Winnicott: Holding, Handling e Apresentação dos Objetos

Expoente da chamada escola inglesa de psicanálise, D. W. Winnicott (1986 – 1971) foi um médico pediatra e psicanalista pós-freudiano que conseguiu criar uma dimensão original na psicanálise. Em sua trajetória, entre outros tópicos, destacam-se:

  • o papel e valor do ambiente/cuidador para com o desenvolvimento do indivíduo;
  • as funções de holding, handling e apresentação de objetos;
  • a descoberta do objeto transicional e da zona potencial;
  • os conceitos de verdadeiro e falso self;
  • a teoria da tendência antissocial e delinquência.

Escola britânica de psicanálise e Donald Winnicott

Winnicott foi supervisando de Melanie Klein (1882-1960) – psicanalista austríaca responsável por pioneiras teorias e descobertas acerca do aparelho psíquico do bebê e da criança – sendo que a teoria kleiniana serviu tanto para Winnicott confirmar algumas de suas investigações, como para o guiar e inspirar sua em própria teoria e abordagem, distinta da clínica de Klein.

O olhar de Winnicott mirou o ambiente e os cuidados maternos que cercam o início da vida de alguém. Diferente de Klein, ele nos diz que não é possível compreender a vida psíquica primitiva do bebê olhando apenas para esse e suas fantasias, mas deve-se analisar também o ambiente no qual ele está inserido e como são os cuidados que ele recebe.

Dessa forma, a teoria winnicottiana nos diz que não existe um bebê separado do seu cuidador (There is no such thing as a baby / a baby alone doesn’t exist) Winnicott,

“Se a dependência realmente significa dependência, então a história de um bebê individualmente não pode ser escrita apenas em termos do bebê. Tem de ser escrita também em termos da provisão ambiental que atende a dependência ou que nisso fracassa”.

(Winnicott, 1975, p. 116)

melanie klein e donnald winnicott
(Melanie Klein e Donald W. Winnicott, em jantar para M. Klein, em Londres de 1952).

Dependência e ambiente em Winnicott

Winnicott observou que ao nascer, diferente de alguns outros bichos, o ser humano é completamente dependente de seu cuidador, sendo que, caso esse não provenha alimento e segurança para o bebê, o mesmo certamente morrerá, uma vez que é incapaz de buscar, inicialmente e por conta própria, o conforto no ambiente – ele chamou isso de dependência absoluta.

Na teoria winnicottiana aparecem 3 fases de dependência: absoluta; relativa e rumo à independência. Na dependência absoluta não há separação entre corpo e meio; ainda não existe Eu configurado; o indivíduo é completamente dependente do ambiente. Na dependência relativa começamos a encontrar o self separado do outro; é o início da distinção do ser; há Eu e há outro; envolve a utilização de objeto transicional; o indivíduo começa a buscar o ambiente, mas ainda necessita de cuidados de alguém. No rumo à independência temos o estabelecimento de relacionamentos do indivíduo para com objetos externos baseados no princípio da realidade. Para o autor, o ser humano é um ser potencialmente criativo, que carrega uma tendência inata para a integração e o desenvolvimento, mas cabe ao ambiente oferecer o suporte para que essas potencialidades se realizem. Dessa forma, Winnicott fala de um ambiente facilitador ou suficientemente bom, representado pela mãe suficientemente boa (good enough parent): alguém que consegue, de forma empática, sensível e dinâmica se adaptar aos diversos estágios de desenvolvimento do bebê e responder adequadamente tanto às suas necessidades quanto às suas tolerâncias em suportar a frustração. De acordo com o autor, é função da mãe suficientemente boa: o holding; o handling; e a apresentação dos objetos.

Sustentação (Holding)

Geralmente traduzido como sustentar ou segurar e, por outras vezes, mantido no original “holding”, o termo faz referência ao suporte físico e psíquico oferecido ao bebê pelo seu cuidador. Envolve um padrão empático e uma rotina nos cuidados do bebê e se expressa como um conjunto de comportamentos afetivos relacionados ao alimentar, limpar, proteger, uma vez que o bebê precisa estar fisicamente seguro e psicologicamente acolhido. O holding permite uma certa estabilidade e previsibilidade do ambiente, o que é fundamental para o desenrolar das tendências hereditárias do indivíduo. De acordo com Winnicott, esse processo se dialoga diretamente com a continuidade do ser, com a noção de ilusão e com a integração das partes do self.

“Tudo isso é muito sutil, mas ao longo de muitas repetições, ajuda a assentar os fundamentos da capacidade que o bebê tem de sentir-se real. Com esta capacidade o bebê pode enfrentar o mundo ou (eu diria) pode continuar a desenvolver os processos de maturação que ele ou ela herdaram.”

(Winnicott, 2012, p. 5)

“quando o ato de segurar o bebê é perfeito (e de um modo geral assim é, já que as mães sabem exatamente como fazê-lo),o bebê pode adquirir confiança até mesmo no relacionamento ao vivo, e pode não integrar-se enquanto está sendo seguro. Esta é a experiência mais enriquecedora. Freqüentemente, no entanto, o ato de segurar o bebê é irregular, e pode até mesmo ser desperdiçado pela ansiedade (o controle exagerado da mãe para não deixar o bebê cair) ou pela angústia (a mãe que treme, a pele quente, um coração batendo com muita força, etc.), casos em que o bebê não pode dar-se ao luxo de relaxar. O relaxamento acontece então, nestes casos, apenas por pura exaustão. Aqui, o berço ou a cama oferecem uma alternativa muito bem-vinda.”

(Winnicott, 1990a, p. 61)

Manejo (Handling)

Vibrant Health Mother hugging child – Katie M. Berggren

Traduzido como manejo ou deixado no original “handling”, esse termo deriva de hand (mão) e diz respeito ao contato pele com pele entre bebê e cuidador. Faz referência aos cuidados físicos e envolve o manuseio corporal do bebê durante os suportes básicos como: banho, troca e amamentação, por exemplo. Segundo o autor, o handling auxilia a formar as bordas do corpo, a harmonizar a vida psíquica (realidade interna) com o corpo (esquema corporal), a diferenciar o Eu do outro, e a reconhecer sua própria psique dentro do seu próprio corpo (personalização). Dessa forma, o par segurar-manejar é fundamental para o estabelecimento das bases mínimas que possibilitarão a instauração de um ser saudável e criativo.

“Um bebê pode ser alimentado sem amor, mas um manejo desamoroso, ou impessoal, fracassa em fazer do indivíduo uma criança humana nova e autônoma”.

(Winnicott, 1975, p. 172)

Apresentação de Objetos (Object-presenting)

Por fim, mas não menos importante, a 3ª função que compete à mãe suficientemente boa é a apresentação dos objetos (ou apresentação de mundo), que consiste em oferecer objetos substitutos de satisfação. Relaciona-se com a apresentação da externalidade e da realidade. É fundamental para a avanço da fase de dependência absoluta para dependência relativa, uma vez que possibilita o interesse, curiosidade e a busca por objetos de satisfação para além da cuidadora. A mãe deve apresentar o mundo em pequenas doses, ao passo em que permita a ilusão inicial (onipotência) de que quem criou aquilo foi o bebê. Segundo o autor, essa apresentação carrega a função formativa que permite o estabelecimento das relações objetais.

“O bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma necessidade não-formulada. A mãe, em se adaptando, apresenta um objeto ou uma manipulação que satisfaz as necessidades do bebê, de modo que o bebê começa a necessitar exatamente o que a mãe apresenta. Deste modo o bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato da experiência.”

(Winnicott, 1990b, p.56).

Ambiente e Self

De acordo com o autor, o sucesso dos processos ambientais possibilitará o desenvolvimento e a estruturação saudável do ser (distinto, autêntico e criativo), assim como as falhas ambientais (negligências, intrusões ou desastres) levam ao desenvolvimento adaptativo e reativo de personalidade ao ambiente. O verdadeiro self e a sensação de que a vida vale apena ser vivida, apontada por Winnicott, é a realização da nossa tendência e potencial de desenvolvimento, assim como as estruturações defensivas do self, as neuroses e sensação de futilidade do viver, são características de um falso self que precisou se adaptar e/ou reagir a um ambiente falho.

Para saber mais sobre verdadeiro e falso self, recomendo a leitura do texto Explicando Winnicott: Criatividade Primária, onde abordo mais aspectos do desenvolvimento emocional primitivo e trago algumas relações entre o self e a criatividade primária. Deixo também como recomendação o trecho de “A criatividade humana e a crise contemporânea”, com psicanalista Carlos Plastino, que discorre sobre a temática.

Referências e complementos

Winnicott, D. W. (1975). O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago

Winnicott, D. W. (1990a). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, D. W. (1990b). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.

Winnicott, D. W. (2012). Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.

Por Caio Ferreira

FaceApp – Fascinação e medo na clínica dos idosos

Por que o aplicativo que nos mostra mais velhos chama tanta atenção?

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(Imagem retirada da Internet)

De tempos em tempos um aplicativo chamado FaceApp cai no gosto do povo e chama a atenção geral. Já conseguiu “mudar” o gênero da face das pessoas e transformá-las em bebês. Nos últimos meses, outra aplicabilidade interessante causou alvoroço geral na rede. A possibilidade de “predizer” como você estará daqui à alguns anos. Ou seja, com base em uma foto de sua escolha, realiza um processo de envelhecimento artificial e apresentava um resultado (na maioria das vezes bizarro).

Não deu outra, a internet foi abaixo. O aplicativo acumulou mais de 150 milhões de fotos em questão de dias.

O debate acerca da privacidade envolvendo esses aplicativos fica para outro dia (e recomendo essa reportagem).

Espelho e formação da imagem

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(Imagem retirada da Internet)

A nossa imagem corporal é constituída em um longo processo mental, que é sempre pautado pela relação com o Outro. Jacques Lacan (1901 – 1981) introduziu a noção de estádio do espelho, que, resumidamente,  nos auxilia a compreender a constituição do sujeito em relação ao outro. Sugiro que todos se remetam ao próprio texto, mas para já é importante apontar que o aporte corporal do sujeito é dado pelo outro. A nomeação de nosso corpo e filiação é dada pelo Outro, e é simbolizada pelo sujeito.

“Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficiente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago.” (Lacan, 1951/1998, p. 97)

Logo após a constituição dessa unidade imaginária (Eu), o sujeito passa de uma relação auto-erótica, anterior, primária, a uma relação de narcisismo, onde o investimento libidinal volta-se sobre si mesmo, mas de uma maneira organizada.

 

Diana e Mario Corso (2018) falam da formação da imagem no adolescente, e como esse período determinará nossa relação com o espelho para o resto da vida. A adolescência é o momento onde formamos nossa assinatua visual, como fala Diana. “Sempre que olharmos para o espelho, é esse adolescente que vamos enxergar, e ele vai nos cobrar”. As selfies insistentes dos adolescentes (e dos nem tão jovens) podem ser entendidos como esse apoio para a formação da imagem.

 

 

A morte, segundo Freud se coloca como a castração final. E nos é impossível, conceber a nossa propria morte em seu aspecto completo, realmente imaginar nosso desfalecimento.

Muitos pacientes relatam imaginar e fantasiar sobre o seu próprio funeral. O que aconteceria, quem viria, se haveriam lágrimas sendo derramadas ou sorrisos exibidos.

O que argumento é, talvez o que importa no fato do app nos transformar em velhos é a possibilidade de poder mostrar para o outro. Olhar e ser olhado. Toda relação é a três como já dizia o velho Freud. Em uma passagem interessante do livro Como ler Lacan? (2010), do irreverente Slavoj Žižek, ele comenta esse aspecto (o leitor me perdoará desde já a longa citação):

“Essa referência inerente ao Outro é o tópico de uma piada infame sobre um pobre camponês que, tendo sofrido um naufrágio, vê-se abandonado numa ilha com, digamos, a Cindy Crawford. Depois de fazer sexo com ela, ela lhe pergunta como foi; sua resposta é “Foi ótimo”, mas ele ainda tem um favorinho a pedir para completar sua satisfação: poderia ela se vestir como seu melhor amigo, usar calças e pintar um bigode no rosto? Ele lhe garante não ser um pervertido enrustido, como ela verá assim que lhe fizer o favor. Quando ela o faz, ele se aproxima dela, dá-lhe um tapinha nas costas e lhe diz com o olhar malicioso da cumplicidade masculina: “Sabe o que me aconteceu? Acabo de transar com a Cindy Crawford!”

 

A clínica psicanalítica com idosos

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(Imagem retirada da Internet)

É possível analisar idosos? Agora, respondo que sim. Antes, talvez tivesse mais resistência para com isso. A kilometragem de divã nos ajuda bastante.

Para Freud (1898/1996), analisar idosos poderia não ser uma boa idéia pelo fato da neurose estar tão arraigada que não haveria tempo de realizar o tratamento psicanalítico, haveria “muito material”.

 

A psicanálise faz com que o sujeito reflita sobre seu próprio desejo, e muitas vezes ajuda a recriá-lo. A velhice pode ser tida por alguns como período de espera pela morte. O analista aposta no sujeito, para que ele ainda podem ter sonhos.

A clínica psicanalítica faz com que o sujeito possa se re-inventar, encontrar outras formas de satisfação e lidar de maneira menos tóxica com a perda dos objetos.

 

Lembro de um episódio específico da série televisiva “Friends” quando todos fazem 30 anos, onde a forma como cada um lida com isso é mostrado. Muitos não aceitam, alguns inclusive querem fazer um pacto com Deus para não mais envenlhecer.

Como dizia Freud: Existe vida antes da morte.

Até a próxima,

Por Igor Banin

PS:

Sobre esse tema, acho interessante a leitura dos textos abaixo. Um deles trata de um experimento feito por um fotógrafo onde ele junta imagens de pessoas idosas, com retratos das mesmas quando jovens. O outro é um artigo da psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, que também faz uma análise do aplicativo FaceApp. Além disso, seguem também os comentários do psicanalista Christian Dunker acerca da clínica na velhice.

https://extra.globo.com/noticias/mundo/fotografo-americano-poe-idosos-para-se-verem-mais-jovens-no-espelho-em-ensaio-10969068.html

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2019/07/vida-longa-as-vovozinhas-assanhadas.shtml

 

Referências Bibliográficas

Crane, D & Kauffman, M. (2000). Friends: The one where they all turn thirty. Estados Unidos da América: Warner Bros. Television.

Freud, S. (1898/1996). A sexualidade n aetiologia das neuroses. In Primeiras publicações psicanalíticas. (pp. 249-272, Obras completas de Sigmund Freud, v.3). Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1951/1998). O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In Escritos. (pp 96 – 103). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Zizek, S. (2010). Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

“Adolescentes e adultos: tudo fora do eixo”. Palestra da série: Adolescência em cartaz por Mario Corso e Diana Corso, feita em 2018. Promovido pela CPFL Cultura.

Diferenças entre Medo, Fobia e Ansiedade.

Você saberia diferenciar medo, fobia e ansiedade? Sim? Não? Em ambos os casos: este texto será perfeito para você.

O Grito. Obra-prima em óleo sobre tela do pintor expressionista norueguês Edvard Munch. Foi pintada no ano de 1893 e atualmente pertence ao acervo da Galeria Nacional de Oslo. O Pintor se inspirara muito em Vincent Van Gogh, tendo a autoria de sua obra frequentemente confundida, como se fosse do pintor holandês. Suas cores, suas formas, seus traços e as expressões faciais ali representadas são frequentemente associadas ao sentimento de medo, fobia, angústia e ansiedade do ser humano.

O Medo

E se você pudesse sentir medo pela primeira vez?

Outro dia me peguei pensando sobre o que seria uma reação estranha e incômoda de meu corpo. Mais ainda: o que seria esta reação que ao longo de minha vida aprendi a enxergar como algo normal, mas no sentido de quase inexistente: inerente. Tal fato fez com que eu me questionasse: como poderia ser sentir isso pela primeira vez? Este questionamento se deu quando eu estava com meus pensamentos envoltos sobre o ato de sentir medo. Afinal, o que é isso?

O Medo é uma emoção. Uma emoção básica. Se você ainda tiver dúvidas sobre o que é uma emoção, consulte este texto do psicólogo Caio Ferreira. O medo é uma resposta neuropsicofisiológica, com caráter evolutivo, por vezes mais motivado à via cultural, por outras pela via instintiva. Mas sua convergência é uma só: o medo sempre causará fortes desconfortos físicos e/ou psíquicos a quem o experimenta.

Se você encontrar um Leão…

“Hércules luta com o leão de Nemea” é uma pintura de Francisco de Zurbarán exibida no Museu do Prado em Madri, Espanha.

Pra que serve o medo?

O medo é uma emoção que provoca descargas de adrenalina; que aumenta ou diminui o fluxo de sangue do corpo — pode causar vasodilatação ou vasoconstrição – provocando vermelhidão ou palidez na pele; o medo dilata as pupilas para melhorar nossa capacidade de visão até em ambientes mais escuros; o medo é até capaz de provocar a liberação de urina ou fezes de maneira involuntária. E há tantas outras descrições… Embora estas interações emocionais – ocorridas em muitas áreas do cérebro, mas principalmente na integração entre a amígdala, o hipocampo e o hipotálamo – apontem principalmente um caráter de paralisia ou fuga – maior fluxo sanguíneo para maior produção de ATP e maior energia muscular para correr; liberação de urina e/ou fezes com função de afastar predadores através do odor, por exemplo – o medo também pode ser uma forma de preparar nosso corpo para uma luta. Inclusive, paralisia, luta e fuga são respostas autônomas ao medo. Tanto no ser humano como nós animais.

Por exemplo na imagem acima. Hércules, apesar de ter derrotado o Leão de Neméia através de uma árdua luta, provavelmente não teria deixado de sentir medo. Contudo, outras pessoas (e me incluo nessa lista) provavelmente não lutariam contra um leão. Algumas ficariam paralisadas, tremeriam suas mãos e pernas e ficariam com dificuldade para respirar; outras correriam; algumas até poderiam utilizar o córtex pré-frontal em conjunto com o hipocampo para lembrar daquelas técnicas aprendidas na internet sobre como agir perante um leão. Mas aqui falamos de uma exclusividade humana.

Em suma: o medo, apesar de seus desconfortos, serve para proteger a nós mesmos e à nossa espécie. Mas e quando ele acontece de maneira desmedida?

As Fobias

Fobos (Phobos) e seu pai Ares em uma carroagem retratados em Ânfora de aproximadamente 500 anos A.C.

O que une Marte a Vênus é o medo e o terror na Terra.

Phobos e Deimos eram os gêmeos que nasceram da junção do amor, da sensualidade e da beleza de Afrodite (Vênus na versão Romana) em contato com a Guerra, as Armas e os Conflitos de Ares (Marte, na versão Romana). Vale ressaltar que Afrodite era casada com Hefesto, tratando-se, portanto, também de uma traição. Bons filhos que eram, entre seus desejos e aspirações encontrava-se a vontade de sempre acompanhar o pai em suas Guerras. Desta forma, não haveria Guerra em que o Medo (Phobos) e o Terror (Deimos) não acompanhassem os homens.

Em seu papel de Daímon, alguma parte própria natureza humana se manifestava através deles. Se essas divindades não existiram na realidade, com certeza existiram através da força que seu mito tinha para permear o discurso dos guerreiros. Passam a existir no corpo de cada soldado e de cada general — através daquilo que este sente — sua aparição é inerente à Guerra. E não haverá Guerra alguma sem medo ou terror. Mas haveria menos ainda a existência de qualquer um dos dois se até o maior dos guerreiros não precisasse de amor. Então para resumir o mito: a paixão (pathos) que transita entre o amor e a guerra deu a luz ao medo e ao terror dos seres humanos.

A palavra Fobia, em sua raiz grega, deriva deste Deus ou demônio (daímon) que era Phobos, a personificação do medo.

O que é uma Fobia?

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) entendemos como fobia um medo específico e irracional, ou seja, além das perspectivas reais de perigo daquele objeto que causa tal medo — que pode ser um animal, uma situação e/ou um próprio objeto inanimado:

“Os indivíduos com fobia específica são apreensivos, ansiosos ou se esquivam de objetos ou situações circunscritos. Uma ideação cognitiva específica não está caracterizada nesse transtorno como está em outros transtornos de ansiedade. Medo, ansiedade ou esquiva é quase sempre imediatamente induzido pela situação fóbica, até um ponto em que é persistente e fora de proporção em relação ao risco real que se apresenta. Existem vários tipos de fobias específicas: a animais, ambiente natural, sangue-injeção-ferimentos, situacional e outros”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233-234).

A palavra fobia entra como uma representação patológica do que seria a superestimação do perigo real que este medo a um objeto ou evento específico (para ser caracterizado fobia precisa ser em relação a algo específico) pode ou não acompanhar as manifestações fisiológicas mais comum a quem experiencia a emoção do medo em graus elevados. Ex: sudorese, tremores, paralisia, gritos, etc.

Curiosamente, derivando do grego Phobos, o daímon que representava o medo na Mitologia Grega, a nomenclatura deste Transtorno Mental parece ter sido escolhida de forma que também acompanhasse, em partes, a narrativa do mito.

Fobias Específicas

Certa vez, enquanto uma pessoa me relatava sobre uma fobia que possuía, correu um fato curioso: apenas por dar uma descrição mais detalhada do objeto em questão, esta pessoa demonstra tremendo desconforto, visível ao seu rosto e ao seu corpo – ambos passaram a ser protegidos pelas suas mãos.

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A Fobia pode se tornar uma espécie de lente de aproximação dos perigos quem podem ou não representar aquele objeto ou evento específicos.

Talvez você conheça algumas pessoas têm nojo de barata. Sem dúvida também conhece outras que têm medo. Mas você conhece adultos, idosos anônimos e famosos que paralisariam, suariam frio, sofreriam de uma incômoda taquicardia e até chorariam como uma criança perante este mero inseto? Para o caso de conhecer: ajude esta pessoa a buscar por um psicólogo e/ou um psiquiatra, pois é possível que ela sofra de entomofobia, ou insetofobia.

Para o diagnóstico de fobia específica ser considerado, é importante ressaltar que a relação de elevada aversão e ansiedade perante o objeto deverá persistir por período igual ou superior a seis meses. Ainda se faz necessário destacar que para começarmos a distinguir um medo de uma fobia, é também preciso avaliar se e o quanto aquilo causa sofrimento e incapacitação na vida daquele indivíduo.

Alguns exemplos de Fobias Específicas

ATENÇÃO: Caso o leitor sofra de algum caso de Fobia Específica, esta seção poderá conter imagens explícitas de seu objeto fóbico.

Aracnofobia: aranha, de forma real ou imaginada;

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Acrofobia: de altura; de lugares altos, de muros, sacadas, etc;

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Agorafobia: de espaços abertos; shows, concertos, multidões em geral;

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Claustrofobia: de lugares fechados/trancados: elevadores, túneis, etc.;

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Hematofobia: de ter contato ou de apenas ver sangue ou vestígios de.

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A Fobia na Psicanálise

Talvez o caso mais famoso de fobia retratado na psicanálise é o do Pequeno Hans, e sua fobia de cavalos. Caso contado por Freud. Recomendo a leitura da obra, mas para quem quiser conhecer brevemente o caso, o psicanalista Christian Dunker traz um breve resumo em seu Canal no Youtube:

A Ansiedade

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“Chegou o final de semana. Finalmente eu poderei colocar em dia os estudos que deixei atrasar. Dessa vez eu vou conseguir atualizar os detalhes de minha agenda! Agora dará tempo de arrumar o meu quarto, de trocar a lâmpada do forno do meu fogão. Mas hey, primeiro eu preciso levar o cachorro para passear. Também não posso me esquecer de reservar uma hora de cada dia para ir à academia e, com certeza, de ler minhas 50 páginas diárias. É bom que eu também me lembre de relaxar, de ouvir alguma música. Será que não tá na hora de checar as minhas redes sociais? O que as pessoas poderiam estar pensando de mim? Será que aquela foto ficou muito comprometedora para o pessoal do trabalho ver? MAS EU AINDA NÃO ESTUDEI! Imagina se o cachorro ficar o dia inteiro sem passear? Eu deveria me esforçar para me organizar mais. MEU DEUS! Eu ainda não atualizei a agenda e ainda faltam 49 páginas. Acho que vou dormir. É uma pena que eu não consigo fazer nada direito”.

Esta é a síntese de alguns pequenos momentos dentro da mente de alguém que sofre de ansiedade. É como se o pensamento tivesse vida própria, como dizem muitos pacientes. E isso cansa, pensar se torna um trabalho. Um trabalho pra lá de exaustivo.

A ansiedade torna a vida do sujeito atemporal. Vive-se o passado e presente em simbiose com as possibilidades (frequentemente negativas) do futuro. É o medo em sua forma crônica, constante e às vezes invisível. É uma enxurrada de palavras preocupadas que pré-ocupam toda e qualquer atenção e relaxamento na vida de um sujeito.

Quem sofre de Ansiedade não tira Férias

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Passagem do Romance “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski.

A ansiedade ocorre na mente e no corpo. Dificilmente ela age isoladamente em um dos dois, por mais que a princípio alguns sintomas dêem a entender tal fato.

Não é incomum que um paciente que sofra de ansiedade descubra isso após seu dentista lhe apontar o desgaste que o bruxismo causa em seus dentes.

Em alguns casos, quem prevê o diagnóstico é o próprio gastroenterologista, após uma forte dor no estômago que mais tarde se descobre ser uma gastrite.

Quando me perguntam sobre a relação entre gastrite e ansiedade, eu gosto de recorrer à seguinte explicação:

– A gastrite é uma condição médica onde o próprio suco gástrico, que, presente no estômago para auxiliar na digestão dos alimentos, acaba corroendo as paredes que revestem o órgão internamente – quadro muitas vezes corroborado por um padrão alimentício rico em acidez.

Contudo, há relatos de pacientes que mesmo em uma dieta praticamente alcalina apresentaram o distúrbio. Por alguma coincidência, esses pacientes geralmente têm um perfil comportamental mais ansioso. Eventualmente temos aqui um diagnóstico de um quadro conhecido como dispepsia funcional. Ou, popularmente falando: Gastrite Nervosa.

– Uma das causas da gastrite nervosa é a liberação de suco gástrico sem a presença de alimento e/ou fisiopatologia que cause tal fato. Mas o que faria o organismo ter este tipo de comportamento? Talvez um chiclete, já que ele simula uma refeição e a pessoa poderá sofrer caso se encontre de “barriga vazia”. Mas e se o paciente sofrer da condição mesmo sem o hábito de mascar chiclete?

Será que isso é algo como se o organismo estivesse pulando etapas? Como se este se atropelasse na pressa de fazer tudo de uma vez? Talvez como se a sua digestão, da mesma forma em que ocorre com os pensamentos apreensivos de um paciente ansioso, esteja lá no futuro, lhe causando desconforto agora.

O que é a Ansiedade, afinal?

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A ansiedade, segundo Dalgalarrondo:

[…] é definida como estado de humor desconfortável, apreensão negativa em relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e fisiológicas (dispneia, taquicardia, vasoconstrição ou dilatação, tensão muscular, parestesias, tremores, sudorese, tontura, etc.) e manifestações psíquicas (inquietação interna, apreensão, desconforto mental, etc.).

(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166).

Portanto, é importante ressaltar que estamos falando de uma condição por vezes altamente incapacitante. A ansiedade costuma trazer insônia, comprometendo a organização dos ciclos circadianos do paciente; pode atrapalhar relações de trabalho com atrasos e faltas frequentes; pode, inclusive, comprometer relações amorosas e familiares. Nada aqui se compara ao famoso “frio na barriga” antes de uma esperada viagem – causado por uma descarga de adrenalina

Lembrando disso me cabe também contar que, ao começo de minha vivência clínica, quando atendia pacientes encaminhados via convênio médico em parceria com uma instituição, era altíssimo o número dos encaminhamentos médicos com a hipótese diagnóstica de algum Transtorno de Ansiedade.

Mas o fato mais curioso, que não me foi ensinado à graduação de psicologia era que a maioria destes pacientes não era composta por pessoas encaminhadas por um psiquiatra, mas sim pelo cardiologista – em geral após uma suspeita de infarto ou cardiopatia ser descartada por uma bateria de exames realizada um pouco depois de o paciente ter dado entrada no Pronto Socorro de um hospital.

Os Sintomas da Ansiedade

Dalgalarrondo (Ibid) divide os sintomas entre mentais, ou seja, relacionados à experiência interna, subjetiva, do indivíduo; e somáticos, relativos ao corpo, à fisiologia; à parte observável diretamente.

Quadrinho
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166. Quadro 16.3)

Contudo, é preciso cuidado. Os sintomas da ansieda não lhe são exclusivos. Eles já apareceram em Outro lugar. Eles são muito semelhantes ao que se sente no medo. Entretanto, o próprio DSM-V faz questão de nos atentar às diferenças entre medo e ansiedade:

“Medo é a resposta emocional à ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, com o medo sendo com mais frequência associado a períodos de excitabilidade autonômica aumentada, necessária para luta ou fuga; pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga e a ansiedade sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e vigilância em preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233).

A partir desta afirmação, se faz importante observar que há uma clara semelhança entre os sintomas da ansiedade com a expressão de uma das sete emoções básicas: o medo. Não é atoa que há eventual confusão entre os dois termos. A ansiedade talvez se pareça mais com um medo que, a princípio, se hospedaria naquele local apenas por um final de semana, mas encontrou lá razões para permanecer por tempo indeterminado.

As próprias manifestações fisiológicas são bem parecidas às do medo e da fobia. Mas a principal diferença é que, pelo menos a princípio: a ansiedade pode não possuir relação com causa/objeto específicos. Em alguns casos, como no Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), uma crise de ansiedade pode acontecer de maneira súbita, sem causa aparente. Quem quiser mais detalhes sobre a ansiedade, recomendo a leitura de um excelente texto da psicóloga Masilvia Diniz clicando aqui.

Transtornos de Ansiedade

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Você sabia que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde?

Os Transtornos de Ansiedade são diagnosticados de acordo com as recomendações da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID 10) – gerido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) –, e/ou pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) – regido pela American Psychiatric Association. Sempre por um psiquiatra. Contudo, o tratamento pode e deve ser realizado com vários profissionais trabalhando em equipe. A multidisciplinaridade, como forte aliada à saúde mental, é indispensável. Desde o psicólogo, o psiquiatra; à nutricionista, o terapeuta ocupacional; até ao educador físico e ao endocrinologista. Caso você sofra de algo parecido, procure urgente um profissional da área da saúde mental.

Exemplos de Transtornos de Ansiedade

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Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Sendo uma de suas marcas o roer de unhas, falamos aqui de um quadro de sintomas ansiosos que persistem por pelo menos seis meses, passando a causar elevados prejuízos aos âmbitos social, produtivo e afetivo do indivíduo que sofre desta condição.

A angústia e a insônia não são raras, confira a lista de sintomas que Dalgarrondo (2008) descreve a respeito desta condição:

TAG
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

O TAG é algo que com alguma frequência parece não ter uma causa aparente em suas crises. E de fato não é fácil estabelecer uma linha entre os fatores que poderiam desencadear a expressão de uma crise de ansiedade.

Para ilustrar tal fato, me recordo de uma situação relatada para mim onde, todos os dias na mesma hora, um pouco após chegar ao trabalho, uma pessoa que sentia muita vontade de ser demitida começava a experimentar uma crise de ansiedade. A princípio, para alguns psicólogos e psicanalistas, a relação entre as duas coisas parecerá evidente. Contudo, foi preciso que mais detalhes fossem buscados para que se começasse, em consultório, recolher as migalhas de pão”deixadas no caminho através da fala do paciente para depois entender mais nuances que o sigilo profissional não me permitirá expor aqui. As informações deste tipo não são tão simples de se chegar ao acesso, exigindo um pouco de paciência e atenção da parte do terapeuta.
O tratamento para o TAG é realizado com psicoterapia e, em casos mais acentuados, há o uso de medicamentos em conjunto.

Transtorno do Pânico

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É o medo de sentir medo. Um dos mais incapacitantes transtornos de ansiedade. Suas manifestações se estendem através de descargas do sistema nervoso autônomo; exatamente por isso, seus sintomas são até mais incapacitantes do que no caso de outros transtornos. Por exemplo: “batedeira ou taquicardia, suor frio,
tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos
em membros e/ou lábios” (Dalgalarrondo, 2008, p. 305).

Panico
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

Ainda de acordo com Dalgalarrondo (2008) , algo é unânime entre os pacientes: a sensação de que irá morrer a qualquer momento. Em crises mais intensas pode haver até certo grau de despersonalização. O ataque de pânico costuma ocorrer por mais tempo que o convencional. Quando estas crises de pânico se repetem com certa frequência por um período de 6 meses, pode-se começar a indagação a respeito de um diagnóstico relacionado ao Transtorno do Pânico (podendo ser com ou sem agorafobia).

Pacientes que sofrem de Transtorno do Pânico começam a evitar sair de casa com medo dos ataques; pedem demissão, terminam relacionamentos e, em casos mais graves até cometem suicídio em função da insuportabilidade de seu sofrimento.

A Ansiedade tem tratamento

Agora que você já sabe a diferença entre medo, fobia (que no DSM-V também é considerada um transtorno de ansiedade) e ansiedade teremos o objetivo principal em pauta: auxiliar na busca pelo tratamento, inclusive estimulando pessoas próximas a fazerem o mesmo. Se o leitor se identifica com a maior parte dos sintomas e algum dos transtornos aqui apresentados, a recomendação é que procure um psicólogo e/ou um psiquiatra o mais rápido possível, mesmo que apenas para tirar a dúvida. A internet não serve para isso.

A diferença é feita na hora da procura por um profissional. Mas a difusão do conhecimento sobre o assunto também poderá ajudar para que mais pessoas consigam entender que talvez seja a hora de escutar a opinião de quem dedicou, e ainda dedica a vida pessoal e profissional para ajudar quem passa por este tipo de sofrimento. Compartilhar este texto e deixar seu feedback também ajudarão à difusão deste conhecimento. Faça a sua parte. Até a próxima.

*Todas as imagens contidas no texto foram obtidas de forma gratuita na internet. Caso alguma delas seja de sua autoria, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos o mais rápido possível*.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERENCIAS:

American Psychiatric Association et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.

Cabral, A.; Nick, E. Dicionário Técnico de Psicologia. São Paulo. Editora Cultrix. 2006.

Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed Editora. 2008.
Darwin, C. A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras. 2009. (Obra original publicada em 1872).
Ekman, P. A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel. 2003.

Lent, R. Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu. 2010.
Rafailov, Igor. “Dicionário Igor de Fobias.” Forum de Fobias, 2003.

Spinelli, M. “O Daimónion de Sócrates”. Revista HYPNOS. São Paulo. Ano 11/nº 16 – 1º sem. 2006 – p. 32-61. acessível em http://revistas.pucsp.br/index.php/hypnos/article/view/4777/3327

A análise é de graça?

Como funciona a pagamento e porque ele é importante

O tema do pagamento na clínica é algo que é sempre discutido e parece dar medo em muita gente. Algo que não podemos nos furtar na nossa práxis é pensar qual valor damos a ela.

Os tratamentos em regime de gratuidade, ou com valores baixíssimos, praticados em universidades ou outros centros de formação colocam em xeque preceitos enunciados desde Freud.

Tentarei aqui, apresentar alguns dos principais elementos considerados na prática da psicanálise de orientação lacaniana quanto à questão de pagamento e valor das sessões. Naturalmente não trata-se de encerrar o assunto, mas meramente apontar caminhos de pesquisa.

Na Psicanálise

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(Imagem retirada da Internet)

“Nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez” (Freud, 1913/1996, p. 148).

O valor da análise é intrínseco ao próprio andamento do processo. Ele se diferencia de qualquer outro tratamento na medida em que o analista não responde à uma demanda de um comprador (e não responde mesmo).

A Psicanálise (e especial aqui no Brasil) se manteve (e ainda bem) de maneira mais artesanal, isto é, sem ser regrado por uma tabelação de preços (como o CRP propõe, e bem, para a atuação de psicólogos), e sem estar ligada à grandes corporações da área da saúde. Ela foge das chamadas “práticas de mercado” ou “tendências”.

A análise não é algo que se compra em um balcão, um serviço com orçamento, como outro qualquer.

O dinheiro é tratado por Freud como um elemento do circuito anal (para saber mais sobre as fases do desenvolvimento psicossexual clique aqui). Trata-se de dar ou não o que o outro pede, como quando uma criança pequena tem o poder de ir ou não no banheiro quando a mãe pede (dar ou não o que o outro quer).

Há também, claro, o caso do enfezado, aquele que segura tudo, nada escapa.

“De fato, em uma análise, quando o paciente aborda a questão do dinheiro, o analista não deve ouvir isso como se fosse uma relação comercial, e sim entende-la como algo a ser tratado, semelhante a uma formação do inconsciente, como ato falho, esquecimento, sonho e sintoma. A colocação do pagamento já é o inconsciente trabalhando” (Macedo, 2014, p. 91).

Lacan sempre teve uma fama de cobrar caro. Cobrava sim, mas de quem podia, e em caso, o pagamento era intrínseco ao andamento da análise. Em um conjunto de relatos fabulosos, Jean Allouch, conta passagens de intervenções de Lacan com seus pacientes, nas apresentações de doentes e nas supervisões com analistas em formação. Em muitas delas, pode-se notar o caráter fundamental atribuído ao preço das sessões:

“conflito sobre a próxima sessão

– Quando você volta?

– Segunda,… segunda-feira próxima…

– Volte então sexta-feira.

– É que estou cheio de problemas agora: não tenho mais um tostão. Estou sem trabalho. E pedi que X não me mandasse mais nada…

– Bom, volte sexta-feira e se vire para ter com que me pagar. Até a vista.

Saindo, ele se dá conta: pela primeira vez Lacan lhe disse: “até a vista”.”

(Allouch, 1999, p.38)

Essa passagem tomada de maneira isolada pode parecer para os desavisados algo de arrogante por parte de Lacan, todavia, o mestre francês sabia como ninguém implicar alguém em seu próprio processo de análise.

Trata-se exatamente disso, responsabilizar o sujeito em seu próprio processo de “torção discursiva”, como diria o último Lacan. Ou seja, fazer com que o sujeito se reposicione psiquicamente diante da vida e das situações. Uma análise é cara, mas não necessariamente em seu valor financeiro, e sim, no investimento que o sujeito coloca de si no processo.

“Na prática, o valor cobrado considera a possibilidade de cada um e a disponibilidade do analista” (Macedo, 2014, p. 86).  O quanto um sujeito banca sua própria análise é refletido em parte no valor que paga em sua sessão.

Nessa medida, não é viável uma análise “de graça”, pois, o sujeito ficaria eternamente em dívida com o Outro. “… se o analisante não pagar a análise, o analista o está deixando no registro eterno da culpa. É interessante que na língua alemã se usa a mesma palavra, Schuld, para dívida e para culpa” (Macedo, 2014, p. 92).

Em outro momento, Freud (1913/1996) diz:

“O tratamento gratuito aumenta enormemente algumas das resistências do neurótico – em moças, por exemplo, a tentação inerente à sua relação transferencial, e, em moços, sua oposição oriunda de seu complexo paterno e que apresenta um dos mais perturbadores obstáculos à aceitação de auxílio médico.” (p. 147)

Em determinados casos pode-se pensar em um pagamento mensal ou quinzenal, todavia, normalmente, segue-se um pagamento por sessão, o que auxilia a organização e estabelecimento de limite para o paciente. Em minha prática, costumo acertar o valor inicial nas primeiras sessões, deixando claro, naturalmente, que o valor poderá ser revisto com o andar das sessões.

E na análise com as crianças?

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(Imagem retirada da Internet)

Linha bem tênue, na Clínica da Infância, pensando à partir da perspectiva lacaniana, podemos apontar para um conceito criado por Françoise Dolto (1908 – 1988), chamado de “pagamento simbólico”.

Naturalmente, os honorários do analista são pagos em dinheiro pelos pais/responsáveis que trazem a criança, em valor acordado também nas primeiras sessões.

Quanto à criança, Dolto (2013) trabalha com o chamado pagamento simbólico, onde a criança é também responsabilizada por seu tratamento, onde, a mesma fica incumbida de trazer objetos, como desenhos, cartas ou outras produções que sirvam como pagamento e testamento do progresso da análise.

Alcance social

A Psicanálise é para todos? Sim, e não.

Muito se discute sobre o alcance que a Psicanálise tem na sociedade. Se ela é cara, e a percepção de que é coisa de elite. Na realidade não é. Todavia, tem que se pensar que fazer uma análise não é um empreendimento fácil.

Lacan dizia que não basta querer se conhecer, não é o suficiente. Tem que se procurar uma mudança profunda, para que se suporte o andar das sessões.

É importante que sempre se ressalte que a Psicanálise é uma clínica do singular, cada analista maneja os tratamentos de maneira única. Termino, pois, com uma passagem de Freud (1913/1996):

“Todo aquele que espera aprender o nobre jogo de xadrez nos livros, cedo descobrirá que somente as aberturas e os finais dos jogos admitem uma apresentação sistemática exaustiva e que a infinita variedade de jogadas que se desenvolvem após a abertura desafia qualquer descrição desse tipo. Esta lacuna na instrução só pode ser preenchida por um estudo diligente dos jogos travados pelos mestres. As regras estabelecidas para o exercício do tratamento psicanalítico acham-se sujeitas a limitações semelhantes” (p.139).

Até a próxima.

Por Igor Banin

 

Ps: Ficam aqui algumas recomendações de vídeo falando mais sobre esse tema:

 

 

Referências Bibliográficas

Allouch, J. (1999) – Alô, Lacan? – É claro que não. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Dolto, F. (2013). Seminário de Psicanálise de crianças. São Paulo: Editora WWF Martins Fontes.

Macedo, E. (2014) A sessão e seu preço: A análise lacaniana custa sempre caro?. In Psicanálise – A clínica do Real (pp. 85 – 102). Barueri: Manole.

Freud, S. (1913/1996). Sobre o início do tratamento(Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise I). In O caso de Scheber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. (pp. 137-158, Obras completas de Sigmund Freud, v.12). Rio de Janeiro: Imago.

Como a Psicologia vê o Golden Shower?

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Sexualidade – Fronteira da Normalidade

“A sexualidade humana é um obscuro dispositivo encarnado que aproveita o livre curso das funções fisiológicas para, mediante um desvio perverso da função, gerar e extrair prazer” (Baggio, 1992, apud, Carvalho Neto, 2010, p. 9).

Se a literatura nos permitir recordar, saberemos que a sexualidade humana navegou em círculos no que diz respeito aos seus limites em cada época. O banho que recebe cada um da linguagem e, portanto, das regras sociais vigentes numa sociedade dum determinado período, consequentemente delimitou o quanto cada prática sexual seria mais ou menos aceita à época. Mais ainda: quais práticas consideradas “proibidas” seriam mais ou menos interessantes à satisfação de desejos vigentes.
Talvez algumas pessoas relacionem normas celibatárias e heteronormativas de algumas religiões às notícias de seus líderes envolvidos em crimes sexuais; talvez algumas entidades considerem em lares familiares mais extremamente rígidos e rigorosos com a sexualidade de seus filhos, lugares mais propícios à gravidez na adolescência. Talvez.

[…] preferências, predisposições ou experiências sexuais, na experimentação e descoberta da sua identidade e atividade sexual, ao longo da sua existência [..] afasta[m]-se da noção simplista de mera reprodução animal associada ao coito, se prendendo apenas ao nível físico do homem, para se apresentar no plano
psicológico do indivíduo. Por isso, além dos fatores biológicos, a sexualidade é fortemente construída pelo ambiente sociocultural e religioso em que este se insere. (Carvalho Neto, 2010, p.8).

Explicando melhor: dependendo do que for proibido e de qual sujeito estiver em ação, a satisfação de realizar aquela prática que virou tabu poderá ser equivalente à intensidade de sua proibição. A famosa frase “aquilo que é proibido é mais gostoso” tem seu lugar aqui. De alguma forma, a história nos mostra o seguinte: quanto mais atenção é dada para a proibição de algumas práticas sexuais, mais estas mesmas práticas serão presentes numa determinada época. O discurso presente em um meio sociocultural se relacionará (positiva ou negativamente) à sexualidade de um período histórico específico. Os perversos que o digam!

As Parafilias

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Em seu Seminário 9 – A Identificação (1961) – Jacques Lacan, ao falar da noção de Traço Unário, conta-nos algo sobre alguém muito famoso por realizar práticas sexuais que fugiam à norma da França de Napoleão Bonaparte.

O famoso e controverso Marquês de Sade tinha o hábito de realizar um traço, uma marca, à cabeceira de sua cama. O diferencial de tal risco era que este jamais poderia ser igual ao anterior, pois cada um era feito sob os efeitos imediatos de um orgasmo que o Marquês acabara de ter. E o que isso nos poderia significar? Será possível que Sade poderia, após algum tempo, obter um prazer tão ou mais importante no registro do traço do que no ato em si? Não saberemos. Mas se a resposta foi positiva e tal ato se tornar a única forma de obtenção de prazer – mesmo que traga sofrimento ao agente, teríamos aí uma prática que poderia ser chamada de parafilia que, por etimologia, podemos entender como um “Amor/Desejo Paralelo“.

As parafilias, então, seriam uma forma de desejo que fugiria daquilo que é considerado normal dentro das práticas sexuais de uma sociedade de uma época. Mas jamais só isso. Não raro, muitas pessoas – inclusive figuras importantes – podem demonstrar certo desconhecimento e/ou curiosidade sobre estas práticas. Bem como não poderíamos esperar que deixasse de haver grande estigma e julgamento aos adeptos de alguma (s) delas. Há sim, um grande Tabu ao que foge da norma. Há mais ainda, como nos contou Freud, um grande interesse por tudo aquilo que é Tabu. Do contrário, tais práticas sequer teriam a atenção necessária para se tornarem um.

Em suma: o comportamento sexual gerador de forte excitação a partir de lugares, objetos, situações e particularidades que excedam a cópula em si, poderá ser parte de uma parafilia em determinadas situações que explicitaremos a seguir. Se pegarmos a urofilia – o famoso Golden Shower e/ou chuva dourada/amarela – como exemplo, ela também poderá adentrar nesta classificação.

DSM – V

Para o Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Norte-Americana de Psiquiatria):

“O termo parafilia representa qualquer interesse sexual intenso e persistente que não aquele voltado para a estimulação genital ou para carícias preliminares com parceiros humanos que consentem e apresentam fenótipo normal e maturidade física” (p.685).

Mas, adiante, o próprio manual vai nos informar que em sua forma patológica: uma parafilia é também um comportamento sexual atípico que cause intenso sofrimento, ameaça física e/ou psicológica para si ou para o bem-estar de outros indivíduos, presentes durante pelo menos seis meses e cause intenso prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. (2013).

O que isso quer dizer? Quer dizer que não basta que alguém tenha interesse por práticas sexuais atípicas para que esta pessoa sofra de um Transtorno Parafílico. Desde que esteja dentro da Lei, não há nada de errado em prática sexuais que fujam à norma. Entretanto, devemos abrir os olhos se:

  • A pessoa sentir uma angústia pessoal sobre seu interesse sexual que exceda o sofrimento resultante do julgamento negativo àquela prática na sociedade vigente;

  • Tenha desejo ou comportamento sexual que envolva sofrimento psicológico, lesões ou morte de outra(s)pessoa(s);

  • Tenha interesse por prática sexual que envolva pessoas que não querem ou que sejam incapazes de dar o seu consentimento legal;

  • Não consiga obter excitação ou prazer de forma alguma senão com esta prática.

Entre alguns exemplos mais conhecidos de Parafilias estão:

  • Podofilia: Marcada por uma excitação e prazer sexuais atrelados aos pés do (a) parceiro (a);
  • Odaxelagnia: Excitação e/ou prazer sexual por mordidas, mesmo que estas causem sérias lesões à pele do (s) praticante (s);
  • Cropofilia: Excitação e/ou prazer sexual em manipular, cheirar, observar ou ingerir fezes (Cropofagia);
  • Necrofilia: Excitação e/ou obtenção de prazer na prática sexual com cadáveres;
  • Zoofilia: Excitação e/ou obtenção de prazer na prática sexual com animais (no Brasil, considerada crime de maus tratos, apesar de não serem raras as menções a esta no âmbito rural).

A Urofilia – O Golden Shower

(O empresário Omar Monteiro com a fantasia de Golden Shower para o carnaval Foto: Omar Monteiro/ Divulgação)
Recentemente, dois tweets do Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro causaram certa polêmica no mundo inteiro. Além de uma crescente procura pelo termo “Golden Shower” no google, opiniões favoráveis e desfavoráveis circularam pelas redes sociais.
Mantendo seu foco na difusão da psicologia no Brasil, a Sociedade dos Psicólogos trouxe este texto informativo para quem tiver curiosidade sobre o assunto.

Entendida como o comportamento sexual caracterizado pela excitação e/ou obtenção de prazer a partir da urina de um (a) parceiro (a), a urofilia já foi presente em boa parte da cultura pop, aparecendo até em seriados como Sex and the City.
Está comumente relacionada às relações de poder, como se quem recebesse o “banho” se colocasse em uma situação de submissão àquele que o provê.

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), a protagonista da série Sex and The City (1998-2004), recebe a proposta do político Bill Kelley (John Slattery) do famoso “Golden Shower” (imagem da internet)

Em portais pornográficos caracterizados por práticas consideradas mais violentas do que o habitual, a esta mesma prática, popularmente conhecida como Golden Shower, tende a aparecer como se fosse o clímax da dominância de um sujeito perante outro. Num contexto onde o poder, teoricamente, emanaria de quem provê a urina, aquele que a recebe é colocado numa posição de extrema submissão, lembrando relações de sádicos e masoquistas.
A psicologia, a psiquiatria e a psicanálise não entram e nem devem entrar no mérito de julgar a correção ou não de uma prática sexual considerada atípica. Entretanto, seu olhar estará sim, atento ao que se configurar como um Transtorno Parafílico e/ou àquilo que trouxer prejuízos graves a quem participa, voluntaria ou involuntariamente de práticas sexuais consideradas atípicas.

Quando realizada de maneira patológica, a Urofilia é caracterizada no DSM-V dentro da sessão de Transtornos Parafílicos. Entretanto, a parafilia popularmente conhecida como Golden Shower, juntamente com a escatologia telefônica (telefonemas obscenos), a necrofilia (cadáveres), a zoofilia (animais), a coprofilia (fezes), clismafilia (enemas), entre outras, não estão exclusivamente descritas no Manual como transtornos parafílicos especifícos. Coube a estas serem, junto a outras não mencionadas aqui, incluídas dentro do que é chamado pelo DSM-V como Outro Transtorno Parafílico Especificado (F65.89).

Exemplo de alguns Transtornos Parafílicos Específicos :

  • Transtorno Voyeurista – excitação sexual recorrente e intensa ao observar
    uma pessoa que ignora estar sendo observada e que está nua (F65.3);
  • Transtorno Exibicionista – excitação sexual recorrente e intensa decorrente da
    exposição dos próprios genitais a uma pessoa que não espera o fato (F65.2);
  • Transtorno do Masoquismo Sexual – excitação sexual recorrente e intensa resultante do ato de ser humilhado, espancado, amarrado ou vítima de qualquer outro tipo de sofrimento (F65.51);
  • Transtorno do Sadismo Sexual – excitação sexual recorrente e intensa resultante de sofrimento físico ou psicológico de outra pessoa (F65.52);
  • Transtorno Pedofílico – fantasias sexualmente excitantes, impulsos sexuais
    ou comportamentos intensos e recorrentes envolvendo atividade sexual com criança ou crianças pré-púberes (em geral, 13 anos ou menos), etc.

Sabendo o que é necessário para que alguém seja diagnosticado, é preciso saber do que dependerá a noção de uma melhora no quadro. Para tal, falamos principalmente da:

  • não realização de práticas que caracterizam o Transtorno Parafílico por pelo menos cinco anos fora de Ambiente Protegido.

É considerado Ambiente Protegido todo lugar que impossibilite e/ou dificulte o acesso e/ou a prática de comportamento sexual e/ou parafílico por questões externas, ou seja, alheias à vontade do indivíduo. Exemplo: instituições penitenciárias e clínicas de reabilitação.

A partir deste ponto o Transtorno Parafílico será considerado “Em remissão”.

O que Dizem os Especialistas?

De acordo com o Psicólogo e Psicoterapeuta Caio Ferreira, em práticas sexuais atípicas como a urofilia, que envolvem mais de um indivíduo, deve-se averiguar, antes de mais nada: se há claro consentimento (e obviamente idade para tal) entre as partes. Caio, que também é Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos, diz que pessoalmente, não sente despertar algum pela prática, mas que como psicólogo entende que “havendo comum acordo entre os praticantes, é um exercício de libertação, vinculação e prazer como qualquer outro”.

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Caio Ferreira (CRP 06/147859) também é Diretor do Centro de Investigação do Comportamento Emocional (CICEM).

Quando questionado, o psicoterapeuta afirmou ter se deparado com o vídeo publicado pelo Presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais. Ao dar sua opinião sobre o ocorrido, Ferreira levantou questões a respeito da presença de outras práticas no video, como o exibicionismo, por exemplo. Mas o psicólogo também levantou questões éticas e legais a respeito da prática. Caio, porém não deixou de advertir os riscos da divulgação deste tipo de conteúdo sem consentimento e em redes abertas:

“Devo dizer que lamento o fato desta atividade ter sido realizada em vias públicas. Além de configurar um crime, podemos pensar em componentes exibicionistas a par das contingências do carnaval. E lamento mais ainda a exposição da filmagem em questão – desnecessária e estigmatizante a todos os envolvidos”.

O próprio Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5 –, conforme já dito, só considera em suas sessões de Transtornos Parafílicos as práticas que, recorrentes por pelo menos seis meses, causem sofrimento clinicamente significativo e/ou prejuízo no funcionamento social, profissional e/ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo, ainda mais aquelas que são realizadas com terceiros que não deram ou não poderiam, legal ou cognitivamente, dar consentimento à prática.

Junto com o DSM-V, o Psicólogo e Psicanalista Igor Banin se atém a ética necessária em sua profissão em sua colocação: “Deixo o julgamento moral a quem lhe cabe”. Quando entrevistado, o também Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos postulou que “o desejo do sujeito passa por caminhos que não conhecemos. O prazer sexual pode vir de diversas maneiras”.

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Igor Banin (CRP 06/135177) é Psicólogo, Psicanalista e Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos.

Em termos mais simples: se uma prática sexual é feita sob pleno consentimento e não causa sofrimento e/ou prejuízo a quem participa dela, ela não causa preocupação à comunidade psi. Contudo, caso alguém seja de fato diagnosticado nas condições de um Transtorno Parafílico, deverá procurar tratamento médico e psicológico – que poderá envolver medicamentos e psicoterapia.

Vale ressaltar que o tratamento não terá a função de definir se a prática é certa ou errada, mas de diminuir e/ou erradicar a quantidade de sofrimento que ela possa trazer para o indivíduo ou para um outro.

De Onde vem o Interesse?

E entrevista, a Psicóloga e psicoterapeuta cognitivo-comportamental Masilvia Diniz, ao ser questionada sobre possíveis explicações sobre a preferência de alguns indivíduos à prática das parafilias (já considerando que estas deixaram de ser meras atividades sexuais atípicas devido seus prejuízos), a Sócia-Colunista da Sociedade dos Psicólogos disse que:

“Do ponto de vista cognitivo-comportamental, quando se trata de algo que se repete e traz grandes prejuízos ao indivíduo, são investigados os pensamentos, os chamados erros cognitivos (sistemas de crenças que foram condicionados e reforçados ao longo do tempo na vida de alguém – que passa a acreditar nestes como parte de sua personalidade), a maneira como estes alteram suas emoções e, consequentemente, desencadeiam seus comportamentos”.

Psicóloga Masilvia Diniz
Masilvia Diniz (CRP 06/89266) é Psicóloga e Psicoterapeuta Cognitivo-comportamental, além de Sócia-Colunista da Sociedade dos Psicólogos.

Mesmo com o olhar de linhas teóricas divergentes, Igor e Masilvia pareceram concordar a respeito da individualidade de cada caso, entendendo que cada sujeito terá sua história individual que explique seu interesse sexual além da norma de forma particular.

Longe de condenar quaisquer práticas que não estejam infringindo a Lei ou a integridade de outrem, o psicanalista Igor Banin afirma ser difícil apontar que lugar esta ou aquela prática sexual representariam no discurso de um sujeito. Para ele, deve-se evitar a generalização, pois “a Psicanálise se constitui no caso a caso”.

“Todavia, pensando na teoria da sexualidade infantil de Freud, podemos pensar na excreção como a primeira forma de produção de um objeto do bebê para o outro” disse o psicanalista.

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Sigmund Freud (1856-1939)

A corroborar com ambos, está o neurologista Sigmund Freud (1856-1939). O pai da psicanálise já dizia que “Cada um de nós, em sua própria vida sexual, ora nisto, ora naquilo, transgride um pouco os estreitos limites do que se julga normal” (Freud, 1905[1901], p. 45). Possivelmente o psiquiatra e psicanalista Jacques Lacan (1901-1981) também estivera de acordo ao dizer que “Em relação à instância da sexualidade, todos os sujeitos estão em igualdade […]” (Lacan, 1964b, p. 167).

Parece ser consenso entre os especialistas: se deve dar mais importância ao dano, à angústia e/ou sofrimento que uma prática sexual poderá desencadear aos envolvidos do que à estranheza que esta causaria aos padrões de alguém alheio. Talvez lhes seja mais útil compreender a função daquela prática às pessoas que participam dela do que às que a julgam. Em suma, espero que o Golden Shower esteja explicado e caberá a cada um (a) decidir se este estará liberado, desde que faça bem a todos (as) os (as) envolvidos (as).

E a opinião do autor deste texto?

“Se não há crime e há consentimento
Se em todos há prazer e em nenhum se vê sofrimento
Se cada um tem a sua liberdade na ausência da censura
Por que então chamas, de doença?

Tu que reclamas, sem presença
Em sua dita dura cama, sem prazer
Da cura e do conforto trocados entre
quem ama?

Caio Cesar Psicólogo
Psicólogo (CRP 06/139621), psicoterapeuta e Sócio-Colunista da Sociedade dos Psicologos. Ator, em busca do que Plínio Marcos atribui aos atores: a esperança de rir todos os risos e chorar todos os prantos

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

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REFERÊNCIAS:

Associação Psiquiátrica Americana – APA. (2014). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed.

CARVALHO NETO, J.S. (2010). A Relação Edipiana na Contemporaneidade: Novos formatos para a constituição das neuroses. Saquarema. Setembro

FREUD, S. (1905). Um Caso de Histeria. Três Ensaios Sobre Sexualidade e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro. Imago, 1996.

LACAN, J. A Identificação: Seminário (1961 – 1962) Tradução de Ivan Corrêa e Marcos Bagno. Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.

LACAN, J. (1990). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar (Trabalho original publicado em 1964).

***Todas as imagens utilizadas no texto foram obtidas de maneira gratuita através da internet. Caso você detenha os direitos autorais de alguma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

O que é a Resistência em Psicanálise? Como vencê-la?

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Der WiderstandA Resistência

O Conceito

Na Arte da Guerra, falaríamos do ato de ocupar e contra-ocupar determinadas posições estratégicas para vencer um inimigo; na Física, o campo da eletricidade – mais especificamente o da eletrostática – fará menção à capacidade de um corpo se opor à passagem de uma corrente elétrica, ou ainda como: uma dificuldade para que haja passagem de corrente elétrica por um condutor submetido a uma determinada tensão. Já no Direito, falaremos de uma certa oposição a cumprir um ato legal, enquanto na Ecologia, da capacidade de um ecossistema manter sua estrutura e funcionamento diante de um distúrbio.

Até na Política encontraremos este termo. Nela, falamos do movimento de um povo contra um poder ilegítimo, ou seja: num conjunto de iniciativas postas em prática por pessoas que, unidas por uma causa comum (libertar seu território de alguém considerado um invasor), irão lutar contra uma imposta dominação e, consequentemente, pelo restabelecimento da ordem anterior das coisas. Charles de Gaulle e Jean-Paul Sartre são exemplos de pessoas que, de maneira diferente, exerceram um papel de resistência política na França da Segunda Guerra Mundial.

O Dicionário Aurelio, muito popular no Brasil, nos complementará:

1 – Força por meio da qual um corpo reage contra a ação de outro corpo.
2 – Defesa contra o ataque.
3 – Oposição.
4 – Delito que comete aquele que não obedece à intimação da autoridade.

Até às mentes menos focadas na física, na guerra de infantarias, na política, no direito, na medicina, etc. a palavra resistência tem seu significado bem compreendido. E digo isso pois, de alguma forma, até sua definição acordada num senso (em) comum poderá obter proximidade à representação deste conceito noutras áreas. Mesmo o mais leigo saberá que se trata de algum tipo de imposição à mudanças e influências externas, de um certo impedimento ou tentativa deste perante algum fenômeno. Seja na prevenção de danos ao chuveiro elétrico, no tratamento de infecções bacterianas com antibióticos ou em grandes revoluções, o conceito de resistência traz nestas e noutras áreas do conhecimento e até no imaginário popular palavras que, em uma cadeia sinônima, carregam em sua denominação um comum objetivo: barrar/bloquear, se opor e impedir.

Mas e na Psicanálise?

O Início

Vasculhando a obra de Sigmund Freud, podemos entender que seu deparar-se com o fenômeno da resistência de seus pacientes aos tratamentos foi algo que, em certo momento, começou a captar uma maior parte de sua energia e atenção. Mais especificamente quando Freud passou a trabalhar com Breuer seus Estudos sobre a histeria (Breuer, J., & Freud, S. 1895/1987).

Em um dos cinco casos clínicos descritos na obra, foi justamente no caso da Srta. Elizabeth que Freud começa a se interessar pelo mesmo fato que, mesmo mais de um século depois, ainda continua sendo grande responsável por uma elevada taxa de evasão de pacientes em consultórios de psicologia, psiquiatria e psicanálise: a resistência.

O caso que Freud descreve como “a primeira análise integral de uma histeria” teria seu início marcado pela dificuldade que Freud encontrara para conduzir a paciente a um transe hipnótico (método que, à época, era considerada uma forma de acessar conteúdos alheios à consciência). Mesmo com algum sucesso temporário, utilizando a chamada “técnica de pressão“, onde um toque à testa do paciente acompanha a informação de que, a partir daquele momento as lembranças “esquecidas” poderiam ser lembradas, Freud começa a ficar inquieto, já que, segundo o psicanalista: “parecia haver impedimentos de cuja natureza eu não desconfiava na época” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 166).

Segundo o Pai da Psicanálise, a forma encontrada para que sua “técnica de pressão” voltasse a oferecer o resultado desejado, foi informar verbalmente à paciente “saber muito bem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando […], mas que jamais se livraria de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 167).

A partir daí, o neurologista mais famoso do ocidente nos informa que passou “a atribuir maior importância à resistência oferecida pela paciente na reprodução de suas lembranças e a compilar cuidadosamente as ocasiões em que era particularmente acentuada” (ibid., p. 167). Sua subsequente conclusão teve o caminho de entender que: existiria alguma correspondência entre a energia com que uma representação incompatível às suas associações atuais fosse refutada de sua consciência e sua resistência em reproduzir cenas vividas de maneira traumática (ibid. p. 170). Portanto, houve, da parte da paciente, uma “forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência” (ibid. p. 177).

Em seu Vocabulário da psicanálise, Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. (1988), apontam que a resistência à hipnose e à sugestão foi, inclusive, uma razão pela qual Freud desistira destas em seus pacientes, uma vez que “a resistência maciça que lhes apunham certos pacientes lhe parecia ser por um lado legítima, e, por outro, não poder ser superada nem interpretada” (p. 596).

Tipos de Resistência

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Já sendo um termo mais frequente em A interpretação dos sonhos (Freud, 1900/1987), o nosso primeiro psicanalista fala da resistência como algo a impedir lembranças, a chegada de conteúdos à consciência e, mais ainda: a resistência à interpretação.

Para Freud, se havia na irracionalidade dos conteúdos presentes nos sonhos algum propósito, este só poderia ser: “[…]escapar da censura imposta pela resistência” (Freud, 1900/1987, p. 297). A justificativa do psicanalista era que o aparelho psíquico precisaria de algum tipo de descarga de energia que trouxesse satisfação, mesmo que mínima, à mente que estaria privada de realizar seus desejos inconscientes incompatíveis com as normas sociais vigentes. Desta forma, haveria sucesso se aqueles conteúdos viessem, quase que incompreensíveis, à consciência (através do sonho) e carregassem apenas fragmentos daqueles desejos – através de representações feitas pelo similar som das palavras; por sinônimos; por alusões e associações realizadas no que Freud chamara de Trabalho do Sonho, regidas principalmente pelos mecanismos de defesa da Condensação e do Deslocamento.

O psicanalista, segundo Freud, teria a singela missão de ajudar o paciente a realizar as associações necessárias para, de alguma forma, interpretar a mensagem que é transmitida a partir das associações presentes no sonho. Aquela mesma mensagem que seria barrada da própria consciência por conta ser considerada, por algum motivo, ameaçadora a integralidade psíquica daquele sujeito. Naturalmente, as interpretações do analista ofereceriam certo risco às verdades carregadas durante uma vida inteira, uma vez que poderiam revelar desejos jamais antes permitidos à consciência em forma outra senão a de Tabu, como por exemplo, o incesto e o parricídio. Era de se esperar que houvesse, também, uma resistência à interpretação.

Para Freud “Sua opinião de que o sonho é absurdo significa apenas que você tem uma resistência interna contra a interpretação dele” (p. 154).

Talvez a resistência esteja mais centrada no Supereu, quando a análise está prestes a apresentar um forte conflito dos desejos inconscientes do analisando com suas crenças, a moral vigente e seus valores; possivelmente estará mais focada no Eu quando se evita falar para não causar problemas, conflitos e julgamentos a respeito daquela imagem idealizada que se tem de si mesmo, principalmente daquela que se imagina que os outros tenham, mas certamente também será possível encontrar morada para a resistência em nossa dificuldade de sermos transparentes em relação ao nosso inconsciente. De toda forma, ela existe para preservar a organização psíquica anterior a uma análise, uma vez que por algum tempo esta trouxe ao paciente grande satisfação – posta em cheque pela investigação de seu inconsciente.

Você poderá conhecer melhor os conceitos sobre a Interpretação dos Sonhos e os Mecanismos de Defesa dentro da obra de Freud nos textos a seguir, também publicados na Sociedade dos Psicólogos:

– Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: A Interpretação dos Sonhos e a Primeira Tópica Freudiana
– A Interpretação dos Sonhos
– Reflexões sobre o Aqueronte: Como alcançar o inconsciente em uma análise.
– O Que São Mecanismos de Defesa do Eu

A Definição

Por conta disso, é comum que entendamos hoje a resistência perante interpretações, associações e junções de representações, como uma certa força de expulsão para proteger o eu e o núcleo patógeno da lembrança e do acesso. Uma vez que o sintoma, a repetição e o sonho, mesmo que hoje tragam sofrimento, foram já um dia uma forte maneira de obter acesso a uma fração de seus desejos inconscientes – conforme visto na obra de Freud, que na mesma obra já nos diz que “A quantidade de afeto que devotamos à primeira associação de um objeto oferece resistência a que ela entre numa nova associação com outro objeto […]” (Freud, 1893/1987, p. 190).

E qual seria o papel da análise senão o da ressignificação, a formação de novas associações e, eventualmente, a interpretação de representações do inconsciente? Sabendo disso, não é incomum que o próprio fato da análise em si também seja alvo da resistência.

Referências no assunto nos dirão que se poderá definir a resistência como:

“o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise” (Roudinesco & Plon, 1998, p. 659)

Ou ainda:

“[…] tudo o que, no actos e palavras do analisando, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente” (Laplanche & Pontalis, 1988, p. 595-6).

Mas será na página 475 de sua Obra Magna, A Interpretação dos Sonhos, que Freud baterá o martelo:

“A psicanálise é justificadamente desconfiada. Uma de suas regras é que tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência (Freud, 1900/1987, p. 475).

Portando, para Freud, até as melhores justificativas para atrasos, faltas, remarques e refutações de interpretações ou até pontuações de atos falhos e lapsos, são uma forma de resistência. É claro que a palavra do analista não é Lei, este também poderá se enganar. Mas, via de regra, com o devido estudo, análise e supervisão do analista, será mais fácil se deparar com a resistência do paciente do que um erro de cálculo.

A Resistência é do Analista? Como Lidar com a Resistência ao Tratamento?

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Em tradução livre: “Você realmente pensa que é uma resistência?”

Em sua Introdução Clínica à Psicanálise Lacaniana (Zahar, Rio de Janeiro, 2018), Bruce Fink consegue trazer partes da obra de Jacques Lacan e Sigmund Freud a respeito do assunto. Leitura recomendada para quem deseja iniciar uma imersão neste tema.

O começo de seu primeiro capítulo é o refutar de uma antiga piada sobre psicólogos e psicanalistas:

“Quantos psicólogos são necessários para trocar uma lâmpada? Um, mas a lâmpada realmente precisa querer mudar”.

A crítica do psicanalista é exatamente sobre o ato de responsabilizar o paciente pelo tratamento inteiro. Ora, se a resistência interage com a relação transferencial e os mecanismos de defesa do Eu, o tratamento deixará de dar certo, caso o paciente continue com suas projeções, deslocamentos, racionalizações, falte às sessões, chegue atrasado, ataque o analista, correto? Correto. Mas o paciente realmente quer mudar? O paciente realmente quer se livrar de seu sintoma? É o paciente que deverá se livrar da resistência?
É óbvio que sim, mas é claro que não.

“O simples fato de as pessoas lhe pedirem algo não significa que elas realmente querem que você lhes dê”. LACAN, Seminário 13, 23 de março de 1966.

Se a resistência, conforme vimos anteriormente, tem fortes influências inconscientes, como poderá o paciente se livrar dela apenas com sua consciência? A própria ferida narcísica introduzida à humanidade por Freud já nos mostrava que existiria uma força muito maior no inconsciente.

Os franceses vão chamar Jouissance [gozo], aquele “barato”, aquela “onda” que se tira de situações dolorosas. Seja um castigo ou uma autopunição. É como se de tanta dor houvesse de sair algum prazer. Mais ainda: como se de tanto prazer vazasse dor. E isso, a psicanálise já nos diz: há ou houve nos sintomas, nos sonhos e na repetida e desejada vontade de certa ignorância sobre os aspectos do inconsciente uma dose de satisfação, de gozo, que permitia aos sujeitos um leve acesso aos seus desejos recalcados e/ou reprimidos, por que então o sujeito iria aceitar de prontidão uma mudança?

É natural que na clínica busque-se apenas uma manutenção do sintoma, ou, como diria Fink:

“em meio a uma crise de gozo esperam que o terapeuta a resolva, faça o sintoma funcionar como funcionava antes [gerando satisfação, gozo, de maneira paralela]. Não pedem para ser livrados do sintoma, e sim de sua recente ineficácia, de sua recente insuficiência. Sua demanda é que o terapeuta restabeleça sua satisfação no nível anterior” (2018, p. 19).

E não será responsabilizando imediatamente o paciente pelo que ocorre, denunciando explicitamente seus mecanismos de defesa a partir de uma interpretação precoce ou, ainda culpabilizando o paciente pela própria resistência e, consequentemente, pela ineficácia do tratamento, que irá haver sobreposição a este fato.

O analisando resiste porque quer seu gozo de volta, resiste porque decifrar seu inconsciente ameaçará muito do que se acredita; resiste porque teme, lá no fundo, ficar sem nada em que até hoje se escorou para suportar as exigências do inconsciente versus exigências da sociedade. Se tirarmos, de prontidão, as fontes de gozo do analisando, o que poderemos oferecer em troca para que este diminua sua resistência ao tratamento? Porque já sabemos: se o sintoma tem seu papel, sua ausência abrupta poderá trazer demandas piores. O que será oferecido ao sujeito no processo de análise?

Fink vai nos dizer que:

“uma satisfação substituta diferente: o estranho tipo de satisfação que vem da relação transferencial e da decifração do inconsciente” (ibid).

“Haverá uma nova abordagem das coisas, uma nova maneira de lidar com pessoas, um novo modo de funcionar no mundo” que poderão e deverão trazer mais satisfação que o antigo sintoma, pois só assim haverá engajamento na análise ao invés de abandono.

E este processo só poderá ser vencido se for vencida a única resistência que pode ser vencida de fato: a resistência do analista ao seu desejo.

A Resistência e o Desejo do Analista

Se não é possível ao paciente entender a troca que fará, muito menos a resistência que enfrentará, é esperado que seja ao analista. Se alguém procura terapia porque houve uma dificuldade em obter satisfação, gozo, da maneira que lhe era possível anteriormente (sintoma), caberá ao analista se esforçar para que esta pessoa obtenha algum resultado, ou seja, alguma satisfação ao se livrar gradativamente deste antigo modo que lhe servia (quase) muito bem.

No Seminário I (1953-54), Lacan explica que a Transferência (sobre a qual farei um texto em breve), é o motor da análise. E como já sabemos que é dela que vem algum tipo de satisfação substituta àquela do sintoma, essa informação se torna importante para que entendamos que o estabelecimento desta ocorrerá simultaneamente à uma pequena superação da resistência.

Lacan revisita Freud em seus Escritos Técnicos mostrando que tudo que intervém suspendendo, destruindo ou interrompendo a continuidade do tratamento é uma resistência do analista.

Para Lacan, se o analista não atentar à realidade do discurso, ou seja, da ordem do Simbólico, sua atenção à realidade factual, da ordem do Imaginário, irá empurrar o analisando para os chamados acting outs, ao invés de iniciar uma verdadeira análise. Ex: pedidos de demissão repentinos; bruscas rupturas em relacionamentos estáveis. Portanto, se há uma resistência, Lacan vai nos dizer que ela é sempre do analista.

Isso quer dizer que não há, portanto, uma resistência do analisando para com seu desejo inconsciente? Há sim. Mas a resistência ao tratamento faz parte de uma resistência do analista para com seu único desejo que deverá ser explicitado ao analisando: o chamado desejo do analista – o desejo para que o analisado continue análise. O desejo de que ele compareça à próxima sessão.

O analista não desejará nada senão o retorno do analisando. O analista desejará, unicamente, que análise aconteça. Quer que o analisando conte seus sonhos, faça associações, entenda seus lapsos e atos falhos, critique suas relações estabelecidas e questione os padrões que regem suas escolhas antes mais inconscientes. Consequentemente, nasce aqui a transferência que, em sua essência, é a força motriz de toda análise.

A Análise nasce do desejo do analista e mora no desejo do sujeito

A análise se move a partir da transferência que, por sua vez, é o que ocasionará uma trégua à resistência. A relação transferencial tem origem no próprio desejo do analista de que o analisando continue a análise. Esta mesma relação transferencial é o motor da análise e também aquilo que vence a resistência ao substituir o que é trazido pelo sintoma. Ela dificilmente existirá se o desejo do analista resistir a aparecer. Quando o analista expressa seu desejo, ele permite o aparecimento do desejo do sujeito em análise, mesmo de maneira não explícita. Portanto, se há resistência do analista em mostrar seu desejo, esta, por osmose, também será transferida ao analisando.

Seja realizando uma ligação perante um atraso de mais de 15 minutos, ou até insistindo para que o analisando venha, mesmo que restem apenas poucos minutos de análise; seja cobrando sessões em que houve faltas sem um aviso com 24 horas de antecedência, seja mostrando ao analisando que a análise deverá tomar o lugar de um compromisso inadiável em sua vida; seja exigindo reposições ou ainda solicitando uma sessão extra; seja valorizando na sessão o conteúdo que traga realmente o discurso do inconsciente; seja tolerando toda a resistência que supostamente seria do paciente: o analista expressará sempre o desejo de que o analisando se analise. O desejo de que ele venha, o desejo de que a análise continue. Assim será vencida a resistência, cremos hoje.

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Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERÊNCIAS:

BREUER, J., & FREUD, S. (1895/1987). Estudos sobre a histeria. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 2) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1900/1987). A interpretação dos sonhos. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vols. 4-5) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1905/1987). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 7) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
LACAN, J. Seminário I Escritos técnicos 1953-1954. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1986.

LAPLANCHE, J., & PONTALIS, J.-B. (1988). Vocabulário da psicanálise (10a ed.). São Paulo: Martins Fontes.

ROUDINESCO, E., & PLON, M. (1998). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

(TODAS AS IMAGENS UTILIZADAS NESTE TEXTO FORAM OBTIDAS NA INTERNET. CASO VOCÊ DETENHA OS DIREITOS DE ALGUMA DELAS, ENTRE EM CONTATO COM A SOCIEDADE DOS PSICÓLOGOS IMEDIATAMENTE).

O Desafio da Clínica

Ou a Clínica do Desafio

Fazer Clínica é difícil. Escrever sobre ela, mais ainda. Posto isso, o exercício ao qual eu e meus colegas nos propomos aqui na Sociedade dos Psicólogos, se trata de refletir e discutir sobre aquilo que estamos praticando ali, no consultório, com nossos pacientes.

Por isso decidi falar brevemente sobre o contexto que se encontra na clínica e uma percepção bem pessoal sobre o trabalho de análise e a manutenção de um discurso analítico.

Brincando com o nome (O Desafio da Clínica ou a Clínica do Desafio), penso que a clínica psicanalítica é em primeiro lugar uma clínica arriscada. Um espaço e um fazer que se constitui à partir de um desejo fundamentalmente particular de cada analista de conhecer o outro, mas de movimentar algo no outro também, operar uma mudança.

A psicanálise se reinventa em cada análise, por mais clichê que isso possa parecer: cada caso é um caso.

A formação do analista

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(Sigmund Freud, imagem retirada da internet)

Me parece que a formação do analista é algo um tanto obscuro para a maioria das pessoas. Ele é um psicólogo? Um médico? Falei um pouco sobre a diferença entre psicologia, psicanálise e psiquiatria em outro lugar.

Penso que seja válido tratar um pouco mais sobre a formação específica do analista, orientado à partir da metáfora do tripé, exemplificado por Freud, ainda em seus tempos.

Estudo dos textos

Primeiro e talvez mais óbvio é o estudo dos textos clássicos, isto é, o candidato à analista deve conhecer os conceitos à partir dos quais vai orientar a sua prática.

Lacan disse que o conceito é como a faca para o açougueiro, isto é, deve ser afiado para que possa operar. Nesse contexto, o analista dirige o tratamento, e deve, portanto, entender as etapas e como manejar a transferência.

O estudo não se dá em uma graduação, como, por exemplo, a psicologia. A Psicanálise é normalmente ensinada em instituições dedicadas à clínica e pesquisa, e transmitida de maneira singular em cada análise.

Análise pessoal

O analista faz análise? Claro que faz, e deve fazer.

Que seus conflitos se choquem e atrapalhem a sua relação com o outro, no caso o paciente, é um luxo que o analista não pode se dar.

Freud já dizia que o tratamento de um paciente só pode avançar até onde a análise do próprio analista avançou. Quanto mais tempo tiveres na clínica mais saberás disso.

Supervisão clínica

A supervisão clínica se coloca no lugar da “escuta da escuta”. Estranhei essa expressão da primeira vez que a ouvi, mas agora isso me faz total sentido. Não só as interpretações erradas ou omitidas que ocorrem por parte do analista, mas todos os entraves onde a escuta parece estar “emperrada”, batendo geralmente em uma questão tua, que deve ser trabalhada na análise pessoal.

O desejo do analista

Segundo Lacan, aquilo que sustenta o analista é seu desejo, desejo este que pode ser um só, que o analisando se analise.

A disponibilidade para que a transferência entre paciente e analista ocorra deve estar presente naturalmente no analista.

A Psicanálise atua de forma contrária ao laço social que parece dominar o mundo do trabalho nos dias de hoje. Metas, obsessão por resultados, pressão pelo ganho financeiro são coisas absolutamente alheias ao dia-a-dia do analista. Não que o analista seja um marajá, vivendo sem preocupação financeira, por exemplo. Todavia, a construção da clínica é algo que se dá de forma progressiva. Você pode ganhar dinheiro com a clínica, mas isso não é o objetivo, e sim consequência do bom trabalho feito.

O analista e seu lugar

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(Carlo Antonini, Ps!, HBO)

Pouco à pouco se vai descobrindo que a noção de um setting estático é uma furada. O espaço onde a transferência pode ocorrer é o próprio analista, isto é, a análise pode ocorrer fora da clínica. Não sou muito simpático à ideia de que o consultório pareça um oásis em meio à cidade, um lugar que pareça deslocado do tempo e espaço. A análise ocorre na cidade, na vida.

O lugar do analista diz de um espaço de escuta, onde o paciente pode se ouvir, e desamarrar seus próprios nós. Já ouvi de Christian Dunker que o analista é apenas o editor, o analisando é o autor. Sujeito de sua própria história.

 

À todos vós que se endereçam à clínica: bem-vindos, corajosos.

Por hoje é só.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Ps: Fica aqui uma recomendação de vídeo que trata (talvez lateralmente) da clínica como a vejo:

Referências Bibliográficas

Forbes, J. (2014) Psicanálise – A clínica do Real. Barueri: Manole.

Freud, S. (1913/1996). O caso de Scheber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. (Obras completas de Sigmund Freud, v.12). Rio de Janeiro: Imago.

Nasio, J. D. (1999) Como trabalha um psicanalista? São Paulo: Editora Zahar.