Quem Foi Charcot? (Sobre a Histeria)

Quem foi? O que fez? E qual sua importância para a Psicologia?

(Figura 1 – Charcot – Imagem em Domínio Público)

Jean-Martin Charcot foi um médico psiquiatra e neurologista francês, que viveu entre 1825 e 1893 e, apesar de ter realizado grandes pesquisas e ser considerado o fundador da moderna neurologia, é geralmente, mais associado pelas pessoas, de uma forma geral, aos temas da hipnose ou algo relacionado ao “tratamento dos loucos”.

Mais conhecido como Charcot (ou Dr. Charcot), este médico realizou diversas investigações sobre a histeria e sobre o tratamento dos sintomas por meio do método hipnótico e, sem abordar outras de suas contribuições, o seguinte texto procurará discorrer sobre estes dois principais pontos, que são de fundamental importância histórica e técnica para a psicologia e, em especial, para a psicanálise.

A Histeria

É importante conceituar o que se entende por histeria, haja visto que esse é um tópico fundamental na psicologia e que o mesmo já passou diversas e distintas perspectivas. Em resumo, é um termo antigo, derivado da palavra grega correspondente a “útero” e referido ao médico grego Hipócrates (± 400 a.C.), que designava uma condição médica particular associada a alguma perturbação no útero, ou seja, uma desordem essencialmente feminina.

Bem mais adiante, estudos datados de 1662, realizados pelo médico inglês Thomas Willis (1621-1675), concluíram não haver indícios de patologias uterinas, após realização de autópsias em pacientes consideradas histéricas. Durante o século XIX e com grandes relatos em alguns pontos da Europa, muitos pacientes (a maioria mulheres) apresentavam sintomas diversos como: paralisia de membros do corpo; afasias (distúrbio da linguagem); fobias (distúrbio da ansiedade); amnésias (distúrbio da memória); cegueira (distúrbio da senso-percepção) e alguns mais que eram subitamente manifestados e, ao serem examinados pelos médicos, as causas naturais, orgânicas ou fisiológicas não eram encontradas. Isto fez com que a comunidade médica, de uma forma geral, nutrisse um certo preconceito ao tipo de quadro – denominado de histeria – e atribuísse os tais sintomas à atuação de alguém querendo atenção, por exemplo, e recusando-se a tratar ou curar aquele que relatava esse tipo de sofrimento. E, parênteses, não é raro, ainda nos dias atuais e principalmente naquilo que diz respeito ao conhecimento do senso-comum, ouvir chamarem de histérica aquela personagem que atua de forma exagerada e/ou que “faz drama” desnecessário.

Charcot fez diferente. Observou inúmeros casos no hospital parisiense Salpêtrière, onde foi inclusive Diretor, e buscou compreender as Leis da Histeria, defendeu a busca por causas biológicas associadas ao quadro e utilizou o método hipnótico como recurso de tratamento, sendo assim, desacreditado por seus contemporâneos, mas chamando a atenção de um médico de Viena, conhecido por Sigmund Freud (1856-1939). “No surto (histérico)…tudo se desenrola de acordo com as regras, que são sempre as mesmas; válidas para todos os países, todas as épocas, todas as raças e, em resumo, universais”.

(CHARCOT, 1882 apud COLLIN, 2012, p. 30)

O quadro abaixo foi pintado em óleo por André Brouillet (1857-1914) no ano de 1887, retrata uma demonstração clínica feita por Charcot a um grupo de estudantes de pós-graduação em medicina, é referenciado como um dos melhores quadros da história da medicina e, atualmente, está em um corredor na Universidade Descartes de Paris.

Charcot Histeria Hipnose - Une_leçon_clinique_à_la_Salpêtrière
(Figura 2 – Une leçon clinique à la Salpêtrière – André Brouillet, 1887)

Pós Charcot, a histeria foi objeto de estudo intenso da psicanálise (freudiana e pós-freudiana) e da psicologia. Para a psicologia e psiquiatria clínicas, os sintomas histéricos citados são relacionados ao chamado Transtorno de Conversão (TC), que aponta para esta somatização, isto é, o aparecimento no corpo, de sintomas significativos sem causas físicas relacionadas, enquanto que, para a psicanálise, o termo ganha a até condição de estrutura clínica, quando buscamos a ótica do francês freudiano Jaques Lacan (1901-1981), visão essa que merece ser explicada em um próximo texto próprio. Para já, fica este trecho de definição, sobre a histeria, encontrado no Vocabulário da Psicanálise (1992) de Laplanche e Pontalis:

“Classe de neuroses que apresentam quadros clínicos muito variados. As duas formas sintomáticas mais bem identificadas são a histeria de conversão, em que o conflito psíquico vem simbolizar-se nos sintomas corporais mais diversos, paroxísticos (exemplo: crise emocional com teatralidade) ou mais duradouros (exemplo: anestesias, paralisias histéricas, sensação de “bola” faríngica, etc.), e a histeria de angústia, em que a angústia é fixada de modo mais ou menos estável neste ou naquele objeto exterior (fobias).”

(LAPLANCHE & PONTALIS, 1992, p. 211)

A Hipnose

Ao utilizar a hipnose, Charcot ficou associado à muitas exibições públicas rotuladas de charlatanismo, por aqueles que desconfiavam do método e chegando a ser acusado de induzir, por via da hipnose, alguns dos sintomas de seus pacientes, enquanto crítica daqueles que compreendiam o caráter sugestionável desta técnica. Sobre isso, vale frisar as palavras de Peter Gay (1988), biógrafo de S. Freud: “[Freud] havia reconhecido que a histeria – ao contrário de todas as ideias tradicionais – aflige tanto os homens quanto as mulheres. E ainda mais ousado, Charcot resgatara a hipnose das mãos dos curandeiros e charlatães, para aplicá-la de modo consequente no tratamento de doenças mentais.”

(GAY, 1988, p.61)

Em resumo, a demonstração funcionava mais ou menos da seguinte forma:

  • Charcot selecionava um paciente histérico sintomático;
  • Ele colocava o paciente em transe/estado hipnótico;
  • Enviava comandos para remover o sintoma;
  • O sintoma era removido;
  • O paciente era retirado do transe e não apresentava mais o sintoma de quando chegou.

Freud – o pai da psicanálise – viu na hipnose um grande meio para se estudar e acessar o inconsciente humano, além de uma poderosa técnica de cura. Sobre este período de sua carreira, Ana Bock e outros (1999) apontam:

“Começou, então, a clinicar, atendendo pessoas acometidas de ‘problemas nervosos’. Obteve, ao final da residência médica, uma bolsa de estudo para Paris, onde trabalhou com Jean Charcot, psiquiatra francês que tratava as histerias com hipnose. Em 1886, retornou a Viena e voltou a clinicar, e seu principal instrumento de trabalho na eliminação dos sintomas dos distúrbios nervosos passou a ser a sugestão hipnótica”

(BOCK et al., 1999, pp. 70-71)

  Fica também um trecho complementar encontrado no livro biográfico Freud: uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay (1988):   “A hipnose não era uma novidade absoluta para o Freud de 1885. Como estudante de medicina, ele já havia se convencido de que, apesar de sua fama desagradável, o estado hipnótico era um fenômeno autêntico. Mas era gratificante ver Charcot confirmar aquilo em que ele já acreditava largamente, e impressionante observar o que acontecia com os pacientes de Charcot durante e depois das hipnoses.”

(GAY, 1988, p. 61)

É importante dizer que o próprio Freud vai abandonar o método hipnótico com o avanço de seus trabalhos, ao passo em que começa a notar que nem todas as pessoas conseguiam ser hipnotizadas, que os sintomas removidos reapareciam depois de um tempo e também por conhecer Joseph Breuer, Bertha Pappenheim e o método catártico, assunto este, que também merece um próximo e próprio texto.

As principais contribuições de Charcot, sobre os pontos acima, podem ser encontradas nas suas seguintes obras: Leçons sur les maladies du système nerveux, em 5 vol., publicados de 1872 a 1883 e 1885-1887; e Sur les divers états nerveux déterminés par l’hypnotisation chez les hystériques, datado de 1882.

Referências Consultadas

ALONSO, S. L. & FUKS, M. P. (2004). Histeria. In Flavio Carvalho Ferraz (Org.) Coleção clínica psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo.

BOCK, A. M. B., FURTADO, O. & TEIXEIRA, M. L. T. (1999). Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Editora Saraiva.

COLLIN, C., BENSON, N., GINSBURG, J., GRAND, V., LAZYAN, M. & WEEKS, M. (2012). O livro da psicologia. São Paulo: Globo. GAY, P. (1988). Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras

PONTALIS, J. B. & LAPLANCHE, J. (1992). Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

Por Caio Ferreira

 

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