Tudo Sobre Terapia Online: Como Funciona? Prós e Contras; Como se Cadastrar? Passo a Passo com Fotos.

Nova Resolução do Conselho Federal de Psicologia

Resolução 11/2018

Recentemente houve uma atualização sobre o que é ou não permitido a respeito do atendimento psicológico online ou, para quem preferir: a terapia mediada por tecnologias. O serviço, que é permitido desde 2012, passou por uma regulamentação mais moderna, com o objetivo de adequar a prática da psicologia à nossa Sociedade atual, que vive na Revolução Tecnológica 4.0.

A Resolução Nº11, de 11 de maio de 2018 entrou em vigor após 180 dias de sua publicação. Nela, considerou-se como “meios tecnológicos de informação e comunicaçãocelulares, tablets, SmarTV’s, websites, aplicativos e plataformas digitais; em suma: “qualquer outro modo de interação que possa vir a ser implementado e que atenda ao objeto da Resolução”. A crescente demanda pelo atendimento psicológico online, inegavelmente, aparenta ter tido uma grande influência sobre a Nova Resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

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Em novembro de 2018 a Resolução nº11/2018, publicada pelo CFP, entrou em vigor. E junto dela, uma série de adequações e atualizações na norma vigente sobre Atendimento Psicológico Online. Sem dúvidas, é uma portaria que abre caminhos para o futuro da ciência e profissão dos psicólogos, mas que também não deixa de ser alvo de muitas polêmicas e discussões entre profissionais e setores específicos. Mas e agora, o que muda? O que é proibido? Como eu faço para atender, supervisionar e/ou ser/supervisionado por meio de tecnologias? Quais programas são recomendados? Existem riscos? Qual atendimento é melhor: online ou presencial?

A Sociedade dos Psicólogos preparou este artigo especial para tentar sanar todas as dúvidas envolvidas nesta nova Resolução: acompanhe!

O Que Mudou?


O Início

Um dos grandes precedentes para que as novas tecnologias começassem a fazer parte da Psicologia no Brasil foi a Resolução CFP N° 010/97, que regulamentou a divulgação publicitária dos serviços de psicologia através dos meios de comunicação. Alguns anos mais tarde, em 2000 e 2005 “o atendimento psicológico mediado por computador” passou a ser permitido. Contudo, este só poderia ser praticado para fins de pesquisa, sem que o psicólogo recebesse honorários – em caráter estritamente experimental.

Como era até a chegada desta nova Resolução?

Finalmente, em 2012, através da Resolução nº 011/2012 os psicólogos passaram a poder realizar Orientação Psicológica através de plataformas online, que era caracterizada por “até 20 encontros ou contatos virtuais” e poderiam acontecer também os Processos Seletivos, Supervisões do Trabalho dos Psicólogos e o Atendimento Eventual de clientes em trânsito ou com dificuldades ou impossibilidades de mobilidade.

Todavia, a principal discussão era sobre uma especificidade desta Resolução que determinava que a plataforma utilizada (site que garantiria acesso ao atendimento) deveria obter uma autorização dos Conselhos Regionais de Psicologia em que o profissional estivesse inscrito. A partir daí, tais autorizações aconteceriam mediante a solicitação de um cadastro e uma espera de até 60 dias para a análise que emitiria um parecer favorável ou não. Somente após a autorização do site que o profissional poderia efetuar seus atendimentos.


Como Ficou?

Na Resolução CFP 11/2018, os psicólogos agora contam com apoio jurídico através do Marco Civil da Internet desde 2014, que estabelece direitos, garantias legais e deveres para o uso da Internet no Brasil. E a importância disso reside na preservação do sigilo profissional, que poderia ficar comprometido ou até ameaçado, sem sequer oferecer punições a quem oferecesse danos ao mesmo – caso a internet continuasse, como no início, sendo uma espécie de Terra sem Lei.



(Imagem: Uma breve explicação sobre o Marco Civil da Internet)

Resolução CFP 11/2018

A nova resolução encontrou respaldo Legal para que um dos pilares mais importantes da Psicologia fosse preservado: o sigilo. Além disso, um conjunto de garantias, deveres e direitos também fazem parte daquilo que garantirá o exercício do profissional da psicologia através da internet. A inexistência de disposições deste tipo em 2012, quando a antiga Resolução havia sido disposta, também pareceu mostrar-se uma das inseguranças a respeito do tema à época.

Sendo assim, a partir de agora, desde que não firam as disposições do Código de Ética do Profissional Psicólogo, será possível realizar:

  1. As consultas e/ou atendimentos psicológicos de múltiplos tipos;

  2. Os processos de Seleção de Pessoal;

  3. A Utilização de Instrumentos psicológicos e testes que obtenham parecer favorável do Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos (SATEPSI);

  4. A Supervisão técnica dos serviços prestados pelos (as) profissionais da psicologia em setores de atuação diversos.

Contudo, ainda será necessária a realização de um Cadastro Nacional Individual, atualizado anualmente, para que haja a autorização de atuação no ambiente virtual. Se o cadastro for aprovado, caberá à psicóloga ou ao psicólogo a responsabilidade técnica e ética a respeito do serviço que irá prestar. O profissional e seu supervisor (se houver) serão os únicos responsáveis pela avaliação daquilo que cabe ou não à modalidade online de atendimento. Com exceção, é claro, daquilo já dito como vedado na Resolução 11/2018, que será explicado adiante.

O que Será Proibido?

Neste novo modelo de setting terapêutico, as psicólogas e psicólogos deverão se atentar aos possíveis descuidos e infrações à ética e à técnica – que já previstos pelo CFP como essenciais para o funcionamento deste novo modelo. Ainda assim, consideramos importante uma explanação daquilo que é vedado aos profissionais que realizarão atendimento virtual, ou seja, não será permitido:

  1. Realizar atendimento por meios tecnológicos de comunicação sem o cadastramento no CRP local;

  2. Manter o Cadastro desatualizado e/ou irregular perante o CFP;

  3. Realizar o atendimento virtual de crianças e/ou adolescentes sem a autorização dos pais ou responsáveis legais;

  4. O atendimento de pessoas e grupos em situação de emergência e desastres pelos meios de tecnologia, sendo este aquele que deverá ser sempre executado de forma presencial;

  5. O atendimento de pessoas e grupos em situação de violação de direitos ou de violência, devendo este também ser realizado de forma presencial;

  6. Desrespeitar as especificidades e adequação dos métodos e instrumentos utilizados em relação às pessoas com deficiência na forma da legislação vigente.

O que Dizem os Profissionais da Área?

Atendimento Psicológico, Orientação Vocacional, Seleção de Pessoal, Avaliação Psicológica com ou sem Instrumentação. Estes são alguns dos principais serviços que poderão ser oferecidos através de plataformas virtuais por psicólogos de todo o Brasil.

Numa tradição das ciências humanas, a psicologia segue o padrão de evitar grandes consensos teóricos a respeito de suas principais linhas de pensamento. Há até certa rivalidade entre linhas mais opostas como, por exemplo, Behaviorismo e Psicanálise. Não poderia ser diferente à respeito dos atendimentos à distância. A polêmica envolve considerações com conteúdo deveras pertinente a favor ou contrário à Nova Resolução.

Para este artigo, alguns profissionais foram consultados a respeito de suas visões a respeito do assunto.

Bruno de Brito

Quando perguntado, o psicólogo Bruno Davidson de Brito comparou a terapia mediada por tecnologias às modalidades de Ensino à Distância (EAD):

“São até boas como complemento, mas nunca poderão substituir a lição presencial, pois existe algo mais que o conteúdo. Não é qualquer caso que pode ser atendido online. Existe a relação aluno e mestre. Do mesmo modo existe toda essa relação paciente e analista […] contudo, a demanda de tempo e as relações superficiais contemporâneas fazem com que o atendimento online seja preferido”.

Bruno Davison de Brito Psicólogo

Bruno de Brito (CRP 06/141245)

O entrevistado, que também é colunista da Sociedade dos Psicólogos, acredita que esta modalidade de atendimento seja válida para psicodiagnósticos ou intervenções menos complexas. Entretanto, o profissional ressalta que o atendimento online “nunca poderia substituir o atendimento face a face”.

Bruno é profissional atuante na psicologia clínica e sua especialização em Semiótica Psicanalítica – Clínica da Cultura, na PUC-SP se soma também à vivência que a psicologia pôde lhe proporcionar através dos trabalhos que realizava no Poder Judiciário.

As Tecnologias

Não é incomum percebermos crianças, adolescentes, adultos e até idosos utilizando tablets, celulares e (cada vez menos) computadores em todos os lugares. A pergunta que fica é: por que não no consultório? Se durante décadas as modalidades técnicas e estruturais da psicologia sofreram mudanças constantes, seria esta mais uma que chegou para ficar?

Caio Ferreira

O que afirma Caio Ferreira, psicólogo especialista em comportamento não-verbal. Segundo ele, a psicologia não poderia ficar de fora de um “mundo conectado” onde a internet passa a fazer parte da vida das pessoas com uma intensidade cada vez maior. Fundador do Centro de Investigação do Comportamento das Emoções (CICEM) , o psicólogo afirma que “o saber psicológico é vivo, bem como a sua clínica” e que, assim como ocorrera no passado com os testes psicológicos, “haverá, em breve, com o acúmulo de experiências clínicas e pesquisas específicas, desenvolvidas, alguma mudança e/ou estabelecimento de novos paradigmas naquilo que diz respeito à psicoterapia à distância”.

Contudo, há também uma ressalva do também Co-Fundador da Sociedade dos Psicólogos:

É razoável pensar que estamos pisando em ovos, sendo que algumas problemáticas e cautelas iniciais são óbvias, como a questão do sigilo e do controle do setting terapêutico à distância, ou na limitação de um atendimento infantil, onde muitas vezes recursos lúdicos concretos fazem parte do trabalho, ou na própria percepção do corpo e das reações do cliente/paciente. Mas também é razoável pensar que estamos pisando em um terreno de possibilidades, descobertas e expansões da psicologia”.

Caio Ferreira
Caio Ferreira (CRP 06/147859)

De toda e qualquer forma, as discussões são riquíssimas para conhecermos cada vez mais sobre esta nova modalidade. Entretanto, se engana quem acredita que bastará apenas iniciar o atendimento de uma hora para a outra. O Cadastro necessário envolve a checagem do registro nos Conselhos Regionais e no Conselho Federal, bem como acontece apenas mediante aprovação.

Igor Banin

O que afirma Igor Banin, psicólogo, psicanalista e co-fundador da Sociedade dos Psicólogos é que apesar do fato de que “o atendimento psicológico/psicanalítico online configura uma modalidade nova, e talvez um pouco estranha à comunidade Psi de modo geral”, haja um conjunto de benefícios que se ligam à abrangência do número de pessoas que obterão tratamento através da escuta. O psicanalista acredita que a principal vantagem do atendimento online é de fato esta abrangência, que permite que mais pessoas sejam ajudadas de diferentes lugares.

Igor, que já atende alguns pacientes por videoconferência diz que, sempre que pode, procura realizar algumas sessões em seu consultório, localizado na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo. Ele ainda afirma que há casos em que, de maneira agendada, os atendimentos também podem ocorrer de forma alternada: “uma vez no mês nos vemos presencialmente, e as demais, via web”.

Igor Banin é Psicólogo (CRP 06/135177) Psicanalista e Membro Fundador da Sociedade dos Psicólogos.

Apesar de afirmar que ainda haja a necessidade de discussões sobre as técnicas quem envolvem o antedimento online especificamente, Banin afirma que o próprio tempo de deslocamento elevado, hoje uma realidade nos grandes centros urbanos, pode ser uma outra condição que aumente a demanda dos atendimentos virtuais. O psicanalista ainda arrisca um palpite, levando em consideração a crescente demanda pelos serviços de saúde através da tela: “Algum dia, talvez, uma ligação pelo Skype será a única forma de se consultar com um oftalmologista, por exemplo”.

Contudo, há uma ressalva do também Co-Fundador da Sociedade dos Psicólogos:

Naturalmente, o aspecto técnico da Psicanálise frente à essa novidade ainda carece de pesquisa e discussão. Se a resistência é maior em atendimentos desse tipo, se isso influencia no estabelecimento ou não da transferência.

A Sociedade dos Psicólogos criou um passo-a-passo em imagens colhidas diretamente do portal oficial e-Psi.

Como Realizar o Cadastro? Passo a Passo.

Acesse o Site

Para que o profissional se enquadre no Novo Modelo de exigências do CFP para Atendimento Online, o profissional deverá acessar o site https://e-psi.cfp.org.br/

Cadastre-se

Assim que o link for acessado será possível visualizar uma página idêntica à da imagem a seguir, podendo verificar quais profissionais estão cadastrados no portal. Mas para que o profissional inicie a primeira etapa para se adequar à Nova Resolução, deverá clicar em “Cadastre-se“:

Apresentação1

Inscreva-se

Em seguida, você será direcionado a uma página que dará início ao seu processo de inscrição. Conforme apontado na imagem abaixo, você deverá clicar em “Inscreva-se Agora”

Apresentação2

Encontrar Registro

Para que o Sistema encontre o profissional que está registrado em um dos Conselhos Regionais de Psicologia, será necessário digitar o CPF do psicólogo e selecionar a qual Conselho Regional este está associado. Ex: CPF: 123.456.789-00 CRP 6ª Região (São Paulo) e em seguida clicar em “Encontrar” vide imagem abaixo:

Apresentação3

Verifique e Confirme sua Identidade – CONFIRMAÇÃO POSITIVA

Em seguida, para fins de verificação e confirmação de identidade, o profissional deverá responder algumas perguntas referentes a seus dados pessoais, de acordo com que foi o informado ao solicitar o Registro e a Carteira de Identidade Profissional na sede do Conselho Regional de Psicologia (CRP) em sua cidade. Selecionando as informações corretas, clique em “CONFIRMAR”.

Apresentação4

Crie seu Usuário

Após confirmar algumas informações de acordo com o que consta em sua Carteira de Identificação Profissional, você deverá criar um nome de usuário que ainda não exista no banco de dados do Portal e-Psi e verificar se o e-mail ali apresentado está de acordo com o seu atual.

Observe na imagem:

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É importante lembrar: caso você não tenha mais acesso ao endereço de e-mail informado ao Órgão do Conselho Regional, será necessário realizar uma atualização cadastral no mesmo.

Verifique seu Email

Assim que você inserir um Nome de Usuário que seja válido, você deverá visualizar a seguinte página:

Apresentação5

Neste momento, você deverá acessar seu e-mail cadastrado e lá verificar um e-mail parecido com este abaixo:

PASSO A PASSO EPSeeredsdsdsdsdsdsdsdsdsdseI

Confirme o Usuário

Clique em Confirmar usuário

Após a Confirmação, aparecerá uma tela com as suas informações de login e senha. Guarde sua senha em um local seguro para poder acessar o portal.

A seguir, clique em ENTRAR

Acesse sua Conta

Você será direcionado a uma página do CFP que exigirá seu Nome de Usuário e Senha previamente cadastrados:

PASSO A PAddddI

Insira seu Usuário e Senha e clique em Acessar. Você será direcionado para o Painel da (o) Psicóloga (o).

Painel da (o) Psicólogo

revisado

Clique em Histórico de Cadastro.

Novo Cadastro

revisado 2

Você irá visualizar uma mensagem dizendo “Aviso: Você ainda não possui um cadastro.”, clique em + NOVO CADASTRO.

Confirme seus Dados Cadastrais

PASSO A PASSO EPSwwwI

Verifique e confirme as suas informações e caso estas não estejam de acordo com a realidade, procure o Conselho Regional de Psicologia em sua cidade.

Em seguida, clique em CONTINUAR.

Especifique suas Atividades

Agora você deverá selecionar quais tecnologias, dispositivos e (se houver) aplicativos irá utilizar na nova modalidade de atendimento. Você também irá informar quais serviços irá oferecer e qual público irá atender.

Apresentação13

Apresentação14

Após selecionar tudo, clique em CONTINUAR.

Proposta de Prestação de Serviços

Após terminar os passos anteriores, você será direcionado a esta página que irá solicitar que você correlacione os aspectos dos serviços oferecidos, dos recursos tecnológicos e do público alvo selecionado, justificando tal compatibilidade.

Em seguida, você deverá dizer como e por quê a plataforma que você irá proteger o sigilo de seus atendimentos. Observe a imagem.

Apresentação15

Clique em SALVAR.

Leia e Aceite o Termo de Orientação e Declaração para Prestação de Serviços Psicológicos por Meio de Tecnologias da Informação e da Comunicação.

O termo poderá ser checado na íntegra Clicando Aqui.

Apresentação16

Após realizar o cadastro, os seguintes itens deverão ser lidos e, caso o profissional concorde e queira prosseguir, deverá clicar em “Concordo”.

Revisar Cadastro

Em seguida, verifique mais uma vez todos os seus dados.

Apresentação17

Confirme e Envie para a Avaliação do CFP

Por fim, após verificar a veracidade e a acuracidade de todas as informações, é o momento de CONFIRMAR E ENVIAR PARA AVALIAÇÃO, conforme a imagem.

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Após realizar tal passo a seguinte tela irá aparecer para você:

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Isso significa que tudo foi um sucesso. Agora você deverá aguardar a resposta do CFP a respeito de seu cadastro.

Cadastro Submetido com Sucesso

Para ter certeza de que seu cadastro foi enviado corretamente, você poderá checar no Histórico de Cadastro se aparece algo semelhante à imagem a seguir:

submetido

Aguarde a Avaliação pelo seu Conselho Regional de Psicologia

Agora que seu cadastro foi enviado, ele será avaliado pelas partes competentes. Você poderá verificar o status de sua solicitação realizando Login neste mesmo portal ou aguardar a notificação que você receberá por e-mail.

SOLICITAÇÃO

Caso tenha alguma dificuldade, o próprio CFP disponibiliza um tutorial em vídeo, podendo ser acompanhado a seguir:

https://www.youtube.com/watch?v=9XbuX4GQnas&feature=youtu.be

Cadastro Realizado

Assim que seu cadastro for aprovado, você poderá iniciar seus atendimentos utilizando as plataformas de sua preferência. Alguns profissionais utilizam o próprio site, alguns sites oferecem suas próprias plataformas mediante assinatura, bem como há a possibilidade do uso de aplicativos.

Mas cuidado: Programas como o Skype, por exemplo, podem utilizar partes das conversas para agregar a seu banco de dados informações sobre os usuários. Fique atento aos Termos e Condições de Uso e às Políticas de Privacidade das plataformas que utilizar.

Um bom trabalho a todos!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo.

REFERÊNCIAS:

Resolução CFP N° 010/97 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 003/2000 – Disponível Aqui

Resolução CFP N° 012/2005 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 011/2012 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 11/2018 – Disponível Aqui

Lei Nº 12.965, de 23 de Abril de 2014 – Disponível Aqui

Revista CRP-SP nº 194. pp 6-7. • Novembro | Dezembro | Janeiro • 2018/2019. – Disponível Aqui

O Tempo Lógico de Lacan e os Três Tempos do Sujeito.

T E M P O

Bom dia, Boa Tarde, Boa Noite. No artigo de hoje, que pode terminar de ser lido amanhã, bem como poderá lembrar de algo lido no dia ontem, falaremos sobre um assunto atemporal. Falaremos sobre a lógica do tempo. E não será incorreto dizer que também falaremos sobre o tempo da lógica. Está confuso? Calma, há tempo de finalizar esta leitura, espero, entenderá.

Em Pleno Século XX e, sem vergonha alguma, também no século XXI, uma frase ficou muito famosa: Time is Money – Tempo é Dinheiro. E, se deixarmos as críticas a um certo sistema econômico de lado, poderemos nos adentrar mais ao seu conteúdo e buscar uma influência dele na subjetividade alheia. Nela – e aqui eu começo com meus julgamentos apressados, estejam à vontade para embasar sua censura posterior – o $ujeito se torna um mero agente transformador, aquele único responsável por transformar o intervalo de sua existência, a vírgula que separa seu nascimento de sua morte, na maior matéria de troca simbólica já inventada pelo homem. Seria uma troca justa?

Difícil saber sem conhecer todos os sujeitos, mas o foco aqui é Outro. Quando falamos sobre o tempo em si, podemos lembrar desde os filmes sobre viagem no tempo, as teorias da conspiração, teorias científicas pautadas no assunto e muitas outras relações sobre ele no dia-a-dia. Mas, como um psicanalista, Jacques Lacan resolveu estudar seus efeitos nas relações subjetivas. Mais do que isso: o aplicou à própria relação estabelecida com a lógica.

A relação do psicanalista com o tempo fica famosa nas sessões de 500 euros que duravam cerca de 20 minutos. O que poderia ser um ultraje para alguns, se tornava uma maneira de forçar o paciente a expulsar suas falas defensivas durante as sessões, para outros. Se era algo antiético a alguém que solicita cuidado para alguns autores, era uma maneira de fazer com que o paciente elaborasse aquele último assunto abordado em casa, no trabalho e em seus relacionamentos, sem que este tivesse tempo de se defender das intervenções. E a discussão é extensa.

A tentativa deste artigo será de falar um pouco mais sobre o conceito, deixando aos próprios leitores as conclusões múltiplas que lhes vierem. A única sugestão mandatária aqui é a do gozo de uma excelente trilha sonora que já irá falar sobre o assunto. Não podendo começar por Outra, comecemos a leitura deste artigo com uma música homônimamente apropriada.

O Autor

Jacques Lacan é, quando não o mais, um dos mais polêmicos psicanalistas que tivemos em existência. Não é difícil, se estamos entrando no universo psicanalítico, ouvirmos certas reservas à não ortodoxia nos métodos e, principalmente, na escrita e na fala de Lacan. Ouço, frequentemente, colegas se queixando da dificuldade na leitura dos Seminários, o que é entendível, uma vez que são transcrições daquilo falado; mas não é raro quem tenha dificuldade na leitura dos Escritos. E me sobraria arrogância se não me incluísse neste grupo. Lacan tinha uma forma própria de escrever, onde é necessário conter a ansiedade, respeitar cada artigo, cada vírgula, cada frase dita anteriormente; será necessário trocar a voz ativa pela voz passiva, respeitar aquela crase que foi inserida e principalmente o Tempo Verbal empregado. Lê-se uma frase que somente fará sentido no final daquele parágrafo, pregando uma peça no leitor ansioso. Faz-se uma referência àquele assunto anteriormente citado com uma vírgula ou uma crase no meio do assunto atual, o que confunde o leitor obsessivo por estrutura; alguns parágrafos demandam uma extensa repetição da leitura (e da releitura). Mais ainda: seu entendimento sobre um mesmo assunto pode até mudar de acordo com o avanço da própria análise.

É polêmico indagar se o autor fazia tudo isso propositalmente, mas ele, conservando a tradição, nos deixa na dúvida quando fala que o entendimento de seus textos estava longe de ser o seu objetivo. A polêmica já começa em uma indagação básica: que tipo de autor que escreve para não ser entendido? E isso foi dito pelo pelo próprio Lacan:

“Alguma coisa que é
característica de meus
Escritos é que não os escrevi para que se os compreendesse, eu os escrevi para que se os lesse”.

Jacques Lacan, 1974.
E é de um texto, escrito em 1945, contido neste próprio livro – Escritos (LACAN, 1998) – que o artigo a seguir tentará se basear:
O Tempo Lógico e a Asserção de Certeza Antecipada
Um novo sofisma (LACAN, 1998)

Um Problema de Lógica

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Ao início deste capítulo, Lacan apresenta um problema de lógica que serviu de base para o discorrer de toda a sua argumentação. A partir deste exemplo, haverá por Lacan uma leitura sobre as formas com que a lógica é empregada entre a apresentação do problema e sua solução encontrada. Confira:

A Lógica dos Três Prisioneiros

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O Diretor de um presídio faz com que três prisioneiros compareçam em um local de sua preferência e lhes oferece uma oferta irrefutável: A Liberdade, mas através da Lógica. Lacan não consegue deixar de estender isso à sua concepção subjetiva, e antes de utilizá-lo para aplicar essa utilização lógica em sua teoria sobre os sujeitos, retrata o caso em seu livro (LACAN, 1998), abrindo aspas à fala do Diretor:

“Por razões que não lhes tenho de relatar agora,
devo libertar um de vocês.
Para decidir qual, entrego a sorte a uma prova pela
qual terão de passar, se estiverem de acordo.”

“Vocês são três aqui presentes. Aqui estão cinco discos que
só diferem por sua cor: três são brancos e dois são pretos.
Sem dar a conhecer qual deles terei escolhido, prenderei
em cada um de vocês um desses discos nas costas, isto é,
fora do alcance direto do olhar; qualquer possibilidade
indireta de atingi-lo pela visão está igualmente excluída
pela ausência aqui de qualquer meio de se mirá-los”.

“A partir daí, estarão à vontade para examinar seus companheiros
e os discos de que cada um deles se mostrará portador
sem que lhes seja permitido, naturalmente, comunicar uns aos
outros o resultado da inspeção. O que, aliás, o simples interesse
de vocês os impediria de fazer. Pois o primeiro que puder deduzir
sua própria cor é quem deverá se beneficiar da medida liberatória
de que dispomos”.

“Será preciso ainda que sua conclusão seja fundamentada em
motivos de lógica, e não apenas de probabilidade. Para esse fim,
fica convencionado que, tão logo um de vocês esteja pronto a
formulá-la, ele transporá esta porta, a fim de que, chamado à
parte, seja julgado por sua resposta.”

Após a proposta ser aceita, cada um dos prisioneiros recebe o disco prometido. Entretanto, a exigência do uso da lógica não foi mera coincidência. O desafio foi aceito pelos presos sabendo da existência de três discos brancos e dois discos negros, talvez tivesse lhes parecido tarefa fácil realizar sua missão de adivinhar aquele que está consigo. O detalhe que torna a liberdade, nosso bem mais precioso, não tão fácil assim, é que: sem poder olhar o próprio disco, sem poder se comunicar com o Outro que partilha desta mesma ignorância a respeito de si, mas também partilha do conhecimento sobre o disco do semelhante, o que não se imaginava era que todos os detentos receberiam discos brancos.

O que o diretor não esperava, decerto, era que, após algum tempo de hesitação e pensamento: Os três sujeitos dão juntos alguns passos que o levam, simultaneamente, a cruzar a porta. Separadamente, eles se justificam da mesma maneira:

“Sou branco, e eis como sei disso.
Dado que meus companheiros eram brancos,
achei que, se eu fosse preto, cada um deles poderia ter inferido o seguinte:
Se eu também fosse preto, o outro, devendo reconhecer imediatamente que era branco, teria saído na mesma hora, logo, não sou preto.’

E os dois teriam saído juntos, convencidos de ser brancos.

Se não estavam fazendo nada, é que eu era branco como eles.
Ao que saí porta afora, para dar a conhecer minha conclusão.”

Mais intrigante: os três realizaram, ao mesmo tempo, o mesmo exercício do pensamento lógico. E é isso que serviria de base para Lacan explanar suas ideias.

Qual é a Lógica?

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Quando Lacan foca seu olhar no valor lógico da solução apresentada, ele a classifica como um “exemplo significativo para resolver problemas de uma função lógica no momento histórico em que seu problema se apresenta ao exame filosófico” (LACAN, 1998).

Fica mais fácil o entendimento se estiver ouvindo uma música:

Quando procura entender o pensamento lógico empregado por cada um dos detendos, Lacan se encontra em observar o ponto de vista exclusivo de um deles. Chamando-o de A, enquanto os outros dois teriam o nome de B e C.

E aqui espera-se que, quando A enxerga os outros dois portando discos brancos, na adoção da lógica clássica, convencional, sua primeira conclusão seria a de que ele só poderia portar um disco preto. Caberia ao detendo, não podendo perder tempo, correr e informar que, se vê dois que são brancos, ele só poderia ser, pela lógica, aquele que é visto como preto. Uma visão um tanto binária, um tanto imediatista, se pudermos aqui opinar. É, naturalmente, a primeira que nos vêm à cabeça. Não era preciso se aprofundar mais do que isso. Estava óbvio! “Se dois eram brancos, e aqui devo usar a lógica, é por ela que concluo que o terceiro deverá ser preto!”

Mas sabemos que para se tornar um ex-detento, o próprio agiu de forma diferente àquela empregada na hora de cometer seus crimes: ele deteve seus impulsos imediatos, ele se colocou no lugar dos outros e tentou entender como funcionariam seus pensamentos.

É Preciso Considerar os Tons de Cinza

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Nem tudo é apenas Preto ou Branco. Para Lacan, o ato final de se declararem todos brancos, teria a seguinte estrutura no pensamento de A: “Devo estabelecer minha dedução com base na conduta dos outros dois”. E enquanto A espera o movimento ou não dos outros dois, realiza um exercício de empatia notável ao pensar: “No que B e C se baseariam?”, e é assim que ele entende que eles se baseariam exatamente na causalidade mútua de suas condutas e condições. Ou melhor: se o movimento de B depende daquele realizado por C e vice-versa, a inércia de ambos somente poderia ser um resultado do que vêem na cor de A?

É a partir desta indagação que nosso inteligente prisioneiro faz algo que falta muito nos dias de hoje: ele começa a questionar sua própria certeza. Se, por um momento, ele acreditou ser o portador do disco preto, o que isso implicaria àqueles outros dois que ele, diferentemente dos mesmos, vê que estão com os discos brancos nas costas? O que eles fariam, ou melhor, o que eles fariam e pensariam, caso ele realmente estivesse correto em sua lógica imediatista e, de fato, estivesse ele mesmo com o disco preto?

Entretanto, abro um parênteses para dizer que considero importantíssimo, visto que deve ter estar finda a anterior, que mais uma música relacionada ao tempo esteja disponível aos sentidos dos leitores e das leitoras aqui deste artigo.

Moções Suspensas

E esta transição da primeira suposição de A até à chegada de sua conclusão final, começaria a partir daquilo que Lacan vai postular como uma Moção Suspensa. Uma espécie de verificação das possibilidades hipotéticas não partindo delas em si mesmas, mas dos fatos que fariam parte de sua ambiguidade. Estas seriam guiadas por aquele pensamento que não dependeria exclusivamente da experiência externa dos sujeitos, de uma forma pura da lógica que conhecemos. Poderíamos vê-las como uma espécie de fuga do hábito de focar naquele formalismo como ótica principal para se enxergar as coisas e como forma oficial de se empregar a lógica sobre elas – a partir de sua mera ordem cronológica, objetiva (focada no externo, nos objetos), espacial e contínua. É como se transpuséssemos o emprego da lógica daquilo que imediatamente nos é possível visualizar, pensar, fazer e sentir para um outro momento do tempo, em uma outra situação do espaço, que apenas existem em forma de possibilidade. É como se encontrássemos uma maneira de subverter o emprego da lógica, exatamente para que, paradoxalmente, facilitemos a sua própria aplicação. Seu foco não estaria naquilo visível aos sujeitos, mas exatamente naquilo que só poderá ser entendido a partir do invisível. Ao invés daquele congelamento a partir das impossibilidades lógicas predeterminadas pela falta de um elemento crucial à sua resolução, busca-se combinações possíveis em três tempos de possibilidade. E por mais que este conceito vos possa parecer confuso, é esperado que vá ficando de mais fácil compreensão ao longo desta leitura.

Por exemplo, se considerarmos que a realidade à qual os prisioneiros foram inseridos ali fora previamente pensada, cuidadosamente elaborada para estimular respostas que seriam previsíveis àquelas condições, é possível obtermos algumas conclusões do que se esperava estimular e para quê. Por exemplo, o fato de que há três prisioneiros e apenas aquele que der a resposta correta primeiro ganhará sua liberdade, pode ser uma conjectura previamente imaginada pelo criador daquele desafio: justamente para que assim induzisse aos ex-condenados um sentimento específico àquele contexto. Qual? A pressa. E talvez houvesse um motivo para isso. O que não era esperado pelo criador seria a astúcia de nossos detentos fazer com que eles pensassem exatamente o que questionaremos a seguir: e se, em um momento de pressa, como neste exemplo, procurássemos descobrir qual influência, qual a função que esta pressa ali implicada teria sobre a nossa percepção das possibilidades lógicas?

A Função da Pressa na Lógica

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Uma resposta possível à tal pergunta, pela parte de Lacan, poderia ser a suposição de que o tempo do presente, o tempo em que estamos agora, e toda a realidade visível apenas a este, se tornem um foco urgente para o emprego de nossa lógica clássica perante aquela pressa que fomos induzidos a sentir. E talvez isso ocorra exatamente porque é este mesmo presente que está em jogo para garantir o futuro tão sonhado, onde haverá liberdade. Mas, ainda na mesma suposição de que é esperado que tenhamos pressa neste presente que nos foi imposto, ainda na mesma suposição de que esta pressa fará parte daquilo foi considerado essencial na elaboração do desafio que garantiria liberdade aos presos, é possível começar a imaginar se haveria nela uma função, como por exemplo: induzir um pensamento, um raciocínio lógico correto do ponto de vista clássico, mas errôneo por contas das variáveis essenciais que ainda não são visíveis à consciência. E talvez este fosse o pensamento que forçosamente apareceria naquele Instante do Olhar, naquelas imediatas conclusões que seriam tiradas a partir da lógica clássica pensamento cartesiano: Vejo dois brancos, logo sou preto. Mas o que não era esperado pelo criador do desafio era que seria entendido pelos próprios detentos, claramente subestimados, que precisariam ir além da lógica clássica, pois “As formas da lógica clássica nunca trazem nada que não possa ser visto de um só golpe” (LACAN, 1998) e sua liberdade talvez não tivesse um preço tão barato.

As moções suspensas poderiam ser aquelas suposições ultra hipotéticas, feitas exatamente para que fugíssemos desta armadilha da lógica puramente objetiva. Então, se é esperado que nós mesmos, no tempo, no espaço e na situação em que estamos inseridos atualmente, tenhamos um pensamento lógico específico que nos induziria a atos específicos, o que poderia o outro, em um tempo, em um espaço e em uma situação que ainda não nos são possíveis de identificar através dos órgãos do sentido em nosso presente (exatamente porque não existe no mundo objetivo, externo, mas apenas no subjetivo, interno – na nossa mente de sujeito), mas são, por exemplo, possibilidades de um futuro imaginado pela nossa capacidade de exercer o pensamento? Seu papel crucial está nos forçarem aplicar a lógica em situações aquém daquelas que estamos enxergando e vivendo no tempo atual.

É como se não seguíssemos aquilo que a pressa teve por função nos induzir a fazer e também como se não ignorássemos a aplicação da lógica exigida no presente, em diferentes instâncias temporais. E se nestas instâncias, onde realizaríamos pequenas paradas em tempos existentes apenas em possibilidade, para a aplicação da lógica em momentos diferentes daquele que nos é apresentado externamente. Desta forma, avaliaríamos a qualidade efetiva de nossas conclusões lógicas imediatas, que talvez precisariam de elementos adicionais que não existem na realidade apresentada. E estes seriam os próprios elementos faltantes à sua possibilidade de verificação. Este seria um processo que talvez faça com que seja possível aplicar a lógica em diferentes tempos de possibilidade. Lugares onde ela teria ou não mais validade do que naquele em que é exposta. Ou seja: talvez aquilo que posso compreender baseado no que o mundo me apresenta agora, não me sirva para uma conclusão de imediato, mas se eu puder visualizar tal fato, mesmo que apenas em possibilidade, em um Outro tempo hipotético. Esta modulação dos tempos de possíveis poderá permitir entender onde estaria, já que não vejo, aquela hipótese que me faria chegar à conclusão que o problema solicita.

Vos deixo aqui mais uma música:

Time Travel: O Passado que só é Presente no Futuro

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Para começar a facilitar o entendimento de algo tão denso e complexo, talvez haja uma melhor visualização se recorrêssemos à gramática para uma rápida leitura:

Bruce Fink, em sua famosa obra “O Sujeito Lacaniano” (1998), logo após comentar a influência que o Seminário 8 de Lacan teria sobre a interpretação da obra “O Banquete”, de Platão, lembra de um exemplo utilizado pelo psicanalista ao falar sobre esta lógica temporal, onde o sentido não poderia nos vir de imediato, mas somente após alguns processos que nos fariam pensar em Outro tempo. No tempo em si haveria de ter um lugar, nesta cronicidade, onde seria possível encontrar o sujeito. Este seria aquele que está sempre quase chegando, junto ao aparecimento da responsabilidade perante o próprio desejo. No exemplo de Lacan que Fink evidencia, este tempo poderia ser melhor entendido através do próprio tempo do verbo em que está inserido o sujeito, ou seja, do próprio tempo da ação subjetivada.

Na frase: “Deux Secondes plus tard, la bombe éclatait” (A Bomba explodiria dois segundos mais tarde) Lacan coloca o verbo “explodir” em seu pretérito. Ou seja, só poderíamos estar falando aqui de uma ação que já ocorreu. Entretanto, este passado só poderia acontecer no futuro. Como se sempre houvesse uma condição implícita, um impedimento para que aquele ato evidenciado no passado só pudesse ser uma possibilidade daquele futuro que só existe a partir de algo que ainda não está explícito (p. 87). É como se tivéssemos a obrigação de imaginar que a bomba não explodiu no período que podemos observar, mas poderia ter explodido dentro das possibilidades de um futuro alternativo. Qual possibilidade de futuro alternativo? Aquela em que a explosão não fora impedida por algo não mencionado ali, um detonador que falhou, por exemplo, conforme podemos apenas supor. Entretanto, tais suposições não poderiam ser feitas sem um deslocamento nos tempos de possibilidade que existem nesta situação. Na língua portuguesa, este tempo verbal apresentado é o futuro do pretérito, aquele inexistente passado que é presente no futuro de possibilidades. E por mais contraditório que seu nome seja, ele faz sentido quando analisamos a lógica empregada pelo nossos prisioneiros.

O exemplo foi utilizado para que entendamos a prevalência de um raciocínio lógico existente para cada um dos tempos de possibilidade diferentes de um mesmo fenômeno. Quando enxergamos, de maneira problematizada, um futuro que só existiria num passado diferente e ainda assim este passado do futuro não é o nosso presente, é menos angustiante que esta ginástica mental finalmente nos sirva de alguma coisa senão para a adoção desta famosa face a seguir:

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No caso de Lacan, aquilo que nos faz aplicar a lógica naqueles tempos de parada que as moções suspenas exigem quando finalmente conseguem identificar algumas instâncias do tempo presentes em nosso processo lógico, é chamado de Movimento Lógico. Ele consistirá na aplicação desta logica naqueles tempos em que a pressa nos faz ignorar que existem em possibilidade, para que nos haja preferência para aplicá-la apenas no presente que enxergamos. Mas, para que isso aconteça e nosso pensamento dê o salto para a liberdade de nosso corpo, é-nos necessário começar por algo bem mais simples.

A Exclusão Lógica e o Movimento Lógico – O Instante de Olhar

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Para haver de sua parte um movimento lógico que busca, na sua aplicação da lógica em tempos distintos, para a visualização de múltiplos momentos de evidência para a falha ou sucesso de suas conclusões, foi preciso que houvesse na mente de A, aquilo que Lacan chamou em seu texto de uma exclusão lógica. Algo simples, mas eximiamente necessário durante o emprego de um pensamento além daquele imediato e limitado à lógica comum. É como se, na linha de construção de sua própria conclusão, fosse necessário ao sujeito validar as diferentes suposições hipotéticas que lhe são possíveis, mas soma-se a isso aquilo que evidencia ou esconde suas reais possibilidades. Como quando, uma equação de duas incógnitas, busca-se um artifício para que uma se faça, ao menos, útil o suficiente para facilitar a revelação da outra. Mesmo que ela por si não tenha valor para produzir uma certeza para o ato de enunciar a resolução do problema.

Música:

Poderia ser que existisse ali, implícito nas ações do prisioneiro, algo tão óbvio que nos é praticamente ignorado: para que A começasse a indagar as possíveis aplicações da lógica temporal que o cercavam, era necessário tecer indagações sobre qual tempo de possibilidade ele aplicaria sua lógica com sucesso, pois era preciso que descartasse as situações onde não existiria algum valor de evidência para que a lógica empregada lhe produzisse uma conclusão útil.

Por mais que estivesse implícito nas informações iniciais, e por mais que isso só pudesse ocorrer instâncias temporais imaginadas, distintas àquelas apresentados ao imediato; por mais que já se soubesse daquilo num só golpe, num só Instante de Olhar, a exclusão lógica foi a base de todo o movimento lógico que permitirá uma conclusão determinante para o ato em direção à liberdade: entender o que falta. Calma, vou explicar.

Num Instante de Olhar, Busca-se Aquilo que Falta para Chegar a Tempo Para Compreender

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Quando o prisioneiro A resolve questionar a validade de sua hipótese imediata, aquela em que ele seria preto, ele também pensa que B, em um futuro cenário hipotético, faria conjecturas para também aplicar sua lógica de maneira semelhante. Indo adiante, caso A realmente carregasse um disco preto em suas costas, B poderia pensar:

“Se eu vejo que A é preto e sei que há apenas dois discos pretos, apenas uma pessoa também poderá ter um disco preto além de A. Sei que C, definitivamente não é esta pessoa, pois ele eu mesmo vejo que é branco! Portanto, sabendo que há no total três discos brancos e dois discos pretos, se meu campo de visão me permite enxergar um disco preto e um branco nos outros dois prisioneiros, mas não posso enxergar a cor do meu próprio, minha lógica me ajuda a crer que o disco pendurado em minhas costas poderá ser tanto preto como branco. Mas o que acontecerá se estiver comigo o disco preto que falta? Bem, suponho que neste caso C estaria vendo dois discos pretos. Portanto, não sendo ele incapaz de exercer seu raciocínio com maestria, aplicará uma lógica muito simple para suas conclusões: se ele vê dois discos pretos em seu campo visual, não sabe a cor do disco que carrega, mas sabe que o total de discos pretos é exatamente a quantidade que vê, a própria lógica mostrará para C que o disco em suas costas apenas poderá ser branco”.

Ou seja, se há dois discos pretos em meu campo de visão, e sei que existem três no total, aquele que eu não vejo, e que está em mim mesmo apenas poderá ser branco.

E aqui temos um primeiro momento de evidência para ser validado:

“Estando diante de dois pretos, sabe-se que é branco”.

E esta seria a primeira hipótese daquele que vê dois pretos, caso A fosse realmente preto. Mas este pensamento é rapidamente descartado, pois perde seu valor instantâneo de evidência e é excluído das possibilidades de opções viáveis e que poderiam, num futuro do pretérito, serem tomadas como a verdade que leva ao ato.

Em mais um empréstimo dos termos da linguística, Lacan vai nos dizer que este simples processo se assemelha à preparação de uma frase. Pois se a exclusão lógica nos servirá para chegar ao próximo passo, isso só poderá ocorrer da mesma forma como uma prótase serve uma apódose na estrutura sintática que envolve uma oração.

Ou seja, quando pensamos num futuro de possibilidades hipotéticas, em uma instância do tempo que seria ignorada pela lógica clássica, poderemos fazer com que, No Instante do Olhar o dado da prótase “diante de dois pretos” seja conduzido ao dado da apódose “é-se branco” (LACAN, 1998). Daqui poderá se fazer a seguinte equação lógica: DOIS PRETOS = UM BRANCO.

E é esta exclusão lógica das incógnitas explícitas, para a apresentação daquelas que até agora a lógica clássica fez com que o sujeito ignorasse, mas que se fazem essenciais ao processo lógico que permitirá uma transição do Instante do Olhar, que tomaria o sujeito por seu imediatismo, para um segundo momento de evidência, chamado Momento de Compreender.

Se uma Parte me Falta, Parto Dela para Produzir sua Existência

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Portanto, é somente a partir da exclusão lógica que se poderá buscar a verdadeira incógnita daquela situação onde a lógica se faz necessária. E se poderá fazer isso agora pois ela FINALMENTE DEIXOU DE SER IGNORADA PELO SUJEITO.

E talvez algo tenha sido ignorado por quem lê este artigo. Exatamente. A música.

Como em uma equação matemática, quando no tempo subjetivo, chamado de Instante do Olhar, o sujeito realizar a exclusão lógica que o permitirá descartar uma incógnita que ainda velava parte de seu raciocínio lógico final, passará finalmente a raciocinar em direção às hipóteses autênticas, onde poderá visualizar a verdadeira incógnita do problema – aquela que era ignorada durante o uso da lógica comum por sua parte. Agora que o sujeito deixa de ser aquele guiado pela imediaticidade do Instante de Olhar, ele finalmente poderá ter algum Tempo para Compreender a real dinâmica em que está inserido, já que, se o valor instantâneo de sua lógica naquele momento temporal é o que o permite continuar questionando, é porque este valor há de ser, necessariamente aquele que o permitirá ir mais além: ZERO .

O Sabido Não Saber vs O Não Sabido Saber

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À descoberta de que alguém precisaria enxergar dois discos pretos para concluir ser ele mesmo o portador de um disco branco deveria ser algo implícito no contexto daquele que supõe-se portador do preto apenas por ver dois brancos. Entretanto, esta lógica só se fez sabida para aquele sujeito, na não ocasião de sua presunção lógica imediata se tornar a única a ser considerada por ele.

Exemplo de Questão do Enem que exige o emprego de uma lógica semelhante.

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Resposta: ( C) 50 ——> Se tira 50 homens, a sala ira ter 49 homens e 1 mulher no total 50 pessoas se fizer a regra de três simples 100% x50 —– 49=98%) Ao primeiro impacto, muitas pessoas se sentem tentadas a responder 1, 2 ou N.d.a por conta dos desafios aqui empregados pelo mero uso da lógica objetiva.

Vejamos bem: não seria esta intuição tão fácil de se fazer com os dados que a aparência da situação, em que se encontrava o sujeito, continuassem produzindo nele apenas pensamentos lógicos restritos àquilo que lhe forneceram para observar. Mas ao contrário, ela passou a ocorrer por derivar da exclusão desta mesma conclusão que só poderia ser tirada a partir daquela primeira exposição. O sujeito decide ignorar o próprio conselho imediato que a primeira impressão lhe dá sobre o fenômeno, e é só a partir daí que começa a refletir sobre sua necessidade de pensamento: sendo agora melhor aplicar a lógica como se estivesse em um tempo a partir das relações que estabelece com os outros.

Para exemplificar: ocorrerá exatamente como é retratado no pensamento do Prisioneiro B:

“Um momento: o Prisioneiro C estaria imediatamente correndo para informar a conclusão que chegou de sua própria cor, caso eu também fosse da cor de A, caso eu também fosse preto. Logo, se C está em inércia, eu não poderia ser preto!”

E se neste tempo todo que o Prisioneiro B ficara imaginando estas possibilidades, entende-se que ele também não saiu correndo, exatamente porque não estava a enxergar dois discos pretos. A partir daí, O Prisioneiro C também poderá concluir que é branco, também por conta do não movimento do Prisioneiro B.

Lacan vai postular que, existirá um objetivo e um término do tempo disponível para que os dois brancos elaborem suas conclusões lógicas que definirão suas próximas ações subjetivas. Mas mais do que isso: haverá nestas ações subjetivas as conclusões que seu próprio semelhante e observador poderá extrair delas irá determinar a conduta seguinte – e vice-versa. Portanto, se sua ação for a própria inércia mútua retratada pelos dois que são brancos, no problema dos prisioneiros em questão, a ação própria do sujeito denunciará àquele outro que a observa algo não dito em explícito. Por exemplo: que não foram avistados dois discos pretos em lugar algum se nenhum dos dois se movimentou. Como assim? Simples. Esta etapa de verificação daquela possibilidade imaginada por A, de ser ele mesmo preto por ver dois brancos, faz com que os prisioneiros B e C concluam-se portadores do disco branco exatamente pela inércia que causaram um no Outro:

“Se eu fosse preto, ele já teria saído sem hesitar; se ele hesitou, sou branco. Não haveria como hesitar aquele que vê dois discos pretos à sua frente, uma vez que este possuirá todas as suas possibilidades disponíveis em seu presente imediato de saber, pela lógica simples, que é ele mesmo o único portador de um disco branco.

Para Lacan, deveria haver algum limite para este Tempo para Compreender que os sujeitos usufruem na utilização de uma lógica temporal. O psicanalista tenta explicar a tênue linha temporal de delimitaria isso, ou não:

“O Tempo de Compreender” pode reduzir-se ao instante do olhar, mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender”. (LACAN, 1998. p. 205)

E é neste momento que se perde um pouco da objetividade deste tempo em relação à sua duração, mas seu sentido se mantém vivo: ele produz sujeitos que dependem de ações recíprocas para que se movimentem, para que possam evoluir suas conclusões. Em Outras palavras: sujeitos que apenas desenvolvem seu crescimento a partir de um Outro em que ele causa o mesmo que é sentido. Sujeitos que se libertam de convicções rasas quando entendem que é preciso empatia para que haja tempo para compreender.

Neste caso a inércia do outro se torna a maior informante do disco que ambos carregam:

“Se eu fosse preto, os dois brancos que estou vendo não tardariam a se reconhecer como sendo brancos”.

Afinal, para eles, enxergar um preto e um branco poderia ser fonte de dúvida a respeito da própria cor invisível que ainda é a si”. As ações daquele que ele vê do outro branco determinariam sua percepção: “Se ele correr, minha conclusão deverá ser: sou preto”. Pois a única justificativa esperada é que tenha corrido por estar vendo exatamente os dois únicos discos pretos, sobrando a si o disco branco”.

Todo este movimento de deslocar a própria lógica além do que se vê objetivamente, todo este movimento de deslocar a lógica para outras Instâncias do Tempo é o que permitirá o sujeito chegar ao momento de concluir o seguinte: SOU BRANCO, DEVO CORRER E REVELAR A TEMPO PARA FINALMENTE SABER DE VERDADE.

O Momento de Concluir o Tempo para Compreender: A Asserção da Certeza Subjetiva para Validar a Certeza Objetiva.

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Fiquem tranquilos, uma música que faz referência homônima a este título não vos irá faltar.

Finalmente o prisioneiro conclui que: se os outros dois hesitaram em declarar a própria cor, ele só poderia ser preto. Se B não corre porque não vê C ser preto ao lado de A. E se C não corre por não ver B ser preto ao lado de A. A não pode ser preto. Se A não é preto enquanto vê dois brancos, logo todos são brancos. A deverá se apressar para declarar que é branco antes que os outros brancos o façam pela mesma lógica.

Esta conclusão só foi possível a partir de um lógica diferente da convencional. Entendamos que, objetivamente, apenas era possível enxergar dois brancos. Aplicando a mesma lógica objetiva naquele tempo e espaços, nada se concluiria senão aquilo já visto. Foi preciso do auxílio das moções suspensas até que se chegasse a uma lógica semelhante ao Tempo do Sujeito para Lacan, uma lógica de um tempo que está quase chegando por conta de algo que pode acontecer, algo como um futuro tão certo quanto um suposto passado dependente dele, conforme explicado anteriormente.

Entenderemos aqui que, assim obtida esta certeza, através de uma lógica que atravessa os limites que o sujeito estabelecia apenas por observar os objetos à sua frente, o sujeito agora é dono de uma lógica que apenas a ele pertence. E quando falamos desta lógica subjetiva, falamos de uma lógica que não mais depende do mundo dos objetos apenas por uma condição: que aconteça o ATO.

“Esse, portanto, é o momento de concluir que ele é branco; de fato, se ele se deixar
preceder nessa conclusão por seus semelhantes, não poderá mais reconhecer que não é preto. Passado o tempo para compreender o momento de concluir, é o
momento de concluir o tempo para compreender

(LACAN, 1945/1998, p. 206. grifo meu.)

O que Lacan quer dizer aqui é simples e pode até ser trazido ao senso comum: “Se você basear seus atos EXCLUSIVAMENTE às percepções externas, ou seja, dos outros, você nunca sairá do lugar”. É quase como a clássica frase: “Se preocupe mais com o que pensa de si mesmo ao invés de se preocupar com o que os outros pensam de você“. E eu explico:

Se o Sujeito A, após assumir que tem certeza de que é branco, decidisse não agir em prol daquela certeza sem hesitar, ou, pior ainda, se tivesse aguardado um segundo a mais: os outros dois brancos se movimentariam a fazer o mesmo. Pois lembram-se de sua moção suspensa? “Eles estariam correndo juntos se eu fosse preto”. Portanto, se A demorasse mais para agir, ou interrompesse sua ação apenas porque os outros também passaram a agir, teria, para sempre, a certeza errônea de ser preto. E aqui a lógica subjetiva perderia para a lógica objetiva. Exatamente porque os outros dois estariam correndo juntos. E não por enxergarem que A é preto, e sim porque todos chegaram ao mesmo tempo ao diretor – exatamente por todos terem utilizado a mesma lógica de A.

E vocês podem perguntar, objetivando: mas A não tinha certeza plena de ser branco. Ele não havia como provar isso de forma outra senão a partir de meras deduções. E aqui chegamos ao que Lacan chamou de Asserção da Certeza. E é somente através dela que se tem coragem para agir. E é somente agindo que se terá certeza plena.

A Ação do Ato na Subjetividade

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Lacan nos mostrou, neste exemplo, o seguinte: o sujeito não terá direito à própria lógica enquanto estiver preso às ações dos outros. Mais ainda: não será possível que alguém tenha certeza de fato se não a afirmar através do ato.

Se não fosse a tomada de decisão apenas da certeza enunciada, da asserção da certeza, a verdade não poderia ter sido descoberta. A verdade do sujeito mora no ato, no ato subjetivo que o garante transcender na aplicação de sua lógica sobre o mundo. E é por isso que às vezes o tempo cronológico não basta.

Uma análise ou até uma única sessão de análise, se bem pautadas pelo tempo lógico, terão:
O Instante do Olhar – O Tempo para Compreender – O Momento de Concluir

Exatamente para que o sujeito tire proveito do movimento que lhe esperado para fazer em sua vida. Que o sujeito saia do futuro do fato e viva a ação do ato.

O saber, o efeito, o dano ou o sucesso de uma sessão ou de uma análise, em minha opinião, não estão em lugar nenhum a não ser no ato cometido pelo sujeito que era acometido pelo ato.

Por Caio Cesar Rodrigues

REFERÊNCIAS

Jacques Lacan em Conferência de imprensa realizada em 29 de
outubro de 1974 no Centre Culturel Français, Roma. Lettres de l’École Freudienne de Paris.
FINK, Bruce, 1956 –, O sujeito lacaniano; entre a linguagem e o gozo/ Bruce Fink; tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara; consultoria: Mirian Aparecida Nogueira Lima. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN, Jacques, 1901-1981. Escritos/ Jacques Lacan; tradução Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

***Todas as imagens contidas neste artigo foram obtidas de forma livre na internet. Caso você seja proprietário de uma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

Por Que Não Devemos Falar sobre Suicídio?

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O artigo de hoje começa com o Símbolo da Campanha Setembro Amarelo, uma vez que hoje, 10 de setembro é O Dia Internacional de Prevenção ao Suicídio. E nós como profissionais da área, nos sentimos no dever de falar sobre assunto. E talvez alguns estranhem o título deste artigo e possam até considerá-lo sensacionalista. Mas ele de fato não é, pois é a partir dele que tentaremos encontrar sentido em três argumentos frequentemente presentes quando falamos sobre suicídio. O artigo terá como objetivo desmistificar o que for possível, tentando entender se há veracidade naquilo proposto pelo senso comum que, infelizmente, intensifica o tabu que é falar sobre o assunto.

Para quem não conhece, Setembro Amarelo trata-se de uma campanha de prevenção ao Suicídio. Apesar de ser incentivada pelos Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), sua iniciativa é do CVV – Centro de Valorização da Vida, o canal de comunicação que funciona 24 horas por dia por telefone, chat, pessoalmente ou email. Para entrar em contato, basta discar 188 de qualquer telefone e localidade do Brasil ou acessa o site https://www.cvv.org.br. Lá pode-se falar sobre o assunto sem julgamentos, censuras ou clichês populares. Voluntários dedicados e treinados se preparam para dar todo o acolhimento necessário para que caso você realmente considere esta hipótese, tenha apenas a oportunidade de pensar e falar mais uma vez sobre o assunto, ou quantas quiser. Com todo o respeito e dignidade.

A Sociedade dos Psicólogos também conta com uma equipe pronta a oferecer atendimento psicológico para quem necessitar. Entre em contato através deste link.

A Morte

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Em seu excelente artigo (clique aqui para visualizar) publicado neste mesmo blog, o psicólogo Igor Banin fala sobre os assuntos e mudanças que cercam a morte.

Em seu texto, o autor descreve muito bem os estágios do Luto propostos por Elizabeth Kübler-Ross. Mas ele fala sobre muito mais do que isso. Apenas isolando este assunto, também gravei um vídeo ao Canal da Sociedade dos Psicólogos no youtube. Confira o vídeo a seguir:

E por que falamos sobre a morte e sobre o luto neste texto? Exatamente porque queremos evitá-los. E um bom começo é falar sobre o assunto.

Complementarei dizendo: naquilo que é inenarrável, naquele assunto em que as palavras se esvanecem; sobre aquele verbo que frequentemente precisamos trocar pelo outro(falecer), que parece ser menos impactante, há um abismo de silêncio. E se o silêncio que acompanha o verbo Morrer é ensurdecedor, aquele que guia o suicídio, o mais temido dos nossos substantivos, parece estar nos deixando cegos à importância que é falar sobre o assunto.

O que “Atrai” é Exatamente Não Falar

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Em 2016 a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma cartilha (acesse, em inglês aqui) sobre como a comunidade deveria agir para prevenir o suicídio. O material é de imensa qualidade que merece um texto exclusivo sobre o assunto. Entretanto, o que mais chama a atenção são alguns dados contidos ali, retirados de um Relatório Divulgado pela mesma em 2014.

Segundo a OMS, por volta de 804.000 pessoas cometem suicídio todos os anos no mundo. É como se, para cada 100.000 habitantes, 11 se matassem. Os dados ficam mais assustadores ainda quando observados em uma menor unidade de tempo: algo entre 2 e 3 mil pessoas tiram a própria vida todos os dias; em outras palavras, uma pessoa tira a própria vida a cada quarenta segundos. Ainda segundo a agência, o suicídio se tornou a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos de idade (OMS, 2014). O ato se torna a causa responsável por 50% das mortes violentas entre homens e 71% entre as mulheres. Ainda assim, segundo o órgão, homens cometem mais suicídio do que mulheres e, nos países ricos, pode-se observar que o número de mortes masculinas é até três vezes maior. Mas mais ainda: observa-se que em 75% dos casos no mundo, as pessoas tiram a própria vida em países de baixa ou média renda.

A agência insiste em enfatizar que os números podem ser ainda maiores, pois ainda há casos em que não se consegue identificar se a causa da morte foi suicídio ou não, por conta do estigma em falar sobre o assunto, da criminalização em alguns países e até por conta de fracos sistemas de vigilância.

Posso arriscar dizer que uma das frases que marcam o estigma sobre o assunto no Brasil é uma que já ouvi algumas vezes pessoalmente, neste e em outros assuntos: “Não fique falando sobre isso que você atrai”. Entretanto, se isolarmos os casos de suicídio no Brasil aos jovens entre 15 e 29 anos, poderemos observar que de 1980 até 2014 saltamos de 4,1 casos para cada 100 mil habitantes para 5,6 casos. Que os leitores de exatas me corrijam se minha conta estiver errada: mas é um aumento de 27% em 34 anos. Entretanto, apenas entre 2002 e 2014 o aumento foi de praticamente 10%, passando de 5,1 para 5,6 casos. Só podemos dizer que as estatísticas vão novamente contra o senso comum: parece que atraímos mais casos de suicídio quando não falamos sobre o assunto. É como se fosse uma crescente e invisível causa de morte.

“Isso é Falta de Religião”

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Talvez uma das formas de comunidades religiosas evitarem o assunto foi torná-lo passível da maior punição oferecida pelo cristianismo: não herdar o paraíso prometido aos fiéis. Apesar de, segundo a conclusão de um estudo que pode ser encontrado aqui, haver um menor índice de tentativas de suicídio em pacientes depressivos quando há alguma filiação religiosa, o Brasil é um país com uma população composta por cerca de 90% de pessoas praticantes de alguma religião, sendo 86,6% de cristãos. Apenas 8% da população se declara não possuir alguma religião, segundo o IBGE (2010). Mas ainda assim, segundo o criador do Mapa da Violência, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, o suicídio cresceu muito no conjunto da população brasileira. Se nos jovens entre 15 e 29 anos o aumento foi de 27%, no geral a taxa aumentou 60% desde 1980.

Se o suicídio fosse de fato falta de religião, como ele poderia aumentar tanto em um país onde a população religiosa é representada em mais de 90% do total?
Mais ainda: se este argumento fosse verdadeiro, como poderíamos encontrar notícias com o suicídio de pastores e líderes religiosos como esta daqui?

De acordo com o Schaeffer Institute (texto original aqui), a própria profissão de ser um líder religioso, acabou se tornando fonte de altíssimos níveis de estresse e depressão. E a própria OMS já relatava, em seu relatório de 2014 que estas fazem parte do rol de psicopatologias que compõem alguns dos principais fatores que motivam o suicídio. E é importante lembrar que, além das psicopatologias, fatores a dependência química, bullying, traumas vividos em guerras, violência física e psicológica, abuso sexual, alcoolismo e problemas socioeconômicos também estão associados aos casos.

Portanto, é bem improvável que suicídio seja apenas falta de religião. E ainda não descobrimos um motivo plausível para que não falemos sobre o assunto. Vamos ao próximo.

“São Pessoas Egoístas, que Não Pensam na Família”

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Infelizmente, o próprio estigma ao assunto estimula esta última falácia. Eu, pessoalmente, considero este o mais repugnante argumento do senso comum. E vou explicar o porquê.

Existe uma informação muito importante sobre a depressão. Ela é mais difundida dentro da comunidade de Saúde Mental, mas é importante que seja levada para o lado externo também. E a informação é o seguinte: é bem possível que um paciente depressivo tente suicídio exatamente durante uma melhora de seu quadro. E a razão para isso pode ser exatamente o nível de incapacitação que a doença causa, o nível de sofrimento físico, psíquico e social que é vivenciado pelo paciente depressivo. Os suicídios geralmente ocorrem por conta do medo que alguns pacientes têm de voltar àquele estado vivido durante o último episódio. Há estudos que indicam alterações neurológicas severas durante o episódio depressivo em áreas ligadas à mobilidade, humor e motivação. E a depressão é sim, a maior causa de casos de suicídio.

E por que isso tudo foi dito? Porque este dito popular aqui em cima citado é irresponsável. Ele dá a entender que apenas pensar no bem-estar familiar é algo suficiente contra fortíssimas alterações no funcionamento psíquico e biológico de alguém, logrando uma parcela de estigma e culpa que pode até piorar alguns quadros onde já a própria ideação suicida. O sujeito que sofre, na minha opinião, deve pensar apenas no sujeito que é, até que melhore. E não deve, nunca, ser julgado por isso.

A família deve sempre dar apoio à pessoa que pensa em suicídio e não o contrário. Infelizmente a realidade não condiz com a nossa expectativa, por isso, caso você que lê este post já pensou e/ou está pensando sobre o assunto, recomendamos imediatamente discar o número 188 de qualquer telefone do Brasil.

Mais do que isso, procure um profissional. Você poderá procurar um dos profissionais da Sociedade dos Psicólogos ou não. Estamos de prontidão a inciar atendimento ou dar as melhores indicações se sentirmos necessário. Entretanto, nosso incentivo é que se procure ajuda.

BUSQUE AJUDA: FALE.

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Em meu outro texto, enumero os motivos que devem motivar a procura de um psicólogo. Mas aqui, deixo um recado com teor mais pessoal a quem se veja em uma situação do tipo: fale. Fale sobre o assunto. Fale com um profissional. Pois acabamos de mostrar neste texto que não há nenhum motivo válido para não falar sobre. Muito pelo contrário.

Nós, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da saúde mental, não sabemos ainda pelo o que você está passando, mas queremos saber. Nós queremos entender. Mas algo nos já de conhecimento: sua história é única e sua dor é legítima. Você tem o direito de se sentir assim e não precisa haver vergonha ou medo de falar sobre o assunto. Não estamos aqui para determinar se seus pensamentos ou vontades são certos ou errados, mas talvez haja a possibilidade de ajudarmos você organizá-los de uma maneira mais leve, menos sofrida e que permita outras saídas que, sabemos, são difíceis de serem vistas agora por conta própria.

Você aguentou tudo isso até agora, sabemos. E pedimos que aguente mais um pouco, mas agora com a ajuda profissional de quem estará prontamente disposto a te escutar, acolher e incentivar um caminho que possa, ao mesmo tempo, ser menos doloroso e preservar a sua vida. E sim, sua vida é muito importante. Se valeu a pena no passado, pode valer de novo. Busque ajuda, estamos com você, torcemos pela sua vitória em vida. Conte conosco.

É provável que você consiga diminuir este sofrimento de outra forma. É possível que as coisas ainda melhorem. Acredite, busque ajuda.

Por Caio Cesar Rodrigues.

Contatos importantes

Centro de Valorização da Vida
Telefone: 188
Site: https://www.cvv.org.br/
E-mail
Para verificar endereços, clique aqui e veja quais os pontos mais próximos da sua região.

Sociedade dos Psicólogos
WhatsApp: (11) 9 9546-9073
Envie seu e-mail para: sociedadedospsicologos@gmail.com
Ou preencha o formulário neste link.

Referências:

Preventing suicide: A community engagement toolkit – World Health Organization (2014)
http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/252071/WHO-MSD-MER-16.6-eng.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Crescimento constante: taxa de suicídio entre jovens sobe 10% desde 2002 – BBC Brasil a partir do Mapa da Violência de 2017
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39672513

Publicação da Organização das Nações Unidas no Dia Internacional de Combate ao Suicídio (2018)
https://nacoesunidas.org/unicef-metade-dos-adolescentes-no-mundo-sao-vitimas-de-violencia-na-escola/

American Journal of Psychiatry – Religious Affiliation and Suicide Attempt (Kanita Dervic, M.D., Maria A. Oquendo, M.D., Michael F. Grunebaum, M.D., Steve Ellis, Ph.D., Ainsley K. Burke, Ph.D., and J. John Mann, M.D) 2004.
https://ajp.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/appi.ajp.161.12.2303

O Complexo de Édipo e As Fases de Freud: Oral, Anal, Fálica e Genital.

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A imagem acima carrega a foto e a fala de Norman Bates, personagem principal do filme Psicose, de Alfred Hitchcock. E agora também da série Bates Motel. No filme, o personagem diz que “o melhor amigo de um menino é sua mãe”. A fala é decerto Freudiana. E ela é se, com a permissão de um spoiler, já soubermos que ali existia uma relação praticamente simbiótica e, portanto, sem a interdição necessária na relação mãe-e-filho. Tal interdição, conforme explicaremos adiante, se faz necessária para garantir que ambos possam, à sua maneira, procurar a satisfação individual de maneira independente, sem que prosseguisse a ilusão de um ser parte do Outro; sem que adiante se mantivesse a ideia de corpos que não se diferenciam; sem que dois seres continuassem vivendo com o prazer infinito de serem um só em extensão. Certamente, não foi o que ocorreu com Norman Bates. Este que é o personagem mais famoso da história do suspense cinematográfico e, sem dúvidas, aquele que marcou eternamente a carreira do ator Anthony Perkins e, mais recentemente, de Freddie Highmore também.

Mas neste post iremos nos atrelar mais ao primeiro Bates e, adiante, tentaremos o exercício de tentar localizar nas fases do desenvolvimento psicossexual estabelecidas por Freud, um Lugar que traga mais traços em comum com este ícone da Cultura PoP.

Norman Bates

Norman parecia confundir tanto a imagem de si com a de sua mãe a ponto de no ápice de sua euforia, numa cena emblemática, ele finalmente unir as vestes e o cabelo de sua progenitora ao corpo. É como se agora fossem apenas um; como se suas personalidades e suas forças estivessem fundidas; como se agora nada impedisse o seu gozo de cometer o crime — que parece acontecer quase como se não fosse uma escolha própria. Como se a mulher esfaqueada por Norman fosse mais vítima de uma mãe ciumenta do que de um psicopata assassino. E aí está um grande ponto da série e do filme: talvez Norman Bates não fosse um psicopata.

E daí o nome do filme explica o restante: Norman Bates poderia ser um psicótico.

A Psicose

E Freud (1924) já nos dizia que a psicose ocorre quando o ego se mantém na primitividade, quando seus recursos de lidar com as exigências da realidade são incapazes de uma elaboração mais madura, voltada para o mundo externo, de modo que permitam um mísero contato com a realidade em situações de estresse psíquico. Como se ele vivesse apenas em uma plena satisfação, parecida com aquela união mãe-bebê durante um momento de amamentação.

E curiosamente, neste ato de ruptura com a realidade externa, tomando como exemplo em particular a persecutoriedade e/ou a grandeza egocentricamente vividas nos delírios psicóticos, seria possível perceber em um olhar mais atento algo semelhante ao que ocorre na Fase Oral proposta por Freud. E se uma frase poderia fazer analogia ao pensamento que rege tal estrutura, talvez fosse parecida com esta a seguir:

“Não cederei às tuas pífias exigências, Dona Realidade! Provo-te, por meu corpo, por minha percepção e por meu discurso, que me aguarda em algum lugar o direito à plena satisfação. Aquilo que eu detinha ao ventre não poderá ser tirado de mim e, caso seja, com algum tempo, hei de reivindicá-lo como fazia no berço. E sabes bem que dependo apenas da voz para que minhas necessidades sejam satisfeitas, bastou lá atrás. Basto-me. E, se a realidade insiste em me contradizer, algo está errado; algo só pode estar errado. Mas não comigo, com o externo. Se não volto ao gozo é por complô, é por ser perseguido em função de minha grandeza. Pois eu, sendo quem sou jamais deveria ter o dever de sofrer tuas exigências; jamais poderia disfarçar meu descontentamento, jamais poderia vender meu esforço por migalhas de satisfação! Não aceito. Nego, descarto! Não pode existir um mundo assim e se pode, ficarei com o meu próprio”.

Este desejo de ter suas necessidades atendidas por um mundo que ainda parece ser parte de si é muito parecido com o do recém-nascido. Lembra muito de sua relação com a mãe. Há então de se indagar: o quão prejudiciais podem ser os destinos oriundos de algumas relações estabelecidas de maneira indevida entre mãe e filho? É por isso que algumas vezes é um aprendizado, na prática clínica, conhecer a mãe de um paciente que sofra de alguma psicose.

O caso de Norman Bates é um exemplo dos múltiplos destinos indesejados que podem decorrer, dentro do que se entende na psicanálise, de uma relação simbiótica entre mãe e filho — que persiste sem algum tipo de interdição. Um destino possível de quando não há uma boa elaboração do sujeito no que diz respeito sobre sua passagem por alguma (s) das Fases do Desenvolvimento Psicossexual da criança, postuladas por Freud (1905/1976a).

O Sujeito

O caso do famoso filme de Hitchcock é aquele que, em termos psicanalíticos, ainda não é sequer o caso de um $ujeito na Linguagem. Já que a inauguração subjetiva apenas se daria após o acontecimento de algo: Aquilo que Barra uma futura personalidade de qualquer confusão que ela pudesse fazer de seus impulsos imediatos com a realidade do mundo exterior. Pois para existir um sujeito, deve haver um desejo. E não iremos confundir aqui os impulsos com os desejos. Pois falamos de Outro tipo de desejo. Falamos daquele desejo que para existir deverá vir da falta. Aquele que não vê a falta em si poderia até confundir a própria realidade com a externa, talvez por sentir que não precisa sequer procurar a segunda. Bates nos deixa claro que suas confusões foram muitas — principalmente no que o tornaria diferente à imagem e aos desejos de sua mãe.

Talvez Norman tivesse ficado preso naquela fase em que o filho ainda se confunde com a mãe. Talvez tenha sido, de fato Imagem e semelhança — deificadamente. Talvez Norman fosse um significante que às vezes fora confundido com Norma, o mesmo do Nome Próprio de sua mãe. E, sendo este o caso, a Letra que fica sobrando poderia escrever muita coisa. Mas há um certo NÃO que é dito à realidade externa. Infelizmente, falamos da mesma que tornaria Um diferente da Outra.

As Fases do Desenvolvimento da Organização Sexual

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(Imagem Retirada do Site Buzzfeed)

Faça o Teste

Recentemente, o portal BuzzFeed publicou um teste – com meros fins de entretenimento, é preciso ressaltar – em que a pergunta principal é: Qual fase do desenvolvimento da infância você não superou segundo Freud? O teste pode ser acessado aqui. Selecionamos algumas imagens diretamente do site para exemplificar o teste em questão. Nele, o usuário seleciona algumas imagens, como por exemplo, esta a seguir:

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E após a seleção de um conjunto de itens, o resultado apareceria da seguinte maneira:

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Como o propósito dos testes do BuzzFeed é meramente recreativo, podemos respirar aliviados com os “diagnósticos”, mas é com o compromisso da disseminação do conhecimento, que a Sociedade dos Psicólogos produz este texto, explicando de maneira breve (ou quase) as Fases do Desenvolvimento Psicossexual de Freud. E o fazemos para que todos aqueles, que fizeram o teste ou não, possam entender melhor sobre esta contribuição tão presente dentro e fora do ambiente universitário, psicológico e psicanalítico.

IMPORTANTE

Antes de prosseguir com a leitura, é altamente recomendado que se revise e entenda o conceito de Pulsão, explicado no texto a seguir. Clique no link:

O que é Pulsão? Qual é a diferença entre Pulsão e Instinto?

As Fases de Freud

Estas primeiras fases do desenvolvimento, dentro do que é postulado pela teoria psicanalítica, têm um papel fundamental na estruturação do Eu. Cada passagem deixará seus traços, seus rastros e suas particularidades; no discurso, na linguagem e na relação de cada sujeito com os seus e Outros afetos no futuro.

Isso não quer dizer que os traços de caráter, mnêmicamente gravados ao longo da passagem dos indivíduos por tais fases, sejam imutáveis ou deterministas sobre quem ele é/será. Mas se desvencilhar de características tão intrínsecas, segundo Freud, não seria algo tão simples quanto se livrar de um hábito recentemente adquirido – o que já não é fácil. Aqui falamos dos caminhos que, durante certa evolução, a libido percorre o corpo e, de certa maneira, a mente de um ser em desenvolvimento. Ressalta-se todavia, que não falamos de processos conscientes; e, sem dúvidas, a libido e sexualidade não dizem respeito exclusivamente ao ato da relação sexual em si.

IMPORTANTE

Para um entendimento mais claro dos conceitos que aqui serão explicados, é altamente recomendado que se tenha aprendido o conceito de Pulsão. Se necessário. Para revê-lo clique aqui.

A Fase Oral – Idade Aproximada: 0-2 Anos

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Nesta fase, dos 0 aos 2 anos – e não falamos aqui de idades exatas, mas aproximadas – , a criança experimenta o mundo pela boca. E é importante fazermos aqui um exercício de empatia com o bebê:

Pois iremos então supor o seguinte, sua vida atual se resume da seguinte maneira:

  • Tu não conheces a fome e nem a vontade de comer, pois há em ti uma nutrição constante via cordão umbilical que impede este primeiro mecanismo – e como conhecer o segundo se o paladar sequer lhe é algo conhecido?
  • Felizmente, o útero é um ambiente quente, seguindo temperaturas próximas aos 36º; o líquido amniótico da placenta envolve o bebê em boa temperatura – mesmo nas formas mais amorfas àquela que conheceremos ao seu nascimento. Sendo assim: como poderia ele conhecer o frio?
  • Não se sabe o que é luz. Os olhos ainda não se abrem. Basta ao leitor lembrar do quão propensos somos a manter os olhos fechados em ambientes de baixa luminosidade (e o quanto não gostamos de um contato lúcido em nossos olhos, principalmente se este vier em seguida de um longo período no escuro). O bebê não sentiu ainda o incômodo da luz em sua retina; pois então: há de se preocupar com o quê?
  • Ali dentro ainda há outro benefício: não se sabe ainda, absolutamente, como é ser tocado; então é evidente que também não se sabe o que é dor física.

Não há fome, não há luz, não há sequer frio ou dor; estamos falando não haver uma gota sequer de desprazer nesta vida. Pura verdade. Mas só até o maior trauma; até a maior condenação à morte que começou na relação sexual dos pais, (como diria Lacan); só até o maior prazer na vida de muitos casais ser a primeira experiência de desprazer na vida de um ser: o próprio Nascimento.

Temos aqui um trauma inaugurado pelo desprazer do toque: algo puxa, contra a sua vontade, o bebê de seu berço esplêndido de gozo; segue-se um tapa. Uma palmada que provoca a dor e a eterna missão de mandar ar aos pulmões 24 horas por dia; em seguida, um movimento de seu corpo para lá e para cá. Vozes, agora em um volume muito maior, desconhecidas. Ainda por cima, para variar o desprazer, há algo que nunca se sentiu antes: fome, sede; a dor nos olhos causada pela luz inédita (lembram como é incômodo o acender de luzes após certo tempo no escuro?) que acompanha o frio de sentir o vento bater no molhado de seu corpo — que sensação horrivel! “O que raios será que é tudo isso que nem nomear eu posso?!” — Poderia pensar o bebê.

Ainda bem que em breve este bebê estará nos braços de sua mãe. Ali terá a primeira experiência de satisfação de sua vida; aquela que nunca mais será possível repetir com tamanha intensidade: a que acompanhará o calor dos braços da mãe, o afeto de sua voz sorridente e, finalmente, a satisfação da primeira sucção do mamar. Acabou a fome. Acabou o frio. Ouve-se ternura e afeto, sem sequer saber o que estes são. Eles vêm uma voz bem próxima. Nem o melhor dos cigarros, dos charutos cubanos; nem o melhor conhaque, vinho, whisky ou a melhor refeição que um Chef poderia preparar poderão resgatar por completo o que acaba de ser vivido. Aqui há um prazer que tentará ser repetido por toda uma vida. E certamente falamos de tentativas falhas, que atingem apenas um rastro de tudo aquilo. Mas é oficial: aqui inicia-se a Fase Oral do Desenvolvimento.

Freud vai nos dizer que nesta fase o prazer vive pela boca. Suas únicas experiências moram no que escuta, no que vê com seus parcos recursos visuais; no que é sentido na pele, no que é cheirado e, principalmente, no que é ingerido. Mas não há aqui, ainda, linguagem complexa. Não haveria aqui, ainda, algo que impeça seu prazer e desperte sua raiva. Pois, convenhamos, estamos falando de um bebê!

Aliás, ledo engano: há sim. Há algumas insatisfações. Há as ausências maternas súbitas. Há a fome que agora vai e volta. Há o incômodo de uma fralda suja, há cólicas e um conjunto de desprazeres que ainda não são entendidos, nomeados ou expulsos com facilidade. Mas tudo (ou quase tudo) tende a se cessar com a presença da mãe, que a princípio, a criança pode até confundir com uma extensão de si mesma – já que falamos de um ser que nunca sequer se viu (e se o fez num espelho, não se reconheceu), que ainda não teve tempo para compreender a realidade como nós; já que esta figura que até nomeia teu choro com leite, colo ou banho é o que lhe traz a paz para os desprazeres — e nisso existe linguagem. Portanto, aos primeiros balbucios e engatinhamentos busca-se o mundo todo pela boca. Busca-se prazer por esta via.

Regressão Sadia à Fase Oral

É possível que na vida adulta tenhamos alguma vontade de retornar a esta fase perante alguns desprazeres. Vai-se lá saber o quanto gostávamos dela? De toda forma, Freud nos ajuda a entender que há meios de fazer isso: fixamo-nos nos copos de cerveja, vinho e whisky perante alguma ansiedade; levamos um lápis, caneta ou dedo à boca em momentos de tensão; e como não esquecer do cigarro? E ainda, do preferido por Freud: o charuto! E por mais que às vezes, como os itens anteriores, um charuto pode ser apenas um charuto, noutras vezes ele pode ser, quando não um símbolo de Poder – quase que representando um certo órgão sexual – também poderia ser um prazeroso retorno à Fase em que tínhamos nossa demanda atendida com veemência, emergência: um retorno às primeiras satisfações.

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Imagem da Internet: O Primeiro Ministro Britânico durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill, fumando um de seus adorados charutos e fazendo seu famoso símbolo que, às vezes, era invertido num insulto disfarçado.

A Fase Anal – Idade Aproximada: 2-4 Anos

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Agora imaginemos: todo o amor e atenção que era reservado ao bebê na fase anterior passa a ter um preço. Qual preço? O de algumas regras sociais. Após experimentar o mundo pela boca e até, de certa forma ter uma ideia melhor da própria imagem — entender-se como diferente dos pais e já se reconhecer no espelho — a criança descobre algo novo. A partir de agora algo fora produzido diretamente por ela; a partir de agora ela passa a sentir um prazer sobre seu mais novo aprendizado: o controle de suas evacuações.

Agora escolhe quando e onde se deposita aquilo que se tornou a primeira produção autoral de um ser. E tem até um agravante: os cuidadores demonstram até mais amor se o cocô é feito no vaso, no penico. E mais: há grande insatisfação deles se, num gesto natural de conhecer a primeira obra propriamente humana, em sua primeira empreitada, em seu primeiro pertence valioso, a criança decidir brincar com suas fezes. Também há insatisfação dos cuidadores quando esta as deixa pela sala, pelo quarto e por outras áreas da casa como um presente, com orgulho! Como alguém que oferece aquilo feito unicamente por si em em prova de amor. Mas aqui que se aprende que o amor tem preço, que não existe amor saudável que seja incondicional. É preciso agora reprimir alguns impulsos que a deixam com vontade de brincar com as próprias fezes; e também reprimir os impulsos de evacuar à hora que bem entender. É preciso ter controle sobre os impulsos. Mais ainda sobre os esfíncteres. Não é atoa que pessoas excessivamente controladoras e/ou compulsivamente organizadas; com certas compulsões por limpeza ou altamente apegadas a objetos materiais e/ou dinheiro podem descobrir em suas análises certas fixações nesta fase do desenvolvimento.

Destino Socialmente Aceito

Mas, se precisarmos de exemplos, um artesão que trabalha com argila encontrou um meio tão eficiente de “brincar com suas fezes”, ou seja, de retornar aos prazeres da fase anal de uma maneira socialmente aceita, quanto um degustador de vinhos encontrou de retornar à fase oral. Para Freud, a Neurose Obsessiva pode ter uma de suas fontes conhecidas se a Fase Anal do Desenvolvimento de alguém for devidamente investigada.

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Cenas do Filme 500 Dias com Ela, onde a personagem de Zoey Deschanel diz que seu apelido na escola era “Garota Anal”, por ser muito limpa e organizada. Uma clara referência chistosa à Fase Anal Freudiana.

Fase Fálica e Complexo de Édipo – Idade Aproximada: 4-6 anos

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Após a criança começar a conhecer alguns limites de seu corpo e entender finalmente que sua dinâmica familiar é maior do que ela mesma, e ainda maior do que apenas respeitar algumas regrinhas, chegou a hora de uma relação triangular.

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(Imagem de um modelo familiar proposto por Freud no Século XX. Aqui mostramos apenas uma das possíveis configurações familiares, no caso a heterossexual. É importante que se observe a realização da Função Materna e da Função Paterna em moldes que se adequem à realidade familiar de cada criança)

Usaremos, para meros fins de ilustração, o mesmo modelo que Freud usou de exemplo para designar uma dinâmica familiar de sua época. Lembrando, é claro, deste não ser o único existente. Tomaremos como exemplo a relação Homem (Pai), para Função Paterna; Mulher (Mãe), para Função Materna e Filho (sexo e gênero masculinos) para representar a criança.

A relação mãe-bebe era, conforme descrito na fase oral, praticamente simbiótica. Onde não há diferenciação de um pelo outro até que o bebê consiga finalmente reconhecer e controlar o próprio corpo. Mas ele só pode fazê-lo ao entender que este seu corpo é um outro separado de sua mãe. E isso pode ser observado nos momentos em que a criança começa a se reconhecer no espelho.

Entendido isso e mais algumas pequenas regrinhas sociais, aparece outro empecilho: um terceiro naquela relação que antes era exclusiva.

O Intruso

Com a redução das demandas imediatas de um bebê, a criança vai naturalmente ficando menos dependente do cuidado materno. Não há mais tanta necessidade de colo, de trocar as fraldas, de mamar no peito e de ter toda aquela atenção exclusiva. A própria chupeta aqui pode ser até algo preocupante ao desenvolvimento saudável.

Todavia, algo não poderá passar despercebido ao nosso sujeito em desenvolvimento: a mãe, além de se “afastar” dele volta sua atenção para uma outra pessoa – aquela que designará a Função Paterna. E é claro que esta ausência será sentida e manifestada pela criança – que irá reivindicar sua saudosa exclusividade! Como ousaram tirar isso dela?! — poderá sentir—. Mas há formas e formas para isso. Talvez este sujeito em desenvolvimento tentará dormir na cama dos pais; poderá até forçar sua presença em ambientes e situações inadequadas. Poderá falar mais alto, se debater, chorar até fazer outras coisas comumente apelidadas de “birra”.

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Daqui poderá surgir um pensamento comum até aos adultos mais ciumentos: “O ele tem que eu não tenho?”; “O que me faz ser preterido perante este ‘novo’ preferido?”. A criança percebe-se como alguém insuficiente a suprir todas as demandas de sua mãe. E que bom que isso acontece. Caso contrário, que peso, que fardo teria de carregar!

— Se não sou suficiente para a satisfação de um Outro, será que algo me falta? — E se esta dúvida surge justamente na fase em que marca-se a diferenciação sexual, na fase em que a sexualidade – a libido – está concentrada nos genitais – descobre-se aqui outra fonte de alívio de tensão e obtenção de prazer. Mas também se questiona a respeito dos genitais e hábitos próprios e alheios. Talvez como se estes até pudessem ser uma alusão às diferenças papéis sociais desempenhados por cada gênero.

Quero dizer: se na época de Freud (Século XIX e XX) o pai, que trabalhava fora e comandava a casa com voz ativa, era o detentor primordial do amor da mãe, será que um terno, ser mais forte e mais alto; falar mais grosso, usar chapéu e sapato ou até ter um pênis maior e mais desenvolvido poderia, em tom de comparação, ser algo que faria a criança recuperar a posição que lhe fora tomada?

Geralmente, nesta mesma idade pode-se observar os primeiros gestos que se assemelham ao que será a masturbação (que virá em sua “forma definitiva” na puberdade), há curiosidade (“Por que o meu e o dele são diferentes do dela? Será que ela perdeu? Será que eu também posso perder meu?”) e estímulo voltados para os genitais. Mas há também – e deve haver – Leis Sociais que reservam a este período de desenvolvimento um conjunto de restrições e punições (Exemplo: “Parece que recebo menos amor e mais hostilidade de meus pais se manuseio meus genitais na sala de visitas”).

Há também a introdução da Lei, a supressão e a repressão dos impulsos sexuais que buscam satisfação imediata. Há aqui a necessidade de barganhar o prazer imediato com a autoridade parental.

Numa bem simplificada “resenha da síntese do resumo das anotações”: troca-se prazer imediato por amor e realizações sociais a longo prazo. E caberá a demonstração da Lei à Função Paterna, podendo esta ser uma pessoa, um objeto ou uma situação de ausência. Tudo isso, não coincidentemente, acontece junto ao domínio e inserção da Linguagem complexa, da fala, da língua e suas primeiras regras gramaticais. Como se para usufruir dos direitos e restrições de qualquer sociedade houvesse um requisito primordial: ser nela um falante.

O Processo de Identificação

“Pois então, se aquele Terceiro da relação detém o amor de minha mãe, o que não falta nele? O que falta em mim? E o que falta na minha mãe? O que ela perdeu?”

A lógica seguinte deste questionamento inconsciente é a do processo de Identificação. Onde percebe-se, de maneira inconsciente, quais características, posturas e responsabilidades sociais se herdará naquela sociedade.

Objeto de Identificação e Objeto de Desejo x Identidade de Gênero e Orientação Sexual

Aqui geralmente forma-se a Identidade de Gênero naquele sujeito em desenvolvimento. Sem que este perceba ou lembre-se disso, foi aqui que soube pela primeira vez que usaria seu pai como referência de como se portar em sua sociedade.

Elege-se um Objeto de Identificação (o pai), que aparentemente capta parte do olhar que tanto se quer ter com exclusividade novamente. Também elege-se o Objeto de Desejo (a mãe), que está para a formação da Orientação Sexual tanto quanto o Objeto de Identificação está para a formação da Identidade de Gênero. É comum aos meninos nesta idade imitarem os gestos, as vestimentas e os comportamentos inúmeros da Figura Paterna. Aqui há um maior e melhor manejo da língua, que também carrega uma porção de Leis que devem ser seguidas.

Figuras de Referência

E aqui há uma Lei que deverá ser eternamente lembrada pela criança: “Não poderei obter a mesma forma de amor que minha mãe oferece a meu pai”.

— Portanto, procurarei esta realização no mundo; levarei comigo aquilo que gravo deste Terceiro para desbravar relações minimamente parecidas com esta, que agora é minha principal referência de mundo.

— Procurarei amigos, pares românticos e profissionais que, por coincidência ou não, sempre poderão me lembrar desta primeira experiência —. E aqui falamos de uma passagem saudável pelo Complexo de Édipo. O exemplo de um homem, cis gênero e heterossexual é meramente ilustrativo, podendo o comentarista deste artigo tomar a liberdade para citar outros.

O Mito do Rei Édipo

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Freud Baseia esta parte de sua teoria na Tragédia Grega Édipo Rei, de Sófocles (Aproximadamente 496 a.C. até Aproximadamente 406 a.C) e também na obra de Fiodor Dostoiévski (que o próprioFreud considerava o melhor romance já escrito) “Os Irmãos Karamazov” (1880), que futuramente terá um texto pra si aqui neste blog.

Focaremos hoje no mito grego. A Narrativa é de um Rei de Tebas, Édipo – em grego: Oidípous “Pés Inchados” – , que ao seu nascimento é amarrado pelos pés pelo próprio pai, que o entrega a um pastor que tem a missão de garantir sua morte ainda bebê. E das cicatrizes geradas pelos grampos que prendiam seus pés àquela época, Édipo ganha seu Nome Próprio.

O então príncipe abandonado ao nascimento é salvo pela misericórdia do pastor que o recebeu. Vivo, ele é entregue ao Rei Políbio, da cidade vizinha à Tebas, Corinto. Políbio não podia ter filhos, logo, ao ser adotado, Édipo passa a ser o principal herdeiro do trono daquela Polis. Sempre sendo criado como um príncipe legítimo.

Em sua idade adulta, o Príncipe dos Pés Inchados se exila de Corinto pelo mesmo motivo que levou seu pai biológico querer sua morte: uma profecia do Oráculo de Delfos, que era o portador oficial da voz do Deus Apolo. A profecia dizia que quando adulto, Édipo mataria seu pai e desposaria sua mãe. E desta união incestuosa só poderia nascer um tipo de prole: a que faria atos tão abomináveis quanto o incesto e parricídio que permitiriam sua existência. Édipo, que acreditava ser filho de Políbio, se escafede de Corinto e, ao revelar o Enigma da Esfinge que atordoava Tebas, se torna Rei de sua antiga Pátria.

Contudo, um pouco antes, no caminho para Tebas, Édipo – um príncipe! – se sente desrespeitado ao ser mandado para longe da rota de um comboio de homens que se cruza seu caminho. O grupo parecia proteger aquele que era seu líder.

Numa coincidência que demonstra a inevitabilidade de uma profecia, o Príncipe de Duas Cidades comete um dos maiores tabus da humanidade: o parricídio. Assim o próprio filho é quem mata Laio, o Rei de Tebas àquela época. Só lhe faltou saber que aquele era seu pai biológico. Esta metade da profecia é cumprida, mas a outra metade vem logo adiante.

Quando é finalmente proclamado Rei de Tebas, Édipo se casa com a Rainha Jocasta. Ele de novo cumpre a maldita profecia: fecunda e torna o lar daquela prole abominável o mesmo local que outrora havia sido sua primeira residência – o útero de sua mãe biológica.

Destinos do Édipo

Freud se baseia no Mito para apontar a repetição que observou no contexto familiar daquilo apontado na narrativa. É claro que ele enxerga e expõe isso de maneira metafórica. Postula ainda que ninguém poderá passar por tal fase sem carregar uma marca ao menos; mas estas variadas possibilidades de ferida egóica são as marcas necessárias para que se encontre realização nas outras múltiplas áreas da vida.

Para Freud, uma fixação ou má elaboração no Complexo de Édipo, localizado na Fase Fálica do Desenvolvimento Subjetivo, pode falar muita coisa sobre a Histeria e a competitividade.

E, se pedíssemos para alguém exemplificar os conflitos que carrega desta fase esta pessoa poderia responder de maneira parecida a esta:

“Talvez um carro mais caro, um bom charuto cubano ou um volume infinito de parceiras sexuais poderiam dar a ilusão, por alguns breves momentos de minha vida, que não fui tão impotente ao perder aquela primeira disputa amorosa quando era criança. Talvez não haja essa falta dentro de mim. Não que eu perceba isso: mas talvez o eterno conflito com aqueles que são mesmo sexo que eu, aqui em minha vida adulta, possivelmente tenha se tornado uma maneira autoafirmativa de me mostrar mais distante àquela inferioridade que eclodiu, e às vezes explode dentro de mim. Talvez eu me sinta menos rejeitado pelas mulheres com quem me relaciono ou pretendo me relacionar, se as objetificar; já que é perigoso tratá-las como um ser humano completo. A última vez que fiz isso me decepcionei muito, de maneira bem parecida como naquela experiência com minha primeira referência. E talvez eu deva de fato ter o mesmo emprego que meu pai; mesmo se eu não gostar tanto da área. Afinal, olha quem… ops, quero dizer, olha o que ele conseguiu para si e eu não. Mas, é importante que eu ressalte: aquela única vez que troquei o Nome de minha esposa pelo de minha mãe, foi simplesmente porque eu estava cansado; foi mera distração e coincidência; elas nem são tão parecidas assim. Elas não podem ser. Até porque, se fossem, a teoria de Freud – que eu acho um absurdo! – até faria sentido”.

A Fase Genital – Da Puberdade até a Morte

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Após a passagem por todas estas fases e um Período de Latência (que não é fase do desenvolvimento), entre os 6 anos e a puberdade, Freud vai nos dizer que agora é hora de buscar a realização no mundo exterior (caso do Neuróticos). É hora de buscar relações saudáveis, de própria escolha, fora da dinâmica familiar. É tempo de começar a tentar ser, ao menos um pouco, sujeito de sua própria história.

Aqui se estabelecem os grupos de amigos, os grupos profissionais e escolares, os pares amorosos as escolhas futuras. E vale dizer que a passagem pelas outras Fases do Desenvolvimento seja vista, aqui, como grande influenciadora da maneira que utilizaremos para lidar com os nossos conflitos, afetos e até do nosso modo de obtenção de prazer na vida.

Aqui se espera que o sujeito já saberá negociar, de alguma forma, às exigências que lhe faz a realidade, que por sua vez, estará sempre em conflito com os impulsos e desejos mais primitivos.

Espera-se que aqui terá algum equilíbrio Além do Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade; aqui se começa a encarar, como diria Nelson Rodrigues:

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Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Algumas referências bibliográficas para aprofundamento:

Freud, S. (1976a). Três Ensaios sobre as teorias da sexualidade (J.
Salomão, Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. VII ). Rio de
Janeiro: Imago. (Original publicado em 1905).

Freud, S. (1974). A dissolução do complexo de Édipo. (J. Salomão,
Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas (Vol. XIX, pp. 215-226). Rio de Janeiro: Imago.
(Originalmente publicado em 1924)

Freud, S. (1974). Algumas conseqüências psíquicas da distinção
anatômica entre os sexos. (J. Salomão, Trad.). Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XIX, pp. 303-
322). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1925)

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O Que São Afetos, Emoções e Sentimentos? Quais as Diferenças entre Eles?

Monalisa

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Monalisa, de Leonardo da Vinci, é um quadro que ficou famoso pela confusão causada àquele que o vê. Não se sabe ao certo se a moça sorri, se sofre, se desdenha, suspeita ou odeia. Não se sabe ao certo quais emoções estão ali representadas. Caberá sempre ao expectador da obra nomear os afetos, sentimentos e emoções. Mas a condição primordial para o sucesso do quadro é: apenas aqueles por ele enxergados. É claro que, na variedade da experiência humana, estes poderão ser variados de acordo com a experiência individual de quem vê.

Afeto, Emoção e Sentimento: Conceitos, Semelhanças e Diferenças

Segundo Karen Quigley et al (2014), não existe uma definição amplamente aceita sobre o que é a emoção. Talvez ela fosse um conjunto de pacotes coordenados de experiências de mudanças fisiológicas e de comportamento, ou um Estado Mental que as pessoas associam a algo dito no senso comum (raiva, medo, nojo, tristeza, alegria). E talvez emoções envolvam mudanças no afeto, mas mudanças no afeto nem sempre se transformam em emoções. Mas se preferirmos as definições aqui apresentadas, estaremos longe de algum tipo de consenso ou imparcialidade teórico-científica (QUINGLEY, K.S.; LINDQUIST, K.A. & BARRET, L.F., 2014).

E aqui falamos sobre a psicologia, as neurociências e a psicanálise. Estas que, às vésperas do segundo século de duração, discutem frequentemente um consenso definitivo ou próprio destas emoções, sentimentos e afetos.

A Sociedade dos Psicólogos tentará, com muita parcialidade (já que esta é bastante afetada pela psicanálise), trazer alguns destes conceitos e suas diferenças. Lembramos que isso acontecerá a partir de engendramentos oriundos de múltiplas fontes de leitura. Entretanto, há aqui um aviso: a maioria é psicanalítica. Por isso, são mais do que bem-vindos os comentários, as críticas e os complementos dos leitores deste artigo. Boa leitura.

Emoções e Sentimentos: Psicologia Experimental

Em 1879, em Leipzig, na Alemanha, surge o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Um de seus fundadores foi Wilhelm Wundt, o mesmo autor que, em 1873, publica o trabalho intitulado Principles of Physiological Psychology (Princípios de Psicologia Fisiológica). A intenção declarada de Wundt era, segundo ele mesmo, criar um novo campo do conhecimento: a psicologia.

Como um médico, naturalmente Wundt seria orientado pelas evidências observáveis necessárias para que um conceito seja aprovado pelo método científico. Portanto, o desejo de ser chamado de psicólogo o fez deparar-se, à época, com a dificuldade de explicar aquilo que se experiencia individualmente, aquilo que se passa dentro da cabeça, ou mente, de alguém. Aquilo que a dissecação do cérebro de um cadáver não poderia explicar por si só. Aquilo que se apresenta no relato, pois necessita dele, poderia se tornar, de fato, ciência?
Wundt diz que as sensações e os sentimentos seriam as duas formas básica de experiência humana, postulando ainda que, para que fossem observadas, seria necessária um exame do estado mental experienciado. O autoexame dos estados mentais era chamado por ele de introspecção.

A sensação seria um resultado da comunicação entre o Sistema Nervoso Central e os órgãos dos sentido [no Sistema Nervoso Periférico]. Ou seja, os impulsos resultantes da estimulação do tato, paladar, olfato, visão ou audição atingem o cérebro e aí se “sente” algo. O sentimento, para Wundt, já estaria ligado ao que se percebe na experiência imediata, ou seja, o prazer e o desprazer; a tensão e o relaxamento, e a excitação e a depressão. Para o filósofo, psicólogo e fisiologista, as emoções poderiam englobar este conjunto de percepções fisiológicas que acompanham a experiência.

Sigmund Freud (1856-1939)

Os séculos XIX e XX pareciam carregar, especialmente na França, Alemanha e Império Austro-Húngaro (futura Áustria, após o término da Primeira Guerra Mundial), um interesse especial dos médicos pela mente humana.

Após sua especialização na área de neurologia, o médico Sigmund Freud não se contenta: se encanta com os Estudos de Charcot sobre a Hipnose e o Inconsciente. Decide investigar mais detalhadamente os resultados da experiência, mas não só aquele oriundo das percepções fisiológicas, como também no comportamento contínuo e nas patologias que a medicina não conseguia explicar com sua biologia observável através do método científico.

Em obras importantes à sua teoria, como Estudos Sobre a Histeria (1893-1895), A Interpretação dos Sonhos (1899-1900), A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Totem e Tabu (1913), O Eu e o Id (1923) e O Mal-Estar na Civilização/Cultura (1930) é possível observar que Freud, aos poucos, em uma crescente de seus conceitos, vai creditando à experiência da mente mais do que meros resultados fisiológicos captados pelos órgãos dos sentidos. As experiências postuladas por Wundt – de prazer e desprazer; tensão e relaxamento e excitação e depressão – eram também vistas por Freud através da relação daquele sujeito com aquilo e aqueles que o cercavam. Melhor dizendo, estas experiências seriam moldadas pelos afetos, os fluxos energéticos que acompanhavam as representações mentais criadas nas relações com os objetos externos à experiência individual. O sujeito seria afetado ao longo de suas relações interpessoais. Sua experiência individual era afetada por aqueles que lhe apresentavam e representavam o mundo (a linguagem). Portanto, a introspecção consciente não bastaria para entender as complexidades da mente – a própria consciência não o faria! Suas emoções apareciam de acordo com sua experiência afetiva histórica (talvez até pré-histórica!), ou seja, experienciaria sua raiva da maneira que aprendeu a fazê-lo a partir da relação com o Outro. E isso não seria diferente em sua alegria, medo, tristeza, nojo, vergonha ou culpa.

Contudo, na obra de Freud, o conceito de Pulsão se tornou o cerne de sua teoria. É altamente recomendado que você o conheça melhor ou o reveja no link a seguir:

O que é Pulsão? Qual é a Diferença entre Pulsão e Instinto?

Ao longo de sua obra, Freud enfatiza que estes processos acontecem em Instâncias Psíquicas diferentes que operam de forma conjunta. Seus nomes evoluem junto com seus estudos, mas, em geral, fixa-se o conceito de que: a consciência não governa os sujeitos, apenas auxilia na conciliação das exigências de seu Real Governador (o Inconsciente) e seus Simbólicos Órgãos de Fiscalização – A Leis, a Moral, as regras de convivência em Sociedade (1900). Freud ainda enfatiza que muitas experiências se perdem à consciência, e que a censura oriunda desta é uma forma de proteção ao desprazer, à tensão e à constante necessidade de excitação sensorial que as proibições sociais podem causar àquele que não consegue realizar e, portanto, satisfazer e obter descarga de excitação aos desejos oriundos do próprio Inconsciente. Tudo isso guiado por forças desconhecidas à consciência. Estas forças iriam além das instintivas, comuns aos animais. Portanto, falamos de forças que excederiam as buscas por sobrevivência e reprodução, mas que moveriam a experiência histórica dos seres humanos.

A questão é que tudo isso só aconteceria na relação do sujeito com o Outro. Na maneira em que o sujeito é afetado, após ser invadido pela linguagem, que o ligaria à sociedade, bem como às leis estruturais que a cercam. Portanto, as emoções e os sentimentos poderiam ser produtos da influência destas relações afetivas nas percepções sensoriais. De maneira mais simples: a maneira com que somos afetados subjetivamente, mentalmente, por algo ou alguém, nos permitirá experienciar no corpo o conjunto de sensações e percepções fisiológicas atreladas por associação e/ou causalidade àquilo. Isso ocorre à medida que nos relacionamos com o quê, quem, ou com representação simbólica daquilo que originalmente nos afetou. E, a partir da gravação mnêmica disso, poderíamos repetir um conjunto de afetos antigos a partir de um novo que é experienciado. Ou seja: se me entristece a morte de meu papagaio, em conjunto, a própria tristeza deste fato em si me fará entristecer mais uma vez pela morte de minha avó, algo ocorrido há dez anos.

Esboçamos um sorriso ao recebermos aquilo que fomos ensinados, através linguagem, como sendo um elogio. E o fazemos porque isso também implica que, da maneira que acreditamos ser que somos, nos tornamos objeto de desejo a alguém. Talvez o destino disso se chame alegria. Talvez alguns poetas relatem de uma maneira que se chame amor. Mas é certo que isso também poderá lembrar uma experiência antiga, como a alegria de saber-se amado pelos cuidadores que se tornaram nossas referência afetivas.

Os Outros Afetos

O psiquiatra francês Jacques Lacan (1901-1981) acata a maioria dos ensinamentos Freudianos e, de maneira que pode até lembrar uma crítica ou ruptura, os tenta complementar com o que traz do Estruturalismo de Ferdinand de Saussure, Claude Lévi-Strauss entre outros renomados autores. Mas aqui são citados os que falam mais sobre a linguagem e o estruturalismo.

Sua frase mais famosa é, sem dúvidas, aquela em que diz que O Inconsciente é Estruturado como uma Linguagem. As polêmicas interpretações possíveis são temporárias. Talvez, o mais aceito para o que se quis dizer aqui, pelo nem sempre simpático franco-psiquiatra, poderia ser que: assim como uma linguagem é estruturada, segundo Saussure (1916), a partir de um signo, significante e significado, o Inconsciente Freudiano, conforme Lacan o entenderia, também teria uma estrutura semelhante a esta em sua formação. E Lacan diria isso ao entender que os sujeitos estariam inseridos, invadidos, amarrados e barrados na sociedade através da linguagem. E as mesmas regras sobre a arbitrariedade do signo de Saussure, nas mesmas regras regentes da linguagem, Lacan viu semelhanças às regras que também poderiam reger o inconsciente de Freud. Por exemplo: os Mecanismos de Defesa de Condensação e Deslocamento, postulados por Freud como comuns aos sonhos, poderiam seguir as mesmas estruturas de figuras de linguagem como a metáfora e a metonímia, no que diria respeito à similaridade e contiguidade dos conteúdos. Sendo assim, A Interiorização das Regras dependeria da Interiorização da Linguagem. E a noção, a nomeação do próprio corpo, também. A linguagem se inscreveria nos corpos através de seus significantes, ou melhor, daqueles que vêm do Outro. Portanto, a linguagem estaria no corpo e na mente de maneira estruturada, sempre (bem ou mal) representada através de significantes ligados metafórica e metonimicamente em cadeia associativa.

A questão é que, segundo Lacan, muitos destes significantes, diferentemente do que é postulado por Saussure, poderiam carecer de significado se os observarmos apenas pela sua lógica conceitual. O significado dos signos, daquilo que está nas formas de representação, para Lacan, estaria nas relações com Outros significantes, em uma cadeia de representações inconscientes quase interminável. E de tudo isso dito, se indaga se os significantes também carregariam afeto. Em seu tom de voz, no volume de sua fala, na ordem escolhida para as palavras ou na velocidade do discurso adotado. Neste caso, os significantes também afetariam os sujeitos.

Como escutamos algo? Como somos afetados por algo? Através do que aquilo representa para nós.

E não seriam as emoções, portanto, resultados, destinos e traduções, daquilo que nosso corpo e nossa mente (ambos em função de uma cadeia de significantes) experienciam a partir dos afetos? Ou, pelo menos, como aprendemos a nomear tais coisas?

Aquela bronca que levei de meu pai quando andava de bicicleta na infância, por, segundo ele, estar indo muito rápido. Aquilo me gerou certa raiva ao momento. Sei que é raiva, uma vez que a linguagem, concedida, incidida em mim por meus semelhantes, me ensinou que este era o nome dado ao meu cerrar de punhos e lábios, do ranger de meus dentes e do calor facial (por conta do aumento do fluxo sanguíneo) que acompanham aquela vontade de praticar violência, aquela agressividade ou hostilidade. Entretanto, por ser uma criança em busca do amor de meus pais, eu que não me permitiria sentir esta vontade de aniquilação por quem tanto fazia e poderia fazer por mim. Portanto, consegui expulsá-la de minha consciência à tempo. Ufa! Mas, trinta anos depois, aconteceu um caso curioso: como que uma pessoa tão calma e serena como eu agrediria, violentamente, um guarda de trânsito num surto incontrolável de cólera? Apenas por este me dar uma multa por excesso de velocidade que pratiquei em minha motocicleta superpotente? Ou será que foi a adoção do mesmo tom de voz que, há muitos anos, fora empregado por meu pai? Será que o infeliz guarda de trânsito recebeu toda aquela raiva guardada por trinta anos, apenas por conta de seu timbre, entonação ou volume de voz? Ou foi também alguma outra relação desta cena com a aquela antiga, da bicicleta, que para a realização de um desejo infantil, se tornou uma moto muito potente? Será que foi a semelhança entre o conteúdo da multa e da bronca? Talvez tenha sido todo o conjunto de afetos associados a uma só emoção: a raiva.

Talvez no caso fictício acima tenhamos uma expressão da presença do afeto na linguagem e nas emoções. E aqui falamos de um em especial que tenha sofrido certa repressão da consciência (e é importante diferenciar esta do recalque, mas talvez em um texto à parte) e, anos mais tarde, através de significantes em cadeia de representação (bronca por andar de bicicleta muito rápido – multa por excesso de velocidade; raiva do pai – raiva da figura da Lei, o guarda; tom de voz do guarda – fonte de mobilização do afeto reprimido ao pai: a partir disso tudo, a percepção fisiológica atrelada à raiva – calor, cerrar de punhos, ranger de dentes – se liga ao ato e desejo anterior de agressividade).

Portanto, através da linguagem, os afetos se ligam às percepções sensoriais e podem provocar respostas fisiológicas aos estímulos externos, objetos externos ou significantes (podendo estes três serem um só). Seria isso então a emoção? Uma resposta fisiológica mobilizada pela apreensão de determinados afetos à certas representações de experiência subjetiva?

Os Três Afetos Sociais

A ligação dos afetos à linguagem parece ser tanta, que, para Lacan, três destes seriam exclusivamente sociais: A vergonha, o nojo e a culpa.

Tal afirmação se faria possível pois, para que estas aconteçam, seria preciso que já tenha havido a Interiorização das Regras. Ou seja, a criança ou o adulto precisam conhecer aquilo que se exige e se proíbe socialmente. É necessário já ter sido apresentado, invadido, barrado, representado e afetado pela Linguagem.

Os bebês não parecem sentir vergonha da percepção que teriam os alheios ao cheiro de suas fezes. Mas, é no mínimo curioso, que alguns adultos sofram até de sérias complicações intestinais porque a mera possibilidade de passar vergonha apenas lhes permite defecar em sua própria casa. Talvez pelo medo do julgamento alheio sobre seus próprios odores. Paralelamente, as crianças, nos primeiros anos de vida, não parecem sentir nojo das próprias fezes. Em certa idade, é até possível vê-las exibindo estas aos adultos, como uma espécie de orgulho; as deixando por aí, quase como presentes de fabricação própria: na sala, no quarto ou em algum lugar da casa de fácil visualização.

Antes da Interiorização das Regras, ou seja, da vivência da Castração, no Complexo de Édipo, na Fase Fálica (3-6 anos) da teoria do desenvolvimento psicossexual freudiano, não se tem vergonha dos próprios órgãos genitais à mostra na praia, na rua ou na reunião de família. O próprio manuseio destes, em forma de obtenção de prazer, às vezes acontece em público até que os adultos ensinem a criança que isso não é aceitável. Em contrapartida, já me foi possível conhecer o relato de mulheres que não conseguiram tirar a roupa em um quarto de motel; de homens que utilizavam objetos como desodorantes, pilhas, controle remoto, etc. para que fizesse volume em sua sunga antes de ir à praia. Suas óbvias motivações eram a vergonha do próprio corpo nu.

A culpa também parece ser ausente na criança que, se não guiada corretamente pelos cuidadores, pode até maltratar, agredir e machucar animais, insetos e até outras crianças – enquanto demonstra o deleite daquele divertimento através de seu sorriso puro e simples. Há ali uma diversão não permitida pelas regras sociais que acompanham a invasão da linguagem.

Portanto, a linguagem também afeta as emoções, principalmente aquelas homônimas a estes afetos supracitados, que são experienciadas através da relação com o Outro. Através do ser visto fazendo; do fazer sendo visto; do se ver fazendo, do ver fazendo e sobre como tudo isso lhe afeta.

O Mais ‘Puro’ dos Afetos

Para Lacan (1901-1981), a angústia seria o mais puro dos afetos. Por ser aquilo que se experiencia logo ao saber, ao estranhar, ao separar a imagem de si próprio daquela do Outro.

Os Outros afetos derivariam da angústia. Seja de deformações desta, seja de formas a fugir dela como ela mesma, como possibilidade. A vergonha poderia ser angústia de saber-se não amado e/ou tal possibilidade? O nojo poderia ser a fuga da angústia que poderia causar a memória de algo que já foi prazer em outros tempos? Ex: a criança que brincava com as próprias fezes não consegue sequer ouvir tal palavra sem sentir um grande incômodo psíquico na vida aduta.

Numa investigação mais detalhada, talvez seja possível até encontrar na essência de uma vergonha, nojo ou culpa, a presença de uma ou algumas fantasias inconscientes. Acredito ser bem possível, a não ser que se considere, na psicanálise, uma mera coincidência a ampla presença da fala “eu sou tímido” no meio artístico. Curiosamente, esta acaba sendo uma fala recorrente no meio que concerne à prática do teatro, talvez a maior exposição do próprio ser ao julgamento alheio – aquilo que os tímidos abominam à todo custo. Como ator amador, não foram raras as vezes que a ouvi de algumas pessoas que, momentos antes, observei, explicitamente, quebrarem muitas “regras sociais” ao palco. Mas aí entraríamos na discussão do que representaria a figura do personagem ao sujeito, coisa para Outro texto.

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"Vamos para casa". A negação é um dos Mecanismos de Defesa do Eu mais primitivos, geralmente o primeiro estágio do luto. Em Deusumanos (19/05 à 03/06 de 2018) o personagem Augusto entra em profundo estado de negação perante a morte de sua filha Ingrid (Vivian Bianchin). Na negação descarta-se, desconsidera-se um dado da realidade quando este é oriundo de um enorme sofrimento ou possibilidade deste. Para Augusto, toda a dor ligada à culpa e à angústia daquele momento foram substituídas por sua dissociação da realidade. Preferiu acreditar que iria levar sua filha para casa, que esta estaria a dormir, já que, inconscientemente, "sabia" que não lhe restavam mais recursos para lidar com aquela perda.

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Considerações Finais

Quando se diz que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, inclui-se a dimensão do afeto, já que a linguagem também traz afeto através de suas entonações, timbres e, principalmente, por quem (o quê) a traz.

O afeto e as emoções, talvez não pudessem ser uma descarga de excitações endógenas dos órgãos perceptivos, exclusivamente, uma vez que eles acompanham muitos significantes em suas apresentações e representações. Se a emoção é o destino do afeto, esta rota entre origem e destino só poderia ser traçada através da linguagem. Por exemplo, a angústia perante possibilidade de não ser amado pelo Outro ao falar palavrões, impede que algumas pessoas os falem ou os escutem sem enrubescer de vergonha ou que os falem de fato. Em casos extremos, a própria escuta ou possibilidade de fala de tais significantes barrados pela linguagem, poderia angariar descargas de angústia através de sintomas como ansiedade, pânico e fobias em geral.

O afeto acontece na relação do sujeito com o Outro. Acontece em como o sujeito, sem querer querendo, se afeta nesta relação. O Outro o afeta com sua linguagem e este, quando a aprende, inevitavelmente carrega as excitações por esta produzida em seu corpo e, principalmente, ao conteúdo psíquico ao qual estas ficaram ligadas (através de representações e/ou significantes). Se aprendo a linguagem com o Outro, aprendo à maneira com que esta me afeta na relação intra e intersubjetiva. Portanto, se a emoção é o destino do afeto, individualmente falando, aprendo com meus pais que sinto raiva enquanto a percebo através da linguagem apresentada por eles. Sendo afetado por eles, através das representações simbólicas associadas através da linguagem, ligo estes afetos que carrego junto à minha definição de raiva às minhas percepções de experiências sensoriais neurobiofisiológicas. Isso tudo, através de uma relação estabelecida na cadeia de significantes que também carregam afeto. É preciso dizer que este processo seria inconsciente?

Estas percepções neuro biofisiológicas me causam calor, aumento do fluxo e pressão sanguíneos, contração dos músculos da face (sobrancelhas franzidas, lábios cerrados, olhos brilhantes), das mãos e de outras áreas do corpo. Entendo que, na relação que tenho com os Outros que me afetam, que minha emoção (raiva) é o resultado da não satisfação imediata daquilo que acredito que me trará prazer; da ausência de alívio de minha tensão, e/ou da descarga de excitação sensorial (ver grifo em A Interpretação dos Sonhos, Freud, S. 1900. cap. 7) que agora só me parece possível através da agressividade. Mas é também importante saber que isso me foi trazido também através da linguagem.

Entretanto, se isso é nomeado e apresentado por aqueles que diariamente me afetaram, de alguma forma mais intensa, em algum período mais crítico de minha formação psíquica, poderá haver certa ligação entre meus atos, aquilo que entendo destes e a percepção disto em meu corpo com desejos, expectativas e valores destas pessoas – geralmente subjetivamente entendidos como próprios. Sendo dado o nome de emoção a esta resposta fisiológica àquilo que me cerca, variando sua excitação sensorial de acordo com o que meu corpo e mente seriam, histórica e pré-históricamente programados. Há uma descarga de excitação biológica, uma experiência de um conjunto de hormônios, sensações e percepções aos órgãos dos sentido e do Sistema Nervoso Central e Periférico, a partir de um conjunto de afetos que um determinado ato pode representar com um significante, objeto externo e/ou estímulo.

Se fui censurado na infância pelo meu pai, e tive que reprimir ou até recalcar a maneira com que fui afetado por isso, talvez com raiva, ódio ou desejo de aniquilação através da força impulsionada por minha agressividade (situação inaceitável à consciência, que obrigaria o sentimento de gratidão ao amor dos pais), alguém que me censurar com uma fechada no trânsito poderia, em seu azar, experimentar toda aquela descarga bio-psico-fisiológica que aquela raiva, agora representada num soco, produziu e reservou décadas atrás. Se isso for verdade, certamente seria por conta desta pessoa da fechada ser responsável, sem saber, por eliciar uma representação afetiva simbólica (significante) linguisticamente associada às respostas e movimentos de meu organismo.

A Emoção se torna condicionada às representações do afeto que a linguagem foi capaz amarrar ao corpo, mas ainda da maneira que o indivíduo a experiencia por conta própria. Mas pra quê serve, então?

É preciso dizer que nos primórdios existenciais do Homo Sapiens, as descargas fisiológicas oriundas das emoções que eram experienciadas poderiam até apresentar um papel relativo à sobrevivência e à reprodução da espécie. Como por exemplo: há uma descarga de adrenalina (frio na barriga), dilatação da pupila (visão mais precisa do mundo externo), aumento da produção de energia (oxigênio – coração disparado ao extremo) para que se corra ou se lute perante uma ameaça à vida. Mas, nos dias de hoje, esta experiência é descrita perfeitamente por aqueles encaminhados ao psicólogo ou psicanalista pelo cardiologista, que visitaram com um ataque agudo de ansiedade, geralmente confundido com um infarto agudo do miocárdio.

Curiosamente, isso acontece fora da floresta. Bem distante mesmo. Geralmente em situações que não oferecem risco algum á vida, como por exemplo: sentados no confortável sofá da própria casa.

Para Não Dizer que Não Falei dos Sentimentos

Os sentimentos, por último, poderiam ser aqueles afetos e emoções que estão unidos através do laço social. A tradução social dos afetos. Através da linguagem compartilhada. Os sentimentos poderiam ser os afetos que chegaram ao coletivo, já que a maioria é sentida de maneira tão pessoal e única que parece não haver compreensão daquilo por alguém que não seja o sujeito ele próprio.

Os escritores e poetas e músicos são aclamados porque conseguem transformar os afetos vivenciados em sentimentos, pois foram, através da linguagem, traduzidos do individual para o coletivo. Isto é, através do que eles escrevem é possível ao leitor ler e escutar os próprios afetos. Encontrar representação. Estes seriam dificilmente verbalizados durante a própria experiência, mas agora estão perfeitamente localizados, representados nos significantes escolhidos por aqueles que souberam unir sua experiência idiossincrática à coletiva. Algo possível apenas àqueles dotados de uma avançada percepção da linguagem, perante aquilo que os afeta.

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(Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso seja o proprietário de uma delas, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente)

REFERÊNCIAS – *Também considerar as bibliografias citadas apresentadas ao longo do texto (Por ordem livre).

Afeto, emoção e sentimento na psicanálise | Christian Dunker | Falando nIsso 146

Paiva, Maria Lucia de Souza Campos. (2011). Recalque e repressão: uma discussão teórica ilustrada por um filme. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 2(2), 229-241. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-64072011000200007&lng=pt&tlng=pt.

Quingley, K. S.; Lindquist, K. A. & Barret, L. F. (2004). Inducing and Measuring Emotion and Affect. In Handbook of Research Methods in Social and Personality Psychology. Ed(s) Reis, H.T.; Judd, C.M. Cambridge University Press. p. 220-252

Pinheiro, Elaine, & Herzog, Regina. (2017). Psicanálise e neurociências: visões antagônicas ou compatíveis?. Tempo psicanalitico, 49(1), 37-61. Recuperado em 19 de julho de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382017000100003&lng=pt&tlng=pt.

Ravanello, Tiago, Dunker, Christian Ingo Lenz, & Beividas, Waldir. (2018). Para uma Concepção Discursiva dos Afetos: Lacan e a Semiótica Tensiva. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(1), 172-185. https://dx.doi.org/10.1590/1982-37030004312016

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

Criminalidade, Desigualdade Social e o Mal-Estar na Civilização

É famosa a frase que diz: o crime não compensa. Mas será que a vida em Civilização o faz? Em um de seus últimos trabalhos, Freud (1856-1939) tenta, com o conhecimento que acumulou durante toda a sua vida de neurologista e psicanalista, entender como ocorreu a formação da cultura. E mais: como esta se assemelha e se difere da formação psíquica dos indivíduos que a formam. Entretanto, no atual conjunto de culturas do mundo globalizado, o Brasil é conhecido por traços que cruzam corrupção, futebol, nudez, praias e festas e, mais recentemente, pela alarmante desigualdade de renda e o alto índice de crimes contra o patrimônio. Poderíamos entender estes fenômenos como parte de uma cultura madura ou como sintomas de uma cultura? Mais ainda: quais seriam os sintomas que esta cultura causaria em nossos indivíduos? É o que o artigo a seguir tentará expor em conjunto com uma leve revisada na obra de Sigmund Freud publicada em 1930. Afinal: furtar tornou-se frutífero? No Brasil o Crime compensa o Castigo?

Um estudo conduzido em 2011 por João Paulo de Resende, mestre em economia pela UFMG e por Mônica Viegas Andrade, doutora em economia pela FGV, teve como alvo os crimes cometidos em municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes. Sua conclusão final, baseada exclusivamente em dados empíricos, foi que: os níveis de desigualdade de renda (poucas pessoas ricas, muitas pessoas pobres) nestes municípios estavam frequentemente relacionados aos níveis de ocorrência de crimes contra o patrimônio (furtos, roubos, latrocínios) e pouco aos crimes passionais, onde o indivíduo, quando exposto a alguma situação que o leva a intenso estresse emocional, apresenta um lapso na inibição de seus impulsos e comete um crime – geralmente contra quem o propicia tal estresse.

Esta conclusão empírica nos faz crer, a princípio, que quanto maior o patrimônio de poucos, mais indivíduos (geralmente os de pouco patrimônio), cometerão crimes que têm o patrimônio em si como alvo. Como se nesta relação empírica houvesse uma reivindicação inconsciente da maior recompensa que a civilização capitalista moderna oferece ao indivíduo: a satisfação através dos materiais de consumo. É importante, é claro, ressaltar que quando esta satisfação é buscada através do crime, ela dispensa uma das grandes engrenagens de uma sociedade: o trabalho – e, principalmente, as renúncias de prazer que este envolve. Será que quando falamos dos crimes relacionados ao patrimônio, poderíamos também dizer que, no caso do furto, também o indivíduo furta-se dos sacrifícios às satisfações? Sacrifícios estes que são tão exigidos pelo trabalho. E no roubo, também não rouba-se o prazer, a satisfação que ostenta o Outro, de maneira considerada injusta por um que não a alcança, por mais prometida que esta lhe seja, perante suas renúncias?

 

Desigualdade de Renda no Brasil

Desigualdade-de-renda-no-Brasil

Uma pesquisa recente, realizada pelo economista Thomas Piketty e um conceituadíssimo grupo de pesquisadores em seu apoio, aponta que, no Brasil, quase 30% da renda do país se encontra com apenas 1% da população. E, para complementar, 10% da população mais rica do país também carrega 55% de toda a renda local. A óbvia lógica disso tudo? Mais pessoas dividem menos dinheiro enquanto menos pessoas dividem mais dinheiro.

Isso até poderia ser menos incômodo se, proporcionalmente, todos pagassem taxas de impostos equivalentes ao que ganham. Entretanto, além da progressiva taxa dos impostos de renda, o Brasil traz uma tributação nos bens de consumo – a principal fonte de satisfação insinuada pela nossa atual sociedade – de cerca de 40% do valor. Ou seja, um produto de 100 reais, custa cerca de 40 reais em impostos. Acontece que, quando o salário mínimo do país é um pouco menos de 1000 reais, estes 40 reais se tornam um pouco mais de 4% de todos os ganhos de uma pessoa que recebe um salário mínimo, atualmente considerada como pobre (sem contar o valor que esta pessoa já paga de imposto de renda, cerca de 8%). Mas, ao mesmo tempo, se uma pessoa que recebe um salário que gira em torno de 100.000 reais compra o mesmo produto de 100 reais, se aqui não falhar a matemática de alguém das ciências humanas, esta pessoa gastará apenas 0,1% de seu salário. Ou seja, em termos de proporção do patrimônio, os mais pobres acabam cedendo mais de seu patrimônio em impostos do que os mais ricos. E isso se amplifica mais ainda se falarmos sobre Lucros e Dividendos de empresas (que em alguns casos excede a casa dos milhões), onde praticamente não há imposto cobrado.

Ou seja, mesmo que as pessoas mais pobres sacrifiquem seus impulsos pelo sono, pela farra, pelo sexo e pela agressividade pelo bem da sociedade, estas não serão tão bem recompensadas pelos sacrifícios quanto as pessoas mais ricas. É como teria dito o filósofo Zizek: “há alguém furtando o nosso gozo”. Será que, na suspeita do furto de um gozo, furta-se a metáfora para o retorno literal da palavra? Ou seja: a suspeita do furto (metafórico) do gozo ocasionaria o gozo do furto (literal)?

O Mal-Estar na Civilização

Já no ano de 1930, Sigmund Freud (1856-1939) publica uma de suas obras mais importantes, denominada “O Mal-Estar na Civilização” (“O Mal-Estar na Cultura” em algumas traduções). Arriscando o perigo de sintetizar demais, poderia-se dizer que ali Freud (2011) tentava explicar – através da relação de muitas de suas obras anteriormente produzidas, de poemas e romances de Schiller e Goethe, de apontamentos realizados por Rousseau e outros filósofos ou até criticando a tese do comunismo trazida por Karl Marx  – sua tese de que as exigências de uma cultura (ou de uma civilização), estariam – sem exceção – em desacordo com os impulsos agressivos e/ou destrutivos e sexuais dos indivíduos que a ela pertencem. E, a partir daí, os indivíduos deveriam procurar outras formas de felicidade, seja para o encontro ou prazer ou para o evitar do desprazer. Alguns se isolam, alguns usam drogas lícitas ou ilícitas, alguns amam; alguns trabalham, alguns fazem amigos, alguns adoecem e/ou ficam loucos; alguns fazem bem ao próximo, outros simplesmente infringem as regras e aceitam as punições (ou fogem delas enquanto é possível). Há ainda os que fazem isso tudo ao mesmo tempo enquanto acreditam fazer parte de uma casta, considerada por eles mesmos como boa da sociedade – aqui falamos dos cristãos, mas, sejamos justos: nem todos e nem só estes.

E Freud (2011) continua, dizendo que pode-se até encontrar relação àquilo que frequentemente está inconsciente na neurose mas explícito nos preceitos estabelecidos em uma civilização através de suas Leis e regras – a necessidade de inibição de impulsos agressivos e sexuais que, apesar de causarem satisfação imediata nos indivíduos, estão em desacordo com o considerado necessário para o bom convívio em sociedade. O resultado esperado, segundo o psicanalista (2011), era que a cultura ou civilização, juntamente com o indivíduo, deveriam criar, através da evolução de um sentimento de culpa, uma eficiente instância de censura a estes impulsos – um Supereu. Ou seja, a cultura oferece repressão, através da retirada do Direito à Liberdade (prisão), caso o indivíduo exponha seus impulsos agressivos através de um crime e transgrida as Leis, da mesma forma que a criança perderia o amor dos pais se fizesse o mesmo, ou pior, expusesse sua sexualidade e agressividade inata, fora do que é aceito aos pais daquela época, através da Castração, no Complexo de Édipo.

Mas conforme Freud (2011) explica, o papel do Supereu excederia o medo à repressão através da perda da liberdade ou do amor dos pais, o Supereu teria um papel Superior de censura. Do tipo que forçaria os indivíduos a algo além de renunciar às satisfações que mais acreditam que lhes daria prazer por medo das represálias: o próprio desejo de realizar tais satisfações já causaria culpa e às vezes até autoagressão, não sendo o ato necessário. Como se o processo fosse automático, introjetado e mantido pelos indivíduos. Entretanto, é ressaltado pelo Pai da Psicanálise (2011) que, mesmo que nem tudo seja satisfeito, para que haja algum tipo de organização psíquica no indivíduo saudável, ele precisará direcionar estes impulsos proibidos às formas de expressão aceitas pela sociedade, em sua busca pela sua satisfação. Ou seja, uma criança muito agressiva, por não poder manter este comportamento na vida adulta, em função das Leis da Sociedade, poderá se tornar um adulto lutador de artes marciais – e há de se observar que, paradoxalmente, estes indivíduos costumam ser pessoas calmas e pacíficas, uma vez que conseguem expor seus impulsos agressivos através de suas atividades. Da mesma forma, supõe-se na sociedade que aquele que abdicar do prazer imediato e se dedicar ao trabalho e não cometer crimes, poderá ter dinheiro para consumir os produtos que lhe trarão satisfação – carros, motos, celulares, aparelhos eletrônicos e roupas em geral. Mas o que acontece quando esta abdicação não é recompensada e, ainda por cima, é exibida em Outros que parecem realizá-la em menor ou nula medida?

Se arriscarmos um palpite no que foi dito por Freud (2011), poderíamos dizer que enquanto um sintoma do indivíduo por renunciar os desejos que vê causar prazer no Outro é a neurose, um sintoma da cultura que faz indivíduos renunciarem seus desejos e não lhes dá a satisfação (no caso da cultura capitalista, o consumo) é a criminalidade. E podemos ir adiante dizendo que, assim como o sintoma é a maneira negativa da realização do desejos em paralelo à sublimação como maneira positiva; a criminalidade apareceu como uma maneira negativa desta realização e, além do trabalho, que nem sempre ou quase nunca a cumpre, um novo fenômeno parece encurtar este caminho.

E a tese inicial do neurologista, aquela em que ele diz que haverá sempre uma divergência entre o exigido pela cultura e o que é desejado pelo indivíduo (2011), parece fazer muito mais sentido quando falamos sobre o sentimento de injustiça, sentido através da desigualdade de renda, e o que os Estudos Econômicos de Resende e Andrade (2011) publicaram sobre a relação desta desigualdade com o aumento dos crimes contra o patrimônio. Como se a desigualdade de renda corroborasse uma prévia recusa, através da criminalidade, à renúncia dos indivíduos aos impulsos, mas não ao gozo que é atribuído ao suposto prêmio por tal renúncia.

Conclusão

Poderíamos então dizer que a formação de uma civilização terá como base um mecanismo semelhante à formação psíquica de um indivíduo: para que tudo dê certo, renúncias serão necessárias. Mas supõe-se, erroneamente, que todos os indivíduos partem de uma mesma constituição psíquica na hora de criar-se uma Constituição Federal. Ou seja, esqueceram que haverá um conjunto de indivíduos que não estão dispostos a abrir mão de suas satisfações pelo bem-estar de sua cultura – a partir daí, viu-se necessário a criação de um sistema prisional. Mas, entrelinhas, parece haver a insinuação, por parte da sociedade, que está garantido a quem cumprir com suas renúncias e horas de trabalho, o gozo através do consumo. Contudo, a desigualdade de renda de um país parece acabar desmentindo esta suposição.

Quando o Brasil é tomado como exemplo, vê-se que uma pequena parte da população detém uma enorme parte das riquezas, ou seja, do gozo através do consumo. Em outras palavras, pesquisas recentes sobre a desigualdade de renda apontam, de cara, que alguém irá obter mais satisfação; poucos gozarão mais do que muitos. Isso quer dizer que já está pressuposto a muitos que optarem pelo sacrifício de seus prazeres imediatos a ausência daquela prometida satisfação. Eis a dúvida de quem é pobre por aqui: “a renúncia de minha satisfação, sob o único risco de sofrer a privação da liberdade por algum tempo, vale mais a pena? Por quanto tempo conseguirei assistir ao gozo do Outro com menos sacrifícios do que eu?”.

A pesquisa evidenciada no começo do artigo parece, de alguma forma, apontar que há na Sociedade Brasileira, ao menos nas cidades com mais de 100 mil habitantes, uma constante reivindicação pelo gozo através do patrimônio. Através de uma vasta pequisa de dados empíricos, viu-se que quanto mais patrimônio é reservado à pequenas parcelas da população, mais crimes contra o patrimônio são registrados em uma sociedade. É como se as Massas informassem, de forma violenta e irracional, que recusam o sacrifício desproporcional ao gozo do Outro. Como se a criminalidade fosse o ato de ignorar a placa que diz “não pise na grama”, enquanto o gozo através do patrimônio fosse o ato de chegar ao lado oposto; mas parece que lá já se encontra alguém, separado pela mesma grama, que não precisou dar a cansativa volta que indica aquele caminho preestabelecido. Portanto, parece que, quando se deparam com este outro alguém em pleno gozo com menor sacrifício, mais pessoas optam por pisar na grama e, não obstante, tentam expulsar o Outro do lugar que agora acreditam terem chegado.

Se há mais dinheiro para se dividir com menos gente e, consequentemente, menos sacrifícios para esta pequena parcela, a outra parcela, aquela que dividirá menos dinheiro com mais pessoas, terá mais sacrifícios a fazer. Mas a pesquisa de Resende e Andrade (2011) indica que, nestas situações, parece haver uma recusa às Leis na mesma medida. Uma recusa aos sacrifícios e uma tomada violenta e simbólica do prazer que enxergou o Outro satisfazendo: nega-se o esforço do trabalho exaustivo por pouco dinheiro e acata-se a tomada do patrimônio através do crime. Apesar desta ser uma informação de teor óbvio, é importante ressaltar que este artigo não está legitimando crime algum, muito pelo contrário, as relações entre os meios empregados pelos neuróticos para fugir das restrições da cultura (álcool, amor, isolamento, construções, consumo e trabalho), podem encontrar também, para uma parcela da população, refúgio no crime, quando ele passa a acontecer em proporções tão frequentes que chega a compensar.

O sujeito tem sua constituição psíquica formada da mesma forma que a cultura tem sua Constituição Federal. E assim como o neurótico, que quando finalmente aceita a abdicação da satisfação de seus impulsos agressivos e/ou sexuais em nome das exigências da cultura, sofre com o sintoma da neurose como forma de punição e realização à renúncia destes desejos inconscientes que não foram compensados através da sublimação; a Cultura também poderá sofrer a punição da elevação da criminalidade, crescente à medida em que as pequenas gratificações (o consumo, o gozo de bens materiais) não vêm de encontro, de maneira igualitária, aos sacrifício dos neuróticos que nela vivem mas continuam sendo seu objeto de desejo pregado como ideal dela mesma.

Isso não quer dizer que a ideia comunista seja a solução. O próprio Freud, neste mesmo texto (2011), já refuta esta ideia, dizendo que há no ser humano o impulso à agressividade para com o Outro que excederá sua realização apenas através da propriedade privada; portanto, não será o fim desta o sinônimo do fim da violência. Também sabemos que anos mais tarde, através dos resultados da implantação do sistema econômico transicional do socialismo em vários países do mundo, com o comunismo como finitude, pudemos observar que a suposição de que todos os indivíduos poderiam partilhar de uma renda comum, de um estilo de vida igualitário, acabaria no campo utópico. Confirmando as previsões de Freud, o socialismo acabou mais sendo utilizado como transição a algum Outro tipo de ditadura do que ao comunismo em si.

Mas, para finalizar, algo há de ser dito: seja no capitalismo, socialismo ou comunismo, o ser humano parece não ficar livre de seus impulsos mais primitivos de agressividade e sexualidade, principalmente quando estes se mostram de maneira incessante, como é o caso das Pulsões. E por mais que a cultura exista exclusivamente para conter estes impulsos e permitir uma vida pacífica entre os indivíduos inibidos entre si, ela precisará, de alguma forma, compensar a renúncia de todos estes de maneira satisfatória através de suas possibilidades de sublimação oferecidas. De outro modo, haverá aquilo que a história e agora as estatísticas nos apontam: violência. Roubo (como é o caso explicitado aqui no artigo), homicídio ou suicídio; tomada do Poder, aniquilação do Outro ou aniquilação de si. Para a cultura não importa, o que prejudica um ou outro indivíduo, a prejudica, de um modo ou de Outro, como um todo. Porque se a neurose é um sintoma do indivíduo, a criminalidade é um sintoma da cultura.

Referências

Crime social, castigo social: desigualdade de renda e taxas de criminalidade nos grandes municípios brasileiros – João Paulo de Resende; Mônica Viegas Andrade. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-41612011000100007

Brazil – WID – World Inequality Database (Top 1% fiscal income share, Brazil, 2001-2015 and Top 10% fiscal income share, Brazil, 2001-2015) – Thomas Piketty and group. http://wid.world/country/brazil/

Freud, Sigmund, 1856-1939. O mal-estar na civilização/ Sigmund Freud ; tradução Paulo César de Souza. – 1ª ed. – Sâo Paulo : Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

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Onde pode trabalhar um psicólogo além da Clínica e do RH? Outras Áreas de Atuação da Psicologia

Já está bem definido no Imaginário popular o trabalho de um psicólogo. A princípio, vê-se um sujeito deitado no divã. O outro, naquela sala à meia luz, está geralmente tomando nota em um bloco que apoia em cima de suas pernas cruzadas. E, se não estiver, haverá uma exímia necessidade de sua mão apoiar seu queixo – nem sempre por completo, às vezes é de modo parcial, deixando sobrar um ou dois dedos à bochecha adjacente – pois este haverá de ser representado em seus momentos pensativos, desconsiderando quaisquer reflexões sobre esteriótipos. Menos comum, é preciso dizer, mas pode ser também que este seja representado ao porte de seu cachecol ao pescoço – que é presente mesmo que sua função seja desnecessária às condições climáticas apresentadas num país tropical como o nosso. E sim, na maioria das vezes, será atribuído ao profissional algum grau de miopia, hipermetropia ou qualquer outra disfunção no trato visual, uma vez que este estaria sempre vestindo suas lentes. Se ficar difícil imaginar, observe as duas imagens a seguir.

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É de se admitir que, mesmo com os protestos ao esteriótipo, tal visão representada em filmes, séries e fotografias não carece tanto de verdade. Esta visão se aproxima sim, de alguns psicanalistas e psicólogos clínicos (entenda as diferenças), mas não pode e nem deve representar toda a classe. Pois há, sim, como veremos adiante, inúmeras áreas de atuação da psicologia e muitas delas fogem do Imaginário popular.

A área da Psicologia Organizacional, mais comumente na atuação no setor de Recursos Humanos (RH), também é mais reconhecida no dia-a-dia como um campo de atuação de psicólogos, e é exatamente por isso que ela não será apresentada no post, junto à Psicologia Escolar, já que aqui serão mostradas outras áreas onde a profissão ainda é vista com tom de surpresa.

O Psicólogo Hospitalar

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Demorou algum tempo para acontecer e, há de se confessar, ainda é um pouco difícil para alguns profissionais da área (médicos, enfermeiros e/ou técnicos e auxiliares) mais conservadores, a compreensão da importância do psicólogo no ambiente hospitalar.

O hospital é um ambiente transicional. E é direcionado na maioria das vezes ao seu objetivo imediato – salvar e manter uma vida a qualquer custo. E este objetivo já foi plano de fundo para pensamentos mais superficiais, que deixam o real trabalho do psicólogo um pouco ofuscado. Um exemplo, real, é a seguinte frase: “[…] aqui não é lugar de conversar, o que um psicólogo pode fazer para uma perna quebrada?”.
Dita por um profissional da enfermagem, a frase é recente e representa a dificuldade na compreensão do trabalho da psicologia hospitalar por outros profissionais, mesmo nos dias atuais, onde a psicologia já é bem mais difundida.

Este artigo científico, publicado em uma importante revista, revela o impacto que a aderência do paciente ao tratamento tem e que ela é sim, um fator de significativas taxas de melhora dos quadros. E não é incomum que questões emocionais, sócio-culturais, familiares e até, em alguns casos, psicopatologias, sejam fatores que bloqueiam a completa recuperação de um paciente. Seja por questões psicossomáticas, que poderiam confundir a aparição ou remissão de sintomas, seja bloqueios emocionais causados por questões subjetivas que podem prejudicar o tratamento.

E o trabalho do psicólogo hospitalar não se limita apenas aos pacientes. Além do acompanhamento psicológico destes e das avaliações psicológicas, há também grupos terapêuticos com os familiares, que em alguns casos até adoecem junto ao paciente; grupos com a equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, etc), uma vez que os profissionais de saúde têm condições de trabalho e rotinas muito exaustivas e também presenciam cenas que corroboram muito com o aumento de seu sofrimento psíquico, cabendo ao psicólogo hospitalar identificar, apontar e trabalhar em grupo ou individualmente; é também possível para o psicólogo indicar um colega de profissão para o acompanhamento individual a longo prazo de alguns portadores destas demandas, já que o trabalho de psicologia hospitalar tende a ser mais breve. Hospitais de largo reconhecimento e porte como o Hospital Israelita Albert Einstein e o Hospital das Clínicas, ambos em São Paulo, são referência no trabalho e na formação, a nível de excelência, dos profissionais da Psicologia Hospitalar no Brasil.

O Psicólogo Jurídico e/ou Forense

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Outra área menos difundida do trabalho do psicólogo está na junção de duas grandes áreas do conhecimento: a psicologia e o direito.

O psicólogo jurídico atua, principalmente, realizando avaliações psicológicas nas varas criminal, da família, cível e trabalhista. Seu trabalho consiste em entrevistas, aplicação de testes psicológicos e na elaboração de laudos que se aproximem ou se afastem das hipóteses de possíveis perfis psicológicos retratados em vítimas, agressores, pais e mães (em casos de disputa de guarda), criminosos, empregadores e empregados, etc. Há também o lado de produção científica, onde o trabalho pode ajudar na ampliação das estatísticas, relações de dados e na difusão e inclusão de novos conhecimentos aos profissionais da área.

Um laudo emitido por um psicólogo jurídico, ou forense (do fórum), é muitas vezes fator decisivo em ambientes judiciais, sendo um trabalho similar ao de uma perícia. O profissional, apesar de preservar algumas questões sigilosas de quem ele avalia, irá basear seu laudo nas demandas específicas de cada caso, procurando apontar se as características da personalidade e do discurso daquele sujeito se adequam ao é apresentado e/ou representado em julgamento por ou contra ele.

Ainda na área, há também psicólogos que fazem o trabalho específico de perito. Este trabalho acontece dentro das polícias militar, civil e federal e até na Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Psicólogo do Trânsito

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No Brasil, quem vai tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), necessariamente precisará por um processo burocrático levemente extenso. Orientação das leis de trânsito, das penalidades, aulas práticas e teóricas sobre tudo isso. Haverá também os famosos exames médico e psicotécnico. Este segundo é aplicado por um psicólogo do trânsito.

Testes sobre atenção, cognição, e características da personalidade corroboram uma rápida entrevista onde se avalia se aquela pessoa está apta a conduzir um veículo em sociedade. Uma pessoa altamente desatenta ou agressiva não costuma ser elegível para tal, mas dificilmente esta se revelaria desta forma em uma simples entrevista. Portanto caberá ao psicólogo levantar ou descartar tais hipóteses a partir de seus conhecimentos e instrumentos de trabalho.

Mas o trabalho do psicólogo do trânsito não acaba aí. Há também a área de pesquisa, onde se analisa os comportamentos no trânsito – dos motoristas e pedestres – de diferentes cidades, estados, países, classes sociais, etc. Há até trabalhos revelando como alguns perfis de personalidade podem ser fatores de influência em acidentes de trânsito. E, se através de algumas fechadas propositais, conversões proibidas e desrespeito à sinalização é possível ver a corrupção no trânsito, por que não alguns indícios da personalidade? E por que não até os de algumas psicopatologias?

Psicologia do Esporte

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Em 2014 a Seleção Brasileira de Futebol, em seu próprio país, foi eliminada da Copa do Mundo pelo placar de 7×1 enquanto jogava contra a Seleção da Alemanha.

Apesar de as características técnicas dos jogadores de ambos os times não se distanciarem tanto, a expressiva disparidade no placar provocou uma revolta constante nos torcedores. Em um país onde o futebol é forte aspecto cultural, houve aí uma agressão quase (quase?) pessoal aos torcedores. Muita raiva e frustração foram direcionadas à comissão técnica, aos jogadores e aos dirigentes. Mas uma matéria do jornal O Globo apontou um aspecto importante: a falta do acompanhamento psicológico da Seleção Brasileira foi sim, um grande agravante. Uma matéria do jornal El País também destaca que sim, em nosso país os clubes desprezam este aspecto.

A própria Seleção da Alemanha conta com uma equipe de 12 psicólogos, e os jogadores são acompanhado desde as categorias de base. Mas o que faz um psicólogo do esporte?

O trabalho do Psicólogo no Esporte acontece de maneira semelhante aos outros contextos, mas com diferenças fundamentais. São avaliados os estados psicológicos dos atletas, indispensavelmente. Mas além disso há um acompanhamento a longo prazo de tais aspectos, conhecendo os principais fatores de oscilação à motivação e desmotivação, por exemplo, e de outros que se aliam ao desempenho de cada atleta. Isso é observado em cada atleta à sua maneira e também à equipe como um todo.

Conforme dito, é também fruto da avaliação o conjunto de condições dos outros profissionais da equipe, bem como as condições de relacionamento destes entre si, com os atletas e, é claro, dos atletas entre si. Na própria Copa de 2014, o jogador Neymar estava lesionado, sendo ele uma grande aposta da equipe e também já bem entrosado com seus colegas. Seria possível ali trabalhar como isso seria vivido pela comissão, pelos jogadores e pelo próprio jogador lesionado, uma vez que tal lesão ocorreu durante o campeonato, pegando todos de surpresa, diferentemente da lesão que ocorreu neste ano, também ano de Copa do Mundo. Mas este trabalho também poderia acontecer durante a recuperação do próprio atleta de sua lesão. Considera-se que seu corpo é seu instrumento de trabalho e que quando sua pesada rotina de atleta de alto rendimento sofre uma parada brusca dessas, sua autoestima, seu senso de produtividade, sua vida social e outros aspectos de sua vida psíquica podem também entrar como fatores que influenciam sua recuperação, além de seu futuro entrosamento e, como consequência, seu desempenho.

O trabalho do Psicólogo do Esporte se atrelaria ao da Comissão Técnica em Olimpíadas, Campeonatos e Centros de Treinamento, sempre focando no Bem-Estar dos atletas para potencializar seus resultados.

Neste ano, houve a acusação do ex-técnico da Seleção Brasileira de Ginástica de assédio e abuso de seus atletas. Infelizmente, este caso também nos serve como exemplo. Esta foi uma situação onde um bom profissional da psicologia do esporte também poderia atuar. A proximidade de atletas e profissionais do esporte é muito intensa, quase familiar. Casos do tipo não são incomuns. Existe o famoso caso do médico Larry Nassar, que abusou de mais de 150 atletas nos Estados Unidos. E o psicólogo é um profissional que tem meios de identificar a presença de comportamentos agressivos, evasivos e até de abuso sexual que, assim como podem acontecer no ambiente familiar e corporativo, também podem acontecer ambiente esportivo, sendo também este papel de prevenção uma das atribuições deste profissional.

Até o próximo texto.

(As imagens utilizadas no texto foram obtidas de forma livre na internet. Caso você detenha os direitos de alguma dessas imagens e solicita que esta seja removida, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente).

Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: Interpretação dos Sonhos e Primeira Tópica Freudiana

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Em 1899, o médico neurologista Sigmund Freud (1856-1939) se vê plenamente despreparado para conter sua ansiedade e aguardar o ano seguinte para publicar sua obra de maior destaque. O livro, publicado em 1899 saiu com a data de 1900. Depois de se dedicar por um bom tempo aos sintomas psiconeuróticos da histeria, Freud sentia que era a hora de lançar sua Obra-prima: A Interpretação dos Sonhos (1900). O motivo da alteração da data? O fato de estarmos falando sobre o livro do século.

Os sonhos já foram interpretados como mensagens dos Deuses, previsões do futuro e até falta de imersão religiosa. O motivo de toda esta especulação milenar pode estar na seguinte pergunta: como podem imagens e narrativas, às vezes tão aleatórias, tão carentes de sentido, se tornarem por alguns momentos nossa nova e incontestável realidade? Um lugar específico, duas pessoas aleatórias – que só se conectariam em vida pelo enorme abismo entre si! Mas tudo vivenciado com tanta realidade… A ponto de só ser digno de observação após uma falta de ar, uma aceleração dos batimentos cardíacos e/ou uma enorme quantidade de suor de acompanhamento a um súbito acordar. Aquele acordar. Aquele que dependendo do conteúdo do sonho, fora implorado (ou não!) para acontecer. Claro que há um detalhe: é preciso se lembrar do sonho – e isso nem sempre acontece. E às vezes acontece por pouquíssimo tempo.
Mas será que Freud explica isso? Neste artigo que segue, a tentativa será de responder a pergunta tanto feita por muitos, a partir de uma explicação de pontos da obra considerada a mais importante da psicanálise. E para lhes desejar uma boa leitura, A Sociedade dos Psicólogos parafraseia com um grande hit musical, recomendando este para que sua leitura faça como o sonho: tenha mais do que imagens ou pensamentos – tenha estímulos sensoriais. Sweet Dreams.

Prelúdio – A Sonata dos Sonhos

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Nascer em uma Europa do século XXVII e crescer na do século XXVIII pode ser uma experiência interessante. Sentir os efeitos diretos de um recente Renascimento do pensamento ocidental e, através de uma pequena fresta que começa a se abrir, ser atingido pelos primeiros raios da luz do pensamento Iluminista. Não se pode dizer ao certo quanto, mas este foi um dos backgrounds que influenciaram desde o nascimento a psique de Giuseppe Tartini (1692 – 1770), um dos mais famosos compositores deste período. Sua relação com a obra que pautou este texto, A Interpretação dos Sonhos (1900), está na referência que Sigmund Freud (1856-1939) faz ao músico e à Obra-prima deste durante a escrita de sua própria. Freud (2001) pega como exemplo a sonata mais famosa do compositor, enquanto explica que boa parte de nosso saber não está na consciência; para o Pai da Psicanálise, Il Trillo del Diavolo  é um exemplo de música que recebeu um “[…] auxílio prestado por obscuras forças procedentes das profundezas da mente[…]” (p. 585).

Para fins de entendimento, é melhor deixar a fala ao próprio Giuseppe Tartini (1692 – 1770):

“Uma noite sonhei que tinha feito um pacto com o diabo, o qual se dispôs a me obedecer, em troca de minha alma. Meu novo servo antecipava meus desejos e os satisfazia. Tive a ideia de entregar-lhe meu violino para ver se ele sabia tocá-lo. Qual não foi meu espanto ao ouvir uma Sonata tão bela e insuperável, executada com tanta arte. Senti-me extasiado, transportado, encantado; a respiração falhou-me e despertei. Tomando meu violino, tentei reproduzir os sons que ouvira, mas foi tudo em vão. Pus-me então a compor uma peça – Il Trillo del Diavolo – que, embora seja a melhor que jamais escrevi, é muito inferior à que ouvi no sonho”.

Parece até que estamos diante da admissão de um plágio. O diabo, a representação do Mal da humanidade, esbanja sua sensibilidade musical! Trouxe, em um sonho, estímulos tanto sensoriais, quanto emocionais. A excitação de seus sentidos foi tão forte que o músico acordou num lapso de sua própria respiração! Como um presente, como uma dádiva não celestial, Tartini conseguiu produzir o que considerou sua melhor composição. Mas seu lamento final deixa uma irresistível pergunta – que vai até além da básica curiosidade sobre as dimensões do talento violinístico da “Estrela da Manhã“, de Lúcifer, d'”O Portador da Luz“, que iluminou a criatividade de um músico em pleno Iluminismo –, uma pergunta meio paradoxal: se esta Obra-prima é muito inferior àquela que ouviu no sonho, o que o impediria de usar sua memória até que houvesse a equação de ambas? Teria ele esquecido parte do que ouviu? E caso tenha, como poderia comparar o que sabe com o que não sabe?
Mais do que isso: numa hipótese de que um sonho só poderia reproduzir o que já fora captado pelos órgãos dos sentidos e pela consciência, como algo pudera ser ali ouvido pela primeira vez?; como pudera algo completamente inédito, ser ali apresentado como um som exclusivo de um instrumento musical (que é dominado pelo sonhante), mas, ao mesmo tempo, se tornar irreproduzível neste mesmo instrumento musical? Não estava esta melodia ecoando ainda há pouco nos confins de uma mente brilhante? De qualquer maneira, parece que lhe permaneceu para sempre a lembrança da qualidade superior daquela versão tocada pelo próprio Anjo Caído – no instrumento que é considerado o dono do som mais angelical no Imaginário popular. Bem, depois da harpa, é claro.

Sendo esta o próprio pedido de desculpas por si, uma interrupção ao desenvolvimento do artigo a seguir será agora necessária. O motivo: um sentimento de obrigação de quem escreve. Há aqui uma necessidade de exímia importância: acabar com uma descortesia estendida até agora. Uma leitura poderá ser muito mais interessante e significante com uma trilha sonora mais adequada. E o sentimento é que este texto deva conter sua sugestão.  E é claro que, no primeiro flerte da leitora ou do leitor com o óbvio, já se saberá qual música tem este propósito.

Seguirá agora em anexo a Sonata de Tartini: “O Trinado do Diabo”.
Em um começo que se dispõe a soar uma calma quase melancólica, anterior a um contraste já anunciado em seu Nome de batismo: a rápida, libertadora e genial repetição de notas – O Trinado –, notas que parecem ter perdido repentinamente a timidez e agora voam, vão às alturas! Quase lembrando aquela pessoa que agora é boêmia, mas que é também egressa de uma vida beata. Algo próximo a uma libertação das amarras religiosas, como aquela promovida pelo Renascimento. Praticamente a mesma libertação que favoreceu o início da escuta o Homem e de sua fala sem censura, sem os resquícios das Trevas em uma Outra Idade. Quase como se agora o homem fosse o Portador da Luz de seu pensamento Iluminista.
Portanto, este artigo da Sociedade dos Psicólogos sobre A Interpretação dos Sonhos terá uma  trilha sonora diabólica. Uma música feita pelo próprio diabo. Uma música que estava recalcada sob sete peles de censura inconsciente. Um autêntico plágio onírico. Um autêntico plágio do Próprio Eu Desconhecido.

Sonhar: O  Realizar um Desejo Originário Inconsciente

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Os sonhos

Freud é categórico: os Sonhos não são destituídos de sentido e têm o “simples” propósito de realização de um desejo inconsciente. Ele também nos alerta de que sua produção é resultado de uma atividade mental altamente complexa. Os sonhos são as produções do inconsciente que, sobrevivendo a certas restrições que falaremos mais adiante, encontraram em nossa vida psíquica alguma representação que seja boa o suficiente para aludir a alguns de nossos mais profundos desejos originados na infância. Pois é exatamente a estes desejos que Freud atribui o papel de “força propulsora” da formação de nossos sonhos, mas nunca os colocando como o único conteúdo ali presente. Além de advertir que não se deve fazer uma leitura literal dos sonhos, levando em conta que isso conduz à mesma falta de sentido já existente. Freud se afasta de qualquer definição que pudesse levar A Interpretação dos Sonhos ao estreito entendimento de uma mera criptografia – onde bastaria substituir um elemento por outro e se teria obtido a chave universal condutora ao significado encoberto em todos os sonhos.

Não é raro observar Freud ressaltando  que os conteúdos do sonho estão distorcidos, ele relaciona isso à constante presença de imagens que aparentemente são carentes de sentido; tal fato, para ele, se deveria à explicação das incompatibilidades que os desejos residentes dali apresentariam às exigências de nossa atual vida em sociedade. Sua distorção serviria à proteção de nosso próprio desprazer – levando em consideração a repulsa que nos causaria o encontro de tais desejos às Leis e regras que aprendemos e internalizamos através da linguagem que nos foi imposta. Entretanto, estes não ficariam perdidos para sempre  — au contraire –, apesar de fugirem frequentemente à memória consciente. Aqui mora a hipótese de que nosso Inconsciente encontrará por si alguma maneira de dar vazão às excitações causadas por estes desejos.  Ao menos ao eco dos gritos emitidos pela demanda de tal realização.

Mas, antes de falar das complexas atividades mentais que envolvem a formação dos sonhos e também destes desejos em si, será necessário buscar algum significado para que é o inconsciente. Principalmente para nortear uma leitura a partir da diferenciação que Freud faz às já eram levemente postuladas por outros autores. Mas e aí? O que é o Inconsciente?

O Inconsciente e o Desejo Originário

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(Imagem retirada da Internet)

É possível que um pediatra, daqueles mais interessados à neonatologia, tenha mais propriedade  de informação sobre a ordem em que o corpo de um recém-nascido começa a identificar as excitações que o mundo externo têm sobre seus órgãos dos sentidos do que um psicólogo. E aqui se fala mais sobre os sentidos imediatos, inatos: o tato, a visão, a audição, o paladar e o olfato; do que sobre os outros mais complexos, de desenvolvimento progressivo a posteriori, como o equilíbrio, por exemplo.
O motivo da constatação acima é que, para se falar sobre o Inconsciente, deve-se falar sobre seu suposto início. Portanto, antes da próxima leitura, existirá um pedido a quem lê: lhe é de possibilidade imaginar o choque de realidade que deve ser a saída de um bebê recém nascido do útero de sua mãe? Aquele mesmo Lugar que lhe foi tomado por realidade desde a primeira existência? A agressiva transição do calor, do silêncio e da confortável escuridão presentes em uma placenta para o frio, o barulhento, o odoro (ou fétido) e iluminado ambiente do nascimento. Caso seja possível imaginar este cenário de seu primeiro contato com a nova realidade, parecerá mais difícil uma visualização que envolva a ausência de desprazer. Em um paralelo à vida adulta, é possível que uma pessoa que perde sua moradia a partir de um desastre natural reviva este mesmo primeiro sentimento, de maneira quase idêntica. Talvez o angustiante discurso desta pessoa seja o que se mais se aproximaria do de um recém-nascido, se este já fosse um ser falante que nos permitisse tal comparação. Mas esta é uma visualização essencial para um começo do que envolve a noção de inconsciente.

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O desprazer é possivelmente o primeiro alvo da catexia de alguém que chega ao nosso mundo. E sabe-se que, antes de falar em Pulsão e aproximar os dois conceitos, Freud entendia a catexia como uma espécie de direcionamento de uma ou mais de nossas energias, de nossas funções mentais (afetos/emoções, cognições e volições) para as excitações advindas de nossa percepção sensorial ou para nossos pensamentos. E este ato por si só já era capaz de estabelecer uma maneira de representação mútua entre estes fatores: o desprazer daquilo que eu ainda não sei nomear como frio, é levemente inibido em contato com o calor do corpo de minha mãe – que eu ainda vejo como uma extensão de meu próprio Eu. E isso já pode trazer ao recém-nascido (que se tornou quase que um refém-desabrigado) uma primeira experiência de prazer, que virá em equivalente contraste à primeira sensação de desprazer anteriormente experimentada. Tal representação será melhor adaptada ao Imaginário popular se, além do calor corporal, algo inserido à boca do recém-nascido saciar outro de seus inúmeros desprazeres ainda não nomeados. Este desprazer é a sensação de fome. Que como as outras, “nasce” junto com o bebê. Portanto: “aquilo que me incomoda, que me traz um desprazer imenso, que eu ainda não sei que é a fome e o frio, acaba quando sinto o calor do corpo e a nutrição do leite oriundo do seio daquela pessoa, que eu ainda entendo como uma parte externa de mim”. Percebe-se aqui o registro de um conjunto de primeiras experiências de satisfação que, para Freud, terão como lar o Inconsciente até que consigam alguma forma de revivência através da representação. Uma vez que, a quem foi possível imaginar todo aquele primeiro desprazer simultâneo de antes, também possa ser possível entender a proporção de prazer experimentada nesta primeira experiência de satisfação. A eterna tentativa de reviver este momento é chamada por Freud de Desejo. E talvez seja como se aquela pessoa que acaba de perder sua moradia por um desastre natural, passasse a cavar incessantemente, cavar porque sabe que nos escombros de sua antiga casa há um baú de dinheiro que lhe fará comprar outra maior ainda. A questão é que o desastre foi de proporções muito grandes, portanto, não se sabe exatamente qual é a própria casa perante tantas outras escombradas naquele Lugar.

Consciência e Inconsciente: Um Só Lugar.

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Antes do início do assunto, é importante continuar a estimulação mútua dos sentidos de quem lê o artigo em questão. Se, de acordo com a expectativa do autor, o leitor não percebeu que a música anterior acabou, pode este ser um sinal de um bom engajamento. Mas, não só para este caso uma nova música significante seguirá para acompanhar a leitura.


Quando Freud contesta a afirmativa predominante na época: o fato de que não haveria como tais fatos inconscientes, tais registros de prazer e desprazer de tempos remotos influenciarem na vida psíquica adulta de um sujeito, pois seriam eventos inacessíveis à consciência – sendo esta, a partir de uma recente herança Iluminista, a fonte dominante de toda a mente. Freud considera A Interpretação dos Sonhos o Livro do Século exatamente por este subverter, por esta grande ruptura com o conceito de que a consciência é centro da vida psíquica. Freud dirá que o Inconsciente já registra estes primeiros momentos de catexia – direcionamentos das funções da mente ao que se experienciou ou se experiencia, ou seja, a percepção o prazer e o desprazer – e os utiliza como parâmetro na condução da vida daquele semi-Sujeito. Já adverte desde cedo que o indivíduo dificilmente conseguirá uma satisfação equivalente à primeira, mas, através daquilo que se chamou de Desejo, tentar-se-á eternamente, pois as pequenas descargas de excitação sensorial irão regular a sensação de prazer e desprazer, que por sua vez, vão remeter às primeiras experiências de satisfação e insatisfação. E aqui se fala das experiências de satisfação que serão requisitadas pelo Inconsciente até que encontrem representação para a fuga das censuras da consciência.
E é aqui que está o ponto principal da definição sobre o Inconsciente de Freud: ele já existe antes do próprio consciente. Para Freud, o Inconsciente regula a consciência e não o inverso. E não, a pedido de Freud, este não pode ser observado como uma instância propriamente física, mas sim como todo um conjunto de representações de experiências, percepções e catexias, pensamentos e tudo que a faculdade de fazer representações mentais nos permitiu dar um Nome que fosse Significante – e mais ainda, o que não se foi possível nomear, mas ainda assim se tornou significante. Os registros conscientes futuros serão apenas um mero elo de ligação, encontrados a partir de uma nova e repetida busca pelos registros por aquela tal imensa primeira experiência de satisfação, aqueles primeiros prazeres e desprazeres – que moram nas profundezas das cadeias de pensamento contidas nas representações inconscientes. Tudo isso por fins de revivescência ou evitação. Ou seja: alguns de nossos desejos mais distantes, mais absurdos à consciência, ainda vivem no Inconsciente. E mesmo sofrendo toda a censura demandada por seu conteúdo, hão de encontrar um caminho à consciência. Nem que este seja através dos sintomas psiconeuróticos, dos atos falhos, das piadas e trocadilhos (chistes) e principalmente dos sonhos.
Portanto, para refutar a onipotência dada à consciência até a época, Freud vai dizer que a consciência, que nasce e se amplia de acordo o desenvolvimento bio-psico-social do ser, aparecerá como uma pequena fração do inconsciente, constituída através de representações que a maturação de algumas funções mentais foi permitindo. Freud rebaixa a patente da consciência: de maior representante da mente, para mero órgão sensorial da percepção de atividades psíquicas. E o pensamento é uma delas. Sendo inclusive, encontrado nos sonhos.

 

Antes da ida para o próximo assunto, mais uma pequena pausa será feita. Saiba o leitor e a leitora que aqui há um bom motivo. É hora de continuar as músicas que acompanham quem lê este artigo, pois é possível que a anterior já tenha chegado ao seu final. E, tendo em vista que, ao menos a princípio, o objetivo do artigo não era instituir algum tipo de Falta às audições dos que aqui leem. Estas que já devem estar acostumadas com um som durante esta leitura. Portanto, por que não mais uma música cheia de representações significantes como acompanhamento?

Pensamento e Percepção Sensorial

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Sem dúvida, o pensamento é um privilégio da especie humana. A habilidade de transformação de estímulos sensoriais, captados pelo sistema perceptivos, em representações é, sem dúvidas, um diferencial. Através do pensamento, transforma-se em um livro repleto de palavras aprendidas as nossas Outras funções mentais e/ou da percepção sensorial. As meras percepções sensoriais auditivas, táteis, visuais, palatórias e olfativas, junto com alguns pensamentos, se transformaram no objeto de identificação de milhões de pessoas no mundo. Tudo isso graças à capacidade de representação mental que alguns escritores encontraram em suas relações com as palavras, com o que lhes é significante. Através deste tipo de representação, cuja meta é realizar uma comunicação, uma ligação do que não é observável nem a nós mesmos ao mundo externo. Através da linguagem, o pensamento torna o ser comunicante consigo e com o Outro, dividindo as palavras que lhe foram significantes até aqui. O pensamento é uma representação que, acompanhada de nossas catexias, faz elo entre a nossa Real percepção de tudo, o Simbólico processo de linguagem e/ou nosso Imaginário arcabouço de representações sensoriais. Poderíamos pensar no aparelho psíquico que Freud chama de Pré-Consciente, como um intermediário que funciona de maneira semelhante. Para finalmente ir direto ao ponto, pois é nele que se encontra o processo de Formação do Sonho, retirando partes da consciência enquanto tentar filtrar aquilo que irrompe do Inconsciente. Mas ainda é importante ressaltar: até o pensamento considerado mais insignificante e até as lembranças do dia e da vida menos dotadas de catexias, serão levadas ao Inconsciente, através da representação.

O Pensamento, Os Sintomas e os Sonhos

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Sem muitas delongas, deve-se manter o costume que adquiriu quem lê este texto: a música precisa continuar!

Pensamentos e Sonhos

Freud Sonhos(Créditos da Imagem: Freud Sagaz)

 

É bem possível que a ideia da soberania da consciência tenha vindo em decorrência de nossa constante percepção do próprio pensamento em conjunto com os órgãos sensoriais e motores. Se levarmos em consideração que o fato de estarmos acordados é um simples evento de nossa faculdade de catexia da função cognitiva da atenção, ou seja, esta se direcionando à percepção sensorial de alguns órgãos dos sentidos e habilidades motoras. É também parte deste fato, a ação da consciência à mobilização de nossa função volitiva (vontade) ao desempenho de funções motoras que nos movimentem aos objetivos de vida. Os mesmos que creditamos acontecerem apenas pela nossa própria decisão. E aqui temos um bom exemplo de catexias evocadas a partir de representações que contém uma meta de realização de desejo. A única coisa que escapa ao entendimento geral é o fato de que este desejo que nos faz acordar, caminhar e falar já é uma representação mais elaborada de uma busca por realização de um desejo do Inconsciente. E também escapa que, muito do que encontramos no dia-a-dia, muito do que pensamos nele e muito do que nele vivenciamos, pode e talvez vá fazer alguma representação com um desejo do Inconsciente. E podemos falar até da tentativa de reviver aquela primeira experiência de satisfação. De maneira mais metafórica, é claro. Já que a Real é impossível.

Alguns destes pensamentos que podemos ter, são chamados por Freud de “Pensamentos Diurnos”, e eles também fazem parte do conjunto de pensamentos oníricos (referentes ao sonho). Eles são os pensamentos que são de acesso à nossa consciência e que, eventualmente, parecem ter aparecido em nossos sonhos a partir relações onde se distanciam de algum sentido ao conteúdo que antes foram relacionados. Dificilmente é possível explicar estas aparições. Mais difícil ainda: estabelecer uma relação lógica de imediato à consciência, uma vez que os pensamentos que se tornam sonho eles sofrem uma grande censura – oriunda do trabalho ali realizado. E tal fato os distorce, afastando-os de seu Real significado. Às vezes, são pegos pelo inconsciente aqueles pensamentos mais insignificantes, aqueles que ignoramos com veemência durante o dia e, em um sonho, podem até nos fazer acordar numa explícita falta de ar e sudorese, como se fossem pensamentos irracionais – outros que também fazem parte do sonho. Mas como isso pode acontecer?

Freud vai dizer que, tanto a confusão da percepção sensorial como a tomada de fragmentos insignificantes de pensamentos diurnos e/ou irracionais que eventualmente a acompanham, estão ali porque de alguma maneira se tornaram forma de representação para algum desejo inconsciente. Mas como isso acontece?

Pensamentos e Traços de Caráter, Sintomas e Sonhos
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É ainda necessário introduzir um questionamento importante aos que leem o artigo: é de entendimento do autor o demorado tempo de leitura deste artigo, e é claro que o próximo será mais breve. Entretanto, não podemos escapar à importantíssima questão: a música já acabou? Se já, a próxima está pronta para trazer seu conjunto de referências e representações na letra e nas imagens. Na verdade, foi deixada em espera pelo play que virá.

Pensamentos e Traços de Caráter

É primeiro preciso entender como é a composição do sonho e como esta vem de encontro à realidade. É preciso entender que nosso dia-a-dia é visualizado pela nossa consciência como um conjunto de excitações sensoriais que se juntam aos pensamentos que levam ou não as catexias, isto é, a concentração de nossas funções mentais (afeto, cognição e volição) – vivemos a partir deste conjunto de representações. A partir deste pedaço de lucidez plena dentro do Inconsciente.

Algumas representações têm metas de realização de desejo à consciência, algumas outras são parcialmente ignoradas e assentadas ao inconsciente, como palavras jogadas no meio de um livro, sem uma localização pensada, em uma língua qualquer. E isso é explicado pela notícia que Freud nos traz: mesmo que haja uma ausência de catexia aos pensamentos ou às excitações sensoriais, nada fugirá do olhar do Inconsciente. É bem possível que uma conversa, uma imagem, uma percepção sensitiva ou um pensamento de nosso dia-a-dia faça algum tipo de alusão aos desejos da infância, que estão à plena procura por descarga de excitação – e já situados há algum tempo no inconsciente. E não é segredo que lá se encontram todas estas características carentes de representação, uma vez que a censura operada por nossa resistência jamais permitiria o contato destes à consciência, muito menos uma explícita descarga das excitações, que seria expressamente proibidas aos dias de hoje.  Mas, em nosso dia-a-dia, houve a transformação destas excitações sensoriais em pensamentos, em representações. Ou seja, se meu olfato percebe o perfume de quem me atrai visualmente, meu pensamento consegue representar tal pessoa através da associação destes dois sentidos. Temos aí mais um Traço Mnêmico guardado. Há um progresso, uma progressão da excitação dos receptores sensoriais até que estes se tornem uma representação mental digna ou não de catexia. E isso, que aconteceu durante toda a vida de vigília, toma o caminho inverso nos sonhos: o de regressão dos pensamentos à meras excitações sensoriais, imagens da percepção. É importante acentuar que isso acontece na tentativa de se realizar um desejo de infância apenas a partir das percepções sensoriais que foram bastantes intensas nestes, como se elas fossem apenas um fragmento daquele desejo: pequeno o suficiente para driblar a censura; grande o suficiente para uma leve descarga de excitação. E isso pode acontecer mesmo que apenas se liguem a uma representação e/ou um pensamento desconexos com tal desejo, até porque estes vão servir apenas de bode expiatório, dos mais disfarçados; vão servir apenas como uma ação de Impeachment parcial da censura a partir da redução da força da consciência – obtida através do estado de sono. Isso pode começar a explicar as sensações físicas ligadas às imagens irracionais e aparentemente sem sentido de alguns sonhos. É importante lembrar que também poderá acontecer exatamente o inverso. Mas esta parte continua depois.
E apesar desta parte continuar depois, é importante lembrar que a música não; a música continua agora caso ela tenha acabado, basta o play do leitor. E mantendo a tradição deste artigo, foi escolhida uma outra música que poderia até estar a fazer alusão aos pensamentos oníricos: repleta de signos.

Traços Mnêmicos e Pré-Consciente

Freud diz que, em um sistema intermediário, há o contato dos pensamentos inconscientes com algumas das representações encontradas em nosso cotidiano. Ele chamará este sistema psíquico de Pré-Consciente. Nele,teremos os registros das excitações sensoriais e das representações que formamos através de um traço que Freud chamará de Traço Mnêmico, que carregará imagens perceptivas e relações lógicas e que, se for de escolha do inconsciente, encontrará representação também no que lá fora assentado. Além disso, são estes traços o que sobra das percepções sensoriais associadas à memória, à motricidade. Temos aqui impressões que causaram o maior impacto em nós, situações que mobilizaram descarga de adrenalina (frio na barriga), sudorese, tremores, sorrisos e até as de maior efeito na infância, que nunca se tornaram conscientes e moldaram nosso caráter. Em suma: caráter é o conjunto dos Traços Mnêmicos que mais encontraram representação no apaziguamento dos desejos residentes de nosso Inconsciente. Pode até haver a pessoa dita como possuidora de “mau caráter”, mas nunca a “sem caráter”, uma vez que uma pessoa “sem caráter”, careceria de representações psíquicas de suas percepções sensoriais, de seus pensamentos e vivências – e aqui não é falado apenas das boas.

Quem acompanhou o desenvolvimento da psicanálise, principalmente no que diz respeito à análise dos sintomas histéricos, sabe que algumas manifestações do inconsciente só podiam encontrar vazão através de uma redução das forças de censura da consciência, ou através de uma configuração psicopatológica. A hipnose representou bem este papel de redução da censura consciente. Quando Freud se depara com os Estudos de Charcot (tal encontro é representado no cinema através do filme Freud Além da Alma) e percebe que a redução das forças de censura da conscîencia exercida através da hipnose era capaz de “curar” um sintoma da histeria apenas através da sugestão, nascerá, posteriormente, uma nova configuração psicopatológica para com o sintoma histérico.

O Sintoma Histérico

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Freud vai nos dizer que, para presença de um sintoma histérico, era necessário que houvesse a realização de dois desejos opostos em expressões convergentes. Ou seja, para que algum desejo do Inconsciente fosse realizado, a consciência e suas censuras deveriam receber a atenção equivalente. Num exemplo fictício: um sintoma de falta de desejo sexual em conjunto com um ato de comer compulsivamente – desenvolvido após um abuso sexual na infância. Este ato, primeiramente, foi trazido pela vítima como uma maneira de não possuir um corpo considerado atraente àquela agressão. Ou seja, um corpo que teoricamente não estimularia desejo sexual. Entretanto, há um sentimento de culpa toda vez que se come. E tal sentimento de culpa aparece lado a lado com um sentimento de prazer pela comida. A culpa aparece exatamente porque há prazer. Porque o ato de comer, no relato da vítima, estabelece relação com o ato sexual através de um único significante: prazer. E o ato sexual, por sua vez, estabelece relação com aquela agressão que se tornou um trauma. E já é possível perceber de onde vem o Outro sintoma, o da falta de desejo sexual. Observando essa relação de representações, será permitido sentir o prazer da comida apenas se houver algo que anule a relação da comida ao ato sexual: pois caso contrário, o prazer da comida poderia, a partir de alguma representação de pensamento irracional inconsciente, ser associado à dor do trauma. Uma dor  que impediria a alimentação (o que pode acontecer em alguns casos de anorexia nervosa), como já impede a realização de qualquer ato sexual. Após o trauma, a vítima nunca mais se permitiu sentir qualquer tipo de prazer que se distanciasse da extrema dor ou extrema culpa, pela simples associação (aparentemente irracional) da palavra em si.  Seria um problema se, o prazer sentido ao comer, fizesse qualquer tipo de alusão àquele ato, pois ele também evocaria uma enorme culpa. E para tal culpa, há o desejo de punição. Pois, para que seja permitido algum tipo de prazer, esta pessoa não poderia ser objeto de desejo de alguém – e em seu conceito, faria isso possuindo um corpo que sua cultura não considerasse sexualmente atraente. O prazer sentido através da comida faria a vítima ignorar boa parte de suas necessidades sexuais, entretanto, este prazer produziria culpa pela distorção de seu corpo. Só que esta culpa seria preferível à qualquer outra resultante de algum tipo de alusão a prazer perante aquela agressão que só lhe causou dor. Portanto, os sintomas histéricos fariam encontro de dois desejos mutuamente opostos, sendo um do Inconsciente e sua cadeia de representações irracionais; e outro que ocorreria como forma de afastar o primeiro da consciência, nem que para isso houvesse a distorção deste desejo. No caso do sintoma histérico, a dor do sintoma seria uma alusão, em proporções menores, à angústia que seria causada pelo rápido porte daquele desejo à consciência, mesmo que por uma representação irracional – para que entendamos a dimensão da discrepância entre o teor dos desejos inconscientes originários na infância e as leis que regem a psiquê daquele sujeito social. Entretanto, é importante mencionar que esta vítima fictícia trouxe durante sua análise que, no mesmo período etário em que ocorreu o abuso, talvez até um pouco antes, esta pessoa havia começado a se masturbar. E o fazia mesmo em uma família religiosa, onde o ato era expressamente proibido. Neste caso, será deixado aos leitores a tarefa de investigar, perante o que já lhes foi explicado, como esta última informação se conectaria às outras. É por isso que este tipo de trauma costuma ser melhor elaborado através da verbalização, da ressignificação de algumas palavras: porque ele é uma própria expressão de algumas palavras. Ou seja, o sintoma é um conjunto de representações psíquicas da infância, com fins de realização de desejo que se encontra com representações psíquicas atuais em profunda oposição, com fins de realização de um desejo oposto ao primeiro. O sintoma somático liga o pensamento proibido à consciência através das percepções sensoriais do corpo.

O Sono e o Desejo de Dormir

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(Créditos da Imagem: Freud Sagaz)

Freud vai nos dizer que o estado de sono é sim, como a hipnose, um poderoso redutor das forças de censura que atuam não só na consciência, mas também no que ele vai chamar de Pré-Consciente em sua Primeira Tópica. E todo redutor das forças de censura se torna, consequentemente, um facilitador da descarga de excitação daquilo que é de repúdio à consciência: nossos desejos mais profundos. A revivência de primeiras experiências de satisfação, mesmo que estas jamais sejam facilmente aceitas pelas leis que fomos submetidos dentro da civilização. Entretanto, há no Pré-Consciente um trabalho que permite que tais desejos possam ter sua descarga de excitação sem que necessariamente apareçam explicitamente à consciência, de maneira parecida com a que ocorre nos sintomas histéricos, mas através do sonho.

Se o sintoma histérico é o encontro de dois desejos opostos numa via convergente, o sono faz algo semelhante. Após o dia inteiro filtrando pensamentos, percepções sensoriais e representações com ou sem propósito à consciência, o Pré-Consciente é encarado por Freud como aquele que vai abrigar o desejo de permanecer dormindo. E a única coisa que afetaria este desejo (apenas para lembrar: Freud sempre falou de representações, de esquemas de pensamentos e palavras, nunca de instâncias biológicas) de continuar dormindo, seria a possibilidade iminente de algum desejo originado na infância irromper para a consciência. O processo que permite isso se chama regressão, pois ele é capaz de transformar pensamentos em percepções sensoriais, fazendo o inverso do que fazemos na vida de vigília. Ou seja, durante o dia, o Pré-Consciente pode tomar o Traço Mnêmico que a excitação sensorial de uma descarga de adrenalina (frio na barriga) apenas para fazer alusão ao que se pensou enquanto a sentia, ou ele pode apenas pegar fragmentos de uma notícia mal lida no jornal da banca, relacionando-a a alguma excitação sensorial de um antigo desejo do inconsciente que se relacionou através de uma foto, uma palavra da manchete ou algo do tipo. Logo, se durante o dia transformamos o que sentimos em pensamento, durante a noite transformamos os pensamentos no que sentimos. E principalmente: aquele pensamento, aquele desejo que passou despercebido, pode se ligar a algum dos mais repudiados que um ser humano pode carregar. O sonho, formado no Pré-Consciente, pode tomar o significado inteiro de pequenos fragmentos de algo – e isso tem exatamente o propósito de levar um desejo originário do inconsciente à sua realização, sem que ele invada a consciência. Entretanto, é preciso que haja alguma descarga de excitação. Às vezes, como numa piada, o segundo sentido de uma palavra, que é costumeiramente ignorado, tem mais importância para a realização de um desejo e para o disfarce desta.

O processo de driblar a censura e realizar um desejo que busca uma urgente descarga de excitação (talvez por ter encontrado alguma analogia a si durante o dia, talvez por ser algo pensado impossível durante o dia, talvez os dois!), exige que os sonhos realizem algumas modificações nos seus conteúdos. Como por exemplo, tomar a excitação sensorial de um evento do passado em uma imagem ou narrativa do dia de hoje. E talvez isso aconteça porque algum fragmento daquela imagem pode fazer referência e, consequentemente, representação àquele primeiro desejo por busca de satisfação. Um exemplo fictício: um indivíduo sonha que consegue finalmente se eleger deputado – seu desejo dos dias de hoje –, entretanto, quando alguém lhe diz que “irá cassar seu mandato por quebra de decoro”, este sente um medo surreal, entra em pânico e acorda logo em seguida. Suando, tremendo e chorando. Um sonho aparentemente irracional, mas que, se este indivíduo pára para lembrar, lá no passado, a pronúncia de seu pai ao dizer a palavra “mandado judicial de busca e apreensão” lembraria a palavra mandato. E nisso não haveria problema nenhum, se seu pai não a tivesse pronunciado perante os policiais que vieram lhe levar preso àquele dia que o garoto nunca esqueceu. As palavras “mandato” e mandado são parônimos, o que as torna coisa suficiente para o escape daquela representação mental consciente encontrar o desejo inconsciente – mas o inverso também poderia acontecer. E tal fato só acontece porque o pré-consciente prefere realizar um conjunto de processos de Trabalho do Sonho do que interromper o sono. Ou seja: o desejo de permanecer dormindo e, logo, manter a baixa censura à consciência, ajuda a continuar com a realização do desejo, ou da visualização do trauma infantil que não são permitidos à consciência, por conta das fortes emoções negativas e do desprazer ali promovido. O indivíduo acorda suando e tremendo, pois as duas palavras conectaram os dois eventos demais, a censura do Pré-Consciente não foi suficiente. Então, enquanto o desejo do consciente (ter mandato de parlamentar) é realizado, a imagem do pai sendo levado (cassar/caçar/buscar/ter mandado de busca e apreensão) lhe evoca a mesma tremedeira e sudorese que sentira àquela época, ele se sente tão apreensivo quanto àquela época. E talvez isso até se localize por ter sentido raiva do pai àquele dia, já que ficara de castigo, pois ficou de castigo e apanhou com o cinto de couro (quebra de decoro) por não ter feito o que o Outro lhe havia mandado – informação que o sujeito pode trazer ao narrar seu sonho.

A questão é que ele acorda exatamente porque a sudorese, a tremedeira são percepções sensoriais – e, diferentemente dos pensamentos, que estão distorcidos de sentido, estas são visíveis à consciência. Freud diz que o sonho é um despertador, pois este é o momento que a consciência começaria a perceber fragmentos (agora apenas sensoriais) que representariam a intensidade daqueles desejos proibidos. E há nomes para os processos que fazem este trabalho de distorção do sentido do sonhos: deslocamento e condensação. 

Deslocamento e Condensação – Aqui se “Perde” o Sonho

Deslocamento

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Em definição rápida: o processo de deslocamento é obra da censura psíquica; sua consistência está em deslocar o sentido de uma representação que contenha nosso desejo para uma outra que aparentemente não traz relação nenhuma à anterior. E não só o sentido, podemos falar da própria intensidade. Se voltarmos ao exemplo de nosso Deputado com Mandato Cassado, a ação do mecanismo de deslocamento estaria em atribuir à palavra Mandato, as excitações sensoriais de seu par parônimo: Mandado.  Ora, sabemos que é muito difícil e burocrático para um deputado ter o mandato cassado. Toda aquele susto não era necessário, já que se trata de um processo longo e digno de muitos recursos. A questão é que houve a ligação de toda aquela angústia acoplada à palavra mandato, através do deslocamento ela que se ligou à culpa do menino por ter sentido raiva do pai ao apanhar e ficar de castigo, como se esta culpa encobrisse um suposto desejo de seu desaparecimento, uma raiva proibida, já que o castigo era injusto, uma vez que ele só havia deixado de fazer o que o Outro Mandou. O processo de deslocamento é o movimento (deslocamento) da intensidade psíquica presente em uma representação, isto é, atribui-se muita importância no sonho ao que jamais teria tanta importância na vida real, mas o faz exatamente porque há representações daquilo que já se sentiu na vida Real. Mas, após um trabalho de análise do sonho, é possível que se possa entender a ligação entre as duas representações.

É como se, após anos realizando o mesmo trajeto até em casa, alguém fica perdido numa rua de seu bairro que nunca entrou, numa rota alternativa ao mesmo destino que nunca utilizou; a verdade é que, eventualmente alguma rua ou avenida irá se cruzar e o sentido de seu trajeto nunca esteve perdido, apesar de só conseguir enxergar as coisas assim àquele momento. Freud vai nos dizer que é possível encontrar os desejos que impulsionaram os sonhos em seus detalhes mais insignificantes, pois estes são os que sofreram o deslocamento para driblar a censura; pois estes são os que, em paradoxo, detém mais sentido perante sua própria aparente ausência de sentido. Em geral, estes pensamentos sem sentido são aqueles que foram ignorados pela consciência enquanto outros, considerados mais importantes, receberam a catexia da atenção.

Jacques Lacan (1901-1981), em seu Seminário 6 (26 de novembro de 1958), ao se referir a este processo de deslocamento utiliza uma analogia interessante, mostrando este próprio efeito de contiguidade dos sentidos completos a partir mínimos fragmentos:

[…] Vejam, sigam os textos, vejam de que se fala, em que exemplos se apoiam, e
reconhecerão perfeitamente que a contiguidade não é outra coisa senão esta combinação discursiva na qual se funda o efeito que chamamos aqui a metonímia” (p.56-57). “Contiguidade por outro lado que distinguimos por exemplo numa experiência de palavras induzidas. Uma palavra virá com uma outra: se a propósito da palavra ‘cereja’, evoco evidentemente a palavra ‘mesa’, isso seria uma relação de contiguidade porque em tal dia havia cerejas em cima da mesa” (p.57).

Como é possível observar, Lacan utiliza uma figura de linguagem para se referir ao processo de deslocamento. E, para quem estudar tal figura de linguagem, também será possível encontrar um sentido similar em sua definição perante o que disse Freud sobre o Deslocamento.

Entretanto, é inadmissível à consciência de quem escreve este artigo, saber que há algum tipo de deslocamento da trilha sonora deste artigo, portanto, as músicas continuarão a trazer seus significantes ao texto. E esta talvez seja a mais exemplificadora de todas. Dê o play.

Condensação

Transparent bowl with condensed milk and teaspoon on table

Existe uma linha tênue entre o deslocamento e a condensação. Enquanto o deslocamento retira o sentido e a intensidade de uma representação (do desejo) e as coloca em outra que, de alguma forma, estabelece ligação com ela a partir de pequenos fragmentos, palavras e imagens aparentemente insignificantes; a condensação é o ato de se reduzir todo o sentido em um lugar só.  O deslocamento troca as partes de um quebra-cabeças e as coloca em Outro, que se assemelha pelo tamanho das peças, mas deixa claro ali a ausência de sentido nas imagens de encaixe; além disso, ambas as peças também têm cores parecidas além do mesmo tamanho. A condensação é reduzir o quebra-cabeças a uma única peça. A uma única parte. E, se este quebra-cabeças completo é o desejo que vem do inconsciente, esta única parte é o sonho, após sua condensação.

Em uma metáfora mais próxima à realidade brasileira, é possível utilizar perfeitamente o exemplo do Leite Condensado da marcar Nestlé – O Famoso Leite Moça. Se o processo de condensação do leite está em transformar 5 litros de leite com açúcar em 1 litro de leite condensado, o processo de deslocamento está em transformar 1 litro de leite condensado em apenas Leite Moça. Ou seja: tomar o nome do produto pelo nome da marca. Entretanto, se já conhecemos o processo de condensação, saberemos que temos ali 5 litros de leite com açúcar. Mas vale ressaltar: quando falamos das forças de censura, o deslocamento poderia acontecer na própria palavra açúcar, por si só.

E, se Jacques Lacan (1901-1981) toma o deslocamento como uma metonímia, não seria sem sentido que ele também tomasse a condensação por uma figura de linguagem – a metáfora. Em seu Seminário 3 (2 de Maio de 1965), ele fala sobre o mesmo assunto que se estendeu até agora:

“Se uma parte, tardia, da investigação analítica, aquela que concerne à identificação e ao simbolismo, está do lado da metáfora, não negligenciamos o outro lado, o da articulação e o de contiguidade, com o que aí se esboça de inicial e de estruturante na noção de causalidade. A forma retórica que se opõe à metáfora tem um nome – ela se chama metonímia. Ela concerne à substituição de alguma coisa que se trata de nomear – estamos, com efeito, ao nível do nome. Nomeia-se uma coisa por uma outra que é o seu continente, ou a parte, ou que está em conexão com” (p.251).
“A oposição da metáfora e da metonímia é fundamental, pois o que Freud colocou
originalmente no primeiro plano nos mecanismos da neurose, bem como naqueles dos fenômenos marginais da vida normal ou do sonho, não é nem a dimensão metafórica, nem a identificação. É o contrário. De uma forma geral, o que Freud chama a condensação, é o que se chama em retórica a metáfora, o que ele chama o deslocamento é a metonímia” (p.252).

É possível entender então que a metáfora toma por forma Simbólica o significado de um conjunto de palavras em uma só – e aí, após o que disse Lacan, pode-se dizer o mesmo do processo de condensação.

Portanto, o sonho existe para a vazão de nossos desejos mais intensos oriundos da infância, segundo Freud. Eles são uma forma conhecermos aquilo que nos foi negado através da linguagem, da Lei. Os sintomas são Outra. O Sonho naturalmente passará por dificuldades em ser recordado, pois passa por severo trabalho de censura antes de chegar à consciência e, mesmo que seja, corre o risco de ser gradualmente esquecido de acordo com o despertar da censura. Entretanto, neste texto foi falado apenas sobre os chamados Processos Primários, deixando o recalque e outros assuntos do Processo Secundário para uma continuação. E nesta continuação é prometida uma elaboração maior de alguns conceitos que, infelizmente, foram tocados com bastante superficialidade por aqui.

Fim.

A partir de tudo isso escrito, fica a esperança do autor para que haja algum entendimento sobre a leitura que faz Freud sobre o que acontece nos sonhos. E, se neste texto for possível encontrar algum leitor ou leitora de boa memória, lhe virá a lembrança de que ele foi iniciado a partir de um sonho. O sonho que Tartini tem com o diabo, tendo este tomado a representação de toda a sua parte negada como seu escravo, que lhe toca a melhor das sonatas no violino que pega emprestado de seu Senhor. A Interpretação deste Sonho caberá a cada leitor ou leitora que se arrisque.

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REFERÊNCIAS:

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Tradução de Walderedo Ismael de Oliveira: Rio de Janeiro: Imago Ed. 2001.

LACAN, Jacques. O seminário livro 3; as psicoses (1955-1956). Texto estabelecido
por Jacques-Alain Miller. Trad. Aluísio Menezes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1985.

Seminário 6, o desejo e sua interpretação:  Aula de 26 de novembro de 1958 Lacan, Jacques, 1901-1981. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação/Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução Claudia Berliner. – 1.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

 

 

 

Esquizofrenia e Genialidade: John Nash – O Equilíbrio entre Uma Mente Brilhante e Doente.

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A Psicologia Atrás da (o) Matemática (o)

Talvez, nos dias de hoje, seja mais fácil reconhecer um gênio por sua excentricidade, estranheza ou solidão do que por seu conhecimento. Estranhos e rejeitados à sociedade comum, eles são poucos de nós – e não se misturam!Há quem diga que Isaac Newton sofria da Síndrome de Asperger, enquanto outros dizem que este teve um colapso psicótico aos seus 51 anos, que encerraria sua carreira; há também uma forte hipótese de que Nikola Tesla era portador do Transtorno Obsessivo-Compulsivo. É intrigante pensar sobre o demasiado número de gênios que foram enquadrados em patologias. Não há um consenso entre as relações dos Transtornos Mentais com a genialidade, mas há, acima de tudo, um consenso de que tais personalidades sempre aparecem de tempos em tempos para uma revolução na nossa realidade.

Tivemos gênios em diversas áreas. Mas se formos escolher os da matemática como exemplo: Copérnico, Pitágoras e Bhaskara possivelmente seriam outros gênios com perfis que chamariam a atenção (negativamente, é preciso dizer) da sociedade em que estavam. Porque, por coincidência ou não, citando quem escreveu a biografia do gênio que escolhemos, a jornalista Sylvia Nasar nos diz que “A falta de traquejo social era considerada parte de um autêntico matemático”. Nasar é a autora de “Uma Mente Brilhante”, livro que deu origem ao filme homônimo, ganhador de 4 Óscars, sobre a vida de John Nash, um gênio matemático que revolucionou os estudos sobre Economia. Sobre o que disse Nasar, um aluno de graduação em Princeton corrobora sua afirmação, dizendo que:

“[…] ser excêntrico e ser bom em matemática eram duas coisas que combinavam. Pensávamos em nós mesmos como se tirássemos vantagem do fato de sermos inteligentes por ignorarmos as convenções que nos desagradavam. Transformamo-nos um pouco em personalidades excêntricas”.

Mas e quando um matemático se torna excêntrico e estranho demais aos próprios matemáticos? Seria um sinal de genialidade ou de alerta? Felizmente, não iremos falar de matemáticos em sua aleatoriedade, o nosso assunto – e o de uma boa parte da comunidade científica do Século XX – é John Nash. O estudante de engenharia química que migrou para a matemática. E transitando entre ela, a economia, geometria e até à criação de jogos populares como o Hex, John Nash recebeu seu mestrado junto com sua graduação – um pouco antes de receber seu título de doutor (PhD – Philosophiae Doctor) pela Universidade de Princeton, aos seus 21 anos de idade. Tal título foi concedido por sua brilhante contribuição para a The Theory of Games and Economic Behavior de John von Neumann e Oskar Morgenstern. Dentro das pesquisas matemáticas feita por Nash na Teoria dos Jogos, uma das mais famosas é popularmente conhecida como O Equilíbrio de Nash. Acredite, estamos falando de um dos mais brilhantes matemáticos da História.

Entretanto, John Nash, o matemático brilhante que foi vencedor do prêmio Nobel de economia do ano de 1994, em função de sua brilhante tese de doutorado, foi acometido pela expansão de sua Mente Brilhante. Aos 31 anos, com seu filho prestes a nascer e um pouco depois da morte de seu pai, o mesmo cérebro que antes era invejado por muitos, foi tomado por delírios e alucinações tão potentes, intensos e verdadeiros que se comparavam até com seus geniais insights matemáticos. O gênio, agora era o louco. Mas este texto foi escrito para mostrar que sua história é maior do que isso. Boa leitura.

Infância e Adolescência

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Há um constante hábito, que antigamente era mais atribuído aos psicólogos e aos psicanalistas, de as pessoas em geral associarem uma doença mental a algum tipo de trauma ocorrido na infância. Suposições sobre um ambiente permeado pela violência doméstica, abandono, negligência, abuso de substâncias e até sobre abuso sexual, não são incomuns quando tocamos no assunto das psicopatologias. Tais hipóteses, com toda a certeza, não se aplicam à vida de John Forbes Nash Jr.

Nascido em Bluefield, West Virginia, Johnny, como era conhecido em casa, teve uma infância como a de qualquer outra criança, exceto pelas suas excentricidades.
Quando não estava em casa lendo livros e enciclopédias sobre eletricidade, geologia, clima e astronomia, o pequeno Johnny – que escolheria sempre os livros às brincadeiras com outras crianças – realizava perguntas sobre tais assuntos no banco de trás do carro de seu pai, John Forbes Nash, um engenheiro que trabalhava viajando pelo estado a inspecionar torres de transmissão da companhia para a qual ele trabalhava. Tais perguntas eram sempre respondidas, uma vez que o Sr. John sempre tratou seus filhos (Johnny e Martha) como adultos, dando a Johnny livros de ciência no lugar dos de colorir.

A pessoa mais preocupada com o comportamento “muito dedicado aos livros e ligeiramente esquisito” de Johnny, era sua mãe Margaret Virginia Martin (futuramente Nash), uma ex-professora que já havia estudado inglês, francês, alemão e latim.
Apesar das muitas tentativas de incentivar sua socialização através de matrículas em diversos cursos, Virginia foi aceitando aos poucos que Johnny seria naturalmente “especial, solitário e introvertido”. Se por um lado o garoto já realizava experimentos científicos de diversos tipos aos 12 anos, por outro, tinha baixo rendimento escolar e uma desastrosa vida social. Nash tinha mais interesse em estudar seus livros do que seguir o desinteressante currículo escolar, ou pior: fazer amigos.

Universidade de Princeton

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Nash fez muita coisa em Princeton. Não era incomum, em certa época, vê-lo assobiando músicas de Bach pelos corredores. Seu olhar – não tão diferente de sua personalidade – costumava ser o de alguém arrogante e desinteressado às outras pessoas. Mas há também quem tenha visto a terrível cena de nosso gênio com os punhos fortemente cerrados, bater repetidamente sua cabeça em uma das paredes do refeitório, enquanto sua angústia transbordava fortemente pelas suas contraídas expressões faciais.

No Fine Hall, o mais famoso corredor do Instituto de Estudos Avançados da Escola de Gênios, John Nash, que defendia que as pessoas não lessem tanto, uma vez que “aprender muito em segunda mão asfixiaria a criatividade e a originalidade.”, chegou, pessoalmente, a questionar gênios nada anônimos como John von Neumann e Albert Einstein.

Seu hobbie era pensar. Mas seu pensamento era diferente. Não buscava recordar fórmulas ou teoremas, Nash buscava insights. E tinha insights únicos. Segundo outros filhos de Princeton, era comum ver Nash assobiando “A pequena fuga” de Bach enquanto parecia pensar. Ou então sentado, deitado ou em pé em algum lugar. Sempre visivelmente mergulhado em seus pensamentos. Simplesmente pensando. Arthur Mattuck, um matemático nascido em 13 de Junho de 1930, exatamente 2 anos após o nascimento do também geminiano John Nash, fazia seu doutorado em Princeton àquela mesma época. Ele já chegou a afirmar, em 1995, sobre o:

“[…] poder de concentração demorada de Nash. Este conseguia ficar pensando num problema durante seis meses.”

Em função de sua genialidade, a passagem de Nash pelo Instituto de Estudos Avançados de Princeton foi rápida, começando no segundo semestre de 1949 e encerrando-se em maio de 1950 com a tese de doutorado chamada “Jogos Não-Cooperativos”, onde apresenta o famoso Equilíbrio de Nash.

A Teoria dos Jogos e o Equilíbrio de Nash

A Teoria dos Jogos passou a ser mais amplamente estudada na matemática e na economia após a publicação do livro Teoria dos Jogos e do Comportamento Econômico (1944). O livro do matemático John Von Neumann e do economista Oskar Morgenstern, procurava também teorizar uma solução para os principais problemas econômicos, mostrando que mesmo a economia sendo uma ciência não-exata, era possível estabelecer uma contingência de suas variáveis. A obra compara o comportamento humano na economia com o comportamento humano nos jogos em geral, evidenciando os conflitos de estratégia entre os participantes – “Será que se eu renunciar minha sede por vencer sozinho e me unir com um de meus adversários, eu poderia ganhar de todos os outros?” – e seus possíveis resultados, que, acreditava Neumann, poderiam ser favoráveis se os jogadores cooperassem entre si, fazendo coalizões. Um exemplo disso, seria quando duas empresas resolvem realizar uma fusão, pois assim derrubariam uma terceira concorrente e dominariam tal mercado, os famosos oligopólios.

A lacuna deixada, entretanto, foi nos jogos de soma zero (aqueles em que para um ganhar, o outro necessariamente deve perder) com mais de dois jogadores, onde havia a necessidade de uma teoria, cuja sua principal função seria analisar os resultados de decisões racionais, tomadas por agentes envolvidos em situações que demandem uma jogada específica na hora certa – leilões, jogos de cartas ou tabuleiro, guerras e até investimentos econômicos na Bolsa de Valores. Deve-se então, analisar as melhores estratégias disponíveis para que se leve vantagem sobre seus adversários e/ou concorrentes. Entretanto, neste caso não seria possível a comunicação com outros jogadores para que formassem coalizões. Portanto, estes seriam os chamados “jogos não-cooperativos”. Na sábia síntese de Sylvia Nasar, existia a tentativa de criar “[…] uma teoria sistemática do comportamento humano racional, enfocando os jogos como cenários adequados para o exercício da racionalidade humana”.

O Dilema dos Prisioneiros

Vamos supor que você, caro leitor (a), é pego pela polícia e é acusado de dois crimes. Há provas suficientes para que você seja condenado pelo primeiro crime, mas não há provas para que sequer te prendam pelo segundo. Entretanto, você tinha um cúmplice que também foi pego e vocês serão interrogados em salas separadas. Ambos já ficarão seis meses presos. Mas há um porém: vão oferecer a você e a seu cúmplice a chance de liberdade perante a confissão do segundo crime – o que acarretará 10 anos de pena ao comparsa, já que isso seria um testemunho contra ele, uma traição. Entretanto, há o risco de ambos confessarem o crime. Acontecendo isso, haverá um testemunho de cada, corroborado pelo do outro. Exclui-se, portanto, a necessidade de mais provas. Isso acarretaria 5 anos de prisão para cada um. Denominamos tal situação como um exemplo de Jogo Não-Cooperativo, onde “eu penso que ele pensa que eu penso” enquanto “ele pensa que eu penso que ele pensa”.

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Já que não se pode combinar com o outro a melhor estratégia através de uma coalização, deve-se então, pensar no conjunto das melhores estratégias que seu “oponente” poderá utilizar. Assim, deve existir alguma forma de a aplicação de sua melhor estratégia encontrar um ponto de equilíbrio, ou seja, um ponto em que ambos ganhem o máximo e percam o mínimo, perante a aplicação da estratégia adversária. Nash, em sua genial tese de doutorado, consegue estabelecer um cálculo, digno de um Nobel, apontando que em todo conjunto de estratégias, haverá um Equilíbrio de Nash.

No caso dos prisioneiros, então, o Equilíbrio de Nash ocorrerá com a confissão, uma vez que ela lhe trará o melhor benefício. Se o seu cúmplice for fiel e não confessar o crime, você ficará em liberdade e ele cumprirá dez anos. E se ele te trair como você o fez, ambos cumprirão 5 anos. Chega-se nesta conclusão porque supõe-se que o outro agente pensará em seu próprio e máximo benefício da mesma forma.
No filme Batman, O Cavaleiro das Trevas, temos um exemplo embasado nesta mesma teoria:

O Experimento Social do Coringa

Ambos os navios serão detonados à meia-noite. Porém, cada navio possui um detonador que explode o outro e ambos não podem se comunicar entre si. Tudo que se sabe a respeito das possibilidades de escolha do outro é: em um dos navios temos criminosos condenados, portanto, pessoas que supostamente já fizeram mal para outras; no outro, temos civis inocentes, que em função do pensamento contido na afirmação anterior, poderiam enxergar os criminosos como pessoas inescrupulosas o suficiente para lhes explodir sem pensar duas vezes. Logo, em ambos os casos, há a chance de que os passageiros de um dos navios escolham detonar o outro navio, exatamente por acreditarem que os passageiros do outro navio fariam exatamente isso, pelo mesmo motivo.

Se levarmos em conta o Equilíbrio de Nash – o Coringa certamente o fez – a escolha mais sensata é a de apertar o detonador o mais rápido possível. Uma vez que isso impediria tanto a explosão à meia-noite, que seria realizada pelo fantástico personagem interpretado por Heath Ledger, quanto à explosão preventiva dos passageiros do outro navio. Mas, diferentemente da economia, das guerras e do Poker, no filme havia uma variável que alterou todos os resultados. Uma variável impossível de ser prevista por Nash ou por qualquer outro gênio da história: O BATMAN.

A Esquizofrenia Paranóide

Ao ser questionado pelo professor de Harvard e matemático George Mackey, “como um homem dedicado à razão e à prova lógica – um matemático como ele! – pode acreditar que estaria sendo recrutado por alienígenas do espaço exterior para salvar o mundo?” John Nash responde, esquecendo de toda e qualquer pitada de emoção no rosto que um ser humano deve ter ao dizer algo:

“As idéias que eu tinha sobre seres sobrenaturais vinham a mim da mesma forma que minhas idéias matemáticas. De modo que eu as

considerei seriamente”.

Para o psiquiatra Anthony Storr, a difícil compreensão da coincidência entre o número de de gênios e loucos poderia estar ligada ao fato de que seja possível dizer que “algumas pessoas criativas […] usam suas ideias e capacidades criativas de modo defensivo. […] o trabalho criativo protege um homem da doença mental […]”. Anthony Storr, The Dynamics of the Creation, (Nova York: Atheneum, 1972).

Sua certeza de que recebia mensagens subliminares através de notícias do The New York Times e suas novas e estranhas teorias matemáticas, que envolviam numerologia agregada à hipóteses sem sentido algum, foram questões intermediárias à sua carreira iniciada aos 23 anos, como professor do Massachussetts Institute of Tecnology (MIT) e sua primeira internação em um hospital psiquiátrico aos 31 anos.

A esquizofrenia, assim como fora batizada pelo Dr. Eugen Bleuler em 1908, é um “tipo específico de alteração do pensamento, dos sentimentos e da relação com o mundo exterior”. Antes chamada de Demência Precoce, é uma doença marcada principalmente pela presença de delírios – discursos de grandeza (exacerbação da própria posição ou situação) e/ou persecutoriedade (ser alvo de uma perseguição ou conspiração de algo ou alguém) – e de alucinações – percepções reais de imagens, sons, cheiros, toques e gostos que não existem fisicamente, deixando um, dois ou todos os cinco sentidos alienados à realidade. Seu maior problema, no entanto, é o “profundo sentimento de incompreensibilidade que o paciente provoca nas outras pessoas”.

Essa quebra de contato com a realidade comum, faz com que ninguém consiga entender o paciente, mesmo que este frequentemente aparente estar lúcido e demonstre extrema articulação verbal em seu discurso. Não é incomum que muitas pessoas acreditem em um delírio, uma vez que seu interlocutor pode ser muito convincente – por de fato sentir que vive tal realidade. As vozes ouvidas costumam corroborar – e muito! – o conteúdo de um delírio. Discutir é inútil: é como alguém ir até um cirurgião, em plena mesa de operação, e tentar convencê-lo de que ele é um motorista aposentado.

O encontro da esquizofrenia com a nossa dita normalidade, se assemelha ao diálogo telefônico de duas pessoas morando em países de fusos horários opostos. Ambas compartilham do mesmo tempo e espaço. Mas para que uma vivencie a luz, a outra, necessariamente, precisará viver na escuridão. Bastaria então, para termos o que apelidar de loucura, que uma contasse à outra sobre o lindo e ensolarado dia que vê da janela de seu quarto. Ou seja: acreditar na lucidez da outra pessoa, seria o mesmo que aceitar a própria loucura. Porque tudo aquilo é vivido verdadeiramente.

“Uma doença incurável chamada consciência.” – F. Dostoiévski.

A esquizofrenia é comumente interpretada como a ausência da razão. Mas o psicólogo Louis A. Sass, a relata “não como uma fuga da razão, mas uma exacerbação daquela doença [consciência] total imaginada por Dostoiévski[…] uma alienação não da razão, mas da emoção, dos instintos e da vontade”.

Outros de seus sintomas mais comuns são os chamados “Sintomas Negativos”. Estes trazem uma total dissociação da afeição, do pensamento e da vontade. A emoção se torna ausente nos olhos, nas feições e nos movimentos de seu corpo. Há uma apatia e frieza em relação ao Outro que assusta. A parte curiosa é que, em um mesmo indivíduo, ou de um para o outro, a variação de sintomas é tamanha, que ainda não há, em absoluto, a definição de um “caso típico”, como postula Sylvia Nasar na biografia de Nash. Há na pessoa o contorno do que era antes, mas seu conteúdo voou como fez uma borboleta de seu antigo casulo. Nash se sentia preso em sua condição psíquica, como ele mesmo disse: “Tenho a impressão de que sou como a vítima de uma espera excessivamente longa pela libertação […]”.

“Um crescente nível de consciência é um perigo e uma doença”.

Friedrich Nietzsche.

A Crise de Refugiado

Apesar de inúmeras tentativas de seus amigos e colegas matemáticos, as sucessivas internações psiquiátricas e surtos, que já chegaram a acontecer até em meio a palestras que Nash viria a dar, foram parte de um conjunto de fatores que o levaram, inevitavelmente, a ficar desempregado e sozinho, causando até o afastamento de sua irmã e de sua esposa, Alicia Nash.

Em plena Guerra Fria, Nash queria se considerar um refugiado na Europa. Tentou fazer a renúncia de sua cidadania estadunidense inúmeras vezes, tão falhas quanto os pedidos de refúgio que fez à França e à Suíça em meio às suas perambulações em campos de refugiados, embaixadas, prisões e abrigos. Viajou pelo Cairo, Tebas, Mongólia e Guiana. A biógrafa de Nash explica tal momento de sua vida brilhantemente: “Assim como a hiperconcretude de um sonho se relaciona com os temas intangíveis da vida em vigília, a busca de Nash por um pedaço de papel, uma carteira de identidade, reflete sua antiga procura por insights matemáticos”.

John estava em um surto tão intenso, que se considerava o “Príncipe da Paz”, o “Pé Esquerdo de Deus” ou o “Imperador da Antártida”. Essa era a natureza grandiosa de seus delírios. E apesar destes terem feito o matemático a vagar por vários continentes, os estudiosos sobre os delírios não os vêem como a entrega da pessoa à doença, e sim como uma tentativa desta de se reestruturar à realidade, como “esforços heróicos para manter algum tipo de equilíbrio mental”, como diria o pesquisador E. Fulley Torrey. Não é atoa que estes têm uma lógica quase incontestável.

A Remissão

Apesar da apatia, da indiferença às emoções e da devastação de sua vida social e profissional, Nash tinha medo da normalidade. Talvez porque a normalidade seja uma fábrica de homens medíocres, talvez porque, como já disse Contardo Calligaris em seu seriado Psi!, esta seja “A pior das patologias, pois não tem cura e é altamente contagiosa”. Talvez tenha sido este o fundo de verdade da brincadeira que Nash fez uma vez, enquanto estava internado, com seu amigo Donald Newman ao perguntar: “E se eles não me deixarem sair até que eu esteja NORMAL?

A Esquizofrenia não devastou só a mente de Nash, mas o fez perder o contato que tinha com sua irmã Martha, com seus dois filhos (um bastardo e um legítimo), com sua esposa e a vasta maioria de seus amigos e colegas de trabalho. Em função de sua doença e da total devoção de sua esposa, sempre disposta a acompanhá-lo onde quer que fosse, seu filho legítimo, John Charles Martin Nash, ficou por volta de ano sem receber um nome e até morou com sua avó quando seus pais foram à Europa. Como o bebê nasceu em meio a um surto de Nash, Alicia, sua esposa, preferiu esperar até a melhora do pai para que seu filho viesse a ter um nome. Ele era chamado de “bebe épsilon”, uma piadinha matemática. Os matemáticos diziam que todo bebe nasceria sabendo solucionar a Hipótese de Reiemann e desaprenderia até os 6 meses. Uma curiosidade: Nash estava decidido a provar tal hipótese como verdadeira ou falsa um pouco antes de ser internado em um surto pela primeira vez.

Entre suas internações psiquiátricas, seus momentos de lucidez e até nos tempos em que John era considerado “bom” o suficiente  não ser internado, mas “doente” o suficiente para não ter um pingo de normalidade em sua vida, Nash passou um tempo vagando pelos corredores do Instituto de Estudos Avançados de Princeton. Não sendo reconhecido pelos que já tinham estudado a sua própria teoria – que a este ponto já era considerada importantíssima, ele era considerado “O Fantasma de Fine Hall”. A doença, que havia chegado ao seu auge em poucos meses dos anos 60, apresentou seus primeiros sinais de remissão no começo dos anos 90. Sua melhora “foi um esvaziamento gradual”, como diria ele próprio.

Chegando a este ponto de leitura, já está claro que o pensamento de John Nash se mostrou, de alguma forma, superior ao da maioria. Há certamente um conjunto de especialistas que duvidem disso, mas para o nosso Nobel de Economia, quando perguntado sobre como e quando aconteceu a remissão de sua doença, ele responde: “Aos poucos, comecei a rejeitar intelectualmente certas linhas de pensamento influenciadas pelo estado de delírio […]”. Nash compara sua recuperação ao “[…] papel da força de vontade para se fazer uma dieta efetiva: se fizermos um esforço para “racionalizar” nosso pensamento, então poderemos simplesmente reconhecer e rejeitar as hipóteses irracionais do pensamento delirante”.

O problema é que, infelizmente, a remissão da esquizofrenia pareceu levar embora de John uma parte de sua inteligência. Seus insights foram embora, era mais difícil trabalhar em suas teorias. Não se saberá nunca se isso foi resultado dos tratamentos com insulina, se foram as repetidas doses de torazina e outros antipsicóticos neurolépticos, ou então, se a loucura de John Forbes Nash Jr. era apenas um sintoma de sua genialidade. Um estilo de pensamento único, que considerava mil possibilidades de um mesmo problema em milissegundos. O embotamento cognitivo típico da esquizofrenia foi fatal à Mente Brilhante de Nash. Ele mesmo considerava seus pequenos intervalos de lucidez como “interlúdios de racionalidade forçada”. A remissão o fez recuperar sua vida, mas nunca a sua essência de gênio. Ele mesmo diz:

“O pensamento racional impõe um limite à ideia que a pessoa tem de sua relação com o cosmo […] as pessoas pensavam que eu estava recuperando minha inteligência brilhante, mas eu, na verdade, estava retrocedendo a níveis de pensamento cada vez mais simples”.

A percepção de quem consegue superar e se recuperar de um quadro crônico de esquizofrenia, poderia ser semelhante ao despertar de um sonho lúcido. Em meio àquela imersão da imperceptível surrealidade do sonho, se este é bom, a vida real adquire um gosto amargo, ficamos tristes em sair daquele meio de realizações, onipotência e prazer. Por outro lado, se tivermos um pesadelo, é um grande alívio sabermos que ainda temos a chance, a esperança, de uma vida inteira de escolhas. Pois as más escolhas feitas durante o sonho saíam completamente de nosso controle. Mas se há algo que a vida de John Nash nos ensina, é que, sem dúvidas, a esquizofrenia se diferencia de um sonho ou pesadelo a partir dos rastros que sua surrealidade deixa na vida de quem a experiencia.

John Forbes Nash Jr.

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Dê play na inspiração dos assobios de Nash:

Nascido em 13 de junho de 1928, seus vícios eram assobiar músicas de Bach pelos corredores de Princeton enquanto procurava insights matemáticos em sua mente, repleta de atalhos ao pensamento genial. Teve dois filhos: John David Stier, que passou a vida sem a presença e sem o Nome do Pai. E John Charles Martin Nash, que herdou, juntamente ao Nome Próprio, a inteligência e, posteriormente, a crônica esquizofrenia paranoide — o tripé da fama de seu pai.

O único amor maior que a matemática em sua vida, foi o correspondido amor por Alicia Nash. O homem de quase 1,90m, passou de um jovem arrogante matemático ao vencedor do Premio de Economia em Homenagem a Alfred Nobel, em 1994, em função de sua contribuição à Teoria dos Jogos.

Se alguém lhe dizia “Bom Dia”, John Nash iria buscar a fórmula matemática que eliciaria tal comportamento àquela forma. Talvez em um contraste ao seu interesse pelas relações humanas em geral, Nash se tornou um dos maiores gênios no que diz respeito à análise do comportamento humano. Não pelos seus praticamente inexistentes estudos em psicologia ou psiquiatria, mas por carregar em si, o fardo daqueles que mudam para sempre a história do limitado pensamento “humanóide”, como ele já nos chamou.

Morreu aos 86 anos, como que por missão, lado a lado com sua esposa Alicia Nash, em 23 de maio de 2015. Sua morte aconteceu dias depois de conquistar o Abel, a premiação máxima na Matemática, pelo desenvolvimento do PDE (Partial Different Equations, ou equações parciais diferentes). O motorista de táxi da cidade de Nova Jersey, a mesma onde fica Princeton, seu centro de realizações, falhou em uma ultrapassagem que resultou em uma colisão que levou o casal, sem cinto de segurança no banco de trás, para fora do veículo. Tenho certeza que onde quer que esteja, o matemático estará criando uma fórmula para entender a razão do choro que tantos de nós, mortais e de intelecto mediano, derramamos em função de sua partida. Nash não só Equilibrou a Teoria dos Jogos e do Comportamento Econômico, como também equilibrou o lado brilhante com o doente de sua mente, mas, principalmente, se Equilibrou entre os preconceitos de um mundo conservador e preconceituoso, que agora será obrigado a conservar uma das mais lindas e históricas contribuições para a matemática. Mesmo que está tenha sido deixada pela maior representação do medo conservador: um diferente.

 

 

 

Fontes:

https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economic-sciences/laureates/1994/nash-bio.html

Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição

https://rbsc.princeton.edu/sites/default/files/Non-Cooperative_Games_Nash.pdf

Livro consultado para a maior parte do texto: Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind), de 2001. Sylvia Nasar.

 

Todas as imagens contidas no texto foram retiradas da internet, onde já estavam disponíveis de forma livre e gratuita. Caso seja o proprietário de uma destas imagens acima e considerou seu uso indevido, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos.

Será que ele/ela me trai? Se não deixa pegar o celular é porque tá Traindo, Bebendo ou por que o Relacionamento é Saudável?

celular

Será que devo mexer no celular do parceiro?

A resposta é categórica e definitiva: não se você quiser estar em um relacionamento saudável. Mas por quê?

A Era dos Smartphones

Se pudéssemos escolher algo que defina completamente a década atual, definitivamente o celular representaria bem este papel. Apesar de já existir há muito tempo, foi na segunda década do século XXI que o smarphone, o celular como conhecemos hoje, se difundiu.

Acesso à internet, acesso às mais diversas redes sociais, conexão muda ou não com o mundo inteiro. Hoje é possível conversar, de graça, com alguém do outro lado do mundo sem dizer uma palavra sequer, quase que inutilizando as operadoras de telefonia. Mas, falando à China ou à esquina, algo não mudou: a comunicação deixa rastros – e é exatamente sobre eles que este texto vai falar sobre.

Só uma olhadinha…

vigiando

Estar em um relacionamento pode ser algo extremamente agradável, ou não. Mas Freud já nos avisou que estamos fadados a continuar procurando referências nossas citadas por alguém. Ou seja: continuaremos procurando aquelas coisas – ansiedades, desejos, traços, comportamentos, imagens, semblantes, alturas, vozes, etc – que completariam aquela figura idealizada por nós do parceiro perfeito. E ok, isso acontece. Não há nada de errado em querermos quem nos lembre (ou nos faça esquecer) de nossos pais, irmãos ou até de nós mesmos. O problema é quando solicitamos (ou ordenamos) provas cabais de que estamos ao lado desta pessoa que queremos. Pior ainda: quando isso é feito de sob intensa vigília.

A fidelidade – o ato de ser fiel – é um fardo muito grande. O fiel, segundo o dicionário, é aquele que tem fé, aquele que acredita mesmo sem provas. Mas será? Não é incomum encontrarmos relacionamentos onde as pessoas pedem “provas” da monogamia exercida pelo outro. E na Era Digital, na Década dos Smartphones, algumas pessoas querem o direito – apenas exercido pelos que detiverem um mandado judicial – de vasculhar o celular do par romântico, nem que seja só uma olhadinha.

Tá escondendo o quê?!

Há uma semelhança muito grande entre o ciúmes e a paranoia: a certeza. Assim como o indivíduo paranoico tem certeza de que estão falando, rindo, tramando contra ele, o ciumento tem a certeza de que é traído. A diferença é que a paranoia não é tão reforçada e romantizada na nossa sociedade: através de novelas, músicas e filmes. Mesmo que, em ambos, seja muito difícil (e desgastante) mostrar para aquele indivíduo que ele está errado. E já que estamos na Era dos Smartphones, qual seria a principal fonte de provas para as nossas convicções? Sim, você acertou. Aquele que, em muitos banheiros do mundo, desempregou os rótulos de shampoo; aquele que nos salva de filas de banco e até da solidão e ansiedade de esperar por alguém em algum lugar: o celular. Detentor de rastros de quem somos, do que fizemos e de nossos planos. E se você se recusar? Estará reforçando aquela certeza que já existia, logo, está escondendo alguma coisa errada. Portanto, está traindo.

celular relacionamento abusivo

Mas vou como saber se a pessoa está sendo fiel?

No bom e velho português? Você não vai. Me preocupa que principalmente no Brasil, algo seja de uma naturalidade que me causa muito espanto: a condenação ocorre antes da acusação e o único advogado de defesa possível é a renúncia do direito à privacidade! Mas se a fidelidade é a Lei, e esta deve ser cumprida como regra, não deveria ela então, como toda regra, ter uma exceção? Pelo menos, acredito eu, em sua “fiscalização”, deveria. Pois já sabemos: o preço da fiscalização eficiente é a liberdade. Mas seria este, necessariamente, o preço de um relacionamento? Talvez não em um que seja considerado saudável.

A fidelidade é um presente que não se pode desembrulhar para saber como é. É como aquele caro adorno que se dá para alguém que pouco se vê: você nunca saberá se a pessoa ficou grata ou jogou no lixo, mas sempre terá a certeza de que você fez o seu melhor e acredita que a pessoa faria o mesmo por você.

É preciso confiar

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É preciso confiar na pessoa que escolheu para dividir suas alegrias e tristezas; saúdes e doenças; riquezas e pobrezas, pois assim somente a morte – literal ou figurada – de seu amor os separará; e não o ciúmes, a vigília, ou pior, o celular. Mil vezes a pessoa sorrirá lendo uma mensagem, dez mil ouvindo um áudio; mas se há confiança, tu não se sentirás traído.

Só se ama alguém que seja digno de nossa confiança. E convenhamos, o que te faz ficar com quem não merece a sua? Uma coisa é certa: enquanto continuarmos procurando n’outro a nossa certeza de uma traição, a dúvida do quanto somos amados ou o interesse deste por outrem: encontraremos, existindo ou não. Mas vale lembrar o que a necessidade desta procura já nos conta: se olharmos para dentro, veremos que tudo isso está morando conosco já há muito antes.

Talvez seja a hora de terminar com a insegurança.

Por Caio Cesar Rodrigues

Como Vencer o Vício em Drogas? Dependência Química: Internação Resolve?

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Afina, o que é dependência química?  É caso de polícia ou de Saúde Pública? O que fazer?

Ainda se alguém não conheceu um dependente químico, com certeza já ouviu falar sobre o assunto nos noticiários. Seja sobre a famosa "cracolândia", seja sobre as ações politico-policiais que a envolvem. Mas o que caracteriza a dependência química? Qual a diferença entre um usuário eventual e um dependente? A melhor solução seria cadeia, internação ou nenhum dos dois? 
A Sociedade dos Psicólogos preparou um texto exclusivo sobre o assunto.

O que é Dependência? Quem pode ser considerado um dependente químico?

Como podemos diferenciar um usuário de um dependente? É muito comum observarmos na grande mídia a utilização de termos como “usuários” e “dependentes”. Mas o que significa cada um destes termos?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) a dependência química é uma doença crônica, progressiva (piora com o passar do tempo) e primária — pois outras doenças aparecem em sua decorrência. A dependência química é um transtorno mental caracterizado por um grupo de sinais e sintomas decorrentes do uso de drogas.
De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em junho de 2017, 5% da população mundial consumiu algum tipo de droga em 2015 (aproximadamente 250 milhões de pessoas) e pelo menos 190 mil morreram neste mesmo ano por causas diretas relacionadas com entorpecentes.
O Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, mostra especial preocupação pois há cerca de 29,5 milhões de pessoas que sofrem com transtornos graves pelo consumo de drogas.

Uso, Uso nocivo e Dependência:

Pode-se entender que o Uso é caracterizado como a administração de qualquer quantidade de substância psicoativa no organismo.
Na definição dada pela OMS, através da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), o chamado "abuso", é chamado de Uso Nocivo, caracterizado por:

• Evidência de correlação entre o uso da substância e danos físicos, psicológicos e/ou comprometimento das capacidades de julgamento ou disfunções comportamentais; 
• Dano claramente identificável à vida do usuário;
• Uso contínuo durante um mês ou repetido ao longo de 12 meses;
• Com exceção da intoxicação aguda, não há critérios que identifiquem outro transtorno relacionado à substância em questão.

Ainda seguindo os padrões do CID-10, a Dependência é caracterizada por:

• Forte desejo ou compulsão pelo uso da droga;
• Incapacidade de controlar os níveis de consumo;
• Presença da Síndrome de Abstinência (conjunto de Sinais e Sintomas físicos e/ou psicológicos após interrupção do uso de substâncias);
• Tolerância à substância;
• Abandono de atividades prazerosas ou de grande interesse para o consumo de drogas;
• Uso contínuo apesar das consequências.

O Uso de Drogas no Brasil

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Uma vez que conseguimos entender melhor as definições tão utilizadas na grande mídia, será possível que possamos nos aprofundar mais no assunto. Entretanto, é necessário algum embasamento: como é o uso de drogas no Brasil?
Apesar de poucas pesquisas realizadas, existem dados que mostram um pouco sobre como o brasileiro se relaciona com as drogas.
A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) realizou duas pesquisas para entender como se dava a relação da população brasileira com as drogas lícitas e ilícitas.
Tais pesquisas foram realizadas em domicílios e em universidades.

Uso de Drogas — Um Levantamento Domiciliar

Em 2005, 7.939 pessoas passaram por entrevistas feitas diretamente em domicílios de todo o país. Foram feitas perguntas específicas e garantia de sigilo. Assim, foi realizado o II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: Estudo Envolvendo as 108 Maiores Cidades do País. Realizado pelo SENAD. 
Através dele, foi possível identificar que, entre os brasileiros:

• 74,3% já fizeram uso de Álcool na vida, enquanto 38,3% no último mês;
• 44,0% já fizeram uso de Tabaco na vida, enquanto 18,4% no último mês;
• 8,8% já fizeram uso de Maconha na vida, enquanto 1,9% no último mês;
• 2,9% já fizeram uso de Cocaína na vida, enquanto 0,4% no último mês;
• 0,7% já fizeram uso de Crack na vida, enquanto 0,1% no último mês.
Confira a pesquisa completa.

Uso de Drogas entre Universitários:

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Já em um outro estudo, alguns resultados são um pouco mais elevados. No estudo realizado com 12.711 universitários em Instituições de Ensino Superior (públicas e privadas) em todas as regiões do país em 2010, a Secretaria Nacional de Politicas sobre Drogas, ao realizar o I Levantamento Nacional sobre o uso de álcool,tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras, constatou:

• 86,7% já havia feito uso de Álcool alguma vez na vida, enquanto 60,5% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 26,1% já havia feito uso de Maconha ou variações dela alguma vez na vida, enquanto 9,1% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 7,7% já havia feito uso de Cocaína alguma vez na vida, enquanto 1,8% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 1,2% já havia feito uso de Crack alguma vez na vida, enquanto 0,2% fizeram uso nos últimos 30 dias.
Confira a pesquisa completa.

Há uma Epidemia de Dependência Química no Brasil?

A impressão que temos ao observar os noticiários ou ações policiais é de que o Brasil apresenta índices altíssimos de dependência de drogas. Entretanto, as pesquisas acima parecem não justificar todo este alarde.
Mas o que poderia, então, ser motivo de tanta preocupação e veiculação do assunto à nossa mídia?
Por que há a preocupação de alguns políticos em mobilizar forças policiais, autorizações de internação compulsória e uma clara política de combate às drogas no país?
As crackolândias são problemas reais, mas o uso de drogas não parece ser tão alarmante assim. Então o que poderia ocasionar este fenômeno nas grandes cidades?
Ainda é difícil dar uma resposta definitiva a esta pergunta. Entretanto, algo é fato: existe um perfil específico de usuário que frequenta as crackolândias — e é possível que aqui more algum tipo de explicação.

O Perfil do Usuário — Quem usa Crack no Brasil?


perfil usuário crack

Em 2013, juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz e o Ministério da Saúde, a Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas (Ministério da Justiça) realizou outra pesquisa, desta vez diretamente sobre o uso de Crack e outras drogas, tentando identificar o perfil dos usuários.
Os pesquisadores entrevistaram cerca de 7 (sete) mil usuários de crack/similares em todos os estados do Brasil e no Distrito Federal.
Era necessário ter mais de 18 (dezoito) anos e ter usado Crack, Pasta Base, Merla ou Oxi em pelos 25 dias nos últimos 6 (seis) meses.
A partir desta pesquisa, pode-se finalmente traçar um perfil dos usuários de Crack no Brasil com uma amostra significativa. Algo inédito até então.

Segundo a pesquisa, temos:

A "cara" do Dependente Químico:

• Mais de 50% dos usuários de Crack têm entre 18 e 29 anos;
• Cerca de 80% são do sexo masculino;
• 80% são de etnia considerada "não-branca" (pardos ou negros).

Nível de Escolaridade:

• 5% não terminou nenhuma série sequer;
• 55% tem escolaridade localizada no período da 4ª à 8ª série do Ensino Fundamental;
• Cerca de 20% possuí Ensino Médio completo ou Incompleto 
• 5% possui Ensino Superior.

Onde mora o Dependente Químico?

• 40% dos usuários declaram morar em casa ou apartamento próprio ou da família;
• 35% relataram estar em situação de rua.

Drogas Utilizadas em Conjunto com o Crack e Similares:

• 92,1% admite ter feito uso de Tabaco;
• 83,8% admite ter feito uso de Álcool;
• 76,1% admite ter feito uso Maconha;
• 52,2% admite ter feito uso Cocaína.

Fatores que Motivaram o Uso de Crack/Similares:

• 58% dos usuários dizem que o uso se deu por ter conseguido a droga ou ter sentido vontade/curiosidade de conhecer seus efeitos;
• 29,2% relacionam o uso às perdas afetivas (lutos, términos de relacionamento, etc), problemas familiares e/ou abuso sexual;
• 26,7% alegam que foi a pressão dos amigos;
• 8,8% à falta de perspectiva ou uma vida ruim;
• 1,6% à perda do emprego ou fonte de renda.

Outro dado alarmante é que 78,9% dos usuários de crack e/ou similares disseram vontade de realizar tratamento.

A pesquisa conclui, portanto, que o usuário de Crack no Brasil costuma ser um homem jovem, negro ou pardo, que foi pouco escolarizado; que mora na rua, usa mais de uma droga, tem pouco contato com a família e/ou amigos ou histórico de violência física e/ou sexual; além de querer realizar tratamento contra a dependência.
Clique aqui para visualizar a pesquisa na íntegra.

Um Relato em Primeira Pessoa

Será que é possível estabelecer uma relação entre o relato do usuário acima e os dados da pesquisa?

• O homem aparenta ter entre 30 e 40 anos, é negro e está desempregado;
• Sua residência é uma moradia improvisada — uma casa de madeira;
• Relata que o uso da droga o afugenta de seus problemas pessoas (20-25 pedras por dia) e também faz uso de outras drogas;
• Possui uma relação distante de sua família;
• Quer realizar tratamento (já realizou 12 vezes);
• Sente-se sem forças, sem perspectiva de vida e socialmente estigmatizado;
• Tem um histórico de perdas

Observando o perfil dos usuários e a desestabilização que a dependência em crack causa, podemos até, por alguns momentos, a entendermos também como um problema social.
Contudo, este viés dificilmente é abordado nas soluções oferecidas aos usuários — frequentemente vistos como criminosos reais ou potenciais.
Mas quais são as soluções atualmente oferecidas? 
Seriam elas as mais efetivas?

A Solução

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Em função do aumento exponencial da concentração de usuários de crack nas grandes cidades, podemos observar maiores índices de roubos, furtos e tráfico de drogas nas redondezas de onde se instalam as crackolândias. Em uma relação lógica, o aumento da criminalidade fará necessária a mobilização de um maior emprego da força policial.  Entretanto, há quase um consenso entre os especialistas: este é um problema de saúde pública.

Após anos e mais anos da adoção de medidas como: o aumento do policiamento, das investigações criminais e  de ações violentas de dispersão de usuários, as políticas de combate à crackolância pareceram finalmente visualizá-la como um problema de Saúde Pública. Entretanto, na Cidade de São Paulo, por exemplo, um dos pontos mais polêmicos desta nova visão foi a solicitação de prévia autorização judicial para a internação compulsória. 
Afinal, seria esta a solução mais adequada para o tratamento da drogadição?

Internação Compulsória é Efetiva?

Em fevereiro de 2016, um grupo de pesquisadores publicou no The International Journal of Drug Policy o artigo: The effectiveness of compulsory drug treatment: A systematic review.
O artigo tinha exatamente o objetivo de analisar se há indícios científicos de eficiência nas políticas de tratamentos compulsórios que eram impostas a alguns usuários — no que diz respeito às reduções de reincidências no uso de drogas e crimes praticados por seus usuários.
Foram selecionados 430 estudos em potencial (em língua inglesa, espanhola e portuguesa) para que a partir daí fosse feita uma triagem dos que serviriam ao critério. Entretanto, a deficiência no número de pesquisas sobre o assunto foi alarmante: apenas 9 (nove) estudos puderam ser utilizados.
Os estudos incluíam vários tipos de tratamento compulsório — inclusive aqueles que aconteciam após prisões por uso de drogas (como acontece em alguns estados dos EUA — um país que apresentou dados compatíveis aos que o estudo necessitava).
Dentro destes casos, avaliou-se como os tratamentos impostos (entre eles a internação compulsória) seriam eficientes para cessar o uso de substâncias, bem como a reduzir as taxas de reincidência nos crimes praticados por usuários após a realização do tratamento compulsório.

Dentre os nove estudos que puderam ser utilizados, concluiu-se que:

• Em três destes estudos (33%), não foram encontrados impactos significativos nos tratamentos compulsórios quando estes são comparados com políticas de prevenção do uso de drogas;
• Em dois estudos (22%), os resultados foram considerados equivocados, mas não foram comparados com as políticas de prevenção;
• Em dois estudos (22%), os resultados observados foram considerados negativos no que diz respeito aos impactos dos tratamentos compulsórios na reincidência de crimes;
• Em dois estudos, os resultados observados foram considerados positivos, no que diz respeito aos impactos do tratamento compulsório na reincidência de crimes.

Em uma conclusão final o artigo concluiu que, de fato, a literatura científica ainda está limitada, no que diz respeito à avaliação da eficiência dos tratamentos compulsórios perante o uso de drogas.

Entretanto, também diz que os poucos estudos disponíveis não sugerem melhores resultados nas abordagens de tratamento compulsórias.
Os autores ainda enfatizaram que alguns estudos sugeriam potenciais danos em tais abordagens.

A mensagem final deixada pelos cientistas foi que: considerando o potencial que o tratamento compulsório tem para o abuso dos direitos humanos, deve-se priorizar as modalidades de tratamento não-compulsórias buscando reduzir os danos relacionados.

Apesar de o estudo não ser focado exclusivamente na Internação Compulsória, ele no mínimo aponta que não há evidências diretas na eficácia de tratamentos realizados contra a vontade do usuário.

Confira o artigo (em inglês) na íntegra.

Qual é a melhor solução?

Com a precariedade de estudos científicos sobre o tema, ainda é muito difícil definir a melhor abordagem sobre o assunto.  No vídeo a seguir, temos o relato de alguns ex-usuários falando sobre como foram seus tratamentos, suas novas perspectiva de vida e as dicas que dão aos que buscam ajuda.

Há também no vídeo, o posicionamento do Doutor Arthur Guerra, que já foi Presidente do International Council on Alcohol and Addictions -ICAA e hoje é Professor Titular de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC e Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.

Complementando o posicionamento do ex-usuários e do especialista, a Sociedade do Psicólogos também acredita que pode-se combater a dependência química com mais veemência a partir:

• Da Realização de Programas de Prevenção ao Uso de Drogas nas escolas e comunidades:
Se os leitores bem se lembram, existe um perfil dos usuários de drogas. Dentro deste perfil, podemos observar que o nível de escolaridade mais comum entre os usuários de crack no Brasil é definido nas séries do Ensino Fundamental. A partir desta informação, é possível que haja uma abordagem de prevenção focada principalmente nos estudantes deste curso. Recomenda-se que esta abordagem seja realizada por profissionais do ramo — psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e agentes de saúde;

• Do Aumento Significativo no Investimento e Incentivo de Pesquisas Científicas:
Não só no Brasil, mas no mundo inteiro ainda existe um número precário de pesquisas a respeito da eficácia das diferentes modalidades de abordagem nos tratamentos de drogadição. O investimento em pesquisas científicas sobre o assunto é algo considerado crucial para que surjam novas modalidades de tratamento ou melhoria nas que estão atualmente disponíveis;

• Do Aumento da Inclusão de Políticas Sociais — Moradia, Reinserção no Mercado de Trabalho, Reinserção no Ambiente Escolar, etc:
Levando em consideração que os usuários mais comuns pertencem a um grupo em situação de vulnerabilidade social, é possível identificar (ou ao menos supor) que muitas vezes o uso de drogas está relacionado à ausência de condições básicas que garantem a dignidade humana (uma vez que uma parcela significativa dos usuários está em situação de rua, tem baixa escolaridade e pouco ou nenhum contato afetivo). Uma hipótese neste caso ,seria se a recuperação do que foi perdido (ou nunca conquistado) poderia impactar nos níveis do uso de substâncias.

Deixe a sua Opinião:

Deixe seu comentário. Você poderá nos apresentar pesquisas sobre o assunto, críticas, elogios ou até (se assim desejar) compartilhar experiências pessoais que envolvam tal situação. Sua opinião será muito bem-vinda e com certeza será bem acolhida.

FaceApp – Fascinação e medo na clínica dos idosos

Por que o aplicativo que nos mostra mais velhos chama tanta atenção?

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(Imagem retirada da Internet)

De tempos em tempos um aplicativo chamado FaceApp cai no gosto do povo e chama a atenção geral. Já conseguiu “mudar” o gênero da face das pessoas e transformá-las em bebês. Nos últimos meses, outra aplicabilidade interessante causou alvoroço geral na rede. A possibilidade de “predizer” como você estará daqui à alguns anos. Ou seja, com base em uma foto de sua escolha, realiza um processo de envelhecimento artificial e apresentava um resultado (na maioria das vezes bizarro).

Não deu outra, a internet foi abaixo. O aplicativo acumulou mais de 150 milhões de fotos em questão de dias.

O debate acerca da privacidade envolvendo esses aplicativos fica para outro dia (e recomendo essa reportagem).

Espelho e formação da imagem

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(Imagem retirada da Internet)

A nossa imagem corporal é constituída em um longo processo mental, que é sempre pautado pela relação com o Outro. Jacques Lacan (1901 – 1981) introduziu a noção de estádio do espelho, que, resumidamente,  nos auxilia a compreender a constituição do sujeito em relação ao outro. Sugiro que todos se remetam ao próprio texto, mas para já é importante apontar que o aporte corporal do sujeito é dado pelo outro. A nomeação de nosso corpo e filiação é dada pelo Outro, e é simbolizada pelo sujeito.

“Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficiente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago.” (Lacan, 1951/1998, p. 97)

Logo após a constituição dessa unidade imaginária (Eu), o sujeito passa de uma relação auto-erótica, anterior, primária, a uma relação de narcisismo, onde o investimento libidinal volta-se sobre si mesmo, mas de uma maneira organizada.

 

Diana e Mario Corso (2018) falam da formação da imagem no adolescente, e como esse período determinará nossa relação com o espelho para o resto da vida. A adolescência é o momento onde formamos nossa assinatua visual, como fala Diana. “Sempre que olharmos para o espelho, é esse adolescente que vamos enxergar, e ele vai nos cobrar”. As selfies insistentes dos adolescentes (e dos nem tão jovens) podem ser entendidos como esse apoio para a formação da imagem.

 

 

A morte, segundo Freud se coloca como a castração final. E nos é impossível, conceber a nossa propria morte em seu aspecto completo, realmente imaginar nosso desfalecimento.

Muitos pacientes relatam imaginar e fantasiar sobre o seu próprio funeral. O que aconteceria, quem viria, se haveriam lágrimas sendo derramadas ou sorrisos exibidos.

O que argumento é, talvez o que importa no fato do app nos transformar em velhos é a possibilidade de poder mostrar para o outro. Olhar e ser olhado. Toda relação é a três como já dizia o velho Freud. Em uma passagem interessante do livro Como ler Lacan? (2010), do irreverente Slavoj Žižek, ele comenta esse aspecto (o leitor me perdoará desde já a longa citação):

“Essa referência inerente ao Outro é o tópico de uma piada infame sobre um pobre camponês que, tendo sofrido um naufrágio, vê-se abandonado numa ilha com, digamos, a Cindy Crawford. Depois de fazer sexo com ela, ela lhe pergunta como foi; sua resposta é “Foi ótimo”, mas ele ainda tem um favorinho a pedir para completar sua satisfação: poderia ela se vestir como seu melhor amigo, usar calças e pintar um bigode no rosto? Ele lhe garante não ser um pervertido enrustido, como ela verá assim que lhe fizer o favor. Quando ela o faz, ele se aproxima dela, dá-lhe um tapinha nas costas e lhe diz com o olhar malicioso da cumplicidade masculina: “Sabe o que me aconteceu? Acabo de transar com a Cindy Crawford!”

 

A clínica psicanalítica com idosos

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(Imagem retirada da Internet)

É possível analisar idosos? Agora, respondo que sim. Antes, talvez tivesse mais resistência para com isso. A kilometragem de divã nos ajuda bastante.

Para Freud (1898/1996), analisar idosos poderia não ser uma boa idéia pelo fato da neurose estar tão arraigada que não haveria tempo de realizar o tratamento psicanalítico, haveria “muito material”.

 

A psicanálise faz com que o sujeito reflita sobre seu próprio desejo, e muitas vezes ajuda a recriá-lo. A velhice pode ser tida por alguns como período de espera pela morte. O analista aposta no sujeito, para que ele ainda podem ter sonhos.

A clínica psicanalítica faz com que o sujeito possa se re-inventar, encontrar outras formas de satisfação e lidar de maneira menos tóxica com a perda dos objetos.

 

Lembro de um episódio específico da série televisiva “Friends” quando todos fazem 30 anos, onde a forma como cada um lida com isso é mostrado. Muitos não aceitam, alguns inclusive querem fazer um pacto com Deus para não mais envenlhecer.

Como dizia Freud: Existe vida antes da morte.

Até a próxima,

Por Igor Banin

PS:

Sobre esse tema, acho interessante a leitura dos textos abaixo. Um deles trata de um experimento feito por um fotógrafo onde ele junta imagens de pessoas idosas, com retratos das mesmas quando jovens. O outro é um artigo da psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, que também faz uma análise do aplicativo FaceApp. Além disso, seguem também os comentários do psicanalista Christian Dunker acerca da clínica na velhice.

https://extra.globo.com/noticias/mundo/fotografo-americano-poe-idosos-para-se-verem-mais-jovens-no-espelho-em-ensaio-10969068.html

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2019/07/vida-longa-as-vovozinhas-assanhadas.shtml

 

Referências Bibliográficas

Crane, D & Kauffman, M. (2000). Friends: The one where they all turn thirty. Estados Unidos da América: Warner Bros. Television.

Freud, S. (1898/1996). A sexualidade n aetiologia das neuroses. In Primeiras publicações psicanalíticas. (pp. 249-272, Obras completas de Sigmund Freud, v.3). Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1951/1998). O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In Escritos. (pp 96 – 103). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Zizek, S. (2010). Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

“Adolescentes e adultos: tudo fora do eixo”. Palestra da série: Adolescência em cartaz por Mario Corso e Diana Corso, feita em 2018. Promovido pela CPFL Cultura.

Diferenças entre Medo, Fobia e Ansiedade.

Você saberia diferenciar medo, fobia e ansiedade? Sim? Não? Em ambos os casos: este texto será perfeito para você.

O Grito. Obra-prima em óleo sobre tela do pintor expressionista norueguês Edvard Munch. Foi pintada no ano de 1893 e atualmente pertence ao acervo da Galeria Nacional de Oslo. O Pintor se inspirara muito em Vincent Van Gogh, tendo a autoria de sua obra frequentemente confundida, como se fosse do pintor holandês. Suas cores, suas formas, seus traços e as expressões faciais ali representadas são frequentemente associadas ao sentimento de medo, fobia, angústia e ansiedade do ser humano.

O Medo

E se você pudesse sentir medo pela primeira vez?

Outro dia me peguei pensando sobre o que seria uma reação estranha e incômoda de meu corpo. Mais ainda: o que seria esta reação que ao longo de minha vida aprendi a enxergar como algo normal, mas no sentido de quase inexistente: inerente. Tal fato fez com que eu me questionasse: como poderia ser sentir isso pela primeira vez? Este questionamento se deu quando eu estava com meus pensamentos envoltos sobre o ato de sentir medo. Afinal, o que é isso?

O Medo é uma emoção. Uma emoção básica. Se você ainda tiver dúvidas sobre o que é uma emoção, consulte este texto do psicólogo Caio Ferreira. O medo é uma resposta neuropsicofisiológica, com caráter evolutivo, por vezes mais motivado à via cultural, por outras pela via instintiva. Mas sua convergência é uma só: o medo sempre causará fortes desconfortos físicos e/ou psíquicos a quem o experimenta.

Se você encontrar um Leão…

“Hércules luta com o leão de Nemea” é uma pintura de Francisco de Zurbarán exibida no Museu do Prado em Madri, Espanha.

Pra que serve o medo?

O medo é uma emoção que provoca descargas de adrenalina; que aumenta ou diminui o fluxo de sangue do corpo — pode causar vasodilatação ou vasoconstrição – provocando vermelhidão ou palidez na pele; o medo dilata as pupilas para melhorar nossa capacidade de visão até em ambientes mais escuros; o medo é até capaz de provocar a liberação de urina ou fezes de maneira involuntária. E há tantas outras descrições… Embora estas interações emocionais – ocorridas em muitas áreas do cérebro, mas principalmente na integração entre a amígdala, o hipocampo e o hipotálamo – apontem principalmente um caráter de paralisia ou fuga – maior fluxo sanguíneo para maior produção de ATP e maior energia muscular para correr; liberação de urina e/ou fezes com função de afastar predadores através do odor, por exemplo – o medo também pode ser uma forma de preparar nosso corpo para uma luta. Inclusive, paralisia, luta e fuga são respostas autônomas ao medo. Tanto no ser humano como nós animais.

Por exemplo na imagem acima. Hércules, apesar de ter derrotado o Leão de Neméia através de uma árdua luta, provavelmente não teria deixado de sentir medo. Contudo, outras pessoas (e me incluo nessa lista) provavelmente não lutariam contra um leão. Algumas ficariam paralisadas, tremeriam suas mãos e pernas e ficariam com dificuldade para respirar; outras correriam; algumas até poderiam utilizar o córtex pré-frontal em conjunto com o hipocampo para lembrar daquelas técnicas aprendidas na internet sobre como agir perante um leão. Mas aqui falamos de uma exclusividade humana.

Em suma: o medo, apesar de seus desconfortos, serve para proteger a nós mesmos e à nossa espécie. Mas e quando ele acontece de maneira desmedida?

As Fobias

Fobos (Phobos) e seu pai Ares em uma carroagem retratados em Ânfora de aproximadamente 500 anos A.C.

O que une Marte a Vênus é o medo e o terror na Terra.

Phobos e Deimos eram os gêmeos que nasceram da junção do amor, da sensualidade e da beleza de Afrodite (Vênus na versão Romana) em contato com a Guerra, as Armas e os Conflitos de Ares (Marte, na versão Romana). Vale ressaltar que Afrodite era casada com Hefesto, tratando-se, portanto, também de uma traição. Bons filhos que eram, entre seus desejos e aspirações encontrava-se a vontade de sempre acompanhar o pai em suas Guerras. Desta forma, não haveria Guerra em que o Medo (Phobos) e o Terror (Deimos) não acompanhassem os homens.

Em seu papel de Daímon, alguma parte própria natureza humana se manifestava através deles. Se essas divindades não existiram na realidade, com certeza existiram através da força que seu mito tinha para permear o discurso dos guerreiros. Passam a existir no corpo de cada soldado e de cada general — através daquilo que este sente — sua aparição é inerente à Guerra. E não haverá Guerra alguma sem medo ou terror. Mas haveria menos ainda a existência de qualquer um dos dois se até o maior dos guerreiros não precisasse de amor. Então para resumir o mito: a paixão (pathos) que transita entre o amor e a guerra deu a luz ao medo e ao terror dos seres humanos.

A palavra Fobia, em sua raiz grega, deriva deste Deus ou demônio (daímon) que era Phobos, a personificação do medo.

O que é uma Fobia?

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) entendemos como fobia um medo específico e irracional, ou seja, além das perspectivas reais de perigo daquele objeto que causa tal medo — que pode ser um animal, uma situação e/ou um próprio objeto inanimado:

“Os indivíduos com fobia específica são apreensivos, ansiosos ou se esquivam de objetos ou situações circunscritos. Uma ideação cognitiva específica não está caracterizada nesse transtorno como está em outros transtornos de ansiedade. Medo, ansiedade ou esquiva é quase sempre imediatamente induzido pela situação fóbica, até um ponto em que é persistente e fora de proporção em relação ao risco real que se apresenta. Existem vários tipos de fobias específicas: a animais, ambiente natural, sangue-injeção-ferimentos, situacional e outros”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233-234).

A palavra fobia entra como uma representação patológica do que seria a superestimação do perigo real que este medo a um objeto ou evento específico (para ser caracterizado fobia precisa ser em relação a algo específico) pode ou não acompanhar as manifestações fisiológicas mais comum a quem experiencia a emoção do medo em graus elevados. Ex: sudorese, tremores, paralisia, gritos, etc.

Curiosamente, derivando do grego Phobos, o daímon que representava o medo na Mitologia Grega, a nomenclatura deste Transtorno Mental parece ter sido escolhida de forma que também acompanhasse, em partes, a narrativa do mito.

Fobias Específicas

Certa vez, enquanto uma pessoa me relatava sobre uma fobia que possuía, correu um fato curioso: apenas por dar uma descrição mais detalhada do objeto em questão, esta pessoa demonstra tremendo desconforto, visível ao seu rosto e ao seu corpo – ambos passaram a ser protegidos pelas suas mãos.

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A Fobia pode se tornar uma espécie de lente de aproximação dos perigos quem podem ou não representar aquele objeto ou evento específicos.

Talvez você conheça algumas pessoas têm nojo de barata. Sem dúvida também conhece outras que têm medo. Mas você conhece adultos, idosos anônimos e famosos que paralisariam, suariam frio, sofreriam de uma incômoda taquicardia e até chorariam como uma criança perante este mero inseto? Para o caso de conhecer: ajude esta pessoa a buscar por um psicólogo e/ou um psiquiatra, pois é possível que ela sofra de entomofobia, ou insetofobia.

Para o diagnóstico de fobia específica ser considerado, é importante ressaltar que a relação de elevada aversão e ansiedade perante o objeto deverá persistir por período igual ou superior a seis meses. Ainda se faz necessário destacar que para começarmos a distinguir um medo de uma fobia, é também preciso avaliar se e o quanto aquilo causa sofrimento e incapacitação na vida daquele indivíduo.

Alguns exemplos de Fobias Específicas

ATENÇÃO: Caso o leitor sofra de algum caso de Fobia Específica, esta seção poderá conter imagens explícitas de seu objeto fóbico.

Aracnofobia: aranha, de forma real ou imaginada;

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Acrofobia: de altura; de lugares altos, de muros, sacadas, etc;

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Agorafobia: de espaços abertos; shows, concertos, multidões em geral;

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Claustrofobia: de lugares fechados/trancados: elevadores, túneis, etc.;

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Hematofobia: de ter contato ou de apenas ver sangue ou vestígios de.

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A Fobia na Psicanálise

Talvez o caso mais famoso de fobia retratado na psicanálise é o do Pequeno Hans, e sua fobia de cavalos. Caso contado por Freud. Recomendo a leitura da obra, mas para quem quiser conhecer brevemente o caso, o psicanalista Christian Dunker traz um breve resumo em seu Canal no Youtube:

A Ansiedade

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“Chegou o final de semana. Finalmente eu poderei colocar em dia os estudos que deixei atrasar. Dessa vez eu vou conseguir atualizar os detalhes de minha agenda! Agora dará tempo de arrumar o meu quarto, de trocar a lâmpada do forno do meu fogão. Mas hey, primeiro eu preciso levar o cachorro para passear. Também não posso me esquecer de reservar uma hora de cada dia para ir à academia e, com certeza, de ler minhas 50 páginas diárias. É bom que eu também me lembre de relaxar, de ouvir alguma música. Será que não tá na hora de checar as minhas redes sociais? O que as pessoas poderiam estar pensando de mim? Será que aquela foto ficou muito comprometedora para o pessoal do trabalho ver? MAS EU AINDA NÃO ESTUDEI! Imagina se o cachorro ficar o dia inteiro sem passear? Eu deveria me esforçar para me organizar mais. MEU DEUS! Eu ainda não atualizei a agenda e ainda faltam 49 páginas. Acho que vou dormir. É uma pena que eu não consigo fazer nada direito”.

Esta é a síntese de alguns pequenos momentos dentro da mente de alguém que sofre de ansiedade. É como se o pensamento tivesse vida própria, como dizem muitos pacientes. E isso cansa, pensar se torna um trabalho. Um trabalho pra lá de exaustivo.

A ansiedade torna a vida do sujeito atemporal. Vive-se o passado e presente em simbiose com as possibilidades (frequentemente negativas) do futuro. É o medo em sua forma crônica, constante e às vezes invisível. É uma enxurrada de palavras preocupadas que pré-ocupam toda e qualquer atenção e relaxamento na vida de um sujeito.

Quem sofre de Ansiedade não tira Férias

A imagem pode conter: texto
Passagem do Romance “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski.

A ansiedade ocorre na mente e no corpo. Dificilmente ela age isoladamente em um dos dois, por mais que a princípio alguns sintomas dêem a entender tal fato.

Não é incomum que um paciente que sofra de ansiedade descubra isso após seu dentista lhe apontar o desgaste que o bruxismo causa em seus dentes.

Em alguns casos, quem prevê o diagnóstico é o próprio gastroenterologista, após uma forte dor no estômago que mais tarde se descobre ser uma gastrite.

Quando me perguntam sobre a relação entre gastrite e ansiedade, eu gosto de recorrer à seguinte explicação:

– A gastrite é uma condição médica onde o próprio suco gástrico, que, presente no estômago para auxiliar na digestão dos alimentos, acaba corroendo as paredes que revestem o órgão internamente – quadro muitas vezes corroborado por um padrão alimentício rico em acidez.

Contudo, há relatos de pacientes que mesmo em uma dieta praticamente alcalina apresentaram o distúrbio. Por alguma coincidência, esses pacientes geralmente têm um perfil comportamental mais ansioso. Eventualmente temos aqui um diagnóstico de um quadro conhecido como dispepsia funcional. Ou, popularmente falando: Gastrite Nervosa.

– Uma das causas da gastrite nervosa é a liberação de suco gástrico sem a presença de alimento e/ou fisiopatologia que cause tal fato. Mas o que faria o organismo ter este tipo de comportamento? Talvez um chiclete, já que ele simula uma refeição e a pessoa poderá sofrer caso se encontre de “barriga vazia”. Mas e se o paciente sofrer da condição mesmo sem o hábito de mascar chiclete?

Será que isso é algo como se o organismo estivesse pulando etapas? Como se este se atropelasse na pressa de fazer tudo de uma vez? Talvez como se a sua digestão, da mesma forma em que ocorre com os pensamentos apreensivos de um paciente ansioso, esteja lá no futuro, lhe causando desconforto agora.

O que é a Ansiedade, afinal?

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A ansiedade, segundo Dalgalarrondo:

[…] é definida como estado de humor desconfortável, apreensão negativa em relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e fisiológicas (dispneia, taquicardia, vasoconstrição ou dilatação, tensão muscular, parestesias, tremores, sudorese, tontura, etc.) e manifestações psíquicas (inquietação interna, apreensão, desconforto mental, etc.).

(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166).

Portanto, é importante ressaltar que estamos falando de uma condição por vezes altamente incapacitante. A ansiedade costuma trazer insônia, comprometendo a organização dos ciclos circadianos do paciente; pode atrapalhar relações de trabalho com atrasos e faltas frequentes; pode, inclusive, comprometer relações amorosas e familiares. Nada aqui se compara ao famoso “frio na barriga” antes de uma esperada viagem – causado por uma descarga de adrenalina

Lembrando disso me cabe também contar que, ao começo de minha vivência clínica, quando atendia pacientes encaminhados via convênio médico em parceria com uma instituição, era altíssimo o número dos encaminhamentos médicos com a hipótese diagnóstica de algum Transtorno de Ansiedade.

Mas o fato mais curioso, que não me foi ensinado à graduação de psicologia era que a maioria destes pacientes não era composta por pessoas encaminhadas por um psiquiatra, mas sim pelo cardiologista – em geral após uma suspeita de infarto ou cardiopatia ser descartada por uma bateria de exames realizada um pouco depois de o paciente ter dado entrada no Pronto Socorro de um hospital.

Os Sintomas da Ansiedade

Dalgalarrondo (Ibid) divide os sintomas entre mentais, ou seja, relacionados à experiência interna, subjetiva, do indivíduo; e somáticos, relativos ao corpo, à fisiologia; à parte observável diretamente.

Quadrinho
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166. Quadro 16.3)

Contudo, é preciso cuidado. Os sintomas da ansieda não lhe são exclusivos. Eles já apareceram em Outro lugar. Eles são muito semelhantes ao que se sente no medo. Entretanto, o próprio DSM-V faz questão de nos atentar às diferenças entre medo e ansiedade:

“Medo é a resposta emocional à ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, com o medo sendo com mais frequência associado a períodos de excitabilidade autonômica aumentada, necessária para luta ou fuga; pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga e a ansiedade sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e vigilância em preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233).

A partir desta afirmação, se faz importante observar que há uma clara semelhança entre os sintomas da ansiedade com a expressão de uma das sete emoções básicas: o medo. Não é atoa que há eventual confusão entre os dois termos. A ansiedade talvez se pareça mais com um medo que, a princípio, se hospedaria naquele local apenas por um final de semana, mas encontrou lá razões para permanecer por tempo indeterminado.

As próprias manifestações fisiológicas são bem parecidas às do medo e da fobia. Mas a principal diferença é que, pelo menos a princípio: a ansiedade pode não possuir relação com causa/objeto específicos. Em alguns casos, como no Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), uma crise de ansiedade pode acontecer de maneira súbita, sem causa aparente. Quem quiser mais detalhes sobre a ansiedade, recomendo a leitura de um excelente texto da psicóloga Masilvia Diniz clicando aqui.

Transtornos de Ansiedade

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Você sabia que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde?

Os Transtornos de Ansiedade são diagnosticados de acordo com as recomendações da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID 10) – gerido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) –, e/ou pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) – regido pela American Psychiatric Association. Sempre por um psiquiatra. Contudo, o tratamento pode e deve ser realizado com vários profissionais trabalhando em equipe. A multidisciplinaridade, como forte aliada à saúde mental, é indispensável. Desde o psicólogo, o psiquiatra; à nutricionista, o terapeuta ocupacional; até ao educador físico e ao endocrinologista. Caso você sofra de algo parecido, procure urgente um profissional da área da saúde mental.

Exemplos de Transtornos de Ansiedade

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Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Sendo uma de suas marcas o roer de unhas, falamos aqui de um quadro de sintomas ansiosos que persistem por pelo menos seis meses, passando a causar elevados prejuízos aos âmbitos social, produtivo e afetivo do indivíduo que sofre desta condição.

A angústia e a insônia não são raras, confira a lista de sintomas que Dalgarrondo (2008) descreve a respeito desta condição:

TAG
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

O TAG é algo que com alguma frequência parece não ter uma causa aparente em suas crises. E de fato não é fácil estabelecer uma linha entre os fatores que poderiam desencadear a expressão de uma crise de ansiedade.

Para ilustrar tal fato, me recordo de uma situação relatada para mim onde, todos os dias na mesma hora, um pouco após chegar ao trabalho, uma pessoa que sentia muita vontade de ser demitida começava a experimentar uma crise de ansiedade. A princípio, para alguns psicólogos e psicanalistas, a relação entre as duas coisas parecerá evidente. Contudo, foi preciso que mais detalhes fossem buscados para que se começasse, em consultório, recolher as migalhas de pão”deixadas no caminho através da fala do paciente para depois entender mais nuances que o sigilo profissional não me permitirá expor aqui. As informações deste tipo não são tão simples de se chegar ao acesso, exigindo um pouco de paciência e atenção da parte do terapeuta.
O tratamento para o TAG é realizado com psicoterapia e, em casos mais acentuados, há o uso de medicamentos em conjunto.

Transtorno do Pânico

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É o medo de sentir medo. Um dos mais incapacitantes transtornos de ansiedade. Suas manifestações se estendem através de descargas do sistema nervoso autônomo; exatamente por isso, seus sintomas são até mais incapacitantes do que no caso de outros transtornos. Por exemplo: “batedeira ou taquicardia, suor frio,
tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos
em membros e/ou lábios” (Dalgalarrondo, 2008, p. 305).

Panico
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

Ainda de acordo com Dalgalarrondo (2008) , algo é unânime entre os pacientes: a sensação de que irá morrer a qualquer momento. Em crises mais intensas pode haver até certo grau de despersonalização. O ataque de pânico costuma ocorrer por mais tempo que o convencional. Quando estas crises de pânico se repetem com certa frequência por um período de 6 meses, pode-se começar a indagação a respeito de um diagnóstico relacionado ao Transtorno do Pânico (podendo ser com ou sem agorafobia).

Pacientes que sofrem de Transtorno do Pânico começam a evitar sair de casa com medo dos ataques; pedem demissão, terminam relacionamentos e, em casos mais graves até cometem suicídio em função da insuportabilidade de seu sofrimento.

A Ansiedade tem tratamento

Agora que você já sabe a diferença entre medo, fobia (que no DSM-V também é considerada um transtorno de ansiedade) e ansiedade teremos o objetivo principal em pauta: auxiliar na busca pelo tratamento, inclusive estimulando pessoas próximas a fazerem o mesmo. Se o leitor se identifica com a maior parte dos sintomas e algum dos transtornos aqui apresentados, a recomendação é que procure um psicólogo e/ou um psiquiatra o mais rápido possível, mesmo que apenas para tirar a dúvida. A internet não serve para isso.

A diferença é feita na hora da procura por um profissional. Mas a difusão do conhecimento sobre o assunto também poderá ajudar para que mais pessoas consigam entender que talvez seja a hora de escutar a opinião de quem dedicou, e ainda dedica a vida pessoal e profissional para ajudar quem passa por este tipo de sofrimento. Compartilhar este texto e deixar seu feedback também ajudarão à difusão deste conhecimento. Faça a sua parte. Até a próxima.

*Todas as imagens contidas no texto foram obtidas de forma gratuita na internet. Caso alguma delas seja de sua autoria, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos o mais rápido possível*.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERENCIAS:

American Psychiatric Association et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.

Cabral, A.; Nick, E. Dicionário Técnico de Psicologia. São Paulo. Editora Cultrix. 2006.

Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed Editora. 2008.
Darwin, C. A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras. 2009. (Obra original publicada em 1872).
Ekman, P. A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel. 2003.

Lent, R. Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu. 2010.
Rafailov, Igor. “Dicionário Igor de Fobias.” Forum de Fobias, 2003.

Spinelli, M. “O Daimónion de Sócrates”. Revista HYPNOS. São Paulo. Ano 11/nº 16 – 1º sem. 2006 – p. 32-61. acessível em http://revistas.pucsp.br/index.php/hypnos/article/view/4777/3327

Depressão: Conceitos, Sintomas, Mitos e Tratamentos

Por que falar sobre Depressão?

Ser psicólogo, assim como em qualquer outra profissão, faz com que desenvolvamos certa antipatia perante alguns termos do senso comum. E o motivo nem sempre paira a arrogância ou o pedantismo, em grande parte das vezes a causa é o conjunto de danos que a desinformação pode causar a um grupo de indivíduos ou para a sociedade como um todo. O artigo de hoje vem exclusivamente para destrinchar, desmitificar e afastar do senso comum o conceito do grande mal do século XXI: a Depressão.

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Imagem obtida na internet

No lento drama d’um mergulhar de alma em uma lama movediça de pensamentos, emoções e sentimentos negativos e, quando pior ainda: naquele nada que não se pode ou se sabe nomear. Quanto mais se mexe mais se afunda. Quanto mais força se faz, menos intensidade se percebe. A principal causa do suicídio, que por sua vez se tornou a segunda maior causa da morte entre os jovens, se fosse alguma doença infecciosa, já seria considerada uma pandemia passível de decretar calamidade pública mundial.

Este artigo contou com as ilustrações do magnífico trabalho de arte e pesquisa do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram. Nele é ilustrado e escrito, com o auxílio de relatos de pessoas diagnosticadas com o transtorno.

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Imagem obtida e publicada no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.

Você também poderá fazer o download do livro através deste link no Google Drive, mas pedimos que, em forma de retribuição pela qualidade do trabalho, curta a página no Facebook e a Siga no Instagram, exatamente para que mais pessoas possam conhecer este conteúdo de altíssima qualidade.

O Mal do Século

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Imagem obtida na internet.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 300 milhões de pessoas sofrem de Depressão no mundo inteiro. Uma população maior que a de habitantes do Brasil e quase que equivalente à dos Estados Unidos. Ainda de acordo com o órgão, o transtorno mental se tornou a maior causa de incapacitação ao redor do mundo, sendo mais comum (mas longe de ser exclusivo) em mulheres, falamos de algo que, na pior das hipóteses, pode levar quem sofra deste mal ao suicídio – a segunda maior causa de morte de pessoas entre os jovens na faixa etária dos 15 aos 29 anos de idade (OMS, 2019).

Sendo a depressão o transtorno mental que está relacionado à maioria de seus casos, estima-se que ao menos 800.000 pessoas cometam suicídio todos os anos. (Idem).

A Depressão é considerada um Transtorno de Humor. Mas o que é isso?

O Conceito de Humor

mascaras teatro grego
Nas festas dionisíacas, uma espécie de homenagem ao Deus da Mitologia Grega representante do vinho e da farra, máscaras eram utilizadas para designar as emoções, ou os estados de humor dos personagens que encenavam situações em um amplo espaço. Isso ocorria exatamente para que pudesse ser identificado pelo público, à distância, qual sentimento permeava aquela cena. Posteriormente, tais demonstrações deram origem às primeiras peças de teatro na Grécia Antiga. Imagem obtida na internet.

A palavra “Humor” deriva do latim “humore“, significando “líquido” em português. O humor é um estado afetivo, ou seja: é um retrato de como relacionamos nosso mundo interno com o mundo externo; como nossa mente se expressa através de nosso corpo; como equilibramos nosso eu ao mundo e as pessoas à nossa volta. E pode ser considerado mutável, assim como um líquido.

Foi associado durante algum tempo pela antiga medicina grega aos principais fluídos de nosso corpo (sanguefleumabílis amarela e bílis negra), como se estes fossem os verdadeiros responsáveis pela nossa saúde física e mental. Curiosamente, a medicina ainda utiliza, nos dias de hoje, a palavra “humor” para nomear certos líquidos do corpo humano. 

Contudo, apesar da palavra “Humor” ser algo frequentemente relacionado, inclusive pelo senso comum, à habilidade de fazer rir, esta não se resume a induzir alegria e riso através de nossas palavras e ações. O Humor pode ser considerado como aquela parte de nossa personalidade que irá, afetivamente, estabelecer uma conexão de nosso mundo interno com o “exterior”.

death humor
Na imagem uma caveira, envolvida em um manto todo preto com capuz (o que costuma ser uma representação da Morte), tomando um copo do que parece ser cerveja, pergunta a uma mulher loira, que acende um cigarro enquanto tem sobre a mesa um punhal, um vidro de comprimidos, um revólver e uma banana de dinamite: “Você está flertando comigo?”. Dando a entender que esta pessoa estaria prestes a cometer suicídio, por estar “flertando com a morte”. Abaixo a frase: “aqui está um pouco de “humor escuro popularmente apelidado de ‘humor negro’ no Brasil)”. Imagem obtida na internet.

Apesar de lembrar a definição de uma emoção, a principal diferença entre um estado de humor e um estado emocional está em sua duração. Uma vez que, em oposição aos instantes que pautam a duração de uma emoção, um determinado estado de humor pode permanecer por dias, semanas, meses e até anos. Podendo ser considerado deprimido, quando apresenta uma redução em sua “fluidez”, ou mais aflorado, elevado (e até maníaco) quando em maior atividade. Tais fatos irão definir nossa interação afetiva com o meio que nos cerca, bem como o conjunto de emoções e sentimentos que experimentaremos com maior ou menor facilidade e intensidade. Entenda a diferença entre Afetos, Emoções e Sentimentos clicando aqui.

O Conceito de Depressão

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A Depressão como forma de relevo, demonstrando o que o desgaste, ao longo dos anos, provoca numa estrutura geográfica de determinado local. Imagem obtida gratuitamente na internet.
 

É muito provável que a escolha do termo “Depressão” tenha derivado de seu homônimo na Geografia. Se bem for lembrado por quem está lendo, as aulas sobre os tipo de Relevo, no Ensino Fundamental, falavam sobre um local que sofrera grande desgaste por influência do vento e da água (fatores externos), durante anos, tornando-se uma espécie de buraco naquele espaço geográfico. O porquê deste casamento entre campos do conhecimento tão distintos entre si, talvez more nas palavras colhidas em relatos de parte daqueles que sofrem do transtorno: “é como se eu estivesse preso (a) /caindo em um enorme buraco”.

Critérios Diagnósticos

A Classificação Internacional de Doenças (CID-10) estabelece os espectros da Depressão dentro de sua seção de Transtornos de Humor (ou Transtornos Afetivos), localizados no intervalo das classificações F-30 e F39. Sendo as classificações do Transtorno Depressivo em específico localizadas entre F32.1 (Episódio Depressivo Leve) e F33.9 (Transtorno Depressivo Recorrente sem especificação).

No CID-10, a OMS define o que é considerado um Episódio Depressivo:

Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado ou grave, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite [o aumento também pode ocorrer]. Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima e da autoconfiança e freqüentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos “somáticos”, por exemplo perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar […] [os] três graus de um episódio depressivo.

E, para das devidas diferenciações, também define o que é um Transtorno Depressivo:

[O]Transtorno caracterizado pela ocorrência repetida de episódios depressivos correspondentes à descrição de um episódio depressivo (F32.-) […]. O primeiro episódio pode ocorrer em qualquer idade, da infância à senilidade, sendo que o início pode ser agudo ou insidioso e a duração variável de algumas semanas a alguns meses.

Apesar de ser bastante criticado pela abrangência das interpretações possíveis de seus critérios diagnósticos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) é amplamente utilizado no diagnóstico da Depressão. Sua caracterização engloba aquilo que está dentro do que é chamado de Transtorno Depressivo Maior, subdividido em episódio único ou recorrente, especificando também se em grau leve, moderado ou grave. Para o DSM-V, os critérios diagnósticos deste transtorno envolvem:

[A]Presença de pelo menos cinco entre os nove critérios.
[Os]Sintomas devem persistir por pelo menos duas semanas e um deles deve ser obrigatoriamente humor deprimido ou perda de interesse/prazer;

1. Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por relato subjetivo (p. ex. sente-se triste, vazio ou sem esperança) ou por observação feita por outra pessoa (p. ex., parece choroso) (Nota: em crianças e adolescentes, pode ser humor irritável);

2. Acentuada diminuição de interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (conforme indicado por relato subjetivo ou observação);

3. Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (por exemplo, mudança de mais de 5% do peso corporal em menos de um mês) ou redução ou aumento no apetite quase todos os dias. (Nota: em crianças, considerar o insucesso em obter o peso esperado);

4. Insônia ou hipersonia quase diária;

5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias;

6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias;

7. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser delirantes) quase todos os dias (não meramente autorrecriminação ou culpa por estar doente);

8. Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outra pessoa);

9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio.

Depression
Imagem obtida e publicada no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.

Um dos maiores problemas envolvendo o tratamento da depressão, segundo a OMS, está, mais ainda nos países sub-desenvolvidos, na falta de diagnósticos e principalmente nos diagnósticos equivocados a respeito do Transtorno – frequentemente atribuídos as definições amplas e vagas de seus critérios diagnósticos. Tais fatores comprometem desde o tratamento a pessoas que sofrem da condição, estendendo-se às estatísticas que entrarão em desacordo com a realidade que naquele local se apresenta.

Em seguida, ocorrendo de forma simultânea ao diagnóstico errado ou incompleto, vem a forma de tratamento oferecida. Não são raros relatos de diagnósticos que apontaram para um prognóstico limitado apenas ao consumo de antidepressivos, sem a indicação do tratamento psicoterápico.

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O problema deste tipo de abordagem estritamente biológica é exatamente o que foi concluído em uma pesquisa da Universidade de Helsinque, na Finlândia, pelo renomado neurocientista Eero Castrén, em conjunto com o professor de farmacologia do curso de psiquiatria da Universidade de Columbia, em Nova York, René Hen.

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Estudando a plasticidade neuronal a partir do uso de antidepressivos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a efetividade do tratamento com antidepressivos apenas se comprovava quando havia uma combinação com a psicoterapia (Castrén, E., & Hen, R. (2013). Confira o estudo (em inglês) clicando aqui.

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Tal afirmativa já vinha sendo defendida há algum tempo por profissionais da área da saúde mental, mas a comprovação do estudo endossa a eficiência de um tratamento em conjunto. Afinal, assim como qualquer outro transtorno, não se pode tratar apenas o sintoma – é preciso investigar e intervir na causa.

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Distimia

A Depressão ainda pode aparecer em sua forma considerada mais “leve” e duradoura, a chamada distimia, classificada no DSV-5 como Transtorno Distímico (300.4) e dentro dos Transtornos Persistentes do Humor (F34.0), com o próprio nome de Distimia (F34.1). Sua condição pode permanecer por anos, sendo algo frequente a confusão do quadro com aspectos considerados “normais” à personalidade de suas vítimas.

Mais leve a nível de incapacitação, a distimia oferece constantes pensamentos negativos, marcados pelo pessimismo e característicos de uma baixa autoestima, uma elevada ou nula autocrítica do sujeito. Uma representação caricata e talvez fidedigna desta condição é encontrada no personagem Hardy, do desenho Lippy & Hardy da Hanna Barbera, famoso por seu bordão:

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Imagem obtida na Internet
 

Tratamento e Sintomas

Os sintomas, já descritos na definição, afetam os portadores no âmbito psicológico, social e até em nível neuro-fisiológico. Ainda não há um consenso na comunidade científica se os sintomas neuro-fisiológicos são a causa ou o efeito dos psicológicos (e vice-versa). Ou seja: ainda não se sabe ao certo se as alterações que o transtorno causa no corpo e no cérebro acontecem por causa de um determinado estado da mente do indivíduo ou se o que muda na cabeça deste paciente é uma causa direta daquilo que alterou a organização biológica de seu corpo. Uma espécie de questionamento semelhante ao famoso: “Quem veio primeiro? O ovo ou a galinha?”.

É exatamente por este motivo que o tratamento envolve psicoterapia e, nos casos em que a doença atinge seu nível grave ou moderado, a prescrição e administração de medicamentos específicos para que haja inibição da perda do principal hormônio responsável pelo humor: a serotonina.

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O transtorno altera a vida social, a vida psíquica e até a atividade neurológica do paciente, gerando neste altíssimos índices de incapacitação. Áreas do Sistema Nervoso Central relacionadas ao prazer, à motivação e até à atividade psicomotora do sujeito se encontram com baixíssima atividade sináptica durante um episódio isolado ou (e mais ainda) em um transtorno depressivo. Veja a imagem a seguir:

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Na imagem acima, a atividade sináptica, demarcada em amarelo e laranja, é comparada a partir do cérebro de um paciente Deprimido e outro Não Deprimido. Créditos na Imagem.

Também por ser tratar de uma condição onde a manifestação dos sintomas não se dá maneira explícita no corpo, ou seja, a percepção destes e de seus sinais é mais subjetiva (relacionada ao sujeito) do que objetiva (relacionada aos objetos, ao que se pode observar do meio externo). Sendo este fato bastante associado às tentativas de deslegitimação do Transtorno e do sofrimento experimentado por seus portadores.

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Imagem obtida e publicada no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.
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Imagem obtida e publicada no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.

Tais fatores, alimentados pelo senso comum com ditos como “é falta do que fazer”, “é doença de rico” ou até “é frescura”, formam que pode piorar o quadro, uma vez o resultado destas falas se limitaria aumentar a dose de culpa – já muito presente nos pacientes que sofrem desta condição. A depressão é um Transtorno Mental que pode atingir todas as idades e classes sociais.

Depressão é Diferente de Tristeza

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Personagem “Tristeza” da animação da Disney “Divertidamente”. Imagem obtida na internet.

Se a tristeza é uma emoção, a Depressão é uma condição. Uma emoção é uma resposta neuropsicofisiológica, pulsional e instintiva de um organismo ao ambiente que o cerca. Ou seja: é algo que ocorre no corpo, na mente e no cérebro por um breve momento, relacionada a um fator determinado para fins específicos. A tristeza tem seu fim assim que a próxima emoção tomar seu lugar. Não se trata do caso da Depressão.

Enquanto a tristeza pode ser uma emoção que irá se repetir por segundos, minutos ou dias, a depressão perdurará por semanas, meses e até anos na vida de um sujeito.

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A tristeza dificilmente afetará as tarefas do dia-a-dia ou a performance no trabalho por um período significativo; bem como não provocará dores ou desregulará os ciclos do sono (circadianos), do apetite e da vida sexual a ponto de causar prejuízo cognitivo, nutricional, social e afetivo para quem a vivencia. Quem está triste não deixa de sentir o gosto dos alimentos.

Contrariando mais uma vez o senso comum, a Depressão também atingiu um dos maiores líderes religiosos do Brasil: o Padre Marcelo Rossi. Quebrando publicamente os alicerces argumentativos de quem dizia que o Transtorno era “falta de religião”. A Depressão, diferentemente da tristeza, traz déficits reais nas áreas cerebrais que integram a fala, a atenção e a concentração. E seria possível estabelecer e manter excelentes relações pessoais e profissionais com este desfalque?

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Imagens obtidas e publicadas no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.

Algumas vezes pude perceber em alguns pacientes uma fala sem muita articulação; uma fala lenta em que seu tom de voz não carregava mais a ênfase da vida. Era possível perceber a troca de nuances de volume, intensidade e tempo por um relato retilíneo e monótono na voz dos sujeitos. Era como se toda a carga emocional e afetiva daquele relato estivesse aprisionada dentro de um profundo buraco mal iluminado. Ao início da experiência clínica e teórica, eu mesmo me indagava se a fala de um paciente deprimido não seria algo “artificial”, “falso” e “forçado”. Hoje eu arriscaria dizer que sim, que de fato é. Mas não por alguma encenação ou defesa, muito pelo contrário: pela quantidade sobre-humana de esforço que é exigida do deprimido ao simples ato de interagir com outra pessoa. Ao simples ato de sentir qualquer coisa. Faltará energia, força e vigor para demonstrar uma”emoção” na fala. A verdade é que não lhe falta vontade e, muito menos, culpa pela falta de êxito em colocá-la em prática.

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Imagem obtida e publicada no trabalho do designer gráfico Leonardo Fukyama. “Sim, Estou Bem” está disponível no Facebook e Instagram.

O Blues, o estilo musical americano que de origem a inúmeros gêneros musicais, incluindo o Rock, ficou marcado por suas letras tristes, costumeiramente associadas à Depressão e à Tristeza. O estimulo musical acabou se tornando uma forma de se referir a um estado emocional e/ou de humor: “I’m blue today” (“Hoje eu estou triste”):

https://www.youtube.com/watch?v=4VBce5OvR-k

É Preciso Falar Sobre

O tratamento da Depressão pode ser longo e trabalhoso, tanto para o paciente como para o (s) terapeuta (s). Não raro será aquele relato de terapeutas que se sentiram “sugados” pela enorme carga afetiva negativa que acompanha uma sessão com um paciente depressivo. Daí a importância do próprio terapeuta sempre fazer terapia e supervisão.

Se há uma dificuldade na vida de um paciente deprimido é a da escuta. Ninguém quer escutá-lo; poucas pessoas permanecem por perto. O terapeuta deverá saber “pescar” as palavras que mais permeiam seu discurso, as dores que marcam seu corpo junto ao seu vocabulário e as sinalizações de seu sofrimento em seu rosto, suas vestimentas e cuidado consigo mesmo.

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A alavanca da melhora estará nas pequenas coisas: nos planos que começam surgir para o futuro, no súbito desejo de pintar as unhas; no ato de ir ao cinema ou tomar uma cerveja, mesmo que sem companhias. No inesperado “vou ali e já volto” em que a pessoa volta mesmo.

Lembro-me que o marco de melhora de um caso grave de depressão que atendi foi uma viagem, feita sem muito tempo de planejamento e sem companhias conhecidos. Duas coisas até então inéditas. Curiosamente, este evento somente foi perceptível ao paciente após alguns meses, quando, em uma objeção minha à sua autocritica direcionada a uma suposta ausência de iniciativa, independência e força de vontade, a viagem foi citada. Curiosamente, o quadro teve grande estabilidade após a tomada de consciência do significado que tinha aquela aventura.

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Psicoterapias de grupo e até grupos de apoio também podem ser de grande efetividade. Uma vez que causam a percepção de que aquilo tudo não lhe é exclusivo, não é uma falha de sua volição. Estas psicoterapias facilitam, inclusive, o estabelecimento de novos vínculos, que podem ajudar no processo de recuperação dos pacientes.

Por fim, Não é o Fim.

A recuperação é uma lenta luta diária. Uma prova de força que supera de longe os desafios propostos aos halterofilistas mais bem preparados. Cada dia é uma nuvem a menos em um horizonte de intensa neblina. A chamada remissão começa com o enxergar daquela mísera fração de cores de um arco-íris em meio às trovoadas de uma tormenta, que apesar de demorar a passar, agora já acontece sem os fortes ventos que a acompanhavam.

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É um lento processo que não é linear, mas que aos poucos permite a escolha de alguns tons de cinza – depois de tanto preto e branco. É um desembaçar de óculos que vai permitindo ver vida e alegria no bege que agora está na sua mais nova paleta de cores. O azul já é quase algo bom – começa a despertar algo diferente do que a dor sentida em todos aqueles Blues; dele surge um tom de verde, pois o amarelo também aparecera por perto. Outro encontro dá origem ao marrom: o vermelho também cruzara seu caminho. A escuridão do preto e a cegueira do branco podem até voltar, mas logo há respingos de outras cores que refletem alguma luz a mais. E assim vai.

Certo dia aparece um sorriso, n’outro duas risadas. Uma inesperada vontade de cheirar uma flor toma conta daquelas primeiras horas manhã. Será que correr pela rua seria uma boa ideia? Ainda há um eco da depressão, mesmo nas maiores histórias de superação e nos melhores momentos da vida; ela é assustadoramente sentida por perto, mas as pernas e os ombros estão mais leves. Haverá sempre a possibilidade de tropeçar e cair àquele lugar úmido e escuro, mas não hoje. Pode até ser que isso aconteça na semana que vem. Mas hoje não; hoje estou curado (a). Hoje dá até pra aproveitar, quem sabe amanhã também dê? Bom, já está na hora de fazer planos.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

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Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5 – Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2014.

CASTRÉN, E., & HEN, R. (2013). Neuronal plasticity and antidepressant actions. Trends in neurosciences36(5), 259–267. doi:10.1016/j.tins.2012.12.010.

CUNHA, J. A. Psicodiagnóstico – V – 5. ed. rev. e ampl. – Porto Alegre: Artmed, 2007.

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais – 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

FUKUYAMA, Y. L. Sim, estou bem. São Paulo: 2019. Disponível neste link. Acesso em 17 jul 2019. Link alternativo.

Portal OMS. Organização Mundial da Saúde; 2019 [acesso em 17 jul 2019]. Disponível em: https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/depression

World Health Association. The ICD-10 Clasification of Mental and Behavioural Disorders. Clinical descriptions and diagnostic guidelines. Geneva: World Health Organization; 1992.

Ansiedade, Atenção Plena e Black Mirror

“Agora, mais uma vez, concentre-se na sua respiração… Repare como a sua respiração continua por si só… Sua mente pode vagar. Simplesmente observe… Calmamente… Sem julgamento…”

Assim começa o segundo episódio da quinta temporada de Black Mirror – Smithereens. Não parece, é um App Mindfulness (ou em português Atenção Plena), a narração transcrita acima é uma meditação guiada. Amplamente utilizada para tratamento complementar dos Transtornos de Ansiedade ou como uma maneira de ser manter o indivíduo focado no momento presente.

Charlie Brooker aparentemente trabalhou com uma paleta de cores pastel na quinta temporada do seriado Black Mirror (2011/____ ), diferente da temática do filme-evento Bandersnach. Em vez da usual crônica da vida privada sobre possibilidades de futuro HI-TEC distópico/pessimista, neste episódio vemos algo contemporâneo situado em 2018.

Black Mirror: Season 5 | Official Trailer | Netflix

Black Mirror é o convite a reflexão sobre efeito da tecnologia em nossas vidas, uma noção que se perde à medida que as facilidades vão aumentando. Você pode dizer que os dispositivos ou ‘modo de usar’ apresentados no seriado nem sejam inventados, mas o que está em jogo é que todos os dias novas tecnologias são criadas sem regulamentação jurídica ou vinculadas a um código de ética.

Quando você posta uma opinião no campo comentário, ou fotos em rede sociais, ou expia a vida alheira, curtidas, deslikes, retweets, solicita transporte, remédios, amenidades, roupas, peças de carros, aparelhos eletrônicos ou comidas, cada vez que você clica em botão aceito, seu bem mais precioso pode ser utilizado sem sua percepção: suas informações pessoais.

“Meios cada vez mais precisos para fins cada vez mais vagos, são uma característica da nossa época”.

Albert Einstein

Desde os primórdios, nossos ancestrais desenvolvem tecnologia para facilitar a execução e/ou minimizar o tempo de trabalho. Tecnologia Digital faz isto com maestria, cada vez menos intervenções humanas e cada vez mais algoritmos proporcionando autosserviço ao toque das suas mãos. Como sobra mais espaço em nossas agendas, podemos consumir outros conteúdos, e com isto, nosso tempo de vida é consumido.

Persona – Conectando você com o que importa

Após um dia de trabalho, o motorista do App de transporte vai a cafeteria, e ao ouvir o alarme de notificação dos celulares a sua volta, tem visível aumento de sudorese, demonstra irritabilidade e alteração comportamento. O intuito desta cena sem diálogos é instigar o espectador através da edição, sugerindo que o personagem apresenta sintomas de ansiedade. Geralmente, quando se menciona a palavra ansiedade, esta é sempre referida pelo escopo psicopatológico, descrição dos possíveis transtornos, sintomatologia, posologia e tratamento psicológico.

Afinal de conta, o que é Ansiedade?

Ansiedade é o medo de uma ameaça antecipada ou real e incerteza sobre a capacidade de lidar com isso, definição que consta no The Ekman Atlas of Emotions (tradução livre: Altas das Emoções de Paul Ekman). Semelhante ao sinal amarelo do semáforo (farol ou sinaleira, entre outro regionalismos do Brasil) que indica atenção, mostrando a iminência da parada obrigatória.

Por que nos sentimos ansiosos frente as situações?

A Psicologia Evolucionista, disciplina resultante da síntese entre a Psicologia Cognitiva e a Biologia Evolutiva, que engloba conhecimentos da Antropologia, Paleontropologia, das Ciências Cognitivas e das Neurociência, aponta que a perpetuação da espécie equipou seres humanos com este mecanismo biológico das emoções.

Você encontrará neste blog no texto a Psicologia das Emoções, a evolução dos estudos e embasamento teórico, mas adianto que medo é uma emoção humana, cuja função principal é preservar a vida. Se o dispositivo emocional de ansiedade de um individuo não sinaliza frente há uma situação de perigo, existe a possibilidade deste não ser humano.

Em outro texto também publicado neste blog (Por que todos desejam ser como Spock?) descrevo mecanismos do desenvolvimento biopsicossoal na Teoria Comportamental Cognitiva, mas neste ponto irei me ater aos mecanismos cognitivos do desenvolvimento humano.

“As funções executivas do cérebro humano podem ser consideradas um conjunto de processos cognitivos que de forma integrada, permitem ao individuo direcionar comportamentos a metas, avaliar eficiência e adequação destes comportamentos, abandonar estratégias ineficazes em prol de outras mais eficientes e, desse modo, resolver problemas de médio e de longo prazo (Malloy-Diniz, de Paula, Sedó, Fuentes e Leite, 2014).”

Todos os seres humanos deste planeta, independente de ter acesso a educação escolar, possuem este conjunto de capacidades. Porque aprendemos com nossas experiências, podemos ter respostas adaptativas aos problemas apresentados, é com isto, começamos em anteciparmos os acontecimentos. Então, podemos supor que em teoria, quanto maior for o repertório do sujeito, melhor será resposta frente as situações. Certo?

Daniel Kahneman, o Prêmio Nobel de Economia em 2002, afirma em seu livro Pense Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, que há dois sistemas funcionando em paralelo no cérebro: e o que pensa depressa e é automático – ligado a memória e as emoções – e o que pensa devagar é racional – isto leva tempo e consome energia. Podemos supor que o cérebro funciona no módulo avião (recurso que limita o consumo da bateria do seu celular), talvez por isto muitas funções são automatizadas, inclusive o pensamento.

Quando ansiedade vira doença?

De acordo com Robert L. Leahy no seu livro Livre de Ansiedade a reposta é clara e objetiva: é quando o sujeito começa sentir o medo certo na hora errada.

Uma mente pode estar com a sensação de algo está acontecendo novamente, ou que está perdendo o controle. Imagine como é ficar tentando antecipar possibilidades cuja evidências não corroboram para que se realizem?

Leahy afirma que, quando somos dominados pela ansiedade, a mente funciona 24/7, como se o botão liga/desliga estivesse sempre ligado. Um tsunami de pensamentos invade a mente do individuo, independe se a vida estiver com alegrias e as coisas estão indo bem, este fica preocupado demais com as ansiedades do passado e do futuro, que tudo que está a sua volta fica imperceptível. Isto mesmo, ao contrário do que dizem a ansiedade não é a mente pensando somente no futuro, a mente pode estar presa em algo que aconteceu e revivendo a sensação constantemente.

Ansiedade: Aviso de Utilidade Pública

Os Transtornos de Ansiedade são categorizados nos compêndios médicos CID 10 – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde publicado pela OMS em fase de atualização para CID 11 e DSM V – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Para saber se você é acometido por uma psicopatologia deste grupo, é necessário um diagnóstico adequado que nenhum site de busca não dará para você. O tratamento deve ser realizado com acompanhamento psicológico e medicamentoso, dependendo do grau de comprometimento do paciente.

Aos familiares, amigos e pessoas próximas é sempre importante lembrar que tentar acalmar dizendo ‘não se preocupe’ e ‘vai ficar tudo bem’, quase nunca ajuda efetivamente. A sensações físicas e sofrimentos psicológicos são reais é devem ser tratados com empatia genuína, gentileza e cuidado.

A orientação é buscar profissionais capacitados e treinados que irão auxiliar o indivíduo e familiares o caminho da melhor qualidade de vida.

Vale ressaltar que deste ponto em diante entraremos nos questionamentos e reflexões propostos neste episódio, portanto spoilers estão chegando.

“Descobre o que você puder sobre este cara.”

No início deste episódio, vemos o motorista de App de transporte (usando um App de Mindfulness) indo pegar uma passageira na porta Smithereens, que é um App de Rede Social. Ele pergunta para a mulher se ela trabalha naquela empresa, e a resposta é: “nem estava prestando atenção no que disse, mas não, quem me dera se eu trabalhasse.”

Dia seguinte novo passageiro, mesmo local de embarque, mesma pergunta: “você trabalha na Smithereens?” O rapaz em sua primeira semana de emprego, responde com um sorridente sim. Em seguida o motorista diz: “o App esta sinalizando trânsito no caminho para o aeroporto, posso utilizar um caminho alternativo?” Duas respostas afirmativas em seguida num episódio de Black Mirror, nunca é bom sinal. O motorista pacato se revela um sequestrador armado cujo o único objetivo é conseguir contato com o ‘Todo Poderoso’ criador/CEO do Smithereens (apenas para registrar é o App de Rede Social).  

O sequestro ganha contornos dramáticos quando o carro do sequestrador é cercado por várias viaturas da polícia. Os agentes têm dificuldades identificar o motorista, pois a placa do veículo está no nome de uma mulher. Enquanto isto, o sequestrador segue com seu plano, entrega seu celular na mão do sequestrado e o ameaça a ligar na Smithereens, ao fazer o que foi mandado, o número é rastreado.

Alguns cliques depois, os funcionários da rede social fictícia conseguem, como dizem no jargão policial, levantar a capivara do sequestrador. Gostos musicais, quantidades de acessos, compras, documentos, viagens, e entre outros padrões de comportamento comum em redes sociais. Como um passe de mágica um hacker disponibiliza o áudio do celular de dentro do carro e passamos a ouvir tudo que sequestrador e sequestrado conversam. Até os agentes da polícia, que não conseguiram identificar a placa, se impressionam…

Enquanto vidas correm perigo, usar a tecnologia para nossa proteção pode ser uma estratégia fantástica. No filme V de Vingança, o terrorista V diz: “eu entendo por que o medo fez com o que as pessoas entregassem sua liberdade em troca de segurança”. Bauman fala em seus livros sobre o Medo Líquido, que ocorre em relações amorosas, conflito entre países e instituições, que deixaram a ultrapassada solidez para um estado líquido impermanente, isto é atribuído ao medo.

“Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.”

Zygmunt Bauman

Você pode me dizer que não teve escolha. O mundo ficou grande demais, populoso, globalizado e concentrou riqueza em pouquíssimas mãos, e talvez por isto, o controle comportamental pelas plataformas digitais se tornou como vilão dos filmes da Marvel Thanos se auto proclama: inevitável.

No mesmo dia da postagem deste texto, o especialista em cibersegurança Marcelo Lau em entrevista ao Programa Pânico explicando como as mídias digitais impactam sua vida.

“Quero que você apenas me escute, apenas me escute.”

Enquanto isto, o sequestrador permanece irredutível, a única maneira de evitar uma tragédia é ter que interromper o retiro de dez dias em silêncio (uma espécie de detox sem eletrônicos, sem falar e sem contato humano) do “Todo Poderoso” criador/CEO do Smithereens, que ao ficar ciente da gravidade do caso, prontamente se oferece para atender a exigência do sequestrador. Muito suspense, manipulação e jogo de poder, jurídico e assessores tentam sem sucesso demover ideia do seu chefe. Quando o criador/CEO toma a decisão, dispensa seu staff e diz a sua assistente pessoal: “a vantagem de estar na minha posição é que eu posso brincar de ser Deus”. Ele mesmo captura o número e entra em contato com o sequestrador.

Neste momento, uma pausa para reflexão. Em tradições religiosas seculares, Deus é onipresente e onisciente, ou seja, está em todo lugar e sabe tudo. A ideia de falar com o criador é um desejo antigo do ser humano, Mary Shelley assombrou o mundo literário com seu romance Frankenstein em 1816, desde de então a ficção nos brinda com a mesma dinâmica, seja em Blade Runner (1982) ou até mesmo no recente seriado Westword (2016/___ ) da HBO.

O criador/CEO se identifica no outro lado da linha, dá a voz ao sequestrador que desejava confessar uma falha, algo que vez com que ele perdesse a razão do seu viver. Apenas porque naquele instante, ele deixou o momento presente e foi olhar em seu celular, que disparou uma notificação aleatória de algo de menor importância. O “Todo Poderoso”, com aparência messiânica de fala calma e tranquila, diz que não foi por isto que seu App foi criado. O objetivo inicial se perdeu com o tempo, cada vez mais pessoas subordinadas entravam no circuito, dando sugestões de melhorias que fizessem com que a rede social se tornasse mais atrativa, estimulante e consequentemente, mais viciante.

Não vou revelar o final do episódio, para não estragar a experiência, entenda isto como um convite. O objetivo é expor o quanto associamos ansiedade com o mundo contemporâneo em que vivemos, devido a constante eminência do perigo tecnológico e Black Mirror faz isto como nenhuma outra proposta de entretenimento.

O fato também inegável é que não há como parar a Revolução Digital. Antes bastava pensar para existir. A exigência agora é que para existir é preciso ser visto, curtido e compartilhado, nem que seja por seguidores comprados.

Talvez seja necessário regularizar, criar jurisprudência, aprender com os erros passados e ter mecanismos de segurança, pelo menos esta é a bandeira do Mark Zuckerberg, dono do Facebook.

“Não é possível que eu não possa fazer nada por você.”

Assim como no seriado, é fácil encontrar aplicativos de Mindfulness em loja de App para celular. Repare que há uma crítica no episódio na forma de utilização, o sequestrador usa Atenção Plena para aparentar calma ao manter-se na execução do seu plano. Este definitivamente não é o “para que” da Atenção Plena. Pesquisas cientificas revelam que mentes que conseguem manter-se no momento presente são mais funcionais e tem uma melhor qualidade de vida.

Recentemente, ouvi numa palestra na Taverna Medieval em São Paulo, na semana do Pint of Science, o Lama Rinchen dizendo que meditação “não é dizer o que uma pessoa deva fazer, mas guiá-la para que ela encontre a si mesmo no processo”.

Conheça a ti mesmo’, frase ainda hoje é atribuída ao filosofo Sócrates, mas tratava-se do lema dos cidadãos de Delfos na Grécia. Alegam que fora no Templo de Apolo que oráculo proclamou Sócrates ‘o homem mais sábio na Grécia’, e ele prontamente teria respondido: “se assim fosse, isso faria com que fosse o único homem que estava ciente da sua própria ignorância”. Na Enciclopédia Grega Suda do século X, há este interessante complemento à esta conhecida frase: “o provérbio é aplicado àqueles que tentam ultrapassar o que são“, ou “ainda um aviso para não prestar atenção à opinião da multidão.”

Psicóloga Masilvia Diniz

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BLACK MIRROR – Smithereens (5S2E). Criação: Charlie Brooker: Netflix, 2019. Streaming (70 minutos).

BAUMAN, ZYGMUNT – Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004b BAUMAN, ZYGMUNT –

CONHECE A TI MESMO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Conhece_a_ti_mesmo&oldid=55470184>. Acesso em: 12 jun. 2019.

LEAHY, Robert L. Livre de ansiedade / tradução: Vinicius Figuiera; revisão técnica: Edwiges Ferreira de Mattos, Rodrigo Fernando Pereira – Porto Alegre: Artmed, 2011. 248p.

KAHNEMAN, DANIEL. Rápido e devagar [recurso eletrônico]: duas formas de pensar / Daniel Kahneman; tradução Cássio de Arantes Leite. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS: DSM V [ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition], Tradução Maria Inês Correa Nascimento. Porto Alegre. Ed.: Artmed, 2014

MALLOY-DINIZ, Leandro F.; CAMARGO, (Org.). Neuropsicologia: aplicações clinicas. Porto Alegre: Artmed, 2016.p. 291.

MLA style: Daniel Kahneman – Biographical. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2019. Thu. 20 Jun 2019. <https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/2002/kahneman/biographical/

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. CID-10 : Classificação Internacional de Doenças. São Paulo : EDUSP, 1994, 1ª ed.

A análise é de graça?

Como funciona a pagamento e porque ele é importante

O tema do pagamento na clínica é algo que é sempre discutido e parece dar medo em muita gente. Algo que não podemos nos furtar na nossa práxis é pensar qual valor damos a ela.

Os tratamentos em regime de gratuidade, ou com valores baixíssimos, praticados em universidades ou outros centros de formação colocam em xeque preceitos enunciados desde Freud.

Tentarei aqui, apresentar alguns dos principais elementos considerados na prática da psicanálise de orientação lacaniana quanto à questão de pagamento e valor das sessões. Naturalmente não trata-se de encerrar o assunto, mas meramente apontar caminhos de pesquisa.

Na Psicanálise

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(Imagem retirada da Internet)

“Nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez” (Freud, 1913/1996, p. 148).

O valor da análise é intrínseco ao próprio andamento do processo. Ele se diferencia de qualquer outro tratamento na medida em que o analista não responde à uma demanda de um comprador (e não responde mesmo).

A Psicanálise (e especial aqui no Brasil) se manteve (e ainda bem) de maneira mais artesanal, isto é, sem ser regrado por uma tabelação de preços (como o CRP propõe, e bem, para a atuação de psicólogos), e sem estar ligada à grandes corporações da área da saúde. Ela foge das chamadas “práticas de mercado” ou “tendências”.

A análise não é algo que se compra em um balcão, um serviço com orçamento, como outro qualquer.

O dinheiro é tratado por Freud como um elemento do circuito anal (para saber mais sobre as fases do desenvolvimento psicossexual clique aqui). Trata-se de dar ou não o que o outro pede, como quando uma criança pequena tem o poder de ir ou não no banheiro quando a mãe pede (dar ou não o que o outro quer).

Há também, claro, o caso do enfezado, aquele que segura tudo, nada escapa.

“De fato, em uma análise, quando o paciente aborda a questão do dinheiro, o analista não deve ouvir isso como se fosse uma relação comercial, e sim entende-la como algo a ser tratado, semelhante a uma formação do inconsciente, como ato falho, esquecimento, sonho e sintoma. A colocação do pagamento já é o inconsciente trabalhando” (Macedo, 2014, p. 91).

Lacan sempre teve uma fama de cobrar caro. Cobrava sim, mas de quem podia, e em caso, o pagamento era intrínseco ao andamento da análise. Em um conjunto de relatos fabulosos, Jean Allouch, conta passagens de intervenções de Lacan com seus pacientes, nas apresentações de doentes e nas supervisões com analistas em formação. Em muitas delas, pode-se notar o caráter fundamental atribuído ao preço das sessões:

“conflito sobre a próxima sessão

– Quando você volta?

– Segunda,… segunda-feira próxima…

– Volte então sexta-feira.

– É que estou cheio de problemas agora: não tenho mais um tostão. Estou sem trabalho. E pedi que X não me mandasse mais nada…

– Bom, volte sexta-feira e se vire para ter com que me pagar. Até a vista.

Saindo, ele se dá conta: pela primeira vez Lacan lhe disse: “até a vista”.”

(Allouch, 1999, p.38)

Essa passagem tomada de maneira isolada pode parecer para os desavisados algo de arrogante por parte de Lacan, todavia, o mestre francês sabia como ninguém implicar alguém em seu próprio processo de análise.

Trata-se exatamente disso, responsabilizar o sujeito em seu próprio processo de “torção discursiva”, como diria o último Lacan. Ou seja, fazer com que o sujeito se reposicione psiquicamente diante da vida e das situações. Uma análise é cara, mas não necessariamente em seu valor financeiro, e sim, no investimento que o sujeito coloca de si no processo.

“Na prática, o valor cobrado considera a possibilidade de cada um e a disponibilidade do analista” (Macedo, 2014, p. 86).  O quanto um sujeito banca sua própria análise é refletido em parte no valor que paga em sua sessão.

Nessa medida, não é viável uma análise “de graça”, pois, o sujeito ficaria eternamente em dívida com o Outro. “… se o analisante não pagar a análise, o analista o está deixando no registro eterno da culpa. É interessante que na língua alemã se usa a mesma palavra, Schuld, para dívida e para culpa” (Macedo, 2014, p. 92).

Em outro momento, Freud (1913/1996) diz:

“O tratamento gratuito aumenta enormemente algumas das resistências do neurótico – em moças, por exemplo, a tentação inerente à sua relação transferencial, e, em moços, sua oposição oriunda de seu complexo paterno e que apresenta um dos mais perturbadores obstáculos à aceitação de auxílio médico.” (p. 147)

Em determinados casos pode-se pensar em um pagamento mensal ou quinzenal, todavia, normalmente, segue-se um pagamento por sessão, o que auxilia a organização e estabelecimento de limite para o paciente. Em minha prática, costumo acertar o valor inicial nas primeiras sessões, deixando claro, naturalmente, que o valor poderá ser revisto com o andar das sessões.

E na análise com as crianças?

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(Imagem retirada da Internet)

Linha bem tênue, na Clínica da Infância, pensando à partir da perspectiva lacaniana, podemos apontar para um conceito criado por Françoise Dolto (1908 – 1988), chamado de “pagamento simbólico”.

Naturalmente, os honorários do analista são pagos em dinheiro pelos pais/responsáveis que trazem a criança, em valor acordado também nas primeiras sessões.

Quanto à criança, Dolto (2013) trabalha com o chamado pagamento simbólico, onde a criança é também responsabilizada por seu tratamento, onde, a mesma fica incumbida de trazer objetos, como desenhos, cartas ou outras produções que sirvam como pagamento e testamento do progresso da análise.

Alcance social

A Psicanálise é para todos? Sim, e não.

Muito se discute sobre o alcance que a Psicanálise tem na sociedade. Se ela é cara, e a percepção de que é coisa de elite. Na realidade não é. Todavia, tem que se pensar que fazer uma análise não é um empreendimento fácil.

Lacan dizia que não basta querer se conhecer, não é o suficiente. Tem que se procurar uma mudança profunda, para que se suporte o andar das sessões.

É importante que sempre se ressalte que a Psicanálise é uma clínica do singular, cada analista maneja os tratamentos de maneira única. Termino, pois, com uma passagem de Freud (1913/1996):

“Todo aquele que espera aprender o nobre jogo de xadrez nos livros, cedo descobrirá que somente as aberturas e os finais dos jogos admitem uma apresentação sistemática exaustiva e que a infinita variedade de jogadas que se desenvolvem após a abertura desafia qualquer descrição desse tipo. Esta lacuna na instrução só pode ser preenchida por um estudo diligente dos jogos travados pelos mestres. As regras estabelecidas para o exercício do tratamento psicanalítico acham-se sujeitas a limitações semelhantes” (p.139).

Até a próxima.

Por Igor Banin

 

Ps: Ficam aqui algumas recomendações de vídeo falando mais sobre esse tema:

 

 

Referências Bibliográficas

Allouch, J. (1999) – Alô, Lacan? – É claro que não. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Dolto, F. (2013). Seminário de Psicanálise de crianças. São Paulo: Editora WWF Martins Fontes.

Macedo, E. (2014) A sessão e seu preço: A análise lacaniana custa sempre caro?. In Psicanálise – A clínica do Real (pp. 85 – 102). Barueri: Manole.

Freud, S. (1913/1996). Sobre o início do tratamento(Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise I). In O caso de Scheber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. (pp. 137-158, Obras completas de Sigmund Freud, v.12). Rio de Janeiro: Imago.

Psicologias da Emoção: teorias e implicações

Psicologia das emoções
(O filme Divertida Mente [Inside Out], 2015, Disney-Pixar, ilustra bem várias questões relacionadas ao desenvolvimento e ao uso das emoções)
Todos os dias e em quase todos os momentos estamos em contato com as nossas emoções e a psicologia científica estuda emoções desde o seu surgimento. Embora muitas estruturas, fenômenos e leis tenham sido investigadas, ainda não há um consenso sobre o que são as emoções e como elas acontecem. Diversos modelos de experiência emocional já foram propostos ao longo da história e, no texto de hoje, vou abordar algumas das principais teorias e descobertas que tocam a vida emocional humana. Quando falamos de emoção, falamos daquilo que é pulsional e mobiliza o comportamento em virtude de uma função (social/comunicação; proteção/sobrevivência); falamos daquilo que te faz sorrir e pular de alegria, de forma involuntária, frente à uma conquista, por exemplo; e falamos daquilo que acontece com você no caso de se deparar com um leão enorme rugindo na sua frente: você paralisa por um instante, sua pálpebra superior se eleva e sua pupila dilata, você encara a fera enquanto seu cérebro cuida de desviar o sangue do seu corpo em direção às suas pernas e, antes que você pense muito, já se percebe correndo/fugindo.

Falar de emoção é também se emocionar, olhar para si, para seus sinais corporais, expressões faciais, pensamentos associados, sentimentos, alterações respondentes (cardíacas, sudorese, enrubescer…). É falar sobre as valências emocionais, isso é, suas intensidades e sensações associadas (positivas ou negativas). É viver emoções primarias (básicas/universais) e secundárias (sociais/culturais). É tentar diferencias emoções, sentimos e afetos. É apreciar a leveza e a paz que um alívio pode trazer e perceber também que o nojo te protege de ingerir algo tóxico e prejudicial. Venha pela trilha emocional e lembre-se sempre que “as emoções determinam a qualidade das nossas vidas” (P. Ekman).

Charles Darwin: o pai do comportamento emocional

O comportamento emocional é essa força viva, universal e involuntária que faz o indivíduo responder de maneira previsível quando o assunto é a experiência emocional genuína/espontânea (quando uma pessoa, de fato, sente uma emoção). O trecho abaixo apresenta alguns exemplos do comportamento emocional.

O sorriso verdadeiro durante a vivência da alegria;
O paralisar, correr ou lutar frente à situação de perigo;
A elevação do pitch vocal e “tremor na voz” durante a sensação de ansiedade;
A dilatação e a contração pupilar referente não a alteração da luminosidade do ambiente, mas à alteração emocional particular de alguém;
O aumento no uso de gestos manipuladores durante a emoção negativa;
O ruborizar durante a vergonha ou raiva, por exemplo.

(Ferreira, 2018, p. 11)

Psicologia das emoções expressão facial duchenne
(Duchenne realizou experimentos de eletroestimulação em músculos da face humana, durante uma investigação sobre a fisiologia das emoções que influenciou Darwin.)

Se hoje podemos falar de comportamento emocional universal, vale lembrar que foi em 1872 que Charles Darwin publicou “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”, onde propôs, de forma pioneira, que as emoções e suas expressões não seriam produto cultural ou decorrente de processos de aprendizagem, mas seriam universais e partilhadas, de maneira comum, por todos os membros de uma mesma espécie. Trocando em miúdos, segundo Darwin, todos os cachorros do mundo expressam raiva e medo da mesma forma e todos os humanos do mundo expressam alegria e tristeza da mesma forma, por exemplo, e isso acontece de forma instintiva – como resultado de uma interação dialética evolutiva entre a espécie, sua sobrevivência e seu meio. Ao longo do livro, Darwin relaciona diversos comportamentos (encolher-se, eriçar de pelos, empalidecer, elevar a pálpebra, abrir a boca, abaixar as sobrancelhas, franzir o nariz etc…) com base em suas funções práticas para lidar com uma situação

Como a surpresa é provocada por algo inesperado ou desconhecido, quando nos assustamos, naturalmente desejamos descobrir a causa tão logo quanto possível. E consequentemente, abrimos bem os olhos, de forma que o campo de visão seja ampliado, e os olhos possam mover-se facilmente em qualquer direção.

(Darwin, 1972/2009 p. 241)

Darwin chegou a essas suas conclusões por meio de suas próprias observações e arcabouços teóricos sobre a evolução e seleção natural, contou também com o aporte de relatos enviados por colegas viajantes que contavam como eram as expressões emocionais das pessoas em diferentes pontos da Terra e também se baseou nos trabalhos do Dr. Duchenne, que em 1862 publicou uma pioneira investigação fotográfica sobre a expressão facial das emoções em seres humanos.

Teoria James-Lange

Uma das primeiras teorias da emoção, dentro da chamada psicologia moderna, foi proposta por William James (1842-1910) e Carl George Lange (1834-1900), que chegaram às mesmas conclusões após trabalharem de forma independente. A premissa básica é que a sensação emocional vem depois de uma excitação fisiológica e, dessa forma, as emoções são vistas como a experiência de conjuntos de alterações corporais que acontecem após um estímulo emocional.

Para exemplificar, se pensarmos em uma situação que envolve um urso raivoso na nossa frente, a tendência é pensar que sentimos medo e então corremos/fugimos, mas a teoria James-Lange aponta uma outra ordem para os comportamentos. Ela vai nos dizer que primeiro há as alterações fisiológicas (elevação dos batimentos cardíacos, dilatação da pupila e comportamento de correr) para depois, com o conjunto disso, ser experienciada a emoção de medo. Trocando em miúdos, diz que não sentimos medo e por isso fugimos, mas fugimos e por isso, sentimos medo. Nessa visão, o princípio vale para todas as emoções e seus comportamentos associados, isso é, ficamos tristes porque choramos e não o contrário. Caso você se pergunte, por exemplo, por que se sente alegre? A teoria de James-Lange diria que, como você está respirando rápido e seu coração está mais acelerado, seu cérebro concluiu que você está alegre.

Estímulo emocional → Padrão de resposta fisiológica → Experiência afetiva

Talvez essa lhe pareça uma teoria absurda (é até considerada contra intuitiva), mas já existem estudos de informação retroativa (facial feedback hypotesys) que apresentam dados sobre como certas mímicas faciais e comportamentos acabam por disparar neurotransmissores específicos relacionados com estados emocionais (assunto esse, para outro post).

Teoria Cannon-Bard

Uma teoria posterior criticou a visão de James-Lange, ao afirmar que as mesmas manifestações fisiológicas poderiam estar presentes em emoções muito distintas, isso é, o medo é acompanhado sim por aumento da frequência cardíaca e sudorese, mas essas mesmas alterações fisiológicas acompanham outras emoções como a raiva, e até estados patológicos, como a febre. Dessa forma, Walter Cannon (1871-1945) e Philip Bard (1898-1977) propuseram que o sistema nervoso central seria o causador, tanto das manifestações fisiológicas, quanto da experiência emocional, e isso ocorreria ao mesmo tempo, como processos paralelos (e não sequenciais, em comparação com a teoria anterior). A teoria Cannon-Bard é conhecida também como uma teoria “talâmica” das emoções, em referência à estrutura cerebral “tálamo”, pois foi Bard quem descobriu que todas as informações sensoriais, motoras e fisiológicas tem que passar pelo diencéfalo (particularmente o tálamo), antes de serem submetidas a qualquer processamento adicional.

Dessa forma, frente ao mesmo urso raivoso, pela teoria Cannon-Bard, as mudanças fisiológicas (elevação dos batimentos cardíacos, dilatação da pupila e comportamento de correr) ocorrem ao mesmo tempo em que a sensação de medo enviada.

James-Lange Cannon-Bard Psicologia das emoções
(Quadro comparativo entre as teorias James-Lage e Cannon-Bard)

O circuito de Papez

sistema límbico papez psicologia emoções
(imagem ilustra os componentes originais do circuito de Papez [interligados por setas grossas], e aqueles acrescentados por outros pesquisadores [interligados por setas finas]. Lent, 2010, p. 720).
A teoria Cannon-Bard foi a primeira tentativa concreta de compreensão das bases neurais emocionais e acabou atraindo a atenção de vários neurocientistas. James Papez (1883-1958) foi um deles e foi responsável por mudar a noção de um “centro emocional cerebral” para um “sistema” ou “circuito cerebral das emoções“, isso é, revendo a literatura da época e apontando um conjunto de regiões associadas à experiência emocional.

Papez percebeu que essas regiões eram conectadas reciprocamente de modo “circular”, o que revelava uma rede neural que ficou conhecida como circuito de Papez. Mais tarde aproveitou-se um termo antigo criado pelo neurologista Paul Broca, e o circuito de Papez passou a ser conhecido como sistema límbico.

(Lent, 2010, p.720)

Paul Ekman: a teoria neuro-cultural

Uma vez que começamos com as propostas universais de Darwin, quero fechar o texto com descobertas emocionais que dialogam com as hipóteses dele. Com fins de recapitulação, Darwin disse, em 1862, que as expressões emocionais são inatas e universais. Com pesquisas transculturais realizadas, principalmente nos anos 1960 e 1970, foi possível validar a afirmação de Darwin para 6 emoções básicas com expressões faciais universais (alegria, tristeza, raiva, nojo, medo e surpresa), isso é, independente de onde nasceu e como foi criada uma pessoa, ao entrar em contato com uma dessas emoções, ela vai movimentar músculos na face que são organizados, conhecidos e previsíveis.

Um dos psicólogos responsáveis por mapear as expressões faciais universais foi Paul Ekman (1934- ) que, em um de seus estudos, comparou a expressão emocional entre japoneses e estadunidenses e percebeu que eles apresentavam as mesmas expressões faciais quando estavam sozinhos assistindo aos vídeos do estudo, mas que os japoneses, mais do que os estadunidenses, mascaravam emoções negativas (medo e nojo) com a exibição de um sorriso. Essa investigação apontou um fenômeno que hoje é conhecido como “regras de exibição” ou “costumes” (display rules) e, sobre elas, Ekman diz:

são socialmente aprendidas, muitas vezes culturalmente diferentes, a respeito do controle da expressão, de quem pode demonstrar que emoção para quem e de quando pode fazer isso. Eis por que, na maioria das competições esportivas públicas, o perdedor não demonstra a tristeza e o desapontamento que sente. As regras de exibição estão incorporadas na advertência dos pais: “pare de parecer contente”. Essas regras podem ditar a diminuição, o exagero, a dissimulação ou o fingimento da expressão do que sentimos.

(Ekman, 2003, p. 22)

Ekman neuro cultural emoções psicologia
(Paul Ekman e nativos Fore na Papua Nova-Guiné)

Em outro estudo posterior, Ekman foi para a Papua Nova-Guiné analisar a expressão emocional de uma tribo socialmente isolada – os Fore. Lá, com máquina fotográfica e fotografias de faces emocionais, ele chegou a conclusão sobre a universalidade de 6 emoções básicas inatas. Vale dizer que outros pesquisadores, como Carroll Izard, estavam, ao mesmo tempo, realizando estudos paralelos e chegaram a conclusões que também apontavam para a existência de expressões faciais universais. Ekman desenvolveu então a teoria neuro-cultural das emoções, que aponta características universais e inatas relacionadas às estruturas e ao funcionamento cerebral, mas também aponta a influência da cultura naquilo que diz respeito à permissividade ou não de uma exibição emocional. Foi só o começo…nos anos 70, uma ferramenta científica de mensuração da ação facial foi criada, o Facial Action Coding System (FACS), que permite analisar e medir qualquer expressão facial realizada por um ser humano. Nos anos 80, novas evidências foram encontradas e a emoção desprezo foi incorporada à lista das emoções básicas universais. Estudos comparativos entre atletas cegos e atletas com visão foram feitos e as expressões forma sempre as mesmas. Por meio das pesquisas de Ekman, hoje falamos também das famílias das emoções, isso é, o saber que a alegria compreende prazeres sensoriais, alívio, diversão, contemplação…. que o medo compreende ansiedade, receio, terror… que a raiva compreende aborrecimento, irritação, fúria… Por meio do legado de Paul Ekman, podemos também nos entreter assistindo o Lie to Me e nos deleitar com o, sempre emocional, Divertida Mente.

Referências

Darwin, C. (2009). A expressão das emoções no homem e nos animais. (Leon de Souza Lobo Garcia, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1872).

Ekman, P. (2003). A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel.

Ferreira, C. (2018). Estudos sobre a mensuração científica da face humana: vol. 1 – o guia do emocionauta. São Paulo: CICEM Ed.

Lent, R. (2010) Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu.

Por Caio Ferreira

Para saber mais (CURSO)

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Pulsão ou Instinto? Qual é a diferença?

Instinto ou Pulsão? Qual é o conceito de cada um? Qual é a diferença entre eles? Confira.

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A Guerra Ideológica nas Traduções

É natural a todo principiante nos estudos da psicanálise e, consequentemente, da psicologia moderna, se deparar com versões distintas de tradução nas obras de Freud. Numa versão bastante difundida de sua Obra Completa, termos como Instinto (Instinkt em alemão) e Repressão (Unterdrückung em alemão) , por exemplo, eventualmente são utilizados para descrever os conceitos de Pulsão (Trieb em alemão) e Recalque (Verdrängung em alemão).

Alguns estudiosos vão dizer que há aqui um componente ideológico, inserido durante as traduções do alemão para o inglês, dando abertura para interpretações que eventualmente destoariam do que fora originalmente proposto por Freud. Mas deixaremos esta discussão para um outro momento. Contudo, vamos começar pela diferença etimológica entre pulsão e instinto.

Etimologia

Conforme já sabemos, Sigmund Freud era Austríaco, tendo como sua língua materna o alemão. Naturalmente, nos é necessário buscar o significado das palavras usadas pelo psicanalista na língua em que foram escritas.

Instinto – Instinktgrafado de maneira idêntica ao que é postulado na biologia, é algo mais pautado ao comportamento de uma espécie, comumente usado como instinto sexual. Naturalmente, a palavra instinto é também utilizada, em alguns contextos, como sinônimo da palavra “impulso”.

Pulsão – Trieb: grafado de maneira semelhante ao verbo trieben – ação de impelir.
Trieb: impulsão, fazer avançar à força; empurrar, impulsionar; força motriz (usado na física e na engenharia); impulso da força instintual (instinkt).

Vemos que Trieb também pode vir a ser utilizado como um sinônimo de Instinkt na língua alemã. Então por que ainda se fala em “Erro de Tradução”, ou ainda em “Guerra Ideológica” através da mudança do termo? Para chegarmos a algo que nos aproxime de tal entendimento, será necessário conhecer um pouco mais sobre as definições.

As Definições

Se lembrarmos do uso da palavra Instinto antes de chegarmos a sua definição, podemos lembrar que em línguas latinas e também na língua inglesa não é incomum que nos deparemos com uma semelhança no emprego de Instinto, Intuição e Impulso.

Ex: “Eu agi por instinto”; “My instinct told me to act like that (Meu instinto me disse para agir daquele jeito)”; “O instinto materno é algo incrível!”.

Um consenso sobre como houve essa aproximação de conceitos caberia aos bons linguistas. Quando buscamos uma definição de instinto, o resultado dificilmente não se aproxima de um conceito Darwinista:

“Considera-se ordinariamente como instinto um ato desempenhado por um animal, sobretudo quando é novo e sem experiência, ou um ato desempenhado por muitos indivíduos, da mesma maneira[…]” (DARWIN, C. 2003. p. 273).

Um instinto poderia ser, em outras palavras, um comportamento biologicamente herdado, igual em todos os membros de uma determinada espécie, que perante um estímulo motiva ações com a finalidade ligada à sobrevivência e/ou reprodução.

Mas devemos nos atentar a um detalhe: o instinto nos impulsiona de acordo com o que acontece em nosso meio, com uma finalidade específica. A confusão entre instinto e pulsão é legítima, dadas as semelhanças, mas deve ser extinta, uma vez que falamos de funções e finalidades diferentes.

Por exemplo: se falta alimento no local onde estamos, devemos usar nossos músculos para que haja movimento até conseguirmos o alimento no mundo externo.

A partir do momento em que tal finalidade é atingida, deixamos de sentir toda aquela urgência instintiva que nos impulsiona a algo. E, naturalmente, agimos de acordo com o que é esperado para nossa espécie.

Quando algo deixa de ser Instintivo?

Cena de: “La grande bouffle” (em italiano: La grande abbuffata; no Brasil, A Comilança; em Portugal, A Grande Farra), filme franco-italiano de 1973 em que um grupo de pessoas se reúne com o objetivo de comer tudo aquilo que desejam até a morte.

As Pulsões

Em sua obra, quando se refere às Pulsões, Freud não deixa de utilizar o termo Trieb. E em seus usos do termo Instinkt (“Nova Série das Conferências de Introdução à Psicanálise“, Freud, 1933/1964, p. 106) mostra que seu entendimento de Instinto era diferente daquilo que viria a ser o grande cerne de sua teoria: As Pulsões (Trieb) – bastante retratadas em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), As Pulsões e seus Destinos (1915) e Além do Princípio do Prazer (1920).

Para “resumir a síntese de uma resenha” deste conceito, poderíamos utilizar uma passagem que adaptamos de Freud para definir o que seria uma Pulsão:

Um conceito-limite entre o psíquico e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que provém do interior do corpo e alcançam a psique, como uma medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo. (Freud, 1915, p. 4-5)”

Pulsões seriam, então, representantes de forças impulsionadoras que se originam no interior do corpo e são transmitidas ao aparelho mental, pressionando no sentido de descarga. São Inconscientes e fazem parte do que Freud chamou de Processo Primário, ou seja: ocorrem antes da ação do Recalque. As Pulsões buscam restaurar um estado anterior das coisas (Freud, 1920). Contudo, o processo de recalque não as cessa, apenas as direciona para um tipo mais elaborado de descarga.

Já é possível perceber aqui que, diferentemente dos instintos, os estímulos de uma Pulsão estão exclusivamente do mundo interno de um sujeito. Ou seja, enquanto nosso instinto de sobrevivência só nos permite mover os músculos para fugir quando encontrarmos um leão na selva, nossa Pulsão utilizará de combustível para impulsionar o que está em nosso mundo interno em busca de descarga: a libido.

A Pulsão não ocorrerá para desencadear um comportamento em específico. Ela muito menos se limita a se apresentar de maneira igual em indivíduos de uma mesma espécie. Cada um encontrará a satisfação de seus impulsos pulsionais em objetos que façam acordo com sua própria história subjetiva.

Se é da ordem do instinto ingerirmos determinada quantidade de alimento para a nossa sobrevivência, é além da ordem de algum tipo de princípio do prazer, impulsionado por uma grande força que tenta restaurar algum estado anterior das coisas, aquela nossa compulsão por repetir à exaustão o consumo de determinados alimentos que sequer têm algum valor nutritivo. Ou será que comemos apenas para nutrir nosso organismo? Você conhece alguém que ingere alimentos apenas pela pela motivação da fome? Se isso fosse verdade, colocaríamos em xeque todo o entendimento de dietas para múltiplos fins; toda a variedade de temperos e técnicas de culinária empregadas por toda a dedicação que há nos Chefs de cozinha. Comemos por algo a mais.

Explico a relação da comida com a fase oral do desenvolvimento neste texto. Confira.

Se o instinto acaba no ato de sua finalidade, a pulsão continua até deixar de existir – o que só aconteceu antes do nascimento; aquilo que só poderá acontecer após o fim do último batimento cardíaco. O fim da pulsão estará sempre aliado ao fim de toda a atividade cerebral de um indivíduo: a morte.

Tipos de Pulsão

Se o instinto sexual nos conduz à reprodução de nossa espécie, à continuidade de nossos genes num futuro próximo, a Pulsão de Vida (Eros – Pulsão Sexual) se tornou uma tentativa de postergar – através das pequenas doses de prazer obtidas após uma serie de tensões e conflitos, oriundos no contato com o mundo externo – até onde for possível a última finalidade de toda e qualquer vida: o retorno para aquele pacífico estado inanimado, semelhante a algo antes de seu começo – a morte (Thanatos, Pulsão de Morte).

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Se no início as pulsões encontraram satisfação no próprio sujeito, direcionando a descarga em áreas específicas do corpo durante as fases de seu desenvolvimento psicossexual, após certo momento, seus alvos foram se tornando objetos no mundo externo.

Se sabemos que a Pulsão de Morte é aquilo que conduz o indivíduo ao prazer de não sentir desprazer algum, ou seja, um estado onde não há o conjunto de complicações da vida, nos é previsível indagar o que faria essa força impulsionadora diminuir sua intensidade para nos deixar vivos por mais tempo.

Se quisermos desenhar, ilustrar a possibilidade de nosso próprio organismo tentar nos conduzir a morte a partir de seu movimento natural, podemos lembrar da própria mitose, o processo de desenvolvimento das células através de sua igual repartição. Quando esta ocorre de maneira desenfreada em alguma célula do organismo, conduz seu crescimento constante até que esta se torne uma anomalia que se tornou a segunda principal causa de morte no mundo.

E por falar em câncer, o que seria um de seus maiores causadores, senão uma fixação, um retorno da libido àquele momento da vida em que era predominante a satisfação das tensões, ou seja: uma descarga das Pulsões libidinais através da via oral? Naturalmente, recorrer ao cigarro em momentos de estresse e tensão deve ser algo que aproxime o sujeito, mesmo numa pequena fração, à primeira satisfação que lhe proporcionou o seio materno.

E esta seria uma forma de representar uma pulsão se direcionando a um objeto, num momento em que esta deixou de poder encontrar satisfação apenas no indivíduo. Freud vai nos dizer (1920) que, sem a pulsão de vida, nossa compulsão à repetição daquilo que nos dá prazer, motivada por Thanatos, nos conduziria à morte rapidamente. A Pulsão de vida (Pulsão Sexual), seria uma forma de encontrar pequenas pausas, uma mudança temporária da rota ao destino final.

A relação sexual é uma forma de descarga da Pulsão que envolve o contato com um outro. Contudo, para que esta aconteça, escolhe-se o conjunto adversidades  naturais do contato interpessoal para encontrar tal descarga de libido. O sujeito escolhe, inclusive, passar pelas etapas de um processo de sedução, pela a exposição perante a rejeição do desejo pelo outro e muitas outras dificuldades que envolvem a busca por sexo; uma vez que conseguir obter o intermédio do outro, através do consentimento e suas condições, é uma forma de satisfazer minimamente a pulsão e respeitar as leis sociais. Caso contrário, se um sujeito obedecesse estritamente a a intensidade máxima de sua Pulsão e agisse sem a ação do Supereu – de fazê-lo entender os limites e leis da sociedade – ele provavelmente cometeria um crime sexual.

Assim como se eu comer bacon sem parar, se eu fumar um cigarro atrás do outro sem intervalo algum para viver o prazer de forma ininterrupta, meu tempo de vida estará em jogo. Para Freud (1920), a Pulsão de Vida (Eros) será responsável pela interrupção dos comportamentos impulsionados por Thanatos através da busca pelo contato com o outro.

É como se, ao reparar nas semelhanças daquele objeto (o outro) com aquilo que eu acredito ter me dado prazer em tempos primórdios de minha infância, eu buscasse uma forma de satisfação quase tão boa quanto, mas que só aconteceria após uma boa dose de estresse e tensão – componentes naturais quando falamos da divergência existente no contato entre seres humanos diferentes. E nessa satisfação obtida através do ato sexual, da investigação científica (como forma forma de sublimação), etc. desvia-se um pouco da morte iminente que causaria o cega busca pela satisfação das Pulsões de Morte.

“A pulsão seria, então um estímulo para o psíquico que vem do interior do organismo, que não age como uma força momentânea de impacto, mas como uma força constante. (Freud, 1920)”.
Enquanto a pulsão de morte tenta adiantar o objetivo da vida, a Pulsão de vida tenta mostrar outro caminho que pode prolongar a experiência durante este objetivo.

A Ambivalência

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“Se uma relação de amor com um dado objeto for rompida, freqüentemente o ódio surgirá em seu lugar, de modo que temos a impressão de uma transformação do amor em ódio. Esse relato do que acontece leva ao conceito de que o ódio, que tem seus motivos reais, é aqui reforçado por uma regressão do amor” (Freud, 1915, p. 15)

Uma das mais antigas funções do aparelho psíquico é sujeitar os impulsos pulsionais que se chocam com ele, ou seja, fazer com que se tornem parte do sujeito. Se são predominados pelo processo primário, ou seja, aquilo que ocorre antes do recalque, após o acontecimento deste mecanismo, deverão encontrar sua pequena dose de satisfação a partir de atividades socialmente aceitas, que trazem rastros do prazer anterior ao recalcamento. O prazer na atividade atual se liga a algum prazer de Outros tempos.

É mais ou menos assim que um sádico se torna um cirurgião – seu prazer em ferir alguém se transforma na habilidade de curar, de salvar uma vida a partir de um uma ferida na pele. Assim toda aquela libido que ficaria livre num Eu se torna repousada, quiescente naquilo que agora serve ao indivíduo e o meio que este pertence.

As pulsões de vida, ou seja, o contato com o mundo externo e com o outro, podem nos tirar certa paz. Podem nos dar certa tensão, certas desavenças e algum estresse, é verdade. Mas não se pode negar que há pequenos intervalos de prazer e de alívio destas tensões, de satisfação levemente plena. Podemos até mencionar daquele sentimento oceânico que Freud menciona em O Mal Estar na Civilização (1929). E é daí que vale a pena todo este estresse que nos causa a renúncia de retornar ao estado zero. A morte, a ausência de problemas e preocupações e tensões deixa de ser tão atrativa nestes intervalos de prazer em que a vida vale a pena.

Para que servem as Pulsões?

“Retirantes”, de Cândido Portinari. Uma obra que retrata a morte presente em corpos vivos. A Vida e a Morte ocorrendo ao mesmo tempo.

Eros e Thanatos agem em conjunto. Se nossa capacidade de seguir as Pulsões de Vida não obtivesse interferência das forças impulsionadoras ao fim, é possível que sequer sentíssemos alguma urgência de prosseguir com algo. É possível que sequer buscaríamos aquilo que Lacan uma vez chamou de objeto a.

Não haveria desejo sem Pulsão de Morte. A urgência do desejo, o impulsionamento do indivíduo a buscar uma nova versão de tudo aquilo de bom que já experimentou depende de suas Pulsões. Mas se o contato com este desejo não for intermediado pelas relações humanas, é bem possível que nos prenderíamos exclusivamente a qualquer ilusão de pleno prazer. Por sexo e masturbação compulsivos, pelo sabor de uma comida favorita ou pela satisfação e pela euforia que causam certas substâncias lícitas ou ilícitas. O sujeito estará, lenta ou rapidamente, a caminho da morte, pois é a ela que serve o princípio do prazer.

E é por isso que Eros e Thanatos andam juntas. É por isso que nossas vidas subjetivas são repletas de ambivalência. Nossa capacidade de odiar algo ou alguém, ou seja, de buscar sua destruição através de toda a força pulsional que as Pulsões de Morte nos oferecem, é equivalente ao quanto aquilo nos poderia ter acalentado a libido através das Pulsões Sexuais (Pulsões de Vida), mas infelizmente foi algo que se perdeu nos conflitos inerentes ao contato humano.

Se amar alguém não é algo fácil, odiar também se torna um grande esforço libidinal. É preciso forte investimento para ambos. Não é atoa que eventualmente nos deparamos com notícias como esta:

Ex-líder da Ku Klux Klan é flagrado fazendo sexo com homem negro.

Considerações Finais

Portanto, se as Pulsões são confundidas com instintos, estaríamos determinando comportamentos igualitários para toda a espécie humana. Estaríamos contrariando esta pesquisa. Postulando um conjunto normativo de comportamentos. Se justificarmos o desejo de ser mãe de uma mulher como algo equivalente ao “Instinto Materno”, outras mulheres, aquelas que não querem ser mães; aquelas que não possuem o impulso que este “Instinto” causa, poderiam ser colocadas em uma categoria marginalizada (à margem) daquilo que é normal. Se justificarmos o ato sexual como unicamente proveniente do instinto humano, tornaríamos as relações sexuais homo, bin e pan afetivas uma anomalia do comportamento humano. E a história nos mostra o contrário. E isso poderia servir à múltiplas ideologias – e aqui respondemos uma hipótese ao que fora dito no início do texto: ideologias que poderiam ir contra aquilo que a teoria de Freud defendeu, ou seja, a liberdade dos sujeitos serem quem são.

Se a psicanálise nasce estudando os sintomas oriundos das repressões presentes em uma cultura uniformizante, como aquela da Era Vitoriana, por que dialogaria com a possibilidade de uniformizar o comportamento humano através da noção de Instinto?

Daí podemos pensar que a tradução de “Trieb” por “Instinto” poderia ter muita servidão a grupos mais conservadores à revolução trazida pela teoria que:

  • Foi contra a repressão da sexualidade feminina;
  • Apontou a existência de uma sexualidade infantil;
  • Explicitou a presença de um desejo incestuoso na sexualidade;
  • Explicitou uma agressividade não condizente com o que era permitido exibir;

Mas também mostrou que a história de cada sujeito permite que este module as variações daquilo que lhe é inerente. Apontou que o conhecimento obtido na análise pode permitir que o sujeito reconheça a origem e mude o destino de alguns de seus impulsos ou, ao menos, aprenda a conviver melhor com estes.

A psicanálise não poderia ser instintual, uma vez que sua ética para com o sujeito pulsional estará sempre à frente da hipocrisia pregada pela moral social.

REFERÊNCIAS

DARWIN, Charles (2003). A Origem das Espécies, no meio da seleção natural ou a luta pela existência na natureza, 1 vol., tradução do doutor Mesquita Paul.

Freud, S. (2006). Além do princípio de prazer. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.). Obras Psicológicas de Sigmund  Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 2, pp. 123-198). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1920).

Freud, S. (2004). Pulsões e destinos da pulsão. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.) Obras Psicológicas de Sigmund Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 1, pp. 133-173.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1915)

FREUD, S. (1905). Trois essais sur la théorie de la sexualité. Paris, Gallimard, 1987.

HANNS, Luiz Alberto. Dicionário comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996