Minhas melhores leituras de 2022

Durante a pandemia, voltei ao antigo hábito de leitura voraz. Tem sido tão interessante que no início de 2022, fiz minha lista de melhores leituras do ano, muito mais como um exercício de reflexão para mim mesmo. Decidi repetir a dose, então aqui vão as melhores obras que encontrei no último ano.

Não diria que há necessariamente uma ordem gradativa de qualidade, algo como “do pior ao melhor”, mas sim obras que me afetaram

Tive leituras fascinantes em diversos gêneros. Ficção, Não-Ficção e Histórias em Quadrinhos. A lista a seguir tenta abranger um pouco de tudo.

O Homem que passeia, mangá por Jiro Taniguchi

O estilo de Taniguchi é incomparável. Sempre reflexivo e calmo, ler uma obra do Taniguchi tem um efeito de uma sessão de meditação zen. Parar e observar o mundo à sua volta trazem efeitos de pertencimento e organização, e isso é o objetivo da maioria das obras de Taniguchi.

Nessa história acompanhamos justamente o que o título sugere: Um homem que passeia e explora diversas regiões próximas a sua casa, se deixando levar e estar, verdadeiramente no lugar. Aberto às experiências, pessoas e aventuras possíveis em cada situação.

O traço de Taniguichi é leve e refrescante. Não foi a única obra do autor que li no último ano. Na verdade, acredito que foi o autor com mais obras no último ano. Dele li também: “Um Bairro Distante”, “Tokyo Killers”, “O Gourmet Solitário”, “Zoo no Inverno” e “Guardiões do Louvre”.

Alack Sinner – José Muñoz e Carlos Sampayo

Alack Sinner foi um acontecimento no meu ano. Uma história que me pegou desprevenido e que foi crescendo com o seu desenrolar.

A combinação da arte de José Muñoz e o texto de Carlos Sampayo são o máximo que se pode pedir de uma obra noir. Recheado de referências ao universo do Jazz e Nova York do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

Na obra acompanhamos um detetive particular, Alack após ter saído, desiludido, da força policial. Uma história que poderia parecer de início como qualquer outra sobre violência, corrupção e crimes, passa a ser sobre a vida, sobre as complexidades e camadas de cinza da vida humana. Da condição humana.

Uma arte que me foi estranha inicialmente, me ganhou quando entendi a proposta expressiva da obra. Os traços reforçam os acontecimentos e os estados internos dos personagens.

O Marinheiro que perdeu as graças do Mar – Yukio Mishima

Um dos últimos livros lidos no ano passado me trouxe uma impressão muito positiva da escrita de Yukio Mishima, autor japonês premiado e lido em todo o mundo. Cheguei tarde nesse autor, eu sei, mas suponho que nunca é tarde para conhecer boa literatura.

Aqui acompanhamos a história de Ryuji Tsukazaki (O marinheiro que perdeu as graças do mar), e sua relação com a família Kuroda. Fusako, a mãe e Noboru, o filho. Seu propósito de vida, lugar no mundo e relação com o feminino são discutidos à minúcia.

Temas como a descoberta da sexualidade na adolescência, a sensação de impotência e castração são discutidos aqui. Sem falar de toda a temática do luto e recomeço, presentes na personagem da mãe.

O livro de Areia – Jorge Luis Borges

Envergonhado de dizer que este foi o meu primeiro contato com a obra de Borges (mas não o único lido no ano, ao menos), tão elogiada mundo à fora. Pudera, suas influências passeiam pelas coisas que amo: Lovecraft, Poe e Kafka.

Essa coletânea conta com alguns dos melhores textos curtos que já li. Notadamente: “O Outro”, “Utopia de um Homem que está cansado”, “O Disco” e o texto que dá nome à antologia, “O livro de Areia”.

O estilo de Borges é muito conversacional, muito fluido e envolvente. Ele mistura fantasia e realidade muito bem, com um arcabouço de referências literárias interessantíssimas.

O Oráculo da Noite – Sidarta Ribeiro

Primeiro de não-ficção que li no ano e já ficou como um dos melhores. A vasta pesquisa de Sidarta Ribeiro sobre a função e o funcionamento do sonho e do sonhar devem ser tidos como obra obrigatória em qualquer curso de Psicologia moderno.

Sidarta nos pega pela mão e conduz através da história e do papel do Sonho na cultura ocidental, desde civilizações antigas (Egito e Grécia, por exemplo), até os mais recentes estudos da neurociência. O mais interessante para mim: ele não descarta a psicanálise, mas sim a aproxima como um complemento dos conceitos da biologia, medicina, neurofisiologia e da própria neurociência.

Aqui vemos como o sonho molda a nossa experiência desperta. Me peguei particularmente fascinado com a temática de sonhos na antiguidade. Como seria a percepção de alguém no Paleolítico, ao acordar de um sonho vívido e se perceber de volta a sua cama?

Isso me lembra o famoso problema filosófico de Chuang Tzu (filósofo taoísta), que ao sonhar que era uma borboleta, passeando pelos campos que acabara de percorrer, vendo as mesmas coisas que vira durante aquele dia.

Ele acorda e se depara com a pergunta: “Quem sou eu?”.

“Sou um homem que sonhou que era uma borboleta? Ou sou uma borboleta sonhando que se transformou em um homem?”

Interessante notar que li essa obra na mesma época em que estava descobrindo as páginas de Sandman, outro primor dos quadrinhos escritos por Neil Gaiman, que explora o tema do Sonhar por outro ângulo. Definitivamente deve aparecer entre os melhores de 2023 (desde que eu consiga terminar a saga principal até o fim do ano).

Menções Honrosas:

  • O conto da Ilha Desconhecida, livro por José Saramago
  • Jun, Graphic novel Keum Suk Gendry Kim
  • Obsolecência Programada de nossos sentimentos, Graphic novel Zidrou e Aimée de Jongh
  • A valise do Professor, livro por Hiromi Kawakami
  • Um Bairro Distante, mangá por Jiro Taniguchi
  • Escravidão Vol.2, livro por Laurentino Gomes
  • O Aleph, livro por Jorge Luis Borges
  • Sandman, Graphic novel por Neil Gaiman e diversos artistas (li até o momento os 6 primeiros arcos, da saga principal)

Bom, essas foram as recomendações e destaques do ano de 2022 para mim. Ansioso para saber as suas melhores leituras do ano que passou e sempre aceito recomendações, deixe-as nos comentários.

Até a próxima,

Por Igor Banin

Comentário sobre Jun, de Keum Suk Gendry-Kim

Sobre Autismo e Visibilidade

Divulgação: Pipoca e Nanquim

Neste mês a editora Pipoca e Nanquim publicou Jun, nova graphic novel da sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim. Já citei por aqui o trabalho “Grama” (2017) da mesma autora que definitivamente vale a leitura e atenção também.

Mais uma vez, a autora nos surpreende e emociona com uma história delicada e sensível. Dando visibilidade e trazendo à tona à uma gama de pessoas em sofrimento e seus familiares. Keum trabalha o tema de inclusão da diferença por meio da arte de maneira genial.

Aproveito para comentar essa obra nesse momento já que em Abril temos o Dia da Conscientização sobre o Autismo (02/04), e todo o mês é dedicado à inciativas de visibilidade desse transtorno. Comentei aqui no blog da Sociedade dos Psicólogos sobre o tema também.

Apenas para contextualizar, o chamado Abril Azul começou em 2007 como uma iniciativa da ONU (Organização das Nações Unidas) para dar mais visibilidade ao transtorno. Em 2018, o dia 02 de Abril passa a fazer parte do calendário brasileiro oficial.

Jun

A graphic novel em questão trata da história de Jun, um garoto portador do Transtorno do Espectro Autista. Acompanhamos sua infância, adolescência e início da vida adulta, sempre à partir do ponto de vista de sua irmã mais nova, Yun-Seon. Seguimos desde aproximadamente os 04 anos de vida de Jun, o diagnóstico e o impacto disso na vida da família.

Temas como a disputa entre irmãos, o cuidado excessivo para o filho “deficiente” e o “abandono” sentido pela irmã que tem que fazer por vezes o papel de cuidadora, além de todo o sofrimento sentido pela família, são tratados aqui com naturalidade. Aqui vemos pais que tentam esconder o filho por vergonha, e por sentirem o julgamento de outros que não entendem/não aceitam a diferença. Só enxergam o incômodo.

Divulgação: Pipoca e Nanquim

Sua audição aguçada o leva à maravilhar-se com qualquer coisa que emita sons. Em momentos a autora o mostra detido no movimento e som de um ventilador, por exemplo.

Divulgação: Pipoca e Nanquim

A música vai ganhando mais e mais espaço na vida de Jun e de sua família a partir do momento que Jun passa à fazer apresentações de Pansori, um gênero folclórico de música originário da Coréia do Sul. Uma certa mistura de teatro e música com fortes referências à história do país.

É interessante notar que Jun foi baseado em uma pessoa que Keum conheceu de maneira pessoal quando fazia aulas de música próximo a sua casa. No posfácio ela aborda como foi essa experiência.

Arteterapia e Autismo

Na história, Jun passa por diferentes tentativas infrutíferas de tratamento de linguagem e estimulação precoce. Apenas no contato com a música, Jun pode expressar e entrar em contato com sua família e com o mundo:

“Existe uma porta entre o meu irmão e nós.

Nós sempre pedíamos para ele abrir a porta e vir para o mundo em que vivemos.

Não passava pela nossa cabeça o quanto isso era difícil pra ele.

Se você não puder abri-la, meu irmão, nós a abriremos pra você. E iremos te buscar.

Pois essa porta abre para os dois lados.”

(Gendry-Kim, 2022, p. 223-224).

Com isso, penso que vale a pena ressaltar a importância do uso da arte em alguns tratamentos. “A educação e a arte têm seu poder de alagar a imaginação e refinar os sentidos, promovendo mudanças significativas nos olhares em direção a novas percepções sobre o mundo” (Costa; Soares; Araújo, 2020, p.7).

Divulgação: Pipoca e Nanquim

À nível histórico, a arte terapia ganha força à partir dos anos 1940, desdobrando-se da terapia ocupacional e ganhando contornos próprios (Gómez, 2016).

Considero que a linguagem não é a mesma para todos. Talvez se trate de outra linguagem para muitos e com isso os conseguimos alcançar:

“En definitiva, podemos concluir que la Arteterapia proporciona a las personas con TEA un medio de comunicación no verbal y alternativa, sobre todo, para aquellos cuya utilización del lenguaje o comprensión del mismo sea parcial o inexistente. Para las personas con autismo el arte puede suponer el puente entre sus pensamientos internos y el mundo que le rodea.”

(Gómez, 2016, p.37)

Gosto do exemplo do texto Epepe, do romancista húngaro Ferenc Karinthy citado pela psicanalista Violaine de Montclos (2020). Nele, um ilustre linguista pega um avião errado e acaba chegando num país cujo idioma não consegue entender e com isso fica preso no lugar. Alguém lost in translation. Isso, para mim, é o Autismo.


Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Costa, I; Soares, J; Araújo, P (2021). A arte no processo de desenvolvimento de pessoas portadoras do Transtorno do Espectro Autista (TEA). In Research, Society and Development, v. 10, n. 8.

Gendry-Kim, K.S. (2022). Jun. São Paulo: Pipoca e Nanquim.

Gómez, J. (2016). Arteterapia y Autismo: El desarrollo del arte en la escuela. In Publicaciones Didácticas. (pp. 31-48, Publicaciones Didácticas, nº69).

Montclos. V. (2020). Seu paciente favorito. São Paulo: Perspectiva.


[VÍDEO] Psicólogo explica: o que é Transtorno de Personalidade Borderline?

Você provavelmente já ouviu falar neste nome. Borderline? O que é isso? O que isso significa? Qual é a diferença de Transtorno de Personalidade Borderline, Limítrofe e Fronteiriço? Qual é a diferença deste transtorno para o Transtorno Afetivo Bipolar?

O texto de hoje tentará explicar tudo isso. E você poderá ter uma explicação detalhada com o vídeo que foi produzido especificamente sobre este tema e encontra-se no final deste artigo, cuja leitura é recomendada para melhor entendimento do vídeo.

Transtorno de Personalidade Borderline

Me chamo Caio Cesar, sou psicólogo e psicoterapeuta. E, recentemente, me deparando com muitas dúvidas e também com informações dúbias sobre este transtorno, acredito que este se tornou um tema apropriado para ser explicado por um profissional da área em um vídeo.

O que é?

O transtorno de personalidade Borderline é um transtorno de personalidade. Com sinais e sintomas descritos tanto no DSM-V (manual estatístico e diagnóstico dos transtornos mentais, editado pela American Psychiatric Association – APA) como no CID 11 (Classificação Internacional de Doenças, editado pela OMS). Ele também pode ser chamado de Transtorno de Personalidade Limítrofe ou Transtorno de Personalidade Fronteiriço. Ambas as versões são uma tradução da palavra “borderline” que, em inglês, numa tradução literal, significaria “linha de fronteira”.

Tal nome já inicia a explicação sobre este transtorno, pois pacientes diagnosticados com ele pareciam, aos médicos que os, tratavam estarem no limite, na fronteira, na borda da realidade com o que se entende por psicose. A “linha de fronteira” entre a neurose e a psicose.

Quais os principais sintomas?

Entre os principais sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline, podemos citas sintomas como:

  • Sensação constante e desproporcional de abandono e/ou negligência;
  • Mudança brusca de humor, ponto de vista, crenças, valores e objetivos de vida;
  • Dependência elevada de cônjuges, familiares e amigos;
  • Instabilidade emocional;
  • Explosões de raiva, crises de choro abruptas;
  • Automutilação; tentativas recorrentes de suicídio, entre outros.

AVISO IMPORTANTE:

O diagnóstico de um transtorno mental, principalmente de um transtorno de personalidade é algo que deve acontecer apenas a partir de uma avaliação multi e interdisciplinar de profissionais qualificados da área da saúde mental, como por exemplo, psicólogos (as) e psiquiatras. Se você se identificou com um ou mais destes sintomas isso não necessariamente significa que você possui este transtorno, pois sintoma não é sinônimo de diagnóstico.

É possível confundir um diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline com o de outros transtornos?

Sim, e frequentemente isso acontece. Infelizmente. Daí vem a importância de um diagnóstico não se basear apenas em sintomas e, ainda que se tenha uma hipótese diagnóstica robusta, é preciso fazer um diagnóstico diferencial. No caso do Transtorno de Personalidade Borderline, alguns transtornos fazem parte da lista que deve ser eliminada antes de um diagnótico fechado.

Na maioria das vezes, o transtorno de personalidade limítrofe é diagnosticado equivocadamente como

  • Transtorno Afetivo Bipolar: também caracterizado por grandes variações no humor, comportamento e sono. Contudo, no transtorno de personalidade borderline, o humor e o comportamento mudam rapidamente em resposta a estressores, especialmente os interpessoais, enquanto no transtorno bipolar o humor é mais sustentado por mais tempo e menos reativo. E as pessoas costumam ter alterações significativas de energia e atividade.
  • Transtorno de personalidade histriônica (saiba mais sobre histeria clicando aqui) ou transtorno de personalidade narcisista: pacientes com algum desses transtornos buscam atenção e são manipuladores, mas os que têm transtorno de personalidade limítrofe também se consideram maus e se sentem vazios. Alguns pacientes atendem aos critérios dos transtornos de personalidade antissocial.
  • Transtornos depressivos (entenda mais sobre estes clicando aqui) e transtornos da ansiedade (conheça mais sobre estes clicando aqui e aqui): esses transtornos podem ser diferenciados do transtorno da personalidade limítrofe, ou borderline, pela autoimagem negativa, instabilidade dos vínculos e sensibilidade à rejeição, que são características proeminentes do transtorno de personalidade limítrofe e geralmente estão ausentes nos pacientes com um transtorno de humor ou ansiedade.
  • Transtornos de dependência química (temos um texto que trata especificamente sobre este assunto, clique aqui para acessá-lo);
  • Transtornos de estresse pós-traumático

Alguns dos transtornos que fazem parte do diagnóstico diferencial do transtorno de personalidade limítrofe também podem coexistir, ou seja: a pessoa poderá ser diagnosticada simultaneamente tanto com o Transtorno de Personalidade Borderline, como com um Transtorno de Ansiedade ou um Transtorno Depressivo, por exemplo.

É por este e outros motivos que o diagnóstico do Transtorno de Personalidade Limítrofe é um dos mais difíceis de se fechar, portanto é preciso sempre escolher bons profissionais e estes devem ter muita cautela ao fechar este diagnóstico.

Tratamento

O tratamento para o Transtorno de Personalidade Borderline envolve psicoterapia e, muitas vezes, medicação, prescrita por um médico psiquiatra que realize um trabalho em conjunto com o psicoterapeuta.

Filmes e Séries (alerta de spoiler)

Para ilustrar um pouco mais sobre o transtorno, separei alguns filmes e séries em que atores e atrizes tentaram dar vida ao contexto de pacientes que sofrem do transtorno. Segue a lista:

Atração Fatal (1987)

Sinopse:  Thriller/Drama ‧ 1h 59m – A vida de Dan Gallagher (Michael Douglas) não poderia estar melhor. Advogado de sucesso, ele vive um casamento feliz e tem uma linda filha. Até que um dia ele conhece a executiva Alex (Glenn Close), com quem tem um caso. A amante começa a exibir um comportamento descontrolado e obsessivo, e logo Dan termina o breve relacionamento. Alex não aceita ser rejeitada e começa a fazer da vida de Dan um verdadeiro inferno.

Garota Interrompida (1999)

 2h 07min / Drama, Biografia
Sinopse: Em 1967, após uma sessão com um psicanalista que nunca havia visto antes, Susanna Kaysen (Winona Ryder) foi diagnosticada como vítima de “Ordem Incerta de Personalidade” – uma aflição com sintomas tão ambíguos que qualquer garota adolescente pode ser enquadrada. Enviada para um hospital psiquiátrico, ela conhece um novo mundo, repleteo de jovens garotas sedutoras e transtornadas. Entre elas está Lisa (Angelina Jolie), uma charmosa sociopata que organiza uma fuga.

Sessão de Terapia (3ª Temporada) – Paciente Bianca (Letícia Sabatella)

Sinopse: Nesta terceira temporada, Theo retorna de um período de descanso e reflexão. No entanto, assim que retoma suas atividades, descobre que seu filho mais velho está atravessando um momento muito difícil. Esse drama familiar fará com que Theo tenha a oportunidade de se aproximar do irmão Nestor e dos seus outros filhos.
Theo continuará atendendo e a cada dia acompanharemos o trajeto de um novo paciente. Bianca Cadore uma mulher casada e que ama demais, Diego Duarte um adolescente alcoólatra, Felipe Alcântara um jovem empresário que não consegue assumir sua preferência sexual e Milena Dantas, viúva de Breno Dantas, que aparenta ter Transtorno obsessivo compulsivo.
Nas sextas Theo tentará uma nova abordagem e entra num grupo de supervisão com outros terapeutas, Rita Sanchez, Guilherme Damasceno e o supervisor Evandro Mendes. A terceira temporada da série conta com roteiros originais, uma vez que a a série original teve apenas duas temporadas

[VÍDEO] EXPLICANDO O TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE

Interaja conosco! Queremos saber sua opinião! Deixe seu feedback, suas dúvidas e sugestões nos comentários. Até o próximo texto!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

Neste texto, o Psicólogo Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos(CRP 06/139621) fala sobre características, sintomas e tratamento do transtorno de personalidade borderline.

Saiba mais sobre nosso sócio-colunista pelo link: https://spsicologos.com/quem-somos/caio-cesar-rodrigues-de-araujo/

Caso busque atendimento psicológico, você pode nos contatar pelo link:: https://spsicologos.com/servicos/atendimento-psicologico/

Para mais informações entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos:

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Psicanálise e Zen-Budismo: experiências do vazio

O que a Psicanálise tem a ver com o Zen?

Não é incomum encontrarmos discussões mundo à fora sobre possíveis aproximações entre a prática da psicanálise e práticas budistas, dentro e fora da tradição Zen. Minha ideia por aqui é pincelar algumas aproximações possíveis com o tema em termos de técnica e objetivo, de maneira nenhuma esgotando o tema e suas implicações.

O contato de Lacan com o Zen-budismo já se denota em seu comentário de abertura no seu primeiro seminário:

“O mestre interrompe o silencio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé.

É assim que procede, na procura do sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen. Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta as suas próprias questões. O mestre não ensina ex-cathedra uma ciência ja pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la”

(Lacan, 1953-1954/1986, p. 9)

Me agrada muito essa passagem inicial e penso que podemos comentar diversos aspectos a partir dela, em termos teóricos e práticos.

Primeiro, a comparação da maneira de transmissão entre Psicanálise e Zen-Budismo, sempre responsabilizando o sujeito em sua busca na análise, por meio da escuta do analista e suas intervenções.

Penso também que a primeira frase diz muito do trabalho de Lacan no sentido de “abrir uma fala, interromper um silêncio” em termos de inovações na Psicanálise de origem francesa.

Lacan não dava ponto sem nó.

Ensō

Um primeiro conceito que vale a pena mencionar é o Ensō, uma palavra japonesa que significa literalmente “círculo”. Ele é fortemente associado ao Zen-Budismo, simbolizando Iluminação, força e o vazio.

O símbolo é normalmente desenhado em uma pincelada só, demonstrando o estado expressivo daquele que toma o pincel naquele momento. Um pouco como a abertura de cada sessão de análise, dado que o paciente pode “começar por onde quiser”.

Aprender a realizar um Ensō é mais uma atividade de meditação do que uma atividade de caligrafia. O que se busca com o desenho é ressaltar o caráter meditativo presente em qualquer atividade. Ressalta a possibilidade de expressar sua liberdade, limpar a mente (Mannox, 2020).

Normalmente é representado como sendo um círculo incompleto, remetendo justamente ao nosso caráter de incompletude, do mundo, de todos.

Pensando em termos de técnica, quando um psicanalista faz uma intervenção, ela deve ser precisa. Da mesma forma, o artista, quando cria o Ensō deve ter sua mente limpa: “Qualquer hesitação em sua mente, qualquer dúvida causará uma oscilação, um quadrado ou uma inconsistência” (Mannox, 2020).

Além disso, a noção de “conhecimento equivocado” referido no Zen-Budismo, diz um tanto da maneira como conduzimos as análises, sempre levando os pacientes à percepção de desejos conflituosos e incômodos (Parker, 2008/2020).

Uma definição que me agrada do Ensō é “A beleza da imperfeição”, ou ainda “Imperfeição é a perfeição de tudo o que você faz”. Isso me remete imediatamente à relação que criamos com nosso próprio vazio, com nossa falta. A noção que a falta é constituinte, para mim, conversa muito bem com essa percepção budista.

No Seminário 9 (As Identificações), Lacan aprofunda a articulação de Psicanálise com a Topologia, trazendo à cena o Toro, representação topológica que ilustra a relação entre Desejo, Demanda e Identificação. Com o Toro, Lacan demonstra como a falta é de fato, constituinte e atua na Identificação com o outro.

Conhecermos nosso desejo e entender o que vale a pena perseguir é um dos objetivos da análise. Penso que esse sofrimento decorrente da busca do objeto a, é outro ponto de convergência entre Psicanálise e Zen-Budismo.

Existe um Eu?

“O inconsciente escapa totalmente a este círculo de certezas no qual o homem se reconhece como um eu”

(Lacan, 1954-1955/2010, p.17)

A noção de Eu na psicanálise remonta às discussões de Freud, chegando ao dualismo Je x Moi em Lacan.

Largamente discutido sobre diversos prismas em seu segundo seminário (O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise), a noção de Eu apresenta uma função constitutiva do sujeito e diferenciadora entre o Eu e o Outro. Ainda assim, é uma função essencialmente imaginária (Lacan. 1954-1955/2010).

Segundo o próprio Lacan (1954-1955/2010) “As falas fundadoras que envolvem o sujeito são tudo aquilo que o constituiu, os pais, os vizinhos, a estrutura inteira da comunidade, e que não só o constituiu como símbolo, mas o constituiu em seu ser” (p. 34).

Na perspectiva budista encontramos algo similar em relação à abordagem de si mesmo. Não apenas na busca do refúgio nas Três Jóias (Buda, Dharma e Sangha), mas também a noção de sofrimento decorrido do apego ao Eu pode ser encontrado nas Quatro Nobre Verdades, sendo elas:

A Realidade do Sofrimento (Dukkha), A Realidade da Origem do Sofrimento (Samudaya), A Realidade da Cessação do Sofrimento (Nirodha) e A Realidade do Caminho (Magga) para a Cessação do Sofrimento.

“Imagine, por exemplo, que você está sentado na esteira, mas, agora, procure por este eu ou pessoa. Descobrirá que não o encontrará nos agregados físicos e mentais. O eu não é nenhum dos quatro elementos, como as partículas que formam o corpo, por exemplo. Esses elementos não respondem pela pessoa; a sua união não é a pessoa; e, isoladamente, também não dão conta do ser. O eu é apenas um rótulo atribuído ao agregado de bases designativas e, por isso, existe somente nominalmente. As pessoas não existem independentemente e de forma inata e verdadeira.”

(Lama, 1991/2004, p. 207)

Pensando nisso, acho válido apontar um certo alinhamento de propósito na análise e no caminhar espiritual de Buda. Escutar o vazio, dissolver o Ego, o que parece impossível, é um pouco de onde se conflui Psicanálise e Budismo (Dunker, 2021).

Japão – Um desvio

Fazendo um desvio do budismo propriamente dito, sinto que é importante tocar muito brevemente em alguns aspectos da cultura japonesa que foram analisados por psicanalistas e me chamam a atenção.

O Haiku,(ou Haicai no Brasil) forma de poesia curta japonesa, normalmente de três versos, que tenta capturar um estado de percepção interna sobre o Ser, sobre a existência.

No haiku, o corte é a essência. Ele define a maneira como dois elementos se relacionam. Da mesma forma, na Psicanálise o corte define a significação. Sendo um corte suspensivo, mudando a cadeia significante que se apresentava até então, ou um corte conclusivo, encerrando a sessão. Apontamos assim para a falta-a-ser do paciente (Quinet, 2015).

“Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos”
(Millôr Fernandes)

Curioso também pensar nas palavras de Lacan quando dizia que não seria possível analisar os japoneses por sua relação com a linguagem, espontaneamente ligada à ambiguidade e poeticidade (Dunker, 2017).

Nas palavras do próprio, em seu famoso texto de introdução aos Escritos à época sendo publicados no Japão, intitulado Aviso ao leitor japonês (1972/2003): “Se não temesse o mal-entendido, eu diria que, para quem fala japonês, é um desempenho costumeiro dizer a verdade através da mentira, isto é, sem ser mentiroso” (Lacan, p.500)

Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Dunker, C. (2017) Como é a psicanálise oriental? In Falando nisso produzido por Buli, L & Bulhões, J. Recuperado em 01 de Outubro de 2021, de

Dunker, C. (2021) Psicanálise e o Zen. In Falando nisso produzido por Buli, L & Bulhões, J. Recuperado em 01 de Outubro de 2021, de

Lacan, J. (1953-1954/1986) Os escritos técnicos de Freud. (Os Seminários, Livro I). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1954-1955/2010) O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. (Os Seminários, Livro II). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1972/2003) Aviso ao leitor japonês. In Outros Escritos (pp.498-500). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lama, D. (1991/2004). O Livro da Felicidade: Um guia prático aos estágios de meditação. Rio de Janeiro: Ediouro.

Mannox, T. (2020) What is an Ensō? Produzido por Study Buddhism. Recuperado em 01 de Outubro de 2021 de

Parker, I. (2008/2020) Japão em análise: culturas do inconsciente. São Paulo: Benjamin Editorial.

Quinet, A. (2015) O Grafo do Desejo. Aula realizada no dia 12/08/2015 no FCCL-Rio. Recuperado em 01 de Outubro de 2021, de https://www.youtube.com/watch?v=LFrD1HtPeWE

05 livros para “entender” Lacan

Recomendações de leitura para interessados em Psicanálise Lacaniana

Jacque Lacan (1901-1981)

Entender Lacan é por demais pretensioso. Sua fala e sua escrita são por demais intrincadas, reunindo às vezes no mesmo parágrafo conceitos de matemática, física e antropologia. Sua transmissão nos remete à falta, à nossa ignorância. Seu estilo rebuscado e erudito gera horas e horas de debate sobre uma única frase.

Pensando em abordar diversos aspectos da obra de Lacan, reuni aqui textos de psicanalistas que conviveram, estudaram e repensam a obra do francês. Elas ajudam não só pessoas em formação psicanalítica.

Gostaria de salientar que nenhum texto escrito por terceiros substitui a leitura do autor/pensador por ele mesmo. Sempre vá direto, mas caso queria uma ajuda, aqui vão algumas dicas:

01 – Introdução clínica à psicanálise lacaniana (Bruce Fink)

Escrito por Bruce Fink, um analista norte-americano (o quê, por si só já é notável), este texto serve como introdução para todos aqueles que se destinam à prática clínica e que querem se aproximar da obra de Lacan.

Aqui, Fink discorre sobre várias facetas da prática clínica, sempre com exemplos úteis à mão. Fala sobre Desejo, Diagnóstico e Técnica analítica. Como nesse trecho, onde o autor discute o aspecto sempre desafiador de se manter fora de uma prática de “compreensão” do sofrimento do paciente:

“Na análise, entretanto, analista e analisando não “falam a mesma língua”, embora ambos possam ser falantes nativos de um dado idioma. Suas expressões podem ser muito parecidas, se eles vierem de meios socioeconômicos semelhantes e da mesma região do país, mas, em última instância, eles nunca “falam a mesma língua”” (Fink, 2018, p. 33)

Falando sobre Fantasia Fundamental, Fink (2018), afirma:

“Convém observar que a fantasia fundamental é menos algo que exista em si, antes da análise, do que algo contruído e reconstruído no curso da análise” (p.83).

02 – Alô, Lacan? É claro que não. (Jean Allouch)

Este livro se trata de um compilado de anedotas da vida e trabalho de Lacan. Com passagens em sessões de análise, supervisões clínicas e apresentação de pacientes, onde a escuta e o jeito irreverente do mestre francês despontavam. Como nessa passagem onde a surpresa e o deslocamento do lugar-comum aparecem em uma sessão:

conjuração?

“No tom irritado que é habitualmente o deste tipo de afirmação, ele diz:

– Puxa! eu sou uma besta.

Lacan:

– Não é porque você diz que não é verdade” (p.39)

A prática do chamado tempo lógico causou muita polêmica culminando na saída de Lacan da IPA em 1964. Por vezes ele pedia que o paciente viesse 2 ou 3 vezes no mesmo dia para sessões curtíssimas, e na semana seguinte passava uma hora inteira escutando o mesmo paciente. Sessões com tempo variável são, sem dúvida nenhuma, uma arte. Seleciono aqui duas passagens

sessões curtas

“Ela pergunta a Lacan:

– Por que você me atende por tão pouco tempo?

– Para que isso seja mais sólido.” (p.91)

É um texto revelador e por vezes humorístico que nos mostra o dia-a-dia do trabalho de Lacan com a Psicanálise em suas diversas frentes.

03 – A vida com Lacan (Catherine Millot)

A vida com Lacan trata-se de um texto íntimo que nos mostra a última década de vida de Jacques Lacan à partir do ponto de vista de Catherine Millot. Ela que buscou a formação com o psicanalista já no fim da vida, retrata situações corriqueiras onde o estilo de Lacan se mostra:

“A intensidade de sua expressão, sua dramatização, me fazia pensar no teatro da crueldade de Antonin Artaud. Numa outra noite em Paris, alguns meses antes, na capela do hospital Saint-Anne, ele proclamara que falava com as paredes e que era isso que fazia seu auditório gozar. A teatralização fazia parte da arte oratória de Lacan. A cólera afetada e a raiva ostentosa eram suas marcas recorrentes” (Millot, 2017, p.35)    

Um homem de hábitos, envolto em suas reflexões acerca do humano e sua relação com o Outro, Lacan deixou um legado importantíssimo para a Psicanálise e para o campo mais amplo da Saúde Mental.

04 – 14 conferências sobre Jacques Lacan (Fani Hisgail)

Esta coletânea publicada em 1989 reúne textos de Contardo Calligaris, Oscar Cesarotto entre outros. Textos estes que foram apresentados na chamada “Semana Jacques Lacan”, realizada na PUC-SP, em outubro de 1988. Foram 4 dias de intenso debate e discussão entre filósofos, psicanalistas e semiólogos, debruçando-se sobre diversas áreas do ensino de Lacan.

Nessa coletânea você encontra discussões sobre o “campo psicanalítico”, a ética da psicanálise e como se transmite a mesma. Discorrendo sobre cultura, o saudoso Calligaris diz:

“A necessidade que funda o sujeito neurótico numa filiação à função paterna é que o funda submisso ao automatismo de repetição, o qual a função paterna organiza. E o sintoma não é nada mais do que esta organização” (1989, p.20).

Interessante apontar também o uso do Nó-Borromeano por Oscar Cesarotto (1989) acerca da Transmissão da Psicanálise, falando em três tempos: Formação, Autorização e Reconhecimento.

05 – Introdução à topologia de Lacan (J.D. Nasio)

O período entre 1964 e 1971 ficou conhecido como a virada lógica de Lacan. Nesse texto de 2010, J. D. Nasio, grande divulgador da obra de Lacan, discute e apresenta a construção e uso das estruturas topológicas na psicanálise do francês. Entre elas, encontramos a Banda de Mobius, Toro, Garrafa de Klein e Cross-cap.

Lacan fez uso da Topologia das Superfícies para explicar e ilustrar conceitos psicanalíticos de maneira lógica. Entre eles: Desejo, Inconsciente, Discurso e Objeto a.

Um texto interessantíssimo para os curiosos do uso de conceitos lógico/matemáticos pelo mestre francês.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências

Allouch, J. (1999) – Alô, Lacan? – É claro que não. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Higail, F (org.). (1989) 14 Conferências sobre Jacques Lacan. São Paulo: Editora Escuta.

Fink, B. (2018). Introdução clínica à psicanálise lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Millot, C. (2017). A vida com Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Nasio, J (2011). Introdução à topologia de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.