Idoso e família em tempos atuais

O envelhecimento é um processo relativamente novo, pois a população atingiu uma idade mais avançada desde a década de 1960 e a expectativa de vida começou a aumentar devido a melhorias na saúde, educação e questões econômicas e progresso no envelhecimento da população.

Nos últimos anos, assistimos a um aumento do número de idosos no mundo, e espera-se um crescimento ainda maior nos próximos anos. De acordo com o censo de 2000, a população idosa no Brasil era de 14,5 milhões, ou 8,6% da população total, e o número de pessoas com 60 anos ou mais deve chegar a 30,9 milhões em 2020. Além disso, vale destacar que o número de pessoas com 80 anos ou mais vem aumentando nessa população idosa brasileira, alterando assim a composição etária da própria população idosa. Em 2000, 55% da população idosa era do sexo feminino devido a óbitos masculinos.

A sociedade atual, baseada em pressupostos capitalistas, caracteriza as pessoas por seu “valor”, e este é definido a partir da sua capacidade de produção e consumo dentro do mercado. Quando falamos em idosos, estamos entrando no âmbito de um público não acostumado ao estilo de vida de “gastos desenfreados” como os atuais e ainda pessoas que tem sua capacidade de trabalho e produção comprometidos ou nulos, por suas limitações naturais, tanto físicas quando psíquicas o que leva as pessoas de idades mais elevadas ao simbólico da periferia, estes são deixados de lado por serem um peso ao resto da sociedade. A cultura atual privilegia indivíduos eficazes e produtivos, ou seja, as pessoas valem enquanto podem de alguma forma tirar proveito delas, enquanto rendem. A autora ainda expõe que o modo de vida limitado, mais lento e às vezes desajeitado das pessoas mais velhas, provocam muitas vezes comportamentos de rejeição e até agressão pelos mais velhos. Como isso fica dentro das famílias?

A família é o grupo primordial na humanidade, no sentido de que é o principal e primeiro grupo a se formar, para caracterizar-se grupo, um agrupamento de pessoas de dividir também objetivos e laços afetivos, e dentro disso, a família se desenvolve como grupo de proteção e sobrevivência, com cada grupo protegendo e ajudando os seus durante o processo evolutivo humano.

Dentro do âmbito familiar, existem mudanças de impacto na vida do idoso, a principio já temos a mudança de posição de chefia ou poder, ou seja, deixam de decidir e até opinar nas decisões da casa e dos filhos, levanto até a uma inversão de papeis, em caso onde o idoso se torna dependente de forma física e emocional dos filhos.

Em famílias harmoniosas, não apenas o idoso, mas todos os envolvidos encontram um ambiente de crescimento pessoal muito rico, tendo espaço e acolhimento para todos, mas existem também o modelo familiar onde os conflitos são constantes, e a falta de respeito e limites podem levar idosos ao isolamento social, e ao medo constante de errar ou de punições.

Todavia dentro deste contexto familiar e cultural da atualidade que construímos até aqui, as mudanças no estila de vida urbano familiar, podem levar o idoso a uma exposição a grandes riscos, em ambientes pequenos, não adaptados, as quedas e os muitos casos de violência, criando a necessidade da constituição de espaços especializados para este público, atendendo suas diversas necessidades físicas e psíquicas, entretanto Mazza (2005) aponta que estudos compreendem que o idoso ainda necessita do amor familiar, desta forma é necessário, que mesmo que o indivíduo longevo saia do seio familiar, ainda manter um contato satisfatório e vitalício para a manutenção da saúde biopsicossocial do sujeito.

A presença de um idoso com limitações físicas no seio familiar não vem sem crises, pelas grandes mudanças que este fato vai trazer ao ritmo da família, e também altera a compreensão de mundo dos mesmos, colocando sob novas perspectivas padrões, mitos e crenças familiares. A autora ainda compreende a partir disso a necessidade de novos estudos que visem a relação idoso e família, que compreendam os modelos familiares e venham de auxílio a estes grupos quando entrarem nestes momentos de mudanças e crises.

Tendo em vista toda a questão econômica, social, cultural e biológica que envolve o idoso, conclui que dentro da realidade brasileira, a família ainda é o grande receptor do idoso, é a instituição social que acolhe e deve se responsabilizar de diversas formas por este indivíduo, todavia muitos não estão preparados para isso, públicas como o programa de saúde da família devem trabalhar em nível de atenção primária a saúde do idoso, preparando familiares para lidar com estas situações, como forma de prevenções de agravos a saúde do idoso.

É de suma importância compreender que relação família e idoso, onde a família como grupo primordial, entra como ponto de apoio em todas as questões de saúde, todavia é notório que a população em geral ainda carece de diversas informações e preparação para lidar com as necessidades do indivíduo longevo e compreender o que é ser idoso para possibilitar relações mais saudáveis, garantindo qualidade de vida para o idoso e para o meio familiar.

Atenciosamente, Psi. Patrício Lauro

Referências

CALDAS, Cecília Pereira. Envelhecimento com dependência: Responsabilidades e demandas familiares. 2003.

CREUTZBERG, Marion e outros. A Comunicação entre a família e a instituição de longa permanência para idosos. 2007.

GRIFFA, Maria Cristina, MORENO, José Eduardo. Chaves para a Psicologia do Desenvolvimento, tomo 2: adolescência, vida adulta, velhice. 8 ed. São Paulo – Paulinas. 2011.

MAZZA, Márcia Maria Porto R. e outros. Cuidar em família: Análise da representação social da relação do cuidador familiar com o idoso. 2005.

MENDES, Márcia Barbosa, e outros. A Situação Social do Idoso no Brasil: uma breve consideração. 2005.

PAPALIA, Diane E. Desenvolvimento Humano. 12 ed. Porto Alegre. Artmed. 2013.

SILVEIRA, Terezinha Mello da e outros. Cuidando de idosos altamente dependentes na comunidade: um estudo sobre cuidadores familiares principais. 2006.

Dor crônica e sofrimento emocional

A dor crônica pode chegar à nossa vida de muitas formas, acidentes, sequelas de alguma doença, ou até mesmo por origem emocional. A dor crônica é a que persiste por mais de três meses, ou um mês após a resolução da lesão, geralmente indica disfunção do sistema nervoso ou das fibras nervosas do membro afetado e, na maioria dos casos, ocorre com uma doença crônica, como artrite fibromialgia, osteoartrite de coluna ou joelho, reumatoide, entre outros.

Pode se destacar como as principais dores crônicas, as dores nociceptivas ou somáticas, que se referem a uma lesão ou inflamação nos tecidos da pele, o que é compreendido pelo sistema nervoso como uma ameaça e gera dor enquanto durar a lesão; a dor neuropática, ocorre devido à disfunção do sistema nervoso, seja no cérebro, medula espinhal ou nervos periféricos, é comum que venha na forma de queimação, picada ou formigamento; dor mista ou inespecífica, é a dor causada por componentes da dor nociceptiva e neuropática ou de causas desconhecidas.

Em qualquer um desses casos, o que temos de fato é como ser acompanhado por algum tipo de dor persistente ou recorrente acarreta não só em mal estar físico, mas muitas vezes em prejuízos psíquicos.
Um dos principais pontos é como a dor pode ser um limitador no dia a dia do acometido, tudo que for cerceado, principalmente aquilo que era querido e afetuoso, trabalho, esporte, lazer e outros, passa não apenas por um processo de luto, mas pode ser uma dolorosa marca em sua vida.

Podemos citar por exemplo aqueles que tem alguns movimentos limitados ou impedidos, afetando seu esquema corporal, sua concepção de funcionamento, de limites e de como fazer cada coisa, desde situações simples como dar um passo, até ao trabalho e movimentos finos e específicos, levando a frustração de não alcançar os resultados já esperados.

A dor crônica também pode afetar profundamente a autoimagem do acometido, visto que a sua posição dentro de seus grupos sociais, como a família por exemplo, tende a mudar quando estes o consideram inapto de desenvolver o que já era de seu costume e responsabilidade, levando a sentimentos de fracasso ou incapacidade.

Neubern vai propor a necessidade de ressignificação destas vivências e novas adequações, pontos que podem ser alcançados pela hipnose clínica ou psicoterapia em diversas abordagens por exemplo.

Em outras palavras, a hipnose, em tal dimensão, não se restringe a um procedimento catártico, uma vez que abrange a criação de um contexto seguro que ofereça continência, organização e possibilidades de produção de sentidos diante dos novos arranjos experienciais entre figura e fundo. (Neubern, 2014)

Essa pessoa passa a ter sua liberdade limitada e por consequência não pode expressar-se como gostaria enquanto indivíduo, podendo levar a uma vida inautêntica e angustiada. Dentro de nossas diversas complexidades vivenciais, nossos corpos representam a ferramenta de que dispomos para expressar tudo que existe de maneira virtual, ou seja, tudo aquilo que hoje existe no nosso psiquismo, pensamentos e sentimentos, nossas considerações e maneiras de ver o mundo, a partir do momento que não se pode mais realizar aquilo que consideramos correto, aquilo que idealizamos para a vida, ou ainda aqueles pequenos atos que parecem corriqueiros, passamos a limitar também quem somos, uma vez que muito disso passa a ficar apenas em nós, impossibilitado de vazão e expressão física e prática no mundo e nas relações.
Tratar situações como essas tem muitos caminhos, psicoterapia, hipnose, além claro do uso da medicação para a situação física em si. Todas essas vão buscar maneiras de levar o indivíduo a encontrar novas maneiras de se expressar, de ressignificar a dor, de dar novos sentidos a sua existência, a compreender melhor como suas emoções se relacionam com o que sentem, a gerir melhor crises e perceber que a dor ou condição física não é o centro de suas vidas, que mesmo com determinadas limitações ainda são seres capaz de a partir de determinada resiliência viver de maneira satisfatória e feliz.

Atenciosamente

Patrício Lauro

Referências

NEUBERN, Maurícioda Silva. Fenomenologia, Hipnose e Dor Crônica: Passos para Uma Compreensão Clínica.2014.

NEUBERN, Maurício da Silva. Hipnose e sentidos físicos em psicoterapia: sobre a reconstrução da experiência do sujeito. 2012.

Sobre viver e navegar

Em algum momento percebi que a vida é um oceano. Longo, vasto, diferente dos mares que conhecemos nas praias, este não tem limite. Naveguei em uma embarcação familiar por muito tempo, ali cada um fazia sua parte e de alguma forma, cuidávamos uns dos outros mesmo em momentos de fortes tempestades ou grandes calmaria. Com algum tempo notava outros barcos, navios, balsas ou botes, cada grupo com seu meio de navegar, mas em algum lugar eu via pessoas à deriva, sozinhas ou distantes dos seus.

Passei algum tempo em terra firme, aprendendo a lidar com os imprevistos que acontecem em alto mar, e formas de auxiliar pessoas a encontrar equilíbrio em suas embarcações, as vezes até mesmo a como construir uma, essa foi minha formação como psicoterapeuta. Volta e meia estou lá em uma dessas escolas novamente, sempre há uma ferramenta nova para auxiliar um naufrago ou uma nova forma de fechar um buraco em um casco de barco.

Quando me tornei psicólogo, me foram dadas (ou construí) algumas ferramentas e técnicas que mudaram a minha forma de navegar. Aprendi a ter um olhar e uma escuta focada e atenta, alguém pode estar se debatendo na água bem do seu lado e você nem perceber a tempo de ajudar. Para maiores distâncias tenho uma luneta que me ajuda a ver, ajuda as vezes a encontrar uma embarcação ou porto seguro, onde o resgatado possa descansar e traçar sua nova rota. Gosto muito da habilidade de ficar em silêncio e escutar, o vazio do oceano pode no dizer muito, e assim também posso buscar compreender de onde vem e para onde vai cada uma dos que encontro, infelizmente alguns se perderam, sempre que posso ajudo com um mapa ou calculamos juntos a rota corrigir seu curso.

Tenho sempre a mão uma velha, mas muito boa boia salva vidas, em alguns casos não dá para mergulhar e ajudar, mas essa ferramenta traz lentamente a pessoa até a segurança, e esse tempo é até importante para que ela se acalme e possa aí se organizar e ir em frente.

Com o tempo me separei do grupo que me mantinha, construí minha própria embarcação, e hoje navego nas direções que acho mais importantes, independentemente de onde vá, sempre tem gente para conhecer, suas histórias me encantam, algumas me comovem, me sempre vejo que todos são capazes de encontrar aquele tesouro perdido, ou aquela ilha afastada que tanto procuram, em alguns casos fico feliz de fazer parte deste processo. O mar pode ser traiçoeiro, cheio de perigos, de tempestades e vis piratas, mas a cada dia me torno e acredito que você também, um marinheiro mais ágil, mais atento, mais hábil, e sei que alcançaremos mares mais tranquilos e estáveis. Com o tempo notamos que cada um tem sua forma de navegar, que alguns tem pressa, outros tem muita calma, alguns tem um objetivo muito bem definido, outros só querem aproveitar a vista, independentemente de onde o vento o leve. Conheci aqueles que não queriam mais navegar sozinhos, também conheci aqueles que querem aproveitar o som do oceano, da vida sem muitas pessoas por perto, e aprendemos a apreciar todas as formas de navegar.

O mar é lindo, sentir as ondas, ver as paisagens, conviver com a fauna, tudo isso pode ser muito bom, mas existem tempestades assustadoras, naufrágios trágicos, e até mesmo piratas por aí, e é natural que em algum momento tenhamos medo do que vamos encontrar por aí. Se eu puder ajudar na sua navegação, ficarei feliz, as cartas náuticas da Psicologia foram desenvolvidas para isso afinal, mas de toda forma, espero o melhor para você e todos nós.

De um psico-marinheiro da vida para todos os navegantes por aí procurando uma direção.

Por Psi. Patrício Lauro

Fenomenologia e Psicopatologia

Você já parou para pensar o que é psicopatologia? Atualmente, esse termo tornou-se um pouco mais comum entre nós, porém, é fundamental esclarecer o verdadeiro significado dele. Segundo o autor Dalgalarrondo ao recorrer ao pensamento do pesquisador Campbell a psicopatologia é um ramo da ciência que trata da natureza essencial das doenças mentais, na qual busca estudar as causas, mudanças estruturais e funcionais que afetam e alteram as cognições dos sujeitos que são acometidos por elas e podem vir a ser associadas a vários tipos de transtornos com algumas formas distintas de manifestação. Em outras palavras, a psicopatologia pode ser definida como um conjunto de saberes que referem-se ao adoecimento mental do ser humano. 

A psicopatologia clássica volta o seu olhar para o sintoma e suas causas, elencando uma série de sintomas que são utilizados como base para poder certificar o fator pré-determinante para classificar uma doença mental, em outras palavras, a metodologia clássica está voltada para a doença e não para o doente. Contrapondo este ponto fundamental, a psicopatologia fenomenológica propõe reflexões fundamentais e busca compreender o sujeito em sua totalidade, considerando suas particularidades de maneira clara, além de compreender também todos os aspectos psíquicos e físicos que afetam o indivíduo em questão.

Uma das referências modernas em psicopatologia é Karl Jaspers, que entende essa ciência como auxiliar a psicologia clínica e a psiquiatria, e tece alertar importantes sobre como não se deve usar o conhecimento desta para padronizar ou apenas classificar levianamente os indivíduos. Jaspers propõe que não se deve reduzir o homem aos conceitos da psicopatologia, utilizando até a famosa frase “nosso tema é o homem todo em sua enfermidade”, para evidenciar a importância de se destacar o homem enquanto subjetividade e vivência e não impor o conceito patológico a este. Dessa forma, é importante saber até onde podemos ir pelo caminho das classificações e como o indivíduo não pode ser esquecido.

O que se pretende quando falamos sobre psicopatologia fenomenológica é estabelecer um caminho para a compreensão do sofrimento emocional a partir de um olhar não padronizado, como vemos na psicopatologia clássica, e sim valorizar a vivência do indivíduo frente ao que se apresenta como sofrimento, e até o lugar ocupado por este sofrimento ou angústia como parte do processo existencial, conforme explica Karwowski:

Isso posto, posso concluir que a psicopatologia fenomenológica revela, em última instância, as condições precárias do próprio estudioso; não mais pela ausência de garantias que a detenção do conhecimento psicopatológico poderia oferecer contra a ocorrência das psicopatologias no próprio estudioso, pois essas garantias o mero estudo da psicopatologia clássica já havia feito ruir; mas pelo fato de revelar naquela normalidade segura que se supunha habitar (livre de angústias, temores e sofrimentos) a própria angústia, o temor e o sofrimento, não como estruturas supostamente psicopatológicas, mas como elementos ontológicos, logo, inarredáveis da existência humana.  

O caminho aqui é aquele que se molda a partir do cliente, podemos estabelecer que partimos da redução fenomenológica, como o processo dar valor às experiências da pessoa em relação a queixa então apresentada, é aproximar-se do fenômeno com os olhos de quem te procura e não com uma verdade já pré-estabelecida.

Parte importante da ideia de uma compreensão fenomenológica da psicologia e psicopatologia é entender o conceito de intencionalidade, em nossa relação como mundo, atribuímos sentido às coisas, as pessoas e ao sofrimento, este entendimento é vital para um direcionamento do existencial fenomenológico no contexto das psicopatologias. 

Temos aqui então a compreensão de que a psicopatologia é uma vital área das ciências voltadas a saúde mental, estabelece leis e padrões que auxiliam a melhor conhecer e tratar os diversos fenômenos psicopatológicos que podem envolver cada ser humano, ao passo que não podemos deixar de olhar para a individualidade ao expor essa pessoa a esses conceitos. O que a fenomenologia nos propõe é pensar o homem a partir dele mesmo e não do conceito pronto e redutivo que pode ser as classificações mentais.

Referências:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. São Paulo, 2008. 


Karwowski, Silverio Lucio. Por um entendimento do que se chama psicopatologia fenomenológica. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rag/v21n1/v21n1a07.pdf. Acesso em 11/08/2021.

FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia fenomenológica: fundamentos, método e pesquisa. São Paulo : Pioneira Thomson Learning, 2002.

KARWOWSKI, Silverio Lucio. Por um Entendimento do que se chama Psicopatologia Fenomenológica. Revista da Abordagem Gestáltica – Phenomenological Studies – XXI(1): 62-73, jan-jun, 2015

Por: 

Psi. Rauane Monte Mor

Instagram: @rauanemor.psi 

e Patrício Lauro

Da empatia às relações

Empatia é uma palavra realmente comentada nos últimos anos, seja por ser um conceito extremamente humanizado e vivemos cada vez mais uma realidade virtual e liquida, onde não é difícil ridicularizar, zombar ou menosprezar a dor e sofrimento alheio, ou talvez pelo contexto do mundo, onde tantas coisas ruins acontecem e sempre se buscam artifícios para sensibilizar as pessoas a respeito do que acontece a sua volta. Dessa forma a maioria de nós já se deparou com essa palavrinha por ai, seja em uma palestra motivacional, um livro, um post em rede social ou até uma ou outra tatuagem por aí. Mas como o que é de fato essa tal “empatia”? Seria simplesmente se colocar no lugar do outro? Bom, qualquer ser humano faz este movimento racional de simular estar em outras condições, então qual é a grande “sacada” para a empatia ser tão falada por ai?

Em primeiro lugar precisamos trabalhar a ideia de empatia em seu contexto teórico, então vamos falar sobre um dos que mais pontuou sobre o papel deste conceito: Carl Rogers, psicólogo estadunidense, e que nos presenteou com uma das grandes correntes de pensamento e atuação na psicologia, a Abordagem Centrada na Pessoa. Rogers era esse cara que olhava o que se fazia em psicologia em sua época, sabia a importância, entretanto não ficava satisfeito, achava que a ótica behaviorista radical de seus contemporâneos era um tanto mecanicista e a visão psicanalítica apenas baseada no inconsciente, um tanto reducionista. Dessa forma Rogers compreende a importância da pessoa, do momento, da relação, do aqui e agora, deixando para trás a ideia do terapeuta que se foca apenas na doença, não, Carl queria era aprofundar-se nas pessoas que o procuravam. Bom com certeza textos virão para nos aprofundarmos na ACP (abordagem centrada na pessoa) de Rogers, então onde entra a empatia aqui?

Bom a ideia de psicoterapia que o bom terapeuta estadunidense propôs, se apoiava em um determinado tripé, congruência, ou seja, uma pessoa que age como realmente é, livrando-se de amarras sociais ou máscaras, válido tanto para o terapeuta quando para o cliente (no caso, chegar a congruência geralmente é parte do processo). O segundo apoio seria a aceitação positiva incondicional, um tipo de respeito pelo indivíduo a sua frente enquanto ser humano, e estar aberto ao que este expor com amabilidade e aceitação. E por fim a tão esperada empatia, ou ainda para Rogers, compreensão empática, como uma parte deste tripé facilitador para o movimento terapêutico.

Essa ideia de empatia começa com uma atitude, onde o terapeuta se dedica a compreender objetivamente as dificuldades do cliente, todavia, não de uma maneira fria e distante, tampouco uma atitude nada emocionalmente exagerado, o objetivo aqui é que a pessoa a sua frente sinta que existe alguém o ouvindo de fato.

Outro ponto rogeriano que se liga a essa construção de uma atitude empática, é a não-diretividade do terapeuta, deixar que essa pessoa que procura ajuda fale livremente, daquilo que precisa falar, Rogers aqui não foi inconsequente de entender um profissional que fica calado e deixa a pessoa falar sozinha, não, a ideia aqui é a de um terapeuta que permite o outro ser quem ele é em seu discurso, e também de não colocar-se como a autoridade na sala, que vai dizer o que deve ou não ser dito sobre a vida do outro, o que Carl propõe é humanidade e humildade, o maior especialista da sua vida é você, então, por favor, me conte o que acontece com você. Quando chegamos a este ponto na concepção de Rogers, vemos que a ideia de compreender o cliente ficou pra trás, aqui o cliente já pode compreender a si mesmo, e o terapeuta se coloca como quem cria um ambiente onde isso é possível.

Á frente, Carl Rogers vai desenvolver mais essas ideias e chegar a uma postura reflexiva, onde o terapeuta trabalha a partir da ideia de refletir de maneira suave e compreensiva as questões, emoções e sentimentos do cliente, podendo este perceber assim as possibilidades que envolvem a situação que se desenvolve na sessão.

Dessa forma a compreensão empática será um desenvolvimento da ideia de empatia, onde o terapeuta se propõe a uma sensibilidade aos sentimentos e vivências do cliente, e busca apreendê-los a partir de sua subjetividade, na tentativa de aproximar-se da experiência do cliente, e assim poder buscar êxito em comunicar essa compreensão. Veja bem, não falamos aqui de ideia racional, difundida em senso-comum, de “eu sei como você se sente”, o que se propõe aqui é um sentir a vivência do outro, como sua, mas sem se desfazer de sua identidade, e buscar mudança a partir daí.

E usando suas próprias palavras, podemos aqui citar o que ele mesmo compreende como este processo de empatia:

significa penetrar no mundo perceptual do outro e sentir-se totalmente a vontade dentro dele. Requer sensibilidade constante para com as mudanças que se verificam nesta pessoa em relação aos significados que ela percebe, ao medo, à raiva, à ternura, à confusão ou ao que quer que ele/ela esteja vivenciando. Significa viver    temporariamente sua    vida, mover-se delicadamente dentro dela sem julgar, perceber os significados que ele/ela quase não percebe, tudo isto sem tentar revelar sentimentos dos quais a pessoa não tem consciência, pois isto poderia ser muito ameaçador. Implica em transmitir a maneira como você sente o mundo dele/dela à medida que examina sem viés e sem medo os aspectos que a pessoa teme. Significa frequentemente avaliar com ele/ela a precisão do que sentimos e nos guiarmos pelas respostas obtidas. Passamos a ser um companheiro confiante dessa pessoa em seu mundo interior.  Mostrando os possíveis significados presentes no fluxo de suas vivências, ajudamos a pessoa a focalizar esta modalidade útil de ponto de referência, a vivenciar os significados de forma mais plena e a progredir nesta vivência.  Estar com o outro desta maneira significa deixar de  lado, neste momento, nossos próprios pontos de vista e valores, para entrar no  mundo  do outro sem preconceitos; num certo sentido, significa pôr de lado nosso próprio eu (Rogers, 1974/1977, p.73).

O que pretendo deixar aqui é a ideia de que empatia não é algo dado, algo pronto, ou algo que se alcança e acabou, muito menos vai haver o terapeuta que magicamente será empático e compreender tudo com um olhar, empatia é este processo que se ganha com respeito e confiança direcionados as pessoas que nos relacionamos, sejam cliente ou qualquer outra relação, isso se constrói ao passo em que nos permitimos sentir o outro sem pretensões ou preconceitos.

Referencial

Rogers,  C.  R.  Pode  a  aprendizagem  abranger  ideias e  sentimentos?  (R.  Rosenberg, Trad.). Em C. R. Rogers & R. Rosenberg. A pessoa como centro(pp. 143-161). São Paulo: EPU. 1977. (Original publicado em 1974).

Rogers, C. R. Tornar-se pessoa. Tradução Manuel J. do Carmo Ferreira e Alvamar Lamparelli. 6ª edição – São Paulo : Editora WMF Martins Fontes. 2009.

Atenciosamente

Patricio Lauro