[VÍDEO] Psicólogo explica: o que é Transtorno de Personalidade Borderline?

Você provavelmente já ouviu falar neste nome. Borderline? O que é isso? O que isso significa? Qual é a diferença de Transtorno de Personalidade Borderline, Limítrofe e Fronteiriço? Qual é a diferença deste transtorno para o Transtorno Afetivo Bipolar?

O texto de hoje tentará explicar tudo isso. E você poderá ter uma explicação detalhada com o vídeo que foi produzido especificamente sobre este tema e encontra-se no final deste artigo, cuja leitura é recomendada para melhor entendimento do vídeo.

Transtorno de Personalidade Borderline

Me chamo Caio Cesar, sou psicólogo e psicoterapeuta. E, recentemente, me deparando com muitas dúvidas e também com informações dúbias sobre este transtorno, acredito que este se tornou um tema apropriado para ser explicado por um profissional da área em um vídeo.

O que é?

O transtorno de personalidade Borderline é um transtorno de personalidade. Com sinais e sintomas descritos tanto no DSM-V (manual estatístico e diagnóstico dos transtornos mentais, editado pela American Psychiatric Association – APA) como no CID 11 (Classificação Internacional de Doenças, editado pela OMS). Ele também pode ser chamado de Transtorno de Personalidade Limítrofe ou Transtorno de Personalidade Fronteiriço. Ambas as versões são uma tradução da palavra “borderline” que, em inglês, numa tradução literal, significaria “linha de fronteira”.

Tal nome já inicia a explicação sobre este transtorno, pois pacientes diagnosticados com ele pareciam, aos médicos que os, tratavam estarem no limite, na fronteira, na borda da realidade com o que se entende por psicose. A “linha de fronteira” entre a neurose e a psicose.

Quais os principais sintomas?

Entre os principais sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline, podemos citas sintomas como:

  • Sensação constante e desproporcional de abandono e/ou negligência;
  • Mudança brusca de humor, ponto de vista, crenças, valores e objetivos de vida;
  • Dependência elevada de cônjuges, familiares e amigos;
  • Instabilidade emocional;
  • Explosões de raiva, crises de choro abruptas;
  • Automutilação; tentativas recorrentes de suicídio, entre outros.

AVISO IMPORTANTE:

O diagnóstico de um transtorno mental, principalmente de um transtorno de personalidade é algo que deve acontecer apenas a partir de uma avaliação multi e interdisciplinar de profissionais qualificados da área da saúde mental, como por exemplo, psicólogos (as) e psiquiatras. Se você se identificou com um ou mais destes sintomas isso não necessariamente significa que você possui este transtorno, pois sintoma não é sinônimo de diagnóstico.

É possível confundir um diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline com o de outros transtornos?

Sim, e frequentemente isso acontece. Infelizmente. Daí vem a importância de um diagnóstico não se basear apenas em sintomas e, ainda que se tenha uma hipótese diagnóstica robusta, é preciso fazer um diagnóstico diferencial. No caso do Transtorno de Personalidade Borderline, alguns transtornos fazem parte da lista que deve ser eliminada antes de um diagnótico fechado.

Na maioria das vezes, o transtorno de personalidade limítrofe é diagnosticado equivocadamente como

  • Transtorno Afetivo Bipolar: também caracterizado por grandes variações no humor, comportamento e sono. Contudo, no transtorno de personalidade borderline, o humor e o comportamento mudam rapidamente em resposta a estressores, especialmente os interpessoais, enquanto no transtorno bipolar o humor é mais sustentado por mais tempo e menos reativo. E as pessoas costumam ter alterações significativas de energia e atividade.
  • Transtorno de personalidade histriônica (saiba mais sobre histeria clicando aqui) ou transtorno de personalidade narcisista: pacientes com algum desses transtornos buscam atenção e são manipuladores, mas os que têm transtorno de personalidade limítrofe também se consideram maus e se sentem vazios. Alguns pacientes atendem aos critérios dos transtornos de personalidade antissocial.
  • Transtornos depressivos (entenda mais sobre estes clicando aqui) e transtornos da ansiedade (conheça mais sobre estes clicando aqui e aqui): esses transtornos podem ser diferenciados do transtorno da personalidade limítrofe, ou borderline, pela autoimagem negativa, instabilidade dos vínculos e sensibilidade à rejeição, que são características proeminentes do transtorno de personalidade limítrofe e geralmente estão ausentes nos pacientes com um transtorno de humor ou ansiedade.
  • Transtornos de dependência química (temos um texto que trata especificamente sobre este assunto, clique aqui para acessá-lo);
  • Transtornos de estresse pós-traumático

Alguns dos transtornos que fazem parte do diagnóstico diferencial do transtorno de personalidade limítrofe também podem coexistir, ou seja: a pessoa poderá ser diagnosticada simultaneamente tanto com o Transtorno de Personalidade Borderline, como com um Transtorno de Ansiedade ou um Transtorno Depressivo, por exemplo.

É por este e outros motivos que o diagnóstico do Transtorno de Personalidade Limítrofe é um dos mais difíceis de se fechar, portanto é preciso sempre escolher bons profissionais e estes devem ter muita cautela ao fechar este diagnóstico.

Tratamento

O tratamento para o Transtorno de Personalidade Borderline envolve psicoterapia e, muitas vezes, medicação, prescrita por um médico psiquiatra que realize um trabalho em conjunto com o psicoterapeuta.

Filmes e Séries (alerta de spoiler)

Para ilustrar um pouco mais sobre o transtorno, separei alguns filmes e séries em que atores e atrizes tentaram dar vida ao contexto de pacientes que sofrem do transtorno. Segue a lista:

Atração Fatal (1987)

Sinopse:  Thriller/Drama ‧ 1h 59m – A vida de Dan Gallagher (Michael Douglas) não poderia estar melhor. Advogado de sucesso, ele vive um casamento feliz e tem uma linda filha. Até que um dia ele conhece a executiva Alex (Glenn Close), com quem tem um caso. A amante começa a exibir um comportamento descontrolado e obsessivo, e logo Dan termina o breve relacionamento. Alex não aceita ser rejeitada e começa a fazer da vida de Dan um verdadeiro inferno.

Garota Interrompida (1999)

 2h 07min / Drama, Biografia
Sinopse: Em 1967, após uma sessão com um psicanalista que nunca havia visto antes, Susanna Kaysen (Winona Ryder) foi diagnosticada como vítima de “Ordem Incerta de Personalidade” – uma aflição com sintomas tão ambíguos que qualquer garota adolescente pode ser enquadrada. Enviada para um hospital psiquiátrico, ela conhece um novo mundo, repleteo de jovens garotas sedutoras e transtornadas. Entre elas está Lisa (Angelina Jolie), uma charmosa sociopata que organiza uma fuga.

Sessão de Terapia (3ª Temporada) – Paciente Bianca (Letícia Sabatella)

Sinopse: Nesta terceira temporada, Theo retorna de um período de descanso e reflexão. No entanto, assim que retoma suas atividades, descobre que seu filho mais velho está atravessando um momento muito difícil. Esse drama familiar fará com que Theo tenha a oportunidade de se aproximar do irmão Nestor e dos seus outros filhos.
Theo continuará atendendo e a cada dia acompanharemos o trajeto de um novo paciente. Bianca Cadore uma mulher casada e que ama demais, Diego Duarte um adolescente alcoólatra, Felipe Alcântara um jovem empresário que não consegue assumir sua preferência sexual e Milena Dantas, viúva de Breno Dantas, que aparenta ter Transtorno obsessivo compulsivo.
Nas sextas Theo tentará uma nova abordagem e entra num grupo de supervisão com outros terapeutas, Rita Sanchez, Guilherme Damasceno e o supervisor Evandro Mendes. A terceira temporada da série conta com roteiros originais, uma vez que a a série original teve apenas duas temporadas

[VÍDEO] EXPLICANDO O TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE

Interaja conosco! Queremos saber sua opinião! Deixe seu feedback, suas dúvidas e sugestões nos comentários. Até o próximo texto!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

Neste texto, o Psicólogo Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos(CRP 06/139621) fala sobre características, sintomas e tratamento do transtorno de personalidade borderline.

Saiba mais sobre nosso sócio-colunista pelo link: https://spsicologos.com/quem-somos/caio-cesar-rodrigues-de-araujo/

Caso busque atendimento psicológico, você pode nos contatar pelo link:: https://spsicologos.com/servicos/atendimento-psicologico/

Para mais informações entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos:

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6 dicas para calouros em Psicologia

Dicas e reflexões sobre o início da graduação

Março marca o início do semestre letivo em muitas faculdades e com isso muitos calouros entram em contato com o mundo universitário pela primeira vez. Dentro desse mar de mudanças e novidades que muitas vezes significam o início de uma nova fase na vida, uma dose de ansiedade, empolgação e diversos outros sentimentos podem estar presentes. Vamos conversar um pouco sobre isso tudo? Separei seis dicas relacionadas a esse tema e convido você a caminhar por elas comigo, topa?

1- Tá empolgado e quer fazer tudo esse semestre? Calma, respira!

Muitos centros acadêmicos possuem várias atividades para além das aulas da graduação e pode ser que toda a empolgação de estar iniciando algo novo desperte a vontade de fazer várias delas.

A graduação levará em torno de 10 semestres ( pode variar se seu curso for período integral). Isso significa que não é necessário que você engula todos os livros, cursos e atividades extras durante o primeiro semestre! Pode ser que você esteja sedento por aprender, mas reflita sobre como isso pode ser feito de maneira que não te prejudique. Às vezes, atividades que são empolgantes inicialmente podem se tornar sobrecargas. Se essa reflexão fizer sentido para você, busque olhar quanto tempo suas aulas ocupam na sua rotina e quais outras atividades é POSSÍVEL inserir.

Vale ressaltar que em 2021 foi publicado um artigo na revista Sustinere nomeado Saúde Mental e vida universitária: desvendando Burnout em estudantes de Psicologia. O artigo apresenta dados de uma pesquisa realizada por Castro-Silva, Maciel e Melo e apresenta a importância do monitoramento da saúde mental dos estudantes durante a formação universitária.

2- Sinta como os conteúdos das disciplinas te afetam pessoalmente

Pode ser que a caminhada na graduação em Psicologia te apresente conteúdos que balancem sua visão de mundo. Mas como assim?

Que a graduação nos faz entrar em contato com conteúdos nunca vistos antes não é uma grande novidade, né? Mas a graduação em Psicologia e em outros cursos da área de Humanas trazem especificamente conteúdos sobre aspectos da sociedade e das relações humanas e o contato com todas essas novas informações pode proporcionar reflexões significativas sobre sua vida e seus relacionamentos.

Tendo essa possibilidade em vista, aproveite a existência de espaços de reflexões junto aos alunos e professores. Debates, trabalhos em grupo e grupos reflexivos podem ser experiências que auxiliem no processo de acomodação dos novos conteúdos estudados.

3- Reflita a respeito de realizar um processo de Psicoterapia

Um outra possibilidade de espaço para acomodar e pensar sobre todas as reflexões levantadas durante a graduação pode ser a realização de um processo de Psicoterapia ou de Análise. Para aqueles que ainda não tiveram contato direto com sessões de Terapia, de um modo geral elas constituem um espaço de abertura e reflexão com o objetivo de acolher demandas. Nas palavras de Pompeia e Sapienza (2004), a “terapia é pró-cura, isto é, terapia é para cuidar”. Os autores também caracterizam a terapia como um processo que pode proporcionar um reencontro da expressão do nosso modo de sentir.

Além disso, a experiência pode ser interessante também para vivenciar como é ser acompanhado por um(a) Psicólogo(a).

4- Tudo bem ter incertezas

No decorrer da graduação, descobrimos que a ciência Psicologia se desenvolveu em diferentes áreas de atuação como a clínica, escolar, hospitalar, organizacional e jurídica, entre outras. Isso sem falar que dentro de cada área de atuação existem diversas abordagens e temáticas diferentes. Pode ser que você sinta afinidade para algumas dessas áreas desde agora, mas e se esse não for o caso?

Vale a pena retomar a importância de ter calma e paciência consigo mesmo e o questionamento: será que é necessário ter essa clareza desde agora? Ou será que está tudo bem não ter essa resposta ainda ?

As próprias matérias e estágios do curso apresentarão a possibilidade de entrar em contato com as diferentes áreas dentro da Psicologia. Outra sugestão é explorar os cadernos temáticos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, você já ouviu falar neles?

5- Aproveite seus professores

Lembro-me do constante sentimento de admiração pelos meus professores da graduação. O conhecimento deles e a maneira como eles conduziam a turma por um processo de aprendizagem que envolvia desconstruções e reconstruções constantes era encantador para mim. Essa última dica tem um toque bem pessoal, mas não perde sua relevância: Aproveite o contato com seus professores! Eles trilharam anos de prática e pesquisa até o momento presente e estão ai, aula após aula, compartilhando a bagagem deles com vocês. Pergunte e participe de maneira ativa e presente, claro, se isso fizer sentido para você.

Após a graduação, conversar com alguém sobre dúvidas e reflexões sobre a prática caracteriza uma supervisão. As supervisões são riquíssimas e importantes, contudo existe investimento financeiro para realizá-las. Para refletirmos, a última tabela de valores do Conselho Federal de Psicologia-CFP, trouxe o valor médio de R$334,00 para Supervisão de atividades Psicológicas.

Toda a graduação envolve investimento financeiro também, tanto nas mensalidades como nos custos com materiais, transporte, moradia, etc…Mas especificamente nesse momento, os professores tendem a estar disponíveis para vocês sem que isso signifique algum tipo de investimento adicional.

6- Sinta a experiência da graduação e cuidado com comparações

Finalizo esta postagem com uma última reflexão: sintam a experiência da graduação em Psicologia e aproveitem a construção da história de vocês entrelaçada a esta ciência. Cada um tecerá uma caminhada única em relação a graduação, alguns com certas afinidades e outros com outras.

Tome cuidado com comparações. Caso você as perceba reflita sobre o quão construtivas ou destrutivas elas são para você.

E ai, o que achou das dicas? Fique à vontade para deixar seu comentário!

Obrigada pela companhia

Bárbara de Souza Miranda

Psicóloga – CRP 06/150368

Referências

POMPEIA, J.A.; SAPIENZA, B.T. Uma caracterização da Psicoterapia. In: POMPEIA, J.A.; SAPIENZA, B.T. Na presença de sentido: Uma aproximação teórica a questões existenciais básicas. São Paulo: EDUC; Paulus, 2004, 153-170.

CASTRO-SILVA, I.I.; MACIEL, J.A.C.; MELO, M.M. Saúde mental e vida universitária: desvendando burnout em estudantes de Psicologia. in: Revista Sustinere, Rio de Janeiro, v.9, n.1, p.5-22, jan-jun, 2021.

Imagens retiradas do site https://pixabay.com/pt/ – acesso em 07/03/2022 às 22:40.

Dor crônica e sofrimento emocional

A dor crônica pode chegar à nossa vida de muitas formas, acidentes, sequelas de alguma doença, ou até mesmo por origem emocional. A dor crônica é a que persiste por mais de três meses, ou um mês após a resolução da lesão, geralmente indica disfunção do sistema nervoso ou das fibras nervosas do membro afetado e, na maioria dos casos, ocorre com uma doença crônica, como artrite fibromialgia, osteoartrite de coluna ou joelho, reumatoide, entre outros.

Pode se destacar como as principais dores crônicas, as dores nociceptivas ou somáticas, que se referem a uma lesão ou inflamação nos tecidos da pele, o que é compreendido pelo sistema nervoso como uma ameaça e gera dor enquanto durar a lesão; a dor neuropática, ocorre devido à disfunção do sistema nervoso, seja no cérebro, medula espinhal ou nervos periféricos, é comum que venha na forma de queimação, picada ou formigamento; dor mista ou inespecífica, é a dor causada por componentes da dor nociceptiva e neuropática ou de causas desconhecidas.

Em qualquer um desses casos, o que temos de fato é como ser acompanhado por algum tipo de dor persistente ou recorrente acarreta não só em mal estar físico, mas muitas vezes em prejuízos psíquicos.
Um dos principais pontos é como a dor pode ser um limitador no dia a dia do acometido, tudo que for cerceado, principalmente aquilo que era querido e afetuoso, trabalho, esporte, lazer e outros, passa não apenas por um processo de luto, mas pode ser uma dolorosa marca em sua vida.

Podemos citar por exemplo aqueles que tem alguns movimentos limitados ou impedidos, afetando seu esquema corporal, sua concepção de funcionamento, de limites e de como fazer cada coisa, desde situações simples como dar um passo, até ao trabalho e movimentos finos e específicos, levando a frustração de não alcançar os resultados já esperados.

A dor crônica também pode afetar profundamente a autoimagem do acometido, visto que a sua posição dentro de seus grupos sociais, como a família por exemplo, tende a mudar quando estes o consideram inapto de desenvolver o que já era de seu costume e responsabilidade, levando a sentimentos de fracasso ou incapacidade.

Neubern vai propor a necessidade de ressignificação destas vivências e novas adequações, pontos que podem ser alcançados pela hipnose clínica ou psicoterapia em diversas abordagens por exemplo.

Em outras palavras, a hipnose, em tal dimensão, não se restringe a um procedimento catártico, uma vez que abrange a criação de um contexto seguro que ofereça continência, organização e possibilidades de produção de sentidos diante dos novos arranjos experienciais entre figura e fundo. (Neubern, 2014)

Essa pessoa passa a ter sua liberdade limitada e por consequência não pode expressar-se como gostaria enquanto indivíduo, podendo levar a uma vida inautêntica e angustiada. Dentro de nossas diversas complexidades vivenciais, nossos corpos representam a ferramenta de que dispomos para expressar tudo que existe de maneira virtual, ou seja, tudo aquilo que hoje existe no nosso psiquismo, pensamentos e sentimentos, nossas considerações e maneiras de ver o mundo, a partir do momento que não se pode mais realizar aquilo que consideramos correto, aquilo que idealizamos para a vida, ou ainda aqueles pequenos atos que parecem corriqueiros, passamos a limitar também quem somos, uma vez que muito disso passa a ficar apenas em nós, impossibilitado de vazão e expressão física e prática no mundo e nas relações.
Tratar situações como essas tem muitos caminhos, psicoterapia, hipnose, além claro do uso da medicação para a situação física em si. Todas essas vão buscar maneiras de levar o indivíduo a encontrar novas maneiras de se expressar, de ressignificar a dor, de dar novos sentidos a sua existência, a compreender melhor como suas emoções se relacionam com o que sentem, a gerir melhor crises e perceber que a dor ou condição física não é o centro de suas vidas, que mesmo com determinadas limitações ainda são seres capaz de a partir de determinada resiliência viver de maneira satisfatória e feliz.

Atenciosamente

Patrício Lauro

Referências

NEUBERN, Maurícioda Silva. Fenomenologia, Hipnose e Dor Crônica: Passos para Uma Compreensão Clínica.2014.

NEUBERN, Maurício da Silva. Hipnose e sentidos físicos em psicoterapia: sobre a reconstrução da experiência do sujeito. 2012.

A Experiência Psicodélica: estados alterados de consciência

E refletidas no cubículo calado
Pulsam, dilatam-se cadeiras que se movem
Brilham os ratos e bordados nos sapatos
Brilham insetos alimentando sapos

(A Noite Preta – Zé Ramalho / Alceu Valença / Lula Côrtes)

Não me parece fácil descrever e explicar a psicodelia em poucas palavras. Talvez me pareça mais fácil apontar algumas manifestações artísticas que dialogam e/ou buscam retratar a experiência psicodélica, como a música, o cinema, as pinturas e ilustrações e também a literatura que em prosa e em verso tenta nos contar sobre esse mundo diferente e convidativo que algumas pessoas acessam e são marcadas. Ainda assim, vou tentar passar algum histórico e compreensões, para além dos exemplos lisérgicos. Sendo assim, pingue o seu colírio alucinógeno e bora pro texto ; )

Yellow Submarine, filme de 1968.

Possibilidades Psicodélicas

Ainda que muitas pessoas associem a experiência psicodélica diretamente com o uso de substâncias psicoativas, a psicodelia consiste em uma forma particular de experienciar e de se relacionar (perceber e interagir) com o mundo que não depende apenas do uso das drogas psicodélicas. Ela envolve buscas pela expansão da consciência e costuma se relacionar diretamente com alguns estados alterados de consciência, que são obtidos por meio de meditações, da kundalini yoga e também pelo uso de substâncias psicoativas como o LSD, a maconha, o DMT, a ayahuasca e os chamados cogumelos mágicos.

A alteração da consciência relatada durante a experiência com essas substâncias é comumente relacionada à dilatação da percepção temporal, ilusões e/ou alucinações sensoriais, prazeres corporais, ampliação da consciência, elevação e/ou contato espiritual, dissolução do ego e sentimento de pertencimento. Sendo que os usuários que tiveram uma experiência psicodélica tendem a considerá-la entre as mais importantes de suas vidas, uma vez também que conseguem se lembrar do que viram, sentiram e perceberam, diferentemente do mundo alterado dos sonhos, da qual, muitas vezes, nos lembramos de apenas fragmentos.

Estados Alterados de Consciência

Para compreendermos melhor essa experiência, é importante retomar a ideia de estados alterados de consciência. A literatura vai nos dizer que existe um modo normal ou padrão da consciência humana funcionar e que essa envolve sensações e percepções autopsíquicas (percepção de mim), alopsíquicas (percepção do ambiente externo) e temporais mais ou menos conhecidas e previsíveis. Esse funcionamento ordinário está associado à vigília e à saúde mental, enquanto que as alterações são associadas ao sono e fadiga, ao sonho e seu mundo onírico, aos sintomas positivos (delírios e alucinações) como os encontrados em algumas patologias mentais, ao uso de medicação (psiquiátrica ou não), à prática de meditação, ao jejum físico e também pelo uso das sustâncias psicoativas, que podem ser agrupadas em 3 grandes categorias: estimulantes, depressoras e psicodélicas (ou alucinógenas).

“A pesquisa de mestrado de Fernanda, publicada em 2015, investigou com ressonância magnética as conexões entre áreas do cérebro de dez usuários experimentados em ayahuasca. E confirmou, no caso do chá, um efeito conhecido de outros compostos psicodélicos, como LSD, psilocibina, e também da meditação: um redução na atividade da rede de modo padrão, ou DMN (do inglês default mode network).”

(Leite, 2021, p. 22)

LSD, Experimentos e Controle da Mente

Dr. Timothy Leary sendo preso em 1970

O homem vem utilizando sustâncias psicodélicas desde quando há civilização e é possível relatar, por meio, principalmente, dos cactos e dos cogumelos, mas foi apenas em 1938, por Albert Hoffman, que foi sintetizada a dietilamida de ácido lisérgico, conhecida como LSD (descoberta em 1943) e diretamente associada ao movimento hippie e à busca pela expansão da consciência desenfreada pela contracultura estadunidense nos anos 60.

Vale dizer que, mais cedo, nos anos 50, a CIA desenvolveu um projeto denominado MK Ultra, que fez experimentos com mescalina e LSD em seres humanos, visando investigar seus efeitos e suas possibilidades enquanto metodologia para confissões e também para a manipulação das crenças pessoais. Um recorte desse projeto foi incorporado à narrativa do seriado Stranger Things (2016 – ).

Com o avanço da contracultura estadunidense, o fenômeno de massa precisou eleger um ou alguns líderes e um deles foi o doutor em psicologia por Harvard, Timothy Leary, que relatou ter aprendido mais sobre a mente humana durante as 5 ou 8 horas que esteve sob efeito de cogumelos mágicos em viagem no México, do que em toda a sua trajetória acadêmica por Harvard. Foi expulso da universidade após realizar experimentos com substâncias psicodélicas em estudantes, incentivou a utilização de LSD, defendeu a psicoterapia psicodélica e virou uma espécie de guru do movimento hippie. Um pouco mais sobre ele já foi escrito nesse blog e você pode conferir clicando aqui.

Os Hippies e o Ápice da Cultura Psicodélica

Até os Beatles foram afetados pela onda psicodélica

Os anos 60 foram o palco dos primeiros passos e do acelerar de uma marcha hippie e psicodélica, antes que ela fosse, novamente, freada ou dissipada. Em termos visuais estereotipados, no ano de 1964 o mundo ainda era preto e branco e os Beatles se apresentavam de terninho. Em 1965 começam as primeiras cores, as distorções e as novas possibilidades. É importante pensar que a grande cultura internacional psicodélica vai de aproximadamente 1965 até 1969, terminando com o grande festival de Woodstock e mostrando para o mundo que aquela proposta era possível, plausível e havia sido testada por uma multidão que se divertiu, que se amou e que também se acolheu quando aconteceram as adversidades do festival. É entre esses anos que os músicos começaram a utilizar instrumentos não convencionais e técnicas de mixagem inéditas e experimentais, em uma tentativa de externalizar uma música que retratasse aquilo que eles e aquela geração estava experimentando e descobrindo e tentando comunicar. Além das letras hora mais introspectivas, hora descrevendo sensações, visões e experiências provocadas pela viagem lisérgica.

Enquanto os jovens estadunidenses eram convocados para ser bucha de canhão no Vietnã, alguns voltavam e outros se rebelavam. Essa foi a força motriz da resistência da contracultura e resultou na proposta das flores vencendo o canhão. E enquanto a psicodelia fervia na cena de 67, no chamado Summer of Love, e com atenções voltadas para Janis Joplin, Jimi Hendrix, Country Joe & The Fish, Jefferson Airplane, The Doors, Cream, The Byrds e os próprios The Beatles, a onda psicodélica chegou ao Brasil atingindo Os Mutantes e, também se fundindo com o nosso maravilhoso tropicalismo e regionalismo, representado por artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Alceu Valença, Zé Ramalho, Secos e Molhados, Novos Baianos, e O Terço, para citar alguns. E enquanto eles tiveram o Monterey Pop Festival, de 1967, e o Woodstock, de 1969, o Brasil teve os brilhantes festivais de Música Popular Brasileira, que chegou a juntar Gilberto Gil e Os Mutantes no palco para apresentarem a melhor canção que não venceu aquele festival “Domingo no Parque”. E, mais adiante, a hippilandia brasileira, finalmente, se juntou para assistir o 1º Festival de Águas Claras, conhecido como o nosso Woodstock, que aconteceu já no governo militar de Ernesto Geisel. Sobre esse episódio, vale recomendar o documentário “O Barato de Iacanga” (2019), disponível no Netflix.

Renascimento Psicodélico

Tá, mas e a psicologia? Ahh, agora é que a coisa fica mais interessante. Pois estamos vivendo algo que os cientistas estão chamando de renascimento psicodélico e envolve a exploração e testagem, por meio de protocolos científicos de pesquisa, da aplicação de sustâncias psicodélicas em seres humanos. Após anos de tabu e proibição de pesquisas, várias universidades do mundo estão podendo trabalhar com compostos como o LSD, a psilocibina, o DMT e ayahuasca. Resultados favoráveis e perspectivas otimistas estão sendo observadas naquilo que diz respeito à saúde mental, psicoterapia e tratamento de psicopatologias (como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e também adicções).

“A intensidade da depressão dos participantes no estudo da UFRN foi avaliada por meio de dois questionários e escalas padronizadas (HAM-D e MADRS) com intervalos de um, dois e sete dias depois da sessão de dosagem. Dos catorze pacientes que tomaram ayahuasca, nove apresentaram escores mais baixos de depressão já nos primeiros dias e, para surpresa dos pesquisadores, alguns chegaram a ter resultados ainda melhores sete dias depois. No grupo de controle, que ingeriu placebo, quatro manifestaram melhora.”

(Leite, 2021, p. 18).
Recomendação de livro sobre as possibilidades terapêuticas

No geral, essa utilização envolve o acompanhamento de um médico e de um psicoterapeuta, que irá realizar sessões preliminares de psicoeducação e instrução sobre a substância. Então a substância é aplicada em ambiente terapêutico seguro. E após o uso e experiência, sessões subsequentes são realizadas para descrever, contatar e relatar a experiência. Logo, não se trata de uma sessão apenas ou daquilo que as pessoas podem entender como uso recreativo (ainda que esse possa trazer ótimos insights, questões e modificação de padrões). Mas segue o protocolo de um tratamento e envolve um acompanhamento continuado. Uma bela compilação de dados internacionais e nacionais foi apresentada por Marcelo Leite no livro “Psiconautas: viagens com a ciência psicodélica brasileira”, de 2021.

Por fim, ouçam minha música psicodélica e apertem os cintos pois a viagem está só começando.

“Querido Allen,
Ontem à noite tomei o resto da mistura do yage. Eis o que aconteceu: (…) O quarto parece sacudir e vibrar. O passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som.”

(William Burroughs)

Referências

Burroughs, W. & Ginsberg, A. (2008). Cartas do Yage. Porto Alegre: L&PM.

Filho, A. P. C.. (2019). O cenário underground da psicodelia brasileira na década de 1970: aspectos da estética e poética. (Dissertação de mestrado). Goiânia: UFG.

Leite, M. (2021). Psiconautas: viagens com a ciência psicodélica brasileira. São Paulo: Fósforo.

Por Caio Ferreira

Dia Mundial do Enfermo – “O doente é mais importante do que a sua doença”, reflexões do Papa Francisco e a Psicologia

Recentemente, o Papa Francisco fez menção ao Dia Mundial do Enfermo, celebrado no dia 11 de Fevereiro, desde 1992.

Em seu discurso, o Papa Francisco expressou que “o doente é mais importante do que sua doença”. Também destacou a importância em cultivar a escuta, explorar a história, os anseios e os medos de quem vivencia um processo de adoecimento.

Discurso este, que se assemelha aos princípios cultivados pela Psicologia, em suas diferentes abordagens e áreas de atuação. Considerando, claro, a importância de explorar o indivíduo em sua totalidade.

O que é enfermidade? E quais são seus impactos?

Por enfermidade, de modo breve e geral, entendemos que se trata de um desequilíbrio na condição biopsicossocial e espiritual.

Em um processo de adoecimento, o enfermo não só vivencia seus desequilíbrios pertinentes a doença. Mas também passa a lidar com outras consequências, tais como:

  • novas necessidades;
  • mudanças na rotina;
  • mudanças em seus relacionamentos;
  • impactos na autoestima;
  • instabilidade psicológica, se aproximando de manifestações de medo, angústias, desesperanças, frustrações e outras tantas.

A enfermidade provoca uma série de mudanças. E seguindo pela via das possíveis consequências psicológicas, é importante considerar que o indivíduo pode se deparar e até se agravar diante de sentimentos de tristeza, desamparo e solidão, por mais que esteja em tratamento e cercado de apoio.

O que as mudanças nos relacionamentos podem causar no enfermo?

A estranha sensação de vivenciar o desconhecido, se agrava perante a forma diferente que as pessoas ao redor passam a tratar o indivíduo.

Por vezes, essa forma diferente se manifesta por excessos, sejam eles voltados a certos comportamentos que expressam indiferença afetiva e distanciamento das pessoas com o indivíduo. Ou até mesmo, seu outro extremo, o excesso de cuidar, de se fazer presente, de se preocupar e até de poupar o ser que adoece, das situações mais simples de seu dia a dia.

Estes exemplos de modos diferentes de tratar a pessoa que passa por uma enfermidade, podem causar ainda mais os sentimentos de medo, desamparo e solidão. Afinal, a pessoa passa a ser vista de forma diferente. Em suas relações, ela tende a ser vista através de sua doença, e não mais pela sua totalidade de ser.

Neste sentido, a Psicologia faz das palavras do Papa mencionadas aqui, as suas. O princípio de relações humanizadas se estende ao gesto de cuidar, principalmente quando se trata de situações de adoecimento.

Como lidar com o indivíduo que vivencia o adoecer?

Como via de regra, é importante olhar o ser que adoece enquanto ser que está em processo de mudança, e não unicamente como uma doença.

É eficaz preservar o olhar de que o indivíduo permanece o mesmo enquanto ser humano, como alguém que vivencia as próprias opiniões, gostos, preferências, sentimentos, conhecimentos, capacidades, limites, responsabilidades e tudo o que contempla alguém com seus direitos e sua próprio história.

Por isso a menção e o lembrete: “o doente é sempre mais importante que a doença”. Ele é muito mais, algo além de sua doença.

Como ajudar de forma positiva?

  • procure tratar o ser enfermo como um todo;
  • mantenha o gesto de respeito, empatia e atenção ao que ele tem a oferecer e a dizer;
  • cultive o gesto de escutá-lo e até mesmo de perguntar o quê for necessário;
  • preserve a autonomia e o seu senso de responsabilidade dele;
  • explore sua história, suas descobertas, dificuldades, sentimentos e aprendizados vivenciados no momento atual;
  • dentro do possível e se possível, também peça ajuda ao enfermo. O senso de capacidade e pertencimento nutrem a autoestima.

Por último, mas não menos importante, cuide de você. Perceba como a situação te afeta. Se preciso e possível, busque ajuda também.

O cuidado consigo causa um efeito dominó: ajuda a si mesmo, a situação e o enfermo. E se tratando de cuidado, nas relações e em qualquer situação, ele pode “faiar”. Mas o importante é tentar!

Por Tayna Wasconcellos Damaceno.

Referências

AYRES DE AlMEIDA, Raquel e MALAGRIS, Lucia. A Prática da Psicologia da Saúde. Revista SBPH,  Rio de Janeiro ,  v. 14, n. 2, p. 183-202, Dezembro de 2011.

Disponível aqui. Acesso em 11/02/2022.

JAGURABA, Mariangela. Dia Mundial do Enfermo, o Papa: garantir atendimento médico a todos os doentes. Vatican News, 2022.

Disponível aqui. Acesso em 11/02/2022

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA DOS PSICÓLOGOS. Conselho Regional de Psicologia SP.

Disponível aqui. Acesso em 11/02/2022.