Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente: Interpretação dos Sonhos e Primeira Tópica Freudiana

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Em 1899, o médico neurologista Sigmund Freud (1856-1939) se vê plenamente despreparado para conter sua ansiedade e aguardar o ano seguinte para publicar sua obra de maior destaque. O livro, publicado em 1899 saiu com a data de 1900. Depois de se dedicar por um bom tempo aos sintomas psiconeuróticos da histeria, Freud sentia que era a hora de lançar sua Obra-prima: A Interpretação dos Sonhos (1900). O motivo da alteração da data? O fato de estarmos falando sobre o livro do século.

Os sonhos já foram interpretados como mensagens dos Deuses, previsões do futuro e até falta de imersão religiosa. O motivo de toda esta especulação milenar pode estar na seguinte pergunta: como podem imagens e narrativas, às vezes tão aleatórias, tão carentes de sentido, se tornarem por alguns momentos nossa nova e incontestável realidade? Um lugar específico, duas pessoas aleatórias – que só se conectariam em vida pelo enorme abismo entre si! Mas tudo vivenciado com tanta realidade… A ponto de só ser digno de observação após uma falta de ar, uma aceleração dos batimentos cardíacos e/ou uma enorme quantidade de suor de acompanhamento a um súbito acordar. Aquele acordar. Aquele que dependendo do conteúdo do sonho, fora implorado (ou não!) para acontecer. Claro que há um detalhe: é preciso se lembrar do sonho – e isso nem sempre acontece. E às vezes acontece por pouquíssimo tempo.
Mas será que Freud explica isso? Neste artigo que segue, a tentativa será de responder a pergunta tanto feita por muitos, a partir de uma explicação de pontos da obra considerada a mais importante da psicanálise. E para lhes desejar uma boa leitura, A Sociedade dos Psicólogos parafraseia com um grande hit musical, recomendando este para que sua leitura faça como o sonho: tenha mais do que imagens ou pensamentos – tenha estímulos sensoriais. Sweet Dreams.

Prelúdio – A Sonata dos Sonhos

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Nascer em uma Europa do século XXVII e crescer na do século XXVIII pode ser uma experiência interessante. Sentir os efeitos diretos de um recente Renascimento do pensamento ocidental e, através de uma pequena fresta que começa a se abrir, ser atingido pelos primeiros raios da luz do pensamento Iluminista. Não se pode dizer ao certo quanto, mas este foi um dos backgrounds que influenciaram desde o nascimento a psique de Giuseppe Tartini (1692 – 1770), um dos mais famosos compositores deste período. Sua relação com a obra que pautou este texto, A Interpretação dos Sonhos (1900), está na referência que Sigmund Freud (1856-1939) faz ao músico e à Obra-prima deste durante a escrita de sua própria. Freud (2001) pega como exemplo a sonata mais famosa do compositor, enquanto explica que boa parte de nosso saber não está na consciência; para o Pai da Psicanálise, Il Trillo del Diavolo  é um exemplo de música que recebeu um “[…] auxílio prestado por obscuras forças procedentes das profundezas da mente[…]” (p. 585).

Para fins de entendimento, é melhor deixar a fala ao próprio Giuseppe Tartini (1692 – 1770):

“Uma noite sonhei que tinha feito um pacto com o diabo, o qual se dispôs a me obedecer, em troca de minha alma. Meu novo servo antecipava meus desejos e os satisfazia. Tive a ideia de entregar-lhe meu violino para ver se ele sabia tocá-lo. Qual não foi meu espanto ao ouvir uma Sonata tão bela e insuperável, executada com tanta arte. Senti-me extasiado, transportado, encantado; a respiração falhou-me e despertei. Tomando meu violino, tentei reproduzir os sons que ouvira, mas foi tudo em vão. Pus-me então a compor uma peça – Il Trillo del Diavolo – que, embora seja a melhor que jamais escrevi, é muito inferior à que ouvi no sonho”.

Parece até que estamos diante da admissão de um plágio. O diabo, a representação do Mal da humanidade, esbanja sua sensibilidade musical! Trouxe, em um sonho, estímulos tanto sensoriais, quanto emocionais. A excitação de seus sentidos foi tão forte que o músico acordou num lapso de sua própria respiração! Como um presente, como uma dádiva não celestial, Tartini conseguiu produzir o que considerou sua melhor composição. Mas seu lamento final deixa uma irresistível pergunta – que vai até além da básica curiosidade sobre as dimensões do talento violinístico da “Estrela da Manhã“, de Lúcifer, d'”O Portador da Luz“, que iluminou a criatividade de um músico em pleno Iluminismo –, uma pergunta meio paradoxal: se esta Obra-prima é muito inferior àquela que ouviu no sonho, o que o impediria de usar sua memória até que houvesse a equação de ambas? Teria ele esquecido parte do que ouviu? E caso tenha, como poderia comparar o que sabe com o que não sabe?
Mais do que isso: numa hipótese de que um sonho só poderia reproduzir o que já fora captado pelos órgãos dos sentidos e pela consciência, como algo pudera ser ali ouvido pela primeira vez?; como pudera algo completamente inédito, ser ali apresentado como um som exclusivo de um instrumento musical (que é dominado pelo sonhante), mas, ao mesmo tempo, se tornar irreproduzível neste mesmo instrumento musical? Não estava esta melodia ecoando ainda há pouco nos confins de uma mente brilhante? De qualquer maneira, parece que lhe permaneceu para sempre a lembrança da qualidade superior daquela versão tocada pelo próprio Anjo Caído – no instrumento que é considerado o dono do som mais angelical no Imaginário popular. Bem, depois da harpa, é claro.

Sendo esta o próprio pedido de desculpas por si, uma interrupção ao desenvolvimento do artigo a seguir será agora necessária. O motivo: um sentimento de obrigação de quem escreve. Há aqui uma necessidade de exímia importância: acabar com uma descortesia estendida até agora. Uma leitura poderá ser muito mais interessante e significante com uma trilha sonora mais adequada. E o sentimento é que este texto deva conter sua sugestão.  E é claro que, no primeiro flerte da leitora ou do leitor com o óbvio, já se saberá qual música tem este propósito.

Seguirá agora em anexo a Sonata de Tartini: “O Trinado do Diabo”.
Em um começo que se dispõe a soar uma calma quase melancólica, anterior a um contraste já anunciado em seu Nome de batismo: a rápida, libertadora e genial repetição de notas – O Trinado –, notas que parecem ter perdido repentinamente a timidez e agora voam, vão às alturas! Quase lembrando aquela pessoa que agora é boêmia, mas que é também egressa de uma vida beata. Algo próximo a uma libertação das amarras religiosas, como aquela promovida pelo Renascimento. Praticamente a mesma libertação que favoreceu o início da escuta o Homem e de sua fala sem censura, sem os resquícios das Trevas em uma Outra Idade. Quase como se agora o homem fosse o Portador da Luz de seu pensamento Iluminista.
Portanto, este artigo da Sociedade dos Psicólogos sobre A Interpretação dos Sonhos terá uma  trilha sonora diabólica. Uma música feita pelo próprio diabo. Uma música que estava recalcada sob sete peles de censura inconsciente. Um autêntico plágio onírico. Um autêntico plágio do Próprio Eu Desconhecido.

Sonhar: O  Realizar um Desejo Originário Inconsciente

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Os sonhos

Freud é categórico: os Sonhos não são destituídos de sentido e têm o “simples” propósito de realização de um desejo inconsciente. Ele também nos alerta de que sua produção é resultado de uma atividade mental altamente complexa. Os sonhos são as produções do inconsciente que, sobrevivendo a certas restrições que falaremos mais adiante, encontraram em nossa vida psíquica alguma representação que seja boa o suficiente para aludir a alguns de nossos mais profundos desejos originados na infância. Pois é exatamente a estes desejos que Freud atribui o papel de “força propulsora” da formação de nossos sonhos, mas nunca os colocando como o único conteúdo ali presente. Além de advertir que não se deve fazer uma leitura literal dos sonhos, levando em conta que isso conduz à mesma falta de sentido já existente. Freud se afasta de qualquer definição que pudesse levar A Interpretação dos Sonhos ao estreito entendimento de uma mera criptografia – onde bastaria substituir um elemento por outro e se teria obtido a chave universal condutora ao significado encoberto em todos os sonhos.

Não é raro observar Freud ressaltando  que os conteúdos do sonho estão distorcidos, ele relaciona isso à constante presença de imagens que aparentemente são carentes de sentido; tal fato, para ele, se deveria à explicação das incompatibilidades que os desejos residentes dali apresentariam às exigências de nossa atual vida em sociedade. Sua distorção serviria à proteção de nosso próprio desprazer – levando em consideração a repulsa que nos causaria o encontro de tais desejos às Leis e regras que aprendemos e internalizamos através da linguagem que nos foi imposta. Entretanto, estes não ficariam perdidos para sempre  — au contraire –, apesar de fugirem frequentemente à memória consciente. Aqui mora a hipótese de que nosso Inconsciente encontrará por si alguma maneira de dar vazão às excitações causadas por estes desejos.  Ao menos ao eco dos gritos emitidos pela demanda de tal realização.

Mas, antes de falar das complexas atividades mentais que envolvem a formação dos sonhos e também destes desejos em si, será necessário buscar algum significado para que é o inconsciente. Principalmente para nortear uma leitura a partir da diferenciação que Freud faz às já eram levemente postuladas por outros autores. Mas e aí? O que é o Inconsciente?

O Inconsciente e o Desejo Originário

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(Imagem retirada da Internet)

É possível que um pediatra, daqueles mais interessados à neonatologia, tenha mais propriedade  de informação sobre a ordem em que o corpo de um recém-nascido começa a identificar as excitações que o mundo externo têm sobre seus órgãos dos sentidos do que um psicólogo. E aqui se fala mais sobre os sentidos imediatos, inatos: o tato, a visão, a audição, o paladar e o olfato; do que sobre os outros mais complexos, de desenvolvimento progressivo a posteriori, como o equilíbrio, por exemplo.
O motivo da constatação acima é que, para se falar sobre o Inconsciente, deve-se falar sobre seu suposto início. Portanto, antes da próxima leitura, existirá um pedido a quem lê: lhe é de possibilidade imaginar o choque de realidade que deve ser a saída de um bebê recém nascido do útero de sua mãe? Aquele mesmo Lugar que lhe foi tomado por realidade desde a primeira existência? A agressiva transição do calor, do silêncio e da confortável escuridão presentes em uma placenta para o frio, o barulhento, o odoro (ou fétido) e iluminado ambiente do nascimento. Caso seja possível imaginar este cenário de seu primeiro contato com a nova realidade, parecerá mais difícil uma visualização que envolva a ausência de desprazer. Em um paralelo à vida adulta, é possível que uma pessoa que perde sua moradia a partir de um desastre natural reviva este mesmo primeiro sentimento, de maneira quase idêntica. Talvez o angustiante discurso desta pessoa seja o que se mais se aproximaria do de um recém-nascido, se este já fosse um ser falante que nos permitisse tal comparação. Mas esta é uma visualização essencial para um começo do que envolve a noção de inconsciente.

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O desprazer é possivelmente o primeiro alvo da catexia de alguém que chega ao nosso mundo. E sabe-se que, antes de falar em Pulsão e aproximar os dois conceitos, Freud entendia a catexia como uma espécie de direcionamento de uma ou mais de nossas energias, de nossas funções mentais (afetos/emoções, cognições e volições) para as excitações advindas de nossa percepção sensorial ou para nossos pensamentos. E este ato por si só já era capaz de estabelecer uma maneira de representação mútua entre estes fatores: o desprazer daquilo que eu ainda não sei nomear como frio, é levemente inibido em contato com o calor do corpo de minha mãe – que eu ainda vejo como uma extensão de meu próprio Eu. E isso já pode trazer ao recém-nascido (que se tornou quase que um refém-desabrigado) uma primeira experiência de prazer, que virá em equivalente contraste à primeira sensação de desprazer anteriormente experimentada. Tal representação será melhor adaptada ao Imaginário popular se, além do calor corporal, algo inserido à boca do recém-nascido saciar outro de seus inúmeros desprazeres ainda não nomeados. Este desprazer é a sensação de fome. Que como as outras, “nasce” junto com o bebê. Portanto: “aquilo que me incomoda, que me traz um desprazer imenso, que eu ainda não sei que é a fome e o frio, acaba quando sinto o calor do corpo e a nutrição do leite oriundo do seio daquela pessoa, que eu ainda entendo como uma parte externa de mim”. Percebe-se aqui o registro de um conjunto de primeiras experiências de satisfação que, para Freud, terão como lar o Inconsciente até que consigam alguma forma de revivência através da representação. Uma vez que, a quem foi possível imaginar todo aquele primeiro desprazer simultâneo de antes, também possa ser possível entender a proporção de prazer experimentada nesta primeira experiência de satisfação. A eterna tentativa de reviver este momento é chamada por Freud de Desejo. E talvez seja como se aquela pessoa que acaba de perder sua moradia por um desastre natural, passasse a cavar incessantemente, cavar porque sabe que nos escombros de sua antiga casa há um baú de dinheiro que lhe fará comprar outra maior ainda. A questão é que o desastre foi de proporções muito grandes, portanto, não se sabe exatamente qual é a própria casa perante tantas outras escombradas naquele Lugar.

Consciência e Inconsciente: Um Só Lugar.

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Antes do início do assunto, é importante continuar a estimulação mútua dos sentidos de quem lê o artigo em questão. Se, de acordo com a expectativa do autor, o leitor não percebeu que a música anterior acabou, pode este ser um sinal de um bom engajamento. Mas, não só para este caso uma nova música significante seguirá para acompanhar a leitura.


Quando Freud contesta a afirmativa predominante na época: o fato de que não haveria como tais fatos inconscientes, tais registros de prazer e desprazer de tempos remotos influenciarem na vida psíquica adulta de um sujeito, pois seriam eventos inacessíveis à consciência – sendo esta, a partir de uma recente herança Iluminista, a fonte dominante de toda a mente. Freud considera A Interpretação dos Sonhos o Livro do Século exatamente por este subverter, por esta grande ruptura com o conceito de que a consciência é centro da vida psíquica. Freud dirá que o Inconsciente já registra estes primeiros momentos de catexia – direcionamentos das funções da mente ao que se experienciou ou se experiencia, ou seja, a percepção o prazer e o desprazer – e os utiliza como parâmetro na condução da vida daquele semi-Sujeito. Já adverte desde cedo que o indivíduo dificilmente conseguirá uma satisfação equivalente à primeira, mas, através daquilo que se chamou de Desejo, tentar-se-á eternamente, pois as pequenas descargas de excitação sensorial irão regular a sensação de prazer e desprazer, que por sua vez, vão remeter às primeiras experiências de satisfação e insatisfação. E aqui se fala das experiências de satisfação que serão requisitadas pelo Inconsciente até que encontrem representação para a fuga das censuras da consciência.
E é aqui que está o ponto principal da definição sobre o Inconsciente de Freud: ele já existe antes do próprio consciente. Para Freud, o Inconsciente regula a consciência e não o inverso. E não, a pedido de Freud, este não pode ser observado como uma instância propriamente física, mas sim como todo um conjunto de representações de experiências, percepções e catexias, pensamentos e tudo que a faculdade de fazer representações mentais nos permitiu dar um Nome que fosse Significante – e mais ainda, o que não se foi possível nomear, mas ainda assim se tornou significante. Os registros conscientes futuros serão apenas um mero elo de ligação, encontrados a partir de uma nova e repetida busca pelos registros por aquela tal imensa primeira experiência de satisfação, aqueles primeiros prazeres e desprazeres – que moram nas profundezas das cadeias de pensamento contidas nas representações inconscientes. Tudo isso por fins de revivescência ou evitação. Ou seja: alguns de nossos desejos mais distantes, mais absurdos à consciência, ainda vivem no Inconsciente. E mesmo sofrendo toda a censura demandada por seu conteúdo, hão de encontrar um caminho à consciência. Nem que este seja através dos sintomas psiconeuróticos, dos atos falhos, das piadas e trocadilhos (chistes) e principalmente dos sonhos.
Portanto, para refutar a onipotência dada à consciência até a época, Freud vai dizer que a consciência, que nasce e se amplia de acordo o desenvolvimento bio-psico-social do ser, aparecerá como uma pequena fração do inconsciente, constituída através de representações que a maturação de algumas funções mentais foi permitindo. Freud rebaixa a patente da consciência: de maior representante da mente, para mero órgão sensorial da percepção de atividades psíquicas. E o pensamento é uma delas. Sendo inclusive, encontrado nos sonhos.

 

Antes da ida para o próximo assunto, mais uma pequena pausa será feita. Saiba o leitor e a leitora que aqui há um bom motivo. É hora de continuar as músicas que acompanham quem lê este artigo, pois é possível que a anterior já tenha chegado ao seu final. E, tendo em vista que, ao menos a princípio, o objetivo do artigo não era instituir algum tipo de Falta às audições dos que aqui leem. Estas que já devem estar acostumadas com um som durante esta leitura. Portanto, por que não mais uma música cheia de representações significantes como acompanhamento?

Pensamento e Percepção Sensorial

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Sem dúvida, o pensamento é um privilégio da especie humana. A habilidade de transformação de estímulos sensoriais, captados pelo sistema perceptivos, em representações é, sem dúvidas, um diferencial. Através do pensamento, transforma-se em um livro repleto de palavras aprendidas as nossas Outras funções mentais e/ou da percepção sensorial. As meras percepções sensoriais auditivas, táteis, visuais, palatórias e olfativas, junto com alguns pensamentos, se transformaram no objeto de identificação de milhões de pessoas no mundo. Tudo isso graças à capacidade de representação mental que alguns escritores encontraram em suas relações com as palavras, com o que lhes é significante. Através deste tipo de representação, cuja meta é realizar uma comunicação, uma ligação do que não é observável nem a nós mesmos ao mundo externo. Através da linguagem, o pensamento torna o ser comunicante consigo e com o Outro, dividindo as palavras que lhe foram significantes até aqui. O pensamento é uma representação que, acompanhada de nossas catexias, faz elo entre a nossa Real percepção de tudo, o Simbólico processo de linguagem e/ou nosso Imaginário arcabouço de representações sensoriais. Poderíamos pensar no aparelho psíquico que Freud chama de Pré-Consciente, como um intermediário que funciona de maneira semelhante. Para finalmente ir direto ao ponto, pois é nele que se encontra o processo de Formação do Sonho, retirando partes da consciência enquanto tentar filtrar aquilo que irrompe do Inconsciente. Mas ainda é importante ressaltar: até o pensamento considerado mais insignificante e até as lembranças do dia e da vida menos dotadas de catexias, serão levadas ao Inconsciente, através da representação.

O Pensamento, Os Sintomas e os Sonhos

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Sem muitas delongas, deve-se manter o costume que adquiriu quem lê este texto: a música precisa continuar!

Pensamentos e Sonhos

Freud Sonhos(Créditos da Imagem: Freud Sagaz)

 

É bem possível que a ideia da soberania da consciência tenha vindo em decorrência de nossa constante percepção do próprio pensamento em conjunto com os órgãos sensoriais e motores. Se levarmos em consideração que o fato de estarmos acordados é um simples evento de nossa faculdade de catexia da função cognitiva da atenção, ou seja, esta se direcionando à percepção sensorial de alguns órgãos dos sentidos e habilidades motoras. É também parte deste fato, a ação da consciência à mobilização de nossa função volitiva (vontade) ao desempenho de funções motoras que nos movimentem aos objetivos de vida. Os mesmos que creditamos acontecerem apenas pela nossa própria decisão. E aqui temos um bom exemplo de catexias evocadas a partir de representações que contém uma meta de realização de desejo. A única coisa que escapa ao entendimento geral é o fato de que este desejo que nos faz acordar, caminhar e falar já é uma representação mais elaborada de uma busca por realização de um desejo do Inconsciente. E também escapa que, muito do que encontramos no dia-a-dia, muito do que pensamos nele e muito do que nele vivenciamos, pode e talvez vá fazer alguma representação com um desejo do Inconsciente. E podemos falar até da tentativa de reviver aquela primeira experiência de satisfação. De maneira mais metafórica, é claro. Já que a Real é impossível.

Alguns destes pensamentos que podemos ter, são chamados por Freud de “Pensamentos Diurnos”, e eles também fazem parte do conjunto de pensamentos oníricos (referentes ao sonho). Eles são os pensamentos que são de acesso à nossa consciência e que, eventualmente, parecem ter aparecido em nossos sonhos a partir relações onde se distanciam de algum sentido ao conteúdo que antes foram relacionados. Dificilmente é possível explicar estas aparições. Mais difícil ainda: estabelecer uma relação lógica de imediato à consciência, uma vez que os pensamentos que se tornam sonho eles sofrem uma grande censura – oriunda do trabalho ali realizado. E tal fato os distorce, afastando-os de seu Real significado. Às vezes, são pegos pelo inconsciente aqueles pensamentos mais insignificantes, aqueles que ignoramos com veemência durante o dia e, em um sonho, podem até nos fazer acordar numa explícita falta de ar e sudorese, como se fossem pensamentos irracionais – outros que também fazem parte do sonho. Mas como isso pode acontecer?

Freud vai dizer que, tanto a confusão da percepção sensorial como a tomada de fragmentos insignificantes de pensamentos diurnos e/ou irracionais que eventualmente a acompanham, estão ali porque de alguma maneira se tornaram forma de representação para algum desejo inconsciente. Mas como isso acontece?

Pensamentos e Traços de Caráter, Sintomas e Sonhos
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É ainda necessário introduzir um questionamento importante aos que leem o artigo: é de entendimento do autor o demorado tempo de leitura deste artigo, e é claro que o próximo será mais breve. Entretanto, não podemos escapar à importantíssima questão: a música já acabou? Se já, a próxima está pronta para trazer seu conjunto de referências e representações na letra e nas imagens. Na verdade, foi deixada em espera pelo play que virá.

Pensamentos e Traços de Caráter

É primeiro preciso entender como é a composição do sonho e como esta vem de encontro à realidade. É preciso entender que nosso dia-a-dia é visualizado pela nossa consciência como um conjunto de excitações sensoriais que se juntam aos pensamentos que levam ou não as catexias, isto é, a concentração de nossas funções mentais (afeto, cognição e volição) – vivemos a partir deste conjunto de representações. A partir deste pedaço de lucidez plena dentro do Inconsciente.

Algumas representações têm metas de realização de desejo à consciência, algumas outras são parcialmente ignoradas e assentadas ao inconsciente, como palavras jogadas no meio de um livro, sem uma localização pensada, em uma língua qualquer. E isso é explicado pela notícia que Freud nos traz: mesmo que haja uma ausência de catexia aos pensamentos ou às excitações sensoriais, nada fugirá do olhar do Inconsciente. É bem possível que uma conversa, uma imagem, uma percepção sensitiva ou um pensamento de nosso dia-a-dia faça algum tipo de alusão aos desejos da infância, que estão à plena procura por descarga de excitação – e já situados há algum tempo no inconsciente. E não é segredo que lá se encontram todas estas características carentes de representação, uma vez que a censura operada por nossa resistência jamais permitiria o contato destes à consciência, muito menos uma explícita descarga das excitações, que seria expressamente proibidas aos dias de hoje.  Mas, em nosso dia-a-dia, houve a transformação destas excitações sensoriais em pensamentos, em representações. Ou seja, se meu olfato percebe o perfume de quem me atrai visualmente, meu pensamento consegue representar tal pessoa através da associação destes dois sentidos. Temos aí mais um Traço Mnêmico guardado. Há um progresso, uma progressão da excitação dos receptores sensoriais até que estes se tornem uma representação mental digna ou não de catexia. E isso, que aconteceu durante toda a vida de vigília, toma o caminho inverso nos sonhos: o de regressão dos pensamentos à meras excitações sensoriais, imagens da percepção. É importante acentuar que isso acontece na tentativa de se realizar um desejo de infância apenas a partir das percepções sensoriais que foram bastantes intensas nestes, como se elas fossem apenas um fragmento daquele desejo: pequeno o suficiente para driblar a censura; grande o suficiente para uma leve descarga de excitação. E isso pode acontecer mesmo que apenas se liguem a uma representação e/ou um pensamento desconexos com tal desejo, até porque estes vão servir apenas de bode expiatório, dos mais disfarçados; vão servir apenas como uma ação de Impeachment parcial da censura a partir da redução da força da consciência – obtida através do estado de sono. Isso pode começar a explicar as sensações físicas ligadas às imagens irracionais e aparentemente sem sentido de alguns sonhos. É importante lembrar que também poderá acontecer exatamente o inverso. Mas esta parte continua depois.
E apesar desta parte continuar depois, é importante lembrar que a música não; a música continua agora caso ela tenha acabado, basta o play do leitor. E mantendo a tradição deste artigo, foi escolhida uma outra música que poderia até estar a fazer alusão aos pensamentos oníricos: repleta de signos.

Traços Mnêmicos e Pré-Consciente

Freud diz que, em um sistema intermediário, há o contato dos pensamentos inconscientes com algumas das representações encontradas em nosso cotidiano. Ele chamará este sistema psíquico de Pré-Consciente. Nele,teremos os registros das excitações sensoriais e das representações que formamos através de um traço que Freud chamará de Traço Mnêmico, que carregará imagens perceptivas e relações lógicas e que, se for de escolha do inconsciente, encontrará representação também no que lá fora assentado. Além disso, são estes traços o que sobra das percepções sensoriais associadas à memória, à motricidade. Temos aqui impressões que causaram o maior impacto em nós, situações que mobilizaram descarga de adrenalina (frio na barriga), sudorese, tremores, sorrisos e até as de maior efeito na infância, que nunca se tornaram conscientes e moldaram nosso caráter. Em suma: caráter é o conjunto dos Traços Mnêmicos que mais encontraram representação no apaziguamento dos desejos residentes de nosso Inconsciente. Pode até haver a pessoa dita como possuidora de “mau caráter”, mas nunca a “sem caráter”, uma vez que uma pessoa “sem caráter”, careceria de representações psíquicas de suas percepções sensoriais, de seus pensamentos e vivências – e aqui não é falado apenas das boas.

Quem acompanhou o desenvolvimento da psicanálise, principalmente no que diz respeito à análise dos sintomas histéricos, sabe que algumas manifestações do inconsciente só podiam encontrar vazão através de uma redução das forças de censura da consciência, ou através de uma configuração psicopatológica. A hipnose representou bem este papel de redução da censura consciente. Quando Freud se depara com os Estudos de Charcot (tal encontro é representado no cinema através do filme Freud Além da Alma) e percebe que a redução das forças de censura da conscîencia exercida através da hipnose era capaz de “curar” um sintoma da histeria apenas através da sugestão, nascerá, posteriormente, uma nova configuração psicopatológica para com o sintoma histérico.

O Sintoma Histérico

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Freud vai nos dizer que, para presença de um sintoma histérico, era necessário que houvesse a realização de dois desejos opostos em expressões convergentes. Ou seja, para que algum desejo do Inconsciente fosse realizado, a consciência e suas censuras deveriam receber a atenção equivalente. Num exemplo fictício: um sintoma de falta de desejo sexual em conjunto com um ato de comer compulsivamente – desenvolvido após um abuso sexual na infância. Este ato, primeiramente, foi trazido pela vítima como uma maneira de não possuir um corpo considerado atraente àquela agressão. Ou seja, um corpo que teoricamente não estimularia desejo sexual. Entretanto, há um sentimento de culpa toda vez que se come. E tal sentimento de culpa aparece lado a lado com um sentimento de prazer pela comida. A culpa aparece exatamente porque há prazer. Porque o ato de comer, no relato da vítima, estabelece relação com o ato sexual através de um único significante: prazer. E o ato sexual, por sua vez, estabelece relação com aquela agressão que se tornou um trauma. E já é possível perceber de onde vem o Outro sintoma, o da falta de desejo sexual. Observando essa relação de representações, será permitido sentir o prazer da comida apenas se houver algo que anule a relação da comida ao ato sexual: pois caso contrário, o prazer da comida poderia, a partir de alguma representação de pensamento irracional inconsciente, ser associado à dor do trauma. Uma dor  que impediria a alimentação (o que pode acontecer em alguns casos de anorexia nervosa), como já impede a realização de qualquer ato sexual. Após o trauma, a vítima nunca mais se permitiu sentir qualquer tipo de prazer que se distanciasse da extrema dor ou extrema culpa, pela simples associação (aparentemente irracional) da palavra em si.  Seria um problema se, o prazer sentido ao comer, fizesse qualquer tipo de alusão àquele ato, pois ele também evocaria uma enorme culpa. E para tal culpa, há o desejo de punição. Pois, para que seja permitido algum tipo de prazer, esta pessoa não poderia ser objeto de desejo de alguém – e em seu conceito, faria isso possuindo um corpo que sua cultura não considerasse sexualmente atraente. O prazer sentido através da comida faria a vítima ignorar boa parte de suas necessidades sexuais, entretanto, este prazer produziria culpa pela distorção de seu corpo. Só que esta culpa seria preferível à qualquer outra resultante de algum tipo de alusão a prazer perante aquela agressão que só lhe causou dor. Portanto, os sintomas histéricos fariam encontro de dois desejos mutuamente opostos, sendo um do Inconsciente e sua cadeia de representações irracionais; e outro que ocorreria como forma de afastar o primeiro da consciência, nem que para isso houvesse a distorção deste desejo. No caso do sintoma histérico, a dor do sintoma seria uma alusão, em proporções menores, à angústia que seria causada pelo rápido porte daquele desejo à consciência, mesmo que por uma representação irracional – para que entendamos a dimensão da discrepância entre o teor dos desejos inconscientes originários na infância e as leis que regem a psiquê daquele sujeito social. Entretanto, é importante mencionar que esta vítima fictícia trouxe durante sua análise que, no mesmo período etário em que ocorreu o abuso, talvez até um pouco antes, esta pessoa havia começado a se masturbar. E o fazia mesmo em uma família religiosa, onde o ato era expressamente proibido. Neste caso, será deixado aos leitores a tarefa de investigar, perante o que já lhes foi explicado, como esta última informação se conectaria às outras. É por isso que este tipo de trauma costuma ser melhor elaborado através da verbalização, da ressignificação de algumas palavras: porque ele é uma própria expressão de algumas palavras. Ou seja, o sintoma é um conjunto de representações psíquicas da infância, com fins de realização de desejo que se encontra com representações psíquicas atuais em profunda oposição, com fins de realização de um desejo oposto ao primeiro. O sintoma somático liga o pensamento proibido à consciência através das percepções sensoriais do corpo.

O Sono e o Desejo de Dormir

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(Créditos da Imagem: Freud Sagaz)

Freud vai nos dizer que o estado de sono é sim, como a hipnose, um poderoso redutor das forças de censura que atuam não só na consciência, mas também no que ele vai chamar de Pré-Consciente em sua Primeira Tópica. E todo redutor das forças de censura se torna, consequentemente, um facilitador da descarga de excitação daquilo que é de repúdio à consciência: nossos desejos mais profundos. A revivência de primeiras experiências de satisfação, mesmo que estas jamais sejam facilmente aceitas pelas leis que fomos submetidos dentro da civilização. Entretanto, há no Pré-Consciente um trabalho que permite que tais desejos possam ter sua descarga de excitação sem que necessariamente apareçam explicitamente à consciência, de maneira parecida com a que ocorre nos sintomas histéricos, mas através do sonho.

Se o sintoma histérico é o encontro de dois desejos opostos numa via convergente, o sono faz algo semelhante. Após o dia inteiro filtrando pensamentos, percepções sensoriais e representações com ou sem propósito à consciência, o Pré-Consciente é encarado por Freud como aquele que vai abrigar o desejo de permanecer dormindo. E a única coisa que afetaria este desejo (apenas para lembrar: Freud sempre falou de representações, de esquemas de pensamentos e palavras, nunca de instâncias biológicas) de continuar dormindo, seria a possibilidade iminente de algum desejo originado na infância irromper para a consciência. O processo que permite isso se chama regressão, pois ele é capaz de transformar pensamentos em percepções sensoriais, fazendo o inverso do que fazemos na vida de vigília. Ou seja, durante o dia, o Pré-Consciente pode tomar o Traço Mnêmico que a excitação sensorial de uma descarga de adrenalina (frio na barriga) apenas para fazer alusão ao que se pensou enquanto a sentia, ou ele pode apenas pegar fragmentos de uma notícia mal lida no jornal da banca, relacionando-a a alguma excitação sensorial de um antigo desejo do inconsciente que se relacionou através de uma foto, uma palavra da manchete ou algo do tipo. Logo, se durante o dia transformamos o que sentimos em pensamento, durante a noite transformamos os pensamentos no que sentimos. E principalmente: aquele pensamento, aquele desejo que passou despercebido, pode se ligar a algum dos mais repudiados que um ser humano pode carregar. O sonho, formado no Pré-Consciente, pode tomar o significado inteiro de pequenos fragmentos de algo – e isso tem exatamente o propósito de levar um desejo originário do inconsciente à sua realização, sem que ele invada a consciência. Entretanto, é preciso que haja alguma descarga de excitação. Às vezes, como numa piada, o segundo sentido de uma palavra, que é costumeiramente ignorado, tem mais importância para a realização de um desejo e para o disfarce desta.

O processo de driblar a censura e realizar um desejo que busca uma urgente descarga de excitação (talvez por ter encontrado alguma analogia a si durante o dia, talvez por ser algo pensado impossível durante o dia, talvez os dois!), exige que os sonhos realizem algumas modificações nos seus conteúdos. Como por exemplo, tomar a excitação sensorial de um evento do passado em uma imagem ou narrativa do dia de hoje. E talvez isso aconteça porque algum fragmento daquela imagem pode fazer referência e, consequentemente, representação àquele primeiro desejo por busca de satisfação. Um exemplo fictício: um indivíduo sonha que consegue finalmente se eleger deputado – seu desejo dos dias de hoje –, entretanto, quando alguém lhe diz que “irá cassar seu mandato por quebra de decoro”, este sente um medo surreal, entra em pânico e acorda logo em seguida. Suando, tremendo e chorando. Um sonho aparentemente irracional, mas que, se este indivíduo pára para lembrar, lá no passado, a pronúncia de seu pai ao dizer a palavra “mandado judicial de busca e apreensão” lembraria a palavra mandato. E nisso não haveria problema nenhum, se seu pai não a tivesse pronunciado perante os policiais que vieram lhe levar preso àquele dia que o garoto nunca esqueceu. As palavras “mandato” e mandado são parônimos, o que as torna coisa suficiente para o escape daquela representação mental consciente encontrar o desejo inconsciente – mas o inverso também poderia acontecer. E tal fato só acontece porque o pré-consciente prefere realizar um conjunto de processos de Trabalho do Sonho do que interromper o sono. Ou seja: o desejo de permanecer dormindo e, logo, manter a baixa censura à consciência, ajuda a continuar com a realização do desejo, ou da visualização do trauma infantil que não são permitidos à consciência, por conta das fortes emoções negativas e do desprazer ali promovido. O indivíduo acorda suando e tremendo, pois as duas palavras conectaram os dois eventos demais, a censura do Pré-Consciente não foi suficiente. Então, enquanto o desejo do consciente (ter mandato de parlamentar) é realizado, a imagem do pai sendo levado (cassar/caçar/buscar/ter mandado de busca e apreensão) lhe evoca a mesma tremedeira e sudorese que sentira àquela época, ele se sente tão apreensivo quanto àquela época. E talvez isso até se localize por ter sentido raiva do pai àquele dia, já que ficara de castigo, pois ficou de castigo e apanhou com o cinto de couro (quebra de decoro) por não ter feito o que o Outro lhe havia mandado – informação que o sujeito pode trazer ao narrar seu sonho.

A questão é que ele acorda exatamente porque a sudorese, a tremedeira são percepções sensoriais – e, diferentemente dos pensamentos, que estão distorcidos de sentido, estas são visíveis à consciência. Freud diz que o sonho é um despertador, pois este é o momento que a consciência começaria a perceber fragmentos (agora apenas sensoriais) que representariam a intensidade daqueles desejos proibidos. E há nomes para os processos que fazem este trabalho de distorção do sentido do sonhos: deslocamento e condensação. 

Deslocamento e Condensação – Aqui se “Perde” o Sonho

Deslocamento

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Em definição rápida: o processo de deslocamento é obra da censura psíquica; sua consistência está em deslocar o sentido de uma representação que contenha nosso desejo para uma outra que aparentemente não traz relação nenhuma à anterior. E não só o sentido, podemos falar da própria intensidade. Se voltarmos ao exemplo de nosso Deputado com Mandato Cassado, a ação do mecanismo de deslocamento estaria em atribuir à palavra Mandato, as excitações sensoriais de seu par parônimo: Mandado.  Ora, sabemos que é muito difícil e burocrático para um deputado ter o mandato cassado. Toda aquele susto não era necessário, já que se trata de um processo longo e digno de muitos recursos. A questão é que houve a ligação de toda aquela angústia acoplada à palavra mandato, através do deslocamento ela que se ligou à culpa do menino por ter sentido raiva do pai ao apanhar e ficar de castigo, como se esta culpa encobrisse um suposto desejo de seu desaparecimento, uma raiva proibida, já que o castigo era injusto, uma vez que ele só havia deixado de fazer o que o Outro Mandou. O processo de deslocamento é o movimento (deslocamento) da intensidade psíquica presente em uma representação, isto é, atribui-se muita importância no sonho ao que jamais teria tanta importância na vida real, mas o faz exatamente porque há representações daquilo que já se sentiu na vida Real. Mas, após um trabalho de análise do sonho, é possível que se possa entender a ligação entre as duas representações.

É como se, após anos realizando o mesmo trajeto até em casa, alguém fica perdido numa rua de seu bairro que nunca entrou, numa rota alternativa ao mesmo destino que nunca utilizou; a verdade é que, eventualmente alguma rua ou avenida irá se cruzar e o sentido de seu trajeto nunca esteve perdido, apesar de só conseguir enxergar as coisas assim àquele momento. Freud vai nos dizer que é possível encontrar os desejos que impulsionaram os sonhos em seus detalhes mais insignificantes, pois estes são os que sofreram o deslocamento para driblar a censura; pois estes são os que, em paradoxo, detém mais sentido perante sua própria aparente ausência de sentido. Em geral, estes pensamentos sem sentido são aqueles que foram ignorados pela consciência enquanto outros, considerados mais importantes, receberam a catexia da atenção.

Jacques Lacan (1901-1981), em seu Seminário 6 (26 de novembro de 1958), ao se referir a este processo de deslocamento utiliza uma analogia interessante, mostrando este próprio efeito de contiguidade dos sentidos completos a partir mínimos fragmentos:

[…] Vejam, sigam os textos, vejam de que se fala, em que exemplos se apoiam, e
reconhecerão perfeitamente que a contiguidade não é outra coisa senão esta combinação discursiva na qual se funda o efeito que chamamos aqui a metonímia” (p.56-57). “Contiguidade por outro lado que distinguimos por exemplo numa experiência de palavras induzidas. Uma palavra virá com uma outra: se a propósito da palavra ‘cereja’, evoco evidentemente a palavra ‘mesa’, isso seria uma relação de contiguidade porque em tal dia havia cerejas em cima da mesa” (p.57).

Como é possível observar, Lacan utiliza uma figura de linguagem para se referir ao processo de deslocamento. E, para quem estudar tal figura de linguagem, também será possível encontrar um sentido similar em sua definição perante o que disse Freud sobre o Deslocamento.

Entretanto, é inadmissível à consciência de quem escreve este artigo, saber que há algum tipo de deslocamento da trilha sonora deste artigo, portanto, as músicas continuarão a trazer seus significantes ao texto. E esta talvez seja a mais exemplificadora de todas. Dê o play.

Condensação

Transparent bowl with condensed milk and teaspoon on table

Existe uma linha tênue entre o deslocamento e a condensação. Enquanto o deslocamento retira o sentido e a intensidade de uma representação (do desejo) e as coloca em outra que, de alguma forma, estabelece ligação com ela a partir de pequenos fragmentos, palavras e imagens aparentemente insignificantes; a condensação é o ato de se reduzir todo o sentido em um lugar só.  O deslocamento troca as partes de um quebra-cabeças e as coloca em Outro, que se assemelha pelo tamanho das peças, mas deixa claro ali a ausência de sentido nas imagens de encaixe; além disso, ambas as peças também têm cores parecidas além do mesmo tamanho. A condensação é reduzir o quebra-cabeças a uma única peça. A uma única parte. E, se este quebra-cabeças completo é o desejo que vem do inconsciente, esta única parte é o sonho, após sua condensação.

Em uma metáfora mais próxima à realidade brasileira, é possível utilizar perfeitamente o exemplo do Leite Condensado da marcar Nestlé – O Famoso Leite Moça. Se o processo de condensação do leite está em transformar 5 litros de leite com açúcar em 1 litro de leite condensado, o processo de deslocamento está em transformar 1 litro de leite condensado em apenas Leite Moça. Ou seja: tomar o nome do produto pelo nome da marca. Entretanto, se já conhecemos o processo de condensação, saberemos que temos ali 5 litros de leite com açúcar. Mas vale ressaltar: quando falamos das forças de censura, o deslocamento poderia acontecer na própria palavra açúcar, por si só.

E, se Jacques Lacan (1901-1981) toma o deslocamento como uma metonímia, não seria sem sentido que ele também tomasse a condensação por uma figura de linguagem – a metáfora. Em seu Seminário 3 (2 de Maio de 1965), ele fala sobre o mesmo assunto que se estendeu até agora:

“Se uma parte, tardia, da investigação analítica, aquela que concerne à identificação e ao simbolismo, está do lado da metáfora, não negligenciamos o outro lado, o da articulação e o de contiguidade, com o que aí se esboça de inicial e de estruturante na noção de causalidade. A forma retórica que se opõe à metáfora tem um nome – ela se chama metonímia. Ela concerne à substituição de alguma coisa que se trata de nomear – estamos, com efeito, ao nível do nome. Nomeia-se uma coisa por uma outra que é o seu continente, ou a parte, ou que está em conexão com” (p.251).
“A oposição da metáfora e da metonímia é fundamental, pois o que Freud colocou
originalmente no primeiro plano nos mecanismos da neurose, bem como naqueles dos fenômenos marginais da vida normal ou do sonho, não é nem a dimensão metafórica, nem a identificação. É o contrário. De uma forma geral, o que Freud chama a condensação, é o que se chama em retórica a metáfora, o que ele chama o deslocamento é a metonímia” (p.252).

É possível entender então que a metáfora toma por forma Simbólica o significado de um conjunto de palavras em uma só – e aí, após o que disse Lacan, pode-se dizer o mesmo do processo de condensação.

Portanto, o sonho existe para a vazão de nossos desejos mais intensos oriundos da infância, segundo Freud. Eles são uma forma conhecermos aquilo que nos foi negado através da linguagem, da Lei. Os sintomas são Outra. O Sonho naturalmente passará por dificuldades em ser recordado, pois passa por severo trabalho de censura antes de chegar à consciência e, mesmo que seja, corre o risco de ser gradualmente esquecido de acordo com o despertar da censura. Entretanto, neste texto foi falado apenas sobre os chamados Processos Primários, deixando o recalque e outros assuntos do Processo Secundário para uma continuação. E nesta continuação é prometida uma elaboração maior de alguns conceitos que, infelizmente, foram tocados com bastante superficialidade por aqui.

Fim.

A partir de tudo isso escrito, fica a esperança do autor para que haja algum entendimento sobre a leitura que faz Freud sobre o que acontece nos sonhos. E, se neste texto for possível encontrar algum leitor ou leitora de boa memória, lhe virá a lembrança de que ele foi iniciado a partir de um sonho. O sonho que Tartini tem com o diabo, tendo este tomado a representação de toda a sua parte negada como seu escravo, que lhe toca a melhor das sonatas no violino que pega emprestado de seu Senhor. A Interpretação deste Sonho caberá a cada leitor ou leitora que se arrisque.

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REFERÊNCIAS:

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Tradução de Walderedo Ismael de Oliveira: Rio de Janeiro: Imago Ed. 2001.

LACAN, Jacques. O seminário livro 3; as psicoses (1955-1956). Texto estabelecido
por Jacques-Alain Miller. Trad. Aluísio Menezes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1985.

Seminário 6, o desejo e sua interpretação:  Aula de 26 de novembro de 1958 Lacan, Jacques, 1901-1981. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação/Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução Claudia Berliner. – 1.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.