Fenomenologia e Psicopatologia

Você já parou para pensar o que é psicopatologia? Atualmente, esse termo tornou-se um pouco mais comum entre nós, porém, é fundamental esclarecer o verdadeiro significado dele. Segundo o autor Dalgalarrondo ao recorrer ao pensamento do pesquisador Campbell a psicopatologia é um ramo da ciência que trata da natureza essencial das doenças mentais, na qual busca estudar as causas, mudanças estruturais e funcionais que afetam e alteram as cognições dos sujeitos que são acometidos por elas e podem vir a ser associadas a vários tipos de transtornos com algumas formas distintas de manifestação. Em outras palavras, a psicopatologia pode ser definida como um conjunto de saberes que referem-se ao adoecimento mental do ser humano. 

A psicopatologia clássica volta o seu olhar para o sintoma e suas causas, elencando uma série de sintomas que são utilizados como base para poder certificar o fator pré-determinante para classificar uma doença mental, em outras palavras, a metodologia clássica está voltada para a doença e não para o doente. Contrapondo este ponto fundamental, a psicopatologia fenomenológica propõe reflexões fundamentais e busca compreender o sujeito em sua totalidade, considerando suas particularidades de maneira clara, além de compreender também todos os aspectos psíquicos e físicos que afetam o indivíduo em questão.

Uma das referências modernas em psicopatologia é Karl Jaspers, que entende essa ciência como auxiliar a psicologia clínica e a psiquiatria, e tece alertar importantes sobre como não se deve usar o conhecimento desta para padronizar ou apenas classificar levianamente os indivíduos. Jaspers propõe que não se deve reduzir o homem aos conceitos da psicopatologia, utilizando até a famosa frase “nosso tema é o homem todo em sua enfermidade”, para evidenciar a importância de se destacar o homem enquanto subjetividade e vivência e não impor o conceito patológico a este. Dessa forma, é importante saber até onde podemos ir pelo caminho das classificações e como o indivíduo não pode ser esquecido.

O que se pretende quando falamos sobre psicopatologia fenomenológica é estabelecer um caminho para a compreensão do sofrimento emocional a partir de um olhar não padronizado, como vemos na psicopatologia clássica, e sim valorizar a vivência do indivíduo frente ao que se apresenta como sofrimento, e até o lugar ocupado por este sofrimento ou angústia como parte do processo existencial, conforme explica Karwowski:

Isso posto, posso concluir que a psicopatologia fenomenológica revela, em última instância, as condições precárias do próprio estudioso; não mais pela ausência de garantias que a detenção do conhecimento psicopatológico poderia oferecer contra a ocorrência das psicopatologias no próprio estudioso, pois essas garantias o mero estudo da psicopatologia clássica já havia feito ruir; mas pelo fato de revelar naquela normalidade segura que se supunha habitar (livre de angústias, temores e sofrimentos) a própria angústia, o temor e o sofrimento, não como estruturas supostamente psicopatológicas, mas como elementos ontológicos, logo, inarredáveis da existência humana.  

O caminho aqui é aquele que se molda a partir do cliente, podemos estabelecer que partimos da redução fenomenológica, como o processo dar valor às experiências da pessoa em relação a queixa então apresentada, é aproximar-se do fenômeno com os olhos de quem te procura e não com uma verdade já pré-estabelecida.

Parte importante da ideia de uma compreensão fenomenológica da psicologia e psicopatologia é entender o conceito de intencionalidade, em nossa relação como mundo, atribuímos sentido às coisas, as pessoas e ao sofrimento, este entendimento é vital para um direcionamento do existencial fenomenológico no contexto das psicopatologias. 

Temos aqui então a compreensão de que a psicopatologia é uma vital área das ciências voltadas a saúde mental, estabelece leis e padrões que auxiliam a melhor conhecer e tratar os diversos fenômenos psicopatológicos que podem envolver cada ser humano, ao passo que não podemos deixar de olhar para a individualidade ao expor essa pessoa a esses conceitos. O que a fenomenologia nos propõe é pensar o homem a partir dele mesmo e não do conceito pronto e redutivo que pode ser as classificações mentais.

Referências:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. São Paulo, 2008. 


Karwowski, Silverio Lucio. Por um entendimento do que se chama psicopatologia fenomenológica. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rag/v21n1/v21n1a07.pdf. Acesso em 11/08/2021.

FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia fenomenológica: fundamentos, método e pesquisa. São Paulo : Pioneira Thomson Learning, 2002.

KARWOWSKI, Silverio Lucio. Por um Entendimento do que se chama Psicopatologia Fenomenológica. Revista da Abordagem Gestáltica – Phenomenological Studies – XXI(1): 62-73, jan-jun, 2015

Por: 

Psi. Rauane Monte Mor

Instagram: @rauanemor.psi 

e Patrício Lauro

É possível conversar e aprender racionalmente durante o Sonho? Sonhos Lúcidos e a Interação com o Mundo Externo.

Você não deve conhecer esta palavra, mas provavelmente deve conhecer (ou temer) o que ela representa: soniloquismo — ou falar enquanto dorme — é uma manifestação normal da atividade cerebral. Por isso, é considerado um distúrbio do sono benigno, ou seja, que não costuma indicar nenhum tipo de doença grave.

Muita gente morre de medo do que pode ser dito durante o sono. Principalmente as crianças, adolescentes e os casais. Uma vez que toda a nossa privacidade está concentrada ali. Já pensou se nem isso pudéssemos esconder de nossos pais ou pares?

Já sabemos através deste e deste artigo que os Sonhos representam uma parte de nossa atividade psíquica que não pôde ser completa ou parcialmente realizada, simbolizada e/ou significada durante nossa vida em vigília. Ou ainda aquela que gerou algum tipo de impacto direto ou indireto em nossos eternos conflitos entre as imposições da realidade e o ímpeto de buscar realização e/ou satisfação de nossa vida.

Inclusive foi possível perceber o porquê de estarmos sonhando mais durante o início da quarentena, imposta pela pandemia, neste texto aqui. Fato que não era difícil de se imaginar acontecendo, uma vez que nossas liberdades de movimento, de satisfação sexual, de lazer e conexões interpessoais foram amplamente cerceadas, interditadas por uma real ameaça à vida – própria e alheia. Não seria tão surpreendente que a gente encontrasse um cantinho só nosso para beber alguns pingos de todas aquelas necessidades necessariamente reprimidas.

Enfim, não é atoa que dá um medinho ser descoberto por tudo isso numa posição totalmente desprevenida. Mas o alívio de muita gente é que raríssimas vezes o que é falado nessas tem algum sentido para quem escuta ou sequer é lembrado por quem sonha. E algumas pessoas, mesmo que acordadas por alguns instantes, se voltarem a dormir sequer terão conhecimento de qualquer interação ali realizada. Mas existiria alguma forma de tornar este diálogo mais consciente?

Seria possível interagir durante um sonho?

Contudo, apesar de muitas pessoas falarem (e temerem o que é dito) durante o sono, é muito comum que haja apenas uma verbalização irracional de um fragmento do sonho. Um processo completamente inconsciente, que só se encontraria sentido a partir de extensa análise metafórica e metonímica dos significados ali presentes. No entanto, os cientistas da equipe do Dr Ken Paller, da Universidade Northwestern (Northwestern University), localizada em Evanston, no estado de Illinois, nos Estados Unidos realizaram um estudo com pessoas consideradas “sonhadores lúcidos – aquelas que durante um sonho alegam saber que aquilo é um sonho de fato, podendo algumas até controlar/escolher o que acontece ali – questionando exatamente isso: É possível conversar e aprender racionalmente durante o Sonho?

Seria possível aprender, interagir, obedecer ou até raciocinar a partir do que é introduzido por quem está “do lado de fora” daquele nosso pequeno e gigante parque de realizações privadas?

O Estudo

Conforme já sabemos, todos nós sonhamos. Podemos até não lembrar de nossos sonhos, mas sonhamos. E não estamos sozinhos nessa: do cachorro ao elefante, os animais também compartilham deste resquício de pensamentos que se transformam em imagens durante o descanso de nosso organismo.

A própria neurociência acredita que os sonhos ajudam no nosso processamento de memórias, inclusive aquelas que não temos mais acesso de prontidão. E como as memórias, os sonhos também não nos são de total acesso. Sabemos apenas a parte que lembramos, que por si só pode não ser mais tão completa. E esta foi uma das barreiras que os cientistas também encontraram no estudo, já que ficaram à mercê de dois fatores: os participantes, ou sonhadores, assim como nós, não podiam fala propriamente e diretamente com ninguém durante o sonho, relatando-o em tempo real; bem como sobraria aos pesquisadores o relato não necessariamente confiável daqueles que despertaram do sonho.

Mas antes de chegarmos diretamente a pesquisa, é preciso conhecermos um pouco mais sobre o sono e suas características, uma vez que a pesquisa aconteceu em um momento específico deste fenômeno que nos permite reorganizar o corpo e a mente.

Os Estágios do Sono

Estágio 1

Adormecimento: é aquele momento de transição entre a vida de vigília e seu final, que dá lugar ao sono. Sua duração cerca os 15 minutos e é introduzida a partir de algum tipo de relacionamento. É preciso reduzir o nível de alerta para que os músculos relaxem e a respiração fique mais leve.

Estágio 2

Sono leve: neste estágio os estímulos externos começam a se tornar cada vez mais irrelevantes para o cérebro. Alguém tocar em você não necessariamente irá despertar uma resposta, bem como os barulhos (leves ou intensos, variando de acordo com a personalidade) passam a ser ignorados. Seus batimentos cardíacos estarão cada vez menos intensos e o corpo terá uma temperatura menor do que no estado de vigília. É como se aqui o corpo se preparasse para o sono profundo.

Estágio 3

Assim como no estágio um, aqui há mais um momento de transição. Mas desta vez, ao invés de partir do estado de vigília para o estado de sono, é uma transição entre o sono leve e o sono profundo, com uma considerável redução da atividade cerebral somada a um relaxamento muscular.

Estágio 4

Sono Profundo: aqui é onde descansamos de fato. Apesar de não haver uma cessão da atividade cerebral, seus níveis mais baixos encontram-se neste momento. Há aqui uma regeneração celular e liberação do hormônio do crescimento, por exemplo. Aqui o corpo se revigora. É onde ocorre a reconstrução de fibras musculares rompidas em um treino de musculação, por exemplo. A sensação de que uma noite de sono foi “mal-dormida” está amplamente ligada à capacidade de adentrar ou permanecer neste estágio.

Sono REM

A equipe de Ken Paller começou do ponto de que os sonhos lúcidos estariam associados a um estágio específico do sono, chamado de sono REM, cuja sigla significa Rapid Eye Movement (movimento rápido dos olhos). Neste estágio, que ocorre logo após a etapa do sono profundo, há uma atividade cerebral quase tão intensa quanto no estágio de vigília. Com movimentos musculares, liberação de hormônios e até raciocínio lógico. Este é o berço da vida onírica tão acalmada por Freud.

Pesquisa, Método e Resultados

Pesquisas já apontam que estímulos externos podem sim, ter influência nos sonhos que temos. Mas a pesquisa em questão, publicada na revista Current Biology, procurou saber se era possível “encontrar” estas pessoas no sonho e obter respostas.

Dr. Paller e seus colegas, também cientistas, da França, Holanda e Alemanha, reuniram 35 voluntários já treinados a terem consciência de seus estados mentais – exatamente para que soubesse distinguir se estariam acordados ou em um sonho. Não seria errado, ou um chiste ruim, dizer que este sim, é o verdadeiro Dream Team.

Eles também foram treinados a realizarem movimentos distintos para a esquerda/direita com os olhos, tanto para indicar se estavam acordados ou em um sonho, como para responder as questões que seriam feitas. Eles também praticaram a identificação de números, transmitidos como flashes de luz, toques no braço ou até através de palavras que lhes seriam ditas. Observe na imagem abaixo, retirada diretamente da pesquisa:

Tradução (da esquerda para a direita):
[estímulos oferecidos ao voluntário]
(Caixa de som): palavras ditas, barulhos de beep (“pi, pi”); luzes piscando; estímulos táteis.

[respostas emitidas pelo voluntário]
(Desenho de um rosto com eletrodos): Movimentos oculares, contrações dos músculos da face

Após o treino e as orientações, os voluntários foram conectados a eletrodos e colocados para dormir. Para estabelecer contato, os pesquisadores tocavam o som e aguardavam a resposta através de um sinal ocular. Bem como, conforme combinado, os participantes também enviavam alguns sinais oculares em momentos específicos. Assim que era confirmado que o contato havia sido estabelecido, os pesquisadores começaram a fazer as perguntas.

Resultados

Agora acordados, os voluntários relataram que as perguntas eram incorporadas aos seus sonhos, como se tivesse agora se tornado parte destes. Um deles relatou escutar uma destas perguntas através do rádio do carro que dirigia, outro disse que os flashes de luz apareciam como se fosse uma luz piscando, numa espécie de farolete. Uma das perguntas numéricas, inclusive aparecia como o número de uma casa na rua em que se passeava pelo sonho.

Tradução:

[PESQUISADOR PERGUNTOU DURANTE O SONHO]: Você fala espanhol?

[VOLUNTÁRIO APÓS O EXPERIMENTO]:
“Eu estava em uma festa com amigos e sua voz estava vindo do lado de fora, como o narrador de um filme. E eu decidi responder que não [através de contrações nos músculos faciais].

Entretanto, para a loucura dos pesquisadores, ocasionalmente alguns participantes traziam à tona problemas de matemática diferentes daqueles que lhe foram proposto. Mas a parte surpreendente é que: antes, eles haviam respondido corretamente através dos movimentos oculares!

Tradução:

[VOLUNTÁRIO APÓS O EXPERIMENTO]:
“Quando as luzes começaram a piscar, eu reconheci isso como um sinal de Código Morse e contei ºººº -º–º —– e relatei a resposta “4” com sinais pelo olhar”

Mas o método ainda pareceu um pouco controverso, uma vez que os participantes disseram que em apenas 26% das sessões foi possível obter um sonho lúcido. E deste grupo, 47% respondeu de forma correta ao menos uma das questões colocadas.

Tradução:
[VOLUNTÁRIO RELATANDO]
“Enquanto eu sentia alguém me cutucando eu estava lutando com duendes do mau (goblins). E então eu lembrei e fiquei surpreso que eu era capaz de fazer tantas tarefas ao mesmo tempo”

Apesar de ser um estudo preliminar, algo foi provado: a comunicação com pessoas que estão sonhando não pode ser considerada 100% improdutiva.

As principais conclusões, afinal, não são tão diferentes daquilo proposto por Freud, em A Interpretação dos Sonhos, (veja aqui e aqui), de que:

  • Os relatos dos sonhos dados por alguém em um estado de vigília são frequentemente fragmentados e distorcidos;
  • É possível que alguém em um sonho receba uma mensagem de fora e está seja incorporada ao sonho.

E a novidade foi que: em alguns casos, quem está sonhando é capaz de responder em tempo real à perguntas feitas por quem está acordado, mesmo que seja appenas perguntas de “sim” ou “não”.

Quem sabe os próximos pesquisadores não tenham noções que nos deixem mais felizes quanto a este assunto no futuro? Aliás, não necessariamente todos ficariam mais felizes, é preciso dizer.

Referencia para a pesquisa na íntegra (em inglês):

Konkoly et al., 2021, Current Biology 31, 1417–1427
April 12, 2021 ª 2021 The Authors. Published by Elsevier Inc.


Bons sonhos!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

AUTOCUIDADO, A VACINA PARA PREVENÇÃO E MANUTENÇÃO DA SAÚDE MENTAL

Há mais de um ano em cenário de pandemia. E há mais de bilhares de anos, os indivíduos vivenciam diferentes situações de mudanças, perdas, catástrofes e revoluções. Se considerar na História da Humanidade o período de evolução inicial, os períodos de guerras, navegações, escravidão e de epidemias anteriores, será possível se dar conta do quanto foi e é exigido do Homem uma série de capacidades psicológicas.

Se seguir reparando a história da evolução humana, será possível perceber quanto sofrimento e situações estressoras o Homem já suportou. E ainda segue suportando, claro!

Atualmente, além de haver o contexto da pandemia, há uma série de particularidades ocorrendo, como: mudanças climáticas, corrupções políticas, dificuldades financeiras, violências, perdas pertinentes aos óbitos e adoecimentos variados. E como seguir dando conta do viver em meio as tantas informações e tantos caos?

Mais do que nunca, parece que o autocuidado se tornou mais necessário. Afinal, guerras particulares ocorrem com frequência, intensidade e em quantidade. Se trata da subjetividade de cada indivíduo adoecendo através do excesso de cobranças, informações, comparativos, afazeres, exigências, regras e constantes mudanças.

Excessos estes acima que podem levar a falta. Falta de tempo, falta de disposição, motivação, libido, diversão, estado de relaxamento, apetite, sentido de vida, confiança e outros. Mas no meio disso tudo, a única coisa que não pode faltar, mas que tende a ocorrer, é a falta de cuidado.

Autocuidado é a vacina da década! Ele é o recurso necessário para preservar a integridade da saúde física, mental, emocional, espiritual e relacional. Ele é a muleta necessária para fortalecer a resiliência, aliada este do Homem durante toda a evolução.

O autocuidado é para cuidar da vida, dos afazeres, dos problemas, dos relacionamentos, das finanças, dos sentimentos, dos anseios, dos sonhos, da doença e da responsabilidade de viver.

Para cuidar de si é preciso aproximar-se de si mesmo. É preciso reparar os limites, as necessidades, as dificuldades, os recursos de ajuda disponíveis, os desejos e também as próprias capacidades. Cuidar de si é um trabalho diário! É a atenção à relação mais importante que existe na vida, que é do ser consigo mesmo.

E para finalizar, um pedido e um bocado de dicas. Se cuide! Uma tarefa talvez um pouco difícil, mas possível e precisa. Além de protetiva e preventiva. Diga “SIM” ao autocuidado!

O bocado de dicas, conforme mencionado acima:

  • se exercite. No seu tempo, no seu ritmo e ao seu gosto
  • faça exames regulares
  • preserve seu descanso e seu sono
  • se relacione
  • pratique hobbies
  • mantenha a alimentação equilibrada
  • reserve momentos para passar um tempo sozinho(a)
  • pense e reflita sobre suas atitudes e emoções
  • se organize
  • se reconheça e se valorize
  • se aproxime dos seus recursos e redes de apoio
  • respeite seus limites

E por último, mas não menos importante:

  • FAÇA TERAPIA, caso você se identifique com a proposta dela

Aproveite este gesto de incentivo ao autocuidado e procure um profissional da Sociedade dos Psicólogos.

Por Tayna Wasconcellos Damaceno

REFERÊNCIAS:

BLAINEY, Geoffrey. Uma Breve História do Mundo. Ed. 3. São Paulo: Fundamento, Julho de 2015.

Covid: saúde mental piorou para 53% dos brasileiros sob pandemia, aponta pesquisa. BBC News, 2021.

Disponível aqui. Acesso em 31/07/2021.

HARARI, Yuval N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Ed.1. Porto Alegre: L&PM, Março de 2015.

PASSOS, Letícia. Pesquisa mostra que 86% dos brasileiros têm algum transtorno mental. Veja, 2019.

Disponível aqui. Acesso em 31/07/2021.

Mulheres na fenomenologia brasileira

Dicas de livros na abordagem fenomenológico-existencialista

Em 2013, o Conselho Federal de Psicologia lançou o livro “Quem é a Psicóloga brasileira: Mulher, Psicologia e trabalho” e apresentou dados de uma pesquisa revelando que 88% da nossa classe é formada por mulheres. Apesar desta porcentagem significativa, a atuação de mulheres na ciência se tornou uma possibilidade muitos anos depois da dos homens. Nossa existência nessa área vem trazendo inúmeros desafios. Lidamos com estereótipos e preconceitos de diversas formas.

Uma pesquisa feita em pelo CNPQ (Conselho Nacional de desenvolvimento Científico) em 2020 aponta que, no Brasil, a presença feminina dentro das instituições de ensino diminui à medida que os estudos avançam. Ocupamos 58% das bolsas de iniciação científica durante a graduação e apenas 38% quando se consideram as bolsas de produtividade em pesquisas ( mestrado e doutorado).

Seguimos enfrentando os desafios de sermos Psicólogas brasileiras e profissionais da ciência!

Quem são as autoras e pesquisadoras da área que você têm interesse?

Alguns dias atrás troquei reflexões com um colega de profissão sobre a quantidade de autores homens e autoras mulheres que estudamos durante a graduação e desde então. Percebi que eu nunca tinha levantado este questionamento antes e gostaria de compartilhá-lo com vocês também. Vamos dar mais visibilidade para as autoras e pesquisadoras dentro da Psicologia? Convido-lhes a conhecer uma pequena amostra de obras brasileiras sobre a teoria fenomenológico-existencialista.

Psicologia fenomenológica: Fundamentos, método e pesquisa

Yolanda Cintrão Forghieri

capa do livro retirada da pesquisa no Google

Com uma extensa caminhada acadêmica e docente, Yolanda Cintrão Forghieri desenvolveu diversos trabalhos em Psicologia.

Nesta obra, apresenta de forma fluída alguns fundamentos sobre a fenomenologia e traz pontos sobre a metodologia de pesquisas na área.

Recebi a indicação deste livro como conteúdo extracurricular para revisar alguns pontos sobre a feno. A clareza de sua linguagem torna possível a assimilação sobre a apresentação das bases teóricas.

Outras obras e palestras da autora podem ser encontradas facilmente através de sites de busca.

Conversa sobre terapia

Bilê Tatit Sapienza

Capa do livro retirada de pesquisa no Google

Com uma linguagem sensível e poética, Bilê Tatit Sapienza discorre sobre o processo Psicoterapêutico dando luz a aspectos sutis e profundamente significativos. Desta maneira, a autora promove reflexões sobre o relacionamento que se dá entre terapeuta e cliente.

Meu contato com esta obra aconteceu antes do início do estágio em atendimento clínico na abordagem fenomenológica. Digo-lhes que foi uma leitura transformadora e extremamente acolhedora. Lembro-me que as discussões sobre o livro proporcionaram uma nova possibilidade de olhar para o processo psicoterapêutico.

Deixo aqui o convite para que conheçam também outras obras da autora como “Do desabrigo à confiança”(2013) e “Encontro com a Daseinsanalyse” (2015) .

Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil

Organização de Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo e Elaine Lopez Feijoo

Capa retirada do site da editora IFEN.

Publicado pela Editora Científica IFEN (Instituto de Psicologia Fenomenológico Existencial do Rio de Janeiro), este livro traz reflexões sobre o modo de ser-criança na contemporaneidade, desenvolvimento infantil, entre outros temas.

Além de Feijoo e Feijoo, outras quatro autoras estão presentes: Cristine Monteiro Mattar, Joannelise de Lucas Freitas, Débora Candido de Azevedo e Débora Gil.

Para aquelas que trabalham com crianças ou tem interesse em, fica ai a indicação!

PS: A Editora IFEN publicou diversas coleções temáticas com outros artigos de autoras mulheres.

Pesquisa em Psicologia Fenomenológico-Existencial: Interpretações do Sofrimento na Contemporaneidade

Organização de Elza Dutra e Ana Andrea Barbosa Maux

Capa retirada do site da editora

Esta obra traz um pouco do que vem sendo desenvolvido em pesquisa em fenomenologia e aborda algumas inquietações que motivaram o ingresso de Psicólogas no campo acadêmico, visando produzir conhecimento crítico.

Considerando os diversos sofrimentos da existência humana, são apresentadas temáticas como suicídio, relacionamentos amorosos, tecnologia, maternidade e relações de trabalho.

O livro pode ser encontrado em formato digital e físico no site da editora e em outras livrarias online.

Elza Dutra é Professora Titular de Psicologia Clínica Fenomenológica, orienta Mestrado e Doutorado na UFRN ( Universidade Federal do Rio Grande do Norte), além de outros títulos, e coordena um núcleo de Psicologia chamado Poiesis que desenvolve diversas atividades.

Ana Andrea Barbosa Maux desenvolveu vários estudos com temáticas envolvendo a fenomenologia, incluindo estudos sobre adoção e a relação entre masculinidade e infertilidade.

Por último

Você gostaria de deixar nos comentários o nome de alguma autora brasileira, livro ou artigo como indicação? O espaço é todo seu (:

Até mais!

Bárbara de Souza Miranda

Referências:

FORGUIERI, Y.C. Psicologia fenomenológica: Fundamentos, método e pesquisa.

SAPIENZA, B. T. Conversa sobre Terapia.

FEIJOO, A. M. C.; FEIJOO, E. L. Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil.

DUTRA, E.; MAUX, A. A. B. Pesquisa em Psicologia Fenomenológico-Existencial: Interpretações do Sofrimento na Contemporaneidade.

Todas as outras referências foram feitas nos links.

Motivação: Um mecanismo biológico que impacta nossas vidas

Falta de motivação também pode ser um problema biológico. Entenda como o ambiente alimenta um mecanismo biológico conectado a motivação e cinco dicas para a estimular em seu dia a dia.

A pandemia tem gerado inúmeras reflexões para cada um de nós. Uma delas, muito presente em discussões e estudos recentes, é a produtividade e a motivação. Que a produtividade de quem está em modelo homeoffice aumentou, não temos dúvidas. Mas, será que a motivação acompanha essa alta? E sendo a motivação tão importante para a nossa produtividade, é possível a estimular? 

Para responder essa pergunta, me peguei refletindo sobre o que é produtividade. Em qualquer busca online, encontro que produtividade “é uma relação entre o que foi produzido e os recursos empregados para se atingir tal objetivo”.

É fácil entender que, culturalmente, associa-se produtividade com a quantidade de atividades que alguém produz. E a qualidade, ou seja, o resultado daquilo que se produziu é deixado de lado ou não recebe a mesma evidência que o fator quantidade. Levando em consideração esse conceito, será que as pessoas Será que as pessoas continuarão a se motivar 

Quando estamos motivados, certamente nosso engajamento em certa atividade e produtividade aumentam, algo que podemos associar com o Estado de Flow, teoria já explicada por aqui pelo psicólogo Caio Ferreira. 

A motivação pode ser intrínseca, algo que vem de dentro de nós, e extrínseca, externo ao ser humano, aquele reforço presente no ambiente ou advindo das pessoas ao nosso redor. Seja qual for o tipo de motivação, uma dose de autoconhecimento se faz necessária para entender o que o ambiente pode nos oferecer e que irá alimentar nossa motivação

Daniel M. Cable em seu livro chamado “Vivo no trabalho”, de Daniel M. Cable, explora o conceito de motivação para além de variáveis físicas e emocionais conectadas a ela. Segundo o autor, a motivação não se restringe apenas aos nossos interesses. Há um mecanismo biológico conectado a ela, que quando compreendido e bem trabalhado pode potencializar a motivação e os resultados. 

O ser humano tem um mecanismo natural, chamado “seeking system”, ou em tradução livre “sistema de busca”. Esse modelo de comportamento e de reação neurológica faz com que sejamos motivados a explorar novos territórios para extrair significado deles e, com isso, aprendizado. Quando o sistema é ativado e a curiosidade despertada, o sistema neurológico libera um neurotransmissor em nosso corpo e células, chamado dopamina, responsável pela sensação de prazer e regulação de humor. A dopamina em conjunto com outros neurotransmissores, como a adrenalina e noradrenalina, alimenta um sistema de recompensas no corpo, como, por exemplo, o sono, a fome e o humor. 

Isso significa na prática que quando temos algo que desperta nossa atenção e curiosidade, somos impulsionados a responder esse estímulo, ressignificando o que nos é apresentado e, com isso, aumentando nosso interesse e motivação para encontrar novos estímulos que despertam novamente nossa curiosidade e liberem, novamente, as sensações de prazer em nosso corpo. 

Ideia que faz sentido e aparenta ser simples, mas difícil de ser implementada, pois não são raras as vezes em que precisamos ser produtivos (no sentido de quantitativo) e deixamos o piloto automático e a rotina tomar conta de nossos dias (a própria rotina cumpre um papel importante em nossa vida social moderna, pois nos economiza tempo e energia).

Então, o que fazer para estimular esse sistema de busca e aumentar nossa motivação?

Não existe uma receita de bolo para aumentar a motivação. Mas, se pudesse desenhar passo a passo, diria que em primeiro lugar é importante ser gentil consigo mesmo. Entender que a motivação pode estar ausente em alguns dias e se permitir dar uma folga é um passo libertador para não se cobrar tanto e evitar frustrações futuras. 

Em segundo lugar, aumentar a consciência sobre si mesmo. Isso significa entender o que te motiva e o que não motiva. Encontre um propósito para si mesmo. E ele não precisa ser algo grandioso, para a vida. Pode começar de forma tímida, levando em consideração o seu dia atual, talvez a próxima semana e com o passar do tempo se transformar em algo que tenha um horizonte maior.

Em terceiro lugar, permita-se expressar o melhor de si em seu dia a dia e com as pessoas que te cercam. Há estudos que afirmam que quando temos a oportunidade de exercitar nossos talentos e pontos fortes todos os dias, a probabilidade de obter maior satisfação com nossas entregas e desfrutar de melhor qualidade de vida aumentam em até três vezes. (Buckingham, Marcus, 2015)

Em quarto lugar, exercite olhar para o que te cerca sob uma ótica diferente do que você faria de costume. Inclua a curiosidade na sua rotina e valorize a diversidade, pois ela tem um grande poder para construir perspectivas inovadoras. 

Em quinto e último lugar, valorize a si mesmo e experimente aprender e ensinar coisas novas todos os dias. Somos eternos aprendizes e uma vez que nos reconhecemos como tais, a vida se torna uma jornada cada vez mais interessante e motivadora.  

Referências e Recomendações

Buckingham, Marcus. Descubra seus pontos fortes. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

Cable, Daniel M. Alive at work: The neuroscience of helping your people love what they do. Boston: Harvard Business Review Press, 2018.

Você conhece o Estado de Flow?

Zoom Fatigue: O que é esse esgotamento mental e como amenizá-lo

Por Bruna Passarelli