Tudo Sobre Terapia Online: Como Funciona? Prós e Contras; Como se Cadastrar? Passo a Passo com Fotos.

Nova Resolução do Conselho Federal de Psicologia

Resolução 11/2018

Recentemente houve uma atualização sobre o que é ou não permitido a respeito do atendimento psicológico online ou, para quem preferir: a terapia mediada por tecnologias. O serviço, que é permitido desde 2012, passou por uma regulamentação mais moderna, com o objetivo de adequar a prática da psicologia à nossa Sociedade atual, que vive na Revolução Tecnológica 4.0.

A Resolução Nº11, de 11 de maio de 2018 entrou em vigor após 180 dias de sua publicação. Nela, considerou-se como “meios tecnológicos de informação e comunicaçãocelulares, tablets, SmarTV’s, websites, aplicativos e plataformas digitais; em suma: “qualquer outro modo de interação que possa vir a ser implementado e que atenda ao objeto da Resolução”. A crescente demanda pelo atendimento psicológico online, inegavelmente, aparenta ter tido uma grande influência sobre a Nova Resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

Resultado de imagem para terapia a distancia

Em novembro de 2018 a Resolução nº11/2018, publicada pelo CFP, entrou em vigor. E junto dela, uma série de adequações e atualizações na norma vigente sobre Atendimento Psicológico Online. Sem dúvidas, é uma portaria que abre caminhos para o futuro da ciência e profissão dos psicólogos, mas que também não deixa de ser alvo de muitas polêmicas e discussões entre profissionais e setores específicos. Mas e agora, o que muda? O que é proibido? Como eu faço para atender, supervisionar e/ou ser/supervisionado por meio de tecnologias? Quais programas são recomendados? Existem riscos? Qual atendimento é melhor: online ou presencial?

A Sociedade dos Psicólogos preparou este artigo especial para tentar sanar todas as dúvidas envolvidas nesta nova Resolução: acompanhe!

O Que Mudou?


O Início

Um dos grandes precedentes para que as novas tecnologias começassem a fazer parte da Psicologia no Brasil foi a Resolução CFP N° 010/97, que regulamentou a divulgação publicitária dos serviços de psicologia através dos meios de comunicação. Alguns anos mais tarde, em 2000 e 2005 “o atendimento psicológico mediado por computador” passou a ser permitido. Contudo, este só poderia ser praticado para fins de pesquisa, sem que o psicólogo recebesse honorários – em caráter estritamente experimental.

Como era até a chegada desta nova Resolução?

Finalmente, em 2012, através da Resolução nº 011/2012 os psicólogos passaram a poder realizar Orientação Psicológica através de plataformas online, que era caracterizada por “até 20 encontros ou contatos virtuais” e poderiam acontecer também os Processos Seletivos, Supervisões do Trabalho dos Psicólogos e o Atendimento Eventual de clientes em trânsito ou com dificuldades ou impossibilidades de mobilidade.

Todavia, a principal discussão era sobre uma especificidade desta Resolução que determinava que a plataforma utilizada (site que garantiria acesso ao atendimento) deveria obter uma autorização dos Conselhos Regionais de Psicologia em que o profissional estivesse inscrito. A partir daí, tais autorizações aconteceriam mediante a solicitação de um cadastro e uma espera de até 60 dias para a análise que emitiria um parecer favorável ou não. Somente após a autorização do site que o profissional poderia efetuar seus atendimentos.


Como Ficou?

Na Resolução CFP 11/2018, os psicólogos agora contam com apoio jurídico através do Marco Civil da Internet desde 2014, que estabelece direitos, garantias legais e deveres para o uso da Internet no Brasil. E a importância disso reside na preservação do sigilo profissional, que poderia ficar comprometido ou até ameaçado, sem sequer oferecer punições a quem oferecesse danos ao mesmo – caso a internet continuasse, como no início, sendo uma espécie de Terra sem Lei.



(Imagem: Uma breve explicação sobre o Marco Civil da Internet)

Resolução CFP 11/2018

A nova resolução encontrou respaldo Legal para que um dos pilares mais importantes da Psicologia fosse preservado: o sigilo. Além disso, um conjunto de garantias, deveres e direitos também fazem parte daquilo que garantirá o exercício do profissional da psicologia através da internet. A inexistência de disposições deste tipo em 2012, quando a antiga Resolução havia sido disposta, também pareceu mostrar-se uma das inseguranças a respeito do tema à época.

Sendo assim, a partir de agora, desde que não firam as disposições do Código de Ética do Profissional Psicólogo, será possível realizar:

  1. As consultas e/ou atendimentos psicológicos de múltiplos tipos;

  2. Os processos de Seleção de Pessoal;

  3. A Utilização de Instrumentos psicológicos e testes que obtenham parecer favorável do Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos (SATEPSI);

  4. A Supervisão técnica dos serviços prestados pelos (as) profissionais da psicologia em setores de atuação diversos.

Contudo, ainda será necessária a realização de um Cadastro Nacional Individual, atualizado anualmente, para que haja a autorização de atuação no ambiente virtual. Se o cadastro for aprovado, caberá à psicóloga ou ao psicólogo a responsabilidade técnica e ética a respeito do serviço que irá prestar. O profissional e seu supervisor (se houver) serão os únicos responsáveis pela avaliação daquilo que cabe ou não à modalidade online de atendimento. Com exceção, é claro, daquilo já dito como vedado na Resolução 11/2018, que será explicado adiante.

O que Será Proibido?

Neste novo modelo de setting terapêutico, as psicólogas e psicólogos deverão se atentar aos possíveis descuidos e infrações à ética e à técnica – que já previstos pelo CFP como essenciais para o funcionamento deste novo modelo. Ainda assim, consideramos importante uma explanação daquilo que é vedado aos profissionais que realizarão atendimento virtual, ou seja, não será permitido:

  1. Realizar atendimento por meios tecnológicos de comunicação sem o cadastramento no CRP local;

  2. Manter o Cadastro desatualizado e/ou irregular perante o CFP;

  3. Realizar o atendimento virtual de crianças e/ou adolescentes sem a autorização dos pais ou responsáveis legais;

  4. O atendimento de pessoas e grupos em situação de emergência e desastres pelos meios de tecnologia, sendo este aquele que deverá ser sempre executado de forma presencial;

  5. O atendimento de pessoas e grupos em situação de violação de direitos ou de violência, devendo este também ser realizado de forma presencial;

  6. Desrespeitar as especificidades e adequação dos métodos e instrumentos utilizados em relação às pessoas com deficiência na forma da legislação vigente.

O que Dizem os Profissionais da Área?

Atendimento Psicológico, Orientação Vocacional, Seleção de Pessoal, Avaliação Psicológica com ou sem Instrumentação. Estes são alguns dos principais serviços que poderão ser oferecidos através de plataformas virtuais por psicólogos de todo o Brasil.

Numa tradição das ciências humanas, a psicologia segue o padrão de evitar grandes consensos teóricos a respeito de suas principais linhas de pensamento. Há até certa rivalidade entre linhas mais opostas como, por exemplo, Behaviorismo e Psicanálise. Não poderia ser diferente à respeito dos atendimentos à distância. A polêmica envolve considerações com conteúdo deveras pertinente a favor ou contrário à Nova Resolução.

Para este artigo, alguns profissionais foram consultados a respeito de suas visões a respeito do assunto.

Bruno de Brito

Quando perguntado, o psicólogo Bruno Davidson de Brito comparou a terapia mediada por tecnologias às modalidades de Ensino à Distância (EAD):

“São até boas como complemento, mas nunca poderão substituir a lição presencial, pois existe algo mais que o conteúdo. Não é qualquer caso que pode ser atendido online. Existe a relação aluno e mestre. Do mesmo modo existe toda essa relação paciente e analista […] contudo, a demanda de tempo e as relações superficiais contemporâneas fazem com que o atendimento online seja preferido”.

Bruno Davison de Brito Psicólogo

Bruno de Brito (CRP 06/141245)

O entrevistado, que também é colunista da Sociedade dos Psicólogos, acredita que esta modalidade de atendimento seja válida para psicodiagnósticos ou intervenções menos complexas. Entretanto, o profissional ressalta que o atendimento online “nunca poderia substituir o atendimento face a face”.

Bruno é profissional atuante na psicologia clínica e sua especialização em Semiótica Psicanalítica – Clínica da Cultura, na PUC-SP se soma também à vivência que a psicologia pôde lhe proporcionar através dos trabalhos que realizava no Poder Judiciário.

As Tecnologias

Não é incomum percebermos crianças, adolescentes, adultos e até idosos utilizando tablets, celulares e (cada vez menos) computadores em todos os lugares. A pergunta que fica é: por que não no consultório? Se durante décadas as modalidades técnicas e estruturais da psicologia sofreram mudanças constantes, seria esta mais uma que chegou para ficar?

Caio Ferreira

O que afirma Caio Ferreira, psicólogo especialista em comportamento não-verbal. Segundo ele, a psicologia não poderia ficar de fora de um “mundo conectado” onde a internet passa a fazer parte da vida das pessoas com uma intensidade cada vez maior. Fundador do Centro de Investigação do Comportamento das Emoções (CICEM) , o psicólogo afirma que “o saber psicológico é vivo, bem como a sua clínica” e que, assim como ocorrera no passado com os testes psicológicos, “haverá, em breve, com o acúmulo de experiências clínicas e pesquisas específicas, desenvolvidas, alguma mudança e/ou estabelecimento de novos paradigmas naquilo que diz respeito à psicoterapia à distância”.

Contudo, há também uma ressalva do também Co-Fundador da Sociedade dos Psicólogos:

É razoável pensar que estamos pisando em ovos, sendo que algumas problemáticas e cautelas iniciais são óbvias, como a questão do sigilo e do controle do setting terapêutico à distância, ou na limitação de um atendimento infantil, onde muitas vezes recursos lúdicos concretos fazem parte do trabalho, ou na própria percepção do corpo e das reações do cliente/paciente. Mas também é razoável pensar que estamos pisando em um terreno de possibilidades, descobertas e expansões da psicologia”.

Caio Ferreira
Caio Ferreira (CRP 06/147859)

De toda e qualquer forma, as discussões são riquíssimas para conhecermos cada vez mais sobre esta nova modalidade. Entretanto, se engana quem acredita que bastará apenas iniciar o atendimento de uma hora para a outra. O Cadastro necessário envolve a checagem do registro nos Conselhos Regionais e no Conselho Federal, bem como acontece apenas mediante aprovação.

Igor Banin

O que afirma Igor Banin, psicólogo, psicanalista e co-fundador da Sociedade dos Psicólogos é que apesar do fato de que “o atendimento psicológico/psicanalítico online configura uma modalidade nova, e talvez um pouco estranha à comunidade Psi de modo geral”, haja um conjunto de benefícios que se ligam à abrangência do número de pessoas que obterão tratamento através da escuta. O psicanalista acredita que a principal vantagem do atendimento online é de fato esta abrangência, que permite que mais pessoas sejam ajudadas de diferentes lugares.

Igor, que já atende alguns pacientes por videoconferência diz que, sempre que pode, procura realizar algumas sessões em seu consultório, localizado na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo. Ele ainda afirma que há casos em que, de maneira agendada, os atendimentos também podem ocorrer de forma alternada: “uma vez no mês nos vemos presencialmente, e as demais, via web”.

Igor Banin é Psicólogo (CRP 06/135177) Psicanalista e Membro Fundador da Sociedade dos Psicólogos.

Apesar de afirmar que ainda haja a necessidade de discussões sobre as técnicas quem envolvem o antedimento online especificamente, Banin afirma que o próprio tempo de deslocamento elevado, hoje uma realidade nos grandes centros urbanos, pode ser uma outra condição que aumente a demanda dos atendimentos virtuais. O psicanalista ainda arrisca um palpite, levando em consideração a crescente demanda pelos serviços de saúde através da tela: “Algum dia, talvez, uma ligação pelo Skype será a única forma de se consultar com um oftalmologista, por exemplo”.

Contudo, há uma ressalva do também Co-Fundador da Sociedade dos Psicólogos:

Naturalmente, o aspecto técnico da Psicanálise frente à essa novidade ainda carece de pesquisa e discussão. Se a resistência é maior em atendimentos desse tipo, se isso influencia no estabelecimento ou não da transferência.

A Sociedade dos Psicólogos criou um passo-a-passo em imagens colhidas diretamente do portal oficial e-Psi.

Como Realizar o Cadastro? Passo a Passo.

Acesse o Site

Para que o profissional se enquadre no Novo Modelo de exigências do CFP para Atendimento Online, o profissional deverá acessar o site https://e-psi.cfp.org.br/

Cadastre-se

Assim que o link for acessado será possível visualizar uma página idêntica à da imagem a seguir, podendo verificar quais profissionais estão cadastrados no portal. Mas para que o profissional inicie a primeira etapa para se adequar à Nova Resolução, deverá clicar em “Cadastre-se“:

Apresentação1

Inscreva-se

Em seguida, você será direcionado a uma página que dará início ao seu processo de inscrição. Conforme apontado na imagem abaixo, você deverá clicar em “Inscreva-se Agora”

Apresentação2

Encontrar Registro

Para que o Sistema encontre o profissional que está registrado em um dos Conselhos Regionais de Psicologia, será necessário digitar o CPF do psicólogo e selecionar a qual Conselho Regional este está associado. Ex: CPF: 123.456.789-00 CRP 6ª Região (São Paulo) e em seguida clicar em “Encontrar” vide imagem abaixo:

Apresentação3

Verifique e Confirme sua Identidade – CONFIRMAÇÃO POSITIVA

Em seguida, para fins de verificação e confirmação de identidade, o profissional deverá responder algumas perguntas referentes a seus dados pessoais, de acordo com que foi o informado ao solicitar o Registro e a Carteira de Identidade Profissional na sede do Conselho Regional de Psicologia (CRP) em sua cidade. Selecionando as informações corretas, clique em “CONFIRMAR”.

Apresentação4

Crie seu Usuário

Após confirmar algumas informações de acordo com o que consta em sua Carteira de Identificação Profissional, você deverá criar um nome de usuário que ainda não exista no banco de dados do Portal e-Psi e verificar se o e-mail ali apresentado está de acordo com o seu atual.

Observe na imagem:

PASSO A PASSO EPSI

É importante lembrar: caso você não tenha mais acesso ao endereço de e-mail informado ao Órgão do Conselho Regional, será necessário realizar uma atualização cadastral no mesmo.

Verifique seu Email

Assim que você inserir um Nome de Usuário que seja válido, você deverá visualizar a seguinte página:

Apresentação5

Neste momento, você deverá acessar seu e-mail cadastrado e lá verificar um e-mail parecido com este abaixo:

PASSO A PASSO EPSeeredsdsdsdsdsdsdsdsdsdseI

Confirme o Usuário

Clique em Confirmar usuário

Após a Confirmação, aparecerá uma tela com as suas informações de login e senha. Guarde sua senha em um local seguro para poder acessar o portal.

A seguir, clique em ENTRAR

Acesse sua Conta

Você será direcionado a uma página do CFP que exigirá seu Nome de Usuário e Senha previamente cadastrados:

PASSO A PAddddI

Insira seu Usuário e Senha e clique em Acessar. Você será direcionado para o Painel da (o) Psicóloga (o).

Painel da (o) Psicólogo

revisado

Clique em Histórico de Cadastro.

Novo Cadastro

revisado 2

Você irá visualizar uma mensagem dizendo “Aviso: Você ainda não possui um cadastro.”, clique em + NOVO CADASTRO.

Confirme seus Dados Cadastrais

PASSO A PASSO EPSwwwI

Verifique e confirme as suas informações e caso estas não estejam de acordo com a realidade, procure o Conselho Regional de Psicologia em sua cidade.

Em seguida, clique em CONTINUAR.

Especifique suas Atividades

Agora você deverá selecionar quais tecnologias, dispositivos e (se houver) aplicativos irá utilizar na nova modalidade de atendimento. Você também irá informar quais serviços irá oferecer e qual público irá atender.

Apresentação13

Apresentação14

Após selecionar tudo, clique em CONTINUAR.

Proposta de Prestação de Serviços

Após terminar os passos anteriores, você será direcionado a esta página que irá solicitar que você correlacione os aspectos dos serviços oferecidos, dos recursos tecnológicos e do público alvo selecionado, justificando tal compatibilidade.

Em seguida, você deverá dizer como e por quê a plataforma que você irá proteger o sigilo de seus atendimentos. Observe a imagem.

Apresentação15

Clique em SALVAR.

Leia e Aceite o Termo de Orientação e Declaração para Prestação de Serviços Psicológicos por Meio de Tecnologias da Informação e da Comunicação.

O termo poderá ser checado na íntegra Clicando Aqui.

Apresentação16

Após realizar o cadastro, os seguintes itens deverão ser lidos e, caso o profissional concorde e queira prosseguir, deverá clicar em “Concordo”.

Revisar Cadastro

Em seguida, verifique mais uma vez todos os seus dados.

Apresentação17

Confirme e Envie para a Avaliação do CFP

Por fim, após verificar a veracidade e a acuracidade de todas as informações, é o momento de CONFIRMAR E ENVIAR PARA AVALIAÇÃO, conforme a imagem.

dasdasdasdadadsa

Após realizar tal passo a seguinte tela irá aparecer para você:

Apresentação19

Isso significa que tudo foi um sucesso. Agora você deverá aguardar a resposta do CFP a respeito de seu cadastro.

Cadastro Submetido com Sucesso

Para ter certeza de que seu cadastro foi enviado corretamente, você poderá checar no Histórico de Cadastro se aparece algo semelhante à imagem a seguir:

submetido

Aguarde a Avaliação pelo seu Conselho Regional de Psicologia

Agora que seu cadastro foi enviado, ele será avaliado pelas partes competentes. Você poderá verificar o status de sua solicitação realizando Login neste mesmo portal ou aguardar a notificação que você receberá por e-mail.

SOLICITAÇÃO

Caso tenha alguma dificuldade, o próprio CFP disponibiliza um tutorial em vídeo, podendo ser acompanhado a seguir:

https://www.youtube.com/watch?v=9XbuX4GQnas&feature=youtu.be

Cadastro Realizado

Assim que seu cadastro for aprovado, você poderá iniciar seus atendimentos utilizando as plataformas de sua preferência. Alguns profissionais utilizam o próprio site, alguns sites oferecem suas próprias plataformas mediante assinatura, bem como há a possibilidade do uso de aplicativos.

Mas cuidado: Programas como o Skype, por exemplo, podem utilizar partes das conversas para agregar a seu banco de dados informações sobre os usuários. Fique atento aos Termos e Condições de Uso e às Políticas de Privacidade das plataformas que utilizar.

Um bom trabalho a todos!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo.

REFERÊNCIAS:

Resolução CFP N° 010/97 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 003/2000 – Disponível Aqui

Resolução CFP N° 012/2005 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 011/2012 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 11/2018 – Disponível Aqui

Lei Nº 12.965, de 23 de Abril de 2014 – Disponível Aqui

Revista CRP-SP nº 194. pp 6-7. • Novembro | Dezembro | Janeiro • 2018/2019. – Disponível Aqui

Bolsonaro e o Efeito Dunning-Kruger: Por Que as Pessoas Incompetentes são Mais Confiantes?

Hoje é o dia da véspera do Segundo Turno das Eleições Gerais de 2018. A disputa se dá entre dois candidatos muito emblemáticos no cenário político brasileiro. Um representa o Partido dos Trabalhadores, que ocupou o Poder durante três mandatos e meio até ser substituído pelo MDB de Michel Temer em um desgastante processo de Impeachment; o outro, representa o Partido Social Liberal, um partido que ninguém de fato conhece muito bem. E aí é que está: de um lado, Fernando Haddad é menos lembrado do que o partido que ocupa — o PT. E do outro lado, o PSL é menos lembrado do que o candidato que lança: Jair Bolsonaro. E é sobre este último e seus eleitores que tentaremos discorrer algo no artigo de hoje.

Jair Messias Bolsonaro

bolsonhitler

A carreira do candidato começa no Exército Brasileiro, quando entra na Academia Militar das Agulhas Negras. Jair, um nome escolhido por seu pai com base em um jogador de futebol da época, Jair Rosa Pinto, é um nome que, por demanda de sua mãe, precisava ser seguido por Messias, uma vez que a gravidez complicada que esta tivera não explicaria o nascimento do filho senão pela presença de um milagre de Deus (BOLSONARO, F. 2017).

A carreira de militar faz com que Bolsonaro, em 1986, se tornasse finalmente conhecido como o Capitão no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, a divisão que ocupou até ser preso por expor à Revista Veja detalhes sobre os salários do Exército àquela época. O histórico de comportamento explosivo e impulsivo do militar é corroborado não só pelos episódios que protagonizou à Câmara dos Deputados e nas entrevistas que dava, mas também pelo que aconteceria em Outubro do ano seguinte: Bolsonaro revelaria em público um plano de explodir pequenas bombas em repartições do Exército como forma de protesto aos baixos salários. Toda a repercussão do caso foi suficiente para que o militar se elegesse Vereador da Cidade do Rio de Janeiro em 1989 e Deputado Federal pelo mesmo estado em 1991 – o que se tornou seu emprego até os dias de hoje.

Mil Polêmicas e Dois Projetos

Jair-Bolsonaro-bocejando

A Isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) em produtos de informática e a autorização do uso da fosfoetanolamina sintética, a famosa e cientificamente ineficiente “Pilula do Câncer”, foram os dois únicos projetos que Bolsonaro conseguiu aprovar em todos os seus 7 mandatos como Deputado Federal. Mesmo com a apresentação de cerca de 171 projetos, a baixíssima taxa de aprovação de projetos do Deputado no Congresso, nos permite algumas indagações diversas sobre sua competência, suas habilidades de debater e expor suas ideias aos pares e até sobre o feeling que tem o Deputado, que foi durante 11 anos membro do Partido de Paulo Maluf , sobre como se faz a política e suas articulações.

Bolsonaro é constantemente refutado por especialistas, seu Plano de Governo tem falhas apontadas por diferentes profissionais no assunto, inúmeros jornais estrangeiros e a própria extrema direita francesa, representada por Marine Le Pen, corroboram o que é afirmado por intelectuais e classes laboriosas no mundo inteiro que alertam sobre suas incongruências e incompetências. O próprio Psicanalista e professor catedrático do Instituto Psicologia da Universidade de São Paulo, Christian Dunker faz uma análise do discurso do candidato, conforme poderá ser observado o vídeo a seguir.

Mas o ponto principal deste artigo é: mesmo com todas as informações, estudos e posicionamentos acima, uma grande parcela dos eleitores de Bolsonaro parecem carregar consigo algo parecidíssimo com o que aparece no próprio candidato. Uma espécie de convicção da própria certeza acima de tudo, mesmo que isso custe duvidar de todos. Mesmo que a lógica e a ciência sejam descartadas, há a inquestionável convicção de que o mundo está errado, ao contrário de si próprio. E, acredite ou não, este fenômeno já foi estudado, trata-se do Efeito Dunning-Kruger.

O Efeito Dunning-Kruger

IGNORENT+EXPERTand+the+dunning+kruger+effect

Em 1999, Justin Kruger e David Dunning, pesquisadores da Universidade de Cornell, publicaram um artigo no no Journal of Personality and Social Psychology intitulado “Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments“, algo que poderia ser traduzido como “Incompetente e Ignorante da Própria Limitação: Como as dificuldades de alguém em reconhecer a própria incompetência o conduzem a uma arrogância ilusória das próprias capacidades”.

No estudo, os pesquisadores chegaram à conclusão que: em atividades variadas como compreensão de leitura, operação de veículos motorizados, jogar xadrez ou ténis, havia algo que os voluntários tinham em comum – sua ignorância lhes gerava mais confiança do que seu conhecimento.

“[…] se você é incompetente, você não consegue saber que é incompetente (…) As habilidades necessárias para fornecer uma resposta correta são exatamente as habilidades que você precisa ter para ser capaz de reconhecer o que é uma resposta correta. No raciocínio lógico, na educação dos filhos, na administração, na resolução de problemas; as habilidades que você usa para obter a resposta correta são exatamente as mesmas habilidades que você usa para avaliar a resposta. Portanto, nós demos continuidade à investigações para apurar se a mesma conclusão poderia ser verdadeira noutras áreas. E para nossa surpresa, era bem verdadeira.”

O Estudo apontou que um dos primeiros sintomas da incompetência é a própria ignorância sobre ela mesmo; e a dificuldade de reconhecer a competência e habilidade das outras pessoas ao redor. Mais ainda: os próprios limites desta incompetência se tornam abstratos demais à consciência de seus portadores – estes só poderiam reconhecer sua falta de habilidade, suas limitações e suas ignorâncias, caso fossem ensinados e treinados sobre aquele assunto em específico. É como se um paciente cego tivesse uma lesão cerebral que o fizesse acreditar que enxerga. Ele só saberá que não enxergava após uma cirurgia que possa reverter o processo.

Para a realização do estudo, auto-avaliações sobre habilidade lógica, habilidade gramática, e humorismo eram aplicadas em alunos matriculados no curso de psicologia divididos em grupos. Em seguida, os alunos eram confrontados com seus próprios resultados e lhes era solicitado que nivelassem seus conhecimentos num nível em relação aos de seus colegas de grupo. A conclusão do estudo foi que: o grupo que se demonstrou mais intelectualmente competente nas atividades pareceu se nivelar em uma posição de conhecimento semelhante à que estava em relação aos outros, em realidade. Mas, para a surpresa dos pesquisadores, o grupo mais incompetente, se colocava em uma posição de competência ACIMA daquela em que seu suposto nível de conhecimento os localizava.

Em seguida, pareceu que aqueles que eram mais conhecedores e competentes, subestimavam o nível de seu próprio conhecimento, pensando que outros poderiam ter o mesmo nível de facilidade que estes apresentavam em algumas atividades. O que não os tornaria tão competentes assim.

dunning kruger

Então, se analisarmos o estudo de uma maneira mais simples, poderemos entender que as pessoas que detém pouco conhecimento sobre um assunto podem sentir/demonstrar saberem mais do que aqueles mais preparados. Isso é uma ótima receita para decisões erradas e resultados desastrosos, mas, de alguma forma, a sua dificuldade em reconhecer a própria incompetência e seus limites é o que lhes dá confiança para que se sintam intelectualmente superiores e tomem estas mesmas decisões. Uma espécie de Ilusão.

E contraditoriamente, alguém que realmente sabe o que está fazendo, exatamente por saber que sabe, por saber dos limites de seu saber e de sua competência, pode sentir a mesma ilusão ao contrário: pode sentir-se incompetente e subestimar suas próprias habilidades, até podendo atribuí-las a pessoas que não as detém de fato.

Será que confiança e “pulso firme” são realmente sinônimos de competência?

bolso dorme

Por Caio Cesar Rodrigues.

Referências

Bolsonaro, Flávio (2017). Jair Messias Bolsonaro – Mito ou Verdade. Rio de Janeiro: Altadena Editora.

Justin Kruger; David Dunning (1999). Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology.

*Todas as imagens contidas neste texto foram retiradas de forma livre da internet. Caso seja proprietário de uma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

O Tempo Lógico de Lacan e os Três Tempos do Sujeito.

T E M P O

Bom dia, Boa Tarde, Boa Noite. No artigo de hoje, que pode terminar de ser lido amanhã, bem como poderá lembrar de algo lido no dia ontem, falaremos sobre um assunto atemporal. Falaremos sobre a lógica do tempo. E não será incorreto dizer que também falaremos sobre o tempo da lógica. Está confuso? Calma, há tempo de finalizar esta leitura, espero, entenderá.

Em Pleno Século XX e, sem vergonha alguma, também no século XXI, uma frase ficou muito famosa: Time is Money – Tempo é Dinheiro. E, se deixarmos as críticas a um certo sistema econômico de lado, poderemos nos adentrar mais ao seu conteúdo e buscar uma influência dele na subjetividade alheia. Nela – e aqui eu começo com meus julgamentos apressados, estejam à vontade para embasar sua censura posterior – o $ujeito se torna um mero agente transformador, aquele único responsável por transformar o intervalo de sua existência, a vírgula que separa seu nascimento de sua morte, na maior matéria de troca simbólica já inventada pelo homem. Seria uma troca justa?

Difícil saber sem conhecer todos os sujeitos, mas o foco aqui é Outro. Quando falamos sobre o tempo em si, podemos lembrar desde os filmes sobre viagem no tempo, as teorias da conspiração, teorias científicas pautadas no assunto e muitas outras relações sobre ele no dia-a-dia. Mas, como um psicanalista, Jacques Lacan resolveu estudar seus efeitos nas relações subjetivas. Mais do que isso: o aplicou à própria relação estabelecida com a lógica.

A relação do psicanalista com o tempo fica famosa nas sessões de 500 euros que duravam cerca de 20 minutos. O que poderia ser um ultraje para alguns, se tornava uma maneira de forçar o paciente a expulsar suas falas defensivas durante as sessões, para outros. Se era algo antiético a alguém que solicita cuidado para alguns autores, era uma maneira de fazer com que o paciente elaborasse aquele último assunto abordado em casa, no trabalho e em seus relacionamentos, sem que este tivesse tempo de se defender das intervenções. E a discussão é extensa.

A tentativa deste artigo será de falar um pouco mais sobre o conceito, deixando aos próprios leitores as conclusões múltiplas que lhes vierem. A única sugestão mandatária aqui é a do gozo de uma excelente trilha sonora que já irá falar sobre o assunto. Não podendo começar por Outra, comecemos a leitura deste artigo com uma música homônimamente apropriada.

O Autor

Jacques Lacan é, quando não o mais, um dos mais polêmicos psicanalistas que tivemos em existência. Não é difícil, se estamos entrando no universo psicanalítico, ouvirmos certas reservas à não ortodoxia nos métodos e, principalmente, na escrita e na fala de Lacan. Ouço, frequentemente, colegas se queixando da dificuldade na leitura dos Seminários, o que é entendível, uma vez que são transcrições daquilo falado; mas não é raro quem tenha dificuldade na leitura dos Escritos. E me sobraria arrogância se não me incluísse neste grupo. Lacan tinha uma forma própria de escrever, onde é necessário conter a ansiedade, respeitar cada artigo, cada vírgula, cada frase dita anteriormente; será necessário trocar a voz ativa pela voz passiva, respeitar aquela crase que foi inserida e principalmente o Tempo Verbal empregado. Lê-se uma frase que somente fará sentido no final daquele parágrafo, pregando uma peça no leitor ansioso. Faz-se uma referência àquele assunto anteriormente citado com uma vírgula ou uma crase no meio do assunto atual, o que confunde o leitor obsessivo por estrutura; alguns parágrafos demandam uma extensa repetição da leitura (e da releitura). Mais ainda: seu entendimento sobre um mesmo assunto pode até mudar de acordo com o avanço da própria análise.

É polêmico indagar se o autor fazia tudo isso propositalmente, mas ele, conservando a tradição, nos deixa na dúvida quando fala que o entendimento de seus textos estava longe de ser o seu objetivo. A polêmica já começa em uma indagação básica: que tipo de autor que escreve para não ser entendido? E isso foi dito pelo pelo próprio Lacan:

“Alguma coisa que é
característica de meus
Escritos é que não os escrevi para que se os compreendesse, eu os escrevi para que se os lesse”.

Jacques Lacan, 1974.
E é de um texto, escrito em 1945, contido neste próprio livro – Escritos (LACAN, 1998) – que o artigo a seguir tentará se basear:
O Tempo Lógico e a Asserção de Certeza Antecipada
Um novo sofisma (LACAN, 1998)

Um Problema de Lógica

depositphotos_111381520-stock-photo-time-for-chess-game

Ao início deste capítulo, Lacan apresenta um problema de lógica que serviu de base para o discorrer de toda a sua argumentação. A partir deste exemplo, haverá por Lacan uma leitura sobre as formas com que a lógica é empregada entre a apresentação do problema e sua solução encontrada. Confira:

A Lógica dos Três Prisioneiros

discs

three-prisoners-group-of-men-in-suits-of-convicts-artsiom-kireyau

O Diretor de um presídio faz com que três prisioneiros compareçam em um local de sua preferência e lhes oferece uma oferta irrefutável: A Liberdade, mas através da Lógica. Lacan não consegue deixar de estender isso à sua concepção subjetiva, e antes de utilizá-lo para aplicar essa utilização lógica em sua teoria sobre os sujeitos, retrata o caso em seu livro (LACAN, 1998), abrindo aspas à fala do Diretor:

“Por razões que não lhes tenho de relatar agora,
devo libertar um de vocês.
Para decidir qual, entrego a sorte a uma prova pela
qual terão de passar, se estiverem de acordo.”

“Vocês são três aqui presentes. Aqui estão cinco discos que
só diferem por sua cor: três são brancos e dois são pretos.
Sem dar a conhecer qual deles terei escolhido, prenderei
em cada um de vocês um desses discos nas costas, isto é,
fora do alcance direto do olhar; qualquer possibilidade
indireta de atingi-lo pela visão está igualmente excluída
pela ausência aqui de qualquer meio de se mirá-los”.

“A partir daí, estarão à vontade para examinar seus companheiros
e os discos de que cada um deles se mostrará portador
sem que lhes seja permitido, naturalmente, comunicar uns aos
outros o resultado da inspeção. O que, aliás, o simples interesse
de vocês os impediria de fazer. Pois o primeiro que puder deduzir
sua própria cor é quem deverá se beneficiar da medida liberatória
de que dispomos”.

“Será preciso ainda que sua conclusão seja fundamentada em
motivos de lógica, e não apenas de probabilidade. Para esse fim,
fica convencionado que, tão logo um de vocês esteja pronto a
formulá-la, ele transporá esta porta, a fim de que, chamado à
parte, seja julgado por sua resposta.”

Após a proposta ser aceita, cada um dos prisioneiros recebe o disco prometido. Entretanto, a exigência do uso da lógica não foi mera coincidência. O desafio foi aceito pelos presos sabendo da existência de três discos brancos e dois discos negros, talvez tivesse lhes parecido tarefa fácil realizar sua missão de adivinhar aquele que está consigo. O detalhe que torna a liberdade, nosso bem mais precioso, não tão fácil assim, é que: sem poder olhar o próprio disco, sem poder se comunicar com o Outro que partilha desta mesma ignorância a respeito de si, mas também partilha do conhecimento sobre o disco do semelhante, o que não se imaginava era que todos os detentos receberiam discos brancos.

O que o diretor não esperava, decerto, era que, após algum tempo de hesitação e pensamento: Os três sujeitos dão juntos alguns passos que o levam, simultaneamente, a cruzar a porta. Separadamente, eles se justificam da mesma maneira:

“Sou branco, e eis como sei disso.
Dado que meus companheiros eram brancos,
achei que, se eu fosse preto, cada um deles poderia ter inferido o seguinte:
Se eu também fosse preto, o outro, devendo reconhecer imediatamente que era branco, teria saído na mesma hora, logo, não sou preto.’

E os dois teriam saído juntos, convencidos de ser brancos.

Se não estavam fazendo nada, é que eu era branco como eles.
Ao que saí porta afora, para dar a conhecer minha conclusão.”

Mais intrigante: os três realizaram, ao mesmo tempo, o mesmo exercício do pensamento lógico. E é isso que serviria de base para Lacan explanar suas ideias.

Qual é a Lógica?

noticia_85225

Quando Lacan foca seu olhar no valor lógico da solução apresentada, ele a classifica como um “exemplo significativo para resolver problemas de uma função lógica no momento histórico em que seu problema se apresenta ao exame filosófico” (LACAN, 1998).

Fica mais fácil o entendimento se estiver ouvindo uma música:

Quando procura entender o pensamento lógico empregado por cada um dos detendos, Lacan se encontra em observar o ponto de vista exclusivo de um deles. Chamando-o de A, enquanto os outros dois teriam o nome de B e C.

E aqui espera-se que, quando A enxerga os outros dois portando discos brancos, na adoção da lógica clássica, convencional, sua primeira conclusão seria a de que ele só poderia portar um disco preto. Caberia ao detendo, não podendo perder tempo, correr e informar que, se vê dois que são brancos, ele só poderia ser, pela lógica, aquele que é visto como preto. Uma visão um tanto binária, um tanto imediatista, se pudermos aqui opinar. É, naturalmente, a primeira que nos vêm à cabeça. Não era preciso se aprofundar mais do que isso. Estava óbvio! “Se dois eram brancos, e aqui devo usar a lógica, é por ela que concluo que o terceiro deverá ser preto!”

Mas sabemos que para se tornar um ex-detento, o próprio agiu de forma diferente àquela empregada na hora de cometer seus crimes: ele deteve seus impulsos imediatos, ele se colocou no lugar dos outros e tentou entender como funcionariam seus pensamentos.

É Preciso Considerar os Tons de Cinza

50-tons-de-cinza-ii

Nem tudo é apenas Preto ou Branco. Para Lacan, o ato final de se declararem todos brancos, teria a seguinte estrutura no pensamento de A: “Devo estabelecer minha dedução com base na conduta dos outros dois”. E enquanto A espera o movimento ou não dos outros dois, realiza um exercício de empatia notável ao pensar: “No que B e C se baseariam?”, e é assim que ele entende que eles se baseariam exatamente na causalidade mútua de suas condutas e condições. Ou melhor: se o movimento de B depende daquele realizado por C e vice-versa, a inércia de ambos somente poderia ser um resultado do que vêem na cor de A?

É a partir desta indagação que nosso inteligente prisioneiro faz algo que falta muito nos dias de hoje: ele começa a questionar sua própria certeza. Se, por um momento, ele acreditou ser o portador do disco preto, o que isso implicaria àqueles outros dois que ele, diferentemente dos mesmos, vê que estão com os discos brancos nas costas? O que eles fariam, ou melhor, o que eles fariam e pensariam, caso ele realmente estivesse correto em sua lógica imediatista e, de fato, estivesse ele mesmo com o disco preto?

Entretanto, abro um parênteses para dizer que considero importantíssimo, visto que deve ter estar finda a anterior, que mais uma música relacionada ao tempo esteja disponível aos sentidos dos leitores e das leitoras aqui deste artigo.

Moções Suspensas

E esta transição da primeira suposição de A até à chegada de sua conclusão final, começaria a partir daquilo que Lacan vai postular como uma Moção Suspensa. Uma espécie de verificação das possibilidades hipotéticas não partindo delas em si mesmas, mas dos fatos que fariam parte de sua ambiguidade. Estas seriam guiadas por aquele pensamento que não dependeria exclusivamente da experiência externa dos sujeitos, de uma forma pura da lógica que conhecemos. Poderíamos vê-las como uma espécie de fuga do hábito de focar naquele formalismo como ótica principal para se enxergar as coisas e como forma oficial de se empregar a lógica sobre elas – a partir de sua mera ordem cronológica, objetiva (focada no externo, nos objetos), espacial e contínua. É como se transpuséssemos o emprego da lógica daquilo que imediatamente nos é possível visualizar, pensar, fazer e sentir para um outro momento do tempo, em uma outra situação do espaço, que apenas existem em forma de possibilidade. É como se encontrássemos uma maneira de subverter o emprego da lógica, exatamente para que, paradoxalmente, facilitemos a sua própria aplicação. Seu foco não estaria naquilo visível aos sujeitos, mas exatamente naquilo que só poderá ser entendido a partir do invisível. Ao invés daquele congelamento a partir das impossibilidades lógicas predeterminadas pela falta de um elemento crucial à sua resolução, busca-se combinações possíveis em três tempos de possibilidade. E por mais que este conceito vos possa parecer confuso, é esperado que vá ficando de mais fácil compreensão ao longo desta leitura.

Por exemplo, se considerarmos que a realidade à qual os prisioneiros foram inseridos ali fora previamente pensada, cuidadosamente elaborada para estimular respostas que seriam previsíveis àquelas condições, é possível obtermos algumas conclusões do que se esperava estimular e para quê. Por exemplo, o fato de que há três prisioneiros e apenas aquele que der a resposta correta primeiro ganhará sua liberdade, pode ser uma conjectura previamente imaginada pelo criador daquele desafio: justamente para que assim induzisse aos ex-condenados um sentimento específico àquele contexto. Qual? A pressa. E talvez houvesse um motivo para isso. O que não era esperado pelo criador seria a astúcia de nossos detentos fazer com que eles pensassem exatamente o que questionaremos a seguir: e se, em um momento de pressa, como neste exemplo, procurássemos descobrir qual influência, qual a função que esta pressa ali implicada teria sobre a nossa percepção das possibilidades lógicas?

A Função da Pressa na Lógica

10942756_1579658975613181_7917596521328251457_n

Uma resposta possível à tal pergunta, pela parte de Lacan, poderia ser a suposição de que o tempo do presente, o tempo em que estamos agora, e toda a realidade visível apenas a este, se tornem um foco urgente para o emprego de nossa lógica clássica perante aquela pressa que fomos induzidos a sentir. E talvez isso ocorra exatamente porque é este mesmo presente que está em jogo para garantir o futuro tão sonhado, onde haverá liberdade. Mas, ainda na mesma suposição de que é esperado que tenhamos pressa neste presente que nos foi imposto, ainda na mesma suposição de que esta pressa fará parte daquilo foi considerado essencial na elaboração do desafio que garantiria liberdade aos presos, é possível começar a imaginar se haveria nela uma função, como por exemplo: induzir um pensamento, um raciocínio lógico correto do ponto de vista clássico, mas errôneo por contas das variáveis essenciais que ainda não são visíveis à consciência. E talvez este fosse o pensamento que forçosamente apareceria naquele Instante do Olhar, naquelas imediatas conclusões que seriam tiradas a partir da lógica clássica pensamento cartesiano: Vejo dois brancos, logo sou preto. Mas o que não era esperado pelo criador do desafio era que seria entendido pelos próprios detentos, claramente subestimados, que precisariam ir além da lógica clássica, pois “As formas da lógica clássica nunca trazem nada que não possa ser visto de um só golpe” (LACAN, 1998) e sua liberdade talvez não tivesse um preço tão barato.

As moções suspensas poderiam ser aquelas suposições ultra hipotéticas, feitas exatamente para que fugíssemos desta armadilha da lógica puramente objetiva. Então, se é esperado que nós mesmos, no tempo, no espaço e na situação em que estamos inseridos atualmente, tenhamos um pensamento lógico específico que nos induziria a atos específicos, o que poderia o outro, em um tempo, em um espaço e em uma situação que ainda não nos são possíveis de identificar através dos órgãos do sentido em nosso presente (exatamente porque não existe no mundo objetivo, externo, mas apenas no subjetivo, interno – na nossa mente de sujeito), mas são, por exemplo, possibilidades de um futuro imaginado pela nossa capacidade de exercer o pensamento? Seu papel crucial está nos forçarem aplicar a lógica em situações aquém daquelas que estamos enxergando e vivendo no tempo atual.

É como se não seguíssemos aquilo que a pressa teve por função nos induzir a fazer e também como se não ignorássemos a aplicação da lógica exigida no presente, em diferentes instâncias temporais. E se nestas instâncias, onde realizaríamos pequenas paradas em tempos existentes apenas em possibilidade, para a aplicação da lógica em momentos diferentes daquele que nos é apresentado externamente. Desta forma, avaliaríamos a qualidade efetiva de nossas conclusões lógicas imediatas, que talvez precisariam de elementos adicionais que não existem na realidade apresentada. E estes seriam os próprios elementos faltantes à sua possibilidade de verificação. Este seria um processo que talvez faça com que seja possível aplicar a lógica em diferentes tempos de possibilidade. Lugares onde ela teria ou não mais validade do que naquele em que é exposta. Ou seja: talvez aquilo que posso compreender baseado no que o mundo me apresenta agora, não me sirva para uma conclusão de imediato, mas se eu puder visualizar tal fato, mesmo que apenas em possibilidade, em um Outro tempo hipotético. Esta modulação dos tempos de possíveis poderá permitir entender onde estaria, já que não vejo, aquela hipótese que me faria chegar à conclusão que o problema solicita.

Vos deixo aqui mais uma música:

Time Travel: O Passado que só é Presente no Futuro

o-tempo-c3a9-o-sc3a1bio

Para começar a facilitar o entendimento de algo tão denso e complexo, talvez haja uma melhor visualização se recorrêssemos à gramática para uma rápida leitura:

Bruce Fink, em sua famosa obra “O Sujeito Lacaniano” (1998), logo após comentar a influência que o Seminário 8 de Lacan teria sobre a interpretação da obra “O Banquete”, de Platão, lembra de um exemplo utilizado pelo psicanalista ao falar sobre esta lógica temporal, onde o sentido não poderia nos vir de imediato, mas somente após alguns processos que nos fariam pensar em Outro tempo. No tempo em si haveria de ter um lugar, nesta cronicidade, onde seria possível encontrar o sujeito. Este seria aquele que está sempre quase chegando, junto ao aparecimento da responsabilidade perante o próprio desejo. No exemplo de Lacan que Fink evidencia, este tempo poderia ser melhor entendido através do próprio tempo do verbo em que está inserido o sujeito, ou seja, do próprio tempo da ação subjetivada.

Na frase: “Deux Secondes plus tard, la bombe éclatait” (A Bomba explodiria dois segundos mais tarde) Lacan coloca o verbo “explodir” em seu pretérito. Ou seja, só poderíamos estar falando aqui de uma ação que já ocorreu. Entretanto, este passado só poderia acontecer no futuro. Como se sempre houvesse uma condição implícita, um impedimento para que aquele ato evidenciado no passado só pudesse ser uma possibilidade daquele futuro que só existe a partir de algo que ainda não está explícito (p. 87). É como se tivéssemos a obrigação de imaginar que a bomba não explodiu no período que podemos observar, mas poderia ter explodido dentro das possibilidades de um futuro alternativo. Qual possibilidade de futuro alternativo? Aquela em que a explosão não fora impedida por algo não mencionado ali, um detonador que falhou, por exemplo, conforme podemos apenas supor. Entretanto, tais suposições não poderiam ser feitas sem um deslocamento nos tempos de possibilidade que existem nesta situação. Na língua portuguesa, este tempo verbal apresentado é o futuro do pretérito, aquele inexistente passado que é presente no futuro de possibilidades. E por mais contraditório que seu nome seja, ele faz sentido quando analisamos a lógica empregada pelo nossos prisioneiros.

O exemplo foi utilizado para que entendamos a prevalência de um raciocínio lógico existente para cada um dos tempos de possibilidade diferentes de um mesmo fenômeno. Quando enxergamos, de maneira problematizada, um futuro que só existiria num passado diferente e ainda assim este passado do futuro não é o nosso presente, é menos angustiante que esta ginástica mental finalmente nos sirva de alguma coisa senão para a adoção desta famosa face a seguir:

686bf45f96ce06af9dd5324453868273

No caso de Lacan, aquilo que nos faz aplicar a lógica naqueles tempos de parada que as moções suspenas exigem quando finalmente conseguem identificar algumas instâncias do tempo presentes em nosso processo lógico, é chamado de Movimento Lógico. Ele consistirá na aplicação desta logica naqueles tempos em que a pressa nos faz ignorar que existem em possibilidade, para que nos haja preferência para aplicá-la apenas no presente que enxergamos. Mas, para que isso aconteça e nosso pensamento dê o salto para a liberdade de nosso corpo, é-nos necessário começar por algo bem mais simples.

A Exclusão Lógica e o Movimento Lógico – O Instante de Olhar

eye time

Para haver de sua parte um movimento lógico que busca, na sua aplicação da lógica em tempos distintos, para a visualização de múltiplos momentos de evidência para a falha ou sucesso de suas conclusões, foi preciso que houvesse na mente de A, aquilo que Lacan chamou em seu texto de uma exclusão lógica. Algo simples, mas eximiamente necessário durante o emprego de um pensamento além daquele imediato e limitado à lógica comum. É como se, na linha de construção de sua própria conclusão, fosse necessário ao sujeito validar as diferentes suposições hipotéticas que lhe são possíveis, mas soma-se a isso aquilo que evidencia ou esconde suas reais possibilidades. Como quando, uma equação de duas incógnitas, busca-se um artifício para que uma se faça, ao menos, útil o suficiente para facilitar a revelação da outra. Mesmo que ela por si não tenha valor para produzir uma certeza para o ato de enunciar a resolução do problema.

Música:

Poderia ser que existisse ali, implícito nas ações do prisioneiro, algo tão óbvio que nos é praticamente ignorado: para que A começasse a indagar as possíveis aplicações da lógica temporal que o cercavam, era necessário tecer indagações sobre qual tempo de possibilidade ele aplicaria sua lógica com sucesso, pois era preciso que descartasse as situações onde não existiria algum valor de evidência para que a lógica empregada lhe produzisse uma conclusão útil.

Por mais que estivesse implícito nas informações iniciais, e por mais que isso só pudesse ocorrer instâncias temporais imaginadas, distintas àquelas apresentados ao imediato; por mais que já se soubesse daquilo num só golpe, num só Instante de Olhar, a exclusão lógica foi a base de todo o movimento lógico que permitirá uma conclusão determinante para o ato em direção à liberdade: entender o que falta. Calma, vou explicar.

Num Instante de Olhar, Busca-se Aquilo que Falta para Chegar a Tempo Para Compreender

pos-9

Quando o prisioneiro A resolve questionar a validade de sua hipótese imediata, aquela em que ele seria preto, ele também pensa que B, em um futuro cenário hipotético, faria conjecturas para também aplicar sua lógica de maneira semelhante. Indo adiante, caso A realmente carregasse um disco preto em suas costas, B poderia pensar:

“Se eu vejo que A é preto e sei que há apenas dois discos pretos, apenas uma pessoa também poderá ter um disco preto além de A. Sei que C, definitivamente não é esta pessoa, pois ele eu mesmo vejo que é branco! Portanto, sabendo que há no total três discos brancos e dois discos pretos, se meu campo de visão me permite enxergar um disco preto e um branco nos outros dois prisioneiros, mas não posso enxergar a cor do meu próprio, minha lógica me ajuda a crer que o disco pendurado em minhas costas poderá ser tanto preto como branco. Mas o que acontecerá se estiver comigo o disco preto que falta? Bem, suponho que neste caso C estaria vendo dois discos pretos. Portanto, não sendo ele incapaz de exercer seu raciocínio com maestria, aplicará uma lógica muito simple para suas conclusões: se ele vê dois discos pretos em seu campo visual, não sabe a cor do disco que carrega, mas sabe que o total de discos pretos é exatamente a quantidade que vê, a própria lógica mostrará para C que o disco em suas costas apenas poderá ser branco”.

Ou seja, se há dois discos pretos em meu campo de visão, e sei que existem três no total, aquele que eu não vejo, e que está em mim mesmo apenas poderá ser branco.

E aqui temos um primeiro momento de evidência para ser validado:

“Estando diante de dois pretos, sabe-se que é branco”.

E esta seria a primeira hipótese daquele que vê dois pretos, caso A fosse realmente preto. Mas este pensamento é rapidamente descartado, pois perde seu valor instantâneo de evidência e é excluído das possibilidades de opções viáveis e que poderiam, num futuro do pretérito, serem tomadas como a verdade que leva ao ato.

Em mais um empréstimo dos termos da linguística, Lacan vai nos dizer que este simples processo se assemelha à preparação de uma frase. Pois se a exclusão lógica nos servirá para chegar ao próximo passo, isso só poderá ocorrer da mesma forma como uma prótase serve uma apódose na estrutura sintática que envolve uma oração.

Ou seja, quando pensamos num futuro de possibilidades hipotéticas, em uma instância do tempo que seria ignorada pela lógica clássica, poderemos fazer com que, No Instante do Olhar o dado da prótase “diante de dois pretos” seja conduzido ao dado da apódose “é-se branco” (LACAN, 1998). Daqui poderá se fazer a seguinte equação lógica: DOIS PRETOS = UM BRANCO.

E é esta exclusão lógica das incógnitas explícitas, para a apresentação daquelas que até agora a lógica clássica fez com que o sujeito ignorasse, mas que se fazem essenciais ao processo lógico que permitirá uma transição do Instante do Olhar, que tomaria o sujeito por seu imediatismo, para um segundo momento de evidência, chamado Momento de Compreender.

Se uma Parte me Falta, Parto Dela para Produzir sua Existência

relationship_1

Portanto, é somente a partir da exclusão lógica que se poderá buscar a verdadeira incógnita daquela situação onde a lógica se faz necessária. E se poderá fazer isso agora pois ela FINALMENTE DEIXOU DE SER IGNORADA PELO SUJEITO.

E talvez algo tenha sido ignorado por quem lê este artigo. Exatamente. A música.

Como em uma equação matemática, quando no tempo subjetivo, chamado de Instante do Olhar, o sujeito realizar a exclusão lógica que o permitirá descartar uma incógnita que ainda velava parte de seu raciocínio lógico final, passará finalmente a raciocinar em direção às hipóteses autênticas, onde poderá visualizar a verdadeira incógnita do problema – aquela que era ignorada durante o uso da lógica comum por sua parte. Agora que o sujeito deixa de ser aquele guiado pela imediaticidade do Instante de Olhar, ele finalmente poderá ter algum Tempo para Compreender a real dinâmica em que está inserido, já que, se o valor instantâneo de sua lógica naquele momento temporal é o que o permite continuar questionando, é porque este valor há de ser, necessariamente aquele que o permitirá ir mais além: ZERO .

O Sabido Não Saber vs O Não Sabido Saber

logicriddlepuzzle

À descoberta de que alguém precisaria enxergar dois discos pretos para concluir ser ele mesmo o portador de um disco branco deveria ser algo implícito no contexto daquele que supõe-se portador do preto apenas por ver dois brancos. Entretanto, esta lógica só se fez sabida para aquele sujeito, na não ocasião de sua presunção lógica imediata se tornar a única a ser considerada por ele.

Exemplo de Questão do Enem que exige o emprego de uma lógica semelhante.

98

Resposta: ( C) 50 ——> Se tira 50 homens, a sala ira ter 49 homens e 1 mulher no total 50 pessoas se fizer a regra de três simples 100% x50 —– 49=98%) Ao primeiro impacto, muitas pessoas se sentem tentadas a responder 1, 2 ou N.d.a por conta dos desafios aqui empregados pelo mero uso da lógica objetiva.

Vejamos bem: não seria esta intuição tão fácil de se fazer com os dados que a aparência da situação, em que se encontrava o sujeito, continuassem produzindo nele apenas pensamentos lógicos restritos àquilo que lhe forneceram para observar. Mas ao contrário, ela passou a ocorrer por derivar da exclusão desta mesma conclusão que só poderia ser tirada a partir daquela primeira exposição. O sujeito decide ignorar o próprio conselho imediato que a primeira impressão lhe dá sobre o fenômeno, e é só a partir daí que começa a refletir sobre sua necessidade de pensamento: sendo agora melhor aplicar a lógica como se estivesse em um tempo a partir das relações que estabelece com os outros.

Para exemplificar: ocorrerá exatamente como é retratado no pensamento do Prisioneiro B:

“Um momento: o Prisioneiro C estaria imediatamente correndo para informar a conclusão que chegou de sua própria cor, caso eu também fosse da cor de A, caso eu também fosse preto. Logo, se C está em inércia, eu não poderia ser preto!”

E se neste tempo todo que o Prisioneiro B ficara imaginando estas possibilidades, entende-se que ele também não saiu correndo, exatamente porque não estava a enxergar dois discos pretos. A partir daí, O Prisioneiro C também poderá concluir que é branco, também por conta do não movimento do Prisioneiro B.

Lacan vai postular que, existirá um objetivo e um término do tempo disponível para que os dois brancos elaborem suas conclusões lógicas que definirão suas próximas ações subjetivas. Mas mais do que isso: haverá nestas ações subjetivas as conclusões que seu próprio semelhante e observador poderá extrair delas irá determinar a conduta seguinte – e vice-versa. Portanto, se sua ação for a própria inércia mútua retratada pelos dois que são brancos, no problema dos prisioneiros em questão, a ação própria do sujeito denunciará àquele outro que a observa algo não dito em explícito. Por exemplo: que não foram avistados dois discos pretos em lugar algum se nenhum dos dois se movimentou. Como assim? Simples. Esta etapa de verificação daquela possibilidade imaginada por A, de ser ele mesmo preto por ver dois brancos, faz com que os prisioneiros B e C concluam-se portadores do disco branco exatamente pela inércia que causaram um no Outro:

“Se eu fosse preto, ele já teria saído sem hesitar; se ele hesitou, sou branco. Não haveria como hesitar aquele que vê dois discos pretos à sua frente, uma vez que este possuirá todas as suas possibilidades disponíveis em seu presente imediato de saber, pela lógica simples, que é ele mesmo o único portador de um disco branco.

Para Lacan, deveria haver algum limite para este Tempo para Compreender que os sujeitos usufruem na utilização de uma lógica temporal. O psicanalista tenta explicar a tênue linha temporal de delimitaria isso, ou não:

“O Tempo de Compreender” pode reduzir-se ao instante do olhar, mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender”. (LACAN, 1998. p. 205)

E é neste momento que se perde um pouco da objetividade deste tempo em relação à sua duração, mas seu sentido se mantém vivo: ele produz sujeitos que dependem de ações recíprocas para que se movimentem, para que possam evoluir suas conclusões. Em Outras palavras: sujeitos que apenas desenvolvem seu crescimento a partir de um Outro em que ele causa o mesmo que é sentido. Sujeitos que se libertam de convicções rasas quando entendem que é preciso empatia para que haja tempo para compreender.

Neste caso a inércia do outro se torna a maior informante do disco que ambos carregam:

“Se eu fosse preto, os dois brancos que estou vendo não tardariam a se reconhecer como sendo brancos”.

Afinal, para eles, enxergar um preto e um branco poderia ser fonte de dúvida a respeito da própria cor invisível que ainda é a si”. As ações daquele que ele vê do outro branco determinariam sua percepção: “Se ele correr, minha conclusão deverá ser: sou preto”. Pois a única justificativa esperada é que tenha corrido por estar vendo exatamente os dois únicos discos pretos, sobrando a si o disco branco”.

Todo este movimento de deslocar a própria lógica além do que se vê objetivamente, todo este movimento de deslocar a lógica para outras Instâncias do Tempo é o que permitirá o sujeito chegar ao momento de concluir o seguinte: SOU BRANCO, DEVO CORRER E REVELAR A TEMPO PARA FINALMENTE SABER DE VERDADE.

O Momento de Concluir o Tempo para Compreender: A Asserção da Certeza Subjetiva para Validar a Certeza Objetiva.

time-to-act

Fiquem tranquilos, uma música que faz referência homônima a este título não vos irá faltar.

Finalmente o prisioneiro conclui que: se os outros dois hesitaram em declarar a própria cor, ele só poderia ser preto. Se B não corre porque não vê C ser preto ao lado de A. E se C não corre por não ver B ser preto ao lado de A. A não pode ser preto. Se A não é preto enquanto vê dois brancos, logo todos são brancos. A deverá se apressar para declarar que é branco antes que os outros brancos o façam pela mesma lógica.

Esta conclusão só foi possível a partir de um lógica diferente da convencional. Entendamos que, objetivamente, apenas era possível enxergar dois brancos. Aplicando a mesma lógica objetiva naquele tempo e espaços, nada se concluiria senão aquilo já visto. Foi preciso do auxílio das moções suspensas até que se chegasse a uma lógica semelhante ao Tempo do Sujeito para Lacan, uma lógica de um tempo que está quase chegando por conta de algo que pode acontecer, algo como um futuro tão certo quanto um suposto passado dependente dele, conforme explicado anteriormente.

Entenderemos aqui que, assim obtida esta certeza, através de uma lógica que atravessa os limites que o sujeito estabelecia apenas por observar os objetos à sua frente, o sujeito agora é dono de uma lógica que apenas a ele pertence. E quando falamos desta lógica subjetiva, falamos de uma lógica que não mais depende do mundo dos objetos apenas por uma condição: que aconteça o ATO.

“Esse, portanto, é o momento de concluir que ele é branco; de fato, se ele se deixar
preceder nessa conclusão por seus semelhantes, não poderá mais reconhecer que não é preto. Passado o tempo para compreender o momento de concluir, é o
momento de concluir o tempo para compreender

(LACAN, 1945/1998, p. 206. grifo meu.)

O que Lacan quer dizer aqui é simples e pode até ser trazido ao senso comum: “Se você basear seus atos EXCLUSIVAMENTE às percepções externas, ou seja, dos outros, você nunca sairá do lugar”. É quase como a clássica frase: “Se preocupe mais com o que pensa de si mesmo ao invés de se preocupar com o que os outros pensam de você“. E eu explico:

Se o Sujeito A, após assumir que tem certeza de que é branco, decidisse não agir em prol daquela certeza sem hesitar, ou, pior ainda, se tivesse aguardado um segundo a mais: os outros dois brancos se movimentariam a fazer o mesmo. Pois lembram-se de sua moção suspensa? “Eles estariam correndo juntos se eu fosse preto”. Portanto, se A demorasse mais para agir, ou interrompesse sua ação apenas porque os outros também passaram a agir, teria, para sempre, a certeza errônea de ser preto. E aqui a lógica subjetiva perderia para a lógica objetiva. Exatamente porque os outros dois estariam correndo juntos. E não por enxergarem que A é preto, e sim porque todos chegaram ao mesmo tempo ao diretor – exatamente por todos terem utilizado a mesma lógica de A.

E vocês podem perguntar, objetivando: mas A não tinha certeza plena de ser branco. Ele não havia como provar isso de forma outra senão a partir de meras deduções. E aqui chegamos ao que Lacan chamou de Asserção da Certeza. E é somente através dela que se tem coragem para agir. E é somente agindo que se terá certeza plena.

A Ação do Ato na Subjetividade

16084899-clap-film-of-cinema-action-genre-clapperboard-text-illustration

Lacan nos mostrou, neste exemplo, o seguinte: o sujeito não terá direito à própria lógica enquanto estiver preso às ações dos outros. Mais ainda: não será possível que alguém tenha certeza de fato se não a afirmar através do ato.

Se não fosse a tomada de decisão apenas da certeza enunciada, da asserção da certeza, a verdade não poderia ter sido descoberta. A verdade do sujeito mora no ato, no ato subjetivo que o garante transcender na aplicação de sua lógica sobre o mundo. E é por isso que às vezes o tempo cronológico não basta.

Uma análise ou até uma única sessão de análise, se bem pautadas pelo tempo lógico, terão:
O Instante do Olhar – O Tempo para Compreender – O Momento de Concluir

Exatamente para que o sujeito tire proveito do movimento que lhe esperado para fazer em sua vida. Que o sujeito saia do futuro do fato e viva a ação do ato.

O saber, o efeito, o dano ou o sucesso de uma sessão ou de uma análise, em minha opinião, não estão em lugar nenhum a não ser no ato cometido pelo sujeito que era acometido pelo ato.

Por Caio Cesar Rodrigues

REFERÊNCIAS

Jacques Lacan em Conferência de imprensa realizada em 29 de
outubro de 1974 no Centre Culturel Français, Roma. Lettres de l’École Freudienne de Paris.
FINK, Bruce, 1956 –, O sujeito lacaniano; entre a linguagem e o gozo/ Bruce Fink; tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara; consultoria: Mirian Aparecida Nogueira Lima. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN, Jacques, 1901-1981. Escritos/ Jacques Lacan; tradução Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

***Todas as imagens contidas neste artigo foram obtidas de forma livre na internet. Caso você seja proprietário de uma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

Por Que Não Devemos Falar sobre Suicídio?

220px-falar_e_a_melhor_solucao

O artigo de hoje começa com o Símbolo da Campanha Setembro Amarelo, uma vez que hoje, 10 de setembro é O Dia Internacional de Prevenção ao Suicídio. E nós como profissionais da área, nos sentimos no dever de falar sobre assunto. E talvez alguns estranhem o título deste artigo e possam até considerá-lo sensacionalista. Mas ele de fato não é, pois é a partir dele que tentaremos encontrar sentido em três argumentos frequentemente presentes quando falamos sobre suicídio. O artigo terá como objetivo desmistificar o que for possível, tentando entender se há veracidade naquilo proposto pelo senso comum que, infelizmente, intensifica o tabu que é falar sobre o assunto.

Para quem não conhece, Setembro Amarelo trata-se de uma campanha de prevenção ao Suicídio. Apesar de ser incentivada pelos Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), sua iniciativa é do CVV – Centro de Valorização da Vida, o canal de comunicação que funciona 24 horas por dia por telefone, chat, pessoalmente ou email. Para entrar em contato, basta discar 188 de qualquer telefone e localidade do Brasil ou acessa o site https://www.cvv.org.br. Lá pode-se falar sobre o assunto sem julgamentos, censuras ou clichês populares. Voluntários dedicados e treinados se preparam para dar todo o acolhimento necessário para que caso você realmente considere esta hipótese, tenha apenas a oportunidade de pensar e falar mais uma vez sobre o assunto, ou quantas quiser. Com todo o respeito e dignidade.

A Sociedade dos Psicólogos também conta com uma equipe pronta a oferecer atendimento psicológico para quem necessitar. Entre em contato através deste link.

A Morte

amorte1

Em seu excelente artigo (clique aqui para visualizar) publicado neste mesmo blog, o psicólogo Igor Banin fala sobre os assuntos e mudanças que cercam a morte.

Em seu texto, o autor descreve muito bem os estágios do Luto propostos por Elizabeth Kübler-Ross. Mas ele fala sobre muito mais do que isso. Apenas isolando este assunto, também gravei um vídeo ao Canal da Sociedade dos Psicólogos no youtube. Confira o vídeo a seguir:

E por que falamos sobre a morte e sobre o luto neste texto? Exatamente porque queremos evitá-los. E um bom começo é falar sobre o assunto.

Complementarei dizendo: naquilo que é inenarrável, naquele assunto em que as palavras se esvanecem; sobre aquele verbo que frequentemente precisamos trocar pelo outro(falecer), que parece ser menos impactante, há um abismo de silêncio. E se o silêncio que acompanha o verbo Morrer é ensurdecedor, aquele que guia o suicídio, o mais temido dos nossos substantivos, parece estar nos deixando cegos à importância que é falar sobre o assunto.

O que “Atrai” é Exatamente Não Falar

silence_box

Em 2016 a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma cartilha (acesse, em inglês aqui) sobre como a comunidade deveria agir para prevenir o suicídio. O material é de imensa qualidade que merece um texto exclusivo sobre o assunto. Entretanto, o que mais chama a atenção são alguns dados contidos ali, retirados de um Relatório Divulgado pela mesma em 2014.

Segundo a OMS, por volta de 804.000 pessoas cometem suicídio todos os anos no mundo. É como se, para cada 100.000 habitantes, 11 se matassem. Os dados ficam mais assustadores ainda quando observados em uma menor unidade de tempo: algo entre 2 e 3 mil pessoas tiram a própria vida todos os dias; em outras palavras, uma pessoa tira a própria vida a cada quarenta segundos. Ainda segundo a agência, o suicídio se tornou a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos de idade (OMS, 2014). O ato se torna a causa responsável por 50% das mortes violentas entre homens e 71% entre as mulheres. Ainda assim, segundo o órgão, homens cometem mais suicídio do que mulheres e, nos países ricos, pode-se observar que o número de mortes masculinas é até três vezes maior. Mas mais ainda: observa-se que em 75% dos casos no mundo, as pessoas tiram a própria vida em países de baixa ou média renda.

A agência insiste em enfatizar que os números podem ser ainda maiores, pois ainda há casos em que não se consegue identificar se a causa da morte foi suicídio ou não, por conta do estigma em falar sobre o assunto, da criminalização em alguns países e até por conta de fracos sistemas de vigilância.

Posso arriscar dizer que uma das frases que marcam o estigma sobre o assunto no Brasil é uma que já ouvi algumas vezes pessoalmente, neste e em outros assuntos: “Não fique falando sobre isso que você atrai”. Entretanto, se isolarmos os casos de suicídio no Brasil aos jovens entre 15 e 29 anos, poderemos observar que de 1980 até 2014 saltamos de 4,1 casos para cada 100 mil habitantes para 5,6 casos. Que os leitores de exatas me corrijam se minha conta estiver errada: mas é um aumento de 27% em 34 anos. Entretanto, apenas entre 2002 e 2014 o aumento foi de praticamente 10%, passando de 5,1 para 5,6 casos. Só podemos dizer que as estatísticas vão novamente contra o senso comum: parece que atraímos mais casos de suicídio quando não falamos sobre o assunto. É como se fosse uma crescente e invisível causa de morte.

“Isso é Falta de Religião”

552ba18bc46188f7758b4586

Talvez uma das formas de comunidades religiosas evitarem o assunto foi torná-lo passível da maior punição oferecida pelo cristianismo: não herdar o paraíso prometido aos fiéis. Apesar de, segundo a conclusão de um estudo que pode ser encontrado aqui, haver um menor índice de tentativas de suicídio em pacientes depressivos quando há alguma filiação religiosa, o Brasil é um país com uma população composta por cerca de 90% de pessoas praticantes de alguma religião, sendo 86,6% de cristãos. Apenas 8% da população se declara não possuir alguma religião, segundo o IBGE (2010). Mas ainda assim, segundo o criador do Mapa da Violência, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, o suicídio cresceu muito no conjunto da população brasileira. Se nos jovens entre 15 e 29 anos o aumento foi de 27%, no geral a taxa aumentou 60% desde 1980.

Se o suicídio fosse de fato falta de religião, como ele poderia aumentar tanto em um país onde a população religiosa é representada em mais de 90% do total?
Mais ainda: se este argumento fosse verdadeiro, como poderíamos encontrar notícias com o suicídio de pastores e líderes religiosos como esta daqui?

De acordo com o Schaeffer Institute (texto original aqui), a própria profissão de ser um líder religioso, acabou se tornando fonte de altíssimos níveis de estresse e depressão. E a própria OMS já relatava, em seu relatório de 2014 que estas fazem parte do rol de psicopatologias que compõem alguns dos principais fatores que motivam o suicídio. E é importante lembrar que, além das psicopatologias, fatores a dependência química, bullying, traumas vividos em guerras, violência física e psicológica, abuso sexual, alcoolismo e problemas socioeconômicos também estão associados aos casos.

Portanto, é bem improvável que suicídio seja apenas falta de religião. E ainda não descobrimos um motivo plausível para que não falemos sobre o assunto. Vamos ao próximo.

“São Pessoas Egoístas, que Não Pensam na Família”

77565cf5ec3707879ccadfc8142dd4b0

Infelizmente, o próprio estigma ao assunto estimula esta última falácia. Eu, pessoalmente, considero este o mais repugnante argumento do senso comum. E vou explicar o porquê.

Existe uma informação muito importante sobre a depressão. Ela é mais difundida dentro da comunidade de Saúde Mental, mas é importante que seja levada para o lado externo também. E a informação é o seguinte: é bem possível que um paciente depressivo tente suicídio exatamente durante uma melhora de seu quadro. E a razão para isso pode ser exatamente o nível de incapacitação que a doença causa, o nível de sofrimento físico, psíquico e social que é vivenciado pelo paciente depressivo. Os suicídios geralmente ocorrem por conta do medo que alguns pacientes têm de voltar àquele estado vivido durante o último episódio. Há estudos que indicam alterações neurológicas severas durante o episódio depressivo em áreas ligadas à mobilidade, humor e motivação. E a depressão é sim, a maior causa de casos de suicídio.

E por que isso tudo foi dito? Porque este dito popular aqui em cima citado é irresponsável. Ele dá a entender que apenas pensar no bem-estar familiar é algo suficiente contra fortíssimas alterações no funcionamento psíquico e biológico de alguém, logrando uma parcela de estigma e culpa que pode até piorar alguns quadros onde já a própria ideação suicida. O sujeito que sofre, na minha opinião, deve pensar apenas no sujeito que é, até que melhore. E não deve, nunca, ser julgado por isso.

A família deve sempre dar apoio à pessoa que pensa em suicídio e não o contrário. Infelizmente a realidade não condiz com a nossa expectativa, por isso, caso você que lê este post já pensou e/ou está pensando sobre o assunto, recomendamos imediatamente discar o número 188 de qualquer telefone do Brasil.

Mais do que isso, procure um profissional. Você poderá procurar um dos profissionais da Sociedade dos Psicólogos ou não. Estamos de prontidão a inciar atendimento ou dar as melhores indicações se sentirmos necessário. Entretanto, nosso incentivo é que se procure ajuda.

BUSQUE AJUDA: FALE.

setembro-amarelo-blog

Em meu outro texto, enumero os motivos que devem motivar a procura de um psicólogo. Mas aqui, deixo um recado com teor mais pessoal a quem se veja em uma situação do tipo: fale. Fale sobre o assunto. Fale com um profissional. Pois acabamos de mostrar neste texto que não há nenhum motivo válido para não falar sobre. Muito pelo contrário.

Nós, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da saúde mental, não sabemos ainda pelo o que você está passando, mas queremos saber. Nós queremos entender. Mas algo nos já de conhecimento: sua história é única e sua dor é legítima. Você tem o direito de se sentir assim e não precisa haver vergonha ou medo de falar sobre o assunto. Não estamos aqui para determinar se seus pensamentos ou vontades são certos ou errados, mas talvez haja a possibilidade de ajudarmos você organizá-los de uma maneira mais leve, menos sofrida e que permita outras saídas que, sabemos, são difíceis de serem vistas agora por conta própria.

Você aguentou tudo isso até agora, sabemos. E pedimos que aguente mais um pouco, mas agora com a ajuda profissional de quem estará prontamente disposto a te escutar, acolher e incentivar um caminho que possa, ao mesmo tempo, ser menos doloroso e preservar a sua vida. E sim, sua vida é muito importante. Se valeu a pena no passado, pode valer de novo. Busque ajuda, estamos com você, torcemos pela sua vitória em vida. Conte conosco.

É provável que você consiga diminuir este sofrimento de outra forma. É possível que as coisas ainda melhorem. Acredite, busque ajuda.

Por Caio Cesar Rodrigues.

Contatos importantes

Centro de Valorização da Vida
Telefone: 188
Site: https://www.cvv.org.br/
E-mail
Para verificar endereços, clique aqui e veja quais os pontos mais próximos da sua região.

Sociedade dos Psicólogos
WhatsApp: (11) 9 9546-9073
Envie seu e-mail para: sociedadedospsicologos@gmail.com
Ou preencha o formulário neste link.

Referências:

Preventing suicide: A community engagement toolkit – World Health Organization (2014)
http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/252071/WHO-MSD-MER-16.6-eng.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Crescimento constante: taxa de suicídio entre jovens sobe 10% desde 2002 – BBC Brasil a partir do Mapa da Violência de 2017
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39672513

Publicação da Organização das Nações Unidas no Dia Internacional de Combate ao Suicídio (2018)
https://nacoesunidas.org/unicef-metade-dos-adolescentes-no-mundo-sao-vitimas-de-violencia-na-escola/

American Journal of Psychiatry – Religious Affiliation and Suicide Attempt (Kanita Dervic, M.D., Maria A. Oquendo, M.D., Michael F. Grunebaum, M.D., Steve Ellis, Ph.D., Ainsley K. Burke, Ph.D., and J. John Mann, M.D) 2004.
https://ajp.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/appi.ajp.161.12.2303

O Complexo de Édipo e As Fases de Freud: Oral, Anal, Fálica e Genital.

b255aaa9b84144f4945348814227848b

A imagem acima carrega a foto e a fala de Norman Bates, personagem principal do filme Psicose, de Alfred Hitchcock. E agora também da série Bates Motel. No filme, o personagem diz que “o melhor amigo de um menino é sua mãe”. A fala é decerto Freudiana. E ela é se, com a permissão de um spoiler, já soubermos que ali existia uma relação praticamente simbiótica e, portanto, sem a interdição necessária na relação mãe-e-filho. Tal interdição, conforme explicaremos adiante, se faz necessária para garantir que ambos possam, à sua maneira, procurar a satisfação individual de maneira independente, sem que prosseguisse a ilusão de um ser parte do Outro; sem que adiante se mantivesse a ideia de corpos que não se diferenciam; sem que dois seres continuassem vivendo com o prazer infinito de serem um só em extensão. Certamente, não foi o que ocorreu com Norman Bates. Este que é o personagem mais famoso da história do suspense cinematográfico e, sem dúvidas, aquele que marcou eternamente a carreira do ator Anthony Perkins, e, mais recentemente, de Freddie Highmore também.

Mas neste post iremos nos atrelar mais ao primeiro Bates e, adiante, tentaremos o exercício de tentar localizar nas fases do desenvolvimento psicossexual estabelecidas por Freud, um Lugar que traga mais traços em comum com este ícone da Cultura PoP.

Norman Bates

Norman parecia confundir tanto a imagem de si com a de sua mãe a ponto de, no ápice de sua euforia, numa cena emblemática, ele finalmente unir as vestes e o cabelo de sua progenitora ao seu corpo. É como se agora fossem apenas um; como se suas personalidades e suas forças estivessem unificadas; como se agora nada impedisse o seu gozo de cometer o crime, que parece acontecer quase como se não fosse uma escolha. Como se a mulher esfaqueada por Norman fosse mais vítima de uma mãe ciumenta do que de um psicopata assassino. E aí está um grande ponto da série e do filme: talvez Norman Bates não fosse um psicopata.

E daí o nome do filme explica o restante: Norman Bates poderia ser um psicótico.

A Psicose

E Freud (1924) já nos dizia que a psicose ocorre quando o ego se mantém na primitividade, quando seus recursos de lidar com as exigências da realidade são incapazes de uma elaboração mais madura, voltada para o mundo externo, de maneira que permita um mísero contato com a realidade. Como se ele vivesse em uma relação de plena satisfação, parecida com aquela união mãe-bebê durante um momento de amamentação.

E, curiosamente, neste ato de ruptura com a realidade externa, tomando como exemplo em particular a persecutoriedade e/ou a grandeza egocentricamente retratadas nos delírios psicóticos, seria possível perceber, em um olhar mais atento, algo semelhante ao que ocorre na Fase Oral proposta por Freud, onde, se uma frase poderia fazer uma boa analogia ao pensamento que rege tal estrutura, talvez parecida com esta a seguir:

“Não cederei às tuas pífias exigências, Dona Realidade! Provo-te, por meu corpo, por minha percepção e por meu discurso, que me aguarda em algum lugar o direito à plena satisfação. Aquilo que eu detinha ao ventre não poderá ser tirado de mim e, caso seja, com algum tempo, hei de reivindicar como o fazia no berço. E sabes bem que dependo apenas da voz para que minhas necessidades sejam satisfeitas, bastou lá atrás. Basto-me. E, se a realidade insiste em me contradizer, algo está errado; algo só pode estar errado. Mas não comigo, com o externo. Se não volto ao gozo é por complô, é por ser perseguido em função de minha grandeza. Pois eu, sendo quem sou, jamais deveria ter o dever de sofrer suas exigências; jamais poderia disfarçar meu descontentamento, jamais poderia vender meu esforço por migalhas de satisfação. Não aceito! Nego! Descarto! Não pode existir um mundo assim e, se pode, ficarei com o meu próprio”.

Este desejo de ter suas necessidades atendidas por um mundo que ainda parece ser parte de si é muito parecido com o do recém-nascido. Lembra muito sua relação com sua mãe. Há então de se indagar: o quão prejudiciais podem ser os destinos oriundos de algumas relações estabelecidas de maneira indevida entre mãe e filho? É por isso que é sempre um aprendizado, na prática clínica, conhecer a mãe de um paciente psicótico.

O caso de Norman Bates é um exemplo dos múltiplos destinos indesejados que podem decorrer, dentro do que se entende na psicanálise, de uma relação simbiótica entre mãe e filho que persiste sem algum tipo de interdição. Um destino possível de quando não há uma boa elaboração do sujeito, no que diz respeito sobre sua passagem por alguma (s) das Fases do Desenvolvimento Psicossexual da criança, postuladas por Freud (1905/1976a).

O Sujeito

O caso do famoso filme de Hitchcock é aquele que, em termos psicanalíticos, ainda não é sequer o caso de um $ujeito na Linguagem. Já que a inauguração subjetiva apenas se daria após o acontecimento de algo: Aquilo que Barra uma futura personalidade de qualquer confusão que ela pudesse fazer de seus impulsos imediatos com a realidade do mundo exterior. Pois para existir um sujeito, deve haver um desejo. E não iremos confundir aqui os impulsos com os desejos. Pois falamos de Outro tipo de desejo. Falamos daquele desejo que, para existir, deverá haver a falta. Aquele que não vê a falta em si poderia até confundir a própria realidade com a externa, exatamente por sentir que não precisa sequer procurar a segunda. Bates nos deixa claro que suas confusões foram muitas, principalmente no que o tornaria diferente a imagem e dos desejos de sua mãe.

Talvez Norman tivesse ficado preso naquela fase em que o filho ainda se confunde com a imagem da mãe. Talvez Norman fosse um significante que às vezes fosse confundido com Norma, o significante do Nome Próprio de sua mãe. E, sendo este o caso, a Letra que fica sobrando poderia escrever outra coisa, senão o puro e enorme NÃO que é dito à realidade externa? Infelizmente, falamos da mesma que tornaria Um diferente do Outro.

As Fases do Desenvolvimento da Organização Sexual

enhanced-21391-1534353143-1

(Imagem Retirada do Site Buzzfeed)

Faça o Teste

Recentemente, o portal BuzzFeed publicou um teste – com meros fins de entretenimento, é preciso ressaltar – em que a pergunta principal é: Qual fase do desenvolvimento da infância você não superou segundo Freud? O teste pode ser acessado aqui. Selecionamos algumas imagens diretamente do site para exemplificar o teste em questão. Nele, o usuário seleciona algumas imagens, como por exemplo, esta a seguir:

oral freud buzzfeed

E após a seleção de um conjunto de itens, o resultado apareceria da seguinte maneira:

fase oral freud

Como o propósito dos testes do BuzzFeed é meramente recreativo, podemos respirar aliviados com os “diagnósticos” (ou não!), mas é com o compromisso da disseminação do conhecimento, que a Sociedade dos Psicólogos produz este texto, explicando, com linguagem acessível e (quase) breve as Fases do Desenvolvimento Psicossexual de Freud. E o fazemos para que todos aqueles, que fizeram o teste ou não, possam entender melhor sobre esta contribuição tão presente dentro e fora do ambiente universitário, psicológico e psicanalítico.

IMPORTANTE

Antes de prosseguir com a leitura, é altamente recomendado que se revise e entenda o conceito de Pulsão, explicado no texto a seguir. Confira no link:

O que é Pulsão? Qual é a diferença entre Pulsão e Instinto?

As Fases de Freud

Estas primeiras fases do desenvolvimento, dentro do que é postulado pela teoria psicanalítica, têm um papel fundamental na estruturação do Eu. Cada passagem deixará seus traços, seus rastros e suas particularidades; no discurso, na linguagem e na relação de cada sujeito com os seus e Outros afetos no futuro.

Isso não quer dizer que os traços de caráter, mnêmicamente gravados ao longo da passagem dos indivíduos por tais fases, sejam imutáveis ou extremamente deterministas sobre quem ele é/será, mas ressalta-se que se desvencilhar de características tão intrínsecas, segundo Freud, não seria algo tão simples quanto se livrar de um hábito recentemente adquirido – o que já não é tão fácil. Aqui falamos dos caminhos que, durante certa evolução, a libido percorre o corpo e, de certa maneira, a mente de um ser em desenvolvimento. Ressalta-se todavia, que não falamos de processos conscientes; e, sem dúvidas, a libido, a sexualidade, não dizem respeito exclusivamente ao ato da relação sexual explícita em si.

IMPORTANTE

Para um entendimento mais claro dos conceitos que aqui serão explicados, é altamente recomendado que se tenha aprendido o conceito de Pulsão. Se necessário, reveja-o clicando aqui.

A Fase Oral – Idade Aproximada: 0-2 Anos de Idade

bebe2

Nesta fase, dos 0 aos 2 anos – e não falamos aqui de idades exatas – , a criança experimenta o mundo pela boca. E é importante fazermos aqui um exercício de empatia com o bebê:

Pois iremos então supor o seguinte, sua vida atual se resume da seguinte maneira:

  • Tu não conheces a fome e nem a vontade de comer, pois há em ti uma nutrição constante via cordão umbilical que impede este primeiro mecanismo – e como conhecer o segundo se o paladar sequer lhe é algo conhecido?
  • Felizmente, o útero é um ambiente quente, seguindo temperaturas próximas aos 36º; o líquido amniótico da placenta envolve o bebê em boa temperatura – mesmo nas formas mais amorfas àquela que conheceremos ao seu nascimento. Sendo assim: como poderia ele conhecer o frio?
  • Não se sabe o que é luz. Os olhos ainda não se abrem. Basta ao leitor lembrar do quão propensos somos a manter os olhos fechados em ambientes de baixa luminosidade (e o quanto não gostamos de um contato lúcido em nossos olhos, principalmente se este vier em seguida de um longo período no escuro). O bebê não sentiu ainda o incômodo da luz em sua retina; pois então: há de se preocupar com o quê?
  • Ali dentro ainda há outro benefício: não se sabe ainda, absolutamente, como é ser tocado; então é evidente que também não se sabe o que é dor física.

Não há fome, não há luz, não há sequer frio ou dor; há de não haver uma gota sequer de desprazer nesta vida. Pura verdade. Mas só até o maior trauma; até a maior condenação à morte, por ser a única exigência para que ela possa acontecer (como diria Lacan); só até a primeira experiência de desprazer na vida de um ser: O Nascimento.

Temos aqui um trauma inaugurado pelo desprazer do toque: algo puxa, contra a sua vontade, o bebê de seu berço esplêndido de gozo; segue-se um tapa. Uma palmada que provoca a dor e a eterna missão de mandar ar aos pulmões 24 horas por dia; em seguida, um movimento de seu corpo para lá e para cá. Vozes, agora em um volume muito maior, desconhecidas. Ainda por cima, para variar o desprazer, há algo que nunca se sentiu antes: fome, sede; dor nos olhos causada pela luz inédita (lembram como é incômodo o acender de luzes após certo tempo no escuro?), que acompanha o frio de sentir o vento bater no molhado de seu corpo! “O que raios será que é tudo isso que nem nomear eu posso?!”

Ainda bem que, em breve, este bebê estará nos braços de sua mãe. Ali terá a primeira experiência de satisfação de sua vida, aquela que nunca mais será possível repetir com tamanha intensidade; aquela que acompanhará o calor dos braços da mãe, o afeto de sua voz sorridente, e, finalmente, a satisfação da primeira sucção do mamar. Acabou a fome. Acabou o frio. Ouve-se ternura e afeto, sem sequer saber o que estes são, através de uma voz bem próxima. Nem o melhor dos cigarros, dos charutos; nem o melhor conhaque ou whisky; nem a melhor refeição que um Chef pode preparar irão resgatar por completo o que acaba de ser vivido. Aqui há um prazer que tentará ser repetido por toda uma vida. E certamente falamos de tentativas falhas, que atingem apenas um rastro de tudo aquilo. Mas é oficial: aqui inicia-se a Fase Oral do Desenvolvimento.

Freud vai nos dizer que, nesta fase, o bebê vive pela boca. Suas únicas experiências moram no que escuta, no que vê, no que é tocado, no que é cheirado e, principalmente, no que é ingerido. Mas não há aqui, ainda, linguagem. Não haveria aqui, ainda, algo que impeça seu prazer e desperte sua raiva. Pois, convenhamos, estamos falando de um bebê!

Aliás, ledo engano meu: há sim. Há algumas insatisfações. Há as ausências maternas súbitas. Há a fome que agora vai e volta. Há o incômodo de uma fralda suja, há cólicas e um conjunto de desprazeres que ainda não são entendidos, nomeados ou expulsos com facilidade. Mas tudo (ou quase tudo) tende a se cessar com a presença da mãe, que a princípio, a criança pode até confundir com uma extensão de si mesma – já que falamos de um ser que nunca sequer se viu (e se o fez num espelho, não se reconheceu), que ainda não teve tempo para compreender a realidade como nós; já que esta figura que até nomeia teu choro com leite, colo ou banho é o que lhe traz a paz para os desprazeres. Portanto, aos primeiros balbucios e engatinhamentos, busca-se o mundo todo pela boca. Busca-se prazer por esta via.

Regressão Sadia à Fase Oral

É possível que na vida adulta tenhamos vontade de retornar a esta fase perante alguns desprazeres. Vai-se lá saber o quanto gostávamos dela? De toda forma, Freud nos ajuda a entender que há meios de fazer isso: fixamo-nos nos copos de cerveja, vinho e whisky perante alguma ansiedade; levamos um lápis, caneta ou dedo à boca em momentos de tensão; e como não esquecer do cigarro? E ainda, do preferido por Freud: o charuto! E por mais que às vezes, como os itens anteriores, um charuto pode ser apenas um charuto; noutras vezes ele pode ser, quando não um símbolo de Poder – como se representasse um certo órgão sexual – um charuto também poderia ser um prazeroso retorno à Fase em que tínhamos nossa satisfação atendida com veemência, emergência, às primeiras satisfações.

churchill

Imagem da Internet: O Primeiro Ministro Britânico durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill, fumando um de seus adorados charutos e fazendo seu famoso símbolo que, às vezes, era invertido num insulto disfarçado.

A Fase Anal – Idade Aproximada: 2-4 Anos de Idade

bebe-preprado-para-desfraldar-sentado-no-penico-fazendo-xixi-e-coco

Agora imaginemos: todo o amor e atenção que era reservado ao bebê na fase anterior passa a ter um preço. Qual preço? O de algumas regras sociais. Após experimentar o mundo pela boca e, de certa forma, ter uma ideia melhor da própria imagem, entender-se como diferente dos pais e já se reconhecer no espelho, a criança descobre algo novo. A partir de agora algo fora produzido diretamente por ela; a partir de agora ela passa a sentir um prazer sobre seu mais novo aprendizado: o controle de suas evacuações.

Agora se escolhe quando e onde se deposita aquilo que se tornou a primeira produção autoral de um ser. E tem até um agravante: os cuidadores demonstram até mais amor se o cocô é feito no vaso, no penico. E mais, há grande insatisfação deles se, num gesto natural de conhecer a primeira obra propriamente humana, sua primeira empreitada, seu primeiro pertence valioso: a criança decide brincar com suas fezes. Também há insatisfação dos cuidadores quando esta as deixa pela sala, pelo quarto e por outras áreas da casa como um presente, como orgulho; como quem oferece aquilo feito unicamente por ela em em prova de amor. Mas, para trocar essa insatisfação por amor, é preciso agora reprimir alguns impulsos que a deixam com vontade de brincar com as próprias fezes; e também reprimir os impulsos de evacuar à hora que quiser; é preciso ter controle sobre os impulsos. Mais ainda sobre os esfíncteres. Não é atoa que pessoas excessivamente controladoras, compulsivamente organizadas, com certas compulsões por limpeza ou extremamente apegadas a objetos e dinheiro, têm certas fixações nesta fase do desenvolvimento.

Destino Socialmente Aceito

Mas, se precisarmos de exemplos, um artesão, que trabalha com argila, encontrou um meio tão eficiente de “brincar com suas fezes”, ou seja, de retornar aos prazeres da fase anal de uma maneira socialmente aceita, quanto um degustador de vinhos encontrou de retornar à fase oral. Para Freud, a Neurose Obsessiva pode ter uma de suas fontes conhecidas se a Fase Anal do Desenvolvimento de alguém for devidamente investigada.

35dc90e3bb36aeac9a5f70f7f6b4d449

Cenas do Filme 500 Dias com Ela, onde a personagem de Zoey Deschanel diz que seu apelido na escola era “Garota Anal”, por ser muito limpa e organizada. Uma clara referência chistosa à Fase Anal Freudiana.

Fase Fálica e Complexo de Édipo – Idade Aproximada: 4-6 anos

fase falica

Após a criança começar a conhecer alguns limites de seu próprio corpo e entender, finalmente, que sua dinâmica familiar é maior do que ela mesma e, depois, maior do que a soma dela com a pessoa que realiza a Função Materna, chegou a hora de uma relação triangular.

cpn

(Imagem de um modelo familiar proposto por Freud no Século XX. Aqui mostramos apenas uma das possíveis configurações familiares, no caso, a heterossexual. É importante que se observe a realização da Função Materna e da Função Paterna em moldes que se adequem à família de cada criança)

Usaremos, para meros fins de ilustração, o mesmo modelo que Freud usou de exemplo para designar uma dinâmica familiar de sua época. Lembrando, é claro, deste não ser o único existente. Tomaremos como exemplo a relação Homem (Pai), para Função Paterna; Mulher (Mãe), para Função Materna e Filho (sexo e gênero masculinos).

A relação mãe-bebe é, conforme descrito na fase oral, praticamente simbiótica. Onde não há diferenciação de um pelo outro até que o bebê consiga finalmente entender e controlar o próprio corpo. Mas ele só pode fazê-lo ao entender que este seu corpo é um outro separado de sua mãe. E isso pode ser observado nos momentos em que a criança começa a se reconhecer no espelho. Entendido isso, e mais algumas pequenas regrinhas sociais, aparece outro empecilho: um terceiro naquela relação que antes era exclusiva.

O Intruso

Com a redução das demandas imediatas de um bebê, a criança vai, naturalmente, ficando menos dependente do cuidado materno. Não há mais tanta necessidade de colo, de trocar as fraldas, de mamar no peito e de ter toda aquela atenção exclusiva. Entretanto, algo não poderá passar despercebido ao nosso sujeito em desenvolvimento: a mãe, além de se “afastar” dele, volta sua atenção para uma outra pessoa – aquela que designará a Função Paterna. E é claro que esta ausência será sentida e manifestada pela criança – que irá reivindicar sua exclusividade! Há formas e formas para isso. Mas talvez este sujeito em desenvolvimento tentará dormir na cama dos pais; poderá até forçar sua presença em ambientes e situações inadequadas, entre outras coisas: comumente apelidadas de “birra”.

maxresdefault

Daqui poderá surgir um pensamento comum até aos adultos ciumentos: “O ele tem que eu não tenho?”; “O que me fez ser preterido perante este ‘novo’ preferido?”. A criança percebe-se como alguém insuficiente a suprir todas as demandas de sua mãe. “Se não sou suficiente para a satisfação de um Outro, teria em mim, portanto, algo faltante?” E se esta dúvida surge justamente na fase em que marca-se a diferenciação sexual, na fase em que a sexualidade – a libido – está concentrada nos genitais – descobre-se aqui outra fonte de alívio de tensão e obtenção de prazer.

Geralmente, nesta mesma idade pode-se observar os primeiros gestos que se assemelham ao que será a masturbação (que virá em sua “forma definitiva” na puberdade), há curiosidade (“Por que o meu e o dele são diferentes do dela? Será que ela perdeu? Será que eu também posso perder meu?”) e estímulo voltados para os genitais. Mas, há também – e deve haver – Leis Sociais que reservam a este período de satisfação um conjunto de restrições e punições (“Parece que recebo menos amor e mais hostilidade de meus pais se manuseio meus genitais na sala de visitas”).

Há também a introdução da Lei, da supressão dos impulsos sexuais que buscam satisfação imediata, há aqui a necessidade de barganhar o prazer imediato com a autoridade parental. Numa bem simplificada resenha do resumo: troca-se prazer imediato por amor a longo prazo. E caberá a demonstração da Lei à Função Paterna, podendo esta ser uma pessoa, um objeto ou uma ausência. Tudo isso, não coincidentemente, acontece junto ao domínio e inserção da Linguagem. Como se para usufruir das restrições de qualquer sociedade houvesse um requisito primordial: ser nela um falante.

O Processo de Identificação

Pois então, se aquele Terceiro da relação detém o amor de minha mãe, o que não falta nele? O que falta em mim? E o que falta na minha mãe? O que ela perdeu? A lógica seguinte deste questionamento inconsciente é a do processo de Identificação. Onde percebe-se, de maneira inconsciente, quais características, posturas e responsabilidades sociais se herdará naquela sociedade.

Objeto de Identificação e Objeto de Desejo x Identidade de Gênero e Orientação Sexual

Aqui geralmente forma-se a Identidade de Gênero naquele sujeito em desenvolvimento. Sem que este perceba ou lembre-se disso, foi aqui que soube, pela primeira vez, que usaria seu pai como referência de como se portar em sua sociedade. Elege-se um Objeto de Identificação (o pai), que aparentemente capta parte do olhar que tanto se quer ter com exclusividade novamente. Também elege-se o Objeto de Desejo (a mãe), que está para a formação da Orientação Sexual tanto quanto o Objeto de Identificação está para a formação da Identidade de Gênero. É comum aos meninos nesta idade imitarem os gestos, as roupas e os comportamentos inúmeros da Figura Paterna. Aqui há uma maior introjeção da Linguagem, que também carrega uma porção de Leis que devem ser seguidas.

Figuras de Referência

E há uma Lei que aqui será eternamente lembrada: “Não poderei obter a mesma forma de amor que minha mãe oferece a meu pai, portanto, procurarei esta realização no mundo; levarei comigo aquilo que gravo deste Terceiro em mim para desbravar relações minimamente parecidas com esta, que agora é minha principal referência. Procurarei amigos, pares românticos e profissionais que, por coincidência ou não, sempre poderão me lembrar desta primeira experiência. E aqui falamos de uma passagem saudável pelo Complexo de Édipo. O exemplo de um homem, cis gênero e heterossexual é meramente ilustrativo, podendo o comentarista deste artigo tomar a liberdade para citar outros.

O Mito do Rei Édipo

edipo-guiado-por-antigona

Freud Baseia esta parte de sua teoria na Tragédia Grega Édipo Rei, de Sófocles (Aproximadamente 496 a.C. até Aproximadamente 406 a.C). A Narrativa é de um Rei de Tebas, Édipo – Em grego: Oidípous “Pés Inchados” – , que ao seu nascimento é amarrado pelos pés pelo próprio pai, que o entrega a um pastor que tem a missão de garantir sua morte ainda bebê. E das cicatrizes geradas pelos grampos que prendiam seus pés àquela época, Édipo ganha seu Nome Próprio. O famoso Rei é salvo pela misericórdia do pastor que o recebeu, ele é entregue ao Rei Políbio, da cidade vizinha à Tebas, Corinto. Políbio não podia ter filhos, logo, ao ser adotado, Édipo passa a ser o principal herdeiro do trono daquela Polis. Sempre sendo criado como um príncipe legítimo. Em sua idade adulta, o Príncipe dos Pés Inchados se exila de Corinto pelo mesmo motivo que levou seu pai biológico querer sua morte: uma profecia do Oráculo de Delfos, que era o portador oficial da voz do Deus Apolo. A profecia dizia que quando adulto, Édipo mataria seu pai e desposaria sua mãe. E desta união incestuosa só poderia nascer um tipo de prole: o que faria atos tão abomináveis quanto o incesto e parricídio que permitiriam sua existência. Édipo, que acreditava ser filho de Políbio, se escafede de Corinto e, ao revelar o Enigma da Esfinge que atordoava Tebas, se torna Rei de sua antiga Pátria.

Entretanto, um pouco antes, no caminho para Tebas, Édipo – um príncipe! – se sente desrespeitado ao ser mandado para longe da rota de um comboio de homens que parecia proteger aquele que era seu líder. Numa coincidência que demonstra a inevitabilidade de uma profecia, o Príncipe de Duas Cidades comete um dos maiores tabus da humanidade: o parricídio. Assim o próprio filho é quem mata Laio, o Rei de Tebas àquela época. Só faltou ao seu algoz saber que aquele era seu pai biológico. Esta metade da profecia é cumprida, mas a Outra metade vem logo adiante: quando é finalmente proclamado Rei de Tebas, Édipo se casa com a Rainha Jocasta. Ele cumpre a profecia: fecunda e torna o lar daquela prole abominável aquele mesmo local que outrora havia sido sua primeira residência – o útero de sua mãe biológica.

Destinos do Édipo

Freud se baseia no Mito para apontar a repetição que observou no contexto familiar daquilo apontado na narrativa. É claro que ele enxerga e expõe isso de maneira metafórica. Postula ainda que, ninguém poderá passar daqui sem carregar uma marca ao menos; mas estas variadas possibilidades de ferida são as marcas necessárias para que se encontre realização nas outras múltiplas áreas da vida. Para Freud, uma fixação ou má elaboração no Complexo de Édipo, localizado na Fase Fálica do Desenvolvimento Subjetivo, pode falar muita coisa sobre a Histeria.

E, se pedíssemos para alguém que exemplificasse os conflitos que carrega desta fase, esta pessoa poderia responder de maneira parecida a esta:

“Talvez um carro mais caro, um bom charuto cubano ou um volume infinito de parceiras sexuais poderiam dar a ilusão, por alguns breves momentos de minha vida, que não fui tão impotente ao perder aquela primeira disputa amorosa quando era criança. Talvez não haja essa falta dentro de mim. Não que eu perceba isso: mas talvez o eterno conflito com aqueles que são mesmo sexo que eu, aqui em minha vida adulta, possivelmente tenha se tornado uma maneira autoafirmativa de me mostrar mais distante àquela inferioridade que eclodiu, e às vezes explode dentro de mim. Talvez eu me sinta menos rejeitado pelas mulheres com quem me relaciono ou pretendo me relacionar, se as objetificar; já que é perigoso tratá-las como um ser humano completo. A última vez que fiz isso me decepcionei muito, de maneira bem parecida como naquela experiência com minha primeira referência. E talvez eu deva de fato ter o mesmo emprego que meu pai; mesmo se eu não gostar tanto da área. Afinal, olha quem… ops, quero dizer, olha o que ele conseguiu para si e eu não. Mas, é importante que eu ressalte: aquela única vez que troquei o Nome de minha esposa pelo de minha mãe, foi simplesmente porque eu estava cansado; foi mera distração e coincidência; elas nem são tão parecidas assim. Elas não podem ser. Até porque, se fossem, a teoria de Freud – que eu acho um absurdo! – até faria sentido”.

A Fase Genital – Da Puberdade até a Morte

puberdade

Após a passagem por todas estas fases e um Período de Latência, entre os 6 anos e a puberdade, Freud vai nos dizer que agora é hora de buscar a realização no mundo exterior (caso do Neuróticos). É hora de buscar relações saudáveis, de própria escolha, fora da dinâmica familiar; é hora de começar a tentar ser, ao menos um pouco, sujeito de sua própria história.

Aqui se estabelecem os grupos de amigos, os grupos profissionais e escolares, os pares amorosos as escolhas futuras. E vale dizer que a passagem pelas outras Fases do Desenvolvimento seja vista, aqui, como grande influenciadora da maneira que utilizaremos para lidar com os nossos conflitos, afetos e até do nosso modo de obtenção de prazer na vida. Aqui se espera que o sujeito já saberá negociar, de alguma forma, às exigências que faz a realidade, sempre em conflito com os impulsos que sente à realização de seus desejos mais primitivos. Espera-se que aqui terá algum equilíbrio Além do Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade; aqui se começa a encarar, como diria Nelson Rodrigues:

ea22f6224a32d1537d36801893bc.png

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Algumas Referências Bibliográficas para Aprofundamento:

Freud, S. (1976a). Três Ensaios sobre as teorias da sexualidade (J.
Salomão, Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. VII ). Rio de
Janeiro: Imago. (Original publicado em 1905).

Freud, S. (1974). A dissolução do complexo de Édipo. (J. Salomão,
Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas (Vol. XIX, pp. 215-226). Rio de Janeiro: Imago.
(Originalmente publicado em 1924)

Freud, S. (1974). Algumas conseqüências psíquicas da distinção
anatômica entre os sexos. (J. Salomão, Trad.). Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XIX, pp. 303-
322). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1925)

Quer saber mais sobre Psicologia e Psicanálise? Inscreva-se em nossos Cursos Presenciais.

O Que São Afetos, Emoções e Sentimentos? Quais as Diferenças entre Eles?

Monalisa

38127482_picture-taken-05-april-2005-in-paris-louvre-museum-of-the-portrait-of-mona-lisa-painted-1

Monalisa, de Leonardo da Vinci, é um quadro que ficou famoso pela confusão causada àquele que o vê. Não se sabe ao certo se a moça sorri, se sofre, se desdenha, suspeita ou odeia. Não se sabe ao certo quais emoções estão ali representadas. Caberá sempre ao expectador da obra nomear os afetos, sentimentos e emoções. Mas a condição primordial para o sucesso do quadro é: apenas aqueles por ele enxergados. É claro que, na variedade da experiência humana, estes poderão ser variados de acordo com a experiência individual de quem vê.

Afeto, Emoção e Sentimento: Conceitos, Semelhanças e Diferenças

Segundo Karen Quigley et al (2014), não existe uma definição amplamente aceita sobre o que é a emoção. Talvez ela fosse um conjunto de pacotes coordenados de experiências de mudanças fisiológicas e de comportamento, ou um Estado Mental que as pessoas associam a algo dito no senso comum (raiva, medo, nojo, tristeza, alegria). E talvez emoções envolvam mudanças no afeto, mas mudanças no afeto nem sempre se transformam em emoções. Mas se preferirmos as definições aqui apresentadas, estaremos longe de algum tipo de consenso ou imparcialidade teórico-científica (QUINGLEY, K.S.; LINDQUIST, K.A. & BARRET, L.F., 2014).

E aqui falamos sobre a psicologia, as neurociências e a psicanálise. Estas que, às vésperas do segundo século de duração, discutem frequentemente um consenso definitivo ou próprio destas emoções, sentimentos e afetos.

A Sociedade dos Psicólogos tentará, com muita parcialidade (já que esta é bastante afetada pela psicanálise), trazer alguns destes conceitos e suas diferenças. Lembramos que isso acontecerá a partir de engendramentos oriundos de múltiplas fontes de leitura. Entretanto, há aqui um aviso: a maioria é psicanalítica. Por isso, são mais do que bem-vindos os comentários, as críticas e os complementos dos leitores deste artigo. Boa leitura.

Emoções e Sentimentos: Psicologia Experimental

Em 1879, em Leipzig, na Alemanha, surge o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Um de seus fundadores foi Wilhelm Wundt, o mesmo autor que, em 1873, publica o trabalho intitulado Principles of Physiological Psychology (Princípios de Psicologia Fisiológica). A intenção declarada de Wundt era, segundo ele mesmo, criar um novo campo do conhecimento: a psicologia.

Como um médico, naturalmente Wundt seria orientado pelas evidências observáveis necessárias para que um conceito seja aprovado pelo método científico. Portanto, o desejo de ser chamado de psicólogo o fez deparar-se, à época, com a dificuldade de explicar aquilo que se experiencia individualmente, aquilo que se passa dentro da cabeça, ou mente, de alguém. Aquilo que a dissecação do cérebro de um cadáver não poderia explicar por si só. Aquilo que se apresenta no relato, pois necessita dele, poderia se tornar, de fato, ciência?
Wundt diz que as sensações e os sentimentos seriam as duas formas básica de experiência humana, postulando ainda que, para que fossem observadas, seria necessária um exame do estado mental experienciado. O autoexame dos estados mentais era chamado por ele de introspecção.

A sensação seria um resultado da comunicação entre o Sistema Nervoso Central e os órgãos dos sentido [no Sistema Nervoso Periférico]. Ou seja, os impulsos resultantes da estimulação do tato, paladar, olfato, visão ou audição atingem o cérebro e aí se “sente” algo. O sentimento, para Wundt, já estaria ligado ao que se percebe na experiência imediata, ou seja, o prazer e o desprazer; a tensão e o relaxamento, e a excitação e a depressão. Para o filósofo, psicólogo e fisiologista, as emoções poderiam englobar este conjunto de percepções fisiológicas que acompanham a experiência.

Sigmund Freud (1856-1939)

Os séculos XIX e XX pareciam carregar, especialmente na França, Alemanha e Império Austro-Húngaro (futura Áustria, após o término da Primeira Guerra Mundial), um interesse especial dos médicos pela mente humana.

Após sua especialização na área de neurologia, o médico Sigmund Freud não se contenta: se encanta com os Estudos de Charcot sobre a Hipnose e o Inconsciente. Decide investigar mais detalhadamente os resultados da experiência, mas não só aquele oriundo das percepções fisiológicas, como também no comportamento contínuo e nas patologias que a medicina não conseguia explicar com sua biologia observável através do método científico.

Em obras importantes à sua teoria, como Estudos Sobre a Histeria (1893-1895), A Interpretação dos Sonhos (1899-1900), A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Totem e Tabu (1913), O Eu e o Id (1923) e O Mal-Estar na Civilização/Cultura (1930) é possível observar que Freud, aos poucos, em uma crescente de seus conceitos, vai creditando à experiência da mente mais do que meros resultados fisiológicos captados pelos órgãos dos sentidos. As experiências postuladas por Wundt – de prazer e desprazer; tensão e relaxamento e excitação e depressão – eram também vistas por Freud através da relação daquele sujeito com aquilo e aqueles que o cercavam. Melhor dizendo, estas experiências seriam moldadas pelos afetos, os fluxos energéticos que acompanhavam as representações mentais criadas nas relações com os objetos externos à experiência individual. O sujeito seria afetado ao longo de suas relações interpessoais. Sua experiência individual era afetada por aqueles que lhe apresentavam e representavam o mundo (a linguagem). Portanto, a introspecção consciente não bastaria para entender as complexidades da mente – a própria consciência não o faria! Suas emoções apareciam de acordo com sua experiência afetiva histórica (talvez até pré-histórica!), ou seja, experienciaria sua raiva da maneira que aprendeu a fazê-lo a partir da relação com o Outro. E isso não seria diferente em sua alegria, medo, tristeza, nojo, vergonha ou culpa.

Contudo, na obra de Freud, o conceito de Pulsão se tornou o cerne de sua teoria. É altamente recomendado que você o conheça melhor ou o reveja no link a seguir:

O que é Pulsão? Qual é a Diferença entre Pulsão e Instinto?

Ao longo de sua obra, Freud enfatiza que estes processos acontecem em Instâncias Psíquicas diferentes que operam de forma conjunta. Seus nomes evoluem junto com seus estudos, mas, em geral, fixa-se o conceito de que: a consciência não governa os sujeitos, apenas auxilia na conciliação das exigências de seu Real Governador (o Inconsciente) e seus Simbólicos Órgãos de Fiscalização – A Leis, a Moral, as regras de convivência em Sociedade (1900). Freud ainda enfatiza que muitas experiências se perdem à consciência, e que a censura oriunda desta é uma forma de proteção ao desprazer, à tensão e à constante necessidade de excitação sensorial que as proibições sociais podem causar àquele que não consegue realizar e, portanto, satisfazer e obter descarga de excitação aos desejos oriundos do próprio Inconsciente. Tudo isso guiado por forças desconhecidas à consciência. Estas forças iriam além das instintivas, comuns aos animais. Portanto, falamos de forças que excederiam as buscas por sobrevivência e reprodução, mas que moveriam a experiência histórica dos seres humanos.

A questão é que tudo isso só aconteceria na relação do sujeito com o Outro. Na maneira em que o sujeito é afetado, após ser invadido pela linguagem, que o ligaria à sociedade, bem como às leis estruturais que a cercam. Portanto, as emoções e os sentimentos poderiam ser produtos da influência destas relações afetivas nas percepções sensoriais. De maneira mais simples: a maneira com que somos afetados subjetivamente, mentalmente, por algo ou alguém, nos permitirá experienciar no corpo o conjunto de sensações e percepções fisiológicas atreladas por associação e/ou causalidade àquilo. Isso ocorre à medida que nos relacionamos com o quê, quem, ou com representação simbólica daquilo que originalmente nos afetou. E, a partir da gravação mnêmica disso, poderíamos repetir um conjunto de afetos antigos a partir de um novo que é experienciado. Ou seja: se me entristece a morte de meu papagaio, em conjunto, a própria tristeza deste fato em si me fará entristecer mais uma vez pela morte de minha avó, algo ocorrido há dez anos.

Esboçamos um sorriso ao recebermos aquilo que fomos ensinados, através linguagem, como sendo um elogio. E o fazemos porque isso também implica que, da maneira que acreditamos ser que somos, nos tornamos objeto de desejo a alguém. Talvez o destino disso se chame alegria. Talvez alguns poetas relatem de uma maneira que se chame amor. Mas é certo que isso também poderá lembrar uma experiência antiga, como a alegria de saber-se amado pelos cuidadores que se tornaram nossas referência afetivas.

Os Outros Afetos

O psiquiatra francês Jacques Lacan (1901-1981) acata a maioria dos ensinamentos Freudianos e, de maneira que pode até lembrar uma crítica ou ruptura, os tenta complementar com o que traz do Estruturalismo de Ferdinand de Saussure, Claude Lévi-Strauss entre outros renomados autores. Mas aqui são citados os que falam mais sobre a linguagem e o estruturalismo.

Sua frase mais famosa é, sem dúvidas, aquela em que diz que O Inconsciente é Estruturado como uma Linguagem. As polêmicas interpretações possíveis são temporárias. Talvez, o mais aceito para o que se quis dizer aqui, pelo nem sempre simpático franco-psiquiatra, poderia ser que: assim como uma linguagem é estruturada, segundo Saussure (1916), a partir de um signo, significante e significado, o Inconsciente Freudiano, conforme Lacan o entenderia, também teria uma estrutura semelhante a esta em sua formação. E Lacan diria isso ao entender que os sujeitos estariam inseridos, invadidos, amarrados e barrados na sociedade através da linguagem. E as mesmas regras sobre a arbitrariedade do signo de Saussure, nas mesmas regras regentes da linguagem, Lacan viu semelhanças às regras que também poderiam reger o inconsciente de Freud. Por exemplo: os Mecanismos de Defesa de Condensação e Deslocamento, postulados por Freud como comuns aos sonhos, poderiam seguir as mesmas estruturas de figuras de linguagem como a metáfora e a metonímia, no que diria respeito à similaridade e contiguidade dos conteúdos. Sendo assim, A Interiorização das Regras dependeria da Interiorização da Linguagem. E a noção, a nomeação do próprio corpo, também. A linguagem se inscreveria nos corpos através de seus significantes, ou melhor, daqueles que vêm do Outro. Portanto, a linguagem estaria no corpo e na mente de maneira estruturada, sempre (bem ou mal) representada através de significantes ligados metafórica e metonimicamente em cadeia associativa.

A questão é que, segundo Lacan, muitos destes significantes, diferentemente do que é postulado por Saussure, poderiam carecer de significado se os observarmos apenas pela sua lógica conceitual. O significado dos signos, daquilo que está nas formas de representação, para Lacan, estaria nas relações com Outros significantes, em uma cadeia de representações inconscientes quase interminável. E de tudo isso dito, se indaga se os significantes também carregariam afeto. Em seu tom de voz, no volume de sua fala, na ordem escolhida para as palavras ou na velocidade do discurso adotado. Neste caso, os significantes também afetariam os sujeitos.

Como escutamos algo? Como somos afetados por algo? Através do que aquilo representa para nós.

E não seriam as emoções, portanto, resultados, destinos e traduções, daquilo que nosso corpo e nossa mente (ambos em função de uma cadeia de significantes) experienciam a partir dos afetos? Ou, pelo menos, como aprendemos a nomear tais coisas?

Aquela bronca que levei de meu pai quando andava de bicicleta na infância, por, segundo ele, estar indo muito rápido. Aquilo me gerou certa raiva ao momento. Sei que é raiva, uma vez que a linguagem, concedida, incidida em mim por meus semelhantes, me ensinou que este era o nome dado ao meu cerrar de punhos e lábios, do ranger de meus dentes e do calor facial (por conta do aumento do fluxo sanguíneo) que acompanham aquela vontade de praticar violência, aquela agressividade ou hostilidade. Entretanto, por ser uma criança em busca do amor de meus pais, eu que não me permitiria sentir esta vontade de aniquilação por quem tanto fazia e poderia fazer por mim. Portanto, consegui expulsá-la de minha consciência à tempo. Ufa! Mas, trinta anos depois, aconteceu um caso curioso: como que uma pessoa tão calma e serena como eu agrediria, violentamente, um guarda de trânsito num surto incontrolável de cólera? Apenas por este me dar uma multa por excesso de velocidade que pratiquei em minha motocicleta superpotente? Ou será que foi a adoção do mesmo tom de voz que, há muitos anos, fora empregado por meu pai? Será que o infeliz guarda de trânsito recebeu toda aquela raiva guardada por trinta anos, apenas por conta de seu timbre, entonação ou volume de voz? Ou foi também alguma outra relação desta cena com a aquela antiga, da bicicleta, que para a realização de um desejo infantil, se tornou uma moto muito potente? Será que foi a semelhança entre o conteúdo da multa e da bronca? Talvez tenha sido todo o conjunto de afetos associados a uma só emoção: a raiva.

Talvez no caso fictício acima tenhamos uma expressão da presença do afeto na linguagem e nas emoções. E aqui falamos de um em especial que tenha sofrido certa repressão da consciência (e é importante diferenciar esta do recalque, mas talvez em um texto à parte) e, anos mais tarde, através de significantes em cadeia de representação (bronca por andar de bicicleta muito rápido – multa por excesso de velocidade; raiva do pai – raiva da figura da Lei, o guarda; tom de voz do guarda – fonte de mobilização do afeto reprimido ao pai: a partir disso tudo, a percepção fisiológica atrelada à raiva – calor, cerrar de punhos, ranger de dentes – se liga ao ato e desejo anterior de agressividade).

Portanto, através da linguagem, os afetos se ligam às percepções sensoriais e podem provocar respostas fisiológicas aos estímulos externos, objetos externos ou significantes (podendo estes três serem um só). Seria isso então a emoção? Uma resposta fisiológica mobilizada pela apreensão de determinados afetos à certas representações de experiência subjetiva?

Os Três Afetos Sociais

A ligação dos afetos à linguagem parece ser tanta, que, para Lacan, três destes seriam exclusivamente sociais: A vergonha, o nojo e a culpa.

Tal afirmação se faria possível pois, para que estas aconteçam, seria preciso que já tenha havido a Interiorização das Regras. Ou seja, a criança ou o adulto precisam conhecer aquilo que se exige e se proíbe socialmente. É necessário já ter sido apresentado, invadido, barrado, representado e afetado pela Linguagem.

Os bebês não parecem sentir vergonha da percepção que teriam os alheios ao cheiro de suas fezes. Mas, é no mínimo curioso, que alguns adultos sofram até de sérias complicações intestinais porque a mera possibilidade de passar vergonha apenas lhes permite defecar em sua própria casa. Talvez pelo medo do julgamento alheio sobre seus próprios odores. Paralelamente, as crianças, nos primeiros anos de vida, não parecem sentir nojo das próprias fezes. Em certa idade, é até possível vê-las exibindo estas aos adultos, como uma espécie de orgulho; as deixando por aí, quase como presentes de fabricação própria: na sala, no quarto ou em algum lugar da casa de fácil visualização.

Antes da Interiorização das Regras, ou seja, da vivência da Castração, no Complexo de Édipo, na Fase Fálica (3-6 anos) da teoria do desenvolvimento psicossexual freudiano, não se tem vergonha dos próprios órgãos genitais à mostra na praia, na rua ou na reunião de família. O próprio manuseio destes, em forma de obtenção de prazer, às vezes acontece em público até que os adultos ensinem a criança que isso não é aceitável. Em contrapartida, já me foi possível conhecer o relato de mulheres que não conseguiram tirar a roupa em um quarto de motel; de homens que utilizavam objetos como desodorantes, pilhas, controle remoto, etc. para que fizesse volume em sua sunga antes de ir à praia. Suas óbvias motivações eram a vergonha do próprio corpo nu.

A culpa também parece ser ausente na criança que, se não guiada corretamente pelos cuidadores, pode até maltratar, agredir e machucar animais, insetos e até outras crianças – enquanto demonstra o deleite daquele divertimento através de seu sorriso puro e simples. Há ali uma diversão não permitida pelas regras sociais que acompanham a invasão da linguagem.

Portanto, a linguagem também afeta as emoções, principalmente aquelas homônimas a estes afetos supracitados, que são experienciadas através da relação com o Outro. Através do ser visto fazendo; do fazer sendo visto; do se ver fazendo, do ver fazendo e sobre como tudo isso lhe afeta.

O Mais ‘Puro’ dos Afetos

Para Lacan (1901-1981), a angústia seria o mais puro dos afetos. Por ser aquilo que se experiencia logo ao saber, ao estranhar, ao separar a imagem de si próprio daquela do Outro.

Os Outros afetos derivariam da angústia. Seja de deformações desta, seja de formas a fugir dela como ela mesma, como possibilidade. A vergonha poderia ser angústia de saber-se não amado e/ou tal possibilidade? O nojo poderia ser a fuga da angústia que poderia causar a memória de algo que já foi prazer em outros tempos? Ex: a criança que brincava com as próprias fezes não consegue sequer ouvir tal palavra sem sentir um grande incômodo psíquico na vida aduta.

Numa investigação mais detalhada, talvez seja possível até encontrar na essência de uma vergonha, nojo ou culpa, a presença de uma ou algumas fantasias inconscientes. Acredito ser bem possível, a não ser que se considere, na psicanálise, uma mera coincidência a ampla presença da fala “eu sou tímido” no meio artístico. Curiosamente, esta acaba sendo uma fala recorrente no meio que concerne à prática do teatro, talvez a maior exposição do próprio ser ao julgamento alheio – aquilo que os tímidos abominam à todo custo. Como ator amador, não foram raras as vezes que a ouvi de algumas pessoas que, momentos antes, observei, explicitamente, quebrarem muitas “regras sociais” ao palco. Mas aí entraríamos na discussão do que representaria a figura do personagem ao sujeito, coisa para Outro texto.

View this post on Instagram

"Vamos para casa". A negação é um dos Mecanismos de Defesa do Eu mais primitivos, geralmente o primeiro estágio do luto. Em Deusumanos (19/05 à 03/06 de 2018) o personagem Augusto entra em profundo estado de negação perante a morte de sua filha Ingrid (Vivian Bianchin). Na negação descarta-se, desconsidera-se um dado da realidade quando este é oriundo de um enorme sofrimento ou possibilidade deste. Para Augusto, toda a dor ligada à culpa e à angústia daquele momento foram substituídas por sua dissociação da realidade. Preferiu acreditar que iria levar sua filha para casa, que esta estaria a dormir, já que, inconscientemente, "sabia" que não lhe restavam mais recursos para lidar com aquela perda.

A post shared by Caio Cesar Rodrigues (@caiocesarpsi) on

Considerações Finais

Quando se diz que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, inclui-se a dimensão do afeto, já que a linguagem também traz afeto através de suas entonações, timbres e, principalmente, por quem (o quê) a traz.

O afeto e as emoções, talvez não pudessem ser uma descarga de excitações endógenas dos órgãos perceptivos, exclusivamente, uma vez que eles acompanham muitos significantes em suas apresentações e representações. Se a emoção é o destino do afeto, esta rota entre origem e destino só poderia ser traçada através da linguagem. Por exemplo, a angústia perante possibilidade de não ser amado pelo Outro ao falar palavrões, impede que algumas pessoas os falem ou os escutem sem enrubescer de vergonha ou que os falem de fato. Em casos extremos, a própria escuta ou possibilidade de fala de tais significantes barrados pela linguagem, poderia angariar descargas de angústia através de sintomas como ansiedade, pânico e fobias em geral.

O afeto acontece na relação do sujeito com o Outro. Acontece em como o sujeito, sem querer querendo, se afeta nesta relação. O Outro o afeta com sua linguagem e este, quando a aprende, inevitavelmente carrega as excitações por esta produzida em seu corpo e, principalmente, ao conteúdo psíquico ao qual estas ficaram ligadas (através de representações e/ou significantes). Se aprendo a linguagem com o Outro, aprendo à maneira com que esta me afeta na relação intra e intersubjetiva. Portanto, se a emoção é o destino do afeto, individualmente falando, aprendo com meus pais que sinto raiva enquanto a percebo através da linguagem apresentada por eles. Sendo afetado por eles, através das representações simbólicas associadas através da linguagem, ligo estes afetos que carrego junto à minha definição de raiva às minhas percepções de experiências sensoriais neurobiofisiológicas. Isso tudo, através de uma relação estabelecida na cadeia de significantes que também carregam afeto. É preciso dizer que este processo seria inconsciente?

Estas percepções neuro biofisiológicas me causam calor, aumento do fluxo e pressão sanguíneos, contração dos músculos da face (sobrancelhas franzidas, lábios cerrados, olhos brilhantes), das mãos e de outras áreas do corpo. Entendo que, na relação que tenho com os Outros que me afetam, que minha emoção (raiva) é o resultado da não satisfação imediata daquilo que acredito que me trará prazer; da ausência de alívio de minha tensão, e/ou da descarga de excitação sensorial (ver grifo em A Interpretação dos Sonhos, Freud, S. 1900. cap. 7) que agora só me parece possível através da agressividade. Mas é também importante saber que isso me foi trazido também através da linguagem.

Entretanto, se isso é nomeado e apresentado por aqueles que diariamente me afetaram, de alguma forma mais intensa, em algum período mais crítico de minha formação psíquica, poderá haver certa ligação entre meus atos, aquilo que entendo destes e a percepção disto em meu corpo com desejos, expectativas e valores destas pessoas – geralmente subjetivamente entendidos como próprios. Sendo dado o nome de emoção a esta resposta fisiológica àquilo que me cerca, variando sua excitação sensorial de acordo com o que meu corpo e mente seriam, histórica e pré-históricamente programados. Há uma descarga de excitação biológica, uma experiência de um conjunto de hormônios, sensações e percepções aos órgãos dos sentido e do Sistema Nervoso Central e Periférico, a partir de um conjunto de afetos que um determinado ato pode representar com um significante, objeto externo e/ou estímulo.

Se fui censurado na infância pelo meu pai, e tive que reprimir ou até recalcar a maneira com que fui afetado por isso, talvez com raiva, ódio ou desejo de aniquilação através da força impulsionada por minha agressividade (situação inaceitável à consciência, que obrigaria o sentimento de gratidão ao amor dos pais), alguém que me censurar com uma fechada no trânsito poderia, em seu azar, experimentar toda aquela descarga bio-psico-fisiológica que aquela raiva, agora representada num soco, produziu e reservou décadas atrás. Se isso for verdade, certamente seria por conta desta pessoa da fechada ser responsável, sem saber, por eliciar uma representação afetiva simbólica (significante) linguisticamente associada às respostas e movimentos de meu organismo.

A Emoção se torna condicionada às representações do afeto que a linguagem foi capaz amarrar ao corpo, mas ainda da maneira que o indivíduo a experiencia por conta própria. Mas pra quê serve, então?

É preciso dizer que nos primórdios existenciais do Homo Sapiens, as descargas fisiológicas oriundas das emoções que eram experienciadas poderiam até apresentar um papel relativo à sobrevivência e à reprodução da espécie. Como por exemplo: há uma descarga de adrenalina (frio na barriga), dilatação da pupila (visão mais precisa do mundo externo), aumento da produção de energia (oxigênio – coração disparado ao extremo) para que se corra ou se lute perante uma ameaça à vida. Mas, nos dias de hoje, esta experiência é descrita perfeitamente por aqueles encaminhados ao psicólogo ou psicanalista pelo cardiologista, que visitaram com um ataque agudo de ansiedade, geralmente confundido com um infarto agudo do miocárdio.

Curiosamente, isso acontece fora da floresta. Bem distante mesmo. Geralmente em situações que não oferecem risco algum á vida, como por exemplo: sentados no confortável sofá da própria casa.

Para Não Dizer que Não Falei dos Sentimentos

Os sentimentos, por último, poderiam ser aqueles afetos e emoções que estão unidos através do laço social. A tradução social dos afetos. Através da linguagem compartilhada. Os sentimentos poderiam ser os afetos que chegaram ao coletivo, já que a maioria é sentida de maneira tão pessoal e única que parece não haver compreensão daquilo por alguém que não seja o sujeito ele próprio.

Os escritores e poetas e músicos são aclamados porque conseguem transformar os afetos vivenciados em sentimentos, pois foram, através da linguagem, traduzidos do individual para o coletivo. Isto é, através do que eles escrevem é possível ao leitor ler e escutar os próprios afetos. Encontrar representação. Estes seriam dificilmente verbalizados durante a própria experiência, mas agora estão perfeitamente localizados, representados nos significantes escolhidos por aqueles que souberam unir sua experiência idiossincrática à coletiva. Algo possível apenas àqueles dotados de uma avançada percepção da linguagem, perante aquilo que os afeta.

Quer saber mais sobre emoção?

Inscreva-se já para o 2º curso presencial de Introdução à Psicologia das Emoções. Dia 22/09/2018 em São Paulo. Vagas limitadas!

Mais informações:

http://cicem.com.br/cursos/introducao-psicologia-das-emocoes-sp/

Quer saber mais sobre afeto e psicanálise?

Inscreva-se no 7º curso presencial de “Introdução às Psicanálises”, de 4h de duração (inclui certificado digital), vai ocorrer no dia 21 de Julho de 2018 e irá expor alguns dos conceitos centrais referentes à perspectiva de 4 influentes autores psicanalistas (S. Freud; J. Lacan; M. Klein; e D. Winnicott), sendo ideal para estudantes dos primeiros semestres de psicologia que querem aprimorar seus conhecimentos sobre psicanálise e psicologia.

Venha aprender com a Sociedade dos Psicólogos, faça já sua pré-inscrição: sociedadedospsicologos@gmail.com

Procura Psicoterapia?

Entre em contato com os nossos psicólogos e agende uma entrevista através do nosso Canal de Comunicação (clique aqui).

psicoterapia

(Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso seja o proprietário de uma delas, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente)

REFERÊNCIAS – *Também considerar as bibliografias citadas apresentadas ao longo do texto (Por ordem livre).

Afeto, emoção e sentimento na psicanálise | Christian Dunker | Falando nIsso 146

Paiva, Maria Lucia de Souza Campos. (2011). Recalque e repressão: uma discussão teórica ilustrada por um filme. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 2(2), 229-241. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-64072011000200007&lng=pt&tlng=pt.

Quingley, K. S.; Lindquist, K. A. & Barret, L. F. (2004). Inducing and Measuring Emotion and Affect. In Handbook of Research Methods in Social and Personality Psychology. Ed(s) Reis, H.T.; Judd, C.M. Cambridge University Press. p. 220-252

Pinheiro, Elaine, & Herzog, Regina. (2017). Psicanálise e neurociências: visões antagônicas ou compatíveis?. Tempo psicanalitico, 49(1), 37-61. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382017000100003&lng=pt&tlng=pt.

Ravanello, Tiago, Dunker, Christian Ingo Lenz, & Beividas, Waldir. (2018). Para uma Concepção Discursiva dos Afetos: Lacan e a Semiótica Tensiva. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(1), 172-185. https://dx.doi.org/10.1590/1982-37030004312016

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

Criminalidade, Desigualdade Social e o Mal-Estar na Civilização

É famosa a frase que diz: o crime não compensa. Mas será que a vida em Civilização o faz? Em um de seus últimos trabalhos, Freud (1856-1939) tenta, com o conhecimento que acumulou durante toda a sua vida de neurologista e psicanalista, entender como ocorreu a formação da cultura. E mais: como esta se assemelha e se difere da formação psíquica dos indivíduos que a formam. Entretanto, no atual conjunto de culturas do mundo globalizado, o Brasil é conhecido por traços que cruzam corrupção, futebol, nudez, praias e festas e, mais recentemente, pela alarmante desigualdade de renda e o alto índice de crimes contra o patrimônio. Poderíamos entender estes fenômenos como parte de uma cultura madura ou como sintomas de uma cultura? Mais ainda: quais seriam os sintomas que esta cultura causaria em nossos indivíduos? É o que o artigo a seguir tentará expor em conjunto com uma leve revisada na obra de Sigmund Freud publicada em 1930. Afinal: furtar tornou-se frutífero? No Brasil o Crime compensa o Castigo?

Um estudo conduzido em 2011 por João Paulo de Resende, mestre em economia pela UFMG e por Mônica Viegas Andrade, doutora em economia pela FGV, teve como alvo os crimes cometidos em municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes. Sua conclusão final, baseada exclusivamente em dados empíricos, foi que: os níveis de desigualdade de renda (poucas pessoas ricas, muitas pessoas pobres) nestes municípios estavam frequentemente relacionados aos níveis de ocorrência de crimes contra o patrimônio (furtos, roubos, latrocínios) e pouco aos crimes passionais, onde o indivíduo, quando exposto a alguma situação que o leva a intenso estresse emocional, apresenta um lapso na inibição de seus impulsos e comete um crime – geralmente contra quem o propicia tal estresse.

Esta conclusão empírica nos faz crer, a princípio, que quanto maior o patrimônio de poucos, mais indivíduos (geralmente os de pouco patrimônio), cometerão crimes que têm o patrimônio em si como alvo. Como se nesta relação empírica houvesse uma reivindicação inconsciente da maior recompensa que a civilização capitalista moderna oferece ao indivíduo: a satisfação através dos materiais de consumo. É importante, é claro, ressaltar que quando esta satisfação é buscada através do crime, ela dispensa uma das grandes engrenagens de uma sociedade: o trabalho – e, principalmente, as renúncias de prazer que este envolve. Será que quando falamos dos crimes relacionados ao patrimônio, poderíamos também dizer que, no caso do furto, também o indivíduo furta-se dos sacrifícios às satisfações? Sacrifícios estes que são tão exigidos pelo trabalho. E no roubo, também não rouba-se o prazer, a satisfação que ostenta o Outro, de maneira considerada injusta por um que não a alcança, por mais prometida que esta lhe seja, perante suas renúncias?

 

Desigualdade de Renda no Brasil

Desigualdade-de-renda-no-Brasil

Uma pesquisa recente, realizada pelo economista Thomas Piketty e um conceituadíssimo grupo de pesquisadores em seu apoio, aponta que, no Brasil, quase 30% da renda do país se encontra com apenas 1% da população. E, para complementar, 10% da população mais rica do país também carrega 55% de toda a renda local. A óbvia lógica disso tudo? Mais pessoas dividem menos dinheiro enquanto menos pessoas dividem mais dinheiro.

Isso até poderia ser menos incômodo se, proporcionalmente, todos pagassem taxas de impostos equivalentes ao que ganham. Entretanto, além da progressiva taxa dos impostos de renda, o Brasil traz uma tributação nos bens de consumo – a principal fonte de satisfação insinuada pela nossa atual sociedade – de cerca de 40% do valor. Ou seja, um produto de 100 reais, custa cerca de 40 reais em impostos. Acontece que, quando o salário mínimo do país é um pouco menos de 1000 reais, estes 40 reais se tornam um pouco mais de 4% de todos os ganhos de uma pessoa que recebe um salário mínimo, atualmente considerada como pobre (sem contar o valor que esta pessoa já paga de imposto de renda, cerca de 8%). Mas, ao mesmo tempo, se uma pessoa que recebe um salário que gira em torno de 100.000 reais compra o mesmo produto de 100 reais, se aqui não falhar a matemática de alguém das ciências humanas, esta pessoa gastará apenas 0,1% de seu salário. Ou seja, em termos de proporção do patrimônio, os mais pobres acabam cedendo mais de seu patrimônio em impostos do que os mais ricos. E isso se amplifica mais ainda se falarmos sobre Lucros e Dividendos de empresas (que em alguns casos excede a casa dos milhões), onde praticamente não há imposto cobrado.

Ou seja, mesmo que as pessoas mais pobres sacrifiquem seus impulsos pelo sono, pela farra, pelo sexo e pela agressividade pelo bem da sociedade, estas não serão tão bem recompensadas pelos sacrifícios quanto as pessoas mais ricas. É como teria dito o filósofo Zizek: “há alguém furtando o nosso gozo”. Será que, na suspeita do furto de um gozo, furta-se a metáfora para o retorno literal da palavra? Ou seja: a suspeita do furto (metafórico) do gozo ocasionaria o gozo do furto (literal)?

O Mal-Estar na Civilização

Já no ano de 1930, Sigmund Freud (1856-1939) publica uma de suas obras mais importantes, denominada “O Mal-Estar na Civilização” (“O Mal-Estar na Cultura” em algumas traduções). Arriscando o perigo de sintetizar demais, poderia-se dizer que ali Freud (2011) tentava explicar – através da relação de muitas de suas obras anteriormente produzidas, de poemas e romances de Schiller e Goethe, de apontamentos realizados por Rousseau e outros filósofos ou até criticando a tese do comunismo trazida por Karl Marx  – sua tese de que as exigências de uma cultura (ou de uma civilização), estariam – sem exceção – em desacordo com os impulsos agressivos e/ou destrutivos e sexuais dos indivíduos que a ela pertencem. E, a partir daí, os indivíduos deveriam procurar outras formas de felicidade, seja para o encontro ou prazer ou para o evitar do desprazer. Alguns se isolam, alguns usam drogas lícitas ou ilícitas, alguns amam; alguns trabalham, alguns fazem amigos, alguns adoecem e/ou ficam loucos; alguns fazem bem ao próximo, outros simplesmente infringem as regras e aceitam as punições (ou fogem delas enquanto é possível). Há ainda os que fazem isso tudo ao mesmo tempo enquanto acreditam fazer parte de uma casta, considerada por eles mesmos como boa da sociedade – aqui falamos dos cristãos, mas, sejamos justos: nem todos e nem só estes.

E Freud (2011) continua, dizendo que pode-se até encontrar relação àquilo que frequentemente está inconsciente na neurose mas explícito nos preceitos estabelecidos em uma civilização através de suas Leis e regras – a necessidade de inibição de impulsos agressivos e sexuais que, apesar de causarem satisfação imediata nos indivíduos, estão em desacordo com o considerado necessário para o bom convívio em sociedade. O resultado esperado, segundo o psicanalista (2011), era que a cultura ou civilização, juntamente com o indivíduo, deveriam criar, através da evolução de um sentimento de culpa, uma eficiente instância de censura a estes impulsos – um Supereu. Ou seja, a cultura oferece repressão, através da retirada do Direito à Liberdade (prisão), caso o indivíduo exponha seus impulsos agressivos através de um crime e transgrida as Leis, da mesma forma que a criança perderia o amor dos pais se fizesse o mesmo, ou pior, expusesse sua sexualidade e agressividade inata, fora do que é aceito aos pais daquela época, através da Castração, no Complexo de Édipo.

Mas conforme Freud (2011) explica, o papel do Supereu excederia o medo à repressão através da perda da liberdade ou do amor dos pais, o Supereu teria um papel Superior de censura. Do tipo que forçaria os indivíduos a algo além de renunciar às satisfações que mais acreditam que lhes daria prazer por medo das represálias: o próprio desejo de realizar tais satisfações já causaria culpa e às vezes até autoagressão, não sendo o ato necessário. Como se o processo fosse automático, introjetado e mantido pelos indivíduos. Entretanto, é ressaltado pelo Pai da Psicanálise (2011) que, mesmo que nem tudo seja satisfeito, para que haja algum tipo de organização psíquica no indivíduo saudável, ele precisará direcionar estes impulsos proibidos às formas de expressão aceitas pela sociedade, em sua busca pela sua satisfação. Ou seja, uma criança muito agressiva, por não poder manter este comportamento na vida adulta, em função das Leis da Sociedade, poderá se tornar um adulto lutador de artes marciais – e há de se observar que, paradoxalmente, estes indivíduos costumam ser pessoas calmas e pacíficas, uma vez que conseguem expor seus impulsos agressivos através de suas atividades. Da mesma forma, supõe-se na sociedade que aquele que abdicar do prazer imediato e se dedicar ao trabalho e não cometer crimes, poderá ter dinheiro para consumir os produtos que lhe trarão satisfação – carros, motos, celulares, aparelhos eletrônicos e roupas em geral. Mas o que acontece quando esta abdicação não é recompensada e, ainda por cima, é exibida em Outros que parecem realizá-la em menor ou nula medida?

Se arriscarmos um palpite no que foi dito por Freud (2011), poderíamos dizer que enquanto um sintoma do indivíduo por renunciar os desejos que vê causar prazer no Outro é a neurose, um sintoma da cultura que faz indivíduos renunciarem seus desejos e não lhes dá a satisfação (no caso da cultura capitalista, o consumo) é a criminalidade. E podemos ir adiante dizendo que, assim como o sintoma é a maneira negativa da realização do desejos em paralelo à sublimação como maneira positiva; a criminalidade apareceu como uma maneira negativa desta realização e, além do trabalho, que nem sempre ou quase nunca a cumpre, um novo fenômeno parece encurtar este caminho.

E a tese inicial do neurologista, aquela em que ele diz que haverá sempre uma divergência entre o exigido pela cultura e o que é desejado pelo indivíduo (2011), parece fazer muito mais sentido quando falamos sobre o sentimento de injustiça, sentido através da desigualdade de renda, e o que os Estudos Econômicos de Resende e Andrade (2011) publicaram sobre a relação desta desigualdade com o aumento dos crimes contra o patrimônio. Como se a desigualdade de renda corroborasse uma prévia recusa, através da criminalidade, à renúncia dos indivíduos aos impulsos, mas não ao gozo que é atribuído ao suposto prêmio por tal renúncia.

Conclusão

Poderíamos então dizer que a formação de uma civilização terá como base um mecanismo semelhante à formação psíquica de um indivíduo: para que tudo dê certo, renúncias serão necessárias. Mas supõe-se, erroneamente, que todos os indivíduos partem de uma mesma constituição psíquica na hora de criar-se uma Constituição Federal. Ou seja, esqueceram que haverá um conjunto de indivíduos que não estão dispostos a abrir mão de suas satisfações pelo bem-estar de sua cultura – a partir daí, viu-se necessário a criação de um sistema prisional. Mas, entrelinhas, parece haver a insinuação, por parte da sociedade, que está garantido a quem cumprir com suas renúncias e horas de trabalho, o gozo através do consumo. Contudo, a desigualdade de renda de um país parece acabar desmentindo esta suposição.

Quando o Brasil é tomado como exemplo, vê-se que uma pequena parte da população detém uma enorme parte das riquezas, ou seja, do gozo através do consumo. Em outras palavras, pesquisas recentes sobre a desigualdade de renda apontam, de cara, que alguém irá obter mais satisfação; poucos gozarão mais do que muitos. Isso quer dizer que já está pressuposto a muitos que optarem pelo sacrifício de seus prazeres imediatos a ausência daquela prometida satisfação. Eis a dúvida de quem é pobre por aqui: “a renúncia de minha satisfação, sob o único risco de sofrer a privação da liberdade por algum tempo, vale mais a pena? Por quanto tempo conseguirei assistir ao gozo do Outro com menos sacrifícios do que eu?”.

A pesquisa evidenciada no começo do artigo parece, de alguma forma, apontar que há na Sociedade Brasileira, ao menos nas cidades com mais de 100 mil habitantes, uma constante reivindicação pelo gozo através do patrimônio. Através de uma vasta pequisa de dados empíricos, viu-se que quanto mais patrimônio é reservado à pequenas parcelas da população, mais crimes contra o patrimônio são registrados em uma sociedade. É como se as Massas informassem, de forma violenta e irracional, que recusam o sacrifício desproporcional ao gozo do Outro. Como se a criminalidade fosse o ato de ignorar a placa que diz “não pise na grama”, enquanto o gozo através do patrimônio fosse o ato de chegar ao lado oposto; mas parece que lá já se encontra alguém, separado pela mesma grama, que não precisou dar a cansativa volta que indica aquele caminho preestabelecido. Portanto, parece que, quando se deparam com este outro alguém em pleno gozo com menor sacrifício, mais pessoas optam por pisar na grama e, não obstante, tentam expulsar o Outro do lugar que agora acreditam terem chegado.

Se há mais dinheiro para se dividir com menos gente e, consequentemente, menos sacrifícios para esta pequena parcela, a outra parcela, aquela que dividirá menos dinheiro com mais pessoas, terá mais sacrifícios a fazer. Mas a pesquisa de Resende e Andrade (2011) indica que, nestas situações, parece haver uma recusa às Leis na mesma medida. Uma recusa aos sacrifícios e uma tomada violenta e simbólica do prazer que enxergou o Outro satisfazendo: nega-se o esforço do trabalho exaustivo por pouco dinheiro e acata-se a tomada do patrimônio através do crime. Apesar desta ser uma informação de teor óbvio, é importante ressaltar que este artigo não está legitimando crime algum, muito pelo contrário, as relações entre os meios empregados pelos neuróticos para fugir das restrições da cultura (álcool, amor, isolamento, construções, consumo e trabalho), podem encontrar também, para uma parcela da população, refúgio no crime, quando ele passa a acontecer em proporções tão frequentes que chega a compensar.

O sujeito tem sua constituição psíquica formada da mesma forma que a cultura tem sua Constituição Federal. E assim como o neurótico, que quando finalmente aceita a abdicação da satisfação de seus impulsos agressivos e/ou sexuais em nome das exigências da cultura, sofre com o sintoma da neurose como forma de punição e realização à renúncia destes desejos inconscientes que não foram compensados através da sublimação; a Cultura também poderá sofrer a punição da elevação da criminalidade, crescente à medida em que as pequenas gratificações (o consumo, o gozo de bens materiais) não vêm de encontro, de maneira igualitária, aos sacrifício dos neuróticos que nela vivem mas continuam sendo seu objeto de desejo pregado como ideal dela mesma.

Isso não quer dizer que a ideia comunista seja a solução. O próprio Freud, neste mesmo texto (2011), já refuta esta ideia, dizendo que há no ser humano o impulso à agressividade para com o Outro que excederá sua realização apenas através da propriedade privada; portanto, não será o fim desta o sinônimo do fim da violência. Também sabemos que anos mais tarde, através dos resultados da implantação do sistema econômico transicional do socialismo em vários países do mundo, com o comunismo como finitude, pudemos observar que a suposição de que todos os indivíduos poderiam partilhar de uma renda comum, de um estilo de vida igualitário, acabaria no campo utópico. Confirmando as previsões de Freud, o socialismo acabou mais sendo utilizado como transição a algum Outro tipo de ditadura do que ao comunismo em si.

Mas, para finalizar, algo há de ser dito: seja no capitalismo, socialismo ou comunismo, o ser humano parece não ficar livre de seus impulsos mais primitivos de agressividade e sexualidade, principalmente quando estes se mostram de maneira incessante, como é o caso das Pulsões. E por mais que a cultura exista exclusivamente para conter estes impulsos e permitir uma vida pacífica entre os indivíduos inibidos entre si, ela precisará, de alguma forma, compensar a renúncia de todos estes de maneira satisfatória através de suas possibilidades de sublimação oferecidas. De outro modo, haverá aquilo que a história e agora as estatísticas nos apontam: violência. Roubo (como é o caso explicitado aqui no artigo), homicídio ou suicídio; tomada do Poder, aniquilação do Outro ou aniquilação de si. Para a cultura não importa, o que prejudica um ou outro indivíduo, a prejudica, de um modo ou de Outro, como um todo. Porque se a neurose é um sintoma do indivíduo, a criminalidade é um sintoma da cultura.

Referências

Crime social, castigo social: desigualdade de renda e taxas de criminalidade nos grandes municípios brasileiros – João Paulo de Resende; Mônica Viegas Andrade. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-41612011000100007

Brazil – WID – World Inequality Database (Top 1% fiscal income share, Brazil, 2001-2015 and Top 10% fiscal income share, Brazil, 2001-2015) – Thomas Piketty and group. http://wid.world/country/brazil/

Freud, Sigmund, 1856-1939. O mal-estar na civilização/ Sigmund Freud ; tradução Paulo César de Souza. – 1ª ed. – Sâo Paulo : Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

(Todas as imagens contidas neste artigo foram retiradas da internet. Caso os direitos sobre alguma destas imagens lhe pertença e você deseja a remoção desta, entre imediatamente em contato com a Sociedade dos Psicólogos)

Onde pode trabalhar um psicólogo além da Clínica e do RH? Outras Áreas de Atuação da Psicologia

Já está bem definido no Imaginário popular o trabalho de um psicólogo. A princípio, vê-se um sujeito deitado no divã. O outro, naquela sala à meia luz, está geralmente tomando nota em um bloco que apoia em cima de suas pernas cruzadas. E, se não estiver, haverá uma exímia necessidade de sua mão apoiar seu queixo – nem sempre por completo, às vezes é de modo parcial, deixando sobrar um ou dois dedos à bochecha adjacente – pois este haverá de ser representado em seus momentos pensativos, desconsiderando quaisquer reflexões sobre esteriótipos. Menos comum, é preciso dizer, mas pode ser também que este seja representado ao porte de seu cachecol ao pescoço – que é presente mesmo que sua função seja desnecessária às condições climáticas apresentadas num país tropical como o nosso. E sim, na maioria das vezes, será atribuído ao profissional algum grau de miopia, hipermetropia ou qualquer outra disfunção no trato visual, uma vez que este estaria sempre vestindo suas lentes. Se ficar difícil imaginar, observe as duas imagens a seguir.

psychologist

É de se admitir que, mesmo com os protestos ao esteriótipo, tal visão representada em filmes, séries e fotografias não carece tanto de verdade. Esta visão se aproxima sim, de alguns psicanalistas e psicólogos clínicos (entenda as diferenças), mas não pode e nem deve representar toda a classe. Pois há, sim, como veremos adiante, inúmeras áreas de atuação da psicologia e muitas delas fogem do Imaginário popular.

A área da Psicologia Organizacional, mais comumente na atuação no setor de Recursos Humanos (RH), também é mais reconhecida no dia-a-dia como um campo de atuação de psicólogos, e é exatamente por isso que ela não será apresentada no post, junto à Psicologia Escolar, já que aqui serão mostradas outras áreas onde a profissão ainda é vista com tom de surpresa.

O Psicólogo Hospitalar

hosp

Demorou algum tempo para acontecer e, há de se confessar, ainda é um pouco difícil para alguns profissionais da área (médicos, enfermeiros e/ou técnicos e auxiliares) mais conservadores, a compreensão da importância do psicólogo no ambiente hospitalar.

O hospital é um ambiente transicional. E é direcionado na maioria das vezes ao seu objetivo imediato – salvar e manter uma vida a qualquer custo. E este objetivo já foi plano de fundo para pensamentos mais superficiais, que deixam o real trabalho do psicólogo um pouco ofuscado. Um exemplo, real, é a seguinte frase: “[…] aqui não é lugar de conversar, o que um psicólogo pode fazer para uma perna quebrada?”.
Dita por um profissional da enfermagem, a frase é recente e representa a dificuldade na compreensão do trabalho da psicologia hospitalar por outros profissionais, mesmo nos dias atuais, onde a psicologia já é bem mais difundida.

Este artigo científico, publicado em uma importante revista, revela o impacto que a aderência do paciente ao tratamento tem e que ela é sim, um fator de significativas taxas de melhora dos quadros. E não é incomum que questões emocionais, sócio-culturais, familiares e até, em alguns casos, psicopatologias, sejam fatores que bloqueiam a completa recuperação de um paciente. Seja por questões psicossomáticas, que poderiam confundir a aparição ou remissão de sintomas, seja bloqueios emocionais causados por questões subjetivas que podem prejudicar o tratamento.

E o trabalho do psicólogo hospitalar não se limita apenas aos pacientes. Além do acompanhamento psicológico destes e das avaliações psicológicas, há também grupos terapêuticos com os familiares, que em alguns casos até adoecem junto ao paciente; grupos com a equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, etc), uma vez que os profissionais de saúde têm condições de trabalho e rotinas muito exaustivas e também presenciam cenas que corroboram muito com o aumento de seu sofrimento psíquico, cabendo ao psicólogo hospitalar identificar, apontar e trabalhar em grupo ou individualmente; é também possível para o psicólogo indicar um colega de profissão para o acompanhamento individual a longo prazo de alguns portadores destas demandas, já que o trabalho de psicologia hospitalar tende a ser mais breve. Hospitais de largo reconhecimento e porte como o Hospital Israelita Albert Einstein e o Hospital das Clínicas, ambos em São Paulo, são referência no trabalho e na formação, a nível de excelência, dos profissionais da Psicologia Hospitalar no Brasil.

O Psicólogo Jurídico e/ou Forense

psicologia-juridica-930x375

Outra área menos difundida do trabalho do psicólogo está na junção de duas grandes áreas do conhecimento: a psicologia e o direito.

O psicólogo jurídico atua, principalmente, realizando avaliações psicológicas nas varas criminal, da família, cível e trabalhista. Seu trabalho consiste em entrevistas, aplicação de testes psicológicos e na elaboração de laudos que se aproximem ou se afastem das hipóteses de possíveis perfis psicológicos retratados em vítimas, agressores, pais e mães (em casos de disputa de guarda), criminosos, empregadores e empregados, etc. Há também o lado de produção científica, onde o trabalho pode ajudar na ampliação das estatísticas, relações de dados e na difusão e inclusão de novos conhecimentos aos profissionais da área.

Um laudo emitido por um psicólogo jurídico, ou forense (do fórum), é muitas vezes fator decisivo em ambientes judiciais, sendo um trabalho similar ao de uma perícia. O profissional, apesar de preservar algumas questões sigilosas de quem ele avalia, irá basear seu laudo nas demandas específicas de cada caso, procurando apontar se as características da personalidade e do discurso daquele sujeito se adequam ao é apresentado e/ou representado em julgamento por ou contra ele.

Ainda na área, há também psicólogos que fazem o trabalho específico de perito. Este trabalho acontece dentro das polícias militar, civil e federal e até na Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Psicólogo do Trânsito

pisico20transito

No Brasil, quem vai tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), necessariamente precisará por um processo burocrático levemente extenso. Orientação das leis de trânsito, das penalidades, aulas práticas e teóricas sobre tudo isso. Haverá também os famosos exames médico e psicotécnico. Este segundo é aplicado por um psicólogo do trânsito.

Testes sobre atenção, cognição, e características da personalidade corroboram uma rápida entrevista onde se avalia se aquela pessoa está apta a conduzir um veículo em sociedade. Uma pessoa altamente desatenta ou agressiva não costuma ser elegível para tal, mas dificilmente esta se revelaria desta forma em uma simples entrevista. Portanto caberá ao psicólogo levantar ou descartar tais hipóteses a partir de seus conhecimentos e instrumentos de trabalho.

Mas o trabalho do psicólogo do trânsito não acaba aí. Há também a área de pesquisa, onde se analisa os comportamentos no trânsito – dos motoristas e pedestres – de diferentes cidades, estados, países, classes sociais, etc. Há até trabalhos revelando como alguns perfis de personalidade podem ser fatores de influência em acidentes de trânsito. E, se através de algumas fechadas propositais, conversões proibidas e desrespeito à sinalização é possível ver a corrupção no trânsito, por que não alguns indícios da personalidade? E por que não até os de algumas psicopatologias?

Psicologia do Esporte

psicologia-esporte

Em 2014 a Seleção Brasileira de Futebol, em seu próprio país, foi eliminada da Copa do Mundo pelo placar de 7×1 enquanto jogava contra a Seleção da Alemanha.

Apesar de as características técnicas dos jogadores de ambos os times não se distanciarem tanto, a expressiva disparidade no placar provocou uma revolta constante nos torcedores. Em um país onde o futebol é forte aspecto cultural, houve aí uma agressão quase (quase?) pessoal aos torcedores. Muita raiva e frustração foram direcionadas à comissão técnica, aos jogadores e aos dirigentes. Mas uma matéria do jornal O Globo apontou um aspecto importante: a falta do acompanhamento psicológico da Seleção Brasileira foi sim, um grande agravante. Uma matéria do jornal El País também destaca que sim, em nosso país os clubes desprezam este aspecto.

A própria Seleção da Alemanha conta com uma equipe de 12 psicólogos, e os jogadores são acompanhado desde as categorias de base. Mas o que faz um psicólogo do esporte?

O trabalho do Psicólogo no Esporte acontece de maneira semelhante aos outros contextos, mas com diferenças fundamentais. São avaliados os estados psicológicos dos atletas, indispensavelmente. Mas além disso há um acompanhamento a longo prazo de tais aspectos, conhecendo os principais fatores de oscilação à motivação e desmotivação, por exemplo, e de outros que se aliam ao desempenho de cada atleta. Isso é observado em cada atleta à sua maneira e também à equipe como um todo.

Conforme dito, é também fruto da avaliação o conjunto de condições dos outros profissionais da equipe, bem como as condições de relacionamento destes entre si, com os atletas e, é claro, dos atletas entre si. Na própria Copa de 2014, o jogador Neymar estava lesionado, sendo ele uma grande aposta da equipe e também já bem entrosado com seus colegas. Seria possível ali trabalhar como isso seria vivido pela comissão, pelos jogadores e pelo próprio jogador lesionado, uma vez que tal lesão ocorreu durante o campeonato, pegando todos de surpresa, diferentemente da lesão que ocorreu neste ano, também ano de Copa do Mundo. Mas este trabalho também poderia acontecer durante a recuperação do próprio atleta de sua lesão. Considera-se que seu corpo é seu instrumento de trabalho e que quando sua pesada rotina de atleta de alto rendimento sofre uma parada brusca dessas, sua autoestima, seu senso de produtividade, sua vida social e outros aspectos de sua vida psíquica podem também entrar como fatores que influenciam sua recuperação, além de seu futuro entrosamento e, como consequência, seu desempenho.

O trabalho do Psicólogo do Esporte se atrelaria ao da Comissão Técnica em Olimpíadas, Campeonatos e Centros de Treinamento, sempre focando no Bem-Estar dos atletas para potencializar seus resultados.

Neste ano, houve a acusação do ex-técnico da Seleção Brasileira de Ginástica de assédio e abuso de seus atletas. Infelizmente, este caso também nos serve como exemplo. Esta foi uma situação onde um bom profissional da psicologia do esporte também poderia atuar. A proximidade de atletas e profissionais do esporte é muito intensa, quase familiar. Casos do tipo não são incomuns. Existe o famoso caso do médico Larry Nassar, que abusou de mais de 150 atletas nos Estados Unidos. E o psicólogo é um profissional que tem meios de identificar a presença de comportamentos agressivos, evasivos e até de abuso sexual que, assim como podem acontecer no ambiente familiar e corporativo, também podem acontecer ambiente esportivo, sendo também este papel de prevenção uma das atribuições deste profissional.

Até o próximo texto.

(As imagens utilizadas no texto foram obtidas de forma livre na internet. Caso você detenha os direitos de alguma dessas imagens e solicita que esta seja removida, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente).

Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: Os Sonhos e a Primeira Tópica Freudiana

fantasy-2198981_960_720

Em 1899, o médico neurologista Sigmund Freud (1856-1939) se vê plenamente despreparado para conter sua ansiedade e aguardar o ano seguinte para publicar sua obra de maior destaque. O livro, publicado em 1899 saiu com a data de 1900. Depois de se dedicar por um bom tempo aos sintomas psiconeuróticos da histeria, Freud sentia que era a hora de lançar sua Obra-prima: A Interpretação dos Sonhos (1900). O motivo da alteração da data? O fato de estarmos falando sobre o livro do século.

Os sonhos já foram interpretados como mensagens dos Deuses, previsões do futuro e até falta de imersão religiosa. O motivo de toda esta especulação milenar pode estar na seguinte pergunta: como podem imagens e narrativas, às vezes tão aleatórias, tão carentes de sentido, se tornarem por alguns momentos nossa nova e incontestável realidade? Um lugar específico, duas pessoas aleatórias – que só se conectariam em vida pelo enorme abismo entre si! Mas tudo vivenciado com tanta realidade… A ponto de só ser digno de observação após uma falta de ar, uma aceleração dos batimentos cardíacos e/ou uma enorme quantidade de suor de acompanhamento a um súbito acordar. Aquele acordar. Aquele que dependendo do conteúdo do sonho, fora implorado (ou não!) para acontecer. Claro que há um detalhe: é preciso se lembrar do sonho – e isso nem sempre acontece. E às vezes acontece por pouquíssimo tempo.
Mas será que Freud explica isso? Neste artigo que segue, a tentativa será de responder a pergunta tanto feita por muitos, a partir de uma explicação de pontos da obra considerada a mais importante da psicanálise. E para lhes desejar uma boa leitura, A Sociedade dos Psicólogos parafraseia com um grande hit musical, recomendando este para que sua leitura faça como o sonho: tenha mais do que imagens ou pensamentos – tenha estímulos sensoriais. Sweet Dreams.

Prelúdio – A Sonata dos Sonhos

8_il-virtuosismo-nellarte-musicale-del-xviii-secolo-giuseppe-tartini

Nascer em uma Europa do século XXVII e crescer na do século XXVIII pode ser uma experiência interessante. Sentir os efeitos diretos de um recente Renascimento do pensamento ocidental e, através de uma pequena fresta que começa a se abrir, ser atingido pelos primeiros raios da luz do pensamento Iluminista. Não se pode dizer ao certo quanto, mas este foi um dos backgrounds que influenciaram desde o nascimento a psique de Giuseppe Tartini (1692 – 1770), um dos mais famosos compositores deste período. Sua relação com a obra que pautou este texto, A Interpretação dos Sonhos (1900), está na referência que Sigmund Freud (1856-1939) faz ao músico e à Obra-prima deste durante a escrita de sua própria. Freud (2001) pega como exemplo a sonata mais famosa do compositor, enquanto explica que boa parte de nosso saber não está na consciência; para o Pai da Psicanálise, Il Trillo del Diavolo  é um exemplo de música que recebeu um “[…] auxílio prestado por obscuras forças procedentes das profundezas da mente[…]” (p. 585).

Para fins de entendimento, é melhor deixar a fala ao próprio Giuseppe Tartini (1692 – 1770):

“Uma noite sonhei que tinha feito um pacto com o diabo, o qual se dispôs a me obedecer, em troca de minha alma. Meu novo servo antecipava meus desejos e os satisfazia. Tive a ideia de entregar-lhe meu violino para ver se ele sabia tocá-lo. Qual não foi meu espanto ao ouvir uma Sonata tão bela e insuperável, executada com tanta arte. Senti-me extasiado, transportado, encantado; a respiração falhou-me e despertei. Tomando meu violino, tentei reproduzir os sons que ouvira, mas foi tudo em vão. Pus-me então a compor uma peça – Il Trillo del Diavolo – que, embora seja a melhor que jamais escrevi, é muito inferior à que ouvi no sonho”.

Parece até que estamos diante da admissão de um plágio. O diabo, a representação do Mal da humanidade, esbanja sua sensibilidade musical! Trouxe, em um sonho, estímulos tanto sensoriais, quanto emocionais. A excitação de seus sentidos foi tão forte que o músico acordou num lapso de sua própria respiração! Como um presente, como uma dádiva não celestial, Tartini conseguiu produzir o que considerou sua melhor composição. Mas seu lamento final deixa uma irresistível pergunta – que vai até além da básica curiosidade sobre as dimensões do talento violinístico da “Estrela da Manhã“, de Lúcifer, d'”O Portador da Luz“, que iluminou a criatividade de um músico em pleno Iluminismo –, uma pergunta meio paradoxal: se esta Obra-prima é muito inferior àquela que ouviu no sonho, o que o impediria de usar sua memória até que houvesse a equação de ambas? Teria ele esquecido parte do que ouviu? E caso tenha, como poderia comparar o que sabe com o que não sabe?
Mais do que isso: numa hipótese de que um sonho só poderia reproduzir o que já fora captado pelos órgãos dos sentidos e pela consciência, como algo pudera ser ali ouvido pela primeira vez?; como pudera algo completamente inédito, ser ali apresentado como um som exclusivo de um instrumento musical (que é dominado pelo sonhante), mas, ao mesmo tempo, se tornar irreproduzível neste mesmo instrumento musical? Não estava esta melodia ecoando ainda há pouco nos confins de uma mente brilhante? De qualquer maneira, parece que lhe permaneceu para sempre a lembrança da qualidade superior daquela versão tocada pelo próprio Anjo Caído – no instrumento que é considerado o dono do som mais angelical no Imaginário popular. Bem, depois da harpa, é claro.

Sendo esta o próprio pedido de desculpas por si, uma interrupção ao desenvolvimento do artigo a seguir será agora necessária. O motivo: um sentimento de obrigação de quem escreve. Há aqui uma necessidade de exímia importância: acabar com uma descortesia estendida até agora. Uma leitura poderá ser muito mais interessante e significante com uma trilha sonora mais adequada. E o sentimento é que este texto deva conter sua sugestão.  E é claro que, no primeiro flerte da leitora ou do leitor com o óbvio, já se saberá qual música tem este propósito.

Seguirá agora em anexo a Sonata de Tartini: “O Trinado do Diabo”.
Em um começo que se dispõe a soar uma calma quase melancólica, anterior a um contraste já anunciado em seu Nome de batismo: a rápida, libertadora e genial repetição de notas – O Trinado –, notas que parecem ter perdido repentinamente a timidez e agora voam, vão às alturas! Quase lembrando aquela pessoa que agora é boêmia, mas que é também egressa de uma vida beata. Algo próximo a uma libertação das amarras religiosas, como aquela promovida pelo Renascimento. Praticamente a mesma libertação que favoreceu o início da escuta o Homem e de sua fala sem censura, sem os resquícios das Trevas em uma Outra Idade. Quase como se agora o homem fosse o Portador da Luz de seu pensamento Iluminista.
Portanto, este artigo da Sociedade dos Psicólogos sobre A Interpretação dos Sonhos terá uma  trilha sonora diabólica. Uma música feita pelo próprio diabo. Uma música que estava recalcada sob sete peles de censura inconsciente. Um autêntico plágio onírico. Um autêntico plágio do Próprio Eu Desconhecido.

Sonhar: O  Realizar um Desejo Originário Inconsciente

m1edk3n

Os sonhos

Freud é categórico: os Sonhos não são destituídos de sentido e têm o “simples” propósito de realização de um desejo inconsciente. Ele também nos alerta de que sua produção é resultado de uma atividade mental altamente complexa. Os sonhos são as produções do inconsciente que, sobrevivendo a certas restrições que falaremos mais adiante, encontraram em nossa vida psíquica alguma representação que seja boa o suficiente para aludir a alguns de nossos mais profundos desejos originados na infância. Pois é exatamente a estes desejos que Freud atribui o papel de “força propulsora” da formação de nossos sonhos, mas nunca os colocando como o único conteúdo ali presente. Além de advertir que não se deve fazer uma leitura literal dos sonhos, levando em conta que isso conduz à mesma falta de sentido já existente. Freud se afasta de qualquer definição que pudesse levar A Interpretação dos Sonhos ao estreito entendimento de uma mera criptografia – onde bastaria substituir um elemento por outro e se teria obtido a chave universal condutora ao significado encoberto em todos os sonhos.

Não é raro observar Freud ressaltando  que os conteúdos do sonho estão distorcidos, ele relaciona isso à constante presença de imagens que aparentemente são carentes de sentido; tal fato, para ele, se deveria à explicação das incompatibilidades que os desejos residentes dali apresentariam às exigências de nossa atual vida em sociedade. Sua distorção serviria à proteção de nosso próprio desprazer – levando em consideração a repulsa que nos causaria o encontro de tais desejos às Leis e regras que aprendemos e internalizamos através da linguagem que nos foi imposta. Entretanto, estes não ficariam perdidos para sempre  — au contraire –, apesar de fugirem frequentemente à memória consciente. Aqui mora a hipótese de que nosso Inconsciente encontrará por si alguma maneira de dar vazão às excitações causadas por estes desejos.  Ao menos ao eco dos gritos emitidos pela demanda de tal realização.

Mas, antes de falar das complexas atividades mentais que envolvem a formação dos sonhos e também destes desejos em si, será necessário buscar algum significado para que é o inconsciente. Principalmente para nortear uma leitura a partir da diferenciação que Freud faz às já eram levemente postuladas por outros autores. Mas e aí? O que é o Inconsciente?

O Inconsciente e o Desejo Originário

Iceberg
(Imagem retirada da Internet)

É possível que um pediatra, daqueles mais interessados à neonatologia, tenha mais propriedade  de informação sobre a ordem em que o corpo de um recém-nascido começa a identificar as excitações que o mundo externo têm sobre seus órgãos dos sentidos do que um psicólogo. E aqui se fala mais sobre os sentidos imediatos, inatos: o tato, a visão, a audição, o paladar e o olfato; do que sobre os outros mais complexos, de desenvolvimento progressivo a posteriori, como o equilíbrio, por exemplo.
O motivo da constatação acima é que, para se falar sobre o Inconsciente, deve-se falar sobre seu suposto início. Portanto, antes da próxima leitura, existirá um pedido a quem lê: lhe é de possibilidade imaginar o choque de realidade que deve ser a saída de um bebê recém nascido do útero de sua mãe? Aquele mesmo Lugar que lhe foi tomado por realidade desde a primeira existência? A agressiva transição do calor, do silêncio e da confortável escuridão presentes em uma placenta para o frio, o barulhento, o odoro (ou fétido) e iluminado ambiente do nascimento. Caso seja possível imaginar este cenário de seu primeiro contato com a nova realidade, parecerá mais difícil uma visualização que envolva a ausência de desprazer. Em um paralelo à vida adulta, é possível que uma pessoa que perde sua moradia a partir de um desastre natural reviva este mesmo primeiro sentimento, de maneira quase idêntica. Talvez o angustiante discurso desta pessoa seja o que se mais se aproximaria do de um recém-nascido, se este já fosse um ser falante que nos permitisse tal comparação. Mas esta é uma visualização essencial para um começo do que envolve a noção de inconsciente.

bebe-nascendo-por-cesarea-1454437864275_615x300

O desprazer é possivelmente o primeiro alvo da catexia de alguém que chega ao nosso mundo. E sabe-se que, antes de falar em Pulsão e aproximar os dois conceitos, Freud entendia a catexia como uma espécie de direcionamento de uma ou mais de nossas energias, de nossas funções mentais (afetos/emoções, cognições e volições) para as excitações advindas de nossa percepção sensorial ou para nossos pensamentos. E este ato por si só já era capaz de estabelecer uma maneira de representação mútua entre estes fatores: o desprazer daquilo que eu ainda não sei nomear como frio, é levemente inibido em contato com o calor do corpo de minha mãe – que eu ainda vejo como uma extensão de meu próprio Eu. E isso já pode trazer ao recém-nascido (que se tornou quase que um refém-desabrigado) uma primeira experiência de prazer, que virá em equivalente contraste à primeira sensação de desprazer anteriormente experimentada. Tal representação será melhor adaptada ao Imaginário popular se, além do calor corporal, algo inserido à boca do recém-nascido saciar outro de seus inúmeros desprazeres ainda não nomeados. Este desprazer é a sensação de fome. Que como as outras, “nasce” junto com o bebê. Portanto: “aquilo que me incomoda, que me traz um desprazer imenso, que eu ainda não sei que é a fome e o frio, acaba quando sinto o calor do corpo e a nutrição do leite oriundo do seio daquela pessoa, que eu ainda entendo como uma parte externa de mim”. Percebe-se aqui o registro de um conjunto de primeiras experiências de satisfação que, para Freud, terão como lar o Inconsciente até que consigam alguma forma de revivência através da representação. Uma vez que, a quem foi possível imaginar todo aquele primeiro desprazer simultâneo de antes, também possa ser possível entender a proporção de prazer experimentada nesta primeira experiência de satisfação. A eterna tentativa de reviver este momento é chamada por Freud de Desejo. E talvez seja como se aquela pessoa que acaba de perder sua moradia por um desastre natural, passasse a cavar incessantemente, cavar porque sabe que nos escombros de sua antiga casa há um baú de dinheiro que lhe fará comprar outra maior ainda. A questão é que o desastre foi de proporções muito grandes, portanto, não se sabe exatamente qual é a própria casa perante tantas outras escombradas naquele Lugar.

Consciência e Inconsciente: Um Só Lugar.

einstein dj
Antes do início do assunto, é importante continuar a estimulação mútua dos sentidos de quem lê o artigo em questão. Se, de acordo com a expectativa do autor, o leitor não percebeu que a música anterior acabou, pode este ser um sinal de um bom engajamento. Mas, não só para este caso uma nova música significante seguirá para acompanhar a leitura.


Quando Freud contesta a afirmativa predominante na época: o fato de que não haveria como tais fatos inconscientes, tais registros de prazer e desprazer de tempos remotos influenciarem na vida psíquica adulta de um sujeito, pois seriam eventos inacessíveis à consciência – sendo esta, a partir de uma recente herança Iluminista, a fonte dominante de toda a mente. Freud considera A Interpretação dos Sonhos o Livro do Século exatamente por este subverter, por esta grande ruptura com o conceito de que a consciência é centro da vida psíquica. Freud dirá que o Inconsciente já registra estes primeiros momentos de catexia – direcionamentos das funções da mente ao que se experienciou ou se experiencia, ou seja, a percepção o prazer e o desprazer – e os utiliza como parâmetro na condução da vida daquele semi-Sujeito. Já adverte desde cedo que o indivíduo dificilmente conseguirá uma satisfação equivalente à primeira, mas, através daquilo que se chamou de Desejo, tentar-se-á eternamente, pois as pequenas descargas de excitação sensorial irão regular a sensação de prazer e desprazer, que por sua vez, vão remeter às primeiras experiências de satisfação e insatisfação. E aqui se fala das experiências de satisfação que serão requisitadas pelo Inconsciente até que encontrem representação para a fuga das censuras da consciência.
E é aqui que está o ponto principal da definição sobre o Inconsciente de Freud: ele já existe antes do próprio consciente. Para Freud, o Inconsciente regula a consciência e não o inverso. E não, a pedido de Freud, este não pode ser observado como uma instância propriamente física, mas sim como todo um conjunto de representações de experiências, percepções e catexias, pensamentos e tudo que a faculdade de fazer representações mentais nos permitiu dar um Nome que fosse Significante – e mais ainda, o que não se foi possível nomear, mas ainda assim se tornou significante. Os registros conscientes futuros serão apenas um mero elo de ligação, encontrados a partir de uma nova e repetida busca pelos registros por aquela tal imensa primeira experiência de satisfação, aqueles primeiros prazeres e desprazeres – que moram nas profundezas das cadeias de pensamento contidas nas representações inconscientes. Tudo isso por fins de revivescência ou evitação. Ou seja: alguns de nossos desejos mais distantes, mais absurdos à consciência, ainda vivem no Inconsciente. E mesmo sofrendo toda a censura demandada por seu conteúdo, hão de encontrar um caminho à consciência. Nem que este seja através dos sintomas psiconeuróticos, dos atos falhos, das piadas e trocadilhos (chistes) e principalmente dos sonhos.
Portanto, para refutar a onipotência dada à consciência até a época, Freud vai dizer que a consciência, que nasce e se amplia de acordo o desenvolvimento bio-psico-social do ser, aparecerá como uma pequena fração do inconsciente, constituída através de representações que a maturação de algumas funções mentais foi permitindo. Freud rebaixa a patente da consciência: de maior representante da mente, para mero órgão sensorial da percepção de atividades psíquicas. E o pensamento é uma delas. Sendo inclusive, encontrado nos sonhos.

 

Antes da ida para o próximo assunto, mais uma pequena pausa será feita. Saiba o leitor e a leitora que aqui há um bom motivo. É hora de continuar as músicas que acompanham quem lê este artigo, pois é possível que a anterior já tenha chegado ao seu final. E, tendo em vista que, ao menos a princípio, o objetivo do artigo não era instituir algum tipo de Falta às audições dos que aqui leem. Estas que já devem estar acostumadas com um som durante esta leitura. Portanto, por que não mais uma música cheia de representações significantes como acompanhamento?

Pensamento e Percepção Sensorial

maxresdefault

Sem dúvida, o pensamento é um privilégio da especie humana. A habilidade de transformação de estímulos sensoriais, captados pelo sistema perceptivos, em representações é, sem dúvidas, um diferencial. Através do pensamento, transforma-se em um livro repleto de palavras aprendidas as nossas Outras funções mentais e/ou da percepção sensorial. As meras percepções sensoriais auditivas, táteis, visuais, palatórias e olfativas, junto com alguns pensamentos, se transformaram no objeto de identificação de milhões de pessoas no mundo. Tudo isso graças à capacidade de representação mental que alguns escritores encontraram em suas relações com as palavras, com o que lhes é significante. Através deste tipo de representação, cuja meta é realizar uma comunicação, uma ligação do que não é observável nem a nós mesmos ao mundo externo. Através da linguagem, o pensamento torna o ser comunicante consigo e com o Outro, dividindo as palavras que lhe foram significantes até aqui. O pensamento é uma representação que, acompanhada de nossas catexias, faz elo entre a nossa Real percepção de tudo, o Simbólico processo de linguagem e/ou nosso Imaginário arcabouço de representações sensoriais. Poderíamos pensar no aparelho psíquico que Freud chama de Pré-Consciente, como um intermediário que funciona de maneira semelhante. Para finalmente ir direto ao ponto, pois é nele que se encontra o processo de Formação do Sonho, retirando partes da consciência enquanto tentar filtrar aquilo que irrompe do Inconsciente. Mas ainda é importante ressaltar: até o pensamento considerado mais insignificante e até as lembranças do dia e da vida menos dotadas de catexias, serão levadas ao Inconsciente, através da representação.

O Pensamento, Os Sintomas e os Sonhos

sonhos_n
Sem muitas delongas, deve-se manter o costume que adquiriu quem lê este texto: a música precisa continuar!

Pensamentos e Sonhos

Freud Sonhos(Créditos da Imagem: Freud Sagaz)

 

É bem possível que a ideia da soberania da consciência tenha vindo em decorrência de nossa constante percepção do próprio pensamento em conjunto com os órgãos sensoriais e motores. Se levarmos em consideração que o fato de estarmos acordados é um simples evento de nossa faculdade de catexia da função cognitiva da atenção, ou seja, esta se direcionando à percepção sensorial de alguns órgãos dos sentidos e habilidades motoras. É também parte deste fato, a ação da consciência à mobilização de nossa função volitiva (vontade) ao desempenho de funções motoras que nos movimentem aos objetivos de vida. Os mesmos que creditamos acontecerem apenas pela nossa própria decisão. E aqui temos um bom exemplo de catexias evocadas a partir de representações que contém uma meta de realização de desejo. A única coisa que escapa ao entendimento geral é o fato de que este desejo que nos faz acordar, caminhar e falar já é uma representação mais elaborada de uma busca por realização de um desejo do Inconsciente. E também escapa que, muito do que encontramos no dia-a-dia, muito do que pensamos nele e muito do que nele vivenciamos, pode e talvez vá fazer alguma representação com um desejo do Inconsciente. E podemos falar até da tentativa de reviver aquela primeira experiência de satisfação. De maneira mais metafórica, é claro. Já que a Real é impossível.

Alguns destes pensamentos que podemos ter, são chamados por Freud de “Pensamentos Diurnos”, e eles também fazem parte do conjunto de pensamentos oníricos (referentes ao sonho). Eles são os pensamentos que são de acesso à nossa consciência e que, eventualmente, parecem ter aparecido em nossos sonhos a partir relações onde se distanciam de algum sentido ao conteúdo que antes foram relacionados. Dificilmente é possível explicar estas aparições. Mais difícil ainda: estabelecer uma relação lógica de imediato à consciência, uma vez que os pensamentos que se tornam sonho eles sofrem uma grande censura – oriunda do trabalho ali realizado. E tal fato os distorce, afastando-os de seu Real significado. Às vezes, são pegos pelo inconsciente aqueles pensamentos mais insignificantes, aqueles que ignoramos com veemência durante o dia e, em um sonho, podem até nos fazer acordar numa explícita falta de ar e sudorese, como se fossem pensamentos irracionais – outros que também fazem parte do sonho. Mas como isso pode acontecer?

Freud vai dizer que, tanto a confusão da percepção sensorial como a tomada de fragmentos insignificantes de pensamentos diurnos e/ou irracionais que eventualmente a acompanham, estão ali porque de alguma maneira se tornaram forma de representação para algum desejo inconsciente. Mas como isso acontece?

Pensamentos e Traços de Caráter, Sintomas e Sonhos
representações
É ainda necessário introduzir um questionamento importante aos que leem o artigo: é de entendimento do autor o demorado tempo de leitura deste artigo, e é claro que o próximo será mais breve. Entretanto, não podemos escapar à importantíssima questão: a música já acabou? Se já, a próxima está pronta para trazer seu conjunto de referências e representações na letra e nas imagens. Na verdade, foi deixada em espera pelo play que virá.

Pensamentos e Traços de Caráter

É primeiro preciso entender como é a composição do sonho e como esta vem de encontro à realidade. É preciso entender que nosso dia-a-dia é visualizado pela nossa consciência como um conjunto de excitações sensoriais que se juntam aos pensamentos que levam ou não as catexias, isto é, a concentração de nossas funções mentais (afeto, cognição e volição) – vivemos a partir deste conjunto de representações. A partir deste pedaço de lucidez plena dentro do Inconsciente.

Algumas representações têm metas de realização de desejo à consciência, algumas outras são parcialmente ignoradas e assentadas ao inconsciente, como palavras jogadas no meio de um livro, sem uma localização pensada, em uma língua qualquer. E isso é explicado pela notícia que Freud nos traz: mesmo que haja uma ausência de catexia aos pensamentos ou às excitações sensoriais, nada fugirá do olhar do Inconsciente. É bem possível que uma conversa, uma imagem, uma percepção sensitiva ou um pensamento de nosso dia-a-dia faça algum tipo de alusão aos desejos da infância, que estão à plena procura por descarga de excitação – e já situados há algum tempo no inconsciente. E não é segredo que lá se encontram todas estas características carentes de representação, uma vez que a censura operada por nossa resistência jamais permitiria o contato destes à consciência, muito menos uma explícita descarga das excitações, que seria expressamente proibidas aos dias de hoje.  Mas, em nosso dia-a-dia, houve a transformação destas excitações sensoriais em pensamentos, em representações. Ou seja, se meu olfato percebe o perfume de quem me atrai visualmente, meu pensamento consegue representar tal pessoa através da associação destes dois sentidos. Temos aí mais um Traço Mnêmico guardado. Há um progresso, uma progressão da excitação dos receptores sensoriais até que estes se tornem uma representação mental digna ou não de catexia. E isso, que aconteceu durante toda a vida de vigília, toma o caminho inverso nos sonhos: o de regressão dos pensamentos à meras excitações sensoriais, imagens da percepção. É importante acentuar que isso acontece na tentativa de se realizar um desejo de infância apenas a partir das percepções sensoriais que foram bastantes intensas nestes, como se elas fossem apenas um fragmento daquele desejo: pequeno o suficiente para driblar a censura; grande o suficiente para uma leve descarga de excitação. E isso pode acontecer mesmo que apenas se liguem a uma representação e/ou um pensamento desconexos com tal desejo, até porque estes vão servir apenas de bode expiatório, dos mais disfarçados; vão servir apenas como uma ação de Impeachment parcial da censura a partir da redução da força da consciência – obtida através do estado de sono. Isso pode começar a explicar as sensações físicas ligadas às imagens irracionais e aparentemente sem sentido de alguns sonhos. É importante lembrar que também poderá acontecer exatamente o inverso. Mas esta parte continua depois.
E apesar desta parte continuar depois, é importante lembrar que a música não; a música continua agora caso ela tenha acabado, basta o play do leitor. E mantendo a tradição deste artigo, foi escolhida uma outra música que poderia até estar a fazer alusão aos pensamentos oníricos: repleta de signos.

Traços Mnêmicos e Pré-Consciente

Freud diz que, em um sistema intermediário, há o contato dos pensamentos inconscientes com algumas das representações encontradas em nosso cotidiano. Ele chamará este sistema psíquico de Pré-Consciente. Nele,teremos os registros das excitações sensoriais e das representações que formamos através de um traço que Freud chamará de Traço Mnêmico, que carregará imagens perceptivas e relações lógicas e que, se for de escolha do inconsciente, encontrará representação também no que lá fora assentado. Além disso, são estes traços o que sobra das percepções sensoriais associadas à memória, à motricidade. Temos aqui impressões que causaram o maior impacto em nós, situações que mobilizaram descarga de adrenalina (frio na barriga), sudorese, tremores, sorrisos e até as de maior efeito na infância, que nunca se tornaram conscientes e moldaram nosso caráter. Em suma: caráter é o conjunto dos Traços Mnêmicos que mais encontraram representação no apaziguamento dos desejos residentes de nosso Inconsciente. Pode até haver a pessoa dita como possuidora de “mau caráter”, mas nunca a “sem caráter”, uma vez que uma pessoa “sem caráter”, careceria de representações psíquicas de suas percepções sensoriais, de seus pensamentos e vivências – e aqui não é falado apenas das boas.

Quem acompanhou o desenvolvimento da psicanálise, principalmente no que diz respeito à análise dos sintomas histéricos, sabe que algumas manifestações do inconsciente só podiam encontrar vazão através de uma redução das forças de censura da consciência, ou através de uma configuração psicopatológica. A hipnose representou bem este papel de redução da censura consciente. Quando Freud se depara com os Estudos de Charcot (tal encontro é representado no cinema através do filme Freud Além da Alma) e percebe que a redução das forças de censura da conscîencia exercida através da hipnose era capaz de “curar” um sintoma da histeria apenas através da sugestão, nascerá, posteriormente, uma nova configuração psicopatológica para com o sintoma histérico.

O Sintoma Histérico

histeria

Freud vai nos dizer que, para presença de um sintoma histérico, era necessário que houvesse a realização de dois desejos opostos em expressões convergentes. Ou seja, para que algum desejo do Inconsciente fosse realizado, a consciência e suas censuras deveriam receber a atenção equivalente. Num exemplo fictício: um sintoma de falta de desejo sexual em conjunto com um ato de comer compulsivamente – desenvolvido após um abuso sexual na infância. Este ato, primeiramente, foi trazido pela vítima como uma maneira de não possuir um corpo considerado atraente àquela agressão. Ou seja, um corpo que teoricamente não estimularia desejo sexual. Entretanto, há um sentimento de culpa toda vez que se come. E tal sentimento de culpa aparece lado a lado com um sentimento de prazer pela comida. A culpa aparece exatamente porque há prazer. Porque o ato de comer, no relato da vítima, estabelece relação com o ato sexual através de um único significante: prazer. E o ato sexual, por sua vez, estabelece relação com aquela agressão que se tornou um trauma. E já é possível perceber de onde vem o Outro sintoma, o da falta de desejo sexual. Observando essa relação de representações, será permitido sentir o prazer da comida apenas se houver algo que anule a relação da comida ao ato sexual: pois caso contrário, o prazer da comida poderia, a partir de alguma representação de pensamento irracional inconsciente, ser associado à dor do trauma. Uma dor  que impediria a alimentação (o que pode acontecer em alguns casos de anorexia nervosa), como já impede a realização de qualquer ato sexual. Após o trauma, a vítima nunca mais se permitiu sentir qualquer tipo de prazer que se distanciasse da extrema dor ou extrema culpa, pela simples associação (aparentemente irracional) da palavra em si.  Seria um problema se, o prazer sentido ao comer, fizesse qualquer tipo de alusão àquele ato, pois ele também evocaria uma enorme culpa. E para tal culpa, há o desejo de punição. Pois, para que seja permitido algum tipo de prazer, esta pessoa não poderia ser objeto de desejo de alguém – e em seu conceito, faria isso possuindo um corpo que sua cultura não considerasse sexualmente atraente. O prazer sentido através da comida faria a vítima ignorar boa parte de suas necessidades sexuais, entretanto, este prazer produziria culpa pela distorção de seu corpo. Só que esta culpa seria preferível à qualquer outra resultante de algum tipo de alusão a prazer perante aquela agressão que só lhe causou dor. Portanto, os sintomas histéricos fariam encontro de dois desejos mutuamente opostos, sendo um do Inconsciente e sua cadeia de representações irracionais; e outro que ocorreria como forma de afastar o primeiro da consciência, nem que para isso houvesse a distorção deste desejo. No caso do sintoma histérico, a dor do sintoma seria uma alusão, em proporções menores, à angústia que seria causada pelo rápido porte daquele desejo à consciência, mesmo que por uma representação irracional – para que entendamos a dimensão da discrepância entre o teor dos desejos inconscientes originários na infância e as leis que regem a psiquê daquele sujeito social. Entretanto, é importante mencionar que esta vítima fictícia trouxe durante sua análise que, no mesmo período etário em que ocorreu o abuso, talvez até um pouco antes, esta pessoa havia começado a se masturbar. E o fazia mesmo em uma família religiosa, onde o ato era expressamente proibido. Neste caso, será deixado aos leitores a tarefa de investigar, perante o que já lhes foi explicado, como esta última informação se conectaria às outras. É por isso que este tipo de trauma costuma ser melhor elaborado através da verbalização, da ressignificação de algumas palavras: porque ele é uma própria expressão de algumas palavras. Ou seja, o sintoma é um conjunto de representações psíquicas da infância, com fins de realização de desejo que se encontra com representações psíquicas atuais em profunda oposição, com fins de realização de um desejo oposto ao primeiro. O sintoma somático liga o pensamento proibido à consciência através das percepções sensoriais do corpo.

O Sono e o Desejo de Dormir

Freud pensamento ensaio

(Créditos da Imagem: Freud Sagaz)

Freud vai nos dizer que o estado de sono é sim, como a hipnose, um poderoso redutor das forças de censura que atuam não só na consciência, mas também no que ele vai chamar de Pré-Consciente em sua Primeira Tópica. E todo redutor das forças de censura se torna, consequentemente, um facilitador da descarga de excitação daquilo que é de repúdio à consciência: nossos desejos mais profundos. A revivência de primeiras experiências de satisfação, mesmo que estas jamais sejam facilmente aceitas pelas leis que fomos submetidos dentro da civilização. Entretanto, há no Pré-Consciente um trabalho que permite que tais desejos possam ter sua descarga de excitação sem que necessariamente apareçam explicitamente à consciência, de maneira parecida com a que ocorre nos sintomas histéricos, mas através do sonho.

Se o sintoma histérico é o encontro de dois desejos opostos numa via convergente, o sono faz algo semelhante. Após o dia inteiro filtrando pensamentos, percepções sensoriais e representações com ou sem propósito à consciência, o Pré-Consciente é encarado por Freud como aquele que vai abrigar o desejo de permanecer dormindo. E a única coisa que afetaria este desejo (apenas para lembrar: Freud sempre falou de representações, de esquemas de pensamentos e palavras, nunca de instâncias biológicas) de continuar dormindo, seria a possibilidade iminente de algum desejo originado na infância irromper para a consciência. O processo que permite isso se chama regressão, pois ele é capaz de transformar pensamentos em percepções sensoriais, fazendo o inverso do que fazemos na vida de vigília. Ou seja, durante o dia, o Pré-Consciente pode tomar o Traço Mnêmico que a excitação sensorial de uma descarga de adrenalina (frio na barriga) apenas para fazer alusão ao que se pensou enquanto a sentia, ou ele pode apenas pegar fragmentos de uma notícia mal lida no jornal da banca, relacionando-a a alguma excitação sensorial de um antigo desejo do inconsciente que se relacionou através de uma foto, uma palavra da manchete ou algo do tipo. Logo, se durante o dia transformamos o que sentimos em pensamento, durante a noite transformamos os pensamentos no que sentimos. E principalmente: aquele pensamento, aquele desejo que passou despercebido, pode se ligar a algum dos mais repudiados que um ser humano pode carregar. O sonho, formado no Pré-Consciente, pode tomar o significado inteiro de pequenos fragmentos de algo – e isso tem exatamente o propósito de levar um desejo originário do inconsciente à sua realização, sem que ele invada a consciência. Entretanto, é preciso que haja alguma descarga de excitação. Às vezes, como numa piada, o segundo sentido de uma palavra, que é costumeiramente ignorado, tem mais importância para a realização de um desejo e para o disfarce desta.

O processo de driblar a censura e realizar um desejo que busca uma urgente descarga de excitação (talvez por ter encontrado alguma analogia a si durante o dia, talvez por ser algo pensado impossível durante o dia, talvez os dois!), exige que os sonhos realizem algumas modificações nos seus conteúdos. Como por exemplo, tomar a excitação sensorial de um evento do passado em uma imagem ou narrativa do dia de hoje. E talvez isso aconteça porque algum fragmento daquela imagem pode fazer referência e, consequentemente, representação àquele primeiro desejo por busca de satisfação. Um exemplo fictício: um indivíduo sonha que consegue finalmente se eleger deputado – seu desejo dos dias de hoje –, entretanto, quando alguém lhe diz que “irá cassar seu mandato por quebra de decoro”, este sente um medo surreal, entra em pânico e acorda logo em seguida. Suando, tremendo e chorando. Um sonho aparentemente irracional, mas que, se este indivíduo pára para lembrar, lá no passado, a pronúncia de seu pai ao dizer a palavra “mandado judicial de busca e apreensão” lembraria a palavra mandato. E nisso não haveria problema nenhum, se seu pai não a tivesse pronunciado perante os policiais que vieram lhe levar preso àquele dia que o garoto nunca esqueceu. As palavras “mandato” e mandado são parônimos, o que as torna coisa suficiente para o escape daquela representação mental consciente encontrar o desejo inconsciente – mas o inverso também poderia acontecer. E tal fato só acontece porque o pré-consciente prefere realizar um conjunto de processos de Trabalho do Sonho do que interromper o sono. Ou seja: o desejo de permanecer dormindo e, logo, manter a baixa censura à consciência, ajuda a continuar com a realização do desejo, ou da visualização do trauma infantil que não são permitidos à consciência, por conta das fortes emoções negativas e do desprazer ali promovido. O indivíduo acorda suando e tremendo, pois as duas palavras conectaram os dois eventos demais, a censura do Pré-Consciente não foi suficiente. Então, enquanto o desejo do consciente (ter mandato de parlamentar) é realizado, a imagem do pai sendo levado (cassar/caçar/buscar/ter mandado de busca e apreensão) lhe evoca a mesma tremedeira e sudorese que sentira àquela época, ele se sente tão apreensivo quanto àquela época. E talvez isso até se localize por ter sentido raiva do pai àquele dia, já que ficara de castigo, pois ficou de castigo e apanhou com o cinto de couro (quebra de decoro) por não ter feito o que o Outro lhe havia mandado – informação que o sujeito pode trazer ao narrar seu sonho.

A questão é que ele acorda exatamente porque a sudorese, a tremedeira são percepções sensoriais – e, diferentemente dos pensamentos, que estão distorcidos de sentido, estas são visíveis à consciência. Freud diz que o sonho é um despertador, pois este é o momento que a consciência começaria a perceber fragmentos (agora apenas sensoriais) que representariam a intensidade daqueles desejos proibidos. E há nomes para os processos que fazem este trabalho de distorção do sentido do sonhos: deslocamento e condensação. 

Deslocamento e Condensação – Aqui se “Perde” o Sonho

Deslocamento

deslocamentop

Em definição rápida: o processo de deslocamento é obra da censura psíquica; sua consistência está em deslocar o sentido de uma representação que contenha nosso desejo para uma outra que aparentemente não traz relação nenhuma à anterior. E não só o sentido, podemos falar da própria intensidade. Se voltarmos ao exemplo de nosso Deputado com Mandato Cassado, a ação do mecanismo de deslocamento estaria em atribuir à palavra Mandato, as excitações sensoriais de seu par parônimo: Mandado.  Ora, sabemos que é muito difícil e burocrático para um deputado ter o mandato cassado. Toda aquele susto não era necessário, já que se trata de um processo longo e digno de muitos recursos. A questão é que houve a ligação de toda aquela angústia acoplada à palavra mandato, através do deslocamento ela que se ligou à culpa do menino por ter sentido raiva do pai ao apanhar e ficar de castigo, como se esta culpa encobrisse um suposto desejo de seu desaparecimento, uma raiva proibida, já que o castigo era injusto, uma vez que ele só havia deixado de fazer o que o Outro Mandou. O processo de deslocamento é o movimento (deslocamento) da intensidade psíquica presente em uma representação, isto é, atribui-se muita importância no sonho ao que jamais teria tanta importância na vida real, mas o faz exatamente porque há representações daquilo que já se sentiu na vida Real. Mas, após um trabalho de análise do sonho, é possível que se possa entender a ligação entre as duas representações.

É como se, após anos realizando o mesmo trajeto até em casa, alguém fica perdido numa rua de seu bairro que nunca entrou, numa rota alternativa ao mesmo destino que nunca utilizou; a verdade é que, eventualmente alguma rua ou avenida irá se cruzar e o sentido de seu trajeto nunca esteve perdido, apesar de só conseguir enxergar as coisas assim àquele momento. Freud vai nos dizer que é possível encontrar os desejos que impulsionaram os sonhos em seus detalhes mais insignificantes, pois estes são os que sofreram o deslocamento para driblar a censura; pois estes são os que, em paradoxo, detém mais sentido perante sua própria aparente ausência de sentido. Em geral, estes pensamentos sem sentido são aqueles que foram ignorados pela consciência enquanto outros, considerados mais importantes, receberam a catexia da atenção.

Jacques Lacan (1901-1981), em seu Seminário 6 (26 de novembro de 1958), ao se referir a este processo de deslocamento utiliza uma analogia interessante, mostrando este próprio efeito de contiguidade dos sentidos completos a partir mínimos fragmentos:

[…] Vejam, sigam os textos, vejam de que se fala, em que exemplos se apoiam, e
reconhecerão perfeitamente que a contiguidade não é outra coisa senão esta combinação discursiva na qual se funda o efeito que chamamos aqui a metonímia” (p.56-57). “Contiguidade por outro lado que distinguimos por exemplo numa experiência de palavras induzidas. Uma palavra virá com uma outra: se a propósito da palavra ‘cereja’, evoco evidentemente a palavra ‘mesa’, isso seria uma relação de contiguidade porque em tal dia havia cerejas em cima da mesa” (p.57).

Como é possível observar, Lacan utiliza uma figura de linguagem para se referir ao processo de deslocamento. E, para quem estudar tal figura de linguagem, também será possível encontrar um sentido similar em sua definição perante o que disse Freud sobre o Deslocamento.

Entretanto, é inadmissível à consciência de quem escreve este artigo, saber que há algum tipo de deslocamento da trilha sonora deste artigo, portanto, as músicas continuarão a trazer seus significantes ao texto. E esta talvez seja a mais exemplificadora de todas. Dê o play.

Condensação

Transparent bowl with condensed milk and teaspoon on table

Existe uma linha tênue entre o deslocamento e a condensação. Enquanto o deslocamento retira o sentido e a intensidade de uma representação (do desejo) e as coloca em outra que, de alguma forma, estabelece ligação com ela a partir de pequenos fragmentos, palavras e imagens aparentemente insignificantes; a condensação é o ato de se reduzir todo o sentido em um lugar só.  O deslocamento troca as partes de um quebra-cabeças e as coloca em Outro, que se assemelha pelo tamanho das peças, mas deixa claro ali a ausência de sentido nas imagens de encaixe; além disso, ambas as peças também têm cores parecidas além do mesmo tamanho. A condensação é reduzir o quebra-cabeças a uma única peça. A uma única parte. E, se este quebra-cabeças completo é o desejo que vem do inconsciente, esta única parte é o sonho, após sua condensação.

Em uma metáfora mais próxima à realidade brasileira, é possível utilizar perfeitamente o exemplo do Leite Condensado da marcar Nestlé – O Famoso Leite Moça. Se o processo de condensação do leite está em transformar 5 litros de leite com açúcar em 1 litro de leite condensado, o processo de deslocamento está em transformar 1 litro de leite condensado em apenas Leite Moça. Ou seja: tomar o nome do produto pelo nome da marca. Entretanto, se já conhecemos o processo de condensação, saberemos que temos ali 5 litros de leite com açúcar. Mas vale ressaltar: quando falamos das forças de censura, o deslocamento poderia acontecer na própria palavra açúcar, por si só.

E, se Jacques Lacan (1901-1981) toma o deslocamento como uma metonímia, não seria sem sentido que ele também tomasse a condensação por uma figura de linguagem – a metáfora. Em seu Seminário 3 (2 de Maio de 1965), ele fala sobre o mesmo assunto que se estendeu até agora:

“Se uma parte, tardia, da investigação analítica, aquela que concerne à identificação e ao simbolismo, está do lado da metáfora, não negligenciamos o outro lado, o da articulação e o de contiguidade, com o que aí se esboça de inicial e de estruturante na noção de causalidade. A forma retórica que se opõe à metáfora tem um nome – ela se chama metonímia. Ela concerne à substituição de alguma coisa que se trata de nomear – estamos, com efeito, ao nível do nome. Nomeia-se uma coisa por uma outra que é o seu continente, ou a parte, ou que está em conexão com” (p.251).
“A oposição da metáfora e da metonímia é fundamental, pois o que Freud colocou
originalmente no primeiro plano nos mecanismos da neurose, bem como naqueles dos fenômenos marginais da vida normal ou do sonho, não é nem a dimensão metafórica, nem a identificação. É o contrário. De uma forma geral, o que Freud chama a condensação, é o que se chama em retórica a metáfora, o que ele chama o deslocamento é a metonímia” (p.252).

É possível entender então que a metáfora toma por forma Simbólica o significado de um conjunto de palavras em uma só – e aí, após o que disse Lacan, pode-se dizer o mesmo do processo de condensação.

Portanto, o sonho existe para a vazão de nossos desejos mais intensos oriundos da infância, segundo Freud. Eles são uma forma conhecermos aquilo que nos foi negado através da linguagem, da Lei. Os sintomas são Outra. O Sonho naturalmente passará por dificuldades em ser recordado, pois passa por severo trabalho de censura antes de chegar à consciência e, mesmo que seja, corre o risco de ser gradualmente esquecido de acordo com o despertar da censura. Entretanto, neste texto foi falado apenas sobre os chamados Processos Primários, deixando o recalque e outros assuntos do Processo Secundário para uma continuação. E nesta continuação é prometida uma elaboração maior de alguns conceitos que, infelizmente, foram tocados com bastante superficialidade por aqui.

Fim.

A partir de tudo isso escrito, fica a esperança do autor para que haja algum entendimento sobre a leitura que faz Freud sobre o que acontece nos sonhos. E, se neste texto for possível encontrar algum leitor ou leitora de boa memória, lhe virá a lembrança de que ele foi iniciado a partir de um sonho. O sonho que Tartini tem com o diabo, tendo este tomado a representação de toda a sua parte negada como seu escravo, que lhe toca a melhor das sonatas no violino que pega emprestado de seu Senhor. A Interpretação deste Sonho caberá a cada leitor ou leitora que se arrisque.

Todas as imagens e vídeos contidos neste texto foram retirados da internet. Caso haja algum (a) que lhe pertença e você deseja retirá-lo deste post, entre imediatamente em contato com A Sociedade dos Psicólogos.

REFERÊNCIAS:

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Tradução de Walderedo Ismael de Oliveira: Rio de Janeiro: Imago Ed. 2001.

LACAN, Jacques. O seminário livro 3; as psicoses (1955-1956). Texto estabelecido
por Jacques-Alain Miller. Trad. Aluísio Menezes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1985.

Seminário 6, o desejo e sua interpretação:  Aula de 26 de novembro de 1958 Lacan, Jacques, 1901-1981. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação/Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução Claudia Berliner. – 1.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

 

 

 

Esquizofrenia e Genialidade: John Nash – O Equilíbrio entre Uma Mente Brilhante e Doente.

Nash nobel

A Psicologia Atrás da (o) Matemática (o)

Talvez, nos dias de hoje, seja mais fácil reconhecer um gênio por sua excentricidade, estranheza ou solidão do que por seu conhecimento. Estranhos e rejeitados à sociedade comum, eles são poucos de nós – e não se misturam!Há quem diga que Isaac Newton sofria da Síndrome de Asperger, enquanto outros dizem que este teve um colapso psicótico aos seus 51 anos, que encerraria sua carreira; há também uma forte hipótese de que Nikola Tesla era portador do Transtorno Obsessivo-Compulsivo. É intrigante pensar sobre o demasiado número de gênios que foram enquadrados em patologias. Não há um consenso entre as relações dos Transtornos Mentais com a genialidade, mas há, acima de tudo, um consenso de que tais personalidades sempre aparecem de tempos em tempos para uma revolução na nossa realidade.

Tivemos gênios em diversas áreas. Mas se formos escolher os da matemática como exemplo: Copérnico, Pitágoras e Bhaskara possivelmente seriam outros gênios com perfis que chamariam a atenção (negativamente, é preciso dizer) da sociedade em que estavam. Porque, por coincidência ou não, citando quem escreveu a biografia do gênio que escolhemos, a jornalista Sylvia Nasar nos diz que “A falta de traquejo social era considerada parte de um autêntico matemático”. Nasar é a autora de “Uma Mente Brilhante”, livro que deu origem ao filme homônimo, ganhador de 4 Óscars, sobre a vida de John Nash, um gênio matemático que revolucionou os estudos sobre Economia. Sobre o que disse Nasar, um aluno de graduação em Princeton corrobora sua afirmação, dizendo que:

“[…] ser excêntrico e ser bom em matemática eram duas coisas que combinavam. Pensávamos em nós mesmos como se tirássemos vantagem do fato de sermos inteligentes por ignorarmos as convenções que nos desagradavam. Transformamo-nos um pouco em personalidades excêntricas”.

Mas e quando um matemático se torna excêntrico e estranho demais aos próprios matemáticos? Seria um sinal de genialidade ou de alerta? Felizmente, não iremos falar de matemáticos em sua aleatoriedade, o nosso assunto – e o de uma boa parte da comunidade científica do Século XX – é John Nash. O estudante de engenharia química que migrou para a matemática. E transitando entre ela, a economia, geometria e até à criação de jogos populares como o Hex, John Nash recebeu seu mestrado junto com sua graduação – um pouco antes de receber seu título de doutor (PhD – Philosophiae Doctor) pela Universidade de Princeton, aos seus 21 anos de idade. Tal título foi concedido por sua brilhante contribuição para a The Theory of Games and Economic Behavior de John von Neumann e Oskar Morgenstern. Dentro das pesquisas matemáticas feita por Nash na Teoria dos Jogos, uma das mais famosas é popularmente conhecida como O Equilíbrio de Nash. Acredite, estamos falando de um dos mais brilhantes matemáticos da História.

Entretanto, John Nash, o matemático brilhante que foi vencedor do prêmio Nobel de economia do ano de 1994, em função de sua brilhante tese de doutorado, foi acometido pela expansão de sua Mente Brilhante. Aos 31 anos, com seu filho prestes a nascer e um pouco depois da morte de seu pai, o mesmo cérebro que antes era invejado por muitos, foi tomado por delírios e alucinações tão potentes, intensos e verdadeiros que se comparavam até com seus geniais insights matemáticos. O gênio, agora era o louco. Mas este texto foi escrito para mostrar que sua história é maior do que isso. Boa leitura.

Infância e Adolescência

nash2

Há um constante hábito, que antigamente era mais atribuído aos psicólogos e aos psicanalistas, de as pessoas em geral associarem uma doença mental a algum tipo de trauma ocorrido na infância. Suposições sobre um ambiente permeado pela violência doméstica, abandono, negligência, abuso de substâncias e até sobre abuso sexual, não são incomuns quando tocamos no assunto das psicopatologias. Tais hipóteses, com toda a certeza, não se aplicam à vida de John Forbes Nash Jr.

Nascido em Bluefield, West Virginia, Johnny, como era conhecido em casa, teve uma infância como a de qualquer outra criança, exceto pelas suas excentricidades.
Quando não estava em casa lendo livros e enciclopédias sobre eletricidade, geologia, clima e astronomia, o pequeno Johnny – que escolheria sempre os livros às brincadeiras com outras crianças – realizava perguntas sobre tais assuntos no banco de trás do carro de seu pai, John Forbes Nash, um engenheiro que trabalhava viajando pelo estado a inspecionar torres de transmissão da companhia para a qual ele trabalhava. Tais perguntas eram sempre respondidas, uma vez que o Sr. John sempre tratou seus filhos (Johnny e Martha) como adultos, dando a Johnny livros de ciência no lugar dos de colorir.

A pessoa mais preocupada com o comportamento “muito dedicado aos livros e ligeiramente esquisito” de Johnny, era sua mãe Margaret Virginia Martin (futuramente Nash), uma ex-professora que já havia estudado inglês, francês, alemão e latim.
Apesar das muitas tentativas de incentivar sua socialização através de matrículas em diversos cursos, Virginia foi aceitando aos poucos que Johnny seria naturalmente “especial, solitário e introvertido”. Se por um lado o garoto já realizava experimentos científicos de diversos tipos aos 12 anos, por outro, tinha baixo rendimento escolar e uma desastrosa vida social. Nash tinha mais interesse em estudar seus livros do que seguir o desinteressante currículo escolar, ou pior: fazer amigos.

Universidade de Princeton

img_1064

Nash fez muita coisa em Princeton. Não era incomum, em certa época, vê-lo assobiando músicas de Bach pelos corredores. Seu olhar – não tão diferente de sua personalidade – costumava ser o de alguém arrogante e desinteressado às outras pessoas. Mas há também quem tenha visto a terrível cena de nosso gênio com os punhos fortemente cerrados, bater repetidamente sua cabeça em uma das paredes do refeitório, enquanto sua angústia transbordava fortemente pelas suas contraídas expressões faciais.

No Fine Hall, o mais famoso corredor do Instituto de Estudos Avançados da Escola de Gênios, John Nash, que defendia que as pessoas não lessem tanto, uma vez que “aprender muito em segunda mão asfixiaria a criatividade e a originalidade.”, chegou, pessoalmente, a questionar gênios nada anônimos como John von Neumann e Albert Einstein.

Seu hobbie era pensar. Mas seu pensamento era diferente. Não buscava recordar fórmulas ou teoremas, Nash buscava insights. E tinha insights únicos. Segundo outros filhos de Princeton, era comum ver Nash assobiando “A pequena fuga” de Bach enquanto parecia pensar. Ou então sentado, deitado ou em pé em algum lugar. Sempre visivelmente mergulhado em seus pensamentos. Simplesmente pensando. Arthur Mattuck, um matemático nascido em 13 de Junho de 1930, exatamente 2 anos após o nascimento do também geminiano John Nash, fazia seu doutorado em Princeton àquela mesma época. Ele já chegou a afirmar, em 1995, sobre o:

“[…] poder de concentração demorada de Nash. Este conseguia ficar pensando num problema durante seis meses.”

Em função de sua genialidade, a passagem de Nash pelo Instituto de Estudos Avançados de Princeton foi rápida, começando no segundo semestre de 1949 e encerrando-se em maio de 1950 com a tese de doutorado chamada “Jogos Não-Cooperativos”, onde apresenta o famoso Equilíbrio de Nash.

A Teoria dos Jogos e o Equilíbrio de Nash

A Teoria dos Jogos passou a ser mais amplamente estudada na matemática e na economia após a publicação do livro Teoria dos Jogos e do Comportamento Econômico (1944). O livro do matemático John Von Neumann e do economista Oskar Morgenstern, procurava também teorizar uma solução para os principais problemas econômicos, mostrando que mesmo a economia sendo uma ciência não-exata, era possível estabelecer uma contingência de suas variáveis. A obra compara o comportamento humano na economia com o comportamento humano nos jogos em geral, evidenciando os conflitos de estratégia entre os participantes – “Será que se eu renunciar minha sede por vencer sozinho e me unir com um de meus adversários, eu poderia ganhar de todos os outros?” – e seus possíveis resultados, que, acreditava Neumann, poderiam ser favoráveis se os jogadores cooperassem entre si, fazendo coalizões. Um exemplo disso, seria quando duas empresas resolvem realizar uma fusão, pois assim derrubariam uma terceira concorrente e dominariam tal mercado, os famosos oligopólios.

A lacuna deixada, entretanto, foi nos jogos de soma zero (aqueles em que para um ganhar, o outro necessariamente deve perder) com mais de dois jogadores, onde havia a necessidade de uma teoria, cuja sua principal função seria analisar os resultados de decisões racionais, tomadas por agentes envolvidos em situações que demandem uma jogada específica na hora certa – leilões, jogos de cartas ou tabuleiro, guerras e até investimentos econômicos na Bolsa de Valores. Deve-se então, analisar as melhores estratégias disponíveis para que se leve vantagem sobre seus adversários e/ou concorrentes. Entretanto, neste caso não seria possível a comunicação com outros jogadores para que formassem coalizões. Portanto, estes seriam os chamados “jogos não-cooperativos”. Na sábia síntese de Sylvia Nasar, existia a tentativa de criar “[…] uma teoria sistemática do comportamento humano racional, enfocando os jogos como cenários adequados para o exercício da racionalidade humana”.

O Dilema dos Prisioneiros

Vamos supor que você, caro leitor (a), é pego pela polícia e é acusado de dois crimes. Há provas suficientes para que você seja condenado pelo primeiro crime, mas não há provas para que sequer te prendam pelo segundo. Entretanto, você tinha um cúmplice que também foi pego e vocês serão interrogados em salas separadas. Ambos já ficarão seis meses presos. Mas há um porém: vão oferecer a você e a seu cúmplice a chance de liberdade perante a confissão do segundo crime – o que acarretará 10 anos de pena ao comparsa, já que isso seria um testemunho contra ele, uma traição. Entretanto, há o risco de ambos confessarem o crime. Acontecendo isso, haverá um testemunho de cada, corroborado pelo do outro. Exclui-se, portanto, a necessidade de mais provas. Isso acarretaria 5 anos de prisão para cada um. Denominamos tal situação como um exemplo de Jogo Não-Cooperativo, onde “eu penso que ele pensa que eu penso” enquanto “ele pensa que eu penso que ele pensa”.

2008_plano_135_01

Já que não se pode combinar com o outro a melhor estratégia através de uma coalização, deve-se então, pensar no conjunto das melhores estratégias que seu “oponente” poderá utilizar. Assim, deve existir alguma forma de a aplicação de sua melhor estratégia encontrar um ponto de equilíbrio, ou seja, um ponto em que ambos ganhem o máximo e percam o mínimo, perante a aplicação da estratégia adversária. Nash, em sua genial tese de doutorado, consegue estabelecer um cálculo, digno de um Nobel, apontando que em todo conjunto de estratégias, haverá um Equilíbrio de Nash.

No caso dos prisioneiros, então, o Equilíbrio de Nash ocorrerá com a confissão, uma vez que ela lhe trará o melhor benefício. Se o seu cúmplice for fiel e não confessar o crime, você ficará em liberdade e ele cumprirá dez anos. E se ele te trair como você o fez, ambos cumprirão 5 anos. Chega-se nesta conclusão porque supõe-se que o outro agente pensará em seu próprio e máximo benefício da mesma forma.
No filme Batman, O Cavaleiro das Trevas, temos um exemplo embasado nesta mesma teoria:

O Experimento Social do Coringa

Ambos os navios serão detonados à meia-noite. Porém, cada navio possui um detonador que explode o outro e ambos não podem se comunicar entre si. Tudo que se sabe a respeito das possibilidades de escolha do outro é: em um dos navios temos criminosos condenados, portanto, pessoas que supostamente já fizeram mal para outras; no outro, temos civis inocentes, que em função do pensamento contido na afirmação anterior, poderiam enxergar os criminosos como pessoas inescrupulosas o suficiente para lhes explodir sem pensar duas vezes. Logo, em ambos os casos, há a chance de que os passageiros de um dos navios escolham detonar o outro navio, exatamente por acreditarem que os passageiros do outro navio fariam exatamente isso, pelo mesmo motivo.

Se levarmos em conta o Equilíbrio de Nash – o Coringa certamente o fez – a escolha mais sensata é a de apertar o detonador o mais rápido possível. Uma vez que isso impediria tanto a explosão à meia-noite, que seria realizada pelo fantástico personagem interpretado por Heath Ledger, quanto à explosão preventiva dos passageiros do outro navio. Mas, diferentemente da economia, das guerras e do Poker, no filme havia uma variável que alterou todos os resultados. Uma variável impossível de ser prevista por Nash ou por qualquer outro gênio da história: O BATMAN.

A Esquizofrenia Paranóide

Ao ser questionado pelo professor de Harvard e matemático George Mackey, “como um homem dedicado à razão e à prova lógica – um matemático como ele! – pode acreditar que estaria sendo recrutado por alienígenas do espaço exterior para salvar o mundo?” John Nash responde, esquecendo de toda e qualquer pitada de emoção no rosto que um ser humano deve ter ao dizer algo:

“As idéias que eu tinha sobre seres sobrenaturais vinham a mim da mesma forma que minhas idéias matemáticas. De modo que eu as

considerei seriamente”.

Para o psiquiatra Anthony Storr, a difícil compreensão da coincidência entre o número de de gênios e loucos poderia estar ligada ao fato de que seja possível dizer que “algumas pessoas criativas […] usam suas ideias e capacidades criativas de modo defensivo. […] o trabalho criativo protege um homem da doença mental […]”. Anthony Storr, The Dynamics of the Creation, (Nova York: Atheneum, 1972).

Sua certeza de que recebia mensagens subliminares através de notícias do The New York Times e suas novas e estranhas teorias matemáticas, que envolviam numerologia agregada à hipóteses sem sentido algum, foram questões intermediárias à sua carreira iniciada aos 23 anos, como professor do Massachussetts Institute of Tecnology (MIT) e sua primeira internação em um hospital psiquiátrico aos 31 anos.

A esquizofrenia, assim como fora batizada pelo Dr. Eugen Bleuler em 1908, é um “tipo específico de alteração do pensamento, dos sentimentos e da relação com o mundo exterior”. Antes chamada de Demência Precoce, é uma doença marcada principalmente pela presença de delírios – discursos de grandeza (exacerbação da própria posição ou situação) e/ou persecutoriedade (ser alvo de uma perseguição ou conspiração de algo ou alguém) – e de alucinações – percepções reais de imagens, sons, cheiros, toques e gostos que não existem fisicamente, deixando um, dois ou todos os cinco sentidos alienados à realidade. Seu maior problema, no entanto, é o “profundo sentimento de incompreensibilidade que o paciente provoca nas outras pessoas”.

Essa quebra de contato com a realidade comum, faz com que ninguém consiga entender o paciente, mesmo que este frequentemente aparente estar lúcido e demonstre extrema articulação verbal em seu discurso. Não é incomum que muitas pessoas acreditem em um delírio, uma vez que seu interlocutor pode ser muito convincente – por de fato sentir que vive tal realidade. As vozes ouvidas costumam corroborar – e muito! – o conteúdo de um delírio. Discutir é inútil: é como alguém ir até um cirurgião, em plena mesa de operação, e tentar convencê-lo de que ele é um motorista aposentado.

O encontro da esquizofrenia com a nossa dita normalidade, se assemelha ao diálogo telefônico de duas pessoas morando em países de fusos horários opostos. Ambas compartilham do mesmo tempo e espaço. Mas para que uma vivencie a luz, a outra, necessariamente, precisará viver na escuridão. Bastaria então, para termos o que apelidar de loucura, que uma contasse à outra sobre o lindo e ensolarado dia que vê da janela de seu quarto. Ou seja: acreditar na lucidez da outra pessoa, seria o mesmo que aceitar a própria loucura. Porque tudo aquilo é vivido verdadeiramente.

“Uma doença incurável chamada consciência.” – F. Dostoiévski.

A esquizofrenia é comumente interpretada como a ausência da razão. Mas o psicólogo Louis A. Sass, a relata “não como uma fuga da razão, mas uma exacerbação daquela doença [consciência] total imaginada por Dostoiévski[…] uma alienação não da razão, mas da emoção, dos instintos e da vontade”.

Outros de seus sintomas mais comuns são os chamados “Sintomas Negativos”. Estes trazem uma total dissociação da afeição, do pensamento e da vontade. A emoção se torna ausente nos olhos, nas feições e nos movimentos de seu corpo. Há uma apatia e frieza em relação ao Outro que assusta. A parte curiosa é que, em um mesmo indivíduo, ou de um para o outro, a variação de sintomas é tamanha, que ainda não há, em absoluto, a definição de um “caso típico”, como postula Sylvia Nasar na biografia de Nash. Há na pessoa o contorno do que era antes, mas seu conteúdo voou como fez uma borboleta de seu antigo casulo. Nash se sentia preso em sua condição psíquica, como ele mesmo disse: “Tenho a impressão de que sou como a vítima de uma espera excessivamente longa pela libertação […]”.

“Um crescente nível de consciência é um perigo e uma doença”.

Friedrich Nietzsche.

A Crise de Refugiado

Apesar de inúmeras tentativas de seus amigos e colegas matemáticos, as sucessivas internações psiquiátricas e surtos, que já chegaram a acontecer até em meio a palestras que Nash viria a dar, foram parte de um conjunto de fatores que o levaram, inevitavelmente, a ficar desempregado e sozinho, causando até o afastamento de sua irmã e de sua esposa, Alicia Nash.

Em plena Guerra Fria, Nash queria se considerar um refugiado na Europa. Tentou fazer a renúncia de sua cidadania estadunidense inúmeras vezes, tão falhas quanto os pedidos de refúgio que fez à França e à Suíça em meio às suas perambulações em campos de refugiados, embaixadas, prisões e abrigos. Viajou pelo Cairo, Tebas, Mongólia e Guiana. A biógrafa de Nash explica tal momento de sua vida brilhantemente: “Assim como a hiperconcretude de um sonho se relaciona com os temas intangíveis da vida em vigília, a busca de Nash por um pedaço de papel, uma carteira de identidade, reflete sua antiga procura por insights matemáticos”.

John estava em um surto tão intenso, que se considerava o “Príncipe da Paz”, o “Pé Esquerdo de Deus” ou o “Imperador da Antártida”. Essa era a natureza grandiosa de seus delírios. E apesar destes terem feito o matemático a vagar por vários continentes, os estudiosos sobre os delírios não os vêem como a entrega da pessoa à doença, e sim como uma tentativa desta de se reestruturar à realidade, como “esforços heróicos para manter algum tipo de equilíbrio mental”, como diria o pesquisador E. Fulley Torrey. Não é atoa que estes têm uma lógica quase incontestável.

A Remissão

Apesar da apatia, da indiferença às emoções e da devastação de sua vida social e profissional, Nash tinha medo da normalidade. Talvez porque a normalidade seja uma fábrica de homens medíocres, talvez porque, como já disse Contardo Calligaris em seu seriado Psi!, esta seja “A pior das patologias, pois não tem cura e é altamente contagiosa”. Talvez tenha sido este o fundo de verdade da brincadeira que Nash fez uma vez, enquanto estava internado, com seu amigo Donald Newman ao perguntar: “E se eles não me deixarem sair até que eu esteja NORMAL?

A Esquizofrenia não devastou só a mente de Nash, mas o fez perder o contato que tinha com sua irmã Martha, com seus dois filhos (um bastardo e um legítimo), com sua esposa e a vasta maioria de seus amigos e colegas de trabalho. Em função de sua doença e da total devoção de sua esposa, sempre disposta a acompanhá-lo onde quer que fosse, seu filho legítimo, John Charles Martin Nash, ficou por volta de ano sem receber um nome e até morou com sua avó quando seus pais foram à Europa. Como o bebê nasceu em meio a um surto de Nash, Alicia, sua esposa, preferiu esperar até a melhora do pai para que seu filho viesse a ter um nome. Ele era chamado de “bebe épsilon”, uma piadinha matemática. Os matemáticos diziam que todo bebe nasceria sabendo solucionar a Hipótese de Reiemann e desaprenderia até os 6 meses. Uma curiosidade: Nash estava decidido a provar tal hipótese como verdadeira ou falsa um pouco antes de ser internado em um surto pela primeira vez.

Entre suas internações psiquiátricas, seus momentos de lucidez e até nos tempos em que John era considerado “bom” o suficiente  não ser internado, mas “doente” o suficiente para não ter um pingo de normalidade em sua vida, Nash passou um tempo vagando pelos corredores do Instituto de Estudos Avançados de Princeton. Não sendo reconhecido pelos que já tinham estudado a sua própria teoria – que a este ponto já era considerada importantíssima, ele era considerado “O Fantasma de Fine Hall”. A doença, que havia chegado ao seu auge em poucos meses dos anos 60, apresentou seus primeiros sinais de remissão no começo dos anos 90. Sua melhora “foi um esvaziamento gradual”, como diria ele próprio.

Chegando a este ponto de leitura, já está claro que o pensamento de John Nash se mostrou, de alguma forma, superior ao da maioria. Há certamente um conjunto de especialistas que duvidem disso, mas para o nosso Nobel de Economia, quando perguntado sobre como e quando aconteceu a remissão de sua doença, ele responde: “Aos poucos, comecei a rejeitar intelectualmente certas linhas de pensamento influenciadas pelo estado de delírio […]”. Nash compara sua recuperação ao “[…] papel da força de vontade para se fazer uma dieta efetiva: se fizermos um esforço para “racionalizar” nosso pensamento, então poderemos simplesmente reconhecer e rejeitar as hipóteses irracionais do pensamento delirante”.

O problema é que, infelizmente, a remissão da esquizofrenia pareceu levar embora de John uma parte de sua inteligência. Seus insights foram embora, era mais difícil trabalhar em suas teorias. Não se saberá nunca se isso foi resultado dos tratamentos com insulina, se foram as repetidas doses de torazina e outros antipsicóticos neurolépticos, ou então, se a loucura de John Forbes Nash Jr. era apenas um sintoma de sua genialidade. Um estilo de pensamento único, que considerava mil possibilidades de um mesmo problema em milissegundos. O embotamento cognitivo típico da esquizofrenia foi fatal à Mente Brilhante de Nash. Ele mesmo considerava seus pequenos intervalos de lucidez como “interlúdios de racionalidade forçada”. A remissão o fez recuperar sua vida, mas nunca a sua essência de gênio. Ele mesmo diz:

“O pensamento racional impõe um limite à ideia que a pessoa tem de sua relação com o cosmo […] as pessoas pensavam que eu estava recuperando minha inteligência brilhante, mas eu, na verdade, estava retrocedendo a níveis de pensamento cada vez mais simples”.

A percepção de quem consegue superar e se recuperar de um quadro crônico de esquizofrenia, poderia ser semelhante ao despertar de um sonho lúcido. Em meio àquela imersão da imperceptível surrealidade do sonho, se este é bom, a vida real adquire um gosto amargo, ficamos tristes em sair daquele meio de realizações, onipotência e prazer. Por outro lado, se tivermos um pesadelo, é um grande alívio sabermos que ainda temos a chance, a esperança, de uma vida inteira de escolhas. Pois as más escolhas feitas durante o sonho saíam completamente de nosso controle. Mas se há algo que a vida de John Nash nos ensina, é que, sem dúvidas, a esquizofrenia se diferencia de um sonho ou pesadelo a partir dos rastros que sua surrealidade deixa na vida de quem a experiencia.

John Forbes Nash Jr.

1_vSaRF4nxHpFA4VqYY7uKTg

Dê play na inspiração dos assobios de Nash:

Nascido em 13 de junho de 1928, seus vícios eram assobiar músicas de Bach pelos corredores de Princeton enquanto procurava insights matemáticos em sua mente, repleta de atalhos ao pensamento genial. Teve dois filhos: John David Stier, que passou a vida sem a presença e sem o Nome do Pai. E John Charles Martin Nash, que herdou, juntamente ao Nome Próprio, a inteligência e, posteriormente, a crônica esquizofrenia paranoide — o tripé da fama de seu pai.

O único amor maior que a matemática em sua vida, foi o correspondido amor por Alicia Nash. O homem de quase 1,90m, passou de um jovem arrogante matemático ao vencedor do Premio de Economia em Homenagem a Alfred Nobel, em 1994, em função de sua contribuição à Teoria dos Jogos.

Se alguém lhe dizia “Bom Dia”, John Nash iria buscar a fórmula matemática que eliciaria tal comportamento àquela forma. Talvez em um contraste ao seu interesse pelas relações humanas em geral, Nash se tornou um dos maiores gênios no que diz respeito à análise do comportamento humano. Não pelos seus praticamente inexistentes estudos em psicologia ou psiquiatria, mas por carregar em si, o fardo daqueles que mudam para sempre a história do limitado pensamento “humanóide”, como ele já nos chamou.

Morreu aos 86 anos, como que por missão, lado a lado com sua esposa Alicia Nash, em 23 de maio de 2015. Sua morte aconteceu dias depois de conquistar o Abel, a premiação máxima na Matemática, pelo desenvolvimento do PDE (Partial Different Equations, ou equações parciais diferentes). O motorista de táxi da cidade de Nova Jersey, a mesma onde fica Princeton, seu centro de realizações, falhou em uma ultrapassagem que resultou em uma colisão que levou o casal, sem cinto de segurança no banco de trás, para fora do veículo. Tenho certeza que onde quer que esteja, o matemático estará criando uma fórmula para entender a razão do choro que tantos de nós, mortais e de intelecto mediano, derramamos em função de sua partida. Nash não só Equilibrou a Teoria dos Jogos e do Comportamento Econômico, como também equilibrou o lado brilhante com o doente de sua mente, mas, principalmente, se Equilibrou entre os preconceitos de um mundo conservador e preconceituoso, que agora será obrigado a conservar uma das mais lindas e históricas contribuições para a matemática. Mesmo que está tenha sido deixada pela maior representação do medo conservador: um diferente.

 

 

 

Fontes:

https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economic-sciences/laureates/1994/nash-bio.html

Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição

https://rbsc.princeton.edu/sites/default/files/Non-Cooperative_Games_Nash.pdf

Livro consultado para a maior parte do texto: Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind), de 2001. Sylvia Nasar.

 

Todas as imagens contidas no texto foram retiradas da internet, onde já estavam disponíveis de forma livre e gratuita. Caso seja o proprietário de uma destas imagens acima e considerou seu uso indevido, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos.

Será que ele/ela me trai? Se não deixa pegar o celular é porque tá Traindo, Bebendo ou por que o Relacionamento é Saudável?

celular

Será que devo mexer no celular do parceiro?

A resposta é categórica e definitiva: não se você quiser estar em um relacionamento saudável. Mas por quê?

A Era dos Smartphones

Se pudéssemos escolher algo que defina completamente a década atual, definitivamente o celular representaria bem este papel. Apesar de já existir há muito tempo, foi na segunda década do século XXI que o smarphone, o celular como conhecemos hoje, se difundiu.

Acesso à internet, acesso às mais diversas redes sociais, conexão muda ou não com o mundo inteiro. Hoje é possível conversar, de graça, com alguém do outro lado do mundo sem dizer uma palavra sequer, quase que inutilizando as operadoras de telefonia. Mas, falando à China ou à esquina, algo não mudou: a comunicação deixa rastros – e é exatamente sobre eles que este texto vai falar sobre.

Só uma olhadinha…

vigiando

Estar em um relacionamento pode ser algo extremamente agradável, ou não. Mas Freud já nos avisou que estamos fadados a continuar procurando referências nossas citadas por alguém. Ou seja: continuaremos procurando aquelas coisas – ansiedades, desejos, traços, comportamentos, imagens, semblantes, alturas, vozes, etc – que completariam aquela figura idealizada por nós do parceiro perfeito. E ok, isso acontece. Não há nada de errado em querermos quem nos lembre (ou nos faça esquecer) de nossos pais, irmãos ou até de nós mesmos. O problema é quando solicitamos (ou ordenamos) provas cabais de que estamos ao lado desta pessoa que queremos. Pior ainda: quando isso é feito de sob intensa vigília.

A fidelidade – o ato de ser fiel – é um fardo muito grande. O fiel, segundo o dicionário, é aquele que tem fé, aquele que acredita mesmo sem provas. Mas será? Não é incomum encontrarmos relacionamentos onde as pessoas pedem “provas” da monogamia exercida pelo outro. E na Era Digital, na Década dos Smartphones, algumas pessoas querem o direito – apenas exercido pelos que detiverem um mandado judicial – de vasculhar o celular do par romântico, nem que seja só uma olhadinha.

Tá escondendo o quê?!

Há uma semelhança muito grande entre o ciúmes e a paranoia: a certeza. Assim como o indivíduo paranoico tem certeza de que estão falando, rindo, tramando contra ele, o ciumento tem a certeza de que é traído. A diferença é que a paranoia não é tão reforçada e romantizada na nossa sociedade: através de novelas, músicas e filmes. Mesmo que, em ambos, seja muito difícil (e desgastante) mostrar para aquele indivíduo que ele está errado. E já que estamos na Era dos Smartphones, qual seria a principal fonte de provas para as nossas convicções? Sim, você acertou. Aquele que, em muitos banheiros do mundo, desempregou os rótulos de shampoo; aquele que nos salva de filas de banco e até da solidão e ansiedade de esperar por alguém em algum lugar: o celular. Detentor de rastros de quem somos, do que fizemos e de nossos planos. E se você se recusar? Estará reforçando aquela certeza que já existia, logo, está escondendo alguma coisa errada. Portanto, está traindo.

celular relacionamento abusivo

Mas vou como saber se a pessoa está sendo fiel?

No bom e velho português? Você não vai. Me preocupa que principalmente no Brasil, algo seja de uma naturalidade que me causa muito espanto: a condenação ocorre antes da acusação e o único advogado de defesa possível é a renúncia do direito à privacidade! Mas se a fidelidade é a Lei, e esta deve ser cumprida como regra, não deveria ela então, como toda regra, ter uma exceção? Pelo menos, acredito eu, em sua “fiscalização”, deveria. Pois já sabemos: o preço da fiscalização eficiente é a liberdade. Mas seria este, necessariamente, o preço de um relacionamento? Talvez não em um que seja considerado saudável.

A fidelidade é um presente que não se pode desembrulhar para saber como é. É como aquele caro adorno que se dá para alguém que pouco se vê: você nunca saberá se a pessoa ficou grata ou jogou no lixo, mas sempre terá a certeza de que você fez o seu melhor e acredita que a pessoa faria o mesmo por você.

É preciso confiar

confianca-sincronia

É preciso confiar na pessoa que escolheu para dividir suas alegrias e tristezas; saúdes e doenças; riquezas e pobrezas, pois assim somente a morte – literal ou figurada – de seu amor os separará; e não o ciúmes, a vigília, ou pior, o celular. Mil vezes a pessoa sorrirá lendo uma mensagem, dez mil ouvindo um áudio; mas se há confiança, tu não se sentirás traído.

Só se ama alguém que seja digno de nossa confiança. E convenhamos, o que te faz ficar com quem não merece a sua? Uma coisa é certa: enquanto continuarmos procurando n’outro a nossa certeza de uma traição, a dúvida do quanto somos amados ou o interesse deste por outrem: encontraremos, existindo ou não. Mas vale lembrar o que a necessidade desta procura já nos conta: se olharmos para dentro, veremos que tudo isso está morando conosco já há muito antes.

Talvez seja a hora de terminar com a insegurança.

Por Caio Cesar Rodrigues

Como Vencer o Vício em Drogas? Dependência Química: Internação Resolve?

Crackpng

Afina, o que é dependência química?  É caso de polícia ou de Saúde Pública? O que fazer?

Ainda se alguém não conheceu um dependente químico, com certeza já ouviu falar sobre o assunto nos noticiários. Seja sobre a famosa "cracolândia", seja sobre as ações politico-policiais que a envolvem. Mas o que caracteriza a dependência química? Qual a diferença entre um usuário eventual e um dependente? A melhor solução seria cadeia, internação ou nenhum dos dois? 
A Sociedade dos Psicólogos preparou um texto exclusivo sobre o assunto.

O que é Dependência? Quem pode ser considerado um dependente químico?

Como podemos diferenciar um usuário de um dependente? É muito comum observarmos na grande mídia a utilização de termos como “usuários” e “dependentes”. Mas o que significa cada um destes termos?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) a dependência química é uma doença crônica, progressiva (piora com o passar do tempo) e primária — pois outras doenças aparecem em sua decorrência. A dependência química é um transtorno mental caracterizado por um grupo de sinais e sintomas decorrentes do uso de drogas.
De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em junho de 2017, 5% da população mundial consumiu algum tipo de droga em 2015 (aproximadamente 250 milhões de pessoas) e pelo menos 190 mil morreram neste mesmo ano por causas diretas relacionadas com entorpecentes.
O Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, mostra especial preocupação pois há cerca de 29,5 milhões de pessoas que sofrem com transtornos graves pelo consumo de drogas.

Uso, Uso nocivo e Dependência:

Pode-se entender que o Uso é caracterizado como a administração de qualquer quantidade de substância psicoativa no organismo.
Na definição dada pela OMS, através da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), o chamado "abuso", é chamado de Uso Nocivo, caracterizado por:

• Evidência de correlação entre o uso da substância e danos físicos, psicológicos e/ou comprometimento das capacidades de julgamento ou disfunções comportamentais; 
• Dano claramente identificável à vida do usuário;
• Uso contínuo durante um mês ou repetido ao longo de 12 meses;
• Com exceção da intoxicação aguda, não há critérios que identifiquem outro transtorno relacionado à substância em questão.

Ainda seguindo os padrões do CID-10, a Dependência é caracterizada por:

• Forte desejo ou compulsão pelo uso da droga;
• Incapacidade de controlar os níveis de consumo;
• Presença da Síndrome de Abstinência (conjunto de Sinais e Sintomas físicos e/ou psicológicos após interrupção do uso de substâncias);
• Tolerância à substância;
• Abandono de atividades prazerosas ou de grande interesse para o consumo de drogas;
• Uso contínuo apesar das consequências.

O Uso de Drogas no Brasil

drugs

Uma vez que conseguimos entender melhor as definições tão utilizadas na grande mídia, será possível que possamos nos aprofundar mais no assunto. Entretanto, é necessário algum embasamento: como é o uso de drogas no Brasil?
Apesar de poucas pesquisas realizadas, existem dados que mostram um pouco sobre como o brasileiro se relaciona com as drogas.
A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) realizou duas pesquisas para entender como se dava a relação da população brasileira com as drogas lícitas e ilícitas.
Tais pesquisas foram realizadas em domicílios e em universidades.

Uso de Drogas — Um Levantamento Domiciliar

Em 2005, 7.939 pessoas passaram por entrevistas feitas diretamente em domicílios de todo o país. Foram feitas perguntas específicas e garantia de sigilo. Assim, foi realizado o II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: Estudo Envolvendo as 108 Maiores Cidades do País. Realizado pelo SENAD. 
Através dele, foi possível identificar que, entre os brasileiros:

• 74,3% já fizeram uso de Álcool na vida, enquanto 38,3% no último mês;
• 44,0% já fizeram uso de Tabaco na vida, enquanto 18,4% no último mês;
• 8,8% já fizeram uso de Maconha na vida, enquanto 1,9% no último mês;
• 2,9% já fizeram uso de Cocaína na vida, enquanto 0,4% no último mês;
• 0,7% já fizeram uso de Crack na vida, enquanto 0,1% no último mês.
Confira a pesquisa completa.

Uso de Drogas entre Universitários:

drugsandalohol

Já em um outro estudo, alguns resultados são um pouco mais elevados. No estudo realizado com 12.711 universitários em Instituições de Ensino Superior (públicas e privadas) em todas as regiões do país em 2010, a Secretaria Nacional de Politicas sobre Drogas, ao realizar o I Levantamento Nacional sobre o uso de álcool,tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras, constatou:

• 86,7% já havia feito uso de Álcool alguma vez na vida, enquanto 60,5% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 26,1% já havia feito uso de Maconha ou variações dela alguma vez na vida, enquanto 9,1% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 7,7% já havia feito uso de Cocaína alguma vez na vida, enquanto 1,8% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 1,2% já havia feito uso de Crack alguma vez na vida, enquanto 0,2% fizeram uso nos últimos 30 dias.
Confira a pesquisa completa.

Há uma Epidemia de Dependência Química no Brasil?

A impressão que temos ao observar os noticiários ou ações policiais é de que o Brasil apresenta índices altíssimos de dependência de drogas. Entretanto, as pesquisas acima parecem não justificar todo este alarde.
Mas o que poderia, então, ser motivo de tanta preocupação e veiculação do assunto à nossa mídia?
Por que há a preocupação de alguns políticos em mobilizar forças policiais, autorizações de internação compulsória e uma clara política de combate às drogas no país?
As crackolândias são problemas reais, mas o uso de drogas não parece ser tão alarmante assim. Então o que poderia ocasionar este fenômeno nas grandes cidades?
Ainda é difícil dar uma resposta definitiva a esta pergunta. Entretanto, algo é fato: existe um perfil específico de usuário que frequenta as crackolândias — e é possível que aqui more algum tipo de explicação.

O Perfil do Usuário — Quem usa Crack no Brasil?


perfil usuário crack

Em 2013, juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz e o Ministério da Saúde, a Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas (Ministério da Justiça) realizou outra pesquisa, desta vez diretamente sobre o uso de Crack e outras drogas, tentando identificar o perfil dos usuários.
Os pesquisadores entrevistaram cerca de 7 (sete) mil usuários de crack/similares em todos os estados do Brasil e no Distrito Federal.
Era necessário ter mais de 18 (dezoito) anos e ter usado Crack, Pasta Base, Merla ou Oxi em pelos 25 dias nos últimos 6 (seis) meses.
A partir desta pesquisa, pode-se finalmente traçar um perfil dos usuários de Crack no Brasil com uma amostra significativa. Algo inédito até então.

Segundo a pesquisa, temos:

A "cara" do Dependente Químico:

• Mais de 50% dos usuários de Crack têm entre 18 e 29 anos;
• Cerca de 80% são do sexo masculino;
• 80% são de etnia considerada "não-branca" (pardos ou negros).

Nível de Escolaridade:

• 5% não terminou nenhuma série sequer;
• 55% tem escolaridade localizada no período da 4ª à 8ª série do Ensino Fundamental;
• Cerca de 20% possuí Ensino Médio completo ou Incompleto 
• 5% possui Ensino Superior.

Onde mora o Dependente Químico?

• 40% dos usuários declaram morar em casa ou apartamento próprio ou da família;
• 35% relataram estar em situação de rua.

Drogas Utilizadas em Conjunto com o Crack e Similares:

• 92,1% admite ter feito uso de Tabaco;
• 83,8% admite ter feito uso de Álcool;
• 76,1% admite ter feito uso Maconha;
• 52,2% admite ter feito uso Cocaína.

Fatores que Motivaram o Uso de Crack/Similares:

• 58% dos usuários dizem que o uso se deu por ter conseguido a droga ou ter sentido vontade/curiosidade de conhecer seus efeitos;
• 29,2% relacionam o uso às perdas afetivas (lutos, términos de relacionamento, etc), problemas familiares e/ou abuso sexual;
• 26,7% alegam que foi a pressão dos amigos;
• 8,8% à falta de perspectiva ou uma vida ruim;
• 1,6% à perda do emprego ou fonte de renda.

Outro dado alarmante é que 78,9% dos usuários de crack e/ou similares disseram vontade de realizar tratamento.

A pesquisa conclui, portanto, que o usuário de Crack no Brasil costuma ser um homem jovem, negro ou pardo, que foi pouco escolarizado; que mora na rua, usa mais de uma droga, tem pouco contato com a família e/ou amigos ou histórico de violência física e/ou sexual; além de querer realizar tratamento contra a dependência.
Clique aqui para visualizar a pesquisa na íntegra.

Um Relato em Primeira Pessoa

Será que é possível estabelecer uma relação entre o relato do usuário acima e os dados da pesquisa?

• O homem aparenta ter entre 30 e 40 anos, é negro e está desempregado;
• Sua residência é uma moradia improvisada — uma casa de madeira;
• Relata que o uso da droga o afugenta de seus problemas pessoas (20-25 pedras por dia) e também faz uso de outras drogas;
• Possui uma relação distante de sua família;
• Quer realizar tratamento (já realizou 12 vezes);
• Sente-se sem forças, sem perspectiva de vida e socialmente estigmatizado;
• Tem um histórico de perdas

Observando o perfil dos usuários e a desestabilização que a dependência em crack causa, podemos até, por alguns momentos, a entendermos também como um problema social.
Contudo, este viés dificilmente é abordado nas soluções oferecidas aos usuários — frequentemente vistos como criminosos reais ou potenciais.
Mas quais são as soluções atualmente oferecidas? 
Seriam elas as mais efetivas?

A Solução

drugshelp

Em função do aumento exponencial da concentração de usuários de crack nas grandes cidades, podemos observar maiores índices de roubos, furtos e tráfico de drogas nas redondezas de onde se instalam as crackolândias. Em uma relação lógica, o aumento da criminalidade fará necessária a mobilização de um maior emprego da força policial.  Entretanto, há quase um consenso entre os especialistas: este é um problema de saúde pública.

Após anos e mais anos da adoção de medidas como: o aumento do policiamento, das investigações criminais e  de ações violentas de dispersão de usuários, as políticas de combate à crackolância pareceram finalmente visualizá-la como um problema de Saúde Pública. Entretanto, na Cidade de São Paulo, por exemplo, um dos pontos mais polêmicos desta nova visão foi a solicitação de prévia autorização judicial para a internação compulsória. 
Afinal, seria esta a solução mais adequada para o tratamento da drogadição?

Internação Compulsória é Efetiva?

Em fevereiro de 2016, um grupo de pesquisadores publicou no The International Journal of Drug Policy o artigo: The effectiveness of compulsory drug treatment: A systematic review.
O artigo tinha exatamente o objetivo de analisar se há indícios científicos de eficiência nas políticas de tratamentos compulsórios que eram impostas a alguns usuários — no que diz respeito às reduções de reincidências no uso de drogas e crimes praticados por seus usuários.
Foram selecionados 430 estudos em potencial (em língua inglesa, espanhola e portuguesa) para que a partir daí fosse feita uma triagem dos que serviriam ao critério. Entretanto, a deficiência no número de pesquisas sobre o assunto foi alarmante: apenas 9 (nove) estudos puderam ser utilizados.
Os estudos incluíam vários tipos de tratamento compulsório — inclusive aqueles que aconteciam após prisões por uso de drogas (como acontece em alguns estados dos EUA — um país que apresentou dados compatíveis aos que o estudo necessitava).
Dentro destes casos, avaliou-se como os tratamentos impostos (entre eles a internação compulsória) seriam eficientes para cessar o uso de substâncias, bem como a reduzir as taxas de reincidência nos crimes praticados por usuários após a realização do tratamento compulsório.

Dentre os nove estudos que puderam ser utilizados, concluiu-se que:

• Em três destes estudos (33%), não foram encontrados impactos significativos nos tratamentos compulsórios quando estes são comparados com políticas de prevenção do uso de drogas;
• Em dois estudos (22%), os resultados foram considerados equivocados, mas não foram comparados com as políticas de prevenção;
• Em dois estudos (22%), os resultados observados foram considerados negativos no que diz respeito aos impactos dos tratamentos compulsórios na reincidência de crimes;
• Em dois estudos, os resultados observados foram considerados positivos, no que diz respeito aos impactos do tratamento compulsório na reincidência de crimes.

Em uma conclusão final o artigo concluiu que, de fato, a literatura científica ainda está limitada, no que diz respeito à avaliação da eficiência dos tratamentos compulsórios perante o uso de drogas.

Entretanto, também diz que os poucos estudos disponíveis não sugerem melhores resultados nas abordagens de tratamento compulsórias.
Os autores ainda enfatizaram que alguns estudos sugeriam potenciais danos em tais abordagens.

A mensagem final deixada pelos cientistas foi que: considerando o potencial que o tratamento compulsório tem para o abuso dos direitos humanos, deve-se priorizar as modalidades de tratamento não-compulsórias buscando reduzir os danos relacionados.

Apesar de o estudo não ser focado exclusivamente na Internação Compulsória, ele no mínimo aponta que não há evidências diretas na eficácia de tratamentos realizados contra a vontade do usuário.

Confira o artigo (em inglês) na íntegra.

Qual é a melhor solução?

Com a precariedade de estudos científicos sobre o tema, ainda é muito difícil definir a melhor abordagem sobre o assunto.  No vídeo a seguir, temos o relato de alguns ex-usuários falando sobre como foram seus tratamentos, suas novas perspectiva de vida e as dicas que dão aos que buscam ajuda.

Há também no vídeo, o posicionamento do Doutor Arthur Guerra, que já foi Presidente do International Council on Alcohol and Addictions -ICAA e hoje é Professor Titular de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC e Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.

Complementando o posicionamento do ex-usuários e do especialista, a Sociedade do Psicólogos também acredita que pode-se combater a dependência química com mais veemência a partir:

• Da Realização de Programas de Prevenção ao Uso de Drogas nas escolas e comunidades:
Se os leitores bem se lembram, existe um perfil dos usuários de drogas. Dentro deste perfil, podemos observar que o nível de escolaridade mais comum entre os usuários de crack no Brasil é definido nas séries do Ensino Fundamental. A partir desta informação, é possível que haja uma abordagem de prevenção focada principalmente nos estudantes deste curso. Recomenda-se que esta abordagem seja realizada por profissionais do ramo — psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e agentes de saúde;

• Do Aumento Significativo no Investimento e Incentivo de Pesquisas Científicas:
Não só no Brasil, mas no mundo inteiro ainda existe um número precário de pesquisas a respeito da eficácia das diferentes modalidades de abordagem nos tratamentos de drogadição. O investimento em pesquisas científicas sobre o assunto é algo considerado crucial para que surjam novas modalidades de tratamento ou melhoria nas que estão atualmente disponíveis;

• Do Aumento da Inclusão de Políticas Sociais — Moradia, Reinserção no Mercado de Trabalho, Reinserção no Ambiente Escolar, etc:
Levando em consideração que os usuários mais comuns pertencem a um grupo em situação de vulnerabilidade social, é possível identificar (ou ao menos supor) que muitas vezes o uso de drogas está relacionado à ausência de condições básicas que garantem a dignidade humana (uma vez que uma parcela significativa dos usuários está em situação de rua, tem baixa escolaridade e pouco ou nenhum contato afetivo). Uma hipótese neste caso ,seria se a recuperação do que foi perdido (ou nunca conquistado) poderia impactar nos níveis do uso de substâncias.

Deixe a sua Opinião:

Deixe seu comentário. Você poderá nos apresentar pesquisas sobre o assunto, críticas, elogios ou até (se assim desejar) compartilhar experiências pessoais que envolvam tal situação. Sua opinião será muito bem-vinda e com certeza será bem acolhida.

Pulsão ou Instinto? Qual é a diferença?

Instinto ou Pulsão? Qual é o conceito de cada um? Qual é a diferença entre eles? Confira.

24672693

A Guerra Ideológica nas Traduções

É natural a todo principiante nos estudos da psicanálise e, consequentemente, da psicologia moderna, se deparar com versões distintas de tradução nas obras de Freud. Numa versão bastante difundida de sua Obra Completa, termos como Instinto (Instinkt em alemão) e Repressão (Unterdrückung em alemão) , por exemplo, eventualmente são utilizados para descrever os conceitos de Pulsão (Trieb em alemão) e Recalque (Verdrängung em alemão).

Alguns estudiosos vão dizer que há aqui um componente ideológico, inserido durante as traduções do alemão para o inglês, dando abertura para interpretações que eventualmente destoariam do que fora originalmente proposto por Freud. Mas deixaremos esta discussão para um outro momento. Contudo, vamos começar pela diferença etimológica entre pulsão e instinto.

Etimologia

Conforme já sabemos, Sigmund Freud era Austríaco, tendo como sua língua materna o alemão. Naturalmente, nos é necessário buscar o significado das palavras usadas pelo psicanalista na língua em que foram escritas.

Instinto – Instinktgrafado de maneira idêntica ao que é postulado na biologia, é algo mais pautado ao comportamento de uma espécie, comumente usado como instinto sexual. Naturalmente, a palavra instinto é também utilizada, em alguns contextos, como sinônimo da palavra “impulso”.

Pulsão – Trieb: grafado de maneira semelhante ao verbo trieben – ação de impelir.
Trieb: impulsão, fazer avançar à força; empurrar, impulsionar; força motriz (usado na física e na engenharia); impulso da força instintual (instinkt).

Vemos que Trieb também pode vir a ser utilizado como um sinônimo de Instinkt na língua alemã. Então por que ainda se fala em “Erro de Tradução”, ou ainda em “Guerra Ideológica” através da mudança do termo? Para chegarmos a algo que nos aproxime de tal entendimento, será necessário conhecer um pouco mais sobre as definições.

As Definições

Se lembrarmos do uso da palavra Instinto antes de chegarmos a sua definição, podemos lembrar que em línguas latinas e também na língua inglesa não é incomum que nos deparemos com uma semelhança no emprego de Instinto, Intuição e Impulso.

Ex: “Eu agi por instinto”; “My instinct told me to act like that (Meu instinto me disse para agir daquele jeito)”; “O instinto materno é algo incrível!”.

Um consenso sobre como houve essa aproximação de conceitos caberia aos bons linguistas. Quando buscamos uma definição de instinto, o resultado dificilmente não se aproxima de um conceito Darwinista:

“Considera-se ordinariamente como instinto um ato desempenhado por um animal, sobretudo quando é novo e sem experiência, ou um ato desempenhado por muitos indivíduos, da mesma maneira[…]” (DARWIN, C. 2003. p. 273).

Um instinto poderia ser, em outras palavras, um comportamento biologicamente herdado, igual em todos os membros de uma determinada espécie, que perante um estímulo motiva ações com a finalidade ligada à sobrevivência e/ou reprodução.

Mas devemos nos atentar a um detalhe: o instinto nos impulsiona de acordo com o que acontece em nosso meio, com uma finalidade específica. A confusão entre instinto e pulsão é legítima, dadas as semelhanças, mas deve ser extinta, uma vez que falamos de funções e finalidades diferentes.

Por exemplo: se falta alimento no local onde estamos, devemos usar nossos músculos para que haja movimento até conseguirmos o alimento no mundo externo.

A partir do momento em que tal finalidade é atingida, deixamos de sentir toda aquela urgência instintiva que nos impulsiona a algo. E, naturalmente, agimos de acordo com o que é esperado para nossa espécie.

Quando algo deixa de ser Instintivo?

Cena de: “La grande bouffle” (em italiano: La grande abbuffata; no Brasil, A Comilança; em Portugal, A Grande Farra), filme franco-italiano de 1973 em que um grupo de pessoas se reúne com o objetivo de comer tudo aquilo que desejam até a morte.

As Pulsões

Em sua obra, quando se refere às Pulsões, Freud não deixa de utilizar o termo Trieb. E em seus usos do termo Instinkt (“Nova Série das Conferências de Introdução à Psicanálise“, Freud, 1933/1964, p. 106) mostra que seu entendimento de Instinto era diferente daquilo que viria a ser o grande cerne de sua teoria: As Pulsões (Trieb) – bastante retratadas em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), As Pulsões e seus Destinos (1915) e Além do Princípio do Prazer (1920).

Para “resumir a síntese de uma resenha” deste conceito, poderíamos utilizar uma passagem que adaptamos de Freud para definir o que seria uma Pulsão:

Um conceito-limite entre o psíquico e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que provém do interior do corpo e alcançam a psique, como uma medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo. (Freud, 1915, p. 4-5)”

Pulsões seriam, então, representantes de forças impulsionadoras que se originam no interior do corpo e são transmitidas ao aparelho mental, pressionando no sentido de descarga. São Inconscientes e fazem parte do que Freud chamou de Processo Primário, ou seja: ocorrem antes da ação do Recalque. As Pulsões buscam restaurar um estado anterior das coisas (Freud, 1920). Contudo, o processo de recalque não as cessa, apenas as direciona para um tipo mais elaborado de descarga.

Já é possível perceber aqui que, diferentemente dos instintos, os estímulos de uma Pulsão estão exclusivamente do mundo interno de um sujeito. Ou seja, enquanto nosso instinto de sobrevivência só nos permite mover os músculos para fugir quando encontrarmos um leão na selva, nossa Pulsão utilizará de combustível para impulsionar o que está em nosso mundo interno em busca de descarga: a libido.

A Pulsão não ocorrerá para desencadear um comportamento em específico. Ela muito menos se limita a se apresentar de maneira igual em indivíduos de uma mesma espécie. Cada um encontrará a satisfação de seus impulsos pulsionais em objetos que façam acordo com sua própria história subjetiva.

Se é da ordem do instinto ingerirmos determinada quantidade de alimento para a nossa sobrevivência, é além da ordem de algum tipo de princípio do prazer, impulsionado por uma grande força que tenta restaurar algum estado anterior das coisas, aquela nossa compulsão por repetir à exaustão o consumo de determinados alimentos que sequer têm algum valor nutritivo. Ou será que comemos apenas para nutrir nosso organismo? Você conhece alguém que ingere alimentos apenas pela pela motivação da fome? Se isso fosse verdade, colocaríamos em xeque todo o entendimento de dietas para múltiplos fins; toda a variedade de temperos e técnicas de culinária empregadas por toda a dedicação que há nos Chefs de cozinha. Comemos por algo a mais.

Explico a relação da comida com a fase oral do desenvolvimento neste texto. Confira.

Se o instinto acaba no ato de sua finalidade, a pulsão continua até deixar de existir – o que só aconteceu antes do nascimento; aquilo que só poderá acontecer após o fim do último batimento cardíaco. O fim da pulsão estará sempre aliado ao fim de toda a atividade cerebral de um indivíduo: a morte.

Tipos de Pulsão

Se o instinto sexual nos conduz à reprodução de nossa espécie, à continuidade de nossos genes num futuro próximo, a Pulsão de Vida (Eros – Pulsão Sexual) se tornou uma tentativa de postergar – através das pequenas doses de prazer obtidas após uma serie de tensões e conflitos, oriundos no contato com o mundo externo – até onde for possível a última finalidade de toda e qualquer vida: o retorno para aquele pacífico estado inanimado, semelhante a algo antes de seu começo – a morte (Thanatos, Pulsão de Morte).

1016675984_large-image_egsdedmothlg1910

Se no início as pulsões encontraram satisfação no próprio sujeito, direcionando a descarga em áreas específicas do corpo durante as fases de seu desenvolvimento psicossexual, após certo momento, seus alvos foram se tornando objetos no mundo externo.

Se sabemos que a Pulsão de Morte é aquilo que conduz o indivíduo ao prazer de não sentir desprazer algum, ou seja, um estado onde não há o conjunto de complicações da vida, nos é previsível indagar o que faria essa força impulsionadora diminuir sua intensidade para nos deixar vivos por mais tempo.

Se quisermos desenhar, ilustrar a possibilidade de nosso próprio organismo tentar nos conduzir a morte a partir de seu movimento natural, podemos lembrar da própria mitose, o processo de desenvolvimento das células através de sua igual repartição. Quando esta ocorre de maneira desenfreada em alguma célula do organismo, conduz seu crescimento constante até que esta se torne uma anomalia que se tornou a segunda principal causa de morte no mundo.

E por falar em câncer, o que seria um de seus maiores causadores, senão uma fixação, um retorno da libido àquele momento da vida em que era predominante a satisfação das tensões, ou seja: uma descarga das Pulsões libidinais através da via oral? Naturalmente, recorrer ao cigarro em momentos de estresse e tensão deve ser algo que aproxime o sujeito, mesmo numa pequena fração, à primeira satisfação que lhe proporcionou o seio materno.

E esta seria uma forma de representar uma pulsão se direcionando a um objeto, num momento em que esta deixou de poder encontrar satisfação apenas no indivíduo. Freud vai nos dizer (1920) que, sem a pulsão de vida, nossa compulsão à repetição daquilo que nos dá prazer, motivada por Thanatos, nos conduziria à morte rapidamente. A Pulsão de vida (Pulsão Sexual), seria uma forma de encontrar pequenas pausas, uma mudança temporária da rota ao destino final.

A relação sexual é uma forma de descarga da Pulsão que envolve o contato com um outro. Contudo, para que esta aconteça, escolhe-se o conjunto adversidades  naturais do contato interpessoal para encontrar tal descarga de libido. O sujeito escolhe, inclusive, passar pelas etapas de um processo de sedução, pela a exposição perante a rejeição do desejo pelo outro e muitas outras dificuldades que envolvem a busca por sexo; uma vez que conseguir obter o intermédio do outro, através do consentimento e suas condições, é uma forma de satisfazer minimamente a pulsão e respeitar as leis sociais. Caso contrário, se um sujeito obedecesse estritamente a a intensidade máxima de sua Pulsão e agisse sem a ação do Supereu – de fazê-lo entender os limites e leis da sociedade – ele provavelmente cometeria um crime sexual.

Assim como se eu comer bacon sem parar, se eu fumar um cigarro atrás do outro sem intervalo algum para viver o prazer de forma ininterrupta, meu tempo de vida estará em jogo. Para Freud (1920), a Pulsão de Vida (Eros) será responsável pela interrupção dos comportamentos impulsionados por Thanatos através da busca pelo contato com o outro.

É como se, ao reparar nas semelhanças daquele objeto (o outro) com aquilo que eu acredito ter me dado prazer em tempos primórdios de minha infância, eu buscasse uma forma de satisfação quase tão boa quanto, mas que só aconteceria após uma boa dose de estresse e tensão – componentes naturais quando falamos da divergência existente no contato entre seres humanos diferentes. E nessa satisfação obtida através do ato sexual, da investigação científica (como forma forma de sublimação), etc. desvia-se um pouco da morte iminente que causaria o cega busca pela satisfação das Pulsões de Morte.

“A pulsão seria, então um estímulo para o psíquico que vem do interior do organismo, que não age como uma força momentânea de impacto, mas como uma força constante. (Freud, 1920)”.
Enquanto a pulsão de morte tenta adiantar o objetivo da vida, a Pulsão de vida tenta mostrar outro caminho que pode prolongar a experiência durante este objetivo.

A Ambivalência

amor-odio

“Se uma relação de amor com um dado objeto for rompida, freqüentemente o ódio surgirá em seu lugar, de modo que temos a impressão de uma transformação do amor em ódio. Esse relato do que acontece leva ao conceito de que o ódio, que tem seus motivos reais, é aqui reforçado por uma regressão do amor” (Freud, 1915, p. 15)

Uma das mais antigas funções do aparelho psíquico é sujeitar os impulsos pulsionais que se chocam com ele, ou seja, fazer com que se tornem parte do sujeito. Se são predominados pelo processo primário, ou seja, aquilo que ocorre antes do recalque, após o acontecimento deste mecanismo, deverão encontrar sua pequena dose de satisfação a partir de atividades socialmente aceitas, que trazem rastros do prazer anterior ao recalcamento. O prazer na atividade atual se liga a algum prazer de Outros tempos.

É mais ou menos assim que um sádico se torna um cirurgião – seu prazer em ferir alguém se transforma na habilidade de curar, de salvar uma vida a partir de um uma ferida na pele. Assim toda aquela libido que ficaria livre num Eu se torna repousada, quiescente naquilo que agora serve ao indivíduo e o meio que este pertence.

As pulsões de vida, ou seja, o contato com o mundo externo e com o outro, podem nos tirar certa paz. Podem nos dar certa tensão, certas desavenças e algum estresse, é verdade. Mas não se pode negar que há pequenos intervalos de prazer e de alívio destas tensões, de satisfação levemente plena. Podemos até mencionar daquele sentimento oceânico que Freud menciona em O Mal Estar na Civilização (1929). E é daí que vale a pena todo este estresse que nos causa a renúncia de retornar ao estado zero. A morte, a ausência de problemas e preocupações e tensões deixa de ser tão atrativa nestes intervalos de prazer em que a vida vale a pena.

Para que servem as Pulsões?

“Retirantes”, de Cândido Portinari. Uma obra que retrata a morte presente em corpos vivos. A Vida e a Morte ocorrendo ao mesmo tempo.

Eros e Thanatos agem em conjunto. Se nossa capacidade de seguir as Pulsões de Vida não obtivesse interferência das forças impulsionadoras ao fim, é possível que sequer sentíssemos alguma urgência de prosseguir com algo. É possível que sequer buscaríamos aquilo que Lacan uma vez chamou de objeto a.

Não haveria desejo sem Pulsão de Morte. A urgência do desejo, o impulsionamento do indivíduo a buscar uma nova versão de tudo aquilo de bom que já experimentou depende de suas Pulsões. Mas se o contato com este desejo não for intermediado pelas relações humanas, é bem possível que nos prenderíamos exclusivamente a qualquer ilusão de pleno prazer. Por sexo e masturbação compulsivos, pelo sabor de uma comida favorita ou pela satisfação e pela euforia que causam certas substâncias lícitas ou ilícitas. O sujeito estará, lenta ou rapidamente, a caminho da morte, pois é a ela que serve o princípio do prazer.

E é por isso que Eros e Thanatos andam juntas. É por isso que nossas vidas subjetivas são repletas de ambivalência. Nossa capacidade de odiar algo ou alguém, ou seja, de buscar sua destruição através de toda a força pulsional que as Pulsões de Morte nos oferecem, é equivalente ao quanto aquilo nos poderia ter acalentado a libido através das Pulsões Sexuais (Pulsões de Vida), mas infelizmente foi algo que se perdeu nos conflitos inerentes ao contato humano.

Se amar alguém não é algo fácil, odiar também se torna um grande esforço libidinal. É preciso forte investimento para ambos. Não é atoa que eventualmente nos deparamos com notícias como esta:

Ex-líder da Ku Klux Klan é flagrado fazendo sexo com homem negro.

Considerações Finais

Portanto, se as Pulsões são confundidas com instintos, estaríamos determinando comportamentos igualitários para toda a espécie humana. Estaríamos contrariando esta pesquisa. Postulando um conjunto normativo de comportamentos. Se justificarmos o desejo de ser mãe de uma mulher como algo equivalente ao “Instinto Materno”, outras mulheres, aquelas que não querem ser mães; aquelas que não possuem o impulso que este “Instinto” causa, poderiam ser colocadas em uma categoria marginalizada (à margem) daquilo que é normal. Se justificarmos o ato sexual como unicamente proveniente do instinto humano, tornaríamos as relações sexuais homo, bin e pan afetivas uma anomalia do comportamento humano. E a história nos mostra o contrário. E isso poderia servir à múltiplas ideologias – e aqui respondemos uma hipótese ao que fora dito no início do texto: ideologias que poderiam ir contra aquilo que a teoria de Freud defendeu, ou seja, a liberdade dos sujeitos serem quem são.

Se a psicanálise nasce estudando os sintomas oriundos das repressões presentes em uma cultura uniformizante, como aquela da Era Vitoriana, por que dialogaria com a possibilidade de uniformizar o comportamento humano através da noção de Instinto?

Daí podemos pensar que a tradução de “Trieb” por “Instinto” poderia ter muita servidão a grupos mais conservadores à revolução trazida pela teoria que:

  • Foi contra a repressão da sexualidade feminina;
  • Apontou a existência de uma sexualidade infantil;
  • Explicitou a presença de um desejo incestuoso na sexualidade;
  • Explicitou uma agressividade não condizente com o que era permitido exibir;

Mas também mostrou que a história de cada sujeito permite que este module as variações daquilo que lhe é inerente. Apontou que o conhecimento obtido na análise pode permitir que o sujeito reconheça a origem e mude o destino de alguns de seus impulsos ou, ao menos, aprenda a conviver melhor com estes.

A psicanálise não poderia ser instintual, uma vez que sua ética para com o sujeito pulsional estará sempre à frente da hipocrisia pregada pela moral social.

REFERÊNCIAS

DARWIN, Charles (2003). A Origem das Espécies, no meio da seleção natural ou a luta pela existência na natureza, 1 vol., tradução do doutor Mesquita Paul.

Freud, S. (2006). Além do princípio de prazer. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.). Obras Psicológicas de Sigmund  Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 2, pp. 123-198). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1920).

Freud, S. (2004). Pulsões e destinos da pulsão. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.) Obras Psicológicas de Sigmund Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 1, pp. 133-173.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1915)

FREUD, S. (1905). Trois essais sur la théorie de la sexualité. Paris, Gallimard, 1987.

HANNS, Luiz Alberto. Dicionário comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996

 

 

Game of Thrones or Game of Words

Game of Thrones chegou ao fim.

Durantes anos, uma legião de espectadores assistiram na HBO e compartilharam suas opiniões através de inúmeras teorias, memes e spoilers dos episódios tentando prever quem ascenderia ao Trono de Ferro.

Há uma década antes de ser o seriado mais assistido/pirateado da história recente, inúmeros e ávidos leitores clamavam por uma adaptação das Crônicas de Gelo e Fogo, publicação de uma série dos atuais cinco e pretensos sete livros escritos por George R. R. Martin, jornalista de formação, escritor desde da década de 70 de ficção cientifica, terror e fantasia e roteirista de series de TV entre os anos 80/90.

O autor estava cansado de ver seus enredos anteriores mutilados para servir ao propósito comercial dos produtores de TV. O objetivo inicial de Martin com suas Crônicas era contar uma história que não pudesse limitar-se por questões geográficas, introdução de personagens e principalmente por prazo de entrega. O último livro da saga foi lançado em 2011. Nos anos que se seguiram, o autor produziu contos, novelas e livros dentro do mesmo universo, seguindo o seu projeto original enquanto a série estava indo por outros caminhos.

Algo em particular despertou o fascínio do público tanto nos livros quanto na série. Quando se pergunta ao seduzido espectador o porquê gosta do Universo de Game of Thrones, a resposta comumente é a mesma: não há a dicotomia, que é tão habitualmente é utilizada nas histórias de gênero, ou seja, nenhum personagem essencialmente do Bem ou do Mal. Dentro deste contexto qualquer personagem pode fazer uma coisa abominável com o objetivo de fazer ‘o melhor para o bem de todos’.

As Crônicas de Gelo e Fogo são um tratado sobre o discurso, a habilidade de colocar em palavras as estratégias sem dizer qual é o próximo passo aos seus oponentes. O Jogo dos Tronos é muito mais do que uma disputa para ver quem governará os Sete Reinos, é um jogo das palavras.

Alerta de Spoilers

Este texto foi construído com o objetivo de introduzir dos conceitos do um outro livro, Comportamento Verbal de B. F. Skinner, por isto, utilizei alguns diálogos dos livros/série sem revelar nenhum detalhe da trama. Devido a crescente decepção no final com a série, neste texto exponho argumentos sobre que lições podemos aprender sobre expectativa versus realidade.

Sala das Faces, na Casa do Preto e do Branco. É sim, está na foto sou eu.

Você não sabe nada, Jon Snow.

Ygritte, 2º Ep. 7º Temp.

Quando bem escritas, obras de ficção nos apresentam personagens com coerência narrativa, cujas ações/emoções sempre estão no volume máximo ou mínimo e categoricamente com efeito distorcido. Um bom exemplo de personagem coerente passível de análise psicológica é Hamlet, tragédia escrita por Willian Shakespeare, que posteriormente foi analisada pelo psicanalista Ernest Jones no livro ‘Hamlet e o Édipo’ (Ed. Zahar 1970).

As Crônicas de Gelo e Fogo é uma obra ficcional, que é contada pelo ponto de vista do personagem que está narrando o capítulo. Os entendedores sabem que para ter uma visão panorâmica da história é necessário montar um quebra cabeça intricado. Nos livros como a narrativa esta em primeira pessoa, em alguns capítulos temos um vislumbre do que se passa dentro da mente de um personagem quando este está pensando. No capítulo seguinte, outro personagem assume a narrativa, novas informações são inclusas na história, e isto fornece mais dúvidas do que certezas sobre, digamos assim, o caráter dos personagens. Especificamente na Dança dos Dragões, quando os acontecimentos são interrompidos apresentam nuanças jamais vistas dos personagens, vide exemplo Lord Varys.

No caso da série de TV, a complexidade ainda é maior, pois os espectadores tem uma visão ampla, com pontos de vistas diferentes da mesma cena sendo contada ao mesmo tempo. Como parte do entretenimento é tornar a história imprevisível e não há tantos diálogos expositivos, o espectador é capturado para dentro do episódio através da visão de um dos personagens. Quanto mais coesa e coerente a narrativa é, mais seus espectadores conseguem manter a suspensão de descrença, a capacidade de assimilar os acontecimentos da historia sem perceber, como dizem, ‘que algo de errado não esta certo’.

“O homem que dita a sentença deve brandir a espada.”

Ned Stark, 1º Ep. 1º Temp.

Na Psicologia Comportamental, B. F. Skinner em estudos no seu laboratório, percebeu que o quê falamos também expressa comportamento. Isto pode parecer se tratar da língua materna e da aprendizagem por fonemas (sons), mas é um pouco mais complexo do que isto, há uma correlação entre o conteúdo e a forma.

Segundo Skinner, o comportamento verbal é comportamento operante, agindo sobre o ambiente e sofrendo as consequências da alteração que provoca nele. Estas consequências – como o reforço e a punição – determinarão a probabilidade de emissão futura da classe de respostas que integram o operante (Passos, 2003). Porém isto é compartilhado com uma comunidade social constrói esta mediação moldando as ações de seus membros para poderem ensinar outros membros como verbalizarem efetivamente através de formas apropriadas de ação (Vargas, 2007).

“A humanidade age sobre o mundo, e o modifica, e é mudada por sua vez, pelas consequências de suas ações

Skinner, Comportamento Verbal

Através da evolução genética e organização social, ensinamos e praticamos a linguagem como parte do nosso conjunto de comportamentos emitidos. Ressalto que o contexto de análise deva considerar o conjunto dos comportamentos verbais e não verbais para uma avaliação, e com isto, evitar descontextualização.

Imagine que ao aprender a falar a sua primeira frase uma criança diga: “o céu é azul”, o comportamento fora emitido, porém este será validado assim que passar pela aprovação em conteúdo e contexto, ou seja, sua mãe respondendo: “sim o céu é azul”. Nosso indivíduo pode continuar repetindo sua fala sobre o céu, mas se a comunidade ao seu redor não concordar com o que foi dito, ele terá que reavaliar sua fala até que esteja readequada. Você pode me dizer que nada mudará a cor do céu, isto é fato; mas não é exatamente típico um adulto puxar uma conversar dizendo ‘o céu é azul’.

Algo em Game of Thrones fornece substância aos personagens e que conecta com sua linhagem e trajetória. Seja por autoafirmação ou para se posicionar no jogo ou em diálogos com outros personagens que fazem sempre se lembrem quem são e qual é o papel eles tem nesta história: o lema das casas.

Casa Targaryen

Lema: Fogo e Sangue. Estandarte: Dragão vermelho com três cabeças num fundo preto escrito.

“Sou Daenerys, filha da tempestade, da casa dos Targaryen, do sangue da antiga Valíria. Eu sou a filha dos dragões, e eu juro que aqueles que querem prejudicá-los morrerão gritando.” Daenerys Targaryen

Casa Stark

Lema: O Inverno Está Chegando.
Estandarte: Lobo gigante cinza com fundo preto.

“O homem que dita a sentença deve brandir a espada.” Ned Stark

Casa Lannister

Lema: Ouça-me rugir. Eles preferem dizer que “Lannister sempre pagam as suas dívidas”.
Estandarte: Leão dourado num fundo vermelho.

“Quando se entra no jogo dos tronos, ou ganha ou morre.” Cersei Lanister

Como afirma Skinner, os indivíduos são moldados de acordo com as consequências de suas ações. Em GoT, os personagens em suas falas, expõem aos outros quais são suas motivações internas e os demais podem validar ou não dependendo das circunstancias.

Valar Morghulis*

Jaqen H’ghar, 2º Ep. 10º Temp. *Todos os homens tem que morrer. Alto Valeriano língua fictícia dos livros.

Expectadores estão (digamos assim) decepcionados com os rumos tomados pelos produtores da série de TV, David Benioff e D. B. Weiss (comumente conhecidos como D&D). Nas redes sociais após a exibição do último episódio, o gosto agridoce que Martin disse que a história teria no fim, quando transposto para TV ficou amargo.

Em seu início a série de TV era promissora, conseguiu adaptar com qualidade ‘O Jogo dos Tronos’, primeiro livro das Crônicas. Quanto mais se avançava, mais complexa a narrativa dos livros ficava, mas o fandom questionava decisões ora inexistente nos livros ora sem nexo dos personagens.

Se compararmos a adaptação do Senhor dos Anéis pelo diretor Peter Jackson, muitos dirão que os filmes superaram os livros. Isto acontece porque Tolkien não era um escritor, ele não tinha habilidade de contar uma história. Martin é, leva em média cinco anos para escrever um livro. Frequentemente seus leitores não se sentem representados com o que assistem na HBO.

Trailer do 6º Episódio 8º Temporada Season Finale

Valar Dohaeris**

Verme Cinzento, 3º Ep. 8º Temp. **Todos os homens devem servir. Alto Valeriano língua fictícia dos livros.

Os argumentos que sustentam a defesa dos produtores, apontam que eles compraram o desafio de transpor uma história que não havia sido apropriadamente terminada. Quando a série ultrapassou os livros em enredo, negociaram com Martin quais seriam os pontos chaves da trama, assumindo a responsabilidade de preencher lacunas.

Martin afirmou que não ficou muito satisfeito com as resoluções da série, mas também confessou aos 60 Minutes Overtime que não forneceu detalhes de como estes eventos impactariam no comportamento dos personagens e tramas secundárias que facilitam a narrativa.

Conveniências de roteiro fizeram com que uma personagem citasse ipsis litteris Maquiavel – O Príncipe cujo o capítulo XVII – Da Crueldade e da Piedade – Se é Melhor ser Amado ou Temido. Será que na Cidadela temos um exemplar desta obra clássica? Brincadeiras a parte, Martin também poderia se inspirar em Maquiavel, mas certamente seria mais sutil.

George R.R. Martin o autor em entrevista para 60 Minutes Overtime

Será que os personagens terão o mesmo destino da série nos livros?

Assim como seus personagens, um escritor também tem que pagar suas dívidas. Martin disse que não optou ver como a série acabaria para dar sequência à história da sua maneira. “Os livros estarão prontos quando estiverem prontos.” Se um dia veremos a história terminar como está sendo concebida pelo seu autor, somente o tempo dirá.

D&D cumpriram o que se prometeram em fazer: maior série de TV de todos os tempos. Em retrospecto, Game of Thrones, pode ter inovado em efeitos especiais, elenco e quantidade de figurantes, filmagens em locações ao redor do mundo e outros números fabulosos que serão revelados no documentário Game of Thrones: “The Last Watch”.

Trailer do documentário Game of Thrones: The Last Watch

Realmente o ficará na memória dos que viveram este momento, é o fato de milhões de pessoas ao redor do mundo terem a sensação pertencerem a uma comunidade: ter o aumento do número de ‘likes’ ao marcar #gameofthrones nas redes sociais, tendo argumentos para iniciar um papo com desconhecidos, repetir frases dos seus personagens favoritos e receberem feedbacks emocionais, e quem sabe, sentirem-se validados por outras pessoas naquilo que com o que se identificam. Talvez seja esta a maior parte da frustação, o fato é que a realidade bate a porta, depois de nove anos a série chegou ao fim.

O fim da série não é o fim da comunidade, o comportamento verbal precisa se manter acesso. Está aberta a temporada de ‘fanfics’, versões alternativas escritas pelos fãs para editarem o final que satisfaçam as expectativas frustradas. Enquanto isto, HBO pode se gabar da série ser a primeira vez que veremos esta história, mas certamente não será a última.

Masilvia Diniz, primeira de seu nome e Psicóloga

Contribua conosco, concordou, discordou ou deseja outras análises neste formato deixem seu comentário na caixa de descrição.

A SONG OF ICE AND FIRE. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=A_Song_of_Ice_and_Fire&oldid=55076890>. Acesso em: 8 mai. 2019.

EMBLEMA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Emblema&oldid=52569191>. Acesso em: 5 jul. 2018.

GAME OF THRONES – Seasson Finaly. Criação David Benioff e D. B. Weiss: 2019. TV Series. HBO.

GEORGE R. R. MARTIN. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=George_R._R._Martin&oldid=54941523>. Acesso em: 25 abr. 2019.

GEORGE R. R. MARTIN. (2010) As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro 1 a Livro 5. São Paulo. Editora Leya.

J. R. R. TOLKIEN. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=J._R._R._Tolkien&oldid=54930581>. Acesso em: 24 abr. 2019.

MAQUIAVEL. (1999). O Príncipe. Maquiavel – Vida e Obra. São Paulo. Editora Nova Cultural.

PASSOS, L. R. F, Maria. A análise funcional do comportamento verbal em Verbal Behavior (1957) de B. F. Skinner. (2003). Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Rio de Janeiro. Vol. V, nº 2, 195-213. Disponível: https://scholar.google.com.br/scholar?hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5&q=A+an%C3%A1lise+funcional+do+comportamento+verbal+em+Verbal+Behavior+%281957%29+de+B.+F.+Skinner&btnG=

SKINNER, B. F. (1957) O Comportamento Verbal. Cambridge, MA: B. F. Skinner Foundation.

60 MINUTES OVERTIME. How will George R.R. Martin’s final “Game of Thrones” books end? 2019. (3m3s). Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=SjDentEr9c4&t=11s

VARGAS, A. Ernst.  O Comportamento Verbal de B. F. Skinner: uma introdução. (2007). Belo Horizonte. Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Belo Horizonte-MG, 2007, Vol. IX, nº 2, 153-174172. Disponível: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452007000200002

Explicando Seligman: Felicidade Autêntica e Florescimento (Psicologia Positiva)

Quando a psicologia decide investigar a felicidade e o bem-estar (subjetivo) humanos, ela passa, inevitavelmente, sob os terrenos abertos pela Psicologia Positiva e pelo seu fundador, o psicólogo Martin Seligman, PhD. Isso, pois foi a corrente da Psicologia Positiva que conseguiu, de forma pioneira, investigar, compreender e intervir com sucesso sobre as chamadas forças e virtudes do homem e ampliar o foco da psicologia científica tradicional que, até então, partilhava do modelo médico e estava voltada, quase que totalmente, a curar/tratar doenças. É então, com a Psicologia Positiva que não apenas temos hoje estudos sobre os fenômenos e impactos das emoções positivas na vida das pessoas, ou do “estado de flow”, ou do “mindfulness”, ou da resiliência, por exemplo, entre outras contribuições, mas também podemos falar de uma psicologia preventiva e fortalecedora tão sólida quanto a tradicional psicologia reparadora de danos.

Vale dizer que a Psicologia Positiva (PP) está saindo da adolescência, isto é, ela foi fundada em 1998 e, portanto, é um corpus de estudo científico relativamente novo. Para saber mais sobre seus antecedentes, nascimento, propósito e principais contribuições, recomendamos o texto A Psicologia Positiva e o Estudo da Felicidade.

Martin Seligman

Psicólogo Martin SeligmanMartin Elias Pete Seligman (1942 – ) é um Psicólogo estadunidense considerado o pai da da PP. Ele é um dos principais divulgadores internacionais dessa corrente e foi responsável pela sua criação, em 1998, enquanto Presidente da American Psychological Association (APA). Ficou conhecido como “a voz”, ao lado de Mihaly Csikszentmihalyi, conhecido respectivamente como “o cérebro” e também pai da teoria flow. Seligman preparou o terreno para o nascimento da PP, contactou patrocínios, escreveu artigos, livros, desenvolveu ferramentas de mensuração e possibilitou outras tantas contribuições para esse campo. Entre seu legado, vale destacar a obra Character Strengths and Virtues: A handbook and classification (CSV) (sem tradução para a língua portuguesa) que, resumidamente, é o equivalente ao DSM para a PP, isto é, ao invés de catalogar, de forma rigorosa, doenças e tratamentos, cataloga forças, virtudes e as respectivas avaliações e intervenções sob elas.

Felicidade Autêntica

felicidade autêntica martin seligmanUm dos pilares da PP é o estudo das emoções positivas no âmbito pessoal e coletivo (instituições positivas) e, buscando compartilhar sua visão, Seligman estrutura o livro Felicidade Autêntica (Authentic Happiness, 2002) em 3 eixos:

  • Estudo das emoções positivas;
  • Estudo dos traços de personalidade positivos (como forças e virtudes);
  • Estudo das instituições positivas ou aquelas que promovem aspectos positivos no ser humano.

“A crença de que existem maneiras rápidas de alcançar felicidade, alegria, entusiasmo, conforto e encantamento, em vez de conquistar esses sentimentos pelo exercício de forças e virtudes pessoais, cria legiões de pessoas que, em meio a grande riqueza, definham espiritualmente. Emoção positiva desligada do exercício do caráter leva ao vazio, à inverdade, à depressão e, à medida que envelhecemos, à corrosão de toda realização que buscamos até o último dia de vida.”

(Seligman, 2010, p. 16)

Por meio de relatos de pacientes, relatos de pesquisas, questionários, fatos históricos, teorias, estatísticas, porcentagens e muita emoção, Seligman apresenta uma teoria da felicidade. Resumidamente, ele diz que a felicidade é alcançada por meio da emoção positiva, do engajamento e do significado. Falar cientificamente sobre a felicidade não é fácil, mas um avanço foi feito ao correspondê-la em elementos mais bem definidos e mensuráveis.

Esses 3 elementos, por sua vez, fazem referências a 3 tipos de vida:

  • Vida prazerosa ⇒ emoções positivas
  • Vida engajada ⇒ engajamento (flow)
  • Vida significativa ⇒ sentido

Nessa teoria, Seligman não apenas divide a felicidade, mas fala de 3 caminhos que levam à ela. A vida prazerosa é aquela onde temos alta concentração, quantidade, frequência e intensidade de emoções positivas (diversão, orgulho, contemplação, gratidão, serenidade…). Na vida engajada, o sujeito utiliza suas forças pessoais e envolve-se em atividades com ela. Essa felicidade se relaciona diretamente com o estado de flow – um estado em que o indivíduo fica envolvido, concentrado e absorvido, sem sentir fome e/ou perder a noção do tempo, por exemplo, durante uma tarefa (comum em escritores, pintores, músicos, atletas mas alcançável por qualquer pessoal). Na vida significativa, a pessoa valoriza os sentimentos de buscar, servir e pertencer a algo maior ou a algum propósito que envolva suas virtudes.

Florescer

Florescer florescimento martin seligman psicologia positiva9 anos depois da publicação do Felicidade Autêntica, com novas e importantes pesquisas sobre a felicidade, Seligman publica o Florescer (Flourish: a visionary new understanding of happiness and well-being, 2011), onde faz uma mudança teórica significativa, ao deixar de abordar o conceito de felicidade, para abordar o de bem-estar. Com essa mudança, as formas de felicidade anteriormente descritas passam a ser elementos da nova teoria.

O novo modelo é representado didaticamente pelo acrônimo PERMA

  • P – Positive emotion (Emoção positiva)
  • E – Engagement (Engajamento)
  • R – Relationships (Relacionamentos)
  • M – Meaning (Significado)
  • A – Accomplishment (Realização)

Dessa forma, cada elemento contribui, mas não define o bem-estar. A tabela abaixo compara os temas, padrões de mensuração e objetivos correspondentes às duas teorias.

psicologia positiva martin seligman
(Seligman, 2012, p. 19)

Referências e recomendações de leitura:

Achor, S. (2012). O jeito Harvard de ser feliz. São Paulo: Editora Saraiva.

Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press and Washington, DC: American Psychological Association.

Pureza, J. R.; Kuhn, C. H. C.; Castro, E. K. & Lisboa, C. S. M. (2012). Psicologia positiva no Brasil: Uma revisão sistemática da literatura. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. 2012, 8 (2), pp.109-117.

Seligman, M. E. P. (2010). Felicidade autêntica: usando a nova psicologia para a realização permanente. Rio de Janeiro: Objetiva.

Seligman, M. E. P. (2012). Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva.

Para saber mais e já sobre Psicologia Positiva:

Por Caio Ferreira

Por que todos desejam ser como Spock?

“O espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de cinco anos para a exploração de novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve!”.

Esta é abertura padrão de todos os episódios da consagrada série Star Trek, que no Brasil nas décadas de 80/90 passava na TV aberta com o nome de Jornada nas Estrelas. A série originalmente produzida para TV americana com 3º temporadas e 79 episódios procedimentais,

estruturados para serem histórias fechadas, tinha como elenco principal o comandante da tripulação o Capitão James T. Kirk e seus homens de confiança o oficial chefe médico Leonard McCoy e o primeiro oficial, segundo em comando e oficial de ciências Sr. Spock.

Algo particular sobre Sr. Spock era pontuado pelos demais personagens, além de ser um alienígena originário do planeta Vulcano, possuía a habilidade de resolver problemas de forma lógica desprezando emoções, é isto causava desconforto com os outros personagens do seriado. Em diversos momentos, o estranhamento era percebido quando uma resposta lógica desconsiderava valores morais e/ou questões éticas. Porque ainda hoje pessoas desejam resolver questões vitais de forma pragmática? É se isto fosse possível, o Homo sapiens evoluiria neste contexto?

Antes de seguirmos em frente, ressalto que existem várias analises psicológicas sobre a representação simbólica da tríade Kirk, McCoy e Spock, portanto nossa missão não irá por este sistema solar. Neste texto, o que irei assumir de forma isolada a dimensão que o personagem Spock ganhou em nossa cultura. Como ponto de partida, uma abordagem que é também contemporânea da série, a Teoria Comportamental Cognitiva, nos acompanhará na aventura.

Neste diário de bordo data estelar 282.17, o fenômeno eletromagnético conhecido como Efeito Murasaki 312 (citação do Episódio 17º “O primeiro em comando” da 1º Temporada) se espalha como uma tormenta no fantástico mundo da internet: o embate entre razão versus emoção.

Na ponte de comando, o Capitão Kirk ordenaria a velocidade para o início da aventura ‘Sr. Sulu, mantenha em velocidade de dobra 7’.

“É curioso como vocês humanos conseguem tantas vezes obter aquilo que não querem.”

Spock, Star Trek T03E01

Spock povoa a cultura pop mais de 50 anos. Mascote informal da Agência Espacial NASA, o ator Leonard Nimoy que imortalizou o personagem, fora recepcionado Cabo Canaveral em 1967 pelo astronauta John Glenn após o termino da primeira temporada.

Quando fora ameaçada de ser cancelada por baixa audiência no final da segunda temporada, a emissora teve a informação de quem era seu público cativo: assistido por cientistas, curadores de museus, psiquiatras, doutores e professores de universidade, a grande maioria de pessoas letradas. Se não fosse uma mobilização em massa, a série não chegaria a terceira temporada. Começou com uma enxurrada de cartas (tecnologia da época) que se igualava a série mais famosa da emissora, o The Moonkes (um grupo de rock que tinha um apelo semelhante aos The Beatles), chegando a uma manifestação de estudante do centro de Instituto de Tecnologia da Califórnia marchou para frente dos estúdios da NBC carregando cartazes dizendo “Escolham Spock” e “Poder Vulcano”. Apesar de ser efetivo, não foi eficiente, com orçamento muito menor do que as temporadas anteriores, não agradou o público e não foi renovada. Em suas reprises, ganhou público cativo e passou a fazer parte do imaginário da cultura pop.

Nas décadas seguintes, o Sr. Spock, foi reverenciado em musicas, filmes, seriados, desenhos (inclusive o aclamado The Simpson), videoclipes e até no WhatsApp tem um emoji com sua saudação típica. Inúmeras vezes o personagem Sheldon desejou ser Spock na série The Big Bang Theory ( Warner Bros. Television  em sua ultima temporada). No lançamento do terceiro filme da recente leva Star Trek: Beyond (2016), nos despedíamos de Nimoy (falecido em fevereiro/2015) e ao mesmo tempo seu filho lançava o documentário contando a vida do ator intitulado “For the Love of Spock” disponível na Netflix.

“Como eu posso ter sido tão tolo? Ao ponto de seguir uma raça alienígena inventada pela televisão? Sheldon, The Big Bang Theory. T9EP07

Se esta pergunta titulo deste texto fosse feita ao personagem da série clássica exibida de setembro entre 1966 a 1969,originalmente produzida o canal de televisão americano NBC e disponível na plataforma Netflix, provavelmente a resposta seria:

“Após algum tempo, você vai perceber que ter não é tão agradável como querer. Não é lógico, mas é normalmente verdade.” (citação do 1º episódio da segunda temporada Amok Time).

“A mudança é um processo essencial a toda a existência.”

Spock, Star Trek – T03E15

No começo anos 1960 também nos Estados Unidos, Aaron Beck com formação psicanalista (especialista na teoria desenvolvida pelo Dr. Sigmund Freud) e seus colaboradores, começaram a trabalhar em pesquisas de dados dos sonhos dos seus pacientes e encontrará um padrão de sonhos masoquistas em pacientes deprimidos. Após inúmeros estudos fizeram com que a equipe abandonasse a hipótese inicial, concluiu que “certos padrões cognitivos poderiam ser responsáveis pela tendência de o paciente fazer julgamento de si mesmo, de seu ambiente e do futuro que, embora menos proeminentes no período fora o episodio depressivo, se ativariam facilmente durante os períodos de depressão. (Beck,1967)”

Descartes cunhou a frase iluminista “Penso, logo existo”, certo? Bem, até Antônio Damásio, neurocientista em seu livro o “O Erro de Descartes” descrevendo o caso Phineas Gage, colocou em xeque está máxima, dado que a perda de massa cerebral do lobo frontal ocasiona drástica mudança de comportamento. Considerando que isto ocorre com uma porção mínima da população mundial, os que possuem o frontal intacto em teoria, possuem a capacidade de pensar. Portanto é seguro fazer a seguinte pergunta: é se o que você pensa te faz você existir em sofrimento?

Digamos que ocorreu uma situação, imagine um fato qualquer, enquanto você lê este texto ouve, por exemplo, uma freada de carro. Primeiro o barulho, instantaneamente isto pode ter mobilizado uma mudança de humor e/ou sensação física, que de acordo com a sua história de vida, gera um (ou uma cadeia de) pensamento(s), estes sendo desagradáveis podem retroalimentar as mesmas sensações físicas e/ou alterações do estado de humor. Esta mesma situação pode gerar reações distintas em pessoas diferente, ou até a mesma pessoa pode interpretar a mesma situação de formas diferentes em diferentes fases da sua própria vida. Uma mente em constante atividade, cuja as emoções tem como base o pensamento, gerando raciocínio, afetos e condutas que permitem o indivíduo ter maior ou menor percepção da realidade.

Ambiente, pensamentos, reações físicas, estados de humor e comportamento, atuam interligados, ora um protagonista e ora os demais como coadjuvantes, “os cinco mobilizam os aspectos das experiencias de vida do indivíduo.” (Padesck, 1995).

Perceba na imagem a importância do fator ambiente. Na Terapia Cognitiva Comportamental a individuo é “biopsicossocial”, gerado através da carga genética, fruto do meio o ambiente sócio-econômico-cultural e sua constituição psíquica, e a partir do seu desenvolvimento cognitivo ser capaz de se relacionar com o mundo.

“Se nosso pensamento fica atolado de significados simbólicos distorcidos, pensamentos ilógicos e interpretações erradas, nos tornamos, de verdade, cegos e surdos.” Aaron Beck

Anamnese Procedimental

Antes de iniciar esta parte do texto, peço desculpas aos fãs da série caso alguma informação esta errada e/ou suprimida. Meu conhecimento aqui apresentado é baseado na série original que ainda permanece disponível em streaming e em textos retirados da internet. Em nenhum momento tive a intenção de desrespeitar, mas apenas homenagear este personagem. Caso desejar, fique a vontade para corrigir o fato/dados encaminhando mensagem no box no final do texto.

Spock nasceu em Vulcano (planeta fictício) e foi submetido ao processo de condicionamento para hipervalorizarão do raciocínio lógico e total repressão das emoções, baseado nos ensinamentos do filósofo (também fictício) Surak que prega a lógica para guiar a vida. Através de um ritual de meditação diário, os vulcanos mantém-se em controle, sem isto, perdem de sí mesmos e se transformam em bárbaros novamente. Outro fator constitui a persona Spock, fruto da união entre a terráquea Amanda Grayson e embaixador Vulcano Sarek (ser extraterreste humanoide desse planeta fictício) por ser um hibrido, ele é não é bem aceito em sua comunidade. Sempre que possível seja por vulcanos e mais comumente por humanos, é colocado em xeque capacidade de se comportar como a cultura Vulcana demanda.

No auge da série, o ator Leonard Nimoy observava Spock como alguém que vive “lutando para manter uma atitude vulcana, uma postura filosófica vulcana e uma lógica vulcana, se opondo a aquilo que está lutando em seu interior, que era a emoção humana”.

“Fatos insuficientes convidam sempre ao perigo.”

Spock, Star Trek T01E24

O cenário está montado, já temos um personagem, uma abordagem teórica, o contexto biopsicossocial.

A ideia é sedutora, resolver questões apenas com raciocínio logico, menosprezando a existência das emoções, sendo capaz de calcular com precisão quais sãos os riscos e fazer a escolha com menor prejuízo. Ressalto aqui, se o computador de bordo forneceu corretamente os dados, o que mantem a capacidade de racionalizar dos Vulcanos não é uma característica genética, em vez disso um processo de condicionamento e autocontrole.

Ressalto que a abordagem da Teoria Cognitivo Comportamental tem como objetivo utilizar técnicas que viabilizam o minimizar o sofrimento do individuo e melhora de sua qualidade de vida. A ideia do texto e apresentar conceitos básicos que façam com o leitor perceba o cerne da questão: a maneira que o individuo conduz sua vida é baseada em capacidade cognitiva e seu constructo . Algo como: ‘somos como nos percebemos e aquilo que aprendemos ser’. Spock, por questões filosóficas e culturais, realmente acredita que suas decisões são baseadas tão somente em lógica. Fascinante!

No episódio “O primeiro comando”, uma equipe vai fazer uma exploração num planeta, dado que parte da missão espacial é informações e amostras para compor base de dados para pesquisas. Devido a um efeito eletromagnético a nave exploradora perde contato e não tem combustível suficiente para retornar a Enterprise. Após inúmeras tentativas propondo inclusive deixar tripulantes para trás, a solução foi propor uma manobra arriscada, com baixa possibilidade de sucesso e que no máximo possibilitaria ter contato visual pela Enterprise que acionaria o teletransporte.

Ao retornar a nave, Spock fora questionado pelo Capitão Kirk: “não vai admitir que a solução encontrada para salvar os tripulantes fora um ato de desespero.” A reposta de Spock não poderia ser outra: “não, foi uma solução lógica”. Kirk discorda: “mas foi um descontrole emocional” e Spock permanece em sua posição: “Não concordo.”  Kirk finaliza: “Sr. Spock o senhor é teimoso.” Spock diz: “sim, eu sou.”

No episodio ‘Amok Time‘, o Sr. Spock tem reações e falas agressivas que são reparadas por diversos tripulantes. Ao ser interpelado pelo Capitão Kirk, Spock explica que devido a uma questão biológica vulcana, os exames médicos constataram altos níveis de adrenalina e poderá morrer se não retornar ao seu planeta natal para o ritual de acasalamento. Devido a urgência, a Enterprise e desviada de sua missão e mantem-se em orbita de Vulcano. No cerimonial, a noiva prometida não aceita a união e propõem um luta entre Spock versus Kirk, que perde o embate e cai morto.

Ao ver Kirk morto, a Spock sai do estado febril e descrito pelo mesmo como “estado de loucura” que se encontrava e liberta sua noiva para que o seguir com outro vulcano. Ao subir na Nave, Spock é surpreendido ao ver o Capitão Kirk vivo (que havia recebido uma injeção do Dr. McCoy que paralisa o corpo) e demonstra com através de expressões faciais emoções de surpresa e alegria e ao alterar o tom de voz ao dizer: “Jim”.

Ao ser questionado sobre sua reação, Spock apenas diz: “foi apenas uma reação muito lógica, por não ver a frota perder um excelente capitão”. McCoy apenas diz: “que não está plenamente convencido”. É você leitor, está convencido?

“Quando você elimina o impossível, o que restar, embora improvável, deve ser a verdade.”

Spock, Star Trek VI

O embate emoção versus razão. Diversas abordagens psicológicas e os recentes conhecimentos da neurociência concordam sobre o fato é que se não fossem as emoções humanas jamais teríamos chegado tão longe como espécie.

Em sua publicação Razão, Emoção e Ação em Cena: A Mente Humana sob um Olhar Evolucionista, a pesquisadora Angela D. Oliveira, apresentou como considerações finais é “que se procurou demonstrar é que tomar decisões, comportar-se de uma determinada maneira, fazer escolhas, agir como free-rider (tradução livre: impulsivamente) ou seguir padrões morais do grupo dependem tanto de mecanismos racionais quanto emocionais. Ingênuo pensar os indivíduos da espécie humana pautando-se em avaliações de custo-benefício de suas condutas, prescindindo das emoções.”

Ressalto que Spock é, por assim dizer, meio humano e você (assim espero) é um humano inteiro.

Como complemento deste texto, recomendo o vídeo ‘Como seria viver sem emoções’ do Canal Nerdologia. O vídeo também analisa o primeiro oficial da Enterprise, além de embasar de forma cientifica a importância das emoções em humanos.  Além de simular como seria a personalidade do Sr. Spock se fosse bem-sucedida a exclusão de suas emoções, certamente, os espectadores jamais conseguiríamos nos identificar com o personagem.

Isto acontece por causa de outro conceito que valeria outro texto, a Teoria da Mente. Por enquanto, podemos dizer que além de outros atributos, é a capacidade de reconhecer nas pessoas emoções semelhantes a que individuo possui em seu repertório. É isto só é possível porque o Homo sapiens expressa emoções de forma patronizada não importando a região do globo (ou platô, como dizem por ai), língua, cor de pele como revela os estudos do Dr. Paul Ekman (mas isto é assunto para outro colega, não é Caio Ferreira).

Me despeço como Spock faria: Vida Longa e Próspera.

Contribua conosco, concordou, discordou ou deseja outras análises neste formato deixem seu comentário na caixa de descrição.

Masilvia Diniz

Bahls, S. Clair e Navolar, Ariana B. Borba. Razão, Emoção e Ação em Cena: A Mente Humana sob um Olhar Evolucionista. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Jan-Abr Vol. 22 n. 1, pp. 053-062 (2006). Brasília
Disponível: http://www.scielo.br/pdf/%0D/ptp/v22n1/29844.pdf

DAMÁSIO, Antonio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. (1998) São Paulo: Schwarcz.

Greenberger D. e Padesky C. A. Vencendo a Mente com Humor: Mude como você se sente, mudando o modo com você pensa. (1999) Tradução: Andrea Caleffi. Porto Alegre: Artmed.

LISTA DE EPISÓDIOS DE STAR TREK: THE ORIGINAL SERIES. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Lista_de_epis%C3%B3dios_de_Star_Trek:_The_Original_Series&oldid=53583005>. Acesso em: 17 mar. 2018.

Nerdologia. Como seria viver sem emoções. 2015 (5m47). Disponível:
https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=PO7GZ1DsPpo Acesso: 20 mar. 2019

Oliva, Angela D. Terapia Cognitivo-Comportamentais: Conceitos e Pressupostos Teóricos. (2004). Curitiba. Disponível: http://files.personapsicologia.webnode.com/200000093-024d10346f/Terapias%20Cognitivo-comportamentais.pdf

Star Trek – A caminho de Babel (Jorney to Babel) T2:E10. Criação: Gene Roddenberry: NBC, 1968. Streaming Netflix. (50 minutos).

Star Trek – Tempo de Loucura (Amok Time) T2:E1. Criação: Gene Roddenberry: NBC, 1968. Streaming Netflix. (47 minutos e 50 segundos).

STAR TREK. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Star_Trek&oldid=54072910>. Acesso em: 15 mar. 2019.

Range B. e Colaboradores. Psicoterapias cognitivo-comportamentais : um diálogo com a psiquiatria (2011). 2. ed. Porto Alegre: Artmed.

Vários Colaboradores. Livro da Psicologia (2012). Tradução: Hermeto Clara M. e Martins A. L. São Paulo: Globo

Como a Psicologia vê o Golden Shower?

download

Sexualidade – Fronteira da Normalidade

“A sexualidade humana é um obscuro dispositivo encarnado que aproveita o livre curso das funções fisiológicas para, mediante um desvio perverso da função, gerar e extrair prazer” (Baggio, 1992, apud, Carvalho Neto, 2010, p. 9).

Se a literatura nos permitir recordar, saberemos que a sexualidade humana navegou em círculos no que diz respeito aos seus limites em cada época. O banho que recebe cada um da linguagem e, portanto, das regras sociais vigentes numa sociedade dum determinado período, consequentemente delimitou o quanto cada prática sexual seria mais ou menos aceita à época. Mais ainda: quais práticas consideradas “proibidas” seriam mais ou menos interessantes à satisfação de desejos vigentes.
Talvez algumas pessoas relacionem normas celibatárias e heteronormativas de algumas religiões às notícias de seus líderes envolvidos em crimes sexuais; talvez algumas entidades considerem em lares familiares mais extremamente rígidos e rigorosos com a sexualidade de seus filhos, lugares mais propícios à gravidez na adolescência. Talvez.

[…] preferências, predisposições ou experiências sexuais, na experimentação e descoberta da sua identidade e atividade sexual, ao longo da sua existência [..] afasta[m]-se da noção simplista de mera reprodução animal associada ao coito, se prendendo apenas ao nível físico do homem, para se apresentar no plano
psicológico do indivíduo. Por isso, além dos fatores biológicos, a sexualidade é fortemente construída pelo ambiente sociocultural e religioso em que este se insere. (Carvalho Neto, 2010, p.8).

Explicando melhor: dependendo do que for proibido e de qual sujeito estiver em ação, a satisfação de realizar aquela prática que virou tabu poderá ser equivalente à intensidade de sua proibição. A famosa frase “aquilo que é proibido é mais gostoso” tem seu lugar aqui. De alguma forma, a história nos mostra o seguinte: quanto mais atenção é dada para a proibição de algumas práticas sexuais, mais estas mesmas práticas serão presentes numa determinada época. O discurso presente em um meio sociocultural se relacionará (positiva ou negativamente) à sexualidade de um período histórico específico. Os perversos que o digam!

As Parafilias

download (1)

Em seu Seminário 9 – A Identificação (1961) – Jacques Lacan, ao falar da noção de Traço Unário, conta-nos algo sobre alguém muito famoso por realizar práticas sexuais que fugiam à norma da França de Napoleão Bonaparte.

O famoso e controverso Marquês de Sade tinha o hábito de realizar um traço, uma marca, à cabeceira de sua cama. O diferencial de tal risco era que este jamais poderia ser igual ao anterior, pois cada um era feito sob os efeitos imediatos de um orgasmo que o Marquês acabara de ter. E o que isso nos poderia significar? Será possível que Sade poderia, após algum tempo, obter um prazer tão ou mais importante no registro do traço do que no ato em si? Não saberemos. Mas se a resposta foi positiva e tal ato se tornar a única forma de obtenção de prazer – mesmo que traga sofrimento ao agente, teríamos aí uma prática que poderia ser chamada de parafilia que, por etimologia, podemos entender como um “Amor/Desejo Paralelo“.

As parafilias, então, seriam uma forma de desejo que fugiria daquilo que é considerado normal dentro das práticas sexuais de uma sociedade de uma época. Mas jamais só isso. Não raro, muitas pessoas – inclusive figuras importantes – podem demonstrar certo desconhecimento e/ou curiosidade sobre estas práticas. Bem como não poderíamos esperar que deixasse de haver grande estigma e julgamento aos adeptos de alguma (s) delas. Há sim, um grande Tabu ao que foge da norma. Há mais ainda, como nos contou Freud, um grande interesse por tudo aquilo que é Tabu. Do contrário, tais práticas sequer teriam a atenção necessária para se tornarem um.

Em suma: o comportamento sexual gerador de forte excitação a partir de lugares, objetos, situações e particularidades que excedam a cópula em si, poderá ser parte de uma parafilia em determinadas situações que explicitaremos a seguir. Se pegarmos a urofilia – o famoso Golden Shower e/ou chuva dourada/amarela – como exemplo, ela também poderá adentrar nesta classificação.

DSM – V

Para o Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Norte-Americana de Psiquiatria):

“O termo parafilia representa qualquer interesse sexual intenso e persistente que não aquele voltado para a estimulação genital ou para carícias preliminares com parceiros humanos que consentem e apresentam fenótipo normal e maturidade física” (p.685).

Mas, adiante, o próprio manual vai nos informar que em sua forma patológica: uma parafilia é também um comportamento sexual atípico que cause intenso sofrimento, ameaça física e/ou psicológica para si ou para o bem-estar de outros indivíduos, presentes durante pelo menos seis meses e cause intenso prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. (2013).

O que isso quer dizer? Quer dizer que não basta que alguém tenha interesse por práticas sexuais atípicas para que esta pessoa sofra de um Transtorno Parafílico. Desde que esteja dentro da Lei, não há nada de errado em prática sexuais que fujam à norma. Entretanto, devemos abrir os olhos se:

  • A pessoa sentir uma angústia pessoal sobre seu interesse sexual que exceda o sofrimento resultante do julgamento negativo àquela prática na sociedade vigente;

  • Tenha desejo ou comportamento sexual que envolva sofrimento psicológico, lesões ou morte de outra(s)pessoa(s);

  • Tenha interesse por prática sexual que envolva pessoas que não querem ou que sejam incapazes de dar o seu consentimento legal;

  • Não consiga obter excitação ou prazer de forma alguma senão com esta prática.

Entre alguns exemplos mais conhecidos de Parafilias estão:

  • Podofilia: Marcada por uma excitação e prazer sexuais atrelados aos pés do (a) parceiro (a);
  • Odaxelagnia: Excitação e/ou prazer sexual por mordidas, mesmo que estas causem sérias lesões à pele do (s) praticante (s);
  • Cropofilia: Excitação e/ou prazer sexual em manipular, cheirar, observar ou ingerir fezes (Cropofagia);
  • Necrofilia: Excitação e/ou obtenção de prazer na prática sexual com cadáveres;
  • Zoofilia: Excitação e/ou obtenção de prazer na prática sexual com animais (no Brasil, considerada crime de maus tratos, apesar de não serem raras as menções a esta no âmbito rural).

A Urofilia – O Golden Shower

(O empresário Omar Monteiro com a fantasia de Golden Shower para o carnaval Foto: Omar Monteiro/ Divulgação)
Recentemente, dois tweets do Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro causaram certa polêmica no mundo inteiro. Além de uma crescente procura pelo termo “Golden Shower” no google, opiniões favoráveis e desfavoráveis circularam pelas redes sociais.
Mantendo seu foco na difusão da psicologia no Brasil, a Sociedade dos Psicólogos trouxe este texto informativo para quem tiver curiosidade sobre o assunto.

Entendida como o comportamento sexual caracterizado pela excitação e/ou obtenção de prazer a partir da urina de um (a) parceiro (a), a urofilia já foi presente em boa parte da cultura pop, aparecendo até em seriados como Sex and the City.
Está comumente relacionada às relações de poder, como se quem recebesse o “banho” se colocasse em uma situação de submissão àquele que o provê.

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), a protagonista da série Sex and The City (1998-2004), recebe a proposta do político Bill Kelley (John Slattery) do famoso “Golden Shower” (imagem da internet)

Em portais pornográficos caracterizados por práticas consideradas mais violentas do que o habitual, a esta mesma prática, popularmente conhecida como Golden Shower, tende a aparecer como se fosse o clímax da dominância de um sujeito perante outro. Num contexto onde o poder, teoricamente, emanaria de quem provê a urina, aquele que a recebe é colocado numa posição de extrema submissão, lembrando relações de sádicos e masoquistas.
A psicologia, a psiquiatria e a psicanálise não entram e nem devem entrar no mérito de julgar a correção ou não de uma prática sexual considerada atípica. Entretanto, seu olhar estará sim, atento ao que se configurar como um Transtorno Parafílico e/ou àquilo que trouxer prejuízos graves a quem participa, voluntaria ou involuntariamente de práticas sexuais consideradas atípicas.

Quando realizada de maneira patológica, a Urofilia é caracterizada no DSM-V dentro da sessão de Transtornos Parafílicos. Entretanto, a parafilia popularmente conhecida como Golden Shower, juntamente com a escatologia telefônica (telefonemas obscenos), a necrofilia (cadáveres), a zoofilia (animais), a coprofilia (fezes), clismafilia (enemas), entre outras, não estão exclusivamente descritas no Manual como transtornos parafílicos especifícos. Coube a estas serem, junto a outras não mencionadas aqui, incluídas dentro do que é chamado pelo DSM-V como Outro Transtorno Parafílico Especificado (F65.89).

Exemplo de alguns Transtornos Parafílicos Específicos :

  • Transtorno Voyeurista – excitação sexual recorrente e intensa ao observar
    uma pessoa que ignora estar sendo observada e que está nua (F65.3);
  • Transtorno Exibicionista – excitação sexual recorrente e intensa decorrente da
    exposição dos próprios genitais a uma pessoa que não espera o fato (F65.2);
  • Transtorno do Masoquismo Sexual – excitação sexual recorrente e intensa resultante do ato de ser humilhado, espancado, amarrado ou vítima de qualquer outro tipo de sofrimento (F65.51);
  • Transtorno do Sadismo Sexual – excitação sexual recorrente e intensa resultante de sofrimento físico ou psicológico de outra pessoa (F65.52);
  • Transtorno Pedofílico – fantasias sexualmente excitantes, impulsos sexuais
    ou comportamentos intensos e recorrentes envolvendo atividade sexual com criança ou crianças pré-púberes (em geral, 13 anos ou menos), etc.

Sabendo o que é necessário para que alguém seja diagnosticado, é preciso saber do que dependerá a noção de uma melhora no quadro. Para tal, falamos principalmente da:

  • não realização de práticas que caracterizam o Transtorno Parafílico por pelo menos cinco anos fora de Ambiente Protegido.

É considerado Ambiente Protegido todo lugar que impossibilite e/ou dificulte o acesso e/ou a prática de comportamento sexual e/ou parafílico por questões externas, ou seja, alheias à vontade do indivíduo. Exemplo: instituições penitenciárias e clínicas de reabilitação.

A partir deste ponto o Transtorno Parafílico será considerado “Em remissão”.

O que Dizem os Especialistas?

De acordo com o Psicólogo e Psicoterapeuta Caio Ferreira, em práticas sexuais atípicas como a urofilia, que envolvem mais de um indivíduo, deve-se averiguar, antes de mais nada: se há claro consentimento (e obviamente idade para tal) entre as partes. Caio, que também é Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos, diz que pessoalmente, não sente despertar algum pela prática, mas que como psicólogo entende que “havendo comum acordo entre os praticantes, é um exercício de libertação, vinculação e prazer como qualquer outro”.

cf
Caio Ferreira (CRP 06/147859) também é Diretor do Centro de Investigação do Comportamento Emocional (CICEM).

Quando questionado, o psicoterapeuta afirmou ter se deparado com o vídeo publicado pelo Presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais. Ao dar sua opinião sobre o ocorrido, Ferreira levantou questões a respeito da presença de outras práticas no video, como o exibicionismo, por exemplo. Mas o psicólogo também levantou questões éticas e legais a respeito da prática. Caio, porém não deixou de advertir os riscos da divulgação deste tipo de conteúdo sem consentimento e em redes abertas:

“Devo dizer que lamento o fato desta atividade ter sido realizada em vias públicas. Além de configurar um crime, podemos pensar em componentes exibicionistas a par das contingências do carnaval. E lamento mais ainda a exposição da filmagem em questão – desnecessária e estigmatizante a todos os envolvidos”.

O próprio Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5 –, conforme já dito, só considera em suas sessões de Transtornos Parafílicos as práticas que, recorrentes por pelo menos seis meses, causem sofrimento clinicamente significativo e/ou prejuízo no funcionamento social, profissional e/ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo, ainda mais aquelas que são realizadas com terceiros que não deram ou não poderiam, legal ou cognitivamente, dar consentimento à prática.

Junto com o DSM-V, o Psicólogo e Psicanalista Igor Banin se atém a ética necessária em sua profissão em sua colocação: “Deixo o julgamento moral a quem lhe cabe”. Quando entrevistado, o também Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos postulou que “o desejo do sujeito passa por caminhos que não conhecemos. O prazer sexual pode vir de diversas maneiras”.

igor-wp-v2
Igor Banin (CRP 06/135177) é Psicólogo, Psicanalista e Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos.

Em termos mais simples: se uma prática sexual é feita sob pleno consentimento e não causa sofrimento e/ou prejuízo a quem participa dela, ela não causa preocupação à comunidade psi. Contudo, caso alguém seja de fato diagnosticado nas condições de um Transtorno Parafílico, deverá procurar tratamento médico e psicológico – que poderá envolver medicamentos e psicoterapia.

Vale ressaltar que o tratamento não terá a função de definir se a prática é certa ou errada, mas de diminuir e/ou erradicar a quantidade de sofrimento que ela possa trazer para o indivíduo ou para um outro.

De Onde vem o Interesse?

E entrevista, a Psicóloga e psicoterapeuta cognitivo-comportamental Masilvia Diniz, ao ser questionada sobre possíveis explicações sobre a preferência de alguns indivíduos à prática das parafilias (já considerando que estas deixaram de ser meras atividades sexuais atípicas devido seus prejuízos), a Sócia-Colunista da Sociedade dos Psicólogos disse que:

“Do ponto de vista cognitivo-comportamental, quando se trata de algo que se repete e traz grandes prejuízos ao indivíduo, são investigados os pensamentos, os chamados erros cognitivos (sistemas de crenças que foram condicionados e reforçados ao longo do tempo na vida de alguém – que passa a acreditar nestes como parte de sua personalidade), a maneira como estes alteram suas emoções e, consequentemente, desencadeiam seus comportamentos”.

Psicóloga Masilvia Diniz
Masilvia Diniz (CRP 06/89266) é Psicóloga e Psicoterapeuta Cognitivo-comportamental, além de Sócia-Colunista da Sociedade dos Psicólogos.

Mesmo com o olhar de linhas teóricas divergentes, Igor e Masilvia pareceram concordar a respeito da individualidade de cada caso, entendendo que cada sujeito terá sua história individual que explique seu interesse sexual além da norma de forma particular.

Longe de condenar quaisquer práticas que não estejam infringindo a Lei ou a integridade de outrem, o psicanalista Igor Banin afirma ser difícil apontar que lugar esta ou aquela prática sexual representariam no discurso de um sujeito. Para ele, deve-se evitar a generalização, pois “a Psicanálise se constitui no caso a caso”.

“Todavia, pensando na teoria da sexualidade infantil de Freud, podemos pensar na excreção como a primeira forma de produção de um objeto do bebê para o outro” disse o psicanalista.

3
Sigmund Freud (1856-1939)

A corroborar com ambos, está o neurologista Sigmund Freud (1856-1939). O pai da psicanálise já dizia que “Cada um de nós, em sua própria vida sexual, ora nisto, ora naquilo, transgride um pouco os estreitos limites do que se julga normal” (Freud, 1905[1901], p. 45). Possivelmente o psiquiatra e psicanalista Jacques Lacan (1901-1981) também estivera de acordo ao dizer que “Em relação à instância da sexualidade, todos os sujeitos estão em igualdade […]” (Lacan, 1964b, p. 167).

Parece ser consenso entre os especialistas: se deve dar mais importância ao dano, à angústia e/ou sofrimento que uma prática sexual poderá desencadear aos envolvidos do que à estranheza que esta causaria aos padrões de alguém alheio. Talvez lhes seja mais útil compreender a função daquela prática às pessoas que participam dela do que às que a julgam. Em suma, espero que o Golden Shower esteja explicado e caberá a cada um (a) decidir se este estará liberado, desde que faça bem a todos (as) os (as) envolvidos (as).

E a opinião do autor deste texto?

“Se não há crime e há consentimento
Se em todos há prazer e em nenhum se vê sofrimento
Se cada um tem a sua liberdade na ausência da censura
Por que então chamas, de doença?

Tu que reclamas, sem presença
Em sua dita dura cama, sem prazer
Da cura e do conforto trocados entre
quem ama?

Caio Cesar Psicólogo
Psicólogo (CRP 06/139621), psicoterapeuta e Sócio-Colunista da Sociedade dos Psicologos. Ator, em busca do que Plínio Marcos atribui aos atores: a esperança de rir todos os risos e chorar todos os prantos

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

Deixe sua opinião nos comentários!

REFERÊNCIAS:

Associação Psiquiátrica Americana – APA. (2014). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed.

CARVALHO NETO, J.S. (2010). A Relação Edipiana na Contemporaneidade: Novos formatos para a constituição das neuroses. Saquarema. Setembro

FREUD, S. (1905). Um Caso de Histeria. Três Ensaios Sobre Sexualidade e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro. Imago, 1996.

LACAN, J. A Identificação: Seminário (1961 – 1962) Tradução de Ivan Corrêa e Marcos Bagno. Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.

LACAN, J. (1990). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar (Trabalho original publicado em 1964).

***Todas as imagens utilizadas no texto foram obtidas de maneira gratuita através da internet. Caso você detenha os direitos autorais de alguma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

O que é a Resistência em Psicanálise? Como vencê-la?

emotional-armour

Der WiderstandA Resistência

O Conceito

Na Arte da Guerra, falaríamos do ato de ocupar e contra-ocupar determinadas posições estratégicas para vencer um inimigo; na Física, o campo da eletricidade – mais especificamente o da eletrostática – fará menção à capacidade de um corpo se opor à passagem de uma corrente elétrica, ou ainda como: uma dificuldade para que haja passagem de corrente elétrica por um condutor submetido a uma determinada tensão. Já no Direito, falaremos de uma certa oposição a cumprir um ato legal, enquanto na Ecologia, da capacidade de um ecossistema manter sua estrutura e funcionamento diante de um distúrbio.

Até na Política encontraremos este termo. Nela, falamos do movimento de um povo contra um poder ilegítimo, ou seja: num conjunto de iniciativas postas em prática por pessoas que, unidas por uma causa comum (libertar seu território de alguém considerado um invasor), irão lutar contra uma imposta dominação e, consequentemente, pelo restabelecimento da ordem anterior das coisas. Charles de Gaulle e Jean-Paul Sartre são exemplos de pessoas que, de maneira diferente, exerceram um papel de resistência política na França da Segunda Guerra Mundial.

O Dicionário Aurelio, muito popular no Brasil, nos complementará:

1 – Força por meio da qual um corpo reage contra a ação de outro corpo.
2 – Defesa contra o ataque.
3 – Oposição.
4 – Delito que comete aquele que não obedece à intimação da autoridade.

Até às mentes menos focadas na física, na guerra de infantarias, na política, no direito, na medicina, etc. a palavra resistência tem seu significado bem compreendido. E digo isso pois, de alguma forma, até sua definição acordada num senso (em) comum poderá obter proximidade à representação deste conceito noutras áreas. Mesmo o mais leigo saberá que se trata de algum tipo de imposição à mudanças e influências externas, de um certo impedimento ou tentativa deste perante algum fenômeno. Seja na prevenção de danos ao chuveiro elétrico, no tratamento de infecções bacterianas com antibióticos ou em grandes revoluções, o conceito de resistência traz nestas e noutras áreas do conhecimento e até no imaginário popular palavras que, em uma cadeia sinônima, carregam em sua denominação um comum objetivo: barrar/bloquear, se opor e impedir.

Mas e na Psicanálise?

O Início

Vasculhando a obra de Sigmund Freud, podemos entender que seu deparar-se com o fenômeno da resistência de seus pacientes aos tratamentos foi algo que, em certo momento, começou a captar uma maior parte de sua energia e atenção. Mais especificamente quando Freud passou a trabalhar com Breuer seus Estudos sobre a histeria (Breuer, J., & Freud, S. 1895/1987).

Em um dos cinco casos clínicos descritos na obra, foi justamente no caso da Srta. Elizabeth que Freud começa a se interessar pelo mesmo fato que, mesmo mais de um século depois, ainda continua sendo grande responsável por uma elevada taxa de evasão de pacientes em consultórios de psicologia, psiquiatria e psicanálise: a resistência.

O caso que Freud descreve como “a primeira análise integral de uma histeria” teria seu início marcado pela dificuldade que Freud encontrara para conduzir a paciente a um transe hipnótico (método que, à época, era considerada uma forma de acessar conteúdos alheios à consciência). Mesmo com algum sucesso temporário, utilizando a chamada “técnica de pressão“, onde um toque à testa do paciente acompanha a informação de que, a partir daquele momento as lembranças “esquecidas” poderiam ser lembradas, Freud começa a ficar inquieto, já que, segundo o psicanalista: “parecia haver impedimentos de cuja natureza eu não desconfiava na época” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 166).

Segundo o Pai da Psicanálise, a forma encontrada para que sua “técnica de pressão” voltasse a oferecer o resultado desejado, foi informar verbalmente à paciente “saber muito bem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando […], mas que jamais se livraria de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa” (Breuer & Freud, 1895/1987, p. 167).

A partir daí, o neurologista mais famoso do ocidente nos informa que passou “a atribuir maior importância à resistência oferecida pela paciente na reprodução de suas lembranças e a compilar cuidadosamente as ocasiões em que era particularmente acentuada” (ibid., p. 167). Sua subsequente conclusão teve o caminho de entender que: existiria alguma correspondência entre a energia com que uma representação incompatível às suas associações atuais fosse refutada de sua consciência e sua resistência em reproduzir cenas vividas de maneira traumática (ibid. p. 170). Portanto, houve, da parte da paciente, uma “forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência” (ibid. p. 177).

Em seu Vocabulário da psicanálise, Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. (1988), apontam que a resistência à hipnose e à sugestão foi, inclusive, uma razão pela qual Freud desistira destas em seus pacientes, uma vez que “a resistência maciça que lhes apunham certos pacientes lhe parecia ser por um lado legítima, e, por outro, não poder ser superada nem interpretada” (p. 596).

Tipos de Resistência

resistc3aancia-mental-838x845

Já sendo um termo mais frequente em A interpretação dos sonhos (Freud, 1900/1987), o nosso primeiro psicanalista fala da resistência como algo a impedir lembranças, a chegada de conteúdos à consciência e, mais ainda: a resistência à interpretação.

Para Freud, se havia na irracionalidade dos conteúdos presentes nos sonhos algum propósito, este só poderia ser: “[…]escapar da censura imposta pela resistência” (Freud, 1900/1987, p. 297). A justificativa do psicanalista era que o aparelho psíquico precisaria de algum tipo de descarga de energia que trouxesse satisfação, mesmo que mínima, à mente que estaria privada de realizar seus desejos inconscientes incompatíveis com as normas sociais vigentes. Desta forma, haveria sucesso se aqueles conteúdos viessem, quase que incompreensíveis, à consciência (através do sonho) e carregassem apenas fragmentos daqueles desejos – através de representações feitas pelo similar som das palavras; por sinônimos; por alusões e associações realizadas no que Freud chamara de Trabalho do Sonho, regidas principalmente pelos mecanismos de defesa da Condensação e do Deslocamento.

O psicanalista, segundo Freud, teria a singela missão de ajudar o paciente a realizar as associações necessárias para, de alguma forma, interpretar a mensagem que é transmitida a partir das associações presentes no sonho. Aquela mesma mensagem que seria barrada da própria consciência por conta ser considerada, por algum motivo, ameaçadora a integralidade psíquica daquele sujeito. Naturalmente, as interpretações do analista ofereceriam certo risco às verdades carregadas durante uma vida inteira, uma vez que poderiam revelar desejos jamais antes permitidos à consciência em forma outra senão a de Tabu, como por exemplo, o incesto e o parricídio. Era de se esperar que houvesse, também, uma resistência à interpretação.

Para Freud “Sua opinião de que o sonho é absurdo significa apenas que você tem uma resistência interna contra a interpretação dele” (p. 154).

Talvez a resistência esteja mais centrada no Supereu, quando a análise está prestes a apresentar um forte conflito dos desejos inconscientes do analisando com suas crenças, a moral vigente e seus valores; possivelmente estará mais focada no Eu quando se evita falar para não causar problemas, conflitos e julgamentos a respeito daquela imagem idealizada que se tem de si mesmo, principalmente daquela que se imagina que os outros tenham, mas certamente também será possível encontrar morada para a resistência em nossa dificuldade de sermos transparentes em relação ao nosso inconsciente. De toda forma, ela existe para preservar a organização psíquica anterior a uma análise, uma vez que por algum tempo esta trouxe ao paciente grande satisfação – posta em cheque pela investigação de seu inconsciente.

Você poderá conhecer melhor os conceitos sobre a Interpretação dos Sonhos e os Mecanismos de Defesa dentro da obra de Freud nos textos a seguir, também publicados na Sociedade dos Psicólogos:

– Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: A Interpretação dos Sonhos e a Primeira Tópica Freudiana
– A Interpretação dos Sonhos
– Reflexões sobre o Aqueronte: Como alcançar o inconsciente em uma análise.
– O Que São Mecanismos de Defesa do Eu

A Definição

Por conta disso, é comum que entendamos hoje a resistência perante interpretações, associações e junções de representações, como uma certa força de expulsão para proteger o eu e o núcleo patógeno da lembrança e do acesso. Uma vez que o sintoma, a repetição e o sonho, mesmo que hoje tragam sofrimento, foram já um dia uma forte maneira de obter acesso a uma fração de seus desejos inconscientes – conforme visto na obra de Freud, que na mesma obra já nos diz que “A quantidade de afeto que devotamos à primeira associação de um objeto oferece resistência a que ela entre numa nova associação com outro objeto […]” (Freud, 1893/1987, p. 190).

E qual seria o papel da análise senão o da ressignificação, a formação de novas associações e, eventualmente, a interpretação de representações do inconsciente? Sabendo disso, não é incomum que o próprio fato da análise em si também seja alvo da resistência.

Referências no assunto nos dirão que se poderá definir a resistência como:

“o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise” (Roudinesco & Plon, 1998, p. 659)

Ou ainda:

“[…] tudo o que, no actos e palavras do analisando, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente” (Laplanche & Pontalis, 1988, p. 595-6).

Mas será na página 475 de sua Obra Magna, A Interpretação dos Sonhos, que Freud baterá o martelo:

“A psicanálise é justificadamente desconfiada. Uma de suas regras é que tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência (Freud, 1900/1987, p. 475).

Portando, para Freud, até as melhores justificativas para atrasos, faltas, remarques e refutações de interpretações ou até pontuações de atos falhos e lapsos, são uma forma de resistência. É claro que a palavra do analista não é Lei, este também poderá se enganar. Mas, via de regra, com o devido estudo, análise e supervisão do analista, será mais fácil se deparar com a resistência do paciente do que um erro de cálculo.

A Resistência é do Analista? Como Lidar com a Resistência ao Tratamento?

resistencia-a-terapia-11

Em tradução livre: “Você realmente pensa que é uma resistência?”

Em sua Introdução Clínica à Psicanálise Lacaniana (Zahar, Rio de Janeiro, 2018), Bruce Fink consegue trazer partes da obra de Jacques Lacan e Sigmund Freud a respeito do assunto. Leitura recomendada para quem deseja iniciar uma imersão neste tema.

O começo de seu primeiro capítulo é o refutar de uma antiga piada sobre psicólogos e psicanalistas:

“Quantos psicólogos são necessários para trocar uma lâmpada? Um, mas a lâmpada realmente precisa querer mudar”.

A crítica do psicanalista é exatamente sobre o ato de responsabilizar o paciente pelo tratamento inteiro. Ora, se a resistência interage com a relação transferencial e os mecanismos de defesa do Eu, o tratamento deixará de dar certo, caso o paciente continue com suas projeções, deslocamentos, racionalizações, falte às sessões, chegue atrasado, ataque o analista, correto? Correto. Mas o paciente realmente quer mudar? O paciente realmente quer se livrar de seu sintoma? É o paciente que deverá se livrar da resistência?
É óbvio que sim, mas é claro que não.

“O simples fato de as pessoas lhe pedirem algo não significa que elas realmente querem que você lhes dê”. LACAN, Seminário 13, 23 de março de 1966.

Se a resistência, conforme vimos anteriormente, tem fortes influências inconscientes, como poderá o paciente se livrar dela apenas com sua consciência? A própria ferida narcísica introduzida à humanidade por Freud já nos mostrava que existiria uma força muito maior no inconsciente.

Os franceses vão chamar Jouissance [gozo], aquele “barato”, aquela “onda” que se tira de situações dolorosas. Seja um castigo ou uma autopunição. É como se de tanta dor houvesse de sair algum prazer. Mais ainda: como se de tanto prazer vazasse dor. E isso, a psicanálise já nos diz: há ou houve nos sintomas, nos sonhos e na repetida e desejada vontade de certa ignorância sobre os aspectos do inconsciente uma dose de satisfação, de gozo, que permitia aos sujeitos um leve acesso aos seus desejos recalcados e/ou reprimidos, por que então o sujeito iria aceitar de prontidão uma mudança?

É natural que na clínica busque-se apenas uma manutenção do sintoma, ou, como diria Fink:

“em meio a uma crise de gozo esperam que o terapeuta a resolva, faça o sintoma funcionar como funcionava antes [gerando satisfação, gozo, de maneira paralela]. Não pedem para ser livrados do sintoma, e sim de sua recente ineficácia, de sua recente insuficiência. Sua demanda é que o terapeuta restabeleça sua satisfação no nível anterior” (2018, p. 19).

E não será responsabilizando imediatamente o paciente pelo que ocorre, denunciando explicitamente seus mecanismos de defesa a partir de uma interpretação precoce ou, ainda culpabilizando o paciente pela própria resistência e, consequentemente, pela ineficácia do tratamento, que irá haver sobreposição a este fato.

O analisando resiste porque quer seu gozo de volta, resiste porque decifrar seu inconsciente ameaçará muito do que se acredita; resiste porque teme, lá no fundo, ficar sem nada em que até hoje se escorou para suportar as exigências do inconsciente versus exigências da sociedade. Se tirarmos, de prontidão, as fontes de gozo do analisando, o que poderemos oferecer em troca para que este diminua sua resistência ao tratamento? Porque já sabemos: se o sintoma tem seu papel, sua ausência abrupta poderá trazer demandas piores. O que será oferecido ao sujeito no processo de análise?

Fink vai nos dizer que:

“uma satisfação substituta diferente: o estranho tipo de satisfação que vem da relação transferencial e da decifração do inconsciente” (ibid).

“Haverá uma nova abordagem das coisas, uma nova maneira de lidar com pessoas, um novo modo de funcionar no mundo” que poderão e deverão trazer mais satisfação que o antigo sintoma, pois só assim haverá engajamento na análise ao invés de abandono.

E este processo só poderá ser vencido se for vencida a única resistência que pode ser vencida de fato: a resistência do analista ao seu desejo.

A Resistência e o Desejo do Analista

Se não é possível ao paciente entender a troca que fará, muito menos a resistência que enfrentará, é esperado que seja ao analista. Se alguém procura terapia porque houve uma dificuldade em obter satisfação, gozo, da maneira que lhe era possível anteriormente (sintoma), caberá ao analista se esforçar para que esta pessoa obtenha algum resultado, ou seja, alguma satisfação ao se livrar gradativamente deste antigo modo que lhe servia (quase) muito bem.

No Seminário I (1953-54), Lacan explica que a Transferência (sobre a qual farei um texto em breve), é o motor da análise. E como já sabemos que é dela que vem algum tipo de satisfação substituta àquela do sintoma, essa informação se torna importante para que entendamos que o estabelecimento desta ocorrerá simultaneamente à uma pequena superação da resistência.

Lacan revisita Freud em seus Escritos Técnicos mostrando que tudo que intervém suspendendo, destruindo ou interrompendo a continuidade do tratamento é uma resistência do analista.

Para Lacan, se o analista não atentar à realidade do discurso, ou seja, da ordem do Simbólico, sua atenção à realidade factual, da ordem do Imaginário, irá empurrar o analisando para os chamados acting outs, ao invés de iniciar uma verdadeira análise. Ex: pedidos de demissão repentinos; bruscas rupturas em relacionamentos estáveis. Portanto, se há uma resistência, Lacan vai nos dizer que ela é sempre do analista.

Isso quer dizer que não há, portanto, uma resistência do analisando para com seu desejo inconsciente? Há sim. Mas a resistência ao tratamento faz parte de uma resistência do analista para com seu único desejo que deverá ser explicitado ao analisando: o chamado desejo do analista – o desejo para que o analisado continue análise. O desejo de que ele compareça à próxima sessão.

O analista não desejará nada senão o retorno do analisando. O analista desejará, unicamente, que análise aconteça. Quer que o analisando conte seus sonhos, faça associações, entenda seus lapsos e atos falhos, critique suas relações estabelecidas e questione os padrões que regem suas escolhas antes mais inconscientes. Consequentemente, nasce aqui a transferência que, em sua essência, é a força motriz de toda análise.

A Análise nasce do desejo do analista e mora no desejo do sujeito

A análise se move a partir da transferência que, por sua vez, é o que ocasionará uma trégua à resistência. A relação transferencial tem origem no próprio desejo do analista de que o analisando continue a análise. Esta mesma relação transferencial é o motor da análise e também aquilo que vence a resistência ao substituir o que é trazido pelo sintoma. Ela dificilmente existirá se o desejo do analista resistir a aparecer. Quando o analista expressa seu desejo, ele permite o aparecimento do desejo do sujeito em análise, mesmo de maneira não explícita. Portanto, se há resistência do analista em mostrar seu desejo, esta, por osmose, também será transferida ao analisando.

Seja realizando uma ligação perante um atraso de mais de 15 minutos, ou até insistindo para que o analisando venha, mesmo que restem apenas poucos minutos de análise; seja cobrando sessões em que houve faltas sem um aviso com 24 horas de antecedência, seja mostrando ao analisando que a análise deverá tomar o lugar de um compromisso inadiável em sua vida; seja exigindo reposições ou ainda solicitando uma sessão extra; seja valorizando na sessão o conteúdo que traga realmente o discurso do inconsciente; seja tolerando toda a resistência que supostamente seria do paciente: o analista expressará sempre o desejo de que o analisando se analise. O desejo de que ele venha, o desejo de que a análise continue. Assim será vencida a resistência, cremos hoje.

Deixe seu comentário.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERÊNCIAS:

BREUER, J., & FREUD, S. (1895/1987). Estudos sobre a histeria. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 2) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1900/1987). A interpretação dos sonhos. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vols. 4-5) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1905/1987). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 7) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
LACAN, J. Seminário I Escritos técnicos 1953-1954. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1986.

LAPLANCHE, J., & PONTALIS, J.-B. (1988). Vocabulário da psicanálise (10a ed.). São Paulo: Martins Fontes.

ROUDINESCO, E., & PLON, M. (1998). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

FINK, B. Introdução clínica à psicanálise lacaniana/Bruce Fink; tradução Vera Ribeiro.
1.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

(TODAS AS IMAGENS UTILIZADAS NESTE TEXTO FORAM OBTIDAS NA INTERNET. CASO VOCÊ DETENHA OS DIREITOS DE ALGUMA DELAS, ENTRE EM CONTATO COM A SOCIEDADE DOS PSICÓLOGOS IMEDIATAMENTE).

Pink e o Cérebro: o acerto de Pavlov

Nos anos 90, depois do enorme sucesso de Uma Cilada para Roger Rabbit, os estúdios Warner encomendaram ao Steven Spielberg uma série de TV para o público infantil intitulada Animanics, desenho de muito sucesso que fora transmitido em canal aberto no Brasil. Tentando retomar o humor pastelão das décadas de 40 e 50 para uma nova geração, o objetivo é criar algo mais adequado com os valores vigentes com de forma educativa. Afinal, não era politicamente correto jogar bigornas ACME nos amiguinhos. Entre os personagens criados, Pink e o Cérebro se perpetuaram ao longo do tempo graças a uma pergunta: “O que faremos hoje, Cérebro?” e sua celebre resposta “O que fazemos todos os dias Pink, tentar dominar o mundo”.

Somente na sua temporada final, os roteiristas resolveram se valer do fato que os personagens eram ratos de laboratório. O que nos leva a reflexão deste artigo, o 63º episódio “Pavlov’s Mice” (algo como “Os ratos de Pavlov”) em que nossos personagens se encontram com uma personalidade que tem um papel importante na Psicologia o célebre médico russo, fisiologista e Prêmio Nobel Ivan Pavlov.

Em seus experimentos Pavlov utilizava cachorros. Puristas torcem o nariz com estas inferências, o correto seria colocar nossos personagens no laboratório de Skinner. No meu texto anterior, sobre o episódio de Black Mirror Bandersnatch falamos sobre este experimento. Um desenho é entretenimento não uma aula de história, apesar experimento estar de forma simplista no episódio, nossos heróis cantam uma canção russa e uma dança ao ouvir o sino. Os roteiristas resolveram que os planos do Cérebro (Brain em inglês é uma sigla “Biological Recombinante Algorithmic Intelligence Nexus”, que fora um experimento sem sucesso, pois os demais ratos não replicaram da mesma forma, exemplo seu companheiro Pink) era roubar as joias da Coroa Russa, claro que não dá certo, as crianças riem, as falas são ditas o desenho acaba e a programação continua. Esta é uma das pouquíssimas citações na cultura pop sobre uma das descobertas mais importantes feitas na História da Psicologia.

Assim como no desenho, a palavra por traz da descoberta e seu conceito andam sendo empregados, digamos no mínimo, fora de contexto – um erro elementar. Assim como nos papos de bar, o Fantástico Mundo da Internet possibilita o expressar de opinião sobre quaisquer assuntos sem a exigência de um conhecimento aprofundado. Antes de falar sobre o assunto principal, não me leve a mal garanto que será bem útil, apontarei a diferença entre: palavra, conceito e contexto.

  1. Palavra: (Sub. Fem.) unidade da língua escrita.
  2. Conceito: (Sub. Masc.) compreensão que alguém tem de uma palavra; noção, concepção, ideia.
  3. Contexto: (Sub. Masc.) conjunto de palavras, frases, ou o texto que precede ou se segue a determinada palavra, frase ou texto, e que contribuem para o seu significado; encadeamento do discurso.

Esteja previamente avisado de que nenhum conceito, uma vez que entendido, supera a sensação de estranhamento do que a palavra: condicionamento.

Pião preto na casa E7

Geralmente, as pessoas começam a explicar o conceito pelo conceito, isto é igual aquilo. Neste caso é necessário algo mais complexo, como por exemplo, um jogo de xadrez. Sabemos que o objetivo é o xeque-mate, muito mais importante do que simplesmente dominar a movimentação das peças; ao tentar absorver a complexidade é necessário entender o qual estratégia o jogador traz consigo ao realizar os primeiros movimentos.

Para armar este tabuleiro, primeiro é necessário entender o que é um comportamento. Tudo que você faz da hora que acorda até á hora que vai dormir são emissões de comportamento. Certo?

Neste momento, como eu gostaria que a explicação fosse tão simples quanto. Parte do entendimento equivocado do conceito é exatamente por tentar simplifica-lo. Perceba que, apesar de parecer, um comportamento é algo mais complexo do que somente pegar um celular e colocar ao alcance dos olhos para leitura ao toque de uma mensagem.

Ainda hoje, estudiosos da Psicologia Comportamental divergem sobre o conceito do que é um comportamento. No texto ‘Sobre uma definição de comportamento’, João Claudio Todorov, cita diversos autores e sugere que o “comportamento é um processo com duração definida que ocorre o tempo todo, e parte da interação, mas não é a interação em si.” Vejamos, se um comportamento é parte de uma interação, outras peças deste jogo precisam ser deslocadas, neste caso vamos nos entender o que é uma interação.

Interação e Revolução Cognitiva

Interação entre indivíduos ocorre desde dos primórdios em nossa espécie, mas perceba, não é qualquer interação. Sapiens – Uma Breve História da Humanidade – livro de Yubal Noah Harari, traça a evolução da espécie Homo sapiens, que exerceu um domínio sobre as outras espécies da família dos primatas há 70 mil anos atrás e se espalhou sobre as demais regiões do planeta habitáveis na África e Eurásia.

O Homo sapiens, diferente do que o senso comum propaga, não conseguiu expandir territorialmente através da força bruta. Muito além da evolução genética na qual o nosso ancestral apresentou cérebro em tamanho maior dos que outros hominídeos. Harari chamou de Revolução Cognitiva, uma capacidade que iniciou com os nossos antepassados adaptando ferramentas rudimentares que pudessem extrair tutano de carcaças deixadas por outros animais (mesmo porque o confronto poderia ser fatal), passou pelo domínio do fogo e a habilidade de cozinhar alimentos que em natura poderiam ser indigestos e chegou as habilidades de se comunicar, interagir com os outros de sua espécie e compartilhar mitos e crença.

“Como o Homo sapiens conseguiu ultrapassar o limite crítico (de no máximo 150 liderados por líder), fundando cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios que governam centenas de milhões? O segredo provavelmente foi a ficção. Um grande número de estranhos pode cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos”

Harari

Este fora o setup de nosso desenvolvimento, quanto maior a fosse as necessidades: crescimento da população, abrigo, proteção, alimentação entre outras; consequentemente maiores eram as contingências de reforçamento. Sejam por necessidade (tabu) ou imposição (totem), novas regras eram criadas para estabelecer a ordem, não é mesmo Dr. S. Freud?

Nosso comportamento ao longo dos anos fora moldado por estas questões. De geração em geração foram transmitidos conhecimentos sobre: o que devemos fazer, como devemos fazer e quando devemos fazer. Quase nunca, ou delegado a uma casta intelectual superior, vinha o porquê fazemos.

Comportamento é dependente de contingência, absolutamente tudo que está no entorno de você pode se tornar contingência. Imagine que você está numa feira livre em São Paulo e sente o cheiro de pastel, não tem fome, mas tem vontade de comer pastel, automaticamente saliva por um copo de caldo de cana bem gelado, vem à mente e o pensamento ‘por que não?’. Se você tiver em Porto Alegre, pense num churrasco maturado a 12h. No Rio de Janeiro uma feijoada, na Bahia um acarajé, em Fortaleza peixe recém pescado frito na hora… Viva o Brasil! Este é um simples exemplo do que é uma contingência, “em sentido mais geral, a contingência poderia significar qualquer relação de dependência entre os eventos ambientais ou entre os eventos comportamentais e ambientais.” (Skinner. 1953: 1969).

Tudo bem, Harari havia alertado no livro, temos uma facilidade em entender que nossos ancestrais faziam assim, mas nós, superamos isto, somos mais inteligentes, evoluídos, não é? Lembre-se que eu avisei sobre a sensação de estranhamento.

“Em resumo, no campo do comportamento como um todo, as contingências de reforço que definem o comportamento operante estão por toda parte. Aquelas sensíveis a esse fato às vezes ficam embaraçados com a frequência com a qual eles veem reforço por toda parte, como os marxistas veem a luta de classes ou os freudianos o complexo de Édipo.”

Skinner

De volta ao passado na Russia

Somente em 1903 (exatamente 116 anos atrás), Dr. Ivan Pavlov estava estudando o reflexo (lembra que ele era fisiologista) em animais, especificamente em cães. O experimento consistia (imagem) que um cão era preso numa traquitana e era mensurada a quantidade de salivação, sempre fazendo um intervalo para alimentar o cão. Primeiro passo era apresentado o alimento (estimulo não condicionado), resultado aumento de salivação. Segundo passo, no período em que o cão deveria ser alimentado novamente era tocado o sino (estimulo neutro), cão não apresentava salivação (resposta não condicionada). Terceiro passo apresentava o alimento e tocava o sino, cão apresentava salivação (resposta não condicionada, dado que o alimento fora apresentado no primeiro passo). Quarto passo, o sino era tocado e o cão salivava sem que o alimento fosse dado (resposta condicionada). Batizado de condicionamento clássico, um estimulo condicionado gerava uma resposta programada.

A experiência de Pavlov começou com o cientista tocando uma sineta antes de cada refeição que os cachorros do seu laboratório recebiam. Depois que isso aconteceu várias vezes — o número era diferente para cada animal testado —, os cães ficavam condicionados a babar só de ouvir a sineta, mesmo que não tivessem ganhado nada para comer.

Fatos são o ar da ciência. Sem eles, cientistas não podem alcançar vôos.”

Pavlov

Quando seu despertador toca, você acorda, ou programou o horário para dormir mais 10 minutos? Se você tem horário de almoço fixo, seu estomago ronca pouco antes do previsto? Se você vai ao cinema, o cheiro da pipoca com manteiga te desperta vontade? Você deve parar seu veículo antes da faixa no sinal vermelho, se não você pode receber uma multa? Respostas condicionadas a estímulos contingenciais que são reforçados há quanto tempo mesmo?

Condicionamento foi a unidade que facilitou o entendimento sobre comportamentos, que são muito mais complexos do que aparentam ser, depende do desenvolvimento de fatores genéticos, psicológicos e sociais. Cultura, religião, crenças, questões morais e éticas, experiências são reforçadoras positivas e negativas para emissão dos comportamentos. Por isso, condicionamento em humanos descontextualizado, parece simples de ser modificado.

Seres humanos são tudo, menos simples.

Contribua conosco, concordou, discordou ou deseja outras análises neste formato deixem seu comentário na caixa de descrição.

Masilvia Alves Diniz

Referências Bibliográficas

Harari, Y. N. Sapiens – Uma Breve História da Humanidade (2015). 25. ed. Tradução Janaina Marcoantonio. Porto Alegre/RS. LPM. Pág. 47.

MLA style: Ivan Pavlov – Biographical. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2019. Sun. 17 Feb 2019. Disponível: https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/1904/pavlov/biographical/

Souza, Deisy das Graças de. O conceito de contingencia: um enfoque histórico. Temas psicol. [online]. 2000, vol.8, n.2, pp. 125-136. Disponível: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1413-389X2000000200002&script=sci_abstract&tlng=es

Steven Spielberg’s Animaniacs – Pink and the Brain: Pavlov´s Mice. (Warner/Amblin, 1995). Curta (8m42s). Disponível: https://www.bcdb.com/cartoon/15028-Pavlovs-Mice. Acesso: 07 fev. 2019

Todorov, J. C. Sobre uma definição de comportamento. (2012). Brasília. Revistas Perspectivas. vol. 03 n ° 01 pp. 032-037. Disponível: https://www.revistaperspectivas.org/perspectivas/article/view/79

Vários Colaboradores. Livro da Psicologia (2012). Behaviorismo pag. 60-61. Tradução Hermeto Clara M. e Martins A. L. São Paulo: Globo