04 Filmes que VOCÊ JÁ DEVERIA TER ASSISTIDO sobre Psicologia

Se você é estudante ou profissional de psicologia, estes filmes são considerados OBRIGATÓRIOS na sua lista.

A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Não é raro encontrarmos coincidências de fatos da vida em livros, peças de teatro, filmes, séries, desenhos e videogames. Mas em algumas ocasiões também visualizamos fatores apresentados nestes cenários, a princípio vistos com fictícios, eclodindo com um improvável e ensurdecedor eco de suas características em situações da realidade.

É pressuposto que o leitor compreenda as linhas cruzadas da arte na realidade não como causa, mas como efeito. Um sujeito não age em cópia ao cenário artístico por indução, influência ou sugestão da obra, mas pela localização deste cenário ser próxima a de um abrigo, de um acolhimento às representações de sua própria vida interior. Mesmo se estivermos falando de um sujeito cuja mente abrigou qualquer suposta clivagem, qualquer diáspora de palavras soltas do sentido, quando pensamos num alguém que carrega aquele discurso distante da realidade. Conforme conhecido a partir de alguns casos de psicose. Ainda nestes sujeitos, a busca de um sentido Ideal continua vigente, mesmo que parcialmente.

Longe da irresponsabilidade de reduzir estes casos à psicose ou qualquer outra estrutura não-neurotípica, utilizo este exemplo para ilustrar que o cenário ficcional é apenas mais um – dos inúmeros lugares para alguém que sofre de algum tipo de desorganização psíquica – hospedeiro dos discursos por trás ou por frente de cada ato. Toda ação é andarilha, errante e vagal até encontrar sua representação: cabendo ela na realidade ou não. E nesta encruzilhada entre aquilo que é da imagem, do simbólico e do real, é possível ver, bem decorada e jamais carente de acabamento: a casa, de alvenaria, que é a arte.

É através da arte que o garrancho, para quem o fez e o interpreta, encontra semelhança com o desenho e a pintura que foram bem feitos. É através desta ferramenta de compreensão e exibição da realidade humana, que uma música escuta um sujeito; que um filme oferece a narrativa que alguém tanto buscou em sua vida; com seu auxílio, um livro é capaz de realizar a leitura nunca antes feita da história de alguém, e uma peça de teatro exibe ao público toda a vida psíquica que parecia ser privada àquele ser. E o videogame oferece o controle, ou o joystick, sobre a ação dos [im]pulsos que não tinham nome ou história.

Em suma: se não for na arte, será em algum [O]outro [L]lugar que aquele sujeito irá depositar as economias de uma vida inteira, ou parcial, de pensamentos. Ele apenas empresta dela a cor, o movimento e, principalmente: o discurso e a narrativa. Coisas que, pela necessidade deste, seriam encontradas em algum o[O]utro l[L]ugar a qualquer momento.

E acredito que a pessoa que agora lê, já concluiu que a arte não se faz tão diferente para representar o que, silenciosamente ou ruidosamente, se apresentava na vida das pessoas. Ou seria possível a uma escritora ou escritor fugir de aspectos de sua própria história de vida? Não estariam representados na arte aquilo que quem a produz é, foi, será ou poderia ter sido? Não mora em cada personagem da dramaturgia um momento captado por retinas, labirintos do ouvido, ou receptores olfativos? Não está no sabor de uma obra algum registro que pousou nas papilas gustativas do autor? Ou estaria lá apenas o calor do corpo de outra pessoa, que em algum momento foi transmitido através de um toque, um gesto à pele, de quem mais tarde resolveu criar uma produção artística?

Se a autoria de uma obra de arte não foi vivida, sem dúvidas ela foi testemunhada. E a partir daí, seria no mínimo paradoxal que esta não pudesse vir a ser testemunho à realidade do espectador, que até então tanto esperava pelo seu próprio.

A seguir alguns destes exemplos. Se são, ou não, relato ou inspiração: que comentem as leitoras e os leitores!

01 – Clube da Luta – Fight Club – (1999):

Banner do filme (imagem encontrada gratuitamente na internet)

Aqui o personagem de Edward Norton não se mostra muito diferente da maioria da classe trabalhadora: insatisfeito com seu emprego atual, comprando compulsivamente coisas que imagina lhe trazerem satisfação e soterrando suas dores entre as múltiplas quatro paredes do dia-a-dia. A reviravolta se dá no encontro que este tem com o personagem de Brad Pitt. Conhecer Tyler Durden foi o ponto de partida para a criação do Clube da Luta e suas duas regras: 1) você não fala sobre o Clube da Luta; 2) Se é a sua primeira vez por lá, então você vai lutar.

O filme que abriga questões que vão desde um relacionamento abusivo, até os resultados das necessidades de se encontrar uma forma de expressão, ao que tanto fora suprimido pelo capitalismo e a masculinidade. Se este dito já não for, o restante é spoiler.

02 – Cisne Negro – Black Swan (2010)

Cartaz de divulgação do filme (imagem obtida gratuitamente na internet).

Neste filme, a atriz e psicóloga Natalie Portman encarna uma bailarina, que visualizará sua performance protagonizar a obra O Lago dos Cisnes. Entretanto, tamanho destaque na considerada Obra Magna de Tchaikovski, oferece à dançarina uma lupa sobre suas relações mais íntimas: com sua mãe, com seu talento e trabalho e até consigo mesma. Se é faltante ou excessiva a cisão de sua personalidade para lidar com cada um estes aspectos, é uma análise que caberá a quem assistiu ou está em atraso para assistir esta obra magnífica.

Quais aspectos do psiquismo humano são evidenciados neste filme? Por gentileza, minha cara leitora e meu caro leitor, faça, em partes, como nossa dançarina: seja protagonista! Comente aqui suas impressões!

03 – Ilha do Medo – Shutter Island (2010):

Cartaz de divulgação do filme. Imagem obtida livramente na internet.

Nesta película, a investigação mais importante a ser feita não é, definitivamente, os motivos que cercam a óbvia preferência do premiado diretor Martin Scorcese por um tal ator, visto pelos fãs como o maior injustiçado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Óscar.

Mas uma outra investigação se torna o portal de entrada na imersiva narrativa do filme: um agente do FBI investiga o desaparecimento de uma pessoa que, além de ter escapado de um hospital destinado a criminosos acometidos de transtornos mentais, também tem em seu histórico um grave assassinato. Um filme solidário ao espectador: coloca-o dentro da ilha que abriga todo tipo de possibilidade. Quem assiste ao filme, descobre-se ali como mais um dos investigadores.

Há apenas uma forma deste caso nunca ser solucionado: se quem lê este artigo sucumbir à procrastinação de conhecer melhor a si e à psicologia como ciência e profissão, isso é: continuar sem assistir a este filme.

04 – Uma Mente Brilhante – A Beautiful Mind (2001)

Cartaz de divulgação do filme. Imagem obtida livremente na internet.

Este filme jamais deixaria de ser recomendado pela Sociedade dos Psicólogos. Muito menos por este colunista que vos escreve. Ele não foi deixado por último: ele na verdade foi o primeiro a ser comentado. Existe um post exclusivo, feito sobre a biografia em que se baseou esta obra: a do matemático e ganhador do Prêmio Nobel de Economia, John Forbes Nash. E você conhecerá gratuitamente clicando aqui.

Voltando ao filme: como seria possível explicar os atalhos que as sinapses de um gênio tomam, de maneira tão inadvertida, a ponto de causarem espanto naqueles que testemunham os destinos de tais rotas alternativas? É difícil encontrar qualquer gênio que ainda não tenha sido confundido com um louco. Em verdade, é mais frequente (e não menos frustrante), encontrarmos sentido antes no delírio do que na genialidade de alguém. Se isso se deve ao fato de um delírio eventualmente compartilhar algo que poderíamos nós mesmos ter pensado, não cabe agora discutirmos.

Outro cartaz de divulgação do filme. Imagem obtida gratuitamente na internet.

Mas, sem dúvidas, este emocionante filme estrelado por Russell Crowe, retira do espectador, por alguns breves momentos, tanto a certeza da própria genialidade, como da própria sanidade. Narrando a trajetória de John Nash dentro da Universidade de Princeton, a trama aponta como o excêntrico aluno se tornou professor, marido, pai e ganhador do Premio Nobel. Mas não faz isso sem transitar pelas adversidades que envolveram estas posições na vida do matemático. E talvez o fato deste filme ser Vencedor de 4 Estatuetas do Óscar convença mais o leitor do que a retórica deste parcial colunista que vos escreve.

E como falamos de matemática, aqui vai uma equação aos leitores e às leitoras:

assistir ao filme + indicá-lo a quem também se interessa por psicologia = não fazer mais do que a obrigação

(e aqui é feita propositalmente uma alusão à frase muito comumente utilizada por figuras de autoridade, no mero (e não necessariamente perverso!) intuito de evocar, nesta recomendação, a força de seus respectivos Supereus).

Portanto, separem a pipoca, o chocolate, refrigerante, vinho, cerveja, cigarros, charutos e todos os confortos que um retorno, via objetos de transição, à fase oral podem proporcionar! Desejo a vocês a melhor das [re]vivências da pulsão escópica: uma boa sessão de cinefilia!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos

A natureza chama a Psicologia e todo e qualquer indivíduo

A proximidade do ser humano a natureza, como compromisso de cuidado seu e da Psicologia.

“REIMAGINE. REICRIE. RESTAURE.”, este é o tema do Dia Mundial do Meio Ambiente, neste mês de Junho de 2021.

Tema tendenciosamente curioso que pode despertar ao novo. Afinal, ele aparenta retratar sobre o recomeço. E recomeço do quê ou de quem? Do Meio Ambiente, claro! Mas principalmente da relação do ser humano com a natureza. Um convite para restabelecer esta relação através do gesto de cuidado, respeito, responsabilidade, consciência e principalmente, de reaproximação do homem a natureza.

De acordo com os últimos noticiários e depoimentos a respeito das mudanças climáticas e ambientais, “O clima não está bom… e vai piorar!”, título do artigo publicado pela Greenpeace, em Maio de 2021, faz referência a situação atual do Brasil. Segundo especialistas da organização, o país vivencia problemas vinculados ao “aumento de C02, poluição, chuvas em excesso, enchentes e inundações, deslizamentos de terras, aumento do nível do oceano, perda de espécies e secas em algumas regiões.”

E fica uma instigante questão? Qual é o sentido de abordar sobre o tema do Dia Mundial do Meio Ambiente e de sinalizar sobre a problemática ambiental do país, em uma página voltada ao público cativado pela Psicologia e seus estudos?

O sentido desta curiosa ponte é que cabe a Psicologia estudar o homem enquanto ser biopsicossocial. E assumir a responsabilidade em cultivar práticas e ações que preservem a vida do ser humano, contribuindo para o gesto de autocuidado e de cuidador. E é nesta exata tarefa, que a Ecopsicologia retrata sobre a importância em minimizar comportamentos destrutivos e de negligência, que coloquem a natureza em risco, assim como a vida do homem.

Onde houver natureza, haverá vida humana. Mas onde houver vida humana, haverá natureza?

O homem se enquadra como o ser originário da natureza, assim como as árvores, os animais, a água, o ar e outros. Porém, será que o homem mantém condições de viver sem estas outras formas de natureza? Aparentemente, um tanto quanto distante e com certas dosagens dela, ele mantém condições de se sobreviver. A exemplo é possível citar a sociedade que em sua grande maioria reside em zonas urbanas, com rotinas extensas de trabalho e de proximidade aos aparelhos tecnológicos. Se distanciando assim, de zonas rurais ou de paisagens naturais. E claro, é desta forma que os indivíduos em sua grande maioria seguem vivendo, em paralelo a globalização que também vai ganhando cada vez mais vida.

E como contraponto, sabe o que também se amplia? Os problemas de saúde, transtornos mentais, questões como pobreza e desigualdades. A distância e o descuido com a natureza aumentam, o cuidado com a economia material e financeira se amplia, e a saúde se coloca em risco. A vida humana sem as outras formas de natureza se aproxima de limites. E esta é a uma das mensagens da Ecopsicologia, a fim de fortalecer a conscientização de que o ser humano enquanto homem que se assemelha a sua natureza ao seu redor. E que assim como ela, carece de cuidado, de atenção, de respeito, de conhecimento e autoconhecimento, de relação, de troca e de mudanças.

A natureza muda o tempo todo! E neste momento a perspectiva futura é de que ela seguirá mudando, mas não em uma condição infinita e controlável. Mas sim como tudo na vida, finita e carente de cuidado. Neste momento, estudos apontam que ela se encontra desprotegida, ameaçada, isolada e em risco. É preciso cuidá-la! Seu boletim médico se assemelha muito as estatísticas da sociedade. Parece que seus quadros são um tanto quanto parecidos. É preciso cuidá-los!

E como dá conta disso?

Usando ainda da analogia sobre avalições médicas, em alguns casos, pessoas que se deparam com a notícia de um diagnóstico ou a descoberta de um processo de adoecimento, tendem a negar a situação. Tendem a afastar-se dos gestos de autocuidado e se envolverem com ações mais destrutivas, mais prejudiciais, recorrendo até mesmo aos vícios, por exemplo. Assumir e aceitar o que ocorre consigo mesmo dói! Mas tende a doer mais ainda manter ações que ferem a permanência da própria vida. Negligenciar custa caro.

Mas e o que fazer? Assumir e aceitar aparentam ser ações difíceis!

O caminho é se aliar ao processo de se amparar de informações, esclarecer dúvidas, traçar novos objetivos e expectativas dentro das condições favoráveis, cultivar novos hábitos e seguir com as providências prescritas com gesto de confiança e esperança por uma evolução melhor. O caminho é de se aproximar desta situação, para sentir afeto e se vincular, assumindo a responsabilidade rumo às melhores mudanças.

A natureza adoece e o ser humano também. Mas um tem condições de amparar e de cuidar do outro. Mas é preciso “REIMAGINAR, RECRIAR E RESTAURAR“. E a Ecopsicologia parece ser a possível facilitadora para este recomeço e reparo desta relação. Suas práticas são terapêuticas, e mantem o homem próximo a SUA natureza, interna e externa. Ela é interdisciplinar e transdisciplinar. Ela é nova, mas sua missão vai de encontro com o conceito inicial da Psicologia, com o propósito de manter ações preventivas e de cuidado com a saúde biopsicossocial do indivíduo. Ou seja, nunca fez tanto sentido a Psicologia manter a devida atenção à saúde e se aproximar das questões ambientais da sociedade.

Este é o nosso momento.

Não podemos voltar no tempo. Mas podemos cultivar árvores, tornar nossas cidades verdes, renovar nossos jardins, mudar nossas dietas e limpar rios e encostas. Somos a geração que pode fazer as pazes com a natureza.

Vamos ficar ativos, não ansiosos. Sejamos ousados, não tímidos.

Junte-se a #GeraçãoRestauração!

Mensagem de campanha da World Environment Day

Como cultivar o cuidado da relação com a natureza?

  • Aproxime-se de conteúdos informativos ou de entretenimento que compartilham informações sobre o funcionamento, contexto atual e formas de cuidar do meio ambiente. Sites de artigos e notícias, blogues, filmes, documentários e séries são ótimos canais para resgatar esta relação com a natureza.

A informação favorece o processo de conscientização. E em paralelo, contribui para o manejo de afeto e vínculo com a situação, propiciando ao senso de responsabilização e de ação

  • Mantenha hábitos alimentares saudáveis, a fim de preservar recursos naturais que carecem de cuidado

  • Pratique atividades em locais de paisagens naturais. Mantenha-se atento e usufrua de seus detalhes

A prática de atividades físicas, principalmente em locais em contato com a natureza, promove bem-estar e contribuem para saúde.

  • Vincule-se às marcas, organizações e ações que investem neste compromisso de cuidado. E atente-se as instituições que potencializam os prejuízos ambientais

  • Permita-se conhecer mais sobre e Ecopsicologia e suas formas de atuação, seja como profissional e/ ou cliente deste segmento

  • Faça psicoterapia

É difícil dar conta de tudo! E muitas vezes compreender e mudar comportamentos que se apresentam prejudiciais muitas vezes também são atos com suas dificuldades. E a psicoterapia pode ser um caminho pra ajudá-lo a REIMAGINAR, RECRIAR E RESTAURAR.

Por Tayna Wasconcellos Damaceno

Referências

DOSS, E.; RODRIGUES, E. P.; BAVARESCO, A. M.; BAVARESCO, P. R. ECOPSICOTERAPIA: A NATUREZA COMO FERRAMENTA TERAPÊUTICA. Anuário Pesquisa e Extensão Unoesc São Miguel do Oeste[S. l.], v. 3, p. e19698, 2018.

Disponível aqui. Acesso em 11/06/2021


SILVA, K., & SAMMARCO, Y. RELAÇÃO SER HUMANO E NATUREZA: UM DESAFIO ECOLÓGICO E FILOSÓFICO. Revista Monografias Ambientais, 14(2), 01-12., 2015.

Disponível aqui. Acesso em 11/06/2021

Feno na Ficção: Raya e o último Dragão

Compreendendo alguns pontos do olhar da Psicologia de base fenomenológica-existencialista através do filme Raya e o último Dragão

O processo de ensino e aprendizagem da Fenomenologia-existencialista pode ser um tanto quanto desafiador. Lembro-me da quantidade de esforço e atenção que eu direcionava às aulas e dos comentários partilhados entre os colegas de formação. Parecia ser uma aula que nos ensinava a pensar de maneira totalmente diferente. Novos sentidos estavam sendo apresentados a termos e palavras que antes não eram entendidos assim. Grande admiração aos Mestres encarregados de lecionar Feno!

Jardim (2013) abordou os desafios presentes no processo de assimilação desta base teórica e apresentou a ideia de buscar se adotar uma postura fenomenológica inclusive neste processo.

“A aproximação com a fenomenologia para aquele que se dedica a estudá-la é algo que pede em si uma permanência, um demorar-se nos estudos para que a fenomenologia possa se mostrar por si. A compreensão fenomenológica caminha lado a lado com o colocar-se em uma postura fenomenológica, de modo que também o aprendizado da fenomenologia acontece agindo-se fenomenologicamente” (JARDIM, 2013)

Uma proposta de caminho: exemplos que fazem sentido

Nesta caminhada de compreensão da fenomenologia, nos deparamos com alguns termos e conceitos importantes. Pensar em contextos que possam exemplificar estes pontos pertinentes à teoria pode ser uma possibilidade para o início desta caminhada. Considerando esta intenção didática convido-lhes a conhecer um pouco sobre o Filme “Raya e o último dragão”. Fica o aviso sobre spoilers a partir daqui!

Raya e o último Dragão

Poster do trailer encontrado no site da Disney https://disney.com.br/filmes

Há 500 anos, as populações da Terra conviviam em harmonia com Dragões mágicos. Havia prosperidade, segurança e tranquilidade. Juntos, todos os povoados formavam Kumandra. Surgiram os Drums, seres fruto da discórdia humana que consumiam toda a vida e transformavam tudo em pedra.

Com o objetivo de conter os Drums, os dragões uniram suas magias e criaram uma jóia protetora. Sisu, um dos dragões, foi a última a adicionar sua magia à jóia. Com a jóia, todos os seres humanos que haviam sido transformados em pedra ganharam vida novamente. Nenhum dos dragões retomou a vida e Sisu desapareceu.

O sacrifício dos dragões pela vida não foi vivenciado pelos humanos com gratidão e paz. Kumandra foi dividida por fronteiras e os povos se viraram uns para os outros.

É neste contexto que existem Raya e Namari, princesas de dois povos distintos que em épocas passadas formavam Kumandra.

Uma pitada teórica

Alguns conceitos importantes para os estudos da fenomenologia são: ser-aí, consciência intencional e tonalidades afetivas. Vamos explorá-los dentro do contexto do filme?

O conceito de Ser-aí diz respeito a como a fenomenologia compreende a relação homem-mundo. Ser-aí traz a ideia de que existe uma co-pertinência entre homem e mundo. É como pensar que o homem está lançado e sua existência se dá através e em relação com este mundo. Isto inclui considerar que as existências acontecem em horizontes históricos e as possibilidades existenciais se dão neste contexto.

Imagem encontrada no site Adoro cinema

Raya e Namaari, por exemplo, são duas princesas de diferentes povos e cada uma é da maneira que é em relação as possibilidades de “como ser uma princesa” que existem dentro destes contextos. Raya é do povo do Coração e Namaari é do povo da Garra. Quem você chutaria que pode ter mais abertura para sentimentos e quem pode ser mais arisca, por exemplo? Como as princesas estão vivendo neste contexto de rivalidade entre os povos, como poderíamos supor que o relacionamento entre as duas poderia ser?

Dentro da Fenomenologia-existencialista, o termo Consciência é empregado com significado bem diferente do encontrado dentro das teorias Psicanalíticas. Aqui a ideia de consciência relacional consiste na ideia de que estabelecemos consciência para com os outros seres e coisas. Sisu, o último dragão, traz em sua personagem uma maneira de ser com os seres humanos específica dela, específica da maneira que ela compreende os seres humanos. Então, poderíamos considerar, por exemplo, que isto diz respeito à consciência que ela estabeleceu para com os seres humanos.

E o que seriam as tonalidades afetivas? De uma maneira simples, tonalidades afetivas são como uma ótica, uma afinação ou uma cor. É como se todas as experiências da existência humana se dessem com algum sentimento presente que as tonalizassem. Sabe os Drums, os seres avassaladores que consomem tudo? Na animação eles são uma ameaça e trazem medo e preocupações para as pessoas. A presença dos Drums traz rigidez e imobilidade literalmente para os personagens, o que pode exemplificar o quanto o sentir medo “coloriu” a existência destes personagens. Já a personagem Raya parece vivenciar o temor dos Drums com coragem, buscando outras possibilidades. A tonalidade afetiva presente para ela parece ser outra.

A teoria presente na prática clínica

Na animação a personagem Raya realiza uma jornada em busca de Sisu com a intenção de ter seu pai de volta e restaurar a vida no reino de Kumandra. Ela vivencia conflitos, reflexões, ressignificações. Raya vai da desconfiança para a confiança. O processo psicoterapêutico possui suas particularidades em relação a cada pessoa. O desdobrar de cada processo é único e pode apresentar conflitos, reflexões e ressignificações assim como a jornada de Raya.

Muitas vezes, faz parte do processo psicoterapêutico de base fenomenológica acompanhar o cliente no movimento de olhar para a história de vida dele e acolher com ele o se sentir desconfiado, desacolhido pela vida. A retomada de sentidos, o se sentir confiante em relação ao mundo e à própria existência também podem aparecer no decorrer do processo.

Por último, uma consideração

A intenção deste texto foi proporcionar uma pequena abertura para olhar a teoria fenomenológica de maneira introdutória e simples. Fica o convite a todos os curiosos para se aprofundarem nos textos referências. Ah, e também recomendo o filme!

Sintam-se à vontade para comentar ou apresentar sugestões.

Até mais!

Bárbara de Souza Miranda

Referências

FEIJOO, A. M., O homem em crise e a Psicoterapia fenomenológico-existencial.

JARDIM, L. E. F. Ação e compreensão na clínica fenomenológica existencial. In: EVANGELISTA, P. E. (ORG). Psicologia Fenomenológica-existencial: Possibilidades da atitude clínica fenomenológica. Rio de Janeiro. 2013.

DHEIN, C. F. A. Existências Enclausuradas à Automatização da Era da Técnica: Uma interpretação fenomenológico-hermenêutica das Compulsões na contemporaneidade.

POMPEIA, J. A.; SAPIENZA, B. T. Tonalidades afetivas na terapia. In: Os dois nascimentos do homem: Escritos sobre terapia e educação na era da técnica.

05 livros para “entender” Lacan

Recomendações de leitura para interessados em Psicanálise Lacaniana

Jacque Lacan (1901-1981)

Entender Lacan é por demais pretensioso. Sua fala e sua escrita são por demais intrincadas, reunindo às vezes no mesmo parágrafo conceitos de matemática, física e antropologia. Sua transmissão nos remete à falta, à nossa ignorância. Seu estilo rebuscado e erudito gera horas e horas de debate sobre uma única frase.

Pensando em abordar diversos aspectos da obra de Lacan, reuni aqui textos de psicanalistas que conviveram, estudaram e repensam a obra do francês. Elas ajudam não só pessoas em formação psicanalítica.

Gostaria de salientar que nenhum texto escrito por terceiros substitui a leitura do autor/pensador por ele mesmo. Sempre vá direto, mas caso queria uma ajuda, aqui vão algumas dicas:

01 – Introdução clínica à psicanálise lacaniana (Bruce Fink)

Escrito por Bruce Fink, um analista norte-americano (o quê, por si só já é notável), este texto serve como introdução para todos aqueles que se destinam à prática clínica e que querem se aproximar da obra de Lacan.

Aqui, Fink discorre sobre várias facetas da prática clínica, sempre com exemplos úteis à mão. Fala sobre Desejo, Diagnóstico e Técnica analítica. Como nesse trecho, onde o autor discute o aspecto sempre desafiador de se manter fora de uma prática de “compreensão” do sofrimento do paciente:

“Na análise, entretanto, analista e analisando não “falam a mesma língua”, embora ambos possam ser falantes nativos de um dado idioma. Suas expressões podem ser muito parecidas, se eles vierem de meios socioeconômicos semelhantes e da mesma região do país, mas, em última instância, eles nunca “falam a mesma língua”” (Fink, 2018, p. 33)

Falando sobre Fantasia Fundamental, Fink (2018), afirma:

“Convém observar que a fantasia fundamental é menos algo que exista em si, antes da análise, do que algo contruído e reconstruído no curso da análise” (p.83).

02 – Alô, Lacan? É claro que não. (Jean Allouch)

Este livro se trata de um compilado de anedotas da vida e trabalho de Lacan. Com passagens em sessões de análise, supervisões clínicas e apresentação de pacientes, onde a escuta e o jeito irreverente do mestre francês despontavam. Como nessa passagem onde a surpresa e o deslocamento do lugar-comum aparecem em uma sessão:

conjuração?

“No tom irritado que é habitualmente o deste tipo de afirmação, ele diz:

– Puxa! eu sou uma besta.

Lacan:

– Não é porque você diz que não é verdade” (p.39)

A prática do chamado tempo lógico causou muita polêmica culminando na saída de Lacan da IPA em 1964. Por vezes ele pedia que o paciente viesse 2 ou 3 vezes no mesmo dia para sessões curtíssimas, e na semana seguinte passava uma hora inteira escutando o mesmo paciente. Sessões com tempo variável são, sem dúvida nenhuma, uma arte. Seleciono aqui duas passagens

sessões curtas

“Ela pergunta a Lacan:

– Por que você me atende por tão pouco tempo?

– Para que isso seja mais sólido.” (p.91)

É um texto revelador e por vezes humorístico que nos mostra o dia-a-dia do trabalho de Lacan com a Psicanálise em suas diversas frentes.

03 – A vida com Lacan (Catherine Millot)

A vida com Lacan trata-se de um texto íntimo que nos mostra a última década de vida de Jacques Lacan à partir do ponto de vista de Catherine Millot. Ela que buscou a formação com o psicanalista já no fim da vida, retrata situações corriqueiras onde o estilo de Lacan se mostra:

“A intensidade de sua expressão, sua dramatização, me fazia pensar no teatro da crueldade de Antonin Artaud. Numa outra noite em Paris, alguns meses antes, na capela do hospital Saint-Anne, ele proclamara que falava com as paredes e que era isso que fazia seu auditório gozar. A teatralização fazia parte da arte oratória de Lacan. A cólera afetada e a raiva ostentosa eram suas marcas recorrentes” (Millot, 2017, p.35)    

Um homem de hábitos, envolto em suas reflexões acerca do humano e sua relação com o Outro, Lacan deixou um legado importantíssimo para a Psicanálise e para o campo mais amplo da Saúde Mental.

04 – 14 conferências sobre Jacques Lacan (Fani Hisgail)

Esta coletânea publicada em 1989 reúne textos de Contardo Calligaris, Oscar Cesarotto entre outros. Textos estes que foram apresentados na chamada “Semana Jacques Lacan”, realizada na PUC-SP, em outubro de 1988. Foram 4 dias de intenso debate e discussão entre filósofos, psicanalistas e semiólogos, debruçando-se sobre diversas áreas do ensino de Lacan.

Nessa coletânea você encontra discussões sobre o “campo psicanalítico”, a ética da psicanálise e como se transmite a mesma. Discorrendo sobre cultura, o saudoso Calligaris diz:

“A necessidade que funda o sujeito neurótico numa filiação à função paterna é que o funda submisso ao automatismo de repetição, o qual a função paterna organiza. E o sintoma não é nada mais do que esta organização” (1989, p.20).

Interessante apontar também o uso do Nó-Borromeano por Oscar Cesarotto (1989) acerca da Transmissão da Psicanálise, falando em três tempos: Formação, Autorização e Reconhecimento.

05 – Introdução à topologia de Lacan (J.D. Nasio)

O período entre 1964 e 1971 ficou conhecido como a virada lógica de Lacan. Nesse texto de 2010, J. D. Nasio, grande divulgador da obra de Lacan, discute e apresenta a construção e uso das estruturas topológicas na psicanálise do francês. Entre elas, encontramos a Banda de Mobius, Toro, Garrafa de Klein e Cross-cap.

Lacan fez uso da Topologia das Superfícies para explicar e ilustrar conceitos psicanalíticos de maneira lógica. Entre eles: Desejo, Inconsciente, Discurso e Objeto a.

Um texto interessantíssimo para os curiosos do uso de conceitos lógico/matemáticos pelo mestre francês.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências

Allouch, J. (1999) – Alô, Lacan? – É claro que não. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Higail, F (org.). (1989) 14 Conferências sobre Jacques Lacan. São Paulo: Editora Escuta.

Fink, B. (2018). Introdução clínica à psicanálise lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Millot, C. (2017). A vida com Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Nasio, J (2011). Introdução à topologia de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Você Conhece o Estado de Flow?

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

(Fernando Pessoa)

Você já realizou uma atividade onde não percebeu o tempo passar? Deixou de comer ou ir ao banheiro? Sentiu extremo prazer e conexão com aquilo que estava fazendo? Provavelmente você já experimentou essa sensação em alguns momentos da sua vida ou mesmo do seu dia-a-dia. Essa experiência vem sendo estudada pela psicologia como flow (ou estado de fluxo) e é sobre ela que vamos falar no texto de hoje 😉

Mihaly Csikszentmihalyi

É um psicólogo de origem croata considerado um dos pais da psicologia positiva (ao lado de Martin Seligman) e o pai da teoria flow. De acordo com sua biografia, teve a família destruída pela 2ª Grande Guerra Mundial e chegou a ser mantido em campo de concentração italiano quando criança. Teria descoberto a primeira “atividade flow” por meio do xadrez, depois pela pintura e fotografia. Durante os estudo de psicologia, chegou a assistir palestra de Carl Jung e interessou-se pela felicidade após conhecer húngaros que estiveram presos na União Soviética e se questionar por que alguns mantinham-se sãos enquanto outros estavam psicologicamente destruídos. Graduou-se no ano de 1959 e recebeu seu doutorado em 1964, ambos pela Universidade de Chicago (Kamei, 2018).

Foi observando pintores durante sua pesquisa de doutorado (sobre criatividade) que percebeu características daquilo que, mais tarde, viria a chamar de estado de flow. Mihaly ficou impressionado como os artistas ficavam imersos, concentrados, envolvido e absorvidos durante o processo de pintura, esquecendo-se também do tempo, das necessidades biológicas, da fadiga e das obrigações sociais, por exemplo. O mais interessante era que isso durava enquanto a pintura estivesse incompleta e sendo construída, pois, assim que o quadro era concluído, os artistas perdiam o interesse por aquela obra e se voltavam para a próxima tela. Ele entendeu que a motivação para a pintura estava no próprio processo de pintar, e não na antecipação frente a um belo quadro pronto – a qualidade da experiência já era suficientemente recompensadora.

Charles Spencelayh (England 1865-1958) The Old Copyist

Buscando explicações para o que estava descobrindo, teve dificuldades em encontrar respostas ou elucidações nas chamadas 1ª e 2ª força da psicologia (behaviorismo e psicanálise), mas encontrou um ponto de partida na psicologia humanista de A. Maslow, que já apontava dois tipos de comportamento criativo (orientado para o produto e orientado para o processo). A proposta de Maslow entendia a autorrealização por meio de experiências culminantes, o que envolvia o descobrimento das potencialidades e limitações do eu a partir das atividades e vivências. Foi o mais perto que Mihaly encontrou sobre o que estava estudando. Por meio da observação de crianças e de pesquisas realizadas com pessoas que despendiam grande parte de tempo em atividades das quais não tinham nenhum tipo de remuneração (como atletas amadores, dançarinos, compositores, alpinistas…), que ele descreveu as características e condições da experiência flow.

“Em um mundo supostamente regrado pela busca por dinheiro, poder, prestígio e prazer, é surpreendente encontrar certas pessoas que sacrificaram todas essas metas por nenhuma razão aparente: pessoas que arriscam suas vidas escalando montanhas, que devotam suas vidas à arte, que despendem suas energias jogando xadrez. Descobrindo por que elas estão dispostas a desistir de recompensas materiais pela elusiva experiência de desempenhar ações satisfatórias, nós esperamos aprender algo que nos permitirá tornar a vida cotidiana mais significativa.”

(Csikszentmihalyi, 1975)

Modelo de Experiência Flow

De acordo com o autor, existem 3 principais condições para a ocorrência do estado de flow: 1) metas claras; 2) feedback imediato; 3) equilíbrio entre habilidades, desafios e oportunidades de ação.

  1. Metas Claras: para o flow, não interessam tanto as metas finais, mas sim a série de pequenos objetivos momento a momento. Como cada nova pincelada em um quadro; como um próximo movimento preciso para a execução de uma dança; como o escrever de algumas palavras para avançar em um texto, por exemplo.
  2. Feedback Imediato: essa condição informa sobre o andamento da performance e se o autor está se aproximando do seu objetivo em cada ação. Em toda pincelada a modificação visual ocorre e isso aproxima ou distancia do efeito desejado; cada nota musical executada ou improvisada informa sobre a qualidade da performance e pode sugerir alteração na dinâmica das próximas notas; cada traço no papel do desenhista; um domínio de bola para um futebolista; uma bela figura inserida em um slide de alguém que monta uma aula…
  3. Equilíbrio Entre Habilidades, Desafios e Oportunidades de Ação: buscando mapear o espectro da experiência flow, Mihaly trabalhou, inicialmente, com 3 experiências: tédio, flow e ansiedade, relacionando-as enquanto correspondentes à combinação entre habilidades (que se possui) e desafios (a serem atingidos) envolvidos em uma tarefa. Em linhas gerais, uma pessoa com grandes habilidades frente a um desafio baixo, vai experienciar tédio, assim como uma pessoa de baixas habilidades frente a um desafio alto, vai experienciar ansiedade. Dessa forma, a experiência flow se encontra no equilíbrio entre as habilidades e os desafios, com base em uma situação de oportunidades de ação (que podem ser bem ou más sucedidas – um saque de tênis, por exemplo). Abaixo está o modelo atual de compreensão do estado de flow.
Modelo de Flow de 8 Canais – Adaptado de Csikszentmihalyi (1997)

Características do Flow

Durante o flow, as pessoas relatam sensações de estar no controle de suas ações frente ao cenário em que a atividade se desenvolve. A atenção é forte e focal, sendo que o contato acontece no aqui e agora e é presente nos fatos, deixando de lado tanto questões ruminativas sobre passado ou futuro, quanto questões relacionadas aos papeis sociais e profissionais – é comum a sensação de unicidade com a criação, o músico e o instrumento são um quando fazem a música; a bailarina e a dança torna-se uma coisa só. Essa experiência também impacta a percepção temporal, sendo que alguns relatos falam sobre o tempo discorrendo de forma muito mais rápida, mas também muito mais lenta. Assim como uma aula de horas pode parecer ter durado alguns minutos para o professor que gosta de lecionar, um movimento coreografado de milésimos de segundo pode parecer uma eternidade na percepção da bailarina. Outra característica foi chamada de experiência autotélica e diz respeito a atividade ser um fim em si mesma, sem depender de fatores posteriores – ela é satisfatória, extremamente agradável, intrinsecamente recompensadora e gratificante por si própria. Abaixo listei as principais características:

  1. Sensação de controle
  2. Concentração profunda
  3. Fusão entre ação e consciência
  4. Foco temporal no presente (aqui e agora)
  5. Distorção da experiência temporal
  6. Perda da autoconsciência social
  7. Experiência autotélica

Aplicando o Flow

Vale dizer que o estado de flow não é exclusivo dos artistas e atletas, ou de pessoas que trabalham diretamente com a criatividade, mas é uma forma de experiência que todos podem alcançar e em diversos afazeres. Em seu artigo de 1975, Csikszentmihalyi defendeu que a aplicação do modelo flow deveria ser urgente nas escolas e trabalhos, uma vez que as pessoas tendem a passar a maior parte da vida nessas instituições. Ao longo de sua obra ele fala sobre o estado de flow acontecendo nas atividades produtivas (como trabalho e estudo), atividades de manutenção (manter o corpo em forma, limpar, descansar) e atividades de lazer (consumo de mídia, conversa, hobbies), e relaciona com consequências no aumento das emoções positivas, no crescimento do self, no fortalecimento da autoestima e no próprio desempenho da tarefa que é executada.

Para empregar o flow, em linhas gerais, é necessário compreender a relação entre as habilidades (que se tem) e os desafios (necessários) para a realização de uma tarefa. Caso a tarefa seja muito difícil, ela deve ser reduzida; caso seja muito fácil, deve ser elevada. E o mesmo acontece para as habilidades de alguém, que dependem de treinamento e prática. Nas primeiras aulas de música, o professor propõe exercícios fáceis e, conforme o aluno vai aprendendo a executá-los, o grau de dificuldade deve subir, caso contrário o aluno tende a se entediar com a experiência. Da mesma forma que se o desafio for muito elevado, desde o início, a experiência tenderá à preocupação, estresse e ansiedade. O flow está no equilíbrio entre as habilidades e os desafios.

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Referências e Recomendações

Csikszentmihalyi, M. (1975). Beyond Boredom and Anxiety. Washington: Jossey-Bass Publishers.

Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow. New York: Harper Perennial Modern Classics.

Csikszentmihalyi, M. (1997). The masterminds series. Finding flow: The psychology of engagement with everyday life. Basic Books.

Kamei, H. (2018). Flow e psicologia positiva: estado de fluxo, motivação e alto desempenho. Goiânia: Editora IBC.

Snyder, C. R.; Lopez, S. J. Psicologia positiva: uma abordagem científica e prática das qualidades humanas. Porto Alegre: Artmed, 2009

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