O Experimento de Duchenne: um dos primeiros estudos com fotografia em psicologia

Duchenne e paciente; Duchenne experimento estudo
Duchenne e seu paciente mais ilustre no estudo de 1862.

No ano de 1862 um neurologista francês publicou um trabalho de pesquisa chamado “Os Mecanismos da Expressão Facial Humana” (Mécanisme de la Physionomie Humaine), onde buscou estudar expressões faciais associadas à emoções e sentimentos. Esse estudo foi conduzido por G.-B. Duchenne (1806 – 1875) que estimulou eletricamente, de forma isolada e combinada, os músculos faciais de sujeitos, relatando então as alterações de aparência por meio de extensas considerações e registrando-as por meio de fotografias. (Duchenne, 1862).

Embora essa obra só tenha sido publicada em 1862, Duchenne se interessava e estudava a estimulação elétrica desde 1835, debruçando-se sobre patologias como atrofias e distrofias musculares, e propondo técnicas de manejo/intervenção frente a elas. Chegou a publicar, inclusive, um trabalho em 1855 chamado “Sobre eletrificação localizada e sua aplicação na terapia” (De l’électrisation localisée et de son application à la thèrapeutique). Em sua carreira, encontramos mais de 90 trabalhos entre artigos e livros, sendo que a obra que lidamos nesse texto é considerada o primeiro estudo sobre a fisiologia da emoção (Maranhão-Filho & Vincent, 2019).

Em 1835, Duchenne questionou por que uma corrente elétrica produzia uma contração muscular localizada. Sua curiosidade logo se tornou uma obsessão. Ele percebeu que poderia estimular os músculos usando dois eletrodos metálicos (reóforos) aplicados na pele úmida. Ele construiu pacientemente seu próprio instrumento de indução de corrente farádica para estimulação de músculos e nervos. [..] As contribuições de Duchenne incluíram trabalhos sobre o uso da fotografia da histologia microscópica, ataxia locomotora tabética (confundida com a ataxia de Friedreich na época), lesões de células do corno anterior, que causavam poliomielite aguda, e paralisia glosso-labial-laríngea (paralisia bulbar). Ele foi o primeiro clínico a realizar biópsias musculares com a invenção que chamou de l’emporte-pièce (cortador de biscoito).

(Maranhão-Filho, & Vincent, 2019, tradução livre).

O Experimento de Duchenne

Buscando em autores como Platão, Aristóteles, Cícero, Descartes, Hobbes etc, Duchenne elaborou uma lista com 73 termos afetivos, o que inclui estado como: admiração, raiva, tédio, coragem, curiosidade, desejo, nojo, embriaguez, ódio, alegria, risada, amor, esperança, tristeza, medo, surpresa, vergonha, desprezo, entusiasmo, inveja, ciúme, orgulho, dor…

Seu estudo classificou 33 expressões faciais derivadas da estimulação eletrofisiológica, discriminando o músculo ou o conjunto de músculos que produzem a respectiva alteração de aparência. As expressões catalogadas por Duchenne foram: atenção, reflexão, meditação, concentração mental, dor, agressão ou ameaça, choro com lágrimas quentes, choro moderado, alegria, riso, riso falso, ironia ou riso irônico, tristeza ou desânimo, desdém ou nojo, dúvida, desprezo ou escárnio, surpresa, espanto, estupefação, admiração ou surpresa agradável, susto, terror, terror com dor ou tortura, raiva, levado por raiva feroz, reflexão triste, reflexão agradável, alegria feroz, lascívia, delírio sensual, êxtase, grande dor com lágrimas e aflição, dor com desânimo ou desespero

Para qualquer desforra frente as traduções livres, seguem os termos empregados na edição inglesa (uma vez que esse livro não conta com tradução para língua portuguesa): attention, reflection, meditation, intentness of mind, pain, aggression or menace, weeping with hot tears, moderate weeping, joy, laughter, false laughter, irony or ironic laughter, sadness or despondency, disdain or disgust, doubt, contempt or scorn, surprise, astonishment, stupefaction, admiration or agreeable surprise, fright, terror, terror with pain or torture, anger, carried away by ferocious anger, sad reflection, agreeable reflection, ferocious joy, lasciviousness, sensual delirium, ecstasy, great pain with tears and affliction, pain with despondency or despair).

Os resultados gerais do estudo catalogaram diversas alterações de aparência decorrentes dos movimentos musculares, contemplando 84 pranchas individuais e 9 pranchas sinóticas que também abordam outros estados afetivos e expressivos para além do 33 catalogados. Vale dizer também o pesquisador anestesiava seus pacientes antes das sessões e que seu sujeito mais ilustre ficou conhecido como homem velho desdentado (old toothless man) e possuía uma condição patológica peculiar que não lhe permitia sentir qualquer dor na região da face, caracterizando-se assim como a cobaia perfeita para esse estudo.

Homem Velho Desdentado e o Sorriso Duchenne

Foi inclusive com esse sujeito que Duchenne estudou uma das mais importantes expressões humanas, o sorriso, onde encontrou considerações relevantes sobre o que até hoje é conhecido como sorriso verdadeiro (Duchenne smile) e sorriso falso (non-Duchenne smile). O pesquisador descobriu que os sorrisos falsos/simulados envolvem a contração do músculo zigomático maior, que puxa o canto dos lábios para trás e para cima, enquanto os sorrisos genuínos/espontâneos envolvem esse músculo e também a contração do orbicular do olho, elevando as bochechas e apertando as pálpebras (ação que ficou conhecida como o marcador de Duchenne). Mais sobre esse tópico você pode encontrar clicando no texto “Sorriso Falso e Sorriso Verdadeiro (Duchenne Smile)” que escrevi para o blog do CICEM.

O espírito é, portanto, a fonte de expressão. Ativa os músculos que retratam nossas emoções no rosto com padrões característicos. Consequentemente, as leis que governam as expressões do rosto humano podem ser descobertas pelo estudo da ação muscular.

(Duchenne, 1862, tradução livre)

Por curiosidade, como costumamos lembrar e ensinar que S. Freud estudou com M. Charcot, por sua vez, Charcot foi aluno de Duchenne 😉

Você também pode ver outras pranchas do estudo e saber mais sobre com o vídeo a seguir:

Referências e Recomendações

Darwin, C. (2009). A expressão das emoções no homem e nos animais. (Leon de Souza Lobo Garcia, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1872).

Duchenne, G. B. A. (1862). Mécanisme de la physionomie humaine [The mechanism of human facial expression]. Cambridge University Press: 1990.

Ferreira, C (2018). Sorriso Falso e Sorriso Verdadeiro (Duchenne Smile). CICEM.

Joaquim, R. M. (2021). Neuropsicologia das emoções: caracterização, expressão facial & aspectos psicopatológicos. Belo Horizonte: Editora Ampla, 2021.

Maranhão-Filho, P. & Vincent, M. (2019). Guillaume-Benjamin Duchenne: a miserable life dedicated to science. Arquivos de Neuro-Psiquiatria [online]. 2019, v. 77, n. 6 [Accessed 25 October 2022] , pp. 442-444. Available from: https://doi.org/10.1590/0004-282X20190044. Epub 15 00 2019. ISSN 1678-4227.

Curso EAD: Fundamentos da Expressão Facial da Emoção. CICEM.

Por Caio Ferreira

Bons estudos!!

O papel do Dia das Crianças para adultos

O dia 12 de outubro é conhecido no Brasil como Dia das Crianças, o dia em que celebramos este período da existência onde somos livres (ou deveríamos ser) para brincar, sonhar, criar e destruir, tudo com um punhado de brinquedos e muita imaginação.

Hoje busco uma reflexão de como essa data pode ser importante para adultos, para muito além do ato de presentear os pequenos, mas para resgatar sua própria criança, ou tudo que ela gostaria que você continuasse sendo. Então neste dia observe, veja em cada criança a espontaneidade, a ausência de culpa, de malícia, veja como a vida é sempre leve como uma brincadeira e como cada dor pode desaparecer um segundo após a queda. Onde nos perdemos?

Nós adultos, responsáveis e sabedores das coisas, acabamos por criar uma ou adotar sistemas de vida que não são nossos, aceitamos do mundo e da sociedade as diversas “facilidades” de vida que cobram um preço alto demais, nossa autenticidade, o melhor que sua infância tinha para lhe dar, por isso, neste dia vamos prestar atenção nas crianças.

O filósofo Friedrich Nietzsche, pontuou sobre como a criança é um espírito livre, como a sua pura vontade, espontaneidade e verdade são a mais profunda afirmação da vida, e elas demonstram como o desejo de querer a felicidade não precisa ser carregado de culpa. Elas esquecem as dores, e até mesmo as surras, elas seguem em frente e brincam mais uma vez.

Pautadas em sua imaginação a criança cria universos, e logo em seguida os destrói, se sente livre para pintar a realidade da cor que achar melhor, a criança vive profundamente sua vontade, de maneira muito espontânea. E essa maneira de viver faz com que seja pra elas impossível de compreender o adulto, pois a criança apenas faz, ela age por seus motivos, porque quer, e não submete isso a nenhum sistema moral previamente, ela vive seu momento com o que ele tem a oferecer.

E nós, adultos que buscamos viver os “bons costumes”, e isso é segundo Nietzsche o caminho para se sufocar, cada vez mais carregado de bagagem social, a pessoa se afoga em si mesma, e perde totalmente aquela espontaneidade da criança, vive o esperado, o designado e deixa de criar realidades, deixa de colorir a própria vida.

“A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação”. (NIETZSCHE, 2004)

E é isso que o filósofo enxerga na humanidade, para Nietzsche a vida humana é vontade de potência, é nossa complexidade de sentimentos, desejos e vontades nos impulsionando para encontrar nossa satisfação e felicidade, para conquistar, para criar, para dominar, de ser senhor de si mesmo e determinar sua realidade com sua criatividade, vontade e esforço. E dentro do fluxo caótico do universo, nós podemos ser crianças, criando, dando sentido e quando necessário, destruindo e começando tudo novamente, sem pesar pelo recomeço, mas sim com muita alegria no coração.

 NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do porvir. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo, Comp. das Letras, 2003.

 NIETZSCHE, F. Assim Falou Zarathustra. Martin Claret: São Paulo, 2004

Atenciosamente,

Psi. Patrício Lauro

Tornar-se saudável e sustentável. Um recorte de algumas responsabilidades em torno do cuidar e do envelhecer.

Considerando o aumento de quadros vinculados a Síndrome de Burnout, Diabetes, Hipertensão e até mesmo do Câncer, torna-se necessário questionar sobre os caminhos possíveis para prevenção e manutenção da saúde.

Atualmente, ressalta-se o aumento da perspectiva de vida, tornando possível uma longevidade maior, em função do avanço da tecnologia e da eficácia dos medicamentos. Porém, em contrapartida, também há uma grande possibilidade de que futuramente, cada vez mais haverá um número maior de pessoas com antecedentes mórbidos e com a necessidade de fazerem uso de medicações.

Desta forma citada acima, é de extrema importância abordar sobre alguns questionamentos, tais como: como evitar doenças possivelmente evitáveis? Como cultivar uma vida mais longa e com mais qualidade de vida? Como preservar a saúde? Quem (quais) cuida é (são) o(s) responsável(eis) pelo cuidado com a saúde?

E pensando em tais questionamentos e possível cenário futuro, foram selecionados 3 vídeos TEDx Talks, disponíveis no Youtube. As apresentações sinalizam, refletem, conscientizam e sensibilizam sobre a importância de se responsabilizar pelo cuidado diário com a própria saúde.

Saúde Integral: nossa essência – por Luciana Costa

A reflexão abordada pela Dra. Luciana, sinaliza sobre as estatísticas atuais em torno da saúde mundial. E em paralelo, ela instiga a um importante convite para assumir um cuidado preventivo com a saúde, ainda que se viva em meio à dinâmica dos centros urbanos.

O convite ressalta sobre o valor da Saúde Integral, considerando algumas práticas diárias, que garantam a sustentabilidade do ser humano. Entre estas práticas, ela cita sobre:

  • a manutenção de uma alimentação natural, integral e orgânica. Além de, cultivar o alimento emocional, como sinônimo de refeições cercadas de bem-estar e afeto, de modo consciente e equilibrado
  • o consumo de água como um importante recurso para vitalidade das células do organismo
  • o sono reparador, considerando suas necessidades para que ele aconteça. Como exemplo: não comer em excesso no período noturno. E comer até o horário das 20h.
  • a prática de alongamentos e de exercícios físicos.

Co-criação de saúde – por Leonardo Aguiar

Neste segundo vídeo selecionado, o Dr. Leonardo enfatiza inicialmente sobre a tendência natural das pessoas se ausentarem da responsabilidade com o cuidado da própria saúde. Tal tendência, segundo ele, reflete na origem dos problemas.

O comprometimento em colocar em prática aquilo que se sabe com o que se que se pensa, em torno de um olhar que considera a construção de hábitos diários e até mesmo a vivência de um estilo de vida que também prioriza saúde e bem-estar, tende a ser um significativo caminho para não mais cuidar apenas dos sintomas das doenças. Mas também como uma importante alternativa para evitar que certos processos de adoecimentos ocorram.

Ao longo de sua apresentação, o Dr. Leonardo utilizou como referência um caso clínico que acompanhou em seu próprio consultório. Em sua abordagem clínica, ele optou por um tratamento cercado de profissionais de diferentes e complementares especialidades, apostando e percebendo os efeitos de um cuidado integral.

Um dos pontos ressaltados pelo senhor Aguiar, também foi sobre a necessidade de cuidar das questões emocionais, como parte integrante deste movimento de se conscientizar e responsabilizar-se pelo cuidado da própria saúde.

Saúde como um ato de amor – por Maitê César

“Viver a vida que quero viver. E não a que poderia ter sido vivida.” De acordo com a Dra. Maitê, este tende a ser o possível resultado de uma vida cercada de conscientização, responsabilidade e amor, direcionados ao objetivo de evitar certos adoecimentos.

Assim como Dra. Maitê, ela também ressalta sobre os benefícios de cultivar uma alimentação equilibrada, como fonte de nutrição ao corpo, à vida e ao próprio bem-estar.

Em sua reflexão, a doutora instiga a sensibilização perante os seguintes aspectos na vida diária:

  • autocuidado, como um modo de se relacionar consigo mesmo.
  • alimentação e metabolismo com manejos equilibrados.
  • cuidado com a saúde intestinal, considerando o sistema digestivo como fonte de imunidade e bem-estar.
  • a prática de medidas diárias que minimizem o estresse e preservem o repouso.
  • o gesto de se amar, como uma atitude atenta, consciente, acolhedora e responsável consigo mesmo.

O que há em comum nestes estudos atuais sobre o cuidado com a saúde?

Alguns pontos em comuns foram facilmente observados nas apresentações destes profissionais de saúde. Entre estes pontos, é possível considerar a importância em assumir um estilo de vida que propicia a proximidade com o conhecimento, a atenção e a prática de hábitos que sustente o cuidado integral com a saúde.

Cuidar dos sintomas após a instauração das doenças tende a não ser o único caminho pertinente a manutenção da saúde. Mas adotar hábitos que potencializam o evitar de certas doenças é um caminho eficaz para uma vida sustentável e saudável.

Contar com o apoio e acompanhamento de profissionais de diferentes e complementares áreas também é uma das características deste cuidado integral.

O que fica de lição de casa?

Ao ser humano, assim como eu, fica esta oportunidade de aprender, ressignificar, se conscientizar e se sensibilizar com os processos que todos estão convidados a viver, como: o envelhecimento, nosso potencial para o adoecimento e sobre a própria finitude.

Neste sentido, é de extrema importância acolher as próprias demandas emocionais e perceber aquilo que se pensa, acredita e espera de si e da vida, enquanto a vivencia. Adotar uma postura afetiva e responsável com o as escolhas e com a construção da própria história de vida, pode ser um caminho sustentável para preservar a natureza mutável e finita que se é.

Muitas situações são possíveis de serem evitadas, e muitas outras podem ser melhoradas. Entre as que podem ser melhoradas, observo que as orientações e as condutas adotadas pelos profissionais de saúde, também são de uma extrema importância social.  A estes profissionais, os cabe assumir e fortalecer as responsabilidades em prol de um cuidado preventivo e integral.

A tudo e a todos, um caminhar gradual. Um primeiro passo e depois o outro. Por aqui, algumas informações breves e iniciais. Apenas uma iniciativa, um olhar e um convite. Mas para seguir neste caminhar, vamos continuar?

Por Tayna Wasconcellos Damaceno.

Referências

Diabetes, hipertensão e obesidade avançam entre os brasileiros. UNA-SUS, 2020.

Disponível aqui. – Acesso em 28/08/2022.

OMS revela principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo entre 2000 e 2019. Nações Unidas Brasil, 2020.

Disponível aqui. – Acesso em 28/08/2022.

SALES, Amanda. Síndrome de burnout: especialistas explicam processo de ‘esgotamento’ físico e mental no trabalho. G1-DF, 2022.

Disponível aqui. – Acesso em 28/08/2022.

08 Livros Para Conhecer o Zen-Budismo

Em breve teremos a primeira edição do nosso novo curso “Psicologia e Zen-Budismo”, onde trabalharemos a relação entre a prática e filosofia budistas com diversas facetas da psicologia. Desde os estudos sobre meditação e

Para celebrar esse evento, trouxe aqui uma seleção de alguns dos livros que servem de bibliografia para o nosso curso, e que podem servir de porta de entrada para quem se interessa pelo tema.

Espero que gostem!

Introdução ao Zen-Budismo

Autor: D.T. Suzuki

(D.T. Suzuki)
(Divulgação: Editora Mantra)

Ótima obra de introdução ao sistema de pensamento e práticas Zen budistas. Suzuki foi um grande divulgador do pensamento Zen no início do século XX, tendo lecionado em diversas universidades americanas, até voltar ao Japão.

Nessa obra Suzuki traz uma visão geral das práticas e da filosofia zen-budista, respondendo diversas questões como: O zen é niilista? O que é a iluminação? Como é a vida de um monge zen?

Definitivamente uma ótima sugestão para se iniciar no assunto. Destaque também para o prefácio da Monja Coen na nova edição pela editora Mantra.

Filosofia do Zen-Budismo

Autor: Byung-Chul Han

(Byung-Chul Han)
(Divulgação: Editora Vozes)

Autor bem conhecido no Brasil à partir da publicação de “Sociedade do Cansaço”, aqui Han foca em trabalhar comparativamente a filosofia zen-budista à filosofia ocidental, especialmente à partir de autores como Platão, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger.

Alguns dos principais  temas pelos quais o sul-coreano passeia são a noção de Religião sem Deus, Morte e Vazio, sempre trazendo haikus (especialmente de Bashõ) para apoiar seus comentários e ilustras suas idéias.

O Gato Zen

Autora: Kwong Kuen Shan

(Kwong Kuen Shan)

Alô amantes de gatos, essa é para vocês. Essa obra bem leve e gostosa de ler combina sabedoria e fofura. Trata-se aqui de um trabalho artístico transdisciplinar, combinando pintura, desenho e literatura. A autora Kwong Kuen Shan traz quarenta ilustrações felinas combinadas a máximas chinesas, provérbios populares e outros trechos da sabedoria antiga chinesa.

Entre os pensadores que ilustram a obra estão Confúcio (criador do Confucionismo), Lao-Tsé, Mêncio e Suz Tzu (conhecido pela obra A Arte da Guerra).

Destaque para as artes delicadas que dialogam com o conteúdo das frases e e pequenos textos apresentados.

(Divulgação: Editora Estação Liberdade)

O Caminho Zen

Autor: Eugen Herrigel

(Divulgação: Editora Pensamento)

Obra importante de divulgação do Zen no ocidente. Herrigel, professor alemão de filosofia, viveu e lecionou no Japão na universidade Tohoku, em Sendai, durante segunda metade dos anos 1920.

Lá tomou contato com a cultura japonesa, e fascinou-se pela maneira como o Zen permeia quase tudo na sociedade nipônica.

Nessa obra Herrigel descreve o sistema de pensamento zen e descreve como o Zen influencia as artes, os esportes e o dia-a-dia dos japoneses. Vale a pena também mencionar que aqui Herrigel traça um panorama de como o Zen era visto naquele momento fora do Japão, em especial, na Europa.

A arte cavalheiresca do Arqueiro Zen

Autor: Eugen Herrigel

(Eugen Herrigel)
(Divulgação: Editora Pensamento)

Dobradinha do autor alemão aqui que vale a pena não só pelo registro histórico da experiência de aprendizado dele, mas também de como conceitos do Zen se aplicam às práticas esportivas no Japão.

Nesse texto Herrigel narra sua experiência enquanto um aprendiz da arte marcial do tiro com Arco e Flecha, focando no estado de mente vazia, na não-intenção e no controle de si. A relação mestre-aluno e seus percalços é bem explorada aqui, mostrando a distância entre Ocidente e Oriente enquanto à facilitar ou não as coisas para o aluno.

Vivência e Sabedoria do Chá

Autor: Soshitsu Sen XV

(Soshitsu Sen XV)
(Imagem da Internet)

Outro texto que foca em uma arte específica japonesa e como o Zen a influencia. O texto foi escrito por Soshitsu Sen XV, o 15º Grão-Mestre da Urasenke, uma das mais importantes escolas do ChaDô (O caminho do Chá).

Na obra são explorados na obra em suas implicações durante a cerimônia do Chá. São eles: Harmonia (wa), Respeito (kei), Pureza (sei) e Tranquilidade (Jaku).  

O espírito wabi (ou wabi sabi), de difícil tradução, às vezes referenciado como “rusticidade” ou simplicidade, recebe bastante relevância na obra e denota o caráter Zen da Cerimônia do Chá.

Dao de Jing (O livro do Tao)

Autor: Lao-Tsé (Laozi)

(Lao-Tsé)
(Divulgação: Editora Mantra)

Historicamente o Zen-Budismo foi muito influenciado ao chegar à china pelo taoísmo. O Chan, forma original do Zen, adquiriu diversos conceitos do Tao (ou Dao, à depender da tradução), como o pensamento ilógico (presente na prática dos Koans), a noção de Vazio constitutivo (que à meu ver, dialoga bastante com o pensamento lacaniano) e a permanência/impermanência, à partir das noções de Sopro Yin e Yang.

Essa obra é considerada uma das bases do pensamento taoísta, escrita por Lao-Tsé (ou Laozi), é composta de 81 provérbios que versam sobre o pensamento taoísta, a constituição do Universo e como se portar no dia-a-dia.

Vazio Perfeito

Autor: Lie-Tsé (Liezi)

(Liezi)
(Divulgação: Editora Mantra)

Outra obra basilar do Taoísmo, escrita por Liezi, que ao lado de Laozi e Zhuangzi é considerado um dos precursores do Taoísmo.

Nessa obra, Liezi cria diversas estórias filosóficas e poéticas onde são abordados temas como a plenitude do vazio, a viagem interior, a complementariedade da vida e da morte, a inconstância dos eventos da vida entre outros.

Destaque para a editoração e diagramação belíssima da editora Mantra, especialmente sendo uma obra bilíngue.

Além dos textos, sugiro esse vídeo da Monja Coen com um resumo sobre a história do Zen-Budismo:

Até a próxima,

Igor Banin

Teste de Rorschach: o teste psicológico das manchas de tinta

Muitos conhecem Rorschach através do HQ “Watchmen” que teve origem nos anos de 1986 e 1987, mas na verdade o Teste de Rorschach vai além dos quadrinhos, ele foi criado nos anos de 1910 pelo psiquiatra Hermann Rorschach.

Rorschach enquanto personagem de Watchmen (reprodução DC Comics)

O que é o Teste de Rorschach?

O Teste de Rorschach é uma técnica projetiva de avaliação psicológica que, consiste em dez pranchas de borrões de tinta, sendo cinco monocromáticas e cinco cromáticas que seguem as mesmas características específicas à simetria.

As pranchas são produzidas e impressas pela editora suíça Hans Huber desde a década de 1920, atualmente conhecida por Hogrefe Publishing Group, ligada à International Rorschach Society.

O teste é um processo de construção de imagens, resultante da ação conjunta das funções afetivas, cognitivas e intelectuais, permitindo o exame dos processos psíquicos superiores como, memória, atenção, percepção, pensamento, emoção e comunicação. Após analisar todo esse processo, temos a estrutura e dinâmica da personalidade.

Entenda de forma ilustrativa como funciona

“A experiência é muito simples, tão simples que a princípio provoca interesse e balanços de cabeça em toda parte”

– Hermann Rorschach

Como nasceu? Quem é o criador do Teste?

O Teste foi criado pelo psiquiatra Hermann Rorschach nascido em 8 de novembro de 1884 em Zurique, Suíça.

Hermann Rorschach começou suas pesquisas em 1911 e sua intenção foi voltada para o diagnóstico psiquiátrico, principalmente da esquizofrenia, nessa época, Hermann era diretor de um hospital psiquiátrico na Suíça, onde coletou dados de diversos pacientes e pessoas saudáveis.

Foram com esses dados que ele elaborou sua tese “Psychodiagnostik” que foi publicada em junho de 1921. Precocemente morrera um ano depois em 2 de abril de 1922 em Herisau, Suíça, por complicações de uma apendicite.

Após a morte, sua pesquisa ficou inacabada, seus estudos permaneceram parados, muitos estudiosos não se mostraram interessados em continuar o seu trabalho, mas com o passar do tempo, Hans Blinder se dedicou a continuar os estudos, mas não só ele, mas Emil Oberholzer, Georgi Roemer, Hans Behn-Eschenburge e Hans Zulliger, onde começaram a especializar outros, como o americano David Levy que foi o responsável por levar o Teste de Rorschach para os Estados Unidos. Também havia o alemão Bruno Klopfer e o polonês Zygmunt Piotrowski.

Testes de personalidade

Atualmente existe uma vasta quantidade de testes de personalidade, além do Rorschach temos:

  • Pfister – O teste das pirâmides coloridas, é um instrumento que fornece o entendimento da dinâmica emocional, maturidade e a personalidade do indivíduo.
  • HTP – O teste da Casa – Árvore – Pessoa, onde conseguimos investigar habilidades cognitivas e aspectos da personalidade humana.
  • Teste Zulliger – Conhecido como teste Z, é uma técnica projetiva, que analisa a capacidade de desempenho, controle emocional, funcionamento do pensamento lógico e outros feitios de personalidade. É um teste parecido com o Teste de Rorschach, ele possui três pranchas com borrões de tinta e pode ser aplicado em grupo, diferente do Rorschach que possui dez pranchas e só pode ser aplicado individualmente.

Vale ressaltar que todos os testes tem sua validade quando aplicado corretamente, e devem ser vistos como uma ferramenta de ajuda para psicólogos, psiquiatras, neurologistas entre outros.

Pode ser aplicado em todos?

O teste pode ser aplicado em qualquer pessoa em qualquer idade, desde que tenha condições de se expressar verbalmente e que tenha suficiente acuidade visual, até mesmo em pessoas daltônicas, onde deve ser informado no rapport antes da aplicação do teste.

A aplicação do Teste de Rorschach é feita individualmente, são apresentadas uma prancha de cada vez, no qual o examinando diz o que vê em cada uma delas, cabe ressaltar que não existe resposta certa ou errada, cada indivíduo vê coisas completamente diferentes umas das outras.

As respostas dadas no teste, revelam o estado da representação da realidade em cada indivíduo, demonstrando dados a respeito do desenvolvimento psíquico, das funções e sistemas cerebrais, dos recursos intelectuais envolvidos na construção das diferentes imagens, das articulações intrapsíquicas e da natureza das relações interpessoais.

Onde é aplicado?

Seu campo de aplicação é vasto, podendo ser aplicado nas seguintes áreas:

  • Antropologia – Pesquisa sobre a visão de realidade em diferentes culturas;
  • Clínica – Diagnóstico clínico, indicação seletiva de tratamento, orientação de família;
  • Jurídica – Laudo jurídico, elucidação pericial;
  • Escolar – Orientação pedagógica e orientação vocacional;
  • Recursos Humanos (RH) – Seleção de profissionais em empresas, avaliação de potencial e desempenho;
  • Esporte – Orientação e Avaliação de Potencial e Desempenho.

Rorschach no Brasil / Escola Silveira

O Teste de Rorschach chegou ao Brasil através do professor e psiquiatra José Leme Lopes, que iniciou suas pesquisas no Rio de Janeiro em 1932 e os resultados foram publicados em 1938.

Com o passar dos anos, o interesse sobre o teste entre psiquiatras e psicólogos cresceu. Em 1952 foi fundada a Sociedade Rorschach de São Paulo por Anibal Cipriano da Silveira Santos, que foi um dos pioneiros da psiquiatria no Brasil e professor de psicopatologia da USP, no qual seu interesse consistia em pesquisar e formar Especialistas.

Ao longo de sua história, os trabalhos desenvolvidos demonstram a importância de aplicar os conhecimentos do psicodiagnóstico de Rorschach aos problemas humanos da modernidade e, proporcionar reflexões para a busca de melhorias em nossas vidas. Existem várias pesquisas em andamento no Laboratório de Pesquisas e Avaliação Psicológica da Sociedade Rorschach de São Paulo, sendo destacadas duas, Adolescentes em conflito com a lei e Rorschach em crianças: normatização da população brasileira, levantando o estado atual do desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.

A escola de Silveira valoriza a importância do estudo das funções cognitivas que colaboram na formação das imagens, das características de personalidade específica de cada indivíduo.

Referência bibliográfica

RORSCHACH, H. Psicodiagnóstico; trad. Marie Sophie de Villemor Amaral– São Paulo: Editora Mestre Jou, 1967.

SEARLS, Damion. Teste de Rorschach; trad. Claudia Mello Belhassof – Rio de Janeiro: Darkside, 2021

SILVEIRA, A – Prova de Rorschach: Elaboração do Psicograma – 2a. ed., Campinas: EDBRAS, 1985.

SOUSA, C. C. O método de Rorschach. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1953.

por Luana de Carvalho Faria, CRP 06/177245

Psicóloga Clínica, Especialista no Psicodiagnóstico de Rorschach, Colaboradora dos Núcleos Clínico e Jurídico do Laboratório de Pesquisas e Avaliação Psicológica da Sociedade Rorschach de São Paulo.
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