Psicanálise e Zen-Budismo: experiências do vazio

O que a Psicanálise tem a ver com o Zen?

Não é incomum encontrarmos discussões mundo à fora sobre possíveis aproximações entre a prática da psicanálise e práticas budistas, dentro e fora da tradição Zen. Minha ideia por aqui é pincelar algumas aproximações possíveis com o tema em termos de técnica e objetivo, de maneira nenhuma esgotando o tema e suas implicações.

O contato de Lacan com o Zen-budismo já se denota em seu comentário de abertura no seu primeiro seminário:

“O mestre interrompe o silencio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé.

É assim que procede, na procura do sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen. Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta as suas próprias questões. O mestre não ensina ex-cathedra uma ciência ja pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la”

(Lacan, 1953-1954/1986, p. 9)

Me agrada muito essa passagem inicial e penso que podemos comentar diversos aspectos a partir dela, em termos teóricos e práticos.

Primeiro, a comparação da maneira de transmissão entre Psicanálise e Zen-Budismo, sempre responsabilizando o sujeito em sua busca na análise, por meio da escuta do analista e suas intervenções.

Penso também que a primeira frase diz muito do trabalho de Lacan no sentido de “abrir uma fala, interromper um silêncio” em termos de inovações na Psicanálise de origem francesa.

Lacan não dava ponto sem nó.

Ensō

Um primeiro conceito que vale a pena mencionar é o Ensō, uma palavra japonesa que significa literalmente “círculo”. Ele é fortemente associado ao Zen-Budismo, simbolizando Iluminação, força e o vazio.

O símbolo é normalmente desenhado em uma pincelada só, demonstrando o estado expressivo daquele que toma o pincel naquele momento. Um pouco como a abertura de cada sessão de análise, dado que o paciente pode “começar por onde quiser”.

Aprender a realizar um Ensō é mais uma atividade de meditação do que uma atividade de caligrafia. O que se busca com o desenho é ressaltar o caráter meditativo presente em qualquer atividade. Ressalta a possibilidade de expressar sua liberdade, limpar a mente (Mannox, 2020).

Normalmente é representado como sendo um círculo incompleto, remetendo justamente ao nosso caráter de incompletude, do mundo, de todos.

Pensando em termos de técnica, quando um psicanalista faz uma intervenção, ela deve ser precisa. Da mesma forma, o artista, quando cria o Ensō deve ter sua mente limpa: “Qualquer hesitação em sua mente, qualquer dúvida causará uma oscilação, um quadrado ou uma inconsistência” (Mannox, 2020).

Além disso, a noção de “conhecimento equivocado” referido no Zen-Budismo, diz um tanto da maneira como conduzimos as análises, sempre levando os pacientes à percepção de desejos conflituosos e incômodos (Parker, 2008/2020).

Uma definição que me agrada do Ensō é “A beleza da imperfeição”, ou ainda “Imperfeição é a perfeição de tudo o que você faz”. Isso me remete imediatamente à relação que criamos com nosso próprio vazio, com nossa falta. A noção que a falta é constituinte, para mim, conversa muito bem com essa percepção budista.

No Seminário 9 (As Identificações), Lacan aprofunda a articulação de Psicanálise com a Topologia, trazendo à cena o Toro, representação topológica que ilustra a relação entre Desejo, Demanda e Identificação. Com o Toro, Lacan demonstra como a falta é de fato, constituinte e atua na Identificação com o outro.

Conhecermos nosso desejo e entender o que vale a pena perseguir é um dos objetivos da análise. Penso que esse sofrimento decorrente da busca do objeto a, é outro ponto de convergência entre Psicanálise e Zen-Budismo.

Existe um Eu?

“O inconsciente escapa totalmente a este círculo de certezas no qual o homem se reconhece como um eu”

(Lacan, 1954-1955/2010, p.17)

A noção de Eu na psicanálise remonta às discussões de Freud, chegando ao dualismo Je x Moi em Lacan.

Largamente discutido sobre diversos prismas em seu segundo seminário (O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise), a noção de Eu apresenta uma função constitutiva do sujeito e diferenciadora entre o Eu e o Outro. Ainda assim, é uma função essencialmente imaginária (Lacan. 1954-1955/2010).

Segundo o próprio Lacan (1954-1955/2010) “As falas fundadoras que envolvem o sujeito são tudo aquilo que o constituiu, os pais, os vizinhos, a estrutura inteira da comunidade, e que não só o constituiu como símbolo, mas o constituiu em seu ser” (p. 34).

Na perspectiva budista encontramos algo similar em relação à abordagem de si mesmo. Não apenas na busca do refúgio nas Três Jóias (Buda, Dharma e Sangha), mas também a noção de sofrimento decorrido do apego ao Eu pode ser encontrado nas Quatro Nobre Verdades, sendo elas:

A Realidade do Sofrimento (Dukkha), A Realidade da Origem do Sofrimento (Samudaya), A Realidade da Cessação do Sofrimento (Nirodha) e A Realidade do Caminho (Magga) para a Cessação do Sofrimento.

“Imagine, por exemplo, que você está sentado na esteira, mas, agora, procure por este eu ou pessoa. Descobrirá que não o encontrará nos agregados físicos e mentais. O eu não é nenhum dos quatro elementos, como as partículas que formam o corpo, por exemplo. Esses elementos não respondem pela pessoa; a sua união não é a pessoa; e, isoladamente, também não dão conta do ser. O eu é apenas um rótulo atribuído ao agregado de bases designativas e, por isso, existe somente nominalmente. As pessoas não existem independentemente e de forma inata e verdadeira.”

(Lama, 1991/2004, p. 207)

Pensando nisso, acho válido apontar um certo alinhamento de propósito na análise e no caminhar espiritual de Buda. Escutar o vazio, dissolver o Ego, o que parece impossível, é um pouco de onde se conflui Psicanálise e Budismo (Dunker, 2021).

Japão – Um desvio

Fazendo um desvio do budismo propriamente dito, sinto que é importante tocar muito brevemente em alguns aspectos da cultura japonesa que foram analisados por psicanalistas e me chamam a atenção.

O Haiku,(ou Haicai no Brasil) forma de poesia curta japonesa, normalmente de três versos, que tenta capturar um estado de percepção interna sobre o Ser, sobre a existência.

No haiku, o corte é a essência. Ele define a maneira como dois elementos se relacionam. Da mesma forma, na Psicanálise o corte define a significação. Sendo um corte suspensivo, mudando a cadeia significante que se apresentava até então, ou um corte conclusivo, encerrando a sessão. Apontamos assim para a falta-a-ser do paciente (Quinet, 2015).

“Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos”
(Millôr Fernandes)

Curioso também pensar nas palavras de Lacan quando dizia que não seria possível analisar os japoneses por sua relação com a linguagem, espontaneamente ligada à ambiguidade e poeticidade (Dunker, 2017).

Nas palavras do próprio, em seu famoso texto de introdução aos Escritos à época sendo publicados no Japão, intitulado Aviso ao leitor japonês (1972/2003): “Se não temesse o mal-entendido, eu diria que, para quem fala japonês, é um desempenho costumeiro dizer a verdade através da mentira, isto é, sem ser mentiroso” (Lacan, p.500)

Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Dunker, C. (2017) Como é a psicanálise oriental? In Falando nisso produzido por Buli, L & Bulhões, J. Recuperado em 01 de Outubro de 2021, de

Dunker, C. (2021) Psicanálise e o Zen. In Falando nisso produzido por Buli, L & Bulhões, J. Recuperado em 01 de Outubro de 2021, de

Lacan, J. (1953-1954/1986) Os escritos técnicos de Freud. (Os Seminários, Livro I). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1954-1955/2010) O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. (Os Seminários, Livro II). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1972/2003) Aviso ao leitor japonês. In Outros Escritos (pp.498-500). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lama, D. (1991/2004). O Livro da Felicidade: Um guia prático aos estágios de meditação. Rio de Janeiro: Ediouro.

Mannox, T. (2020) What is an Ensō? Produzido por Study Buddhism. Recuperado em 01 de Outubro de 2021 de

Parker, I. (2008/2020) Japão em análise: culturas do inconsciente. São Paulo: Benjamin Editorial.

Quinet, A. (2015) O Grafo do Desejo. Aula realizada no dia 12/08/2015 no FCCL-Rio. Recuperado em 01 de Outubro de 2021, de https://www.youtube.com/watch?v=LFrD1HtPeWE

O que a Dinamarca pode nos ensinar sobre felicidade

Nos últimos meses o tema felicidade tem me chamado atenção. Entre alguns livros que já li sobre o assunto, um em especial me chamou atenção: ” O segredo da Dinamarca – Descubra como vivem as pessoas mais felizes do mundo”.

Eliane Ratier: Livros- O Segredo da Dinamarca- Helen Russel

À primeira vista, este título me deixou curiosa. Que a Dinamarca era um país desenvolvido e que tem muito a ensinar, eu já sabia, mas o que será que o país que ocupa o 3º lugar no ranking de felicidade (World Hapiness Report), ficando atrás apenas dos seus países vizinhos (Finlândia e Islândia), faz de diferente dos demais?

Para medir o nível de felicidade, o relatório leva em consideração 7 dimensões, que também compõem um indicador chamado FIB (Felicidade Interna Bruta), conceito que nasceu em 1972, num pequeno país no Himalais, Butão, e posteriormente se espalhou pelo mundo a partir de iniciativas da ONU (Organização das Nações Unidas).

Para este ranking, os critérios considerados são:

  • PIB per capita
  • Apoio social
  • Vida saudável
  • Expectativa de vida
  • Liberdade
  • Generosidade
  • Ausência de corrupção

Tão intrigada como eu fiquei ao ler o título desse livro, a autora, uma jornalista inglesa também ficou ao se mudar com o marido para a Dinamarca. Ao descobrir que a Dinamarca fazia parte dos países escandinavos, considerados os mais felizes do mundo, ela começou uma pesquisa com os dinamarqueses para descobrir o que fazia ou contribua para a sua felicidade. Além do choque térmico e da língua dinamarquesa ser uma das mais difíceis de se aprender, a jornalista compartilha algumas dicas e lições aprendidas interessantes que podem nos inspirar nessa jornada em busca da felicidade:

  1. “Esqueça das noves às cinco”: Em um dos seus primeiros capítulos já é possível notar que a relação que os dinamarqueses têm com seus trabalho é diferente do que vivemos por aqui. Recentes estatísticas mostram que os dinamarqueses trabalham, em média, 34 horas por semana e ficar horas depois do expediente por conta de alguma demanda ou projeto pode, inclusive, ter o efeito contrário nos colegas de trabalho e ser encarado como um problema de produtividade.
  2. O lazer ocupa um espaço considerável na vida das famílias e entende-se como lazer qualquer atividade para apreciar a sua própria companhia e/ou a de seus amigos e família. Existe até mesmo um termo para isso: fique “hugge”, ou seja, lembre-se dos prazeres da vida através de pequenas coisas, como acender uma vela aromatizada, preparar um café para si mesmo e preparar uma refeição e receber os amigos em casa por longas horas (aliás, uma boa mesa de jantar dinamarquesa é aquela que tenha, pelo menos, 8 lugares para receber a família e amigos).
  3. “Faça você mesmo”: é muito comum que os dinamarqueses coloquem a criatividade em prática para produzir seus próprios utensílios. Faz parte do ensino das escolas incentivar essa prática e a colaboração.
  4. “Use seu corpo”: o esporte e a atividade física fazem parte do dia a dia dinamarquês a ponto de existir uma infinidade de clubes e todas as pessoas estarem vinculadas a, pelo menos, um. A prática de exercício físico não só uni as pessoas, mas também libera endorfina, apoiando na percepção de bem-estar.
  5. Confiança: os dinamarqueses têm um alto grau de confiança uns nos outros e, inclusive, em suas instituições públicas. A confiança é tanta a ponto de deixar o gerente do banco tomar as melhores decisões com o seu dinheiro mesmo sem te consultar e pedir sua autorização imediata.
  6. Imagine fazer parte de uma sociedade onde o Estado preocupa-se com o bem-estar social. Paga-se uma alta taxa em impostos (e os dinamarqueses pagam com orgulho), mas todas as escolas são públicas, e de qualidade, e o cidadão, mesmo que já empregado,  tem a opção de parar tudo e voltar a estudar para ter uma nova profissão, recebendo, nesse período, de 80% a 90% do que ganhava. Essas são alguns das práticas sociais que a autora descreve em seu livro.

Essas são algumas das lições que aprendi com o livro e me despertaram para o que já venho há muito tempo aprendendo com a Psicologia Positiva, o caminho para essa busca de bem-estar e felicidade não está em possuir coisas, mas sim em apreciar e balancear as experiências e os eventos, poisitivos ou não, que acontecem internamente e ao nosso redor. Confiar mais em si e adotar hábitos que tragam maior felicidade pode ser um bom começo para esse longo processo.

Referências e Recomendações

Com pandemia, Brasil fica na 41ª posição em ranking global da felicidade

FIB – Instituto Movimento pela Felicidade

por Bruna Passarelli

Fenomenologia e Psicopatologia

Você já parou para pensar o que é psicopatologia? Atualmente, esse termo tornou-se um pouco mais comum entre nós, porém, é fundamental esclarecer o verdadeiro significado dele. Segundo o autor Dalgalarrondo ao recorrer ao pensamento do pesquisador Campbell a psicopatologia é um ramo da ciência que trata da natureza essencial das doenças mentais, na qual busca estudar as causas, mudanças estruturais e funcionais que afetam e alteram as cognições dos sujeitos que são acometidos por elas e podem vir a ser associadas a vários tipos de transtornos com algumas formas distintas de manifestação. Em outras palavras, a psicopatologia pode ser definida como um conjunto de saberes que referem-se ao adoecimento mental do ser humano. 

A psicopatologia clássica volta o seu olhar para o sintoma e suas causas, elencando uma série de sintomas que são utilizados como base para poder certificar o fator pré-determinante para classificar uma doença mental, em outras palavras, a metodologia clássica está voltada para a doença e não para o doente. Contrapondo este ponto fundamental, a psicopatologia fenomenológica propõe reflexões fundamentais e busca compreender o sujeito em sua totalidade, considerando suas particularidades de maneira clara, além de compreender também todos os aspectos psíquicos e físicos que afetam o indivíduo em questão.

Uma das referências modernas em psicopatologia é Karl Jaspers, que entende essa ciência como auxiliar a psicologia clínica e a psiquiatria, e tece alertar importantes sobre como não se deve usar o conhecimento desta para padronizar ou apenas classificar levianamente os indivíduos. Jaspers propõe que não se deve reduzir o homem aos conceitos da psicopatologia, utilizando até a famosa frase “nosso tema é o homem todo em sua enfermidade”, para evidenciar a importância de se destacar o homem enquanto subjetividade e vivência e não impor o conceito patológico a este. Dessa forma, é importante saber até onde podemos ir pelo caminho das classificações e como o indivíduo não pode ser esquecido.

O que se pretende quando falamos sobre psicopatologia fenomenológica é estabelecer um caminho para a compreensão do sofrimento emocional a partir de um olhar não padronizado, como vemos na psicopatologia clássica, e sim valorizar a vivência do indivíduo frente ao que se apresenta como sofrimento, e até o lugar ocupado por este sofrimento ou angústia como parte do processo existencial, conforme explica Karwowski:

Isso posto, posso concluir que a psicopatologia fenomenológica revela, em última instância, as condições precárias do próprio estudioso; não mais pela ausência de garantias que a detenção do conhecimento psicopatológico poderia oferecer contra a ocorrência das psicopatologias no próprio estudioso, pois essas garantias o mero estudo da psicopatologia clássica já havia feito ruir; mas pelo fato de revelar naquela normalidade segura que se supunha habitar (livre de angústias, temores e sofrimentos) a própria angústia, o temor e o sofrimento, não como estruturas supostamente psicopatológicas, mas como elementos ontológicos, logo, inarredáveis da existência humana.  

O caminho aqui é aquele que se molda a partir do cliente, podemos estabelecer que partimos da redução fenomenológica, como o processo dar valor às experiências da pessoa em relação a queixa então apresentada, é aproximar-se do fenômeno com os olhos de quem te procura e não com uma verdade já pré-estabelecida.

Parte importante da ideia de uma compreensão fenomenológica da psicologia e psicopatologia é entender o conceito de intencionalidade, em nossa relação como mundo, atribuímos sentido às coisas, as pessoas e ao sofrimento, este entendimento é vital para um direcionamento do existencial fenomenológico no contexto das psicopatologias. 

Temos aqui então a compreensão de que a psicopatologia é uma vital área das ciências voltadas a saúde mental, estabelece leis e padrões que auxiliam a melhor conhecer e tratar os diversos fenômenos psicopatológicos que podem envolver cada ser humano, ao passo que não podemos deixar de olhar para a individualidade ao expor essa pessoa a esses conceitos. O que a fenomenologia nos propõe é pensar o homem a partir dele mesmo e não do conceito pronto e redutivo que pode ser as classificações mentais.

Referências:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. São Paulo, 2008. 


Karwowski, Silverio Lucio. Por um entendimento do que se chama psicopatologia fenomenológica. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rag/v21n1/v21n1a07.pdf. Acesso em 11/08/2021.

FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia fenomenológica: fundamentos, método e pesquisa. São Paulo : Pioneira Thomson Learning, 2002.

KARWOWSKI, Silverio Lucio. Por um Entendimento do que se chama Psicopatologia Fenomenológica. Revista da Abordagem Gestáltica – Phenomenological Studies – XXI(1): 62-73, jan-jun, 2015

Por: 

Psi. Rauane Monte Mor

Instagram: @rauanemor.psi 

e Patrício Lauro

É possível conversar e aprender racionalmente durante o Sonho? Sonhos Lúcidos e a Interação com o Mundo Externo.

Você não deve conhecer esta palavra, mas provavelmente deve conhecer (ou temer) o que ela representa: soniloquismo — ou falar enquanto dorme — é uma manifestação normal da atividade cerebral. Por isso, é considerado um distúrbio do sono benigno, ou seja, que não costuma indicar nenhum tipo de doença grave.

Muita gente morre de medo do que pode ser dito durante o sono. Principalmente as crianças, adolescentes e os casais. Uma vez que toda a nossa privacidade está concentrada ali. Já pensou se nem isso pudéssemos esconder de nossos pais ou pares?

Já sabemos através deste e deste artigo que os Sonhos representam uma parte de nossa atividade psíquica que não pôde ser completa ou parcialmente realizada, simbolizada e/ou significada durante nossa vida em vigília. Ou ainda aquela que gerou algum tipo de impacto direto ou indireto em nossos eternos conflitos entre as imposições da realidade e o ímpeto de buscar realização e/ou satisfação de nossa vida.

Inclusive foi possível perceber o porquê de estarmos sonhando mais durante o início da quarentena, imposta pela pandemia, neste texto aqui. Fato que não era difícil de se imaginar acontecendo, uma vez que nossas liberdades de movimento, de satisfação sexual, de lazer e conexões interpessoais foram amplamente cerceadas, interditadas por uma real ameaça à vida – própria e alheia. Não seria tão surpreendente que a gente encontrasse um cantinho só nosso para beber alguns pingos de todas aquelas necessidades necessariamente reprimidas.

Enfim, não é atoa que dá um medinho ser descoberto por tudo isso numa posição totalmente desprevenida. Mas o alívio de muita gente é que raríssimas vezes o que é falado nessas tem algum sentido para quem escuta ou sequer é lembrado por quem sonha. E algumas pessoas, mesmo que acordadas por alguns instantes, se voltarem a dormir sequer terão conhecimento de qualquer interação ali realizada. Mas existiria alguma forma de tornar este diálogo mais consciente?

Seria possível interagir durante um sonho?

Contudo, apesar de muitas pessoas falarem (e temerem o que é dito) durante o sono, é muito comum que haja apenas uma verbalização irracional de um fragmento do sonho. Um processo completamente inconsciente, que só se encontraria sentido a partir de extensa análise metafórica e metonímica dos significados ali presentes. No entanto, os cientistas da equipe do Dr Ken Paller, da Universidade Northwestern (Northwestern University), localizada em Evanston, no estado de Illinois, nos Estados Unidos realizaram um estudo com pessoas consideradas “sonhadores lúcidos – aquelas que durante um sonho alegam saber que aquilo é um sonho de fato, podendo algumas até controlar/escolher o que acontece ali – questionando exatamente isso: É possível conversar e aprender racionalmente durante o Sonho?

Seria possível aprender, interagir, obedecer ou até raciocinar a partir do que é introduzido por quem está “do lado de fora” daquele nosso pequeno e gigante parque de realizações privadas?

O Estudo

Conforme já sabemos, todos nós sonhamos. Podemos até não lembrar de nossos sonhos, mas sonhamos. E não estamos sozinhos nessa: do cachorro ao elefante, os animais também compartilham deste resquício de pensamentos que se transformam em imagens durante o descanso de nosso organismo.

A própria neurociência acredita que os sonhos ajudam no nosso processamento de memórias, inclusive aquelas que não temos mais acesso de prontidão. E como as memórias, os sonhos também não nos são de total acesso. Sabemos apenas a parte que lembramos, que por si só pode não ser mais tão completa. E esta foi uma das barreiras que os cientistas também encontraram no estudo, já que ficaram à mercê de dois fatores: os participantes, ou sonhadores, assim como nós, não podiam fala propriamente e diretamente com ninguém durante o sonho, relatando-o em tempo real; bem como sobraria aos pesquisadores o relato não necessariamente confiável daqueles que despertaram do sonho.

Mas antes de chegarmos diretamente a pesquisa, é preciso conhecermos um pouco mais sobre o sono e suas características, uma vez que a pesquisa aconteceu em um momento específico deste fenômeno que nos permite reorganizar o corpo e a mente.

Os Estágios do Sono

Estágio 1

Adormecimento: é aquele momento de transição entre a vida de vigília e seu final, que dá lugar ao sono. Sua duração cerca os 15 minutos e é introduzida a partir de algum tipo de relacionamento. É preciso reduzir o nível de alerta para que os músculos relaxem e a respiração fique mais leve.

Estágio 2

Sono leve: neste estágio os estímulos externos começam a se tornar cada vez mais irrelevantes para o cérebro. Alguém tocar em você não necessariamente irá despertar uma resposta, bem como os barulhos (leves ou intensos, variando de acordo com a personalidade) passam a ser ignorados. Seus batimentos cardíacos estarão cada vez menos intensos e o corpo terá uma temperatura menor do que no estado de vigília. É como se aqui o corpo se preparasse para o sono profundo.

Estágio 3

Assim como no estágio um, aqui há mais um momento de transição. Mas desta vez, ao invés de partir do estado de vigília para o estado de sono, é uma transição entre o sono leve e o sono profundo, com uma considerável redução da atividade cerebral somada a um relaxamento muscular.

Estágio 4

Sono Profundo: aqui é onde descansamos de fato. Apesar de não haver uma cessão da atividade cerebral, seus níveis mais baixos encontram-se neste momento. Há aqui uma regeneração celular e liberação do hormônio do crescimento, por exemplo. Aqui o corpo se revigora. É onde ocorre a reconstrução de fibras musculares rompidas em um treino de musculação, por exemplo. A sensação de que uma noite de sono foi “mal-dormida” está amplamente ligada à capacidade de adentrar ou permanecer neste estágio.

Sono REM

A equipe de Ken Paller começou do ponto de que os sonhos lúcidos estariam associados a um estágio específico do sono, chamado de sono REM, cuja sigla significa Rapid Eye Movement (movimento rápido dos olhos). Neste estágio, que ocorre logo após a etapa do sono profundo, há uma atividade cerebral quase tão intensa quanto no estágio de vigília. Com movimentos musculares, liberação de hormônios e até raciocínio lógico. Este é o berço da vida onírica tão acalmada por Freud.

Pesquisa, Método e Resultados

Pesquisas já apontam que estímulos externos podem sim, ter influência nos sonhos que temos. Mas a pesquisa em questão, publicada na revista Current Biology, procurou saber se era possível “encontrar” estas pessoas no sonho e obter respostas.

Dr. Paller e seus colegas, também cientistas, da França, Holanda e Alemanha, reuniram 35 voluntários já treinados a terem consciência de seus estados mentais – exatamente para que soubesse distinguir se estariam acordados ou em um sonho. Não seria errado, ou um chiste ruim, dizer que este sim, é o verdadeiro Dream Team.

Eles também foram treinados a realizarem movimentos distintos para a esquerda/direita com os olhos, tanto para indicar se estavam acordados ou em um sonho, como para responder as questões que seriam feitas. Eles também praticaram a identificação de números, transmitidos como flashes de luz, toques no braço ou até através de palavras que lhes seriam ditas. Observe na imagem abaixo, retirada diretamente da pesquisa:

Tradução (da esquerda para a direita):
[estímulos oferecidos ao voluntário]
(Caixa de som): palavras ditas, barulhos de beep (“pi, pi”); luzes piscando; estímulos táteis.

[respostas emitidas pelo voluntário]
(Desenho de um rosto com eletrodos): Movimentos oculares, contrações dos músculos da face

Após o treino e as orientações, os voluntários foram conectados a eletrodos e colocados para dormir. Para estabelecer contato, os pesquisadores tocavam o som e aguardavam a resposta através de um sinal ocular. Bem como, conforme combinado, os participantes também enviavam alguns sinais oculares em momentos específicos. Assim que era confirmado que o contato havia sido estabelecido, os pesquisadores começaram a fazer as perguntas.

Resultados

Agora acordados, os voluntários relataram que as perguntas eram incorporadas aos seus sonhos, como se tivesse agora se tornado parte destes. Um deles relatou escutar uma destas perguntas através do rádio do carro que dirigia, outro disse que os flashes de luz apareciam como se fosse uma luz piscando, numa espécie de farolete. Uma das perguntas numéricas, inclusive aparecia como o número de uma casa na rua em que se passeava pelo sonho.

Tradução:

[PESQUISADOR PERGUNTOU DURANTE O SONHO]: Você fala espanhol?

[VOLUNTÁRIO APÓS O EXPERIMENTO]:
“Eu estava em uma festa com amigos e sua voz estava vindo do lado de fora, como o narrador de um filme. E eu decidi responder que não [através de contrações nos músculos faciais].

Entretanto, para a loucura dos pesquisadores, ocasionalmente alguns participantes traziam à tona problemas de matemática diferentes daqueles que lhe foram proposto. Mas a parte surpreendente é que: antes, eles haviam respondido corretamente através dos movimentos oculares!

Tradução:

[VOLUNTÁRIO APÓS O EXPERIMENTO]:
“Quando as luzes começaram a piscar, eu reconheci isso como um sinal de Código Morse e contei ºººº -º–º —– e relatei a resposta “4” com sinais pelo olhar”

Mas o método ainda pareceu um pouco controverso, uma vez que os participantes disseram que em apenas 26% das sessões foi possível obter um sonho lúcido. E deste grupo, 47% respondeu de forma correta ao menos uma das questões colocadas.

Tradução:
[VOLUNTÁRIO RELATANDO]
“Enquanto eu sentia alguém me cutucando eu estava lutando com duendes do mau (goblins). E então eu lembrei e fiquei surpreso que eu era capaz de fazer tantas tarefas ao mesmo tempo”

Apesar de ser um estudo preliminar, algo foi provado: a comunicação com pessoas que estão sonhando não pode ser considerada 100% improdutiva.

As principais conclusões, afinal, não são tão diferentes daquilo proposto por Freud, em A Interpretação dos Sonhos, (veja aqui e aqui), de que:

  • Os relatos dos sonhos dados por alguém em um estado de vigília são frequentemente fragmentados e distorcidos;
  • É possível que alguém em um sonho receba uma mensagem de fora e está seja incorporada ao sonho.

E a novidade foi que: em alguns casos, quem está sonhando é capaz de responder em tempo real à perguntas feitas por quem está acordado, mesmo que seja appenas perguntas de “sim” ou “não”.

Quem sabe os próximos pesquisadores não tenham noções que nos deixem mais felizes quanto a este assunto no futuro? Aliás, não necessariamente todos ficariam mais felizes, é preciso dizer.

Referencia para a pesquisa na íntegra (em inglês):

Konkoly et al., 2021, Current Biology 31, 1417–1427
April 12, 2021 ª 2021 The Authors. Published by Elsevier Inc.


Bons sonhos!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

AUTOCUIDADO, A VACINA PARA PREVENÇÃO E MANUTENÇÃO DA SAÚDE MENTAL

Há mais de um ano em cenário de pandemia. E há mais de bilhares de anos, os indivíduos vivenciam diferentes situações de mudanças, perdas, catástrofes e revoluções. Se considerar na História da Humanidade o período de evolução inicial, os períodos de guerras, navegações, escravidão e de epidemias anteriores, será possível se dar conta do quanto foi e é exigido do Homem uma série de capacidades psicológicas.

Se seguir reparando a história da evolução humana, será possível perceber quanto sofrimento e situações estressoras o Homem já suportou. E ainda segue suportando, claro!

Atualmente, além de haver o contexto da pandemia, há uma série de particularidades ocorrendo, como: mudanças climáticas, corrupções políticas, dificuldades financeiras, violências, perdas pertinentes aos óbitos e adoecimentos variados. E como seguir dando conta do viver em meio as tantas informações e tantos caos?

Mais do que nunca, parece que o autocuidado se tornou mais necessário. Afinal, guerras particulares ocorrem com frequência, intensidade e em quantidade. Se trata da subjetividade de cada indivíduo adoecendo através do excesso de cobranças, informações, comparativos, afazeres, exigências, regras e constantes mudanças.

Excessos estes acima que podem levar a falta. Falta de tempo, falta de disposição, motivação, libido, diversão, estado de relaxamento, apetite, sentido de vida, confiança e outros. Mas no meio disso tudo, a única coisa que não pode faltar, mas que tende a ocorrer, é a falta de cuidado.

Autocuidado é a vacina da década! Ele é o recurso necessário para preservar a integridade da saúde física, mental, emocional, espiritual e relacional. Ele é a muleta necessária para fortalecer a resiliência, aliada este do Homem durante toda a evolução.

O autocuidado é para cuidar da vida, dos afazeres, dos problemas, dos relacionamentos, das finanças, dos sentimentos, dos anseios, dos sonhos, da doença e da responsabilidade de viver.

Para cuidar de si é preciso aproximar-se de si mesmo. É preciso reparar os limites, as necessidades, as dificuldades, os recursos de ajuda disponíveis, os desejos e também as próprias capacidades. Cuidar de si é um trabalho diário! É a atenção à relação mais importante que existe na vida, que é do ser consigo mesmo.

E para finalizar, um pedido e um bocado de dicas. Se cuide! Uma tarefa talvez um pouco difícil, mas possível e precisa. Além de protetiva e preventiva. Diga “SIM” ao autocuidado!

O bocado de dicas, conforme mencionado acima:

  • se exercite. No seu tempo, no seu ritmo e ao seu gosto
  • faça exames regulares
  • preserve seu descanso e seu sono
  • se relacione
  • pratique hobbies
  • mantenha a alimentação equilibrada
  • reserve momentos para passar um tempo sozinho(a)
  • pense e reflita sobre suas atitudes e emoções
  • se organize
  • se reconheça e se valorize
  • se aproxime dos seus recursos e redes de apoio
  • respeite seus limites

E por último, mas não menos importante:

  • FAÇA TERAPIA, caso você se identifique com a proposta dela

Aproveite este gesto de incentivo ao autocuidado e procure um profissional da Sociedade dos Psicólogos.

Por Tayna Wasconcellos Damaceno

REFERÊNCIAS:

BLAINEY, Geoffrey. Uma Breve História do Mundo. Ed. 3. São Paulo: Fundamento, Julho de 2015.

Covid: saúde mental piorou para 53% dos brasileiros sob pandemia, aponta pesquisa. BBC News, 2021.

Disponível aqui. Acesso em 31/07/2021.

HARARI, Yuval N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Ed.1. Porto Alegre: L&PM, Março de 2015.

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