Explicando Seligman: Felicidade Autêntica e Florescimento (Psicologia Positiva)

Quando a psicologia decide investigar a felicidade e o bem-estar (subjetivo) humanos, ela passa, inevitavelmente, sob os terrenos abertos pela Psicologia Positiva e pelo seu fundador, o psicólogo Martin Seligman, PhD. Isso, pois foi a corrente da Psicologia Positiva que conseguiu, de forma pioneira, investigar, compreender e intervir com sucesso sobre as chamadas forças e virtudes do homem e ampliar o foco da psicologia científica tradicional que, até então, partilhava do modelo médico e estava voltada, quase que totalmente, a curar/tratar doenças. É então, com a Psicologia Positiva que não apenas temos hoje estudos sobre os fenômenos e impactos das emoções positivas na vida das pessoas, ou do “estado de flow”, ou do “mindfulness”, ou da resiliência, por exemplo, entre outras contribuições, mas também podemos falar de uma psicologia preventiva e fortalecedora tão sólida quanto a tradicional psicologia reparadora de danos.

Vale dizer que a Psicologia Positiva (PP) está saindo da adolescência, isto é, ela foi fundada em 1998 e, portanto, é um corpus de estudo científico relativamente novo. Para saber mais sobre seus antecedentes, nascimento, propósito e principais contribuições, recomendamos o texto A Psicologia Positiva e o Estudo da Felicidade.

Martin Seligman

Psicólogo Martin SeligmanMartin Elias Pete Seligman (1942 – ) é um Psicólogo estadunidense considerado o pai da da PP. Ele é um dos principais divulgadores internacionais dessa corrente e foi responsável pela sua criação, em 1998, enquanto Presidente da American Psychological Association (APA). Ficou conhecido como “a voz”, ao lado de Mihaly Csikszentmihalyi, conhecido respectivamente como “o cérebro” e também pai da teoria flow. Seligman preparou o terreno para o nascimento da PP, contactou patrocínios, escreveu artigos, livros, desenvolveu ferramentas de mensuração e possibilitou outras tantas contribuições para esse campo. Entre seu legado, vale destacar a obra Character Strengths and Virtues: A handbook and classification (CSV) (sem tradução para a língua portuguesa) que, resumidamente, é o equivalente ao DSM para a PP, isto é, ao invés de catalogar, de forma rigorosa, doenças e tratamentos, cataloga forças, virtudes e as respectivas avaliações e intervenções sob elas.

Felicidade Autêntica

felicidade autêntica martin seligmanUm dos pilares da PP é o estudo das emoções positivas no âmbito pessoal e coletivo (instituições positivas) e, buscando compartilhar sua visão, Seligman estrutura o livro Felicidade Autêntica (Authentic Happiness, 2002) em 3 eixos:

  • Estudo das emoções positivas;
  • Estudo dos traços de personalidade positivos (como forças e virtudes);
  • Estudo das instituições positivas ou aquelas que promovem aspectos positivos no ser humano.

“A crença de que existem maneiras rápidas de alcançar felicidade, alegria, entusiasmo, conforto e encantamento, em vez de conquistar esses sentimentos pelo exercício de forças e virtudes pessoais, cria legiões de pessoas que, em meio a grande riqueza, definham espiritualmente. Emoção positiva desligada do exercício do caráter leva ao vazio, à inverdade, à depressão e, à medida que envelhecemos, à corrosão de toda realização que buscamos até o último dia de vida.”

(Seligman, 2010, p. 16)

Por meio de relatos de pacientes, relatos de pesquisas, questionários, fatos históricos, teorias, estatísticas, porcentagens e muita emoção, Seligman apresenta uma teoria da felicidade. Resumidamente, ele diz que a felicidade é alcançada por meio da emoção positiva, do engajamento e do significado. Falar cientificamente sobre a felicidade não é fácil, mas um avanço foi feito ao correspondê-la em elementos mais bem definidos e mensuráveis.

Esses 3 elementos, por sua vez, fazem referências a 3 tipos de vida:

  • Vida prazerosa ⇒ emoções positivas
  • Vida engajada ⇒ engajamento (flow)
  • Vida significativa ⇒ sentido

Nessa teoria, Seligman não apenas divide a felicidade, mas fala de 3 caminhos que levam à ela. A vida prazerosa é aquela onde temos alta concentração, quantidade, frequência e intensidade de emoções positivas (diversão, orgulho, contemplação, gratidão, serenidade…). Na vida engajada, o sujeito utiliza suas forças pessoais e envolve-se em atividades com ela. Essa felicidade se relaciona diretamente com o estado de flow – um estado em que o indivíduo fica envolvido, concentrado e absorvido, sem sentir fome e/ou perder a noção do tempo, por exemplo, durante uma tarefa (comum em escritores, pintores, músicos, atletas mas alcançável por qualquer pessoal). Na vida significativa, a pessoa valoriza os sentimentos de buscar, servir e pertencer a algo maior ou a algum propósito que envolva suas virtudes.

Florescer

Florescer florescimento martin seligman psicologia positiva9 anos depois da publicação do Felicidade Autêntica, com novas e importantes pesquisas sobre a felicidade, Seligman publica o Florescer (Flourish: a visionary new understanding of happiness and well-being, 2011), onde faz uma mudança teórica significativa, ao deixar de abordar o conceito de felicidade, para abordar o de bem-estar. Com essa mudança, as formas de felicidade anteriormente descritas passam a ser elementos da nova teoria.

O novo modelo é representado didaticamente pelo acrônimo PERMA

  • P – Positive emotion (Emoção positiva)
  • E – Engagement (Engajamento)
  • R – Relationships (Relacionamentos)
  • M – Meaning (Significado)
  • A – Accomplishment (Realização)

Dessa forma, cada elemento contribui, mas não define o bem-estar. A tabela abaixo compara os temas, padrões de mensuração e objetivos correspondentes às duas teorias.

psicologia positiva martin seligman
(Seligman, 2012, p. 19)

Referências e recomendações de leitura:

Achor, S. (2012). O jeito Harvard de ser feliz. São Paulo: Editora Saraiva.

Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press and Washington, DC: American Psychological Association.

Pureza, J. R.; Kuhn, C. H. C.; Castro, E. K. & Lisboa, C. S. M. (2012). Psicologia positiva no Brasil: Uma revisão sistemática da literatura. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. 2012, 8 (2), pp.109-117.

Seligman, M. E. P. (2010). Felicidade autêntica: usando a nova psicologia para a realização permanente. Rio de Janeiro: Objetiva.

Seligman, M. E. P. (2012). Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva.

Para saber mais e já sobre Psicologia Positiva:

Por Caio Ferreira

As 3 Grandes Forças em Psicologia

Psicologia? Psicanálise? Behaviorismo? Gestalt-Terapia? Perls? Skinner? Freud? Como é estruturado o saber psicológico? O que é o que?

O texto de hoje visa explanar sobre as chamadas 3 Grandes Forças em Psicologia, a fim de traçar uma organização teórica e cronológica acerca do behaviorismo, psicanálise e das linhas humanistas-existenciais.

A Psicologia enquanto ciência

Wundt e estudantes de psicologia em Leipzig

1879 é considerado o ano de nascimento da psicologia. Naturalmente que já se falava de psicologia e de temas como mente, comportamento, felicidade, sofrimento, percepção, inteligência, emoção, saúde, doença, entre outros tópicos basilares, desde a antiguidade, porém, 1879 é o ano em que W. M. Wundt (1832-1920) funda o 1º laboratório de psicologia experimental (Psychologische Institut, na Universidade de Leipzig – Alemanha). É a partir dessa data que a psicologia começa a criar um campo de conhecimento próprio, com metodologia própria e separada do saber filosófico.

Esta ciência tem de investigar os fatos da consciência, suas combinações e relações, de tal modo que possam, finalmente, descobrir as leis que governam tais relações e combinações.

(Wundt, 1912/1973, p. 1)

Os primeiros psicólogos experimentais (além de Wundt vale citar Ernst Heinrich Weber [1795-1878] e Gustav Theodor Fechner [1801-1889]) se debruçaram sobre temas como consciência, introspecção, sensação e percepção, limiares de percepção, atenção e emoções, por exemplo e utilizaram, principalmente, técnicas da chamada psicometria e psicofísica, para analisar e medir esses fenômenos.

A partir dessas investigações surgem ramificações, movimentos e escolas próprias como o estruturalismo, o funcionalismo, o behaviorismo (1ª grande força), a psicanálise (2ª grande força) e a psicologia humanista-existencial (3ª grande força). Essas correntes psicológicas são arcabouços teórico-práticos que influenciam a forma com que o psicólogo compreende e intervém sobre as questões humanas.

1ª Grande Força em Psicologia: o Behaviorismo

skinner, watson e pavlov
(Skinner, Watson e Pavlov com um cão, respectivamente)

O behaviorismo (ou comportamentalismo) nasce como uma crítica ao introspeccionismo e às teorias mentalistas (como a psicanálise), isto é, quando o indivíduo busca acessar, se conscientizar e relatar seus estados internos. Para os behavioristas, o introspeccionismo é falho e, além de fornecer informações errôneas, afasta a psicologia do seu verdadeiro objeto de estudo – o comportamento.

O problema mentalista pode ser evitado com procurarmos diretamente as causas físicas anteriores, desviando-nos dos sentimentos ou estados mentais intermediários. A maneira mais rápida de fazer isto consistem em limitarmo-nos àquilo que um dos primeiros behavioristas, Max Meyer, chamou de “a psicologia do outro”; considerar apenas aqueles fatos que podem ser objetivamente observados no comportamento de alguém em relação com a sua história ambiental prévia. Se todas as ligações são lícitas, não se perde nada por desconsiderar uma ligação supostamente imaterial.

(Skinner, 1974/2006, p. 16)

Dessa forma, essa corrente da psicologia se debruçou sobre o que pode ser observado e mensurado diretamente, isto é, o ambiente e o comportamento da pessoa, ou seja, as contingencias ambientas e comportamentais (estímulos anteriores e posteriores referentes à uma ação).

Podemos entender estímulo como “uma alteração detectável no meio em que o indivíduo está inserido” (Lombard-Platet, Watanabe & Cassetari, p. 37, 2008), o que compreende, por exemplo, alterações na luminosidade, temperatura, sons, cheiros e qualquer coisa captada pelos órgãos sensoriais. O comportamento, em um primeiro momento, tem ser uma ação observável e mensurável, isto é, o behaviorista não analisa o “sofrer” ou a “diversão”, mas pode analisar, em intensidade e frequência, o chorar, a diminuição da fala, a mudança na postura, o gritar, o sorrir, o pular, o correr…. Também falamos de comportamentos involuntários (respondentes, como alteração de pupila, sudorese, salivação, erubescer…) e voluntários (operantes, como acender a luz, pegar uma revista, andar até a padaria…). De uma forma resumida, os comportamentos involuntários são eliciados pelos estímulos antecedentes (condicionamento clássico, pavloviano ou respondente) enquanto os comportamentos voluntários são emitidos, reforçados, punidos ou extintos pelas suas consequências – o estímulo posterior (condicionamento operante). Com o avanço da corrente behaviorista passou-se a falar também dos chamados comportamentos encobertos, isto é, aqueles que não são observados diretamente por outrem (como pensar, sonhar, imaginar…). É importante dizer também que seu desenrolar/legado fez nascer a TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental.

Autores do Behaviorismo

Os 3 principais e “clássicos” autores do behaviorismo são I. Pavlov (1849-1936), responsável pela descoberta do comportamento respondente; J. B. Watson (1878-1958), considerado o fundador da corrente, pai do behaviorismo metodológico e famoso pelo experimento do pequeno Albert; e B. F. Skinner (1904-1990), pai do behaviorismo radical, que ampliou as “Leis do Efeito” (de E. L. Thorndike) enquanto compreensão do comportamento operante, grande autor sobre processo de aprendizagem, criador da Caixa de Skinner, famoso pelos experimentos e demonstrações com ratos e pombos.

2ª Grande Força em Psicologia: a Psicanálise

consciente inconsciente id ego superego
(Representação da compreensão Freudiana sobre o aparelho psíquico humano: 1ª e 2ª tópica)

Aqui temos o papel do influente Sigmund Freud (1856-1939) e a importância da vida psíquica inconsciente, onde emergem temas como psicossomática, desenvolvimento psicossexual, neurose, histeria, mecanismos de defesa, sonhos, desejos e censuras. A psicanálise nasce na psicologia e dialoga, principalmente, com a psicologia clínica, todavia, hoje ela está para além da questão clínica, aparecendo como uma forma de estudar os aspectos dinâmicos da sociedade, economia, política e pensamento. Dessa forma, hoje temos muitos psicanalistas que não são psicólogos, mas possuem formação básica em filosofia, sociologia, medicina, letras e outras graduações. Falamos também de psicanálises, isso pois se trata de uma das linhas teórico-práticas que mais apresentam diferenças conceituais e intervencionistas de autor para autor, o costuma causar confusões naquilo que diz respeito às compreensões iniciais na temática. Mas, independente das diferenças do psicanalista em questão e como ele vai compreender aspectos do psiquismo, as psicanálises se aproximam quando compreendem um processo de conhecimento/tratamento/cura que, necessariamente e para sua efetividade, precisa passar pelo outro. Isto é, só sei de mim, pelo outro – e sobre essa questão específica, recomendo o seminário A Utopia do Autoconhecimento, veiculado no Café Filosófico, por Ricardo Goldenberg.

As psicanálises também costumam compartilhar a questão da transferência, isso é, padrões específicos relacionados às relações interpessoais passadas que direcionam a forma como a relação presente se manifesta e se estabelece – a transferência diz sobre seu portador e seu manejo pode ressignificar/resolver conflitos reprimidos. A noção da influência dos processos inconscientes também é basilar sobre o discurso do sujeito (discurso aqui, não compreende apenas a fala).

Digamos que alguém — um paciente em análise, por exemplo — nos relata um de seus sonhos. Nós supomos que desse modo ele faz uma das comunicações que se comprometeu a fazer iniciando um tratamento psicanalítico. Uma comunicação com meios inadequados, é certo, pois o sonho não é uma expressão social, um meio de entendimento. Não compreendemos o que ele quer dizer, e ele próprio não sabe o que é. Então temos que tomar rapidamente uma decisão: ou o sonho, como nos asseguram os médicos que não são psicanalistas, é um indício de que a pessoa dormiu mal, de que nem todas as partes do seu cérebro descansaram igualmente, de que alguns pontos quiseram continuar trabalhando, sob a influência de estímulos desconhecidos, e só puderam fazê-lo de modo bastante incompleto. Se assim for, será correto não nos ocuparmos mais do produto — psiquicamente sem valor — da perturbação noturna; pois o que tal pesquisa traria de útil para nossos propósitos? Ou então — percebemos que desde o início já decidimos de outra forma. Fizemos o pressuposto, adotamos o postulado — bem arbitrariamente, deve-se admitir — de que também esse sonho incompreensível teria de ser um ato psíquico inteiramente válido, de sentido e valor plenos, que podemos usar como qualquer outra comunicação na análise.

(Freud, 2010 pp. 95-96)

O clínico Freud foi influenciado, principalmente, por J.-M. Charcot (1825-1893), com quem aprendeu sobre histeria e hipnose, e J. Breuer (1942-1925) com quem estudou o método catártico (a cura pela fala). Sua obra é grande, estruturada e desenvolve o nascimento da psicanálise por meio de contato com outros saberes (biologia, física e literatura) e por meio dos processos de análise clínica e da autoanálise do próprio Freud.

Durante muito tempo, o aspecto mais conhecido e discutido da obra de Freud era o da teoria da libido, que ele elaborou inspirado nos modelos da eletrodinâmica ou da hidrodinâmica vigentes na ciência da época. Assim, o conceito de libido, que Freud concebeu como sendo a manifestação psicológica do instinto sexual, recebeu sua origem na tentativa de explicar fenômenos, tais como os da histeria, que Freud explicava como sendo resultantes do fato de que a energia sexual era impedida de expandir-se através de sua saída natural e fluía, então, para outros órgãos, ficando restringida ou contida em certos pontos e manifestando-se através de sintomas vários. Freud chegara à conclusão de que as neuroses, como a histeria, a neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia (fobia), teriam sua causa imediata no aspecto “econômico” da energia psíquica, ou seja, num represamento quantitativo da libido sexual.

(Zimerman, 2007, p.23)

Autores da Psicanálise

Para além do próprio Freud, podemos citar a influência de nomes como J. Lacan (1901-1981), que propôs um retorno sistemático à obra de Freud e a relacionou com os saberes da antropologia, linguística e estruturalismo, além de ter desenvolvido conceitos como Real, Simbólico e Imaginário; M. Klein (1882-1960), expoente da chamada “escola inglesa de psicanálise” foi uma das primeiras psicanalistas a atender crianças e sua contribuição se dá, principalmente, na compreensão dos componentes e fenômenos associados à vida psíquica primitiva; D. Winnicott (1896-1971) que abordou o papel do ambiente-cuidador para com o desenvolvimento emocional do sujeito e trouxe, entre outros, os conceitos de criatividade primária e tendência antissocial.

3ª Grande Força em Psicologia: a Psicologia Humanista-Existencial

Como uma reação ao behaviorismo e à psicanálise, a partir da segunda metade dos anos 1950 (e ganhado maior desenvolvimento e destaque durante as duas décadas posteriores), surge a 3ª Força. Contrária a uma visão determinista do homem (seja pela questão dos condicionamentos comportamentais ou pelo determinismo do inconsciente), ela valoriza a experiência consciente e trabalha com tópicos como: livre arbítrio; autorrealização; criatividade; esperança; potencial; sentido; contato; decisão; congruência; responsabilidade; entre outros…

(Abraham Maslow)

Seu fundador é considerado A. Maslow (1908-1970), famoso por desenvolver a “pirâmide hierárquica das necessidades básicas” e quem primeiro cunhou o termo “psicologia positiva“, em uma contraposição à chamada “psicologia negativa” – tradicional e focada na doença, no transtorno, no sofrimento e em seu tratamento/cura. Dessa forma, a Psicologia Humanista incorporou a visão de homem e mundo referente aos movimentos intelectuais do humanismo, do existencialismo e da fenomenologia. Dentro dela, vamos encontrar abordagens distintas como a Gestalt-Terapia, a Abordagem Centrada na Pessoa, ou a Logoterapia, por exemplo, onde cada uma tem suas particularidades clínicas e acabam por se aproximar mais do humanismo ou do existencialismo, a depender da linha téorico-prática, mas todas fazem parte da 3ª força que, segundo Schultz & Schultz (2008), integra os seguintes pontos essenciais:

  1. uma ênfase na experiência consciente;
  2. uma crença na integralidade da natureza e da conduta do ser humano;
  3. a concentração no livre-arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do indivíduo;
  4. o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição humana.

Dentre as abordagens clínicas dessa corrente psicológica, aquela que mais me identifico e acabei por estudar é a Gestalt-Terapia (não confundir com Psicologia da Gestalt). Essa abordagem é sempre uma terapia do contato e seu manejo é pautado no aqui-agora, sendo que a relação terapeuta-paciente funciona do ponto de vista dialógico, onde o terapeuta confronta e frustra o paciente que tenta se esquivar ou fugir do seu contato e experiência com o presente. A fenomenologia pauta o setting clínico e, desta forma, a interpretação não é adequada, mas sim a descrição. A farsa, as atuações e as incongruências não se sustentam na Gestalt-Terapia, uma vez que são valorizadas e validadas as experiências mais espontâneas e verdadeiras de alguém.

Gestalt-terapia é uma das forças rebeldes, humanistas e existenciais da psicologia, que procura resistir à avalanche de forças autodestrutivas, autoderrotistas, existentes entre alguns membros de nossa sociedade. Ela é “existencial” num sentido amplo. […] Nosso objetivo como terapeutas é ampliar o potencial humano através do processo de integração. Nós fazemos isto apoiando os interesses, desejos e necessidades genuínas do indivíduo.

(Perls, 1977, p.19)

A Gestalt-Terapia deve ser experimentada para melhor compreensão – ela não se basta enquanto teoria. Caso tenha curiosidade em saber como é uma sessão com abordagem gestáltica, recomendamos que participe de uma 😉 E recomendamos também que assista um, das várias sessões gravadas, com F. Perls – pai da GT. (após esse vídeo, colocamos também um atendimento de Carl Rogers, com a mesma mulher, para finalidades didáticas e comparativas).

Autores da Psicologia Humanista-Existencial

Como já foi dito antes, há abordagens mais humanistas e outras mais existenciais. C. Roger (1902-1987) pai da Abordagem Centrada na Pessoa e dos Grupos de Encontro, estudou sobre o crescimento pessoal, as relações interpessoais e os processos experienciais; F. Perls (1893-1970) ex-psicanalista, pai da Gestalt-Terapia, contribuiu naquilo que diz respeito à visão holística sobre o indivíduo, sobre o papel do terapeuta na conscientização das incongruências, bem como sobre as dificuldades da pessoa em experienciar e desfrutar do presente. V. Frankl (1905-1997), pai da Logoterapia, tem uma abordagem mais existencialista que se relaciona com a temática do sentido da vida – que começou a ser desenvolvida quando esse foi prisioneiro em um campo de concentração nazista.

Referências

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras.

Lombard-Platet, V. L. V.; Watanabe, O. M. & Cassetari, L. (2008). Psicologia experimental: Manual teórico e prático de análise do comportamento. São Paulo: Edicon.

Schultz, D. P. & Schultz, S. E. (2008). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Stevens, J. O. (Perls, F. et al.) (1977). Isto é Gestalt. São Paulo. Summus.

Wundt, W. (1912/1973). An introduction to psychology. Translation R. Pintner. London: George Allen & Company, Ltd.

Zimerman, D. E. (2007). Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

A Psicologia Positiva e o Estudo da Felicidade

Psicologia positiva no Brasil
Construtos teóricos identificados em revisão sistemática da literatura científica brasileira associada à psicologia positiva (Pureza et al., 2012).

A psicologia deve olhar para a doença ou para a saúde? A psicologia detém a visão completa do comportamento humano? Para onde ela deve olhar, se quiser avistar as “leis do comportamento”?

Dentro da psicologia contemporânea, um tópico que vem ganhando relevância nos últimos anos é o da Psicologia Positiva (PP). Crítica à tradicional ênfase dada sobre doenças e transtornos mentais, a psicologia positiva visa expandir o alcance/atuação da psicologia e resgatar suas missões, principalmente naquilo que diz respeito à investigação, classificação e desenvolvimento de qualidades positivas. É um paradigma teórico que implica na análise de fenômenos como bem-estar; satisfação em determinadas áreas da vida; experiências de flow; emoções positivas; saúde geral; auto-estima, habilidades sociais; e felicidade (Pureza et al., 2012).

A 3ª Força da Psicologia

A psicologia positiva começa a brotar com a chamada 3ª Grande Força da Psicologia. Esse movimento psicológico foi inicialmente desenvolvido durante as décadas de 1950 e 1960 e se caracteriza por ter abordagens teóricas vindas da corrente humanista. Em resumo, a 1ª Grande Força é considerada o behaviorismo e a 2ª Grande Força a psicanálise. No behaviorismo é apresentado o valor das contingências ambientais que antecedem e sucedem o comportamento; na psicanálise é apresentado o valor da vida psíquica inconsciente e seus impactos para com a nossa forma de se sujeitar no mundo; na vertente humanista, é apresentado o valor da vida psíquica consciente e do real contato consigo e com o outro.

Na 3ª Grande Força encontramos abordagens e autores como a Gestalt-Terapia e Fritz Perls; a Abordagem Centrada na Pessoa e Carl Rogers; ou a Logoterapia e Viktor Frankl, por exemplo. Essas abordagens e autores possuem diferenças e peculiaridades que as tornam únicas e singulares – mas todas partilham do legado comum proveniente da filosofia humanista – o que afeta sua visão de homem e de mundo. Vale dizer que a PP não se configura como mais uma linha/abordagem teórico-prática, mas sim como uma filosofia e conduta do psicólogo.

O pai da psicologia humanista é considerado Abraham Maslow, psicólogo estadunidense que viveu entre 1908 e 1970. Foi ele quem deu credibilidade científica aos fenômenos observados, mas que, muitas vezes, é apenas lembrado e citado por sua pirâmide hierárquica das necessidades humanas. Foi Maslow quem começou a (re)abrir os olhos para o foco das investigações e dos rumos que a psicologia havia tomado. Ele se interessou pelo estudo do crescimento e desenvolvimento do potencial humano, e defendeu a psicologia como um instrumento de promoção do bem-estar social e psicológico. Maslow também foi o 1º a utilizar o termo psicologia positiva, comparando-a com uma psicologia negativa, em seu livro Motivation and Personality, de 1954. (Kamei, 2018).

A psicologia tem sido mais bem-sucedida no lado negativo do que no positivo; revelou-nos muito sobre as falhas humanas, suas doenças, seus pecados, mas pouco sobre suas potencialidades, virtudes, aspirações e seu auge psicológico.

(Maslow)

Dr. Abraham Maslow durante aula proferida na Universidade de Brandeis, em 1968.

A APA e a Psicologia Positiva

Building human strength: psychology’s forgotten mission

No final de 1997, Martin E. P. Seligman, psicólogo estadunidense nascido em 1942, foi eleito Presidente da American Psychological Association (APA) e, juntamente, com Mihaly Csikszentmihalyi (o pai do “estado flow”), psicólogo húngaro nascido em 1934, começaram a publicar e empregar recursos em prol da difusão da psicologia positiva, como edições especiais de publicações, revistas científicas, convenções e encontros.

Em 1998, Seligman escreveu, na coluna presidencial do APA Monitor, o artigo “Building human strength: psychology’s forgotten mission” (Construir forças humanas: a missão esquecida da psicologia), onde apontou que, antes de II Grande Guerra Mundial, a psicologia tinha 3 objetivos:

  • curar as doenças mentais;
  • tornar a vida das pessoas mais satisfatória;
  • identificar e cultivar talentos superiores;

Nesse mesmo texto, ele também aponta que após a II GGM, “todos os esforços da psicologia se voltaram para o tratamento das doenças mentais e dos transtornos psicológicos” (Kamei, 2018, p. 27), ou seja, praticamente, um voltar-se para a reparação de danos.

Esse foco, quase exclusivamente curativo, fez com que se olhasse pouco para os aspectos positivos que também são parte do sujeito e das comunidades. Assim, tais aspectos foram negligenciados por um longo período, tornando a visão da psicologia incompleta. Com base nisso, esses autores propuseram que o objetivo da psicologia positiva é promover um ajuste no foco da psicologia para que aspectos saudáveis também recebam atenção.

(Hutz, 2014, p.13)

Dentre encontros, reuniões e publicações científicas foram investigadas interrogações como:

  • Felicidade é um meio ou um fim?
  • Motivações positivas derivam das motivações negativas?
  • Qual é a relação entre o indivíduo e as forças interpessoais?
  • Qual é a função evolucionária das emoções positivas?

É importante ressaltar que a psicologia positiva, como movimento, não está criando uma nova área do saber psicológico, mas propondo um exercício teórico e, especialmente, metodológico no sentido de orientar a visão que se lança aos fenômenos investigados pela psicologia para os aspectos positivos e saudáveis do desenvolvimento, visando priorizar a prevenção ao tratamento.

(Hutz, 2014, p. 14)

O DSM da Psicologia Positiva: O CSV

psicologia positiva CSV felicidade character strengths and virtues

Após uma série de encontros, pesquisas e publicações os autores C. Peterson e M. Selgiman publicaram, em 2014, o que seria o DSM da psicologia positiva. Antes de mais paralelos, e pensando principalmente no público que lê esse texto, mas não é da área da psicologia ou psiquiatria, o DSM é a sigla para Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) que, em resumo, é uma referência internacional publicada pela APA, que se encontra na 5ª edição e informa sobre quadros e tratamentos associados à sintomas e transtornos psíquicos/mentais. No DSM não há espaço para o positivo. É verdade que lá se fala de motivação e vontade, por exemplo, mas somente explana sobre os distúrbios e disfunções do componente, além de oferecer possíveis tratamentos. O mesmo ocorre com os outros componentes humanos.

Sendo assim, não fazia sentido a emergente psicologia positiva utilizar o foco negativo do DSM e da tradicional psicologia pós-guerra – nasceu o Character Strengths and Virtues: A handbook and classification (CSV), como um desenvolvimento de aplicações práticas dentro da psicologia positiva.

Em resumo, essa publicação identifica 6 classes de virtude (“virtudes centrais”), compostas de 24 “forças de caráter” mensuráveis:

  • Sabedoria e Conhecimento: criatividade, curiosidade, abertura de espírito, amor à aprendizagem, perspectiva, inovação
  • Coragem: bravura, persistência, integridade, vitalidade, entusiasmo
  • Humanidade: amor, bondade, inteligência social
  • Justiça: cidadania, justiça, liderança
  • Temperança: perdão e misericórdia, humildade, prudência, autocontrole
  • Transcendência: valorização da beleza e excelência, gratidão, esperança, humor, espiritualidade

(com base em Peterson & Seligman [2004]. Character strengths and virtues: A handbook and classification – sem tradução oficial para língua portuguesa)

O Jeito Harvard de Ser Feliz

Nos últimos anos, com a crescente investigação e divulgação sobre a psicologia positiva, vem crescendo também o interesse geral e o mercado diretamente associado. Cursos de psicologia positiva e workshops de inteligência emocional, por exemplo, são mais oferecidos e vendidos – no Brasil – agora, do que há 5 ou 7 anos, por exemplo.

Livros de psicologia positiva e inteligência emocional viram best-sellers, o tema é globalmente acessado na internet, ganha os palcos do TED e nos chega, até nos grupos de WhatsApp, vídeos de apresentações ou ideias de pessoas como Tal Ben-Shahar e Shawn Achor (professores de Harvard e difusores contemporâneos, mundialmente conhecidos, no trabalho com a psicologia positiva).

Um dos autores mais populares em psicologia positiva, na atualidade, é Shawn Achor – que publicou o best seller O jeito Harvard de ser feliz (2012). Nesse livro, dividido em 3 partes, Achor nos conta sobre seu percurso na psicologia positiva, sobre as principais bases teóricas e metodológicas da investigação/intervenção positiva, uma série de histórias e observações, bem como sobre os chamados sete princípios – que, em resumo, dizem respeito à atitudes mentais e comportamentais específicas (que merecem ser elaboradas em um texto próprio para tal).

Acreditava-se que o sucesso era o ponto fixo do universo do trabalho, com a felicidade gravitando em torno dele. Agora, graças às descobertas revolucionárias do campo emergente da psicologia positiva, estamos aprendendo que o que acontece na verdade é o contrário. Quando estamos felizes – quando a nossa atitude e estado de espírito são positivos –, somos mais inteligentes, mais motivados e, em consequência, temos mais sucesso. A felicidade é o centro, e o sucesso é que gira em torno dela.

(Achor, 2012, p.43)

Nessa obra, o autor também quebra mitos (como a felicidade ser algo a posteriori – isto é, a crença comum de que serei feliz depois de obter um certo bem, ou depois de algum tipo de conquista/acontecimento, por exemplo) e expõe falhas ou erros da psicologia (como o culto da média).

psicologia positiva culto à media shawn achor felicidade harvard erros da psicologia

(Escape do culto da média, contido em Achor [2012], p. 21)

O gráfico acima representa uma amostragem hipotética que revela um padrão e uma tendência. É um gráfico em dois eixos, que poderia representar “peso em relação à altura, o tempo de sono em relação à energia, felicidade em relação ao sucesso e assim por diante” (Achor, 2012, pp. 21-22). Estatisticamente, o ponto fora do padrão é chamado de valor discrepante. É um problema estatístico que pode representar um erro de mensuração ou um valor real, todavia, ele atrapalha os dados e costuma ser acompanhado de procedimentos estatisticamente válidos para removê-lo dali – o que não é um problema para quem quer estudar a média ou uma característica geral sobre algo.

Se alguém fizer uma pergunta do tipo “Em quanto tempo uma criança consegue aprender a ler em uma sala de aula?”, a ciência muda essa pergunta para “Em quanto tempo, em média, uma criança consegue aprender a ler em uma sala de aula?”. Com isso ignoramos as crianças que aprendem a ler mais rapidamente ou mais lentamente e adaptamos as aulas tendo em vista a criança “mediana”. Esse é o primeiro erro cometido pela psicologia tradicional. […] Naturalmente, as pessoas que estão abaixo do normal são aquelas que tendem a precisar de mais ajuda – para serem afastadas da depressão, do abuso de álcool ou do estresse crônico. Em consequência, os psicólogos, justificadamente, dedicaram um considerável esforço estudando como poderiam ajudar essas pessoas a se recuperarem e voltarem ao normal. No entanto, por mais valioso que seja esse trabalho, ele só revela metade da realidade. Você pode eliminar a depressão sem tornar a pessoa feliz. Pode curar a ansiedade sem ensinar a pessoa a ser otimista. Pode fazer uma pessoa voltar a trabalhar sem, no entanto, melhorar seu desempenho profissional. Se você só luta para reduzir os aspectos negativos, você apenas atingirá a média e deixará passar irremediavelmente a oportunidade de superá-la.

(Achor, 2012, pp. 22-23)

A psicologia positiva nasce na gringolândia e ainda é desconhecida por uma série de psicólogos canarinhos, além de ser associada às funções e flertes dos coachings, por tantos outros – que faz com que muitos psicólogos tenham preconceitos ou cautelas para tocar na temática.

É sabido que a psicologia lida com a mente e o comportamento humano, mas são os conflitos emocionais que levam a maioria dos clientes aos nossos consultórios e esse é o foco tradicional do ensino em psicologia no Brasil – classificação e tratamento de sintomas e transtornos. Desse ponto de vista, a psicologia positiva é uma tentativa de resgatar missões que já foram do campo e do estudo psicológico, (re)ampliar o alcance da psicologia e estudar, cientificamente, as emoções e qualidades positivas humanas.

Quer saber mais sobre a psicologia das emoções? Inscreva-se já para o próximo curso de Introdução à Psicologia das Emoções.

Referências consultadas

Achor, Shawn (2012). O jeito Harvard de ser feliz. São Paulo: Editora Saraiva.

Hutz, C. S. (2014). Avaliação em psicologia positiva. Porto Alegre: Editora Artmed.

Kamei, H. (2018). Flow e psicologia positiva: estado de fluxo, motivação e alto desempenho. Goiânia: Editora IBC.

Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press and Washington, DC: American Psychological Association.

Pureza, J. R.; Kuhn, C. H. C.; Castro, E. K. & Lisboa, C. S. M. (2012). Psicologia positiva no Brasil: uma revisão sistemática da literatura. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. 2012, 8 (2), pp.109-117.

Por Caio Ferreira

Psicologia da Inteligência: Inteligências Múltiplas e Inteligência Emocional

Fronteiras da inteligência?

O que é ser inteligente ou ter inteligência? Quais as fronteiras e intersecções entre a inteligência e a personalidade ou o comportamento, por exemplo? Como funciona a relação entre aprendizagem e inteligência? Inteligência é igual ao QI? Existem inteligências diferentes? Que raio é Fator G? Inteligência tem a ver com genes ou com o ambiente? A máquina é inteligente? E os animais?

Antes de tudo…

Você é inteligente? Claro que é!

Definir a inteligência não é fácil. E olha que esse é um tópico estudado pelas ciências há vários séculos. No texto de hoje, busco articular pontos referentes ao tradicional estudo da inteligência em psicologia (testes, psicometria e QI, por exemplo), juntamente com teorias contemporâneas de compreensão, investigação e intervenção sobre essa (Inteligências Múltiplas e Inteligência Emocional).

Avaliação da inteligência

Com a investigação da temática, surgiu uma série de definições/conceitos sobre a inteligência enquanto objeto de estudo da psicologia e outros tantos testes foram criados para avaliar/medir aquilo que se entendia por inteligência. Antes de prosseguirmos, é importante frisar que falo de testes psicológicos, isto é, procedimentos que passaram por experimentações, validações e adaptações (a depender da região e população estudada). Portanto, tratam-se de ferramentas de uso do psicólogo, que segue um manual protocolo padronizado de aplicação/interpretação e busca controlar o setting, a nível de evitar perturbações ou estímulos que possam prejudicar ou que não sejam adequados ao procedimento em questão.

Os testes psicológicos costumam ser divididos em duas principais categorias, os testes de inteligência e os testes de personalidade (projetivos), sendo que, os testes de inteligência encontram-se em uma subárea de estudo da psicologia, chamada psicometria.

“Etimologicamente, psicometria representa a teoria e a técnica de medida dos processos mentais, especialmente aplicada na área da Psicologia e da Educação. Ela se fundamenta na teoria da medida em ciências em geral, ou seja, do método quantitativo que tem, como principal característica e vantagem, o fato de representar o conhecimento da natureza com maior precisão do que a utilização da linguagem comum para descrever a observação dos fenômenos naturais”. (Pasquali, 2009, p. 992)
E é por meio de números, proporções, estatísticas e por esse tipo de medida que a psicologia costuma se debruçar sobre o campo da inteligência e os mais conhecidos testes são:
  • Escala Binet-Simon de inteligência;
  • Escala de Stanford-Binet;
  • WAIS – Escala Wechsler para Adultos;
  • WISC – Escala de Inteligência Wechsler para Crianças;
  • Matrizes Progressivas Coloridas de Raven;
  • Escala de Maturidade Mental Colúmbia.
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(Imagem: CC)

QI e Fator G

O QI é a famosa sigla para Quociente de Inteligência (desenvolvido por Alfred Binet) e diz respeito à uma pontuação média obtida após um procedimento de avaliação da inteligência. Essa média é obtida pela equação QI = Idade mental/idade cronológica x 100 e guarda forte relação com o chamado Fator G.

Fator G significa fator geral de inteligência, é mapeável por meio de testes psicológios e diz respeito a um número que representa a facilidade ou dificuldade, por assim dizer, que alguém tem para realizar uma tarefa. Esse conceito tenta explicar boa parte da inteligência e foi desenvolvido, primeiramente, por Charles Spearman, que considerava esse fator como representante de cerca de 70% da inteligência de alguém. A vantagem do fator G, em comparação ao QI, é que ele é extraído a partir de um conjunto variado e misto de testes.

Falar de inteligência, é falar também de fatores específicos, habilidades específicas, competências ou inteligências múltiplas.

(Howard Gardner. Imagem: CC)

Inteligências Múltiplas (IM)

Crítico à mensuração da inteligência, ao QI e à visão de um fator de inteligência superior aos demais, na década de 1980, o psicólogo Howard Gardner, lider de uma equipe de investigadores da Universidade de Harvard, propõe a teoria das Inteligências Múltiplas. Visão essa que apontou 7 (e depois 8) conjuntos de capacidades, relativamente, independentes.

Conheci essa teoria na época da graduação em psicologia e pude trabalhar com ela por aproximadamente 6 meses, por meio de oficinas em um abrigo para crianças na região da Mooca. Foi muito interessante, pois as crianças nunca haviam ouvido falar de várias inteligências e, em resumo, aquelas que se consideravam “burras” (e pautadas na relação tradicional entre ensino e aprendizagem), após os encontros, descobriram uma série de aptidões, interesses, habilidades individuais e recuperaram parte da autoestima, ao passo em que se viram como inteligentes. Foi óbvio que as oficinas, as reflexões e as dinâmica propostas não só ajudaram no desenvolvimento do Eu, como refletiram na harmonia geral do grupo.

As inteligências apontadas por Gardner são:

  • Lógico-matemática;
  • Linguistica;
  • Musical;
  • Visual-espacial;
  • Corporal-cinestésica;
  • Interpessoal;
  • Intrapessoal;
  • Naturalista (a última acrescentada à lista).

Como o conceito de cada uma das listadas inteligências merece um texto próprio, farei-o, no futuro, juntamente com sugestões de exercícios para desenvolver cada uma delas.

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(Daniel Goleman. Imagem: CC)

Inteligência Emocional (IE)

Na listagem de Gardner, encontramos a inteligência interpessoal e também a inteligência intrapessoal – são as chamadas inteligências pessoais e uma aponta para a relação consigo mesmo, enquanto a outra aponta para a relação com o(s) outro(s), respectivamente.

Um autor que desenvolveu e elevou, ao meu ver, as inteligências pessoais à um novo nível, foi o psicólogo Daniel Goleman – um dos desenvolvedores do conceito de inteligência emocional.

Atualmente, esse é o tema que mais tenho estudado e o conheci por meio do meu contato com a psicologia das emoções. Foi analisando expressões faciais emocionais dos outros e de mim mesmo, observando respostas emocionais externas e internas, estudando comunicação, desenvolvendo a atenção e a consciência que comecei a compreender a inteligência emocional e sua importância. Costumo dizer que a inteligência emocional é mais do que regular as emoções: é desenhar a curva do próprio movimento – é estar no controle. Sendo assim, ela envolve, principalmente, autoconhecimento; controle emocional; compreensão dos outros; controle das relações; e autorresponsabilidade.

“A inteligência acadêmica pouco tem a ver com a vida emocional. Os mais brilhantes entre nós podem afundar nos recifes de paixões desenfreadas e impulsos desgovernados; pessoas com altos níveis de QI são às vezes pilotos incompetentes de suas vidas particulares”. (Goleman, 1995 ,p. 46)

Goleman fala muito de cérebro, busca traçar relações entre a sua teoria e as descobertas da neurociência, apresenta o QE (quociente emocional) e nos mostra que, por meio da plasticidade neural e de projetos de estimulação relatados, é possível desenvolver a inteligência emocional em qualquer idade.

Ele também divide as competências emocionais em sociais (relacionada à inteligência interpessoal de Gardner) e pessoais (relacionada à inteligência intrapessoal de Gardner), sendo que foram apontadas 5 categorias principais que dizem respeito à inteligência emocional, e estas são: autoconsciência; autocontrole; consciência social; gestão de relacionamento; e automotivação/performance.

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(Imagem: CC)

Considerações finais: psicologia positiva e o papel do psicólogo

Sem muito espaço para dialogar e auxiliar as teorias que foram desenvolvidas antes, as IM e a IE ganham mais força na chamada psicologia positiva, que é um ramo da psicologia científica que não se preocupa em tratar patologias ou amenizar o sofrimento, de forma remediativa (em comparação com as abordagens tradicionais que focam muito mais na doença, no sintoma, na “loucura” e em seu tratamento), mas visa aprimorar as faculdades saudáveis do indivíduo e promover mais qualidade de vida à ele (seja qual for a esfera da vida). Isso, pois a psicologia positiva estudou as pessoas extraordinárias, bem-sucedidas, que conseguiram grande feitos e que levam uma vida, além de harmônica, próspera.

Ao estudar o que torna alguém feliz, a psicologia positiva pôde relatar que não são os fatores externos (carro, casa, formação, relacionamento…) que são responsáveis pela felicidade, isto é, não se pode prever, a longo prazo e de forma precisa, o estado de felicidade de alguém, com base naquilo que ela tem (estatísticas perto de 10% de precisão), mas observando as motivações internas de alguém e como o seu cérebro processa o mundo, pode-se chegar aos 90% de certeza de que essa pessoa será feliz ou infeliz. Hoje sabemos que o cérebro se reorganiza e cria novas conexões durante toda a vida, e esse espaço de reprogramação tem sido bem aproveitado por essa linha da psicologia, que tem transformado, positivamente, a vida de milhares de pessoas.

No vídeo abaixo, Shawn Achor, professor do curso de psicologia positiva de Harvard, mostra porque apenas 25% do sucesso de alguém é influenciado pelo seu QI e porque 75% são decorrentes de otimismo, suporte social e capacidade de ver o estresse como desafio (e não como ameaça), por exemplo. (legendas em português disponíveis)

Sendo assim, ao invés de avaliar e diagnosticar “indivíduos retardados” (como a psicologia fez por muito tempo), ou propor programas de reabilitação, ou aplicar testes de psicodiagnósticos, ou realizar tarefas de recrutamento e seleção, por exemplo, novas possibilidades, naquilo que diz respeito à promoção de saúde, emergem para o psicólogo contemporâneo e estão diretamente relacionadas com o desenvolvimento das faculdades emocionais. E é com essa visão, que um psicólogo do esporte, por exemplo, vai trabalhar a estimulação das competências necessárias para os atletas de alto rendimento atingirem a meta definida. Em muitos casos, vai começar, justamente, auxiliando na avaliação do estado atual (na consciência) e no estabelecimento adequado da meta, sendo que, se esse trabalho emocional for bem feito, o atleta, ainda que criticado pela torcida/mídia e/ou perdendo a competição, ou seja lá qual for a circunstância adversa, conseguirá manter o foco e alcançar a performance ideal.

Quer saber mais

Inscreva-se já para o próximo curso presencial de Introdução à Psicologia das Emoções. Mais informações: http://cicem.com.br/cursos/introducao-psicologia-das-emocoes-sp/

Referências consultadas

Gardner, H. (2000). Inteligência: um conceito reformulado. Rio de Janeiro: Objetiva

Goleman, D. (1995). Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva.

Pasquali, L. (2009). Psicometria. Rev Esc Enferm USP. 42. pp. 992-999.

Walton, D. (2017). Inteligência emocional: um guia prático. Porto Alegre: L&PM

 

Por Caio Ferreira