08 Livros Para Conhecer o Zen-Budismo

Em breve teremos a primeira edição do nosso novo curso “Psicologia e Zen-Budismo”, onde trabalharemos a relação entre a prática e filosofia budistas com diversas facetas da psicologia. Desde os estudos sobre meditação e

Para celebrar esse evento, trouxe aqui uma seleção de alguns dos livros que servem de bibliografia para o nosso curso, e que podem servir de porta de entrada para quem se interessa pelo tema.

Espero que gostem!

Introdução ao Zen-Budismo

Autor: D.T. Suzuki

(D.T. Suzuki)
(Divulgação: Editora Mantra)

Ótima obra de introdução ao sistema de pensamento e práticas Zen budistas. Suzuki foi um grande divulgador do pensamento Zen no início do século XX, tendo lecionado em diversas universidades americanas, até voltar ao Japão.

Nessa obra Suzuki traz uma visão geral das práticas e da filosofia zen-budista, respondendo diversas questões como: O zen é niilista? O que é a iluminação? Como é a vida de um monge zen?

Definitivamente uma ótima sugestão para se iniciar no assunto. Destaque também para o prefácio da Monja Coen na nova edição pela editora Mantra.

Filosofia do Zen-Budismo

Autor: Byung-Chul Han

(Byung-Chul Han)
(Divulgação: Editora Vozes)

Autor bem conhecido no Brasil à partir da publicação de “Sociedade do Cansaço”, aqui Han foca em trabalhar comparativamente a filosofia zen-budista à filosofia ocidental, especialmente à partir de autores como Platão, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger.

Alguns dos principais  temas pelos quais o sul-coreano passeia são a noção de Religião sem Deus, Morte e Vazio, sempre trazendo haikus (especialmente de Bashõ) para apoiar seus comentários e ilustras suas idéias.

O Gato Zen

Autora: Kwong Kuen Shan

(Kwong Kuen Shan)

Alô amantes de gatos, essa é para vocês. Essa obra bem leve e gostosa de ler combina sabedoria e fofura. Trata-se aqui de um trabalho artístico transdisciplinar, combinando pintura, desenho e literatura. A autora Kwong Kuen Shan traz quarenta ilustrações felinas combinadas a máximas chinesas, provérbios populares e outros trechos da sabedoria antiga chinesa.

Entre os pensadores que ilustram a obra estão Confúcio (criador do Confucionismo), Lao-Tsé, Mêncio e Suz Tzu (conhecido pela obra A Arte da Guerra).

Destaque para as artes delicadas que dialogam com o conteúdo das frases e e pequenos textos apresentados.

(Divulgação: Editora Estação Liberdade)

O Caminho Zen

Autor: Eugen Herrigel

(Divulgação: Editora Pensamento)

Obra importante de divulgação do Zen no ocidente. Herrigel, professor alemão de filosofia, viveu e lecionou no Japão na universidade Tohoku, em Sendai, durante segunda metade dos anos 1920.

Lá tomou contato com a cultura japonesa, e fascinou-se pela maneira como o Zen permeia quase tudo na sociedade nipônica.

Nessa obra Herrigel descreve o sistema de pensamento zen e descreve como o Zen influencia as artes, os esportes e o dia-a-dia dos japoneses. Vale a pena também mencionar que aqui Herrigel traça um panorama de como o Zen era visto naquele momento fora do Japão, em especial, na Europa.

A arte cavalheiresca do Arqueiro Zen

Autor: Eugen Herrigel

(Eugen Herrigel)
(Divulgação: Editora Pensamento)

Dobradinha do autor alemão aqui que vale a pena não só pelo registro histórico da experiência de aprendizado dele, mas também de como conceitos do Zen se aplicam às práticas esportivas no Japão.

Nesse texto Herrigel narra sua experiência enquanto um aprendiz da arte marcial do tiro com Arco e Flecha, focando no estado de mente vazia, na não-intenção e no controle de si. A relação mestre-aluno e seus percalços é bem explorada aqui, mostrando a distância entre Ocidente e Oriente enquanto à facilitar ou não as coisas para o aluno.

Vivência e Sabedoria do Chá

Autor: Soshitsu Sen XV

(Soshitsu Sen XV)
(Imagem da Internet)

Outro texto que foca em uma arte específica japonesa e como o Zen a influencia. O texto foi escrito por Soshitsu Sen XV, o 15º Grão-Mestre da Urasenke, uma das mais importantes escolas do ChaDô (O caminho do Chá).

Na obra são explorados na obra em suas implicações durante a cerimônia do Chá. São eles: Harmonia (wa), Respeito (kei), Pureza (sei) e Tranquilidade (Jaku).  

O espírito wabi (ou wabi sabi), de difícil tradução, às vezes referenciado como “rusticidade” ou simplicidade, recebe bastante relevância na obra e denota o caráter Zen da Cerimônia do Chá.

Dao de Jing (O livro do Tao)

Autor: Lao-Tsé (Laozi)

(Lao-Tsé)
(Divulgação: Editora Mantra)

Historicamente o Zen-Budismo foi muito influenciado ao chegar à china pelo taoísmo. O Chan, forma original do Zen, adquiriu diversos conceitos do Tao (ou Dao, à depender da tradução), como o pensamento ilógico (presente na prática dos Koans), a noção de Vazio constitutivo (que à meu ver, dialoga bastante com o pensamento lacaniano) e a permanência/impermanência, à partir das noções de Sopro Yin e Yang.

Essa obra é considerada uma das bases do pensamento taoísta, escrita por Lao-Tsé (ou Laozi), é composta de 81 provérbios que versam sobre o pensamento taoísta, a constituição do Universo e como se portar no dia-a-dia.

Vazio Perfeito

Autor: Lie-Tsé (Liezi)

(Liezi)
(Divulgação: Editora Mantra)

Outra obra basilar do Taoísmo, escrita por Liezi, que ao lado de Laozi e Zhuangzi é considerado um dos precursores do Taoísmo.

Nessa obra, Liezi cria diversas estórias filosóficas e poéticas onde são abordados temas como a plenitude do vazio, a viagem interior, a complementariedade da vida e da morte, a inconstância dos eventos da vida entre outros.

Destaque para a editoração e diagramação belíssima da editora Mantra, especialmente sendo uma obra bilíngue.

Além dos textos, sugiro esse vídeo da Monja Coen com um resumo sobre a história do Zen-Budismo:

Até a próxima,

Igor Banin

Comentário sobre Jun, de Keum Suk Gendry-Kim

Sobre Autismo e Visibilidade

Divulgação: Pipoca e Nanquim

Neste mês a editora Pipoca e Nanquim publicou Jun, nova graphic novel da sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim. Já citei por aqui o trabalho “Grama” (2017) da mesma autora que definitivamente vale a leitura e atenção também.

Mais uma vez, a autora nos surpreende e emociona com uma história delicada e sensível. Dando visibilidade e trazendo à tona à uma gama de pessoas em sofrimento e seus familiares. Keum trabalha o tema de inclusão da diferença por meio da arte de maneira genial.

Aproveito para comentar essa obra nesse momento já que em Abril temos o Dia da Conscientização sobre o Autismo (02/04), e todo o mês é dedicado à inciativas de visibilidade desse transtorno. Comentei aqui no blog da Sociedade dos Psicólogos sobre o tema também.

Apenas para contextualizar, o chamado Abril Azul começou em 2007 como uma iniciativa da ONU (Organização das Nações Unidas) para dar mais visibilidade ao transtorno. Em 2018, o dia 02 de Abril passa a fazer parte do calendário brasileiro oficial.

Jun

A graphic novel em questão trata da história de Jun, um garoto portador do Transtorno do Espectro Autista. Acompanhamos sua infância, adolescência e início da vida adulta, sempre à partir do ponto de vista de sua irmã mais nova, Yun-Seon. Seguimos desde aproximadamente os 04 anos de vida de Jun, o diagnóstico e o impacto disso na vida da família.

Temas como a disputa entre irmãos, o cuidado excessivo para o filho “deficiente” e o “abandono” sentido pela irmã que tem que fazer por vezes o papel de cuidadora, além de todo o sofrimento sentido pela família, são tratados aqui com naturalidade. Aqui vemos pais que tentam esconder o filho por vergonha, e por sentirem o julgamento de outros que não entendem/não aceitam a diferença. Só enxergam o incômodo.

Divulgação: Pipoca e Nanquim

Sua audição aguçada o leva à maravilhar-se com qualquer coisa que emita sons. Em momentos a autora o mostra detido no movimento e som de um ventilador, por exemplo.

Divulgação: Pipoca e Nanquim

A música vai ganhando mais e mais espaço na vida de Jun e de sua família a partir do momento que Jun passa à fazer apresentações de Pansori, um gênero folclórico de música originário da Coréia do Sul. Uma certa mistura de teatro e música com fortes referências à história do país.

É interessante notar que Jun foi baseado em uma pessoa que Keum conheceu de maneira pessoal quando fazia aulas de música próximo a sua casa. No posfácio ela aborda como foi essa experiência.

Arteterapia e Autismo

Na história, Jun passa por diferentes tentativas infrutíferas de tratamento de linguagem e estimulação precoce. Apenas no contato com a música, Jun pode expressar e entrar em contato com sua família e com o mundo:

“Existe uma porta entre o meu irmão e nós.

Nós sempre pedíamos para ele abrir a porta e vir para o mundo em que vivemos.

Não passava pela nossa cabeça o quanto isso era difícil pra ele.

Se você não puder abri-la, meu irmão, nós a abriremos pra você. E iremos te buscar.

Pois essa porta abre para os dois lados.”

(Gendry-Kim, 2022, p. 223-224).

Com isso, penso que vale a pena ressaltar a importância do uso da arte em alguns tratamentos. “A educação e a arte têm seu poder de alagar a imaginação e refinar os sentidos, promovendo mudanças significativas nos olhares em direção a novas percepções sobre o mundo” (Costa; Soares; Araújo, 2020, p.7).

Divulgação: Pipoca e Nanquim

À nível histórico, a arte terapia ganha força à partir dos anos 1940, desdobrando-se da terapia ocupacional e ganhando contornos próprios (Gómez, 2016).

Considero que a linguagem não é a mesma para todos. Talvez se trate de outra linguagem para muitos e com isso os conseguimos alcançar:

“En definitiva, podemos concluir que la Arteterapia proporciona a las personas con TEA un medio de comunicación no verbal y alternativa, sobre todo, para aquellos cuya utilización del lenguaje o comprensión del mismo sea parcial o inexistente. Para las personas con autismo el arte puede suponer el puente entre sus pensamientos internos y el mundo que le rodea.”

(Gómez, 2016, p.37)

Gosto do exemplo do texto Epepe, do romancista húngaro Ferenc Karinthy citado pela psicanalista Violaine de Montclos (2020). Nele, um ilustre linguista pega um avião errado e acaba chegando num país cujo idioma não consegue entender e com isso fica preso no lugar. Alguém lost in translation. Isso, para mim, é o Autismo.


Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Costa, I; Soares, J; Araújo, P (2021). A arte no processo de desenvolvimento de pessoas portadoras do Transtorno do Espectro Autista (TEA). In Research, Society and Development, v. 10, n. 8.

Gendry-Kim, K.S. (2022). Jun. São Paulo: Pipoca e Nanquim.

Gómez, J. (2016). Arteterapia y Autismo: El desarrollo del arte en la escuela. In Publicaciones Didácticas. (pp. 31-48, Publicaciones Didácticas, nº69).

Montclos. V. (2020). Seu paciente favorito. São Paulo: Perspectiva.


Minhas melhores leituras de 2021

… que podem ser boas recomendações para o teu 2022

Começo de ano é sempre a mesma história, o que fiz no ano passado, o que deixei de fazer. O que planejo para esse ano que vem chegando. Criando metas possíveis e impossíveis para esse novo ciclo.

Pensando isso, resolvi fazer algo diferente por aqui. Nos últimos anos tenho me dedicado bastante a leitura. Lendo de tudo, de tudo mesmo.

No ano passado li um total de 55 obras, principalmente de não-ficção, romances e HQ’s/Mangás*, e aqui embaixo tentei listar algumas delas que acho que valem o teu tempo nesse ano. De maneira nenhuma estão organizadas por “Do melhor ao pior”. Selecionar cinco obras foi um trabalho árduo, mas tentei escolher as obras que mais me “afetaram” nesse 2021.

01 – Escravidão, livro por Laurentino Gomes

Texto terrivelmente necessário para quem vai pensar as relações raciais no brasil de hoje. Laurentino traz aqui o resultado de sua extensa pesquisa sobre as origens do processo de Escravidão na África, até a instalação de um processo quase industrial por Portugal e Brasil.

Pensar o passado nos ajuda a entender o nosso presente e mudar o nosso futuro. Frase clichê, mas verdadeira, especialmente hoje.

O segundo volume dessa trilogia também já está disponível, e o terceiro tem previsão de lançamento para esse ano (seria bacana, já que comemoramos o bicentenário da Independência do Brasil).

02 – Solitário, graphic novel por Christophe Chabouté

Essa obra bateu forte. A história de alguém que vive sozinho em um farol pode já ter sido explorada em outros lugares, mas te garanto, não como aqui.

Chabouté trabalha aqui temas como solidão, traumas, marcas deixadas pela fala do Outro e a ressignificação possível. Muito terapêutico e cinematográfico ao mesmo tempo.

Vale notar que a obra é publicada por aqui em edição magistral pela editora Pipoca e Nanquim.

03 – As Intermitências da morte, livro por José Saramago

Feliz reencontro com o mestre português, em uma de suas obras mais premiadas. Narrando o que aconteceria se ninguém mais morresse e as implicações disso em diferentes áreas da sociedade.

Esse texto que reli esse ano traz uma das aberturas mais interessantes e sedutoras que já li em um livro: “No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada”.

04 – Shamisen, mangá por Guilherme Petreca e Tiago Minamisawa

Outra obra publicada pelo pessoal do Pipoca e Nanquim. Nesse mangá nacional, os autores contam a estória da Haru, uma musicista cega que com seu Shamisen (instrumento de cordas tradicional do Japão) consegue encantar até os deuses. Ela faz parte de toda uma classe da população que realmente existiu, as Gozes, mulheres cegas que ganhavam a vida com apresentações musicais.

Encontrei aqui muita mitologia japonesa com boas doses de emoção.

O traço delicado e fluido do Petreca foi muito influenciado pelas obras Ukyo-e (imagens do mundo flutuante), um estilo de estampa, semelhante à xilogravura, que floresceu no Japão entre os séculos XVII e XX.

05 – Introdução ao Zen-Budismo, livro por D.T. Suzuki

Obra curta e direta ao ponto. Bem o que eu precisava naquele momento. Esse texto deu início as investigações que movi de maneira mais detida no segundo semestre do ano, culminando em um trabalho sobre as relações entre Psicanálise e Zen-Budismo.

Aqui, Suzuki comenta de maneira objetiva diversos aspectos do Zen Budismo, desde suas práticas até seus preceitos e conceitos mais complicados.

Legal apontar a função dos Koans (enigmas) e dos Mondos (entrevistas semi-dirigidas). Práticas do Zen-Budismo que tem vários pontos de conexão com a prática da psicanálise.

De novo, foi difícil escolher só 5, então deixo aqui também algumas menções honrosas:

  • O Corvo, graphic novel por James O’Barr;
  • Admirável mundo novo, livro por Aldous Huxley;
  • Grama, manhwa por Keum Suk Gendry-Kim;
  • Coisa de Menina, livro por Contardo Calligaris e Maria Homem;
  • Um pedaço de madeira e aço, graphic novel por Christophe Chabouté;
  • Uzumaki, mangá por Junji Ito.

Até a próxima,

Igor Banin

*Normalmente não conto obras/textos psi pela própria natureza desses (Artigos científicos, capítulos ou partes de livros).

P.s.: Uso bastante o Skoob. App brasileiro que ajuda a organizar e classificar as leituras.  Te ajuda a manter o ritmo de leitura, contando com desafios e competição (ou não entre amigos).

Psicanálise e Zen-Budismo: experiências do vazio

O que a Psicanálise tem a ver com o Zen?

Não é incomum encontrarmos discussões mundo à fora sobre possíveis aproximações entre a prática da psicanálise e práticas budistas, dentro e fora da tradição Zen. Minha ideia por aqui é pincelar algumas aproximações possíveis com o tema em termos de técnica e objetivo, de maneira nenhuma esgotando o tema e suas implicações.

O contato de Lacan com o Zen-budismo já se denota em seu comentário de abertura no seu primeiro seminário:

“O mestre interrompe o silencio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé.

É assim que procede, na procura do sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen. Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta as suas próprias questões. O mestre não ensina ex-cathedra uma ciência ja pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la”

(Lacan, 1953-1954/1986, p. 9)

Me agrada muito essa passagem inicial e penso que podemos comentar diversos aspectos a partir dela, em termos teóricos e práticos.

Primeiro, a comparação da maneira de transmissão entre Psicanálise e Zen-Budismo, sempre responsabilizando o sujeito em sua busca na análise, por meio da escuta do analista e suas intervenções.

Penso também que a primeira frase diz muito do trabalho de Lacan no sentido de “abrir uma fala, interromper um silêncio” em termos de inovações na Psicanálise de origem francesa.

Lacan não dava ponto sem nó.

Ensō

Um primeiro conceito que vale a pena mencionar é o Ensō, uma palavra japonesa que significa literalmente “círculo”. Ele é fortemente associado ao Zen-Budismo, simbolizando Iluminação, força e o vazio.

O símbolo é normalmente desenhado em uma pincelada só, demonstrando o estado expressivo daquele que toma o pincel naquele momento. Um pouco como a abertura de cada sessão de análise, dado que o paciente pode “começar por onde quiser”.

Aprender a realizar um Ensō é mais uma atividade de meditação do que uma atividade de caligrafia. O que se busca com o desenho é ressaltar o caráter meditativo presente em qualquer atividade. Ressalta a possibilidade de expressar sua liberdade, limpar a mente (Mannox, 2020).

Normalmente é representado como sendo um círculo incompleto, remetendo justamente ao nosso caráter de incompletude, do mundo, de todos.

Pensando em termos de técnica, quando um psicanalista faz uma intervenção, ela deve ser precisa. Da mesma forma, o artista, quando cria o Ensō deve ter sua mente limpa: “Qualquer hesitação em sua mente, qualquer dúvida causará uma oscilação, um quadrado ou uma inconsistência” (Mannox, 2020).

Além disso, a noção de “conhecimento equivocado” referido no Zen-Budismo, diz um tanto da maneira como conduzimos as análises, sempre levando os pacientes à percepção de desejos conflituosos e incômodos (Parker, 2008/2020).

Uma definição que me agrada do Ensō é “A beleza da imperfeição”, ou ainda “Imperfeição é a perfeição de tudo o que você faz”. Isso me remete imediatamente à relação que criamos com nosso próprio vazio, com nossa falta. A noção que a falta é constituinte, para mim, conversa muito bem com essa percepção budista.

No Seminário 9 (As Identificações), Lacan aprofunda a articulação de Psicanálise com a Topologia, trazendo à cena o Toro, representação topológica que ilustra a relação entre Desejo, Demanda e Identificação. Com o Toro, Lacan demonstra como a falta é de fato, constituinte e atua na Identificação com o outro.

Conhecermos nosso desejo e entender o que vale a pena perseguir é um dos objetivos da análise. Penso que esse sofrimento decorrente da busca do objeto a, é outro ponto de convergência entre Psicanálise e Zen-Budismo.

Existe um Eu?

“O inconsciente escapa totalmente a este círculo de certezas no qual o homem se reconhece como um eu”

(Lacan, 1954-1955/2010, p.17)

A noção de Eu na psicanálise remonta às discussões de Freud, chegando ao dualismo Je x Moi em Lacan.

Largamente discutido sobre diversos prismas em seu segundo seminário (O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise), a noção de Eu apresenta uma função constitutiva do sujeito e diferenciadora entre o Eu e o Outro. Ainda assim, é uma função essencialmente imaginária (Lacan. 1954-1955/2010).

Segundo o próprio Lacan (1954-1955/2010) “As falas fundadoras que envolvem o sujeito são tudo aquilo que o constituiu, os pais, os vizinhos, a estrutura inteira da comunidade, e que não só o constituiu como símbolo, mas o constituiu em seu ser” (p. 34).

Na perspectiva budista encontramos algo similar em relação à abordagem de si mesmo. Não apenas na busca do refúgio nas Três Jóias (Buda, Dharma e Sangha), mas também a noção de sofrimento decorrido do apego ao Eu pode ser encontrado nas Quatro Nobre Verdades, sendo elas:

A Realidade do Sofrimento (Dukkha), A Realidade da Origem do Sofrimento (Samudaya), A Realidade da Cessação do Sofrimento (Nirodha) e A Realidade do Caminho (Magga) para a Cessação do Sofrimento.

“Imagine, por exemplo, que você está sentado na esteira, mas, agora, procure por este eu ou pessoa. Descobrirá que não o encontrará nos agregados físicos e mentais. O eu não é nenhum dos quatro elementos, como as partículas que formam o corpo, por exemplo. Esses elementos não respondem pela pessoa; a sua união não é a pessoa; e, isoladamente, também não dão conta do ser. O eu é apenas um rótulo atribuído ao agregado de bases designativas e, por isso, existe somente nominalmente. As pessoas não existem independentemente e de forma inata e verdadeira.”

(Lama, 1991/2004, p. 207)

Pensando nisso, acho válido apontar um certo alinhamento de propósito na análise e no caminhar espiritual de Buda. Escutar o vazio, dissolver o Ego, o que parece impossível, é um pouco de onde se conflui Psicanálise e Budismo (Dunker, 2021).

Japão – Um desvio

Fazendo um desvio do budismo propriamente dito, sinto que é importante tocar muito brevemente em alguns aspectos da cultura japonesa que foram analisados por psicanalistas e me chamam a atenção.

O Haiku,(ou Haicai no Brasil) forma de poesia curta japonesa, normalmente de três versos, que tenta capturar um estado de percepção interna sobre o Ser, sobre a existência.

No haiku, o corte é a essência. Ele define a maneira como dois elementos se relacionam. Da mesma forma, na Psicanálise o corte define a significação. Sendo um corte suspensivo, mudando a cadeia significante que se apresentava até então, ou um corte conclusivo, encerrando a sessão. Apontamos assim para a falta-a-ser do paciente (Quinet, 2015).

“Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos”
(Millôr Fernandes)

Curioso também pensar nas palavras de Lacan quando dizia que não seria possível analisar os japoneses por sua relação com a linguagem, espontaneamente ligada à ambiguidade e poeticidade (Dunker, 2017).

Nas palavras do próprio, em seu famoso texto de introdução aos Escritos à época sendo publicados no Japão, intitulado Aviso ao leitor japonês (1972/2003): “Se não temesse o mal-entendido, eu diria que, para quem fala japonês, é um desempenho costumeiro dizer a verdade através da mentira, isto é, sem ser mentiroso” (Lacan, p.500)

Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Dunker, C. (2017) Como é a psicanálise oriental? In Falando nisso produzido por Buli, L & Bulhões, J. Recuperado em 01 de Outubro de 2021, de

Dunker, C. (2021) Psicanálise e o Zen. In Falando nisso produzido por Buli, L & Bulhões, J. Recuperado em 01 de Outubro de 2021, de

Lacan, J. (1953-1954/1986) Os escritos técnicos de Freud. (Os Seminários, Livro I). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1954-1955/2010) O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. (Os Seminários, Livro II). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1972/2003) Aviso ao leitor japonês. In Outros Escritos (pp.498-500). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lama, D. (1991/2004). O Livro da Felicidade: Um guia prático aos estágios de meditação. Rio de Janeiro: Ediouro.

Mannox, T. (2020) What is an Ensō? Produzido por Study Buddhism. Recuperado em 01 de Outubro de 2021 de

Parker, I. (2008/2020) Japão em análise: culturas do inconsciente. São Paulo: Benjamin Editorial.

Quinet, A. (2015) O Grafo do Desejo. Aula realizada no dia 12/08/2015 no FCCL-Rio. Recuperado em 01 de Outubro de 2021, de https://www.youtube.com/watch?v=LFrD1HtPeWE

05 livros para “entender” Lacan

Recomendações de leitura para interessados em Psicanálise Lacaniana

Jacque Lacan (1901-1981)

Entender Lacan é por demais pretensioso. Sua fala e sua escrita são por demais intrincadas, reunindo às vezes no mesmo parágrafo conceitos de matemática, física e antropologia. Sua transmissão nos remete à falta, à nossa ignorância. Seu estilo rebuscado e erudito gera horas e horas de debate sobre uma única frase.

Pensando em abordar diversos aspectos da obra de Lacan, reuni aqui textos de psicanalistas que conviveram, estudaram e repensam a obra do francês. Elas ajudam não só pessoas em formação psicanalítica.

Gostaria de salientar que nenhum texto escrito por terceiros substitui a leitura do autor/pensador por ele mesmo. Sempre vá direto, mas caso queria uma ajuda, aqui vão algumas dicas:

01 – Introdução clínica à psicanálise lacaniana (Bruce Fink)

Escrito por Bruce Fink, um analista norte-americano (o quê, por si só já é notável), este texto serve como introdução para todos aqueles que se destinam à prática clínica e que querem se aproximar da obra de Lacan.

Aqui, Fink discorre sobre várias facetas da prática clínica, sempre com exemplos úteis à mão. Fala sobre Desejo, Diagnóstico e Técnica analítica. Como nesse trecho, onde o autor discute o aspecto sempre desafiador de se manter fora de uma prática de “compreensão” do sofrimento do paciente:

“Na análise, entretanto, analista e analisando não “falam a mesma língua”, embora ambos possam ser falantes nativos de um dado idioma. Suas expressões podem ser muito parecidas, se eles vierem de meios socioeconômicos semelhantes e da mesma região do país, mas, em última instância, eles nunca “falam a mesma língua”” (Fink, 2018, p. 33)

Falando sobre Fantasia Fundamental, Fink (2018), afirma:

“Convém observar que a fantasia fundamental é menos algo que exista em si, antes da análise, do que algo contruído e reconstruído no curso da análise” (p.83).

02 – Alô, Lacan? É claro que não. (Jean Allouch)

Este livro se trata de um compilado de anedotas da vida e trabalho de Lacan. Com passagens em sessões de análise, supervisões clínicas e apresentação de pacientes, onde a escuta e o jeito irreverente do mestre francês despontavam. Como nessa passagem onde a surpresa e o deslocamento do lugar-comum aparecem em uma sessão:

conjuração?

“No tom irritado que é habitualmente o deste tipo de afirmação, ele diz:

– Puxa! eu sou uma besta.

Lacan:

– Não é porque você diz que não é verdade” (p.39)

A prática do chamado tempo lógico causou muita polêmica culminando na saída de Lacan da IPA em 1964. Por vezes ele pedia que o paciente viesse 2 ou 3 vezes no mesmo dia para sessões curtíssimas, e na semana seguinte passava uma hora inteira escutando o mesmo paciente. Sessões com tempo variável são, sem dúvida nenhuma, uma arte. Seleciono aqui duas passagens

sessões curtas

“Ela pergunta a Lacan:

– Por que você me atende por tão pouco tempo?

– Para que isso seja mais sólido.” (p.91)

É um texto revelador e por vezes humorístico que nos mostra o dia-a-dia do trabalho de Lacan com a Psicanálise em suas diversas frentes.

03 – A vida com Lacan (Catherine Millot)

A vida com Lacan trata-se de um texto íntimo que nos mostra a última década de vida de Jacques Lacan à partir do ponto de vista de Catherine Millot. Ela que buscou a formação com o psicanalista já no fim da vida, retrata situações corriqueiras onde o estilo de Lacan se mostra:

“A intensidade de sua expressão, sua dramatização, me fazia pensar no teatro da crueldade de Antonin Artaud. Numa outra noite em Paris, alguns meses antes, na capela do hospital Saint-Anne, ele proclamara que falava com as paredes e que era isso que fazia seu auditório gozar. A teatralização fazia parte da arte oratória de Lacan. A cólera afetada e a raiva ostentosa eram suas marcas recorrentes” (Millot, 2017, p.35)    

Um homem de hábitos, envolto em suas reflexões acerca do humano e sua relação com o Outro, Lacan deixou um legado importantíssimo para a Psicanálise e para o campo mais amplo da Saúde Mental.

04 – 14 conferências sobre Jacques Lacan (Fani Hisgail)

Esta coletânea publicada em 1989 reúne textos de Contardo Calligaris, Oscar Cesarotto entre outros. Textos estes que foram apresentados na chamada “Semana Jacques Lacan”, realizada na PUC-SP, em outubro de 1988. Foram 4 dias de intenso debate e discussão entre filósofos, psicanalistas e semiólogos, debruçando-se sobre diversas áreas do ensino de Lacan.

Nessa coletânea você encontra discussões sobre o “campo psicanalítico”, a ética da psicanálise e como se transmite a mesma. Discorrendo sobre cultura, o saudoso Calligaris diz:

“A necessidade que funda o sujeito neurótico numa filiação à função paterna é que o funda submisso ao automatismo de repetição, o qual a função paterna organiza. E o sintoma não é nada mais do que esta organização” (1989, p.20).

Interessante apontar também o uso do Nó-Borromeano por Oscar Cesarotto (1989) acerca da Transmissão da Psicanálise, falando em três tempos: Formação, Autorização e Reconhecimento.

05 – Introdução à topologia de Lacan (J.D. Nasio)

O período entre 1964 e 1971 ficou conhecido como a virada lógica de Lacan. Nesse texto de 2010, J. D. Nasio, grande divulgador da obra de Lacan, discute e apresenta a construção e uso das estruturas topológicas na psicanálise do francês. Entre elas, encontramos a Banda de Mobius, Toro, Garrafa de Klein e Cross-cap.

Lacan fez uso da Topologia das Superfícies para explicar e ilustrar conceitos psicanalíticos de maneira lógica. Entre eles: Desejo, Inconsciente, Discurso e Objeto a.

Um texto interessantíssimo para os curiosos do uso de conceitos lógico/matemáticos pelo mestre francês.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências

Allouch, J. (1999) – Alô, Lacan? – É claro que não. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Higail, F (org.). (1989) 14 Conferências sobre Jacques Lacan. São Paulo: Editora Escuta.

Fink, B. (2018). Introdução clínica à psicanálise lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Millot, C. (2017). A vida com Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Nasio, J (2011). Introdução à topologia de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.