.

Ambiente, pensamentos, reações físicas, estados de humor e comportamento, atuam interligados, ora um protagonista e ora os demais como coadjuvantes, “os cinco mobilizam os aspectos das experiencias de vida do indivíduo.” (Padesck, 1995).

Perceba na imagem a importância do fator ambiente. Na Terapia Cognitiva Comportamental a individuo é “biopsicossocial”, gerado através da carga genética, fruto do meio o ambiente sócio-econômico-cultural e sua constituição psíquica, e a partir do seu desenvolvimento cognitivo ser capaz de se relacionar com o mundo.

“Se nosso pensamento fica atolado de significados simbólicos distorcidos, pensamentos ilógicos e interpretações erradas, nos tornamos, de verdade, cegos e surdos.” Aaron Beck

Anamnese Procedimental

Antes de iniciar esta parte do texto, peço desculpas aos fãs da série caso alguma informação esta errada e/ou suprimida. Meu conhecimento aqui apresentado é baseado na série original que ainda permanece disponível em streaming e em textos retirados da internet. Em nenhum momento tive a intenção de desrespeitar, mas apenas homenagear este personagem. Caso desejar, fique a vontade para corrigir o fato/dados encaminhando mensagem no box no final do texto.

Spock nasceu em Vulcano (planeta fictício) e foi submetido ao processo de condicionamento para hipervalorizarão do raciocínio lógico e total repressão das emoções, baseado nos ensinamentos do filósofo (também fictício) Surak que prega a lógica para guiar a vida. Através de um ritual de meditação diário, os vulcanos mantém-se em controle, sem isto, perdem de sí mesmos e se transformam em bárbaros novamente. Outro fator constitui a persona Spock, fruto da união entre a terráquea Amanda Grayson e embaixador Vulcano Sarek (ser extraterreste humanoide desse planeta fictício) por ser um hibrido, ele é não é bem aceito em sua comunidade. Sempre que possível seja por vulcanos e mais comumente por humanos, é colocado em xeque capacidade de se comportar como a cultura Vulcana demanda.

No auge da série, o ator Leonard Nimoy observava Spock como alguém que vive “lutando para manter uma atitude vulcana, uma postura filosófica vulcana e uma lógica vulcana, se opondo a aquilo que está lutando em seu interior, que era a emoção humana”.

“Fatos insuficientes convidam sempre ao perigo.”

Spock, Star Trek T01E24

O cenário está montado, já temos um personagem, uma abordagem teórica, o contexto biopsicossocial.

A ideia é sedutora, resolver questões apenas com raciocínio logico, menosprezando a existência das emoções, sendo capaz de calcular com precisão quais sãos os riscos e fazer a escolha com menor prejuízo. Ressalto aqui, se o computador de bordo forneceu corretamente os dados, o que mantem a capacidade de racionalizar dos Vulcanos não é uma característica genética, em vez disso um processo de condicionamento e autocontrole.

Ressalto que a abordagem da Teoria Cognitivo Comportamental tem como objetivo utilizar técnicas que viabilizam o minimizar o sofrimento do individuo e melhora de sua qualidade de vida. A ideia do texto e apresentar conceitos básicos que façam com o leitor perceba o cerne da questão: a maneira que o individuo conduz sua vida é baseada em capacidade cognitiva e seu constructo . Algo como: ‘somos como nos percebemos e aquilo que aprendemos ser’. Spock, por questões filosóficas e culturais, realmente acredita que suas decisões são baseadas tão somente em lógica. Fascinante!

No episódio “O primeiro comando”, uma equipe vai fazer uma exploração num planeta, dado que parte da missão espacial é informações e amostras para compor base de dados para pesquisas. Devido a um efeito eletromagnético a nave exploradora perde contato e não tem combustível suficiente para retornar a Enterprise. Após inúmeras tentativas propondo inclusive deixar tripulantes para trás, a solução foi propor uma manobra arriscada, com baixa possibilidade de sucesso e que no máximo possibilitaria ter contato visual pela Enterprise que acionaria o teletransporte.

Ao retornar a nave, Spock fora questionado pelo Capitão Kirk: “não vai admitir que a solução encontrada para salvar os tripulantes fora um ato de desespero.” A reposta de Spock não poderia ser outra: “não, foi uma solução lógica”. Kirk discorda: “mas foi um descontrole emocional” e Spock permanece em sua posição: “Não concordo.”  Kirk finaliza: “Sr. Spock o senhor é teimoso.” Spock diz: “sim, eu sou.”

No episodio ‘Amok Time‘, o Sr. Spock tem reações e falas agressivas que são reparadas por diversos tripulantes. Ao ser interpelado pelo Capitão Kirk, Spock explica que devido a uma questão biológica vulcana, os exames médicos constataram altos níveis de adrenalina e poderá morrer se não retornar ao seu planeta natal para o ritual de acasalamento. Devido a urgência, a Enterprise e desviada de sua missão e mantem-se em orbita de Vulcano. No cerimonial, a noiva prometida não aceita a união e propõem um luta entre Spock versus Kirk, que perde o embate e cai morto.

Ao ver Kirk morto, a Spock sai do estado febril e descrito pelo mesmo como “estado de loucura” que se encontrava e liberta sua noiva para que o seguir com outro vulcano. Ao subir na Nave, Spock é surpreendido ao ver o Capitão Kirk vivo (que havia recebido uma injeção do Dr. McCoy que paralisa o corpo) e demonstra com através de expressões faciais emoções de surpresa e alegria e ao alterar o tom de voz ao dizer: “Jim”.

Ao ser questionado sobre sua reação, Spock apenas diz: “foi apenas uma reação muito lógica, por não ver a frota perder um excelente capitão”. McCoy apenas diz: “que não está plenamente convencido”. É você leitor, está convencido?

“Quando você elimina o impossível, o que restar, embora improvável, deve ser a verdade.”

Spock, Star Trek VI

O embate emoção versus razão. Diversas abordagens psicológicas e os recentes conhecimentos da neurociência concordam sobre o fato é que se não fossem as emoções humanas jamais teríamos chegado tão longe como espécie.

Em sua publicação Razão, Emoção e Ação em Cena: A Mente Humana sob um Olhar Evolucionista, a pesquisadora Angela D. Oliveira, apresentou como considerações finais é “que se procurou demonstrar é que tomar decisões, comportar-se de uma determinada maneira, fazer escolhas, agir como free-rider (tradução livre: impulsivamente) ou seguir padrões morais do grupo dependem tanto de mecanismos racionais quanto emocionais. Ingênuo pensar os indivíduos da espécie humana pautando-se em avaliações de custo-benefício de suas condutas, prescindindo das emoções.”

Ressalto que Spock é, por assim dizer, meio humano e você (assim espero) é um humano inteiro.

Como complemento deste texto, recomendo o vídeo ‘Como seria viver sem emoções’ do Canal Nerdologia. O vídeo também analisa o primeiro oficial da Enterprise, além de embasar de forma cientifica a importância das emoções em humanos.  Além de simular como seria a personalidade do Sr. Spock se fosse bem-sucedida a exclusão de suas emoções, certamente, os espectadores jamais conseguiríamos nos identificar com o personagem.

Isto acontece por causa de outro conceito que valeria outro texto, a Teoria da Mente. Por enquanto, podemos dizer que além de outros atributos, é a capacidade de reconhecer nas pessoas emoções semelhantes a que individuo possui em seu repertório. É isto só é possível porque o Homo sapiens expressa emoções de forma patronizada não importando a região do globo (ou platô, como dizem por ai), língua, cor de pele como revela os estudos do Dr. Paul Ekman (mas isto é assunto para outro colega, não é Caio Ferreira).

Me despeço como Spock faria: Vida Longa e Próspera.

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Masilvia Diniz

Bahls, S. Clair e Navolar, Ariana B. Borba. Razão, Emoção e Ação em Cena: A Mente Humana sob um Olhar Evolucionista. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Jan-Abr Vol. 22 n. 1, pp. 053-062 (2006). Brasília
Disponível: http://www.scielo.br/pdf/%0D/ptp/v22n1/29844.pdf

DAMÁSIO, Antonio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. (1998) São Paulo: Schwarcz.

Greenberger D. e Padesky C. A. Vencendo a Mente com Humor: Mude como você se sente, mudando o modo com você pensa. (1999) Tradução: Andrea Caleffi. Porto Alegre: Artmed.

LISTA DE EPISÓDIOS DE STAR TREK: THE ORIGINAL SERIES. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Lista_de_epis%C3%B3dios_de_Star_Trek:_The_Original_Series&oldid=53583005>. Acesso em: 17 mar. 2018.

Nerdologia. Como seria viver sem emoções. 2015 (5m47). Disponível:
https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=PO7GZ1DsPpo Acesso: 20 mar. 2019

Oliva, Angela D. Terapia Cognitivo-Comportamentais: Conceitos e Pressupostos Teóricos. (2004). Curitiba. Disponível: http://files.personapsicologia.webnode.com/200000093-024d10346f/Terapias%20Cognitivo-comportamentais.pdf

Star Trek – A caminho de Babel (Jorney to Babel) T2:E10. Criação: Gene Roddenberry: NBC, 1968. Streaming Netflix. (50 minutos).

Star Trek – Tempo de Loucura (Amok Time) T2:E1. Criação: Gene Roddenberry: NBC, 1968. Streaming Netflix. (47 minutos e 50 segundos).

STAR TREK. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Star_Trek&oldid=54072910>. Acesso em: 15 mar. 2019.

Range B. e Colaboradores. Psicoterapias cognitivo-comportamentais : um diálogo com a psiquiatria (2011). 2. ed. Porto Alegre: Artmed.

Vários Colaboradores. Livro da Psicologia (2012). Tradução: Hermeto Clara M. e Martins A. L. São Paulo: Globo

Pink e o Cérebro: o acerto de Pavlov

Nos anos 90, depois do enorme sucesso de Uma Cilada para Roger Rabbit, os estúdios Warner encomendaram ao Steven Spielberg uma série de TV para o público infantil intitulada Animanics, desenho de muito sucesso que fora transmitido em canal aberto no Brasil. Tentando retomar o humor pastelão das décadas de 40 e 50 para uma nova geração, o objetivo é criar algo mais adequado com os valores vigentes com de forma educativa. Afinal, não era politicamente correto jogar bigornas ACME nos amiguinhos. Entre os personagens criados, Pink e o Cérebro se perpetuaram ao longo do tempo graças a uma pergunta: “O que faremos hoje, Cérebro?” e sua celebre resposta “O que fazemos todos os dias Pink, tentar dominar o mundo”.

Somente na sua temporada final, os roteiristas resolveram se valer do fato que os personagens eram ratos de laboratório. O que nos leva a reflexão deste artigo, o 63º episódio “Pavlov’s Mice” (algo como “Os ratos de Pavlov”) em que nossos personagens se encontram com uma personalidade que tem um papel importante na Psicologia o célebre médico russo, fisiologista e Prêmio Nobel Ivan Pavlov.

Em seus experimentos Pavlov utilizava cachorros. Puristas torcem o nariz com estas inferências, o correto seria colocar nossos personagens no laboratório de Skinner. No meu texto anterior, sobre o episódio de Black Mirror Bandersnatch falamos sobre este experimento. Um desenho é entretenimento não uma aula de história, apesar experimento estar de forma simplista no episódio, nossos heróis cantam uma canção russa e uma dança ao ouvir o sino. Os roteiristas resolveram que os planos do Cérebro (Brain em inglês é uma sigla “Biological Recombinante Algorithmic Intelligence Nexus”, que fora um experimento sem sucesso, pois os demais ratos não replicaram da mesma forma, exemplo seu companheiro Pink) era roubar as joias da Coroa Russa, claro que não dá certo, as crianças riem, as falas são ditas o desenho acaba e a programação continua. Esta é uma das pouquíssimas citações na cultura pop sobre uma das descobertas mais importantes feitas na História da Psicologia.

Assim como no desenho, a palavra por traz da descoberta e seu conceito andam sendo empregados, digamos no mínimo, fora de contexto – um erro elementar. Assim como nos papos de bar, o Fantástico Mundo da Internet possibilita o expressar de opinião sobre quaisquer assuntos sem a exigência de um conhecimento aprofundado. Antes de falar sobre o assunto principal, não me leve a mal garanto que será bem útil, apontarei a diferença entre: palavra, conceito e contexto.

  1. Palavra: (Sub. Fem.) unidade da língua escrita.
  2. Conceito: (Sub. Masc.) compreensão que alguém tem de uma palavra; noção, concepção, ideia.
  3. Contexto: (Sub. Masc.) conjunto de palavras, frases, ou o texto que precede ou se segue a determinada palavra, frase ou texto, e que contribuem para o seu significado; encadeamento do discurso.

Esteja previamente avisado de que nenhum conceito, uma vez que entendido, supera a sensação de estranhamento do que a palavra: condicionamento.

Pião preto na casa E7

Geralmente, as pessoas começam a explicar o conceito pelo conceito, isto é igual aquilo. Neste caso é necessário algo mais complexo, como por exemplo, um jogo de xadrez. Sabemos que o objetivo é o xeque-mate, muito mais importante do que simplesmente dominar a movimentação das peças; ao tentar absorver a complexidade é necessário entender o qual estratégia o jogador traz consigo ao realizar os primeiros movimentos.

Para armar este tabuleiro, primeiro é necessário entender o que é um comportamento. Tudo que você faz da hora que acorda até á hora que vai dormir são emissões de comportamento. Certo?

Neste momento, como eu gostaria que a explicação fosse tão simples quanto. Parte do entendimento equivocado do conceito é exatamente por tentar simplifica-lo. Perceba que, apesar de parecer, um comportamento é algo mais complexo do que somente pegar um celular e colocar ao alcance dos olhos para leitura ao toque de uma mensagem.

Ainda hoje, estudiosos da Psicologia Comportamental divergem sobre o conceito do que é um comportamento. No texto ‘Sobre uma definição de comportamento’, João Claudio Todorov, cita diversos autores e sugere que o “comportamento é um processo com duração definida que ocorre o tempo todo, e parte da interação, mas não é a interação em si.” Vejamos, se um comportamento é parte de uma interação, outras peças deste jogo precisam ser deslocadas, neste caso vamos nos entender o que é uma interação.

Interação e Revolução Cognitiva

Interação entre indivíduos ocorre desde dos primórdios em nossa espécie, mas perceba, não é qualquer interação. Sapiens – Uma Breve História da Humanidade – livro de Yubal Noah Harari, traça a evolução da espécie Homo sapiens, que exerceu um domínio sobre as outras espécies da família dos primatas há 70 mil anos atrás e se espalhou sobre as demais regiões do planeta habitáveis na África e Eurásia.

O Homo sapiens, diferente do que o senso comum propaga, não conseguiu expandir territorialmente através da força bruta. Muito além da evolução genética na qual o nosso ancestral apresentou cérebro em tamanho maior dos que outros hominídeos. Harari chamou de Revolução Cognitiva, uma capacidade que iniciou com os nossos antepassados adaptando ferramentas rudimentares que pudessem extrair tutano de carcaças deixadas por outros animais (mesmo porque o confronto poderia ser fatal), passou pelo domínio do fogo e a habilidade de cozinhar alimentos que em natura poderiam ser indigestos e chegou as habilidades de se comunicar, interagir com os outros de sua espécie e compartilhar mitos e crença.

“Como o Homo sapiens conseguiu ultrapassar o limite crítico (de no máximo 150 liderados por líder), fundando cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios que governam centenas de milhões? O segredo provavelmente foi a ficção. Um grande número de estranhos pode cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos”

Harari

Este fora o setup de nosso desenvolvimento, quanto maior a fosse as necessidades: crescimento da população, abrigo, proteção, alimentação entre outras; consequentemente maiores eram as contingências de reforçamento. Sejam por necessidade (tabu) ou imposição (totem), novas regras eram criadas para estabelecer a ordem, não é mesmo Dr. S. Freud?

Nosso comportamento ao longo dos anos fora moldado por estas questões. De geração em geração foram transmitidos conhecimentos sobre: o que devemos fazer, como devemos fazer e quando devemos fazer. Quase nunca, ou delegado a uma casta intelectual superior, vinha o porquê fazemos.

Comportamento é dependente de contingência, absolutamente tudo que está no entorno de você pode se tornar contingência. Imagine que você está numa feira livre em São Paulo e sente o cheiro de pastel, não tem fome, mas tem vontade de comer pastel, automaticamente saliva por um copo de caldo de cana bem gelado, vem à mente e o pensamento ‘por que não?’. Se você tiver em Porto Alegre, pense num churrasco maturado a 12h. No Rio de Janeiro uma feijoada, na Bahia um acarajé, em Fortaleza peixe recém pescado frito na hora… Viva o Brasil! Este é um simples exemplo do que é uma contingência, “em sentido mais geral, a contingência poderia significar qualquer relação de dependência entre os eventos ambientais ou entre os eventos comportamentais e ambientais.” (Skinner. 1953: 1969).

Tudo bem, Harari havia alertado no livro, temos uma facilidade em entender que nossos ancestrais faziam assim, mas nós, superamos isto, somos mais inteligentes, evoluídos, não é? Lembre-se que eu avisei sobre a sensação de estranhamento.

“Em resumo, no campo do comportamento como um todo, as contingências de reforço que definem o comportamento operante estão por toda parte. Aquelas sensíveis a esse fato às vezes ficam embaraçados com a frequência com a qual eles veem reforço por toda parte, como os marxistas veem a luta de classes ou os freudianos o complexo de Édipo.”

Skinner

De volta ao passado na Russia

Somente em 1903 (exatamente 116 anos atrás), Dr. Ivan Pavlov estava estudando o reflexo (lembra que ele era fisiologista) em animais, especificamente em cães. O experimento consistia (imagem) que um cão era preso numa traquitana e era mensurada a quantidade de salivação, sempre fazendo um intervalo para alimentar o cão. Primeiro passo era apresentado o alimento (estimulo não condicionado), resultado aumento de salivação. Segundo passo, no período em que o cão deveria ser alimentado novamente era tocado o sino (estimulo neutro), cão não apresentava salivação (resposta não condicionada). Terceiro passo apresentava o alimento e tocava o sino, cão apresentava salivação (resposta não condicionada, dado que o alimento fora apresentado no primeiro passo). Quarto passo, o sino era tocado e o cão salivava sem que o alimento fosse dado (resposta condicionada). Batizado de condicionamento clássico, um estimulo condicionado gerava uma resposta programada.

A experiência de Pavlov começou com o cientista tocando uma sineta antes de cada refeição que os cachorros do seu laboratório recebiam. Depois que isso aconteceu várias vezes — o número era diferente para cada animal testado —, os cães ficavam condicionados a babar só de ouvir a sineta, mesmo que não tivessem ganhado nada para comer.

Fatos são o ar da ciência. Sem eles, cientistas não podem alcançar vôos.”

Pavlov

Quando seu despertador toca, você acorda, ou programou o horário para dormir mais 10 minutos? Se você tem horário de almoço fixo, seu estomago ronca pouco antes do previsto? Se você vai ao cinema, o cheiro da pipoca com manteiga te desperta vontade? Você deve parar seu veículo antes da faixa no sinal vermelho, se não você pode receber uma multa? Respostas condicionadas a estímulos contingenciais que são reforçados há quanto tempo mesmo?

Condicionamento foi a unidade que facilitou o entendimento sobre comportamentos, que são muito mais complexos do que aparentam ser, depende do desenvolvimento de fatores genéticos, psicológicos e sociais. Cultura, religião, crenças, questões morais e éticas, experiências são reforçadoras positivas e negativas para emissão dos comportamentos. Por isso, condicionamento em humanos descontextualizado, parece simples de ser modificado.

Seres humanos são tudo, menos simples.

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Masilvia Alves Diniz

Referências Bibliográficas

Harari, Y. N. Sapiens – Uma Breve História da Humanidade (2015). 25. ed. Tradução Janaina Marcoantonio. Porto Alegre/RS. LPM. Pág. 47.

MLA style: Ivan Pavlov – Biographical. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2019. Sun. 17 Feb 2019. Disponível: https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/1904/pavlov/biographical/

Souza, Deisy das Graças de. O conceito de contingencia: um enfoque histórico. Temas psicol. [online]. 2000, vol.8, n.2, pp. 125-136. Disponível: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1413-389X2000000200002&script=sci_abstract&tlng=es

Steven Spielberg’s Animaniacs – Pink and the Brain: Pavlov´s Mice. (Warner/Amblin, 1995). Curta (8m42s). Disponível: https://www.bcdb.com/cartoon/15028-Pavlovs-Mice. Acesso: 07 fev. 2019

Todorov, J. C. Sobre uma definição de comportamento. (2012). Brasília. Revistas Perspectivas. vol. 03 n ° 01 pp. 032-037. Disponível: https://www.revistaperspectivas.org/perspectivas/article/view/79

Vários Colaboradores. Livro da Psicologia (2012). Behaviorismo pag. 60-61. Tradução Hermeto Clara M. e Martins A. L. São Paulo: Globo

Black Mirror Bandersnatch: Caixa de Skinner Interativa

Antes da virada do ano para 2019, a plataforma de streaming Netflix lançou em seu catálogo um evento Black Mirror – Bandersnatch. Um episódio interativo, no qual o espectador dependendo das escolhas que fizesse ao longo da exibição, poderia de influenciar no desfecho da trama. Nos dias que seguiram ao lançamento, especialistas em Cinema tinham dificuldade de classificá-lo como filme, dado a possibilidade de múltiplos finais da história. Enquanto isto, os especialistas em Games, manifestaram que há pelo menos uma década, jogos proporcionam a possibilidade de optar por qual caminho o avatar seguiria, e com isto, consequentemente alterar o rumo da narrativa.

O plano da Netflix era testar a tecnologia interativa para o público adulto (disponível para o público infantil deste 2017), um diferencial no mercado de streaming, com o objetivo de reter/atrair novos assinantes. Ofertar tecnologia interativa num seriado que propõem reflexões sobre o impacto da tecnologia no comportamento humano era estratégica lógica.

Black Mirror faz parte do imaginário da cultura pop recente. Série britânica antológica, episódios de histórias fechadas, tem o objetivo de antever como será o nosso futuro, o impacto das novas tecnologias e o quanto nós estamos deixando que algoritmos influenciar nossas vidas. Uma espécie de ‘Além da Imaginação’ do século 21, um mix de ficção cientifica, realismo fantástico e hardware/software. O espectador ao assistir quaisquer dos dezoito episódios aleatoriamente é provocado a pensar que, o que ocorre no conteúdo consumido poderá ou poderia acontecer consigo. Quanto mais a ficção se aproxima da nossa realidade ecoa a frase: “Isto é muito Black Mirror!”.

Diferente das 4º temporadas anteriores disponíveis na Netflix, o criador/roteirista desta série Charlie Brooker foi convidado a desenvolver uma história interativa. Apesar de inicialmente recusar a proposta, foi justamente a possibilidade de criar algo inovador utilizando interatividade fez com que ele tivesse ‘a ideia’. No making-off de Bandersnatch, Brooker conta que para tornar o evento possível de ser produzido, fez um fluxograma, que se trata de um diagrama que permite desenhar possibilidades, e com isto, poder vislumbrar o que poderia acontecer com jovem Stefan, logo após a cada escolha feita pelo espectador.

Afinal de contas, o que está em jogo ao assistir Bandersnach?

Conforme requer o protocolo, ressalto que o texto a seguir contém muitos spoilers. Talvez não só deste evento, talvez de outros filmes, ou seriados e livros também.

George Orwell escritor da distopia 1984, poderia nortear está análise, dado que este é o ano que se passa a história de Bandersnatch. Livro originalmente foi escrito em 1949, Orwell narra uma história num futuro distópico em que o Grande Irmão (Big Brother) exercia vigilância governamental onipresente, vendo tudo que o cidadão fazia através daquilo que o autor chamou de ‘teletela’. Black Mirror não costuma repetir temática. No episódio da segunda temporada White Bear, referenciado neste em easter egg, é apresentado um programa de condicionamento para readequar o comportamento de um personagem que infringiu o código da Lei. Em Bandernasch, mais do que uma ‘teletela’ para simplesmente vigiar, a proposta é oferecer ao espectador a possibilidade de controlar o que vai ocorrer na história. O personagem executa o comando de acordo com o determinado pelo espectador, por mais improvável que seja. Isto posto, podemos colocar Orwell de escanteio. Caminho errado, vamos tentar de novo.

De acordo Raphael P.H. Santos, crítico de cinema que definiu Bandersnatch como filme, talvez esta seja adaptação mais aproximada das fábulas sobre a menina Alice escrita por Lewis Caroll. Em Matrix, que neste ano completa 20 anos de lançamento, o programador Neo se sente deslocado do mundo em que vive é e orientado a seguir o coelho branco. Em Westword, seriado da HBO que está em fase de produção da terceira temporada, o engenheiro/desenvolvedor Arnold Weber, tentando entender sua criação, pede a resenha de Alice no País das Maravilhas para o androide Dolores, que não por coincidência, usa um vestido azul claro. Será que temos um padrão, toda a vez um personagem de ficção cientifica é levado a questionar a natureza da sua realidade, Caroll será revisitado?

No livro Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá, o personagem
Bandersnatch, que dá o nome ao episódio, é citado uma única vez no poema Jaguadarte. Como está escrito de forma invertida, Alice conclui que para o poema possa ser lido: “Precisa ser colocado na frente do espelho”. Sempre que algum personagem inicia sua jornada, geralmente é o coelho branco aparece, aqui na forma do brinquedo favorito do menino Stefan.  Aparentemente, o mundo de detrás do espelho é acessado quando o espectador apertou o play.

Além da Toca do Coelho Branco

Encontramos o jovem Stefan explicando para seu pai que irá a empresa desenvolvedora de Games Turkersoft, fazer uma demonstração do protótipo de jogo interativo que ele está desenvolvendo. A concepção por trás do jogo vem do livro ‘escolha sua própria aventura’ Bandersnatch (referência dentro da referência), encontrado nos pertences da sua mãe. Neste tipo de livro, o leitor interage com a história quando é convidado optar por exemplo, entre ir para esquerda e pular para página X, ou direita página Y, e assim avançar na narrativa. Enquanto ouve Stefan, o pai pede para que ele escolha entre o cereal matinal X ou Y, aparece no rodapé da tela exatamente a mesma opção para o espectador que tem de dez segundos para usar a interatividade.

Caso o espectador não queria optar, de alguma forma a história avança e Stefan aceita a oferta para trabalhar na empresa e concluir o projeto do jogo. Neste momento, Collin, desenvolvedor de games com vários títulos lançados, bate em seu ombro e diz: “Escolha errada.” A meta autoproposta pelo jovem programador de criar um jogo inovador não alcança o resultado esperado. Após uma avaliação com a nota zero de cinco pelo crítico de jogos da TV, visualmente frustrado, Stefan diz: “Eu deveria tentar de novo”. A história reinicia em edição acelerada retorna ao ponto em que o espectador, para assistir um novo desfecho, se vê obrigado a escolher outra opção.

Recapitulando, um episódio Black Mirror sobre um jovem que está desenvolvendo um jogo interativo, baseado num livro interativo, que está sendo assistido de forma interativa numa plataforma de streaming, cuja a única possibilidade passar pela jornada é fazer escolhas. Um perfeito exercício metalinguagem num propositalmente simplificado labirinto de espelhos. Inevitavelmente, vem à mente do espectador a pergunta: qual das opções é a correta? “Eu não sei para onde ir!” – disse Alice. “Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve.” disse o Gato de Cheshire.

Entrando no Laboratório Experimental

A psicologia possui diversas linhas de pensamento que possibilitam observar e analisar os fenômenos do comportamento humano. B.F. Skinner (1904/1990), psicólogo americano formado em Harvard e defensor ferrenho do Behaviorismo, teve como foco central do seu trabalho desenvolver instrumentos que possibilitam a observação do comportamento em ambiente controlado. A caixa de Skinner (imagem abaixo) consistia em colocar um roedor num ambiente fechado, no qual para se alimentar (food tray) precisava pressionar uma barra (lever). Inicialmente, esta era pressionada aleatoriamente, com o decorrer do tempo, o bater na barra é associada com a liberação da ração (food tray). Os estímulos iam sendo alternados para ampliar a coleta de dados: aumentar ou diminuir a água (water), aumentar ou diminuir a quantidade de ração (food pellet dispenser), aumentar ou diminui a incidência de luz (light). Comparando os resultados entre os roedores que recebiam a ração, os que recebiam com maior intervalo de tempo e os que não recebiam nenhuma, assim que a comida era disponibilizada, esta influenciava no futuro comportamento do roedor.

Na imagem ilustrativa da Caixa de Skinner, vemos o roedor em ambiente fechado, com iluminação (light) controlada. Para ter acesso a ração, o roedor deve pressionar a barra (lever) que é fracionada em recipiente externo (food pellet dispenser).

Comportamento operante é aquele que modifica o ambiente, estando sujeito a alterações a partir das consequências de sua atuação sobre o ambiente. Ou seja, as probabilidades futuras de um operante ocorrer novamente estão na dependência das consequências que foram geradas por ele (Skinner,1953).

Voltando a Bandersnatch, a outra opção é recusar o emprego. Stefan, claramente desconfortável com esta resposta que sai da sua boca, propõem trabalhar no jogo em casa. Collin diz que entende, que o jovem é um artesão e  para fazer “algo diferente é preciso um pouco de loucura”. Em seguida, no consultório da sua psiquiatra (somente médicos são habilitados a receitar medicamentos), ele relata não entender porque precisa vir nas consultas e que se sente controlado (em uma das possibilidades o controle é literal) pelo seu pai. O espectador não tem outra opção que não seja ouvir o passado do personagem. O jovem relata que devido ao seu pai ter escondido seu coelho branco de pelúcia, ele perdeu tempo procurando o brinquedo, e com isto, ocasionou um atraso e fez com que sua mãe morresse num acidente e trem, e completa: “Eu odeio ele”.

Além do reforço negativo do prazo para entregar o jogo, é evidente dificuldade com que o jovem tem de preencher seu fluxograma em que todos os caminhos do jogo sejam completados. O comportamento tende a ocorrer numa frequência maior quando está vinculado a um esquema de reforçamento intermitente (Skinner,1953). Alternativas na tela novamente, ou escolhe entrar num beco sem saída, ou a opção aversiva – gritar com o pai – e avançar na história.

A história se bifurca, mesmo que o espectador opte por seguir o Collin que diz: “Você está num buraco e eu vou tentar tira-lo”. De uma forma ou de outra, Stefan entra novamente no consultório de sua psiquiatra e relata que percebe que existem alguém o controlando. A solução dela é aumentar a dose dos medicamentos e pressupõem que isto esteja ocorrendo pela proximidade do aniversário da morte da mãe.

Na caixa de Skinner interativa de Black Mirror a ilusão do espectador é controlar o experimento. Tomar ou não tomar o remédio, pedir ou não pedir mais prazo, pegar o livro ou pegar a foto da família. De alguma forma Stefan tem acesso ao passado do escritor de ‘escolha sua própria aventura’ Bandersnatch, este é uma das variáveis que o espectador não tem controle. Seja numa biografia ou documentário, o autor que inspira Stefan, Jerome F. Davies enlouqueceu ao tentar preencher os múltiplos caminhos do seu livro. Neste ponto, o objetivo de Stefan ou/e do espectador é tirar a nota cinco de cinco da avaliação do jogo, nem que para isto o reforçamento intermitente faça com que tudo chegue as últimas consequências.

Mundo do Espelho em Algoritmo

Curiosamente desde dos seus primórdios, o entretenimento usa tecnologia para testar os limites dos nossos sentidos. Em 1895 os irmãos Lumière exibiram o filme ‘Chegada de um trem à estação da Ciotat’, que mostravam um trem em movimento. Como os espectadores não haviam assimilado que se tratava de uma projeção, muitos saíram da sala correndo e outros como costume em estações de trem, acenavam a chegada. No Halloween de 1938, Orson Wells empregou um tom realístico ao narrar no rádio o conto baseado no livro ‘A Guerra dos Mundos’ de H. G. Wells, que chegou a causar pânico nos ouvintes, que aparamente acreditaram que a invasão alienígena estava em curso. Não é possível afirmar se o pânico fora generalizado, dado que a transmissão deste veículo tinha alcance limitado no início do século XX.


“O comportamento é moldado por reforços positivos e negativos.” B. F. Skinner

Se compararmos a experiência proposta a nossa vida atual, existe a ilusão que as redes sociais, sites de busca, canais e App’ de comunicação em tempo real influenciem em suas escolhas na vida real. Como um espelho invertido, algoritmos são alimentados quando se inicia uma pesquisa de preferências em quaisquer destas plataformas. Somos nós que estamos condicionando a inteligência artificial a mensurar nossos anseios e necessidades, e não o contrário. Skinner afirmava que livre-arbítrio é uma ilusão e que “o comportamento é moldado por reforços positivos e negativos”.

Em suma, Bandersnatch é sobre a ilusão de controle. Em um dos finais, vemos a filha do Collin adulta desenvolvendo o episódio para Netflix que espectador está assistindo. Os créditos aparecem na tela e consigo trazem a falsa percepção que experiência está acabando, quanto aparece novamente a possibilidade de voltar a outra parte da história e fazer novas escolhas. Por mais que o espectador queira chegar a um final mais próximo das suas convicções morais e éticas, isto é, um episódio Black Mirror, todas as possibilidades de entretenimento estão devidamente editadas. Para serem assistidas, lembre-se de acordo com Collin, numa das alternativas: “A escolha é sua, inteiramente sua”. A falsa percepção é que a cada estimulo é possível modelar comportamento do personagem, entretanto, a cognição de entretenimento interativo fora inclusa no repertório do espectador enquanto o este apertava a barra, quer dizer, controle remoto, mouse ou touchpad.

Contribua conosco, caso queria outras análises neste formato deixem seu comentário na caixa de descrição.

Masilvia Alves Diniz

Referências Bibliográficas

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Bahls, S. Clair e Navolar, Ariana B. Borba. Terapia Cognitivo-Comportamentais: Conceitos e Pressupostos Teóricos. (2004). Curitiba. Disponível: http://files.personapsicologia.webnode.com/200000093-024d10346f/Terapias%20Cognitivo-comportamentais.pdf

Vários Colaboradores. Livro da Psicologia (2012). Tradução Hermeto Clara M. e Martins A. L. São Paulo: Globo

Black Mirror – Bandersnach. Direção: David Slade: Netflix, 2018. Streaming (90 minutos).

Santos, P. H. Raphael. Black Mirror – BLACK MIRROR: Bandersnatch – Jogo ou filme? (Netflix, 2018) | Crítica 2019 . (12m55s). Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=wSeYPMOwW9I&t=439s Acesso: 31 dez. 2018

Santos, P. H. Raphael. Black Mirror – Bandersnach: 6 Finais Explicados! 2019 . (13m15s). Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=2Uhk8NU6dfI. Acesso: 03 jan. 2019

Orwell, G. 1984. (1998). São Paulo: Companhia das Letras.

L. Carrol. Alice no Pais das Maravilhas (2015). Tradução Leite Sebastião Uchoa. São Paulo: Editora 34.

L. Carrol. Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá. (2015). Tradução Leite Sebastião Uchoa. São Paulo: Editora 34.

As 3 Grandes Forças em Psicologia

Psicologia? Psicanálise? Behaviorismo? Gestalt-Terapia? Perls? Skinner? Freud? Como é estruturado o saber psicológico? O que é o que?

O texto de hoje visa explanar sobre as chamadas 3 Grandes Forças em Psicologia, a fim de traçar uma organização teórica e cronológica acerca do behaviorismo, psicanálise e das linhas humanistas-existenciais.

A Psicologia enquanto ciência

Wundt e estudantes de psicologia em Leipzig

1879 é considerado o ano de nascimento da psicologia. Naturalmente que já se falava de psicologia e de temas como mente, comportamento, felicidade, sofrimento, percepção, inteligência, emoção, saúde, doença, entre outros tópicos basilares, desde a antiguidade, porém, 1879 é o ano em que W. M. Wundt (1832-1920) funda o 1º laboratório de psicologia experimental (Psychologische Institut, na Universidade de Leipzig – Alemanha). É a partir dessa data que a psicologia começa a criar um campo de conhecimento próprio, com metodologia própria e separada do saber filosófico.

Esta ciência tem de investigar os fatos da consciência, suas combinações e relações, de tal modo que possam, finalmente, descobrir as leis que governam tais relações e combinações.

(Wundt, 1912/1973, p. 1)

Os primeiros psicólogos experimentais (além de Wundt vale citar Ernst Heinrich Weber [1795-1878] e Gustav Theodor Fechner [1801-1889]) se debruçaram sobre temas como consciência, introspecção, sensação e percepção, limiares de percepção, atenção e emoções, por exemplo e utilizaram, principalmente, técnicas da chamada psicometria e psicofísica, para analisar e medir esses fenômenos.

A partir dessas investigações surgem ramificações, movimentos e escolas próprias como o estruturalismo, o funcionalismo, o behaviorismo (1ª grande força), a psicanálise (2ª grande força) e a psicologia humanista-existencial (3ª grande força). Essas correntes psicológicas são arcabouços teórico-práticos que influenciam a forma com que o psicólogo compreende e intervém sobre as questões humanas.

1ª Grande Força em Psicologia: o Behaviorismo

skinner, watson e pavlov
(Skinner, Watson e Pavlov com um cão, respectivamente)

O behaviorismo (ou comportamentalismo) nasce como uma crítica ao introspeccionismo e às teorias mentalistas (como a psicanálise), isto é, quando o indivíduo busca acessar, se conscientizar e relatar seus estados internos. Para os behavioristas, o introspeccionismo é falho e, além de fornecer informações errôneas, afasta a psicologia do seu verdadeiro objeto de estudo – o comportamento.

O problema mentalista pode ser evitado com procurarmos diretamente as causas físicas anteriores, desviando-nos dos sentimentos ou estados mentais intermediários. A maneira mais rápida de fazer isto consistem em limitarmo-nos àquilo que um dos primeiros behavioristas, Max Meyer, chamou de “a psicologia do outro”; considerar apenas aqueles fatos que podem ser objetivamente observados no comportamento de alguém em relação com a sua história ambiental prévia. Se todas as ligações são lícitas, não se perde nada por desconsiderar uma ligação supostamente imaterial.

(Skinner, 1974/2006, p. 16)

Dessa forma, essa corrente da psicologia se debruçou sobre o que pode ser observado e mensurado diretamente, isto é, o ambiente e o comportamento da pessoa, ou seja, as contingencias ambientas e comportamentais (estímulos anteriores e posteriores referentes à uma ação).

Podemos entender estímulo como “uma alteração detectável no meio em que o indivíduo está inserido” (Lombard-Platet, Watanabe & Cassetari, p. 37, 2008), o que compreende, por exemplo, alterações na luminosidade, temperatura, sons, cheiros e qualquer coisa captada pelos órgãos sensoriais. O comportamento, em um primeiro momento, tem ser uma ação observável e mensurável, isto é, o behaviorista não analisa o “sofrer” ou a “diversão”, mas pode analisar, em intensidade e frequência, o chorar, a diminuição da fala, a mudança na postura, o gritar, o sorrir, o pular, o correr…. Também falamos de comportamentos involuntários (respondentes, como alteração de pupila, sudorese, salivação, erubescer…) e voluntários (operantes, como acender a luz, pegar uma revista, andar até a padaria…). De uma forma resumida, os comportamentos involuntários são eliciados pelos estímulos antecedentes (condicionamento clássico, pavloviano ou respondente) enquanto os comportamentos voluntários são emitidos, reforçados, punidos ou extintos pelas suas consequências – o estímulo posterior (condicionamento operante). Com o avanço da corrente behaviorista passou-se a falar também dos chamados comportamentos encobertos, isto é, aqueles que não são observados diretamente por outrem (como pensar, sonhar, imaginar…). É importante dizer também que seu desenrolar/legado fez nascer a TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental.

Autores do Behaviorismo

Os 3 principais e “clássicos” autores do behaviorismo são I. Pavlov (1849-1936), responsável pela descoberta do comportamento respondente; J. B. Watson (1878-1958), considerado o fundador da corrente, pai do behaviorismo metodológico e famoso pelo experimento do pequeno Albert; e B. F. Skinner (1904-1990), pai do behaviorismo radical, que ampliou as “Leis do Efeito” (de E. L. Thorndike) enquanto compreensão do comportamento operante, grande autor sobre processo de aprendizagem, criador da Caixa de Skinner, famoso pelos experimentos e demonstrações com ratos e pombos.

2ª Grande Força em Psicologia: a Psicanálise

consciente inconsciente id ego superego
(Representação da compreensão Freudiana sobre o aparelho psíquico humano: 1ª e 2ª tópica)

Aqui temos o papel do influente Sigmund Freud (1856-1939) e a importância da vida psíquica inconsciente, onde emergem temas como psicossomática, desenvolvimento psicossexual, neurose, histeria, mecanismos de defesa, sonhos, desejos e censuras. A psicanálise nasce na psicologia e dialoga, principalmente, com a psicologia clínica, todavia, hoje ela está para além da questão clínica, aparecendo como uma forma de estudar os aspectos dinâmicos da sociedade, economia, política e pensamento. Dessa forma, hoje temos muitos psicanalistas que não são psicólogos, mas possuem formação básica em filosofia, sociologia, medicina, letras e outras graduações. Falamos também de psicanálises, isso pois se trata de uma das linhas teórico-práticas que mais apresentam diferenças conceituais e intervencionistas de autor para autor, o costuma causar confusões naquilo que diz respeito às compreensões iniciais na temática. Mas, independente das diferenças do psicanalista em questão e como ele vai compreender aspectos do psiquismo, as psicanálises se aproximam quando compreendem um processo de conhecimento/tratamento/cura que, necessariamente e para sua efetividade, precisa passar pelo outro. Isto é, só sei de mim, pelo outro – e sobre essa questão específica, recomendo o seminário A Utopia do Autoconhecimento, veiculado no Café Filosófico, por Ricardo Goldenberg.

As psicanálises também costumam compartilhar a questão da transferência, isso é, padrões específicos relacionados às relações interpessoais passadas que direcionam a forma como a relação presente se manifesta e se estabelece – a transferência diz sobre seu portador e seu manejo pode ressignificar/resolver conflitos reprimidos. A noção da influência dos processos inconscientes também é basilar sobre o discurso do sujeito (discurso aqui, não compreende apenas a fala).

Digamos que alguém — um paciente em análise, por exemplo — nos relata um de seus sonhos. Nós supomos que desse modo ele faz uma das comunicações que se comprometeu a fazer iniciando um tratamento psicanalítico. Uma comunicação com meios inadequados, é certo, pois o sonho não é uma expressão social, um meio de entendimento. Não compreendemos o que ele quer dizer, e ele próprio não sabe o que é. Então temos que tomar rapidamente uma decisão: ou o sonho, como nos asseguram os médicos que não são psicanalistas, é um indício de que a pessoa dormiu mal, de que nem todas as partes do seu cérebro descansaram igualmente, de que alguns pontos quiseram continuar trabalhando, sob a influência de estímulos desconhecidos, e só puderam fazê-lo de modo bastante incompleto. Se assim for, será correto não nos ocuparmos mais do produto — psiquicamente sem valor — da perturbação noturna; pois o que tal pesquisa traria de útil para nossos propósitos? Ou então — percebemos que desde o início já decidimos de outra forma. Fizemos o pressuposto, adotamos o postulado — bem arbitrariamente, deve-se admitir — de que também esse sonho incompreensível teria de ser um ato psíquico inteiramente válido, de sentido e valor plenos, que podemos usar como qualquer outra comunicação na análise.

(Freud, 2010 pp. 95-96)

O clínico Freud foi influenciado, principalmente, por J.-M. Charcot (1825-1893), com quem aprendeu sobre histeria e hipnose, e J. Breuer (1942-1925) com quem estudou o método catártico (a cura pela fala). Sua obra é grande, estruturada e desenvolve o nascimento da psicanálise por meio de contato com outros saberes (biologia, física e literatura) e por meio dos processos de análise clínica e da autoanálise do próprio Freud.

Durante muito tempo, o aspecto mais conhecido e discutido da obra de Freud era o da teoria da libido, que ele elaborou inspirado nos modelos da eletrodinâmica ou da hidrodinâmica vigentes na ciência da época. Assim, o conceito de libido, que Freud concebeu como sendo a manifestação psicológica do instinto sexual, recebeu sua origem na tentativa de explicar fenômenos, tais como os da histeria, que Freud explicava como sendo resultantes do fato de que a energia sexual era impedida de expandir-se através de sua saída natural e fluía, então, para outros órgãos, ficando restringida ou contida em certos pontos e manifestando-se através de sintomas vários. Freud chegara à conclusão de que as neuroses, como a histeria, a neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia (fobia), teriam sua causa imediata no aspecto “econômico” da energia psíquica, ou seja, num represamento quantitativo da libido sexual.

(Zimerman, 2007, p.23)

Autores da Psicanálise

Para além do próprio Freud, podemos citar a influência de nomes como J. Lacan (1901-1981), que propôs um retorno sistemático à obra de Freud e a relacionou com os saberes da antropologia, linguística e estruturalismo, além de ter desenvolvido conceitos como Real, Simbólico e Imaginário; M. Klein (1882-1960), expoente da chamada “escola inglesa de psicanálise” foi uma das primeiras psicanalistas a atender crianças e sua contribuição se dá, principalmente, na compreensão dos componentes e fenômenos associados à vida psíquica primitiva; D. Winnicott (1896-1971) que abordou o papel do ambiente-cuidador para com o desenvolvimento emocional do sujeito e trouxe, entre outros, os conceitos de criatividade primária e tendência antissocial.

3ª Grande Força em Psicologia: a Psicologia Humanista-Existencial

Como uma reação ao behaviorismo e à psicanálise, a partir da segunda metade dos anos 1950 (e ganhado maior desenvolvimento e destaque durante as duas décadas posteriores), surge a 3ª Força. Contrária a uma visão determinista do homem (seja pela questão dos condicionamentos comportamentais ou pelo determinismo do inconsciente), ela valoriza a experiência consciente e trabalha com tópicos como: livre arbítrio; autorrealização; criatividade; esperança; potencial; sentido; contato; decisão; congruência; responsabilidade; entre outros…

(Abraham Maslow)

Seu fundador é considerado A. Maslow (1908-1970), famoso por desenvolver a “pirâmide hierárquica das necessidades básicas” e quem primeiro cunhou o termo “psicologia positiva“, em uma contraposição à chamada “psicologia negativa” – tradicional e focada na doença, no transtorno, no sofrimento e em seu tratamento/cura. Dessa forma, a Psicologia Humanista incorporou a visão de homem e mundo referente aos movimentos intelectuais do humanismo, do existencialismo e da fenomenologia. Dentro dela, vamos encontrar abordagens distintas como a Gestalt-Terapia, a Abordagem Centrada na Pessoa, ou a Logoterapia, por exemplo, onde cada uma tem suas particularidades clínicas e acabam por se aproximar mais do humanismo ou do existencialismo, a depender da linha téorico-prática, mas todas fazem parte da 3ª força que, segundo Schultz & Schultz (2008), integra os seguintes pontos essenciais:

  1. uma ênfase na experiência consciente;
  2. uma crença na integralidade da natureza e da conduta do ser humano;
  3. a concentração no livre-arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do indivíduo;
  4. o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição humana.

Dentre as abordagens clínicas dessa corrente psicológica, aquela que mais me identifico e acabei por estudar é a Gestalt-Terapia (não confundir com Psicologia da Gestalt). Essa abordagem é sempre uma terapia do contato e seu manejo é pautado no aqui-agora, sendo que a relação terapeuta-paciente funciona do ponto de vista dialógico, onde o terapeuta confronta e frustra o paciente que tenta se esquivar ou fugir do seu contato e experiência com o presente. A fenomenologia pauta o setting clínico e, desta forma, a interpretação não é adequada, mas sim a descrição. A farsa, as atuações e as incongruências não se sustentam na Gestalt-Terapia, uma vez que são valorizadas e validadas as experiências mais espontâneas e verdadeiras de alguém.

Gestalt-terapia é uma das forças rebeldes, humanistas e existenciais da psicologia, que procura resistir à avalanche de forças autodestrutivas, autoderrotistas, existentes entre alguns membros de nossa sociedade. Ela é “existencial” num sentido amplo. […] Nosso objetivo como terapeutas é ampliar o potencial humano através do processo de integração. Nós fazemos isto apoiando os interesses, desejos e necessidades genuínas do indivíduo.

(Perls, 1977, p.19)

A Gestalt-Terapia deve ser experimentada para melhor compreensão – ela não se basta enquanto teoria. Caso tenha curiosidade em saber como é uma sessão com abordagem gestáltica, recomendamos que participe de uma 😉 E recomendamos também que assista um, das várias sessões gravadas, com F. Perls – pai da GT. (após esse vídeo, colocamos também um atendimento de Carl Rogers, com a mesma mulher, para finalidades didáticas e comparativas).

Autores da Psicologia Humanista-Existencial

Como já foi dito antes, há abordagens mais humanistas e outras mais existenciais. C. Roger (1902-1987) pai da Abordagem Centrada na Pessoa e dos Grupos de Encontro, estudou sobre o crescimento pessoal, as relações interpessoais e os processos experienciais; F. Perls (1893-1970) ex-psicanalista, pai da Gestalt-Terapia, contribuiu naquilo que diz respeito à visão holística sobre o indivíduo, sobre o papel do terapeuta na conscientização das incongruências, bem como sobre as dificuldades da pessoa em experienciar e desfrutar do presente. V. Frankl (1905-1997), pai da Logoterapia, tem uma abordagem mais existencialista que se relaciona com a temática do sentido da vida – que começou a ser desenvolvida quando esse foi prisioneiro em um campo de concentração nazista.

Referências

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras.

Lombard-Platet, V. L. V.; Watanabe, O. M. & Cassetari, L. (2008). Psicologia experimental: Manual teórico e prático de análise do comportamento. São Paulo: Edicon.

Schultz, D. P. & Schultz, S. E. (2008). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Stevens, J. O. (Perls, F. et al.) (1977). Isto é Gestalt. São Paulo. Summus.

Wundt, W. (1912/1973). An introduction to psychology. Translation R. Pintner. London: George Allen & Company, Ltd.

Zimerman, D. E. (2007). Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

7 Livros Para Estudar Psicologia

O post de hoje visa recomendar algumas das principais referências de bibliografia para quem busca estudar psicologia e não sabe por onde começar.

Uma vez que falamos também de escolas, movimentos ou linhas psicológicas – que possuem teorias e implicações distintas entre si – o seguinte texto apresenta, pelo menos, uma referência que contemple cada movimento.

Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia

Psicologias Ana Bock
(Tiragem atual – Editora Saraiva, 14ª Edição)

Este é um livro que muito inspirou a Sociedade dos Psicólogos na organização dos nossos cursos e publicações, pois deixa claro, desde o título, que o “saber psicológico” é resultado de muitas “psis” – conhecimento e postura ética que buscamos difundir.

Apresenta as visões históricas, teóricas e práticas relacionadas aos movimentos psicológicos, isto é, suas formas de compreensão da psicologia, desde o conceito desta, até seu objeto de estudo, compreensão e atuação sobre este. A nível de exemplo, a psicanálise se debruça sobre o inconsciente e as características psicodinâmicas da psique, enquanto o behaviorismo se debruça sobre o comportamento e as contingências do ambiente que são relacionadas à esse.

PSICOLOGIAS é uma introdução ao estudo da Psicologia, que é apresentada em seus vários aspectos: sua história, as abordagens teóricas, os temas básicos, as áreas de conhecimento, as principais características da profissão, os temas cotidianos (vistos sob a ótica da Psicologia). Enfim, desde a primeira edição, sempre tivemos a certeza de que ensinar a diversidade do universo da Psicologia é a melhor forma de iniciar o aprendizado dessa ciência. Daí o título escolhido: PSICOLOGIAS.

(Bock, A. M. B.; Furtado, O. & Teixeira, M. L. T., 2001, p. 5)

O livro é uma das grandes referências para quem começa a estudar psicologia, estando entre os principais livros de bibliografia obrigatória nos primeiros semestres dos cursos de psicologia. Foi escrito por Ana Mercês Bahia Bock, Odair Furtado e Maria de Lourdes Trassi Teixeira.

História da Psicologia Moderna

(Cengage do Brasil, 10ª Edição)

Esse é outro livro muito utilizado nos primeiros semestres da psicologia. Foi escrito por Duane P. Schultz e Sydney Ellen Schultz.

Embora o livro esteja organizado em termos das escolas de pensamento —
as diferentes definições que marcam a evolução da psicologia — , reconhecemos que essas idéias e abordagens são obra de estudiosos, pesquisadores e sistematizadores. Afinal, são seres humanos, e não forças abstratas, que escrevem os artigos, fazem as pesquisas, apresentam comunicações de pesquisa e ensinam a próxima geração de psicólogos. Fazendo isso, esses homens e mulheres desenvolveram e promoveram as escolas de pensamento da psicologia. Desse modo, discutimos a vida das eminentes personalidades que moldaram o campo,
chamando a atenção para o fato de o seu trabalho ter sido influenciado não só pela época em que floresceu como também pelo contexto de suas próprias experiências pessoais.
(Schultz, D. P. & Schultz, S. E., 2014, p. 4)

A publicação percorre dados biográficos e teóricos fundamentais para a compreensão do desenvolvimento das ciências psicológicas e apresenta também uma série de contribuições resultantes de investigações sobre a psicologia pré-Wundt.

Desenvolvimento Humano

(Artmed, 12ª Edição)

Livro ilustrado e repleto de referências científicas que abordam o desenvolvimento humano desde a concepção, passando pelas fases da infância, a adolescência, idade adulta, terceira idade, fim da vida e separando desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial.

A medida que o campo do desenvolvimento humano tornou-se uma disciplina científica, seus objetivos evoluíram para incluir a descrição, explicação, predição e modificação do comportamento. Descrição é uma tentativa de retratar o comportamento com precisão. Explicação é a revelação das possíveis causas do comportamento. Predição é prever o desenvolvimento futuro com base no desenvolvimento pregresso ou presente. Modificação é a intervenção para promover o desenvolvimento ideal.

(Papalia, D. E.; Olds, S. W. & Feldman, R. D., 2006, p. 44)

A edição mais atual foi escrita por Diane E. Paplia e Ruth Duskin Feldman e também é uma das principais bibliografias obrigatórias nas disciplinas de psicologia do desenvolvimento, ao lado da obra O Desenvolvimento da Pessoa: da infância à terceira idade, de K. S. Berger e A Criança em Desenvolvimento, de H. Bee.

A Interpretação dos Sonhos

(Edição comemorativa de 100 anos – Imago, 1999)

Considerada a obra prima de Sigmund Freud esse livro foi escrito em 1899, mas foi lançado como 1900 pois seria o livro do século (e foi!). Essa publicação extensa apresenta não apenas a compreensão e o manejo do trabalho com os sonhos, mas tece uma forte tese sobre a metapsicologia freudiana, isto é, sua compreensão do aparelho psíquico a nível de estrutura e funcionamento deste, sendo que, por exemplo, é nesta publicação que o autor apresenta o seu primeiro modelo de aparelho psíquico conhecido como primeira tópica (inconsciente e pré-consciente/consciente).

Uma prova convincente do fato de que o esquecimento dos sonhos é tendencioso e serve aos propósitos da resistência é fornecida quando se tem a possibilidade de observar, nas análises, um estágio preliminar de esquecimento. Não é infreqüente que, no meio do trabalho de interpretação, uma parte omitida do sonho venha à luz e seja descrita como tendo sido esquecida até então. Ora, uma parte do sonho assim resgatada do esquecimento é, invariavelmente, a mais importante; situa-se sempre no caminho mais curto para a solução do sonho e por isso foi mais exposta à resistência do que qualquer outra parte.

(Freud, S., 1899/1999, p. 121)

Descrições oníricas, autoanálise, interpretações, exemplos, esquecimentos, conceitos como censura, resistência, deslocamento, condensação, desejo, histeria etc compõe esta referência fundamental para o estudante das psis e obrigatória para o estudante da psicanálise (que deverá se aventurar também em Psicologia das Massas e Análise do Eu; Luto e Melancolia; Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade; Totem e Tabu, Mal Estar na Civilização; Além do Princípio do Prazer e outros…

Princípios Básicos de Análise do Comportamento

(Artmed, 1ª Edição)

Essa publicação apresenta, de forma bem didática e com vários exercícios de fixação, os pressupostos e desenvolvimentos da visão comportamental (behaviorista) sobre psicologia. Sendo assim, compila e apresenta autores como I. Pavlov, F. S. Keller, E. L. Thorndike, John B. Watson e B. F. Skinner. Diferencia o behaviorismo metodológico do radical e explica conceitos como: as leis do comportamento, contingências ambientais, controle de estímulos, emparelhamento, condicionamento clássico, condicionamento operante, reforçamento, punição, modelagem etc.

As consequências de nossos comportamentos vão influenciar suas ocorrências futuras. Dizer que as consequências dos comportamentos chegam a afetá-los é o mesmo que dizer que as consequências determinarão, em algum grau, se os comportamentos que as produziram ocorrerão ou não outra vez, ou se ocorrerão com maior ou menor frequência.

(Moreira, M. B. & Medeiros, C. A., 2007, p. 42)

Caso goste da temática, aproveitamos para sugerir também o Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição, de A. C. Catania.

Gestalt-Terapia

(Summus Editorial, 2ª Edição)

Uma das correntes de pensamento que faz parte do chamado “terceiro movimento” (ou também “terceira força”) em psicologia é a Gestalt-Terapia, que é uma abordagem com bases, principalmente, humanistas, existenciais e fenomenológicas – desenvolvida no pós II Grande Guerra Mundial.

A publicação destacada é considerada uma das pedras angulares da teoria e reúne textos de F. Perls, P. Goodman e R. Hefferline – fundadores da corrente. Percorre, portanto, conceitos como experiência, sentir, assimilar, contato, insight, awareness, gestalten, neurose, figura/fundo, organismo, teoria de campo, entre outros, e traça uma nova teoria de compreensão do self e dos fenômenos terapêuticos.

A terapia consiste, assim, em analisar a estrutura interna da experiência concreta, qualquer que seja o grau de contato desta; não tanto o que está sendo experienciado, relembrado, feito, dito etc., mas a maneira como o que está sendo relembrado é relembrado, ou como o que é dito é dito, com que expressão facial, tom de voz, sintaxe, postura, afeto, omissão, consideração ou falta de consideração para com a outra pessoa etc. Trabalhando a unidade e a desunidade dessa estrutura da experiência aqui e agora, é possível refazer as relações dinâmicas da figura e fundo até que o contato se intensifique, a awareness se ilumine e o comportamento se energize. E o mais importante de tudo, a realização de uma gestalt vigorosa é a própria cura, porquanto a figura de contato não é apenas uma indicação da integração criativa da experiência, mas é a própria integração.

(Perls, F.; Hefferline, R. & Goodman, P., 1997, p. 46)

Cartas a um Jovem Terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos

(Elsevier/Alta Books, 3ª Edição)

Apesar de ser um livro escrito por um autor psicanalista – Contardo Calligaris – a obra transcende abordagens e, por meio de vários relatos e reflexões, dá toques pertinentes de realidade (com situações concretas e hipotéticas) para qualquer pessoa que tenha intentos de adentrar ou seguir na psicologia clínica e nos caminhos da psicoterapia.

Quando chegou o dia da primeira entrevista do primeiro paciente, eu tinha uma preocupação dupla: queria que o apartamento tivesse cara de consultório, mas também queria que não tivesse cara de consultório no dia de sua inauguração. Afinal, eu pensava, qual paciente gostaria de descobrir que o analista em que ele vem depositar uma esperança de cura é um novato absoluto? Cuidei dos detalhes: uma certa desordem de papéis e notas na mesa, uma pequena desarrumação do acolchoado do divã, para mostrar que alguém já deitara ali, três ou quatro baganas no cinzeiro (na época não só eu, mas a França inteira fumava), para mostrar que, naquela tarde, já me debruçara sobre outros destinos cabeludos.

Esse primeiro paciente se analisou comigo durante sete anos. Era um jovem psiquiatra, que se tornou analista por sua vez. Alguns anos depois dele terminar sua análise, quando eu já era um analista reconhecido e estabelecido, nos encontramos, por acaso, num congresso e conversamos um pouco. De repente, ele me perguntou: “Eu fui seu primeiro paciente, não fui?”.

(Calligaris, C., 2007, pp. 20-21)

É uma publicação não muito extensa e de fácil leitura, que tem se mostrado muito interessante quando discutida por grupos de alunos/estagiários em supervisões clínicas, pois aborda questões, conflitos, fantasias e dúvidas comuns para o universo desse perfil que está em formação – é um livro que pode fascinar ou frustrar muito.

Espero que tenha apreciado as sugestões, caso queira recomendar um livro também, deixe sua sugestão nos comentários 😉

Referências

Bock, A. M. B.; Furtado, O. & Teixeira, M. L. T. (2001). Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva.

Calligaris, C. (2007). Cartas a um jovem terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos. São Paulo: Elsevier.

Freud, S. (1899/1999). A interpretação dos sonhos. Obras Completas – Vol. 05 (1900-1901). Rio de Janeiro: Imago.

Moreira, M. B. & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise de comportamento. Porto Alegre: Artmed.

Papalia, D. E.; Olds, S. W. & Feldman, R. D. (2006). Desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed.

Perls, F.; Hefferline, R. & Goodman, P. (1997). Gestalt-terapia. São Paulo: Summus Editorial.

Schultz, D. P. & Schultz (2014). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Por Caio Ferreira