Dor crônica e sofrimento emocional

A dor crônica pode chegar à nossa vida de muitas formas, acidentes, sequelas de alguma doença, ou até mesmo por origem emocional. A dor crônica é a que persiste por mais de três meses, ou um mês após a resolução da lesão, geralmente indica disfunção do sistema nervoso ou das fibras nervosas do membro afetado e, na maioria dos casos, ocorre com uma doença crônica, como artrite fibromialgia, osteoartrite de coluna ou joelho, reumatoide, entre outros.

Pode se destacar como as principais dores crônicas, as dores nociceptivas ou somáticas, que se referem a uma lesão ou inflamação nos tecidos da pele, o que é compreendido pelo sistema nervoso como uma ameaça e gera dor enquanto durar a lesão; a dor neuropática, ocorre devido à disfunção do sistema nervoso, seja no cérebro, medula espinhal ou nervos periféricos, é comum que venha na forma de queimação, picada ou formigamento; dor mista ou inespecífica, é a dor causada por componentes da dor nociceptiva e neuropática ou de causas desconhecidas.

Em qualquer um desses casos, o que temos de fato é como ser acompanhado por algum tipo de dor persistente ou recorrente acarreta não só em mal estar físico, mas muitas vezes em prejuízos psíquicos.
Um dos principais pontos é como a dor pode ser um limitador no dia a dia do acometido, tudo que for cerceado, principalmente aquilo que era querido e afetuoso, trabalho, esporte, lazer e outros, passa não apenas por um processo de luto, mas pode ser uma dolorosa marca em sua vida.

Podemos citar por exemplo aqueles que tem alguns movimentos limitados ou impedidos, afetando seu esquema corporal, sua concepção de funcionamento, de limites e de como fazer cada coisa, desde situações simples como dar um passo, até ao trabalho e movimentos finos e específicos, levando a frustração de não alcançar os resultados já esperados.

A dor crônica também pode afetar profundamente a autoimagem do acometido, visto que a sua posição dentro de seus grupos sociais, como a família por exemplo, tende a mudar quando estes o consideram inapto de desenvolver o que já era de seu costume e responsabilidade, levando a sentimentos de fracasso ou incapacidade.

Neubern vai propor a necessidade de ressignificação destas vivências e novas adequações, pontos que podem ser alcançados pela hipnose clínica ou psicoterapia em diversas abordagens por exemplo.

Em outras palavras, a hipnose, em tal dimensão, não se restringe a um procedimento catártico, uma vez que abrange a criação de um contexto seguro que ofereça continência, organização e possibilidades de produção de sentidos diante dos novos arranjos experienciais entre figura e fundo. (Neubern, 2014)

Essa pessoa passa a ter sua liberdade limitada e por consequência não pode expressar-se como gostaria enquanto indivíduo, podendo levar a uma vida inautêntica e angustiada. Dentro de nossas diversas complexidades vivenciais, nossos corpos representam a ferramenta de que dispomos para expressar tudo que existe de maneira virtual, ou seja, tudo aquilo que hoje existe no nosso psiquismo, pensamentos e sentimentos, nossas considerações e maneiras de ver o mundo, a partir do momento que não se pode mais realizar aquilo que consideramos correto, aquilo que idealizamos para a vida, ou ainda aqueles pequenos atos que parecem corriqueiros, passamos a limitar também quem somos, uma vez que muito disso passa a ficar apenas em nós, impossibilitado de vazão e expressão física e prática no mundo e nas relações.
Tratar situações como essas tem muitos caminhos, psicoterapia, hipnose, além claro do uso da medicação para a situação física em si. Todas essas vão buscar maneiras de levar o indivíduo a encontrar novas maneiras de se expressar, de ressignificar a dor, de dar novos sentidos a sua existência, a compreender melhor como suas emoções se relacionam com o que sentem, a gerir melhor crises e perceber que a dor ou condição física não é o centro de suas vidas, que mesmo com determinadas limitações ainda são seres capaz de a partir de determinada resiliência viver de maneira satisfatória e feliz.

Atenciosamente

Patrício Lauro

Referências

NEUBERN, Maurícioda Silva. Fenomenologia, Hipnose e Dor Crônica: Passos para Uma Compreensão Clínica.2014.

NEUBERN, Maurício da Silva. Hipnose e sentidos físicos em psicoterapia: sobre a reconstrução da experiência do sujeito. 2012.

Quem Foi Charcot? (Sobre a Histeria)

Quem foi? O que fez? E qual sua importância para a Psicologia?

(Figura 1 – Charcot – Imagem em Domínio Público)

Jean-Martin Charcot foi um médico psiquiatra e neurologista francês, que viveu entre 1825 e 1893 e, apesar de ter realizado grandes pesquisas e ser considerado o fundador da moderna neurologia, é geralmente, mais associado pelas pessoas, de uma forma geral, aos temas da hipnose ou algo relacionado ao “tratamento dos loucos”.

Mais conhecido como Charcot (ou Dr. Charcot), este médico realizou diversas investigações sobre a histeria e sobre o tratamento dos sintomas por meio do método hipnótico e, sem abordar outras de suas contribuições, o seguinte texto procurará discorrer sobre estes dois principais pontos, que são de fundamental importância histórica e técnica para a psicologia e, em especial, para a psicanálise.

A Histeria

É importante conceituar o que se entende por histeria, haja visto que esse é um tópico fundamental na psicologia e que o mesmo já passou diversas e distintas perspectivas. Em resumo, é um termo antigo, derivado da palavra grega correspondente a “útero” e referido ao médico grego Hipócrates (± 400 a.C.), que designava uma condição médica particular associada a alguma perturbação no útero, ou seja, uma desordem essencialmente feminina.

Bem mais adiante, estudos datados de 1662, realizados pelo médico inglês Thomas Willis (1621-1675), concluíram não haver indícios de patologias uterinas, após realização de autópsias em pacientes consideradas histéricas. Durante o século XIX e com grandes relatos em alguns pontos da Europa, muitos pacientes (a maioria mulheres) apresentavam sintomas diversos como: paralisia de membros do corpo; afasias (distúrbio da linguagem); fobias (distúrbio da ansiedade); amnésias (distúrbio da memória); cegueira (distúrbio da senso-percepção) e alguns mais que eram subitamente manifestados e, ao serem examinados pelos médicos, as causas naturais, orgânicas ou fisiológicas não eram encontradas. Isto fez com que a comunidade médica, de uma forma geral, nutrisse um certo preconceito ao tipo de quadro – denominado de histeria – e atribuísse os tais sintomas à atuação de alguém querendo atenção, por exemplo, e recusando-se a tratar ou curar aquele que relatava esse tipo de sofrimento. E, parênteses, não é raro, ainda nos dias atuais e principalmente naquilo que diz respeito ao conhecimento do senso-comum, ouvir chamarem de histérica aquela personagem que atua de forma exagerada e/ou que “faz drama” desnecessário.

Charcot fez diferente. Observou inúmeros casos no hospital parisiense Salpêtrière, onde foi inclusive Diretor, e buscou compreender as Leis da Histeria, defendeu a busca por causas biológicas associadas ao quadro e utilizou o método hipnótico como recurso de tratamento, sendo assim, desacreditado por seus contemporâneos, mas chamando a atenção de um médico de Viena, conhecido por Sigmund Freud (1856-1939). “No surto (histérico)…tudo se desenrola de acordo com as regras, que são sempre as mesmas; válidas para todos os países, todas as épocas, todas as raças e, em resumo, universais”.

(CHARCOT, 1882 apud COLLIN, 2012, p. 30)

O quadro abaixo foi pintado em óleo por André Brouillet (1857-1914) no ano de 1887, retrata uma demonstração clínica feita por Charcot a um grupo de estudantes de pós-graduação em medicina, é referenciado como um dos melhores quadros da história da medicina e, atualmente, está em um corredor na Universidade Descartes de Paris.

Charcot Histeria Hipnose - Une_leçon_clinique_à_la_Salpêtrière
(Figura 2 – Une leçon clinique à la Salpêtrière – André Brouillet, 1887)

Pós Charcot, a histeria foi objeto de estudo intenso da psicanálise (freudiana e pós-freudiana) e da psicologia. Para a psicologia e psiquiatria clínicas, os sintomas histéricos citados são relacionados ao chamado Transtorno de Conversão (TC), que aponta para esta somatização, isto é, o aparecimento no corpo, de sintomas significativos sem causas físicas relacionadas, enquanto que, para a psicanálise, o termo ganha a até condição de estrutura clínica, quando buscamos a ótica do francês freudiano Jaques Lacan (1901-1981), visão essa que merece ser explicada em um próximo texto próprio. Para já, fica este trecho de definição, sobre a histeria, encontrado no Vocabulário da Psicanálise (1992) de Laplanche e Pontalis:

“Classe de neuroses que apresentam quadros clínicos muito variados. As duas formas sintomáticas mais bem identificadas são a histeria de conversão, em que o conflito psíquico vem simbolizar-se nos sintomas corporais mais diversos, paroxísticos (exemplo: crise emocional com teatralidade) ou mais duradouros (exemplo: anestesias, paralisias histéricas, sensação de “bola” faríngica, etc.), e a histeria de angústia, em que a angústia é fixada de modo mais ou menos estável neste ou naquele objeto exterior (fobias).”

(LAPLANCHE & PONTALIS, 1992, p. 211)

A Hipnose

Ao utilizar a hipnose, Charcot ficou associado à muitas exibições públicas rotuladas de charlatanismo, por aqueles que desconfiavam do método e chegando a ser acusado de induzir, por via da hipnose, alguns dos sintomas de seus pacientes, enquanto crítica daqueles que compreendiam o caráter sugestionável desta técnica. Sobre isso, vale frisar as palavras de Peter Gay (1988), biógrafo de S. Freud: “[Freud] havia reconhecido que a histeria – ao contrário de todas as ideias tradicionais – aflige tanto os homens quanto as mulheres. E ainda mais ousado, Charcot resgatara a hipnose das mãos dos curandeiros e charlatães, para aplicá-la de modo consequente no tratamento de doenças mentais.”

(GAY, 1988, p.61)

Em resumo, a demonstração funcionava mais ou menos da seguinte forma:

  • Charcot selecionava um paciente histérico sintomático;
  • Ele colocava o paciente em transe/estado hipnótico;
  • Enviava comandos para remover o sintoma;
  • O sintoma era removido;
  • O paciente era retirado do transe e não apresentava mais o sintoma de quando chegou.

Freud – o pai da psicanálise – viu na hipnose um grande meio para se estudar e acessar o inconsciente humano, além de uma poderosa técnica de cura. Sobre este período de sua carreira, Ana Bock e outros (1999) apontam:

“Começou, então, a clinicar, atendendo pessoas acometidas de ‘problemas nervosos’. Obteve, ao final da residência médica, uma bolsa de estudo para Paris, onde trabalhou com Jean Charcot, psiquiatra francês que tratava as histerias com hipnose. Em 1886, retornou a Viena e voltou a clinicar, e seu principal instrumento de trabalho na eliminação dos sintomas dos distúrbios nervosos passou a ser a sugestão hipnótica”

(BOCK et al., 1999, pp. 70-71)

  Fica também um trecho complementar encontrado no livro biográfico Freud: uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay (1988):   “A hipnose não era uma novidade absoluta para o Freud de 1885. Como estudante de medicina, ele já havia se convencido de que, apesar de sua fama desagradável, o estado hipnótico era um fenômeno autêntico. Mas era gratificante ver Charcot confirmar aquilo em que ele já acreditava largamente, e impressionante observar o que acontecia com os pacientes de Charcot durante e depois das hipnoses.”

(GAY, 1988, p. 61)

É importante dizer que o próprio Freud vai abandonar o método hipnótico com o avanço de seus trabalhos, ao passo em que começa a notar que nem todas as pessoas conseguiam ser hipnotizadas, que os sintomas removidos reapareciam depois de um tempo e também por conhecer Joseph Breuer, Bertha Pappenheim e o método catártico, assunto este, que também merece um próximo e próprio texto.

As principais contribuições de Charcot, sobre os pontos acima, podem ser encontradas nas suas seguintes obras: Leçons sur les maladies du système nerveux, em 5 vol., publicados de 1872 a 1883 e 1885-1887; e Sur les divers états nerveux déterminés par l’hypnotisation chez les hystériques, datado de 1882.

Referências Consultadas

ALONSO, S. L. & FUKS, M. P. (2004). Histeria. In Flavio Carvalho Ferraz (Org.) Coleção clínica psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo.

BOCK, A. M. B., FURTADO, O. & TEIXEIRA, M. L. T. (1999). Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Editora Saraiva.

COLLIN, C., BENSON, N., GINSBURG, J., GRAND, V., LAZYAN, M. & WEEKS, M. (2012). O livro da psicologia. São Paulo: Globo. GAY, P. (1988). Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras

PONTALIS, J. B. & LAPLANCHE, J. (1992). Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

Por Caio Ferreira