Saiba onde buscar atendimento psicossocial na rede pública

O que é o CAPS, CRAS e outros?

Ao falar sobre o tema do #JaneiroBranco, pensei em trazer um texto de caráter informativo, comentando sobre a rede assistencial à saúde mental que a população, de modo geral, muitas vezes desconhece que tem acesso.

Lugares de acolhimento, de tratamento e escuta possíveis para as demandas da população.

Quero comentar também brevemente o histórico da Luta Antimanicomial e a transição para o modelo atual, apontando sobre alguns dos dispositivos de saúde pública onde a psicologia está inserida.

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Luta Antimanicomial

É inviável começar essa conversa sem falar sobre o movimento conhecido como Luta Antimanicomial. Um movimento que se inicia à partir da Reforma Psiquiátrica no final dos anos 70, bem durante a redemocratização do país, uma série de grupos organizados da Sociedade Civil iniciam um questionamento acerca do modelo clássico de assistência.

Com a visita do médico italiano Franco Basaglia, as mudanças se iniciam no sentido de maior atenção ao bem-estar do paciente.

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A Luta Antimanicomial se dá fortalece com a mudança dos hospitais psiquiátricos para os CAPS, por exemplo. Um atendimento humanizado, sem viés religioso e com um zelo pelo PIA (Plano Individual de Atendimento).

Saímos de um modelo arcaico, muito mais generalista e opressor, para um modelo mais humano e com foco nas demandas individuais de cada paciente. Antes os manicômios funcionavam como depositários do que não queríamos ver e lidar, tudo aquilo que nos causava aversão, espanto e confusão.

Um espaço relevante neste cenário, presente ainda hoje Brasil é o  Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. Mais conhecidos como Manicômios Judiciários, são espaços para onde são destinados portadores de transtornos psiquiátricos que cometeram algum tipo de delito. Funcionando como um hospital-presídio à partir de uma lógica ao mínimo questionável, na prática se estabelece um lugar de confinamento onde a duração dos tratamentos é constantemente prolongada por relatórios psiquiátricos periódicos. Um lugar onde o Estado deposita aqueles com quem não sabe lidar.

À título de referência, umas das obras narrativas mais importantes para quem se interessa pelo tema é o clássico “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex, onde a jornalista narra a história do “Colônia”, o maior hospício já criado no Brasil, que era sediado na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido no local.

Hoje, uma rede de dispositivos ligados ao Sistema Único de Saúde responde pelo atendimento a pessoas portadoras de transtornos mentais, e presta suporte às suas famílias.

Saúde Pública e Psicologia

A Psicologia está presente em diversos espaços terapêuticos e assistenciais hoje através do SUS (Sistema Único de Saúde). Existe atendimento psicológico gratuito, por exemplo em Unidades Básicas de Saúde (UBS), mais conhecidos como “Postos de Saúde”, mas que normalmente encontra limitações na extensão e aceitação por parte dos pacientes, além dos já conhecidos problemas de infraestrutura.

CAPS

O CAPS, sigla para “Centro de Atenção Psicossocial”, é talvez o mais conhecido deles. Ele foi o principal substituto aos hospitais psiquiátricos, ou manicômios. Ele oferece atendimento local/regionalizado, para uma população definida. Existem atualmente os modelos abaixo:

“CAPS I – Destinado a um território com população entre 20 000 e 70 000 habitantes (critério para implantação) e é referência para um território com população de até 50 000 habitantes.

Não há limite de idade para a utilização. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita domiciliar e atendimento à família.

CAPS II – Destinado a um território com população entre 70 000 e 200 000 habitantes (critério para implantação) e é referência para um território com população de até 100 000 habitantes.

Não há limite de idade para a utilização. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita domiciliar e atendimento à família.

CAPS III – Destinado a um território com população acima de 200 000 habitantes (critério para implantação) e é referência para um território com população de até 150 000 habitantes.

Não há limite de idade para a utilização. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.

O CAPS III constitui-se no principal dispositivo CAPS e presta um serviço de atenção contínua, durante 24 horas, diariamente, incluindo feriados e finais de semana, com capacidade de acolhimento, observação e repouso noturno. No caso da necessidade do usuário utilizar o leito noturno, a utilização não pode exceder sete dias consecutivos ou dez dias não consecutivos.

Desempenha o papel de principal regulador da porta de entrada da rede assistencial em saúde no âmbito do seu território e/ou do módulo assistencial e é também o principal dispositivo substitutivo da internação em hospital psiquiátrico. É a mais complexa modalidade de CAPS para a prestação do atendimento em transtorno mental.

CAPSi II – Destina-se ao atendimento de crianças e adolescentes e é concebido para atender preferencialmente portadores de transtornos mentais graves. Pode também atender, eventualmente, usuários de álcool e outras drogas. Destinado a um território com população acima de 200 000 habitantes, é referência para um território com população de até cerca de 200 000 habitantes ou outro parâmetro populacional definido pelo gestor local. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.

CAPS ad II – Destina-se ao atendimento de usuários com transtornos mentais decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas (incluindo o álcool). Recebe esses usuários para tratamento e recuperação, com ênfase na redução de danos, com o estímulo a novos hábitos, visando à diminuição de internações hospitalares para desintoxicação e outros tratamentos. Destinado a um território com população acima de 70 000 habitantes. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.

CAPS ad III – É destinado a proporcionar atenção integral e contínua a usuários com transtornos mentais decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas (incluindo o álcool), com funcionamento durante as 24 horas do dia, inclusive nos feriados e finais de semana. Foi idealizado para atender a uma população de 200 000 a 300 000 habitantes por unidade. Nas capitais dos Estados, todos os CAPS ad II passam a ser CAPS ad III.

Em cada região de abrangência, o município sede deverá, através de um plano de ação regional, indicar um hospital geral de referência para o CAPS ad III – Regional, que funcione como apoio qualificado a usuários que apresentem quadros de abstinência, intoxicação aguda ou agravos clínicos relacionados ao consumo de álcool e outras drogas. O atendimento ao paciente inclui, além de medicamentoso e de psicoterapia, visita/atendimento domiciliar e atendimento à família.”

CRAS

O Centro de Referência de Assistência Social e é uma unidade de tratamento vinculado ao Sistema Único da Assistência Social. Ele se constitui como uma rede de locais que se prestam à fornecer serviços de proteção básica, e são, frequentemente portas de entrada para demais serviços e benefícios de assistência social.

O Cras é destinado à população que vive em situação de fragilidade decorrente da pobreza, acesso precário ou nulo aos serviços públicos, bem como fragilização de vínculos afetivos (discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiências, dentre outras).

Hospital Dia

Outro espaço importante no acolhimento da população é o Hospital Dia, modelo que recebe o paciente em internação por no máximo 12 horas e funciona como um intermediário entre um ambulatório e um espaço de internação prolongada.

O atendimento psiquiátrico acontece no Hospital Dia e tem se mostrado eficaz na medida em que o paciente não precisa se afastar de sua família, o que é fundamental em casos de ressocialização, por exemplo.

 

Com a Saúde Mental se tornando um tema cada vez mais presente no debate público, julgo importante apontar para o modelo de assistência à saúde mental que temos atualmente no país, fortalecendo o acesso da população à tratamentos fundamentais.

Até a Próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Arbex, D. (2013) Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração Editorial.

Biblioteca Virtual em Saúde. (2018). Recuperado em 30 de janeiro de 2020, de http://bvsms.saude.gov.br/ultimas-noticias/2721-18-5-dia-nacional-da-luta-antimanicomial-2

Cidade de São Paulo: Assistência e Desenvolvimento Social. (2020). Recuperado em 30 de janeiro de 2020, de https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/assistencia_social/protecao_social_basica/index.php?p=1906

Ministério da Saúde. (2012. 26 de janeiro). Portaria Nº 130. Recuperado em 30 de janeiro de 2020, de http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt0130_26_01_2012.html

Winnicott: Holding, Handling e Apresentação dos Objetos

Expoente da chamada escola inglesa de psicanálise, D. W. Winnicott (1986 – 1971) foi um médico pediatra e psicanalista pós-freudiano que conseguiu criar uma dimensão original na psicanálise. Em sua trajetória, entre outros tópicos, destacam-se:

  • o papel e valor do ambiente/cuidador para com o desenvolvimento do indivíduo;
  • as funções de holding, handling e apresentação de objetos;
  • a descoberta do objeto transicional e da zona potencial;
  • os conceitos de verdadeiro e falso self;
  • a teoria da tendência antissocial e delinquência.

Escola britânica de psicanálise e Donald Winnicott

Winnicott foi supervisando de Melanie Klein (1882-1960) – psicanalista austríaca responsável por pioneiras teorias e descobertas acerca do aparelho psíquico do bebê e da criança – sendo que a teoria kleiniana serviu tanto para Winnicott confirmar algumas de suas investigações, como para o guiar e inspirar sua em própria teoria e abordagem, distinta da clínica de Klein.

O olhar de Winnicott mirou o ambiente e os cuidados maternos que cercam o início da vida de alguém. Diferente de Klein, ele nos diz que não é possível compreender a vida psíquica primitiva do bebê olhando apenas para esse e suas fantasias, mas deve-se analisar também o ambiente no qual ele está inserido e como são os cuidados que ele recebe.

Dessa forma, a teoria winnicottiana nos diz que não existe um bebê separado do seu cuidador (There is no such thing as a baby / a baby alone doesn’t exist) Winnicott,

“Se a dependência realmente significa dependência, então a história de um bebê individualmente não pode ser escrita apenas em termos do bebê. Tem de ser escrita também em termos da provisão ambiental que atende a dependência ou que nisso fracassa”.

(Winnicott, 1975, p. 116)

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(Melanie Klein e Donald W. Winnicott, em jantar para M. Klein, em Londres de 1952).

Dependência e ambiente em Winnicott

Winnicott observou que ao nascer, diferente de alguns outros bichos, o ser humano é completamente dependente de seu cuidador, sendo que, caso esse não provenha alimento e segurança para o bebê, o mesmo certamente morrerá, uma vez que é incapaz de buscar, inicialmente e por conta própria, o conforto no ambiente – ele chamou isso de dependência absoluta.

Na teoria winnicottiana aparecem 3 fases de dependência: absoluta; relativa e rumo à independência. Na dependência absoluta não há separação entre corpo e meio; ainda não existe Eu configurado; o indivíduo é completamente dependente do ambiente. Na dependência relativa começamos a encontrar o self separado do outro; é o início da distinção do ser; há Eu e há outro; envolve a utilização de objeto transicional; o indivíduo começa a buscar o ambiente, mas ainda necessita de cuidados de alguém. No rumo à independência temos o estabelecimento de relacionamentos do indivíduo para com objetos externos baseados no princípio da realidade. Para o autor, o ser humano é um ser potencialmente criativo, que carrega uma tendência inata para a integração e o desenvolvimento, mas cabe ao ambiente oferecer o suporte para que essas potencialidades se realizem. Dessa forma, Winnicott fala de um ambiente facilitador ou suficientemente bom, representado pela mãe suficientemente boa (good enough parent): alguém que consegue, de forma empática, sensível e dinâmica se adaptar aos diversos estágios de desenvolvimento do bebê e responder adequadamente tanto às suas necessidades quanto às suas tolerâncias em suportar a frustração. De acordo com o autor, é função da mãe suficientemente boa: o holding; o handling; e a apresentação dos objetos.

Sustentação (Holding)

Geralmente traduzido como sustentar ou segurar e, por outras vezes, mantido no original “holding”, o termo faz referência ao suporte físico e psíquico oferecido ao bebê pelo seu cuidador. Envolve um padrão empático e uma rotina nos cuidados do bebê e se expressa como um conjunto de comportamentos afetivos relacionados ao alimentar, limpar, proteger, uma vez que o bebê precisa estar fisicamente seguro e psicologicamente acolhido. O holding permite uma certa estabilidade e previsibilidade do ambiente, o que é fundamental para o desenrolar das tendências hereditárias do indivíduo. De acordo com Winnicott, esse processo se dialoga diretamente com a continuidade do ser, com a noção de ilusão e com a integração das partes do self.

“Tudo isso é muito sutil, mas ao longo de muitas repetições, ajuda a assentar os fundamentos da capacidade que o bebê tem de sentir-se real. Com esta capacidade o bebê pode enfrentar o mundo ou (eu diria) pode continuar a desenvolver os processos de maturação que ele ou ela herdaram.”

(Winnicott, 2012, p. 5)

“quando o ato de segurar o bebê é perfeito (e de um modo geral assim é, já que as mães sabem exatamente como fazê-lo),o bebê pode adquirir confiança até mesmo no relacionamento ao vivo, e pode não integrar-se enquanto está sendo seguro. Esta é a experiência mais enriquecedora. Freqüentemente, no entanto, o ato de segurar o bebê é irregular, e pode até mesmo ser desperdiçado pela ansiedade (o controle exagerado da mãe para não deixar o bebê cair) ou pela angústia (a mãe que treme, a pele quente, um coração batendo com muita força, etc.), casos em que o bebê não pode dar-se ao luxo de relaxar. O relaxamento acontece então, nestes casos, apenas por pura exaustão. Aqui, o berço ou a cama oferecem uma alternativa muito bem-vinda.”

(Winnicott, 1990a, p. 61)

Manejo (Handling)

Vibrant Health Mother hugging child – Katie M. Berggren

Traduzido como manejo ou deixado no original “handling”, esse termo deriva de hand (mão) e diz respeito ao contato pele com pele entre bebê e cuidador. Faz referência aos cuidados físicos e envolve o manuseio corporal do bebê durante os suportes básicos como: banho, troca e amamentação, por exemplo. Segundo o autor, o handling auxilia a formar as bordas do corpo, a harmonizar a vida psíquica (realidade interna) com o corpo (esquema corporal), a diferenciar o Eu do outro, e a reconhecer sua própria psique dentro do seu próprio corpo (personalização). Dessa forma, o par segurar-manejar é fundamental para o estabelecimento das bases mínimas que possibilitarão a instauração de um ser saudável e criativo.

“Um bebê pode ser alimentado sem amor, mas um manejo desamoroso, ou impessoal, fracassa em fazer do indivíduo uma criança humana nova e autônoma”.

(Winnicott, 1975, p. 172)

Apresentação de Objetos (Object-presenting)

Por fim, mas não menos importante, a 3ª função que compete à mãe suficientemente boa é a apresentação dos objetos (ou apresentação de mundo), que consiste em oferecer objetos substitutos de satisfação. Relaciona-se com a apresentação da externalidade e da realidade. É fundamental para a avanço da fase de dependência absoluta para dependência relativa, uma vez que possibilita o interesse, curiosidade e a busca por objetos de satisfação para além da cuidadora. A mãe deve apresentar o mundo em pequenas doses, ao passo em que permita a ilusão inicial (onipotência) de que quem criou aquilo foi o bebê. Segundo o autor, essa apresentação carrega a função formativa que permite o estabelecimento das relações objetais.

“O bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma necessidade não-formulada. A mãe, em se adaptando, apresenta um objeto ou uma manipulação que satisfaz as necessidades do bebê, de modo que o bebê começa a necessitar exatamente o que a mãe apresenta. Deste modo o bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato da experiência.”

(Winnicott, 1990b, p.56).

Ambiente e Self

De acordo com o autor, o sucesso dos processos ambientais possibilitará o desenvolvimento e a estruturação saudável do ser (distinto, autêntico e criativo), assim como as falhas ambientais (negligências, intrusões ou desastres) levam ao desenvolvimento adaptativo e reativo de personalidade ao ambiente. O verdadeiro self e a sensação de que a vida vale apena ser vivida, apontada por Winnicott, é a realização da nossa tendência e potencial de desenvolvimento, assim como as estruturações defensivas do self, as neuroses e sensação de futilidade do viver, são características de um falso self que precisou se adaptar e/ou reagir a um ambiente falho.

Para saber mais sobre verdadeiro e falso self, recomendo a leitura do texto Explicando Winnicott: Criatividade Primária, onde abordo mais aspectos do desenvolvimento emocional primitivo e trago algumas relações entre o self e a criatividade primária. Deixo também como recomendação o trecho de “A criatividade humana e a crise contemporânea”, com psicanalista Carlos Plastino, que discorre sobre a temática.

Referências e complementos

Winnicott, D. W. (1975). O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago

Winnicott, D. W. (1990a). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, D. W. (1990b). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.

Winnicott, D. W. (2012). Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.

Por Caio Ferreira

Sociedade dos Psicólogos participa de SIPAT no CDP – Belém I

Na última quarta-feira (23/10/2019) os Psicólogos Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos (CRP 06/139621) e Caio Henrique Ferreira da Costa (CRP 06/147859) participaram da SIPAT que aconteceu no Centro de Detenção Provisória I Chácara Belém, com a palestra “Dependência Química: que droga é essa?”.

Os principais tópicos abordados e discutidos foram:

  • O que é droga?
  • Como chamar quem usa droga?
  • Quem usa droga no Brasil?
  • Internar resolve?
  • Como se livrar da droga?
  • Médico, psicólogo ou igreja?
  • Experimentar vicia?
  • Alterações afetivas e comportamentais do usuário.

Caio Cesar Psicólogo
(Caio Cesar Rodrigues)

As Drogas e suas características

Caio Cesar Rodrigues falou, principalmente, sobre composição, efeitos, características e perfil de usuário, correspondente às substâncias: crack, oxi, cocaína, MDMA, lança perfume, tabaco, maconha, heroína, álcool, cafeína e chocolate (açúcar). Também abordou os tipos de usuários e dependências, bem como os nomes e expressões associadas à esses fenômenos.

expressão facial drogasO afeto e comportamento do usuário

Caio Ferreira expôs os 3 grandes grupos de drogas (depressoras, estimulantes e perturbadoras do sistema nervoso central) e contribuiu, principalmente, com o mapeamento das alterações afetivas e comportamentais da pessoa intoxicada, onde citou a utilização do Facial Action Coding System (FACS) como uma ferramenta auxiliar nos processos de detecção e intervenção.

Leve você também a Sociedade dos Psicólogos para sua empresa/instituição: https://spsicologos.com/servicos/palestras-personalizadas/

Quer saber mais sobre as substâncias psicoativas?

 

 

logo Sociedade dos Psicólogos

Venha emergir como sujeito de sua própria história!

Coringa: Uma corda sobre o Abismo

Nietzsche em seu livro ‘Assim Falou Zaratustra’, narra a história de um homem que após anos em meditação isolado da civilização, deixa a caverna, desce da montanha para iniciar suas pregações.

Em suas andanças, depara-se com a figura de um equilibrista que fazendo seu número numa corda içada ao alto da praça e acima do povo, quando este chega ao meio do caminho, é molestado verbalmente por um homem com vestes coloridas semelhantes a um palhaço que ao chamar mais atenção do público, solta um grito “diabólico” para o equilibrista, pula entre os populares e sai ileso. O equilibrista acaba desconcentrando-se e cai, ainda consegue dizer algumas palavras antes de morrer nos braços de Zaratustra.

Ao sair da sessão de cinema de Coringa (Joker, 2019. Warner Bros) na minha mente veio a imagem deste palhaço. Contrapondo a Marvel em sua visão de mundo colorido e conectado em que todos se unem em prol do bem maior “custe o que custar”, a DC com este filme assume a postura do palhaço de Zaratustra: aquele quer desestabilizar o sistema.

Trailer do filme Coringa

Aviso este texto está repleto de spoilers do filme Coringa. Deste trecho em diante é por sua conta e risco.

Ao lutar contra os Monstros

Na trilogia do Cavalheiro das Trevas (2005/2012. Warnes Bros), tem a versão do mais aclamada do Coringa produzida pelo cinema. Grande parte disso é atribuído ao fato que a origem do Coringa indefinida. Cada vez que ele está em frente de uma vítima, ele conta uma versão diferente de como ganhou o sorriso estampado em seu rosto.

Heath Ledger, na sua construção de personagem, se trancou em seu apartamento por um mês, fazendo um diário de com colagens de referencias diversas de cinema e pinturas do Francis Bacon. A celebre interpretação consumiu muito mais do que seu talento, e talvez por isto, lhe rendeu o Oscar póstumo de ator coadjuvante.

Pensava-se até então, que era muito difícil superar algo tão icônico como: “Por que você está tão sério?”.

Afinal, o que este filme do Coringa traria de novo para os espectadores?

Seria necessário subverter certas convenções para ser mais sombrio do que as versões anteriores. A inspiração veio da Graphic Novel “A Piada Mortal” em que “Batman e Coringa são faces de uma mesma moeda”, segundo Antunes, em sua tese: Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman.

Caro leitor, o que é mais sombrio do que a própria realidade?

Numa cidade infestada por ratos gigantes e doenças, em meio a uma greve de lixeiros que dura semanas, vemos que comerciantes estão falindo e a economia está em declínio. A crescente taxa desemprego tem correlação direta com o aumento da criminalidade.

Vemos Arthur Fleck tentando ‘ganhar a vida’ como palhaço em Gotham City. Numa espécie de reality show, que vai muito além de acompanhar seu dia a dia, o convite é para passearmos em sua mente.

Evite tornar-se um monstro

Em vez de mais uma explicação cartunesca, do tipo cair no tanque de ácido e sair vivo, a risada característica do personagem é atribuída a ter um distúrbio neurológico que faz com o que ele ria em situações que usualmente as pessoas não riem, destoando das emoções que sente como raiva, stress, ansiedade e medo. Uma risada involuntária que causa aversão nas pessoas e que ele tenta aflitivamente evitar sem sucesso.

Além desta condição, o personagem apresenta um quadro psicopatológico que o filme não deixa claro de propósito. O ator Joaquin Phoenix assim quis em sua construção, para que ele pudesse passear sobre diversas formas de expressar a desregulação emocional, inabilidade social, pensamentos catastróficos, sofrimento e dor psíquica e seu corpo representasse efeitos similares que os pacientes de doenças mentais apresentam ao longo dos anos.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não o tivesse.”

Arthur Fleck

Ele mora com sua mãe, cuida dela fazendo a comida, dando banho e sendo atencioso. Ele alimenta aspirações de se tornar um comediante de stand up, mas sua mãe sentencia: “para ser comediante precisa ser engraçado, Arthur”.

Perceba, esta filme fora construído minuciosamente para que o espectador tenha compaixão por um homem que vive num mundo sem compaixão.

Quando se olha muito tempo para um abismo

Nos anos 70 fora inaugurado o subgênero da ultraviolência no cinema. Devido a grupos jovens saíram agredido cidadãos porque se sentiram inspirados pelo que viram, o diretor Stanley Kubrick, indignado porque as pessoas não entenderam seu objetivo, teve que se desculpar publicamente e retirar “Laranja Mecânica” das salas de exibição.

Menos estiloso e conceitual, mais direto ao ponto, não é à toa que este filme do Coringa se inspire nos filmes de Martin Scorsese, como Taxi Driver. Parte da sensação de crescente de angústia durante a exibição do filme e manter o espectador em suspensão de descrença. O mundo precisa ser semelhante à nossa realidade e as reações que o personagem tem poderiam ser as suas caso se encontrasse na mesma situação.

Artur tenta recusar a oferta de ter uma arma dizendo ao companheiro do trabalho, que devido a sua condição não deveria portar uma arma. Mas este insiste, mesmo assim vende a arma para ele se ‘proteja do mundo violento’. Em seguida, esta é a arma que cai no chão dentro de um hospital infantil enquanto ele se apresentava (semelhante ao Doutores da Alegria). Por isto ao tentando se explicar ao seu chefe ligando de um telefone público ele é despedido.

Voltando para casa ele vê três homens assediando uma mulher no metro, e começa rir compulsivamente sem desejar fazê-lo. A mulher foge e os três começam agredi-lo moral e fisicamente. Ele saca a arma para se defender da agressão física, matando dois instantaneamente e persegue o terceiro na estação até matá-lo.

Este é o momento sem volta do personagem. No vídeo Anatomy of a Scene, em que vemos Arthur demonstrando um vislumbre do Coringa. Em vez de se assustar e/ou questionar moralmente o que acaba de acontecer, não há remorso ou arrependimento. Em vez disso, ele se tranca num banheiro público e dança como uma expressão de se empoderar de si pela violência.

O diretor Todd Phillips narra a cena do filme Coringa

O abismo olha para você

Apesar da temática ser proveniente das histórias em quadrinhos, o nome do filme é Coringa, portanto estamos acompanhando o desenvolvimento de um vilão. Ao Coringa serve a sentença de Nietzsche: “Torna-te quem tu és!”. As pessoas na sala de cinema, que minimamente tem repertório em Batman, sabe aonde filme quer chegar. A questão é como os espectadores são impactados pelo que estão vendo.

Dias depois, sabemos que três homens mortos pelo palhaço no metro eram cidadãos de bem e funcionários das Indústrias Wayne. Interessado em salvar a cidade do caos, o Sr. Thomas Wayne se candidata ao cargo de prefeito. Ao ser questionado pela morte dos seus funcionários diz: “Que tipo de covarde faria algo tão frio? Alguém que se esconde atrás de uma máscara. Alguém que tem inveja daqueles são mais bem-sucedidos. No entanto, eles têm medo de mostrar seu próprio rosto. Pessoas que mudam o mundo para melhor, são capazes de criar algo de nossas vidas, sempre olharão para aqueles que não o fizeram nada, apenas como meros palhaços”.

Os cidadãos de Gothan então resolvem protestar nas ruas contra os bem-sucedidos usando máscaras do palhaço, cujo retrato-falado povoa as manchetes de jornal. Notem, um novo elemento surge: a mídia.

Ao contrário do que se imagina, fake news não são um fenômeno da internet. Num passado recente, jornais de baixo orçamento propagavam manchetes sensacionalistas (hoje conhecido como clickbait) apenas para vender mais exemplares.

A arte imita ou revela a vida?

Diferente de outro filme da DC, V de Vingança (V for Vendetta, 2005. Warner Bros.) na qual a revolta popular fazia parte do projeto planejado de vingança contra o sistema, Arthur e levado pelo sabor dos acontecimentos. Algo que ele causa sem pretensão alguma traz para ele uma enorme satisfação ao ver o palhaço estampado na primeira página dos tabloides. “As pessoas me tratam como se eu não existisse, nem eu mesmo acreditava que não existia, mas eu existo.” Nas manchetes, a população o vê como um vigilante justiceiro, e ele por sua vez, apenas quer ser notado, reconhecido, quer os aplausos.

Anamnese do Palhaço

Este ano, ‘O Homem Morcego’ completa 80 anos do seu lançamento nas bancas de jornal e o Coringa era vilão da edição Batman#1. Aficionados afirmam que somente no filme Batman, 1989, que o diretor Tim Burton que sugere uma correlação entre Batman x Coringa, colocando este arqui-inimigo como o assassino dos seus pais. Neste filme, isto é elevado à enésima potência.

Desempregado, Arthur é notificado que o programa assistencial teve verbas cortadas e que ele não terá acesso as medicações. Ele resolve se apresentar como comediante de Stand up num clube. Ao chegar tarde em casa, coloca sua mãe na cama, que insiste que ele envie pela manhã a carta que ela tinha escrito. A mãe do Arthur sempre manda cartas para o mesmo destinatário, o Sr. Wayne. Conta frequentemente ao seu filho que trabalhou para ele por anos e que aguardava uma resposta para que pudesse ajudá-los a sair da situação de pobreza. Naquela noite, Arthur resolve ler aquela carta e descobre sua mãe pede ajuda a Thomas Wayne alegando que ele é o seu pai.

Ao confrontar a mãe, ela alega que foi obrigada a omitir esta informação ao seu filho porque assinou alguns documentos. Artur vai em busca do seu suposto pai. O Sr. Wayne que rechaça está possibilidade, diz que sua mãe Penny é uma desequilibrada e que ele vai descobrir a verdade nos arquivos dela no asilo Arkham. Perceba a subversão, esta é a primeira vez que vemos o pai do Batman não sendo a figura paterna altruísta que costuma ser pintado nos quadrinhos. Arthur entre a risada involuntária e o choro desesperado, diz ao Sr. Wayne: “Por que todo mundo me trata tão mal? Por quê?”.

Ao voltar para casa, descobre que sua mãe teve um mal estar e precisou ser hospitalizada. Em meio a tudo isto, alguém gravou sua performance no clube de stand up e encaminhou para o talk show da TV. Ele se vê exposto em rede nacional de forma humilhante pelo apresentador/comediante Murray Abraham (não ao acaso, vivido por Robert De Niro, protagonista de Taxi Driver) que diz ironicamente: “Todo mundo acha que consegue fazer meu ofício, este cara não passa de um Coringa (uma gíria para piadista medíocre)”.

Determinado a saber seu passado, vai ao asilo Arkham e consegue furtar o prontuário da mãe. Entre os documentos, descobre papeis de adoção e um extenso arquivo de manchetes de jornal no qual ele criança fora vítima de maus tratos pelos ex-namorados da mãe. Estes abusos ocasionaram o traumatismo craniano que gerou seu riso incontrolável. A mãe era conivente com os maus-tratos e ao ser questionada se não ouvia seu filho chorar ela disse “Não, porque ele sempre estava tão feliz”. Agora que temos uma parte da anamnese, o leitor não sairá daqui com as mãos abanando, recomendo a leitura do texto As Psicologias do Psicopata: o crime e a personalidade” e o artigo para Rollings Stones Neuro criminalista elogia Coringa e considera o filme “uma ótima ferramenta educacional.

That’s Life

Após esta revelação sobre seu passado, Arthur Fleck sai definitivamente de cena. Ao longo do filme, vemos ele subindo pesarosamente com as costas arqueadas, os degraus intermináveis de uma escada que leva a sua casa, assim como Sisifo empurra a pedra de mármore até o topo da montanha. Perto do fim, quem desce a mesma escada dançando e se regurgitando ao assumir a máscara do palhaço como sua identidade é o Coringa.

Convidado como entrevistado, ele vai a caráter ao programa de TV e pede para ser introduzido como tal. Durante a entrevista, o Coringa dispara: “Não há mais civilidade Murray, uns gritam com os outros, as pessoas não são empáticas, não se colocam no lugar do outro. Thomas Wayne espera que eu seja o cara bonzinho, mas não, seremos lobisomens e enlouqueceremos.” Isto não acontece por acaso, em sua tese de mestrado “O Famoso Infame”, Fabricio Marques Franco atribui ao Coringa  ‘sua ausência de regras em suas ações perversas e o gozo desmedido sobretudo e contra todos se mostra o fundamento do seu carisma’ com seu superpoder.

Não é o objetivo deste texto estragar totalmente a experiência de assistir este filme, por isto a maioria dos acontecimentos do filme foi omitido ou deixado no último bloco deste texto, Cenas Pós Crédito.

E quanto a propagada violência do filme? A violência aparece de outra forma, menor que em filmes do gênero de ação; mas contundente, pois serve de espelho para os espectadores. Perturbador, talvez seja, o quanto a identificação do público com o vilão seja orgânica. Principalmente, quando torcem para o Coringa no momento que ele executa seus algozes ou quando riem de cenas que deveriam despertar sensações de aversão e choque.

Enfim, ‘That’s Life de Frank Sinatra, a música que conduz o personagem nesta evolução até se tornar o ‘Palhaço do Crime’, traz em suas estrofes as seguintes frases: “Eu tenho sido um fantoche, um pobre, um pirata / Um poeta, um peão e um rei / Estive de cima a baixo, sem parar / E eu sei uma coisa / Cada vez que me vejo de cara no chão / Eu me levanto e volto à corrida”.  

That’s Life interpretada por Frank Sinatra e uma montagem com cenas do filme

Psicóloga Masilvia Diniz

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Cenas Pós Créditos

Elizabeth Loftus psicóloga americana entre os anos 80/90, postulou a “Síndrome da Falsa Memória”. Uma forma bastante simplista de explicar este conceito é com uma pergunta: o que é a verdade, aquilo que aconteceu, o que acreditamos ter ocorrido? Realizando um experimento social, verificou-se que 24% das pessoas assimilara com verdadeira uma história falsa sobre estar perdido num shopping quando criança. O que isto significa, que é possível que o que acreditamos ser real e mais potente do que os fatos.

Lembra quando eu me referi sobre o passeio na mente de Arthur? O mundo é sombrio e escuro quando é real ou colorido quando vemos suas fantasias da sua mente? O espectador vê que o mundo trata-lo mau, ou o protagonista percebe somente o mundo o tratando o mau? No início do filme, vemos a assistente social dizendo que ele já havia sendo internado, e se ele nunca saiu do hospício? Quem deixaria uma criança vítima de maus-tratos a cargo de uma mulher internada num hospício que foi conivente com a violência com seu próprio filho? Se o pai do Batman fosse mesmo pai do Coringa ele teria abandonado seu filho? Nos anos 80, seria necessário um equipamento gigantesco para gravar a performance de Arthur no clube, por que ele não viu? Principalmente, se uma mulher é perseguida por um stalker, por que teria um relacionamento com ele? A única vez que o diretor pega na mão do espectador e esclarece que relacionamento não era real.  

No fim, o filme se abre um corredor branco de pegadas vermelhas para infinitas possibilidades.

Referências consultadas

Antunes, Debora. Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman. XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Curitiba, PR – 4 a 7 de setembro de 2009. Disponível em: https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/30880501/R4-0676-1.pdf?response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DEntre_o_heroi_e_o_vilao_uma_analise_de_C.pdf&X-Amz-Algorithm=AWS4-HMAC-SHA256&X-Amz-Credential=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A%2F20191010%2Fus-east-1%2Fs3%2Faws4_request&X-Amz-Date=20191010T040744Z&X-Amz-Expires=3600&X-Amz-SignedHeaders=host&X-Amz-Signature=d522cee01887a402c4530388ff774de07b4066deaa3468b85bbfb7b135c7594e

Batman no cinema. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Batman_no_cinema&oldid=55895295>. Acesso em: 2 ago. 2019.

Batman nas revistas em quadrinhos. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Batman_(revista_em_quadrinhos)&oldid=56353462>. Acesso em: 28 set. 2019.

Camus, Albert. O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Lisboa. Editora Livros Brasil S/C.

Coringa (Joker). Direção: Todd Phillips: Warner Bros. Pictures, 2019. (121 minutos).

Existencialismo. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Existencialismo&oldid=56404173>. Acesso em: 5 out. 2019.

Franco M, Fabricio. O famoso infame: um estudo sobre a persistência do vilão Coringa nas mídias e sua relevância na cultura midiática. PUC-SP. 2017.

Joker (DC COMICS). In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Joker_(DC_Comics)&oldid=56433989>. Acesso em: 9 out. 

Nietzsche, Friedrich. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Friedrich_Nietzsche&oldid=56087153>. Acesso em: 26 ago. 2019.

Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra (tradução de Mário da Silva). São Paulo: Civilização Brasileira, 1977.

Joker Best Movie Quotes – ‘Is it just me, or is it getting crazier out there?’ (Roteiro completo do filme). Movie Quotes and More. Disponível em: https://www.moviequotesandmore.com/joker-best-movie-quotes/. Acesso em 10 out. 2019.

Setembro Amarelo: Enquanto há vida há esperança.

No mês de setembro, os laços amarelos invadem as redes sociais e os meios de comunicação. Esta é uma homenagem ao Mike de 17 anos que morreu por suicídio em 1994. Em seu funeral foi distribuído por amigos e familiares um cartão com um laço amarelo e mensagem apoio para aqueles que estivessem em sofrimento.

Em vez de citar estatísticas de suicídio no Brasil e no Mundo (mesmo porque meu colega Caio Cesar Rodrigues de Araújo parceiro deste site vez isto brilhantemente no texto Por Que Não Devemos Falar sobre Suicídio?) ou fazer uma sopa de letrinhas com palavras rebuscadas, vou aproveitar este espaço para fazer a mesma coisa, vou entregar nesta publicação o meu cartão  com uma mensagem de como podemos ajudar pessoas que estão em sofrimento.

Todos nós seres humanos temos um mundo dentro de si. Experimentamos a vida de uma forma única e particular. Ao mesmo tempo, vivemos neste mundo pós-moderno digital, em constante mudança, no qual precisamos fazer muitas tarefas ao mesmo. Enquanto isto tudo acontece, dentro de nós, pode existir uma tempestade de pensamentos e um tsunami de emoções, que geram sentimentos e sensações físicas.

Como não sabermos o que se passa na mente uns do outros, ficamos sem entender certas atitudes e comportamentos das pessoas. Por isto, seguindo as orientações da OMS, MS e do Manual de Comunicação Consciente, destaco quatro dicas que podem ser úteis quando perceber que alguém está em risco de suicídio.

1º Dica: Ouvir

A Psicologa Karina O. Fukumitsu, autora do livro “A Vida não é do Jeito que a gente Quer”, afirma que não há uma única causa, mas “são várias situações que faz com que a pessoa vá se definhando na vida” e isto ela chama de processo de morrência. Como este tipo de processo não escolhe cor, raça, crença religiosa, idade, sexo e condição social, a recomendação é ouvir a pessoa sem julgamento, com a mente aberta e no local apropriado para que a pessoa se sentir segura. Lembre-se que quem pede ajuda, tem o direito de ser respeitado, levado a sério e ter seu sofrimento em consideração. Caso você não se sinta preparado, tudo bem, oriente a entrar em contato com CVV no 188 e explique que neste telefone há uma equipe de pessoas capacitadas que estão dispostas a dar apoio emocional e de forma sigilosa.

2º Dica: Acompanhar

Não é porque você não sabe o que dizer ou fazer, que sua presença é dispensável. Doe seu tempo e mantenha contato. Se você quer ajudar verdadeiramente seu presente será sua presença.

3º Dica: Buscar ajuda profissional

De onde eu estou, posso ouvir frases como: “não preciso de um médico de cabeça” e o clássico “psicólogo é médico de louco”. Se um osso foi quebrado, levamos a pessoa no Pronto Socorro e solicitamos o médico ortopedista. Se o celular parar de funcionar, imediatamente procuramos uma assistência técnica. Se o carro apresenta problema, na sua agenda tem o contato do mecânico, do funileiro e borracheiro. Por que quando a dificuldade está dentro da mente tem que ser diferente? Nas pessoas em dor e sofrimento, o turbilhão de pensamentos e tsunami de emoções seria equivalente a óculos de lentes embaçadas e visão turva: o mundo fica parecendo um reality show de sobrevivência na selva. Portanto, oriente a pessoa que contate um profissional especializado de saúde mental, seja psicólogo ou psiquiatra, que indicará o tratamento adequado de acordo com a necessidade. Se você tiver disponibilidade, lembre-se da 2º dica e se ofereça para ser acompanhante na consulta.

4º  Dica: Proteção

Segurança é uma necessidade básica da vida e sempre estamos buscando nos proteger. Pessoas que estão em dor e sofrimento precisam de proteção, inclusive delas mesmas. Prevenção é estar atendo e diminuir quais quer tipo de riscos que possam estar no ambiente.

Finalizo está mensagem com a frase do psicólogo Shneidman, um dos maiores especialista neste assunto: ‘O suicídio é um ato definitivo para um problema que tende a ser temporário.’ Se é temporário, é porque precisa de mais tempo para ser entendido e superado. Quando uma vida se apaga o tempo para, e isto ocorre para quem vai e para quem fica. Enquanto há vida há esperança. Por isto é importante que possamos fazer com que as pessoas se permitam ter tempo para enfrentar sua dor e seu sofrimento, não importando qual seja.

Psicóloga Masilvia Diniz

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Serviço de utilidade pública: Onde buscar ajuda para prevenir o suicídio?

CAPS e UBS – Unidades Básicas de Saúde – Postos e Centros de Saúde UPA 24H / SAMU 192 e Pronto Socorro e Hospitais CVV – Centro de Valorização da Vida – 188 (Ligação Gratuita)

Referências consultadas

http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/suicidio

https://www.karinafukumitsu.com.br

FaceApp – Fascinação e medo na clínica dos idosos

Por que o aplicativo que nos mostra mais velhos chama tanta atenção?

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(Imagem retirada da Internet)

De tempos em tempos um aplicativo chamado FaceApp cai no gosto do povo e chama a atenção geral. Já conseguiu “mudar” o gênero da face das pessoas e transformá-las em bebês. Nos últimos meses, outra aplicabilidade interessante causou alvoroço geral na rede. A possibilidade de “predizer” como você estará daqui à alguns anos. Ou seja, com base em uma foto de sua escolha, realiza um processo de envelhecimento artificial e apresentava um resultado (na maioria das vezes bizarro).

Não deu outra, a internet foi abaixo. O aplicativo acumulou mais de 150 milhões de fotos em questão de dias.

O debate acerca da privacidade envolvendo esses aplicativos fica para outro dia (e recomendo essa reportagem).

Espelho e formação da imagem

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(Imagem retirada da Internet)

A nossa imagem corporal é constituída em um longo processo mental, que é sempre pautado pela relação com o Outro. Jacques Lacan (1901 – 1981) introduziu a noção de estádio do espelho, que, resumidamente,  nos auxilia a compreender a constituição do sujeito em relação ao outro. Sugiro que todos se remetam ao próprio texto, mas para já é importante apontar que o aporte corporal do sujeito é dado pelo outro. A nomeação de nosso corpo e filiação é dada pelo Outro, e é simbolizada pelo sujeito.

“Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficiente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago.” (Lacan, 1951/1998, p. 97)

Logo após a constituição dessa unidade imaginária (Eu), o sujeito passa de uma relação auto-erótica, anterior, primária, a uma relação de narcisismo, onde o investimento libidinal volta-se sobre si mesmo, mas de uma maneira organizada.

 

Diana e Mario Corso (2018) falam da formação da imagem no adolescente, e como esse período determinará nossa relação com o espelho para o resto da vida. A adolescência é o momento onde formamos nossa assinatua visual, como fala Diana. “Sempre que olharmos para o espelho, é esse adolescente que vamos enxergar, e ele vai nos cobrar”. As selfies insistentes dos adolescentes (e dos nem tão jovens) podem ser entendidos como esse apoio para a formação da imagem.

 

 

A morte, segundo Freud se coloca como a castração final. E nos é impossível, conceber a nossa propria morte em seu aspecto completo, realmente imaginar nosso desfalecimento.

Muitos pacientes relatam imaginar e fantasiar sobre o seu próprio funeral. O que aconteceria, quem viria, se haveriam lágrimas sendo derramadas ou sorrisos exibidos.

O que argumento é, talvez o que importa no fato do app nos transformar em velhos é a possibilidade de poder mostrar para o outro. Olhar e ser olhado. Toda relação é a três como já dizia o velho Freud. Em uma passagem interessante do livro Como ler Lacan? (2010), do irreverente Slavoj Žižek, ele comenta esse aspecto (o leitor me perdoará desde já a longa citação):

“Essa referência inerente ao Outro é o tópico de uma piada infame sobre um pobre camponês que, tendo sofrido um naufrágio, vê-se abandonado numa ilha com, digamos, a Cindy Crawford. Depois de fazer sexo com ela, ela lhe pergunta como foi; sua resposta é “Foi ótimo”, mas ele ainda tem um favorinho a pedir para completar sua satisfação: poderia ela se vestir como seu melhor amigo, usar calças e pintar um bigode no rosto? Ele lhe garante não ser um pervertido enrustido, como ela verá assim que lhe fizer o favor. Quando ela o faz, ele se aproxima dela, dá-lhe um tapinha nas costas e lhe diz com o olhar malicioso da cumplicidade masculina: “Sabe o que me aconteceu? Acabo de transar com a Cindy Crawford!”

 

A clínica psicanalítica com idosos

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(Imagem retirada da Internet)

É possível analisar idosos? Agora, respondo que sim. Antes, talvez tivesse mais resistência para com isso. A kilometragem de divã nos ajuda bastante.

Para Freud (1898/1996), analisar idosos poderia não ser uma boa idéia pelo fato da neurose estar tão arraigada que não haveria tempo de realizar o tratamento psicanalítico, haveria “muito material”.

 

A psicanálise faz com que o sujeito reflita sobre seu próprio desejo, e muitas vezes ajuda a recriá-lo. A velhice pode ser tida por alguns como período de espera pela morte. O analista aposta no sujeito, para que ele ainda podem ter sonhos.

A clínica psicanalítica faz com que o sujeito possa se re-inventar, encontrar outras formas de satisfação e lidar de maneira menos tóxica com a perda dos objetos.

 

Lembro de um episódio específico da série televisiva “Friends” quando todos fazem 30 anos, onde a forma como cada um lida com isso é mostrado. Muitos não aceitam, alguns inclusive querem fazer um pacto com Deus para não mais envenlhecer.

Como dizia Freud: Existe vida antes da morte.

Até a próxima,

Por Igor Banin

PS:

Sobre esse tema, acho interessante a leitura dos textos abaixo. Um deles trata de um experimento feito por um fotógrafo onde ele junta imagens de pessoas idosas, com retratos das mesmas quando jovens. O outro é um artigo da psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, que também faz uma análise do aplicativo FaceApp. Além disso, seguem também os comentários do psicanalista Christian Dunker acerca da clínica na velhice.

https://extra.globo.com/noticias/mundo/fotografo-americano-poe-idosos-para-se-verem-mais-jovens-no-espelho-em-ensaio-10969068.html

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2019/07/vida-longa-as-vovozinhas-assanhadas.shtml

 

Referências Bibliográficas

Crane, D & Kauffman, M. (2000). Friends: The one where they all turn thirty. Estados Unidos da América: Warner Bros. Television.

Freud, S. (1898/1996). A sexualidade n aetiologia das neuroses. In Primeiras publicações psicanalíticas. (pp. 249-272, Obras completas de Sigmund Freud, v.3). Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1951/1998). O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In Escritos. (pp 96 – 103). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Zizek, S. (2010). Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

“Adolescentes e adultos: tudo fora do eixo”. Palestra da série: Adolescência em cartaz por Mario Corso e Diana Corso, feita em 2018. Promovido pela CPFL Cultura.