Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber?

“O que é mais assustador? A idéia de extraterrestres em mundos estranhos, ou a idéia de que, em todo este imenso universo, nós estamos sozinhos?”

– Carl Sagan.

Por Caio Cesar Rodrigues .

Olá psicólogas e psicólogos, estudantes e leitores de todo o Brasil (e os de fora daqui que também nos acessam). Me chamo Caio. O artigo a seguir surgiu para tentar sanar certo Não Saber de nossa categoria durante este momento tão incerto que vivemos.

O texto inicialmente era destinado à psicólogas e psicologos, contudo, seu conteúdo servirá também a quem ainda se considere pouco informado a respeito do Novo Coronavirus.

Estamos em tempos difíceis. Estabelecimentos fechando, superlotação em mercados, pré-escassez de produtos como álcool gel e papel higiênico; isolamento, fechamento de fronteiras e quarentena em países Desenvolvidos e Em Desenvolvimento. Apesar de todo mundo sentir essa diferença, nem todos estão conseguindo ou até querendo se informar a respeito. E o texto tem meramente este propósito: informar.
Me disponho a ler e responder a todos os feedbacks; bem como a considerar a inclusão ou exclusão de partes deste texto a partir destes — na condição de haver o devido fundamento e/ou veracidade à avaliação destes, feita por mim.

O que será falado neste artigo?

Neste artigo tentarei falar sobre os seguintes aspectos:

  1. O que é e o que sabemos sobre o Novo Coronavirus e a doença COVID-19?
  2. Formas de contaminação, contágio e prevenção;
  3. Quantas pessoas estão contaminadas com o Novo Coronavirus ao redor do mundo até o momento?
  4. Quarentena, Isolamento, Fechamento de Fronteiras e Estado de Emergência e Calamidade Pública — Efeitos sociais que Pandemia está causando no Brasil e no Mundo ;
  5. Consequências da Pandemia no trabalho da (o) profissional da psicologia — mudanças, restrições;
  6. Influência da Pandemia em pacientes que possuem ou não psicopatologias/Transtornos Mentais – Implicações, complicações e manejo;
  7. Sugestões, discussões e possíveis soluções para a atuação da Psicologia em meio a este cenário Mundial nunca antes visto em sua história como ciência e profissão.

Após a publicação deste artigo completo, ele também será fragmentado em seus tópicos, linkados acima para facilitar a leitura, uma vez que sua extensão ficou bem maior do que o planejado.

O que é o Novo Coronavirus (COVID-19)?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a mesma declarar que estamos em uma Pandemia de Coronavirus, no dia 11 de março de 2020:

Os Coronavirus são uma grande família de vírus que podem causar doenças em humanos e animais. Nos humanos, muitos tipos de coronavírus são conhecidos por causarem infecções respiratórias, que variam de um simples resfriado comum, até graves doenças como A Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). O último tipo de coronavírus descoberto tem como causa a doença COVID-19.

(OMS, Q&A on coronaviruses (COVID-19) 9 March 2020 | Q&A, acessado em 19/03/2020)

E o que é COVID-19?

A resposta também é trazida pelo mesmo órgão, chefiado pelo Doutor em Saúde Comunitária pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido o acadêmico etíope que se tornou referência mundial a partir de suas pesquisas a respeito de epidemias, Tedros Adhanom Ghebreyesus:

“COVID-19 é a doença infecciosa causada pelo coronavirus descoberto mais recentemente (novo coronavirus). Este novo vírus e esta nova doença eram desconhecidos antes do surto começar em Wuhan, China, em dezembro de 2019″.

(OMS, Q&A on coronaviruses (COVID-19) 9 March 2020 | Q&A, acessado em 19/03/2020)
Tedros Adhanom Ghebreyesus é Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde

Ainda de acordo com a OMS, os principais sintomas de COVID-19 são febre, cansaço e tosse seca. Alguns pacientes têm dores, congestão e coriza nasal, garganta seca e até diarréia (OMS, 2020). Apesar disso, algumas pessoas não manifestam sintomas e se sentem muito bem, inclusive. A instituição também ressalta que 80% das pessoas se recuperam da doença sem a necessidade de nenhum tratamento especial e/ou hospitalizado. Contudo, uma em cada seis pessoas com COVID-19 irá desenvolver o sintoma grave da doença que é a falta de ar/dificuldade de respiração.

E quando falamos de pessoas idosas (+60 anos) e super-idosas (+80 anos) os problemas podem ser piores ainda. O mesmo vale para pessoas que têm/estão com baixa imunidade e portadores de doenças crônicas como hipertensão e diabetes (OMS, 2020). O órgão recomenda: pessoas com febre, dificuldade respiratória e tosse, devem procurar atenção médica.

Como o Vírus se Espalha?

A princípio por gotículas de secreções bucais ou nasais. Tosses, espirros; cuspes, escarros e beijos seriam formas diretas de contaminação. Contudo, se alguém tossir, espirrar, cuspir ou escarrar em uma superfície, esta também poderá conter o vírus por um prazo ainda desconhecido, em função da novidade que é a doença para o mundo. Consequentemente, as pessoas que tocarem nestas superfícies e levarem as mãos aos olhos, boca, nariz (ou ainda ao rosto e o próprio suor fizer o restante do caminho), poderão se contaminar (OMS, 2020).

Também será possível que isso seja feito através do compartilhamento de copos, talheres, travesseiros (pois pode haver saliva secretada durante o sono), etc.

A Agência ainda ressalta que:

  1. É mais provável que o vírus seja espalhado por gotículas do que pelo ar em si;
  2. É possível SIM contrair o vírus de quem ainda sequer manifestou (ou irá manifestar) sintomas;
  3. A forma mais eficiente de prevenção é lavar as mãos a partir de todo e qualquer contato tátil com pessoas e objetos utilizados por você e por elas, recomenda-se também a limpeza da superfície destes objetos;
  4. Deve-se manter a distância de 1 a 2 metros de qualquer pessoa que possa ter o vírus (5 metros em caso de espirros);
  5. A qualquer sintoma seu e de pessoas próximas a você FIQUE EM CASA;
  6. Havendo grandes sinais de contaminação na sua região, FIQUE EM CASA.

(OMS, 2020)

Apesar de todas as recomendações a respeito da contaminação, é praticamente impossível conter este tipo de contato nas dimensões ideais, mas sua minimização favorece na redução dos picos de infecção de uma região.

Um dos motivos para a facilidade de transmissão do vírus é o próprio tempo de incubação, período em que mesmo que o paciente não demonstre sintoma algum, já irá iniciar o contágio.

Acredita-se também que uma pessoa é capaz de infectar de duas a quatro pessoas simultaneamente, assim como essas pessoas infectadas também irão conduzir o contágio a mais 2-4 pessoas que, sucessiva e exponencialmente, contaminarão milhares de pessoas em poucos dias.

Como Desinfectar algo que contém o Novo Coronavirus?

Para que haja a desinfecção de uma superfície que teve contato com o vírus, é necessário que sua capacidade de reprodução e respiração sejam cessadas. E isso acontece quando destruímos sua composição principal.

O que faz isso? Água com sabão!

Mas como algo tão simples e que parou o mundo é morto apenas por água e sabão? Vejamos o que diz o especialista.

Segundo Thomas Pietschmann, virologista molecular e pesquisador no Centro de Pesquisa de Infecção Experimental e Clínica, chamado Twincore, em Hannover, na Alemanha, o Novo Coronavirus se assemelha ao vírus da Hepatite C porque ” é cercado por uma camada lipídica, ou seja, uma camada de gordura”.

Portanto “os vírus possuem mais estabilidade em baixas temperaturas. Semelhante aos alimentos que têm maior vida útil na geladeira”, já que a gordura não se dá muito bem o calor.

O especialista ainda deixa um alerta em relação à umidade do ar: “Nos dias frios e, em sua maior parte, secos do inverno, as pequenas gotículas flutuam, junto aos vírus, por mais tempo na atmosfera do que nos dias de alta umidade”.

Provavelmente agora já seja possível imaginar ou, para os mais familiarizados à biologia, entender por que é tão importante lavar as mãos com água e sabão. O sabão, o detergente e shampoo são agentes utilizados para remover a gordura das superfícies. Logo: quando fazemos isso com o vírus, removemos o que o faz sobreviver. O álcool em gel 70% também realiza esta função.

A seguir um vídeo sobre como lavar as mãos corretamente, para se prevenir do Novo Coronavirus de acordo com a própria OMS:

Detalhe: a torneira que é aberta com as mãos “sujas” (supostamente contaminadas) só é fechada pelas mãos limpas com o auxílio de um papel que impede o contato da mão com a torneira, possivelmente para prevenir a reinfecção através da superfície supostamente contaminada pela mão, que antes estava suja.

Você também poderá conferir toda a entrevista que o virologista deu ao site de Notícias DW Brasil Clicando aqui neste link.

Quantas pessoas estão contaminadas com o novo Coronavirus?

Até o momento da publicação deste artigo (20/03/2020), segundo o portal criado pela Microsoft para acompanhar os casos de Coronavirus (COVID-19) no mundo em tempo real, Às 07 da manhã deste mesmo dia os dados atualizados sobre a doença no mundo eram:

covid 19 pelo mundo

covid 19 pelo brasil

Vale ressaltar que, ao que a China conseguiu identificar, num trabalho de investigação de vários médicos, o chamado paciente zero (o primeiro a se infectar do mundo) — de acordo com o processo de rastreamento adotado a partir da investigação de dados fornecidos por mais de 250 pessoas infectadas — tenha iniciado o contágio em 17 de novembro de 2019, na cidade de Wuhan, localizada na província de Hubei, na China. A hipótese é que a transmissão tenha ocorrida após a ingestão de carne animal contaminada com o Novo Coronavirus. Uma das hipóteses é que tenha sido através da carne de morcego.

Mas o ponto principal de nossa atenção está na linha do tempo: do dia 17 de novembro de 2019 ao dia 20 de março de 2020, o vírus contaminou mais de 245 mil pessoas, matando mais de 10 mil, saindo de uma cidade da China para o mundo todo.

Casos Subnotificados

Deve-se levar em consideração que os Governos apenas estão testando os casos mais graves que derem entrada nos hospitais. A parte falha, no que diz respeito a conhecer o número real de casos em um país, é que: nem todos irão manifestar sintomas, assim como a maioria apresentará sintomas leves; contudo, este tipo grave de sintoma que o governo procura ter como alvo dos testes, justamente é aquele que só ocorre após quase duas semanas de infecção — período em que está pessoa irá contaminar outras sem saber que possui o vírus. (Tal modus operandi passou a funcionar no Brasil após o Governo localizar casos de contaminação comunitária, isto é, onde pessoas que não tiveram contato foram diagnosticadas com Covid-19).

Essas políticas de testagem também eram empregadas a princípio na China, mas foram substituídas pela testagem geral, principalmente das regiões em isolamento.

Estes fatores certamente ampliam muito a disseminação do vírus, então a orientação é para limitar tal contágio desenfreado por pessoas que não têm ciência de terem sido infectadas. Por conta disso, perante à percepção do aumento dos casos, Governos de todo o mundo começam a implantar políticas de isolamento, quarentena e até confinamento de suas populações, visando evitar tal transmissão comunitária.

Veja o exemplo do vídeo:

Quarentena, Isolamento, Fechamento de Fronteiras e Estado de Emergência e Calamidade Pública

O que significam os termos Quarentena e Isolamento? Por que estamos falando até em confinamento?

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Agentes da Polícia Nacional Espanhola fazendo guarda de uma rua vazia, após ser decretado isolamento parcial na Espanha. A foto é do dia 15 de março em Málaga, Espanha. (via Jon Nazca/Reuters)

Segundo o Minitério da Saúde, como o Brasil se encontra em Emergência em Saúde Pública de importância Nacional (ESPIN) em decorrência da Infecção Humana pelo novo Coronavírus (2019-nCoV), serão adotadas medidas como:

  • Quarentena: determinada mediante ato administrativo formal e devidamente motivado e deverá ser editada por Secretário de Saúde do Estado, do Município, do Distrito Federal ou Ministro de Estado da Saúde ou superiores em cada nível de gestão. Publicada no Diário Oficial e amplamente divulgada pelos meios de comunicação, com duração de até 40 dias, podendo ser prorrogada pelo tempo necessário para reduzir a transmissão comunitária e garantir a manutenção dos serviços de saúde no território.

No Estado de São Paulo, o Governo recomenda fechamento de shoppings e academias da Grande SP até fim de abril, e também recomenda fechamento de igrejas, suspende cobrança de água e dá férias a professores.

enquanto a Prefeitura de São Paulo adota medidas para evitar disseminação do coronavírus, tais medidas servirão para evitar a circulação de pessoas e a formação de aglomerações, sendo que na Cidade apenas comércios considerados essenciais irão funcionar (mercados, farmácias, restaurantes, hospitais, etc).

Tanto a Prefeitura Municipal, como o Governo Estadual de São Paulo, já decretaram suspensão das aulas. A medida também ocorre em outros Estados e Cidades.

E no Mundo?

Militares usam máscaras na Catedral de Milão: ponto turístico foi fechado após surto de coronavírus na região Flavio Lo Scalzo/Reuters

Atualmente, de acordo com o jornal inglês Metro UK ao menos 7 países já declararam quarentena em todo o território nacional, são eles:

E além dos países que não decretaram quarentena em todo território nacional, há os que decretaram em determinadas regiões, bem como os que decretaram quarentena voluntária.

A Polônia, Russia e Noruega fecham suas fronteiras, a Nova Zelandia diz que passageiros que chegarem ao país, inclusive cidadãos neozelandeses, deverão permanecer isolados por 14 dias; A cidade de Londres fecha escolas e boa parte dos comércios, bem como cerca de 40 estações do Underground, o metrô londrino; os Estados Unidos decretam restrição de voos que venham da Europa. (Segundo o Jornal Metro UK, 2020).

Em cenários como estes, como as pessoas são orientadas à permanência em casa, é previsto que os comércios comecem a fechar por conta própria, as ruas já se encontrarem vazias e a sensação de quarentena ocorra mesmo sem um decreto oficial.

O colapso se estende à economia, ao abastecimento e à autoestima dos moradores.

Impactos

Empresas estão convertendo o trabalho presencial de seus funcionários em trabalho remoto (home-office), assim como também preveem queda nos lucros e atividades. A tendência é que todas as áreas em que forem possíveis o trabalho remoto, ele seja empregado o mais rapidamente possível.

E estas são as medidas que também chegarão à Psicologia, uma vez que causarão intensa mudança no estilo de vida, desemprego, mudança nas formas de trabalho; alteração nas relações sociais, na percepção da solidão e em casos de psicopatologias de caráter ansioso e depressivo, por exemplo.

E se o psicólogo ou a psicóloga forem seguir as determinações dos órgãos governamentais e da OMS, como poderá atender seus pacientes? Se devem ser evitados os deslocamentos, como os pacientes chegarão até o consultório? E todos deitarão no mesmo divã ou sentarão na mesma poltrona — onde outros que poderiam ter se contaminado sem saber já teriam deitado?

Numa profissão onde o tato tem seu lugar imprescindível, as restrições de contato podem contaminar nossa prática?

Consequências da Pandemia no trabalho da (o) Profissional da Psicologia — mudanças, restrições

No dia 14/03/2020, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), fez um comunicado à categoria que poderá ser visto neste link.

Nele, havia as seguintes orientações:

  • A(O) profissional deverá observar recomendações do Ministério da Saúde, OMS, Secretarias de Saúde e autoridades civis sobre eventuais possibilidades de quarentena, resguardo, isolamento. Para fins laborais, deverá seguir a legislação vigente referente a atestado de afastamento;
  • Recomenda-se a prestação de serviços em locais ventilados, não fechados, que permitam manter distância de um a dois metros entre pessoas, se possível. Pois, até aquele momento, não houve orientação das autoridades para suspensão de atividades;
  • Caso a(o) profissional opte pela prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologia da informação e da comunicação, como o atendimento on-line, deverá seguir as orientações da Resolução CFP nº 11/2018, em especial a necessidade de realização de um cadastro prévio junto ao seu Conselho Regional de Psicologia (CRP); (CFP, 2020)

Houve também a suspensão dos eventos com maior número de atividades no Conselho.

Contudo, dois dias depois, publicou um este comunicado sobre atendimento online, dizendo que apesar de ainda ser necessária a realização de um cadastro no portal E-Psi, durante os meses de Março e Abril, não será necessário aguardar a confirmação para realizar tais atendimentos (regra imprescindível antes da Pandemia de Covid-19).

Imagem do comunicado divulgado pelo CFP disponível em https://site.cfp.org.br/

Caso você seja psicóloga (o) e deseja saber como se cadastrar para realizar atendimento online, há um tutorial gratuito, que publiquei em um texto deste blog ensinando o passo-a-passo e com dúvidas comentadas sobre o tema. Clique neste link e disponha.

Há aderência da categoria?

É muito cedo para que tenhamos dados concretos e publicados em algum local oficial. Mas no contato que tenho tido com colegas de profissão, amigos que fazem análise, supervisão ou psicoterapia e até mesmo em meus próprios atendimentos, o atendimento online/virtual/remoto tem sido um opção bastante oferecida, considerada e utilizada. Mas ainda há sessões presenciais sendo realizadas.

E o que muda?

Isso irá depender de muita coisa, inclusive das linhas teóricas. Mas apesar de ser muito difícil de determinar, em função do pouco tempo em que isso é adotado mesmo antes da quarentena, as diferenças aparecem de maneira positiva e negativa; de maneira sutil ou moderada.

Indaga-se se poderia haver um aumento da Resistência ao Tratamento, uma redução da eficácia dos atos analíticos, mas estas são Outras discussões. Em tempos onde as opções são: a) realizar o atendimento remoto; b) interromper o tratamento; ou c) correr o risco de agravar ainda mais a pandemia desconsiderando medidas de quarentena, édevemos nos adaptar à realidade e ao que ela nos permite. Contudo, listei algumas dificuldades até agora observadas:

  • Problemas de conexão que podem causar delay (atraso) no áudio/vídeo, assim como problemas técnicos com microfone e/ou fones de ouvido;
  • Problemas de privacidade, onde o paciente encontra dificuldade em encontrar um local tranquilo, silencioso e que lhe garanta a possibilidade de falar o que quer e/ou precisa. Neste cenário, alguns optam por realizarem a sessão por dispositivos móveis de seus quartos, escritórios, banhos e até dentro de seus carros;
  • Dificuldade de manter o silêncio das sessões, podendo ele eventualmente ser confundido com problemas de conexão;

Outrossim, pude perceber, com base na minha experiência, de pessoas que passam por tratamento desta forma e também de alguns colegas: que o processo têm funcionado. Dados estes que passam milhas astronômicas de distância de serem científicos ou bem fundamentos em alguma pesquisa, uma vez que estamos falando de algo inédito.

E também há algumas vantagens percebidas, como por exemplo:

  • Possibilidade de maior desinibição de alguns pacientes, pois agora pode haver a sensação de não estar falando diretamente algo a alguém, algo semelhante àquela confiança que muitas pessoas demonstram de maneira mais elevada na internet, cabendo aos terapeutas e analistas a devida atenção à fala e ao conteúdo. Algo longe de ser o caso de casos e também longe de não ser o caso de ninguém;
  • Maior flexibilidade de horários e, em alguns casos até de valores, de forma que fique mais confortável para ambas as partes, pois cada um está em sua residência.

Contudo, o assunto do Novo Coronavirus e os impactos que ele tem na vida das pessoas, naturalmente, se tornou recorrente no consultório. A vida das pessoas mudou e irá mudar. O futuro é um lugar mais incerto do que já era em nossos tempos ditos normais. O que se pôde perceber no consultório em função da Pandemia?

Influência da Pandemia em pacientes que possuem ou não psicopatologias/Transtornos Mentais – Implicações, complicações e manejo;

Como a nossa Psiquê pode perceber a quarentena e o isolamento?

A Itália está com suas ruas vazias. A Espanha tem locais que parecem inabitados. Alguns cidadãos Europeus estão assemelhando os carros da polícia, do exército e a cidade vazia a um cenário de Guerra. E podemos nós dizer que estão errados?

Um membro da Brigada Paraquedista do Exército Espanhol patrulha a icônica Puerta del Sol, praça no centro de Madrid, na Espanha, em 17 de Março de 2020.

Nosso futuro, ao menos o futuro recente, está morto quando pensamos em algum tipo de previsão a respeito do desfecho do cenário atual. Não há ainda pleno saber da dimensão que a Pandemia irá tomar. O vírus não distingue anônimos de famosos, ricos de pobres, ateus de religiosos, brancos e pretos; políticos e apolíticos (incluindo o Presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre).

Não importa quem você seja, você está sujeito a ser contaminado. Não é uma frase tão simples de se dizer ou ouvir. Muito menos quando o preço para não ser contaminado e não contaminar ninguém é a tal da liberdade. E até aquele tal do afeto, que é expressado por abraços, beijos e apertos de mão.

Algumas pessoas podem até não acreditar na veracidade ou da gravidade desta Pandemia. Outras até o fazem, mas se recusam a levar a sério as medidas de precaução, como se suas pessoas já estivessem imunes ou ainda que seja improvável a sua contaminação.

Após recomendação de quarentena de seu Ministro da Saúde, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, vai à frente do Palácio do Planalto cumprimentar e tirar foto com manifestantes. em protesto de apoio ao Presidente e repúdio aos Outros Poderes, no dia 15/03/2020. As manifestações ocorram por todo o país, mesmo após a recorrente solicitação de não aglomeração.

Agora iremos nos deparar com nós mesmos. Mais ainda: com a fragilidade de nosso corpo, com a morte da imagem Imaginária de uma pessoa que não poderia ser nada senão sadia, potente e invulnerável, como se fosse recebesse eternamente o afeto de suas figuras de proteção.

Qual será a plateia para nossas demonstrações de potência? Seja financeira, seja de influência sobre os outros. Em alguns casos sobrará a virtual, em outros não. De onde virá nosso apoio durante este período de solidão e reclusão? E se estivermos sendo descartados do convívio social em função de nossa vulnerabilidade? Como lidar com isso?

Tudo isso poderá ser causador de grande aprendizado e fortalecimento; mas também causador de certa angústia, de certa ansiedade – e o que seria a ansiedade senão também o pensamento nas mil possibilidades de um futuro incerto, mas certamente danoso? Mas que outra chance teríamos de conhecer a nós e a aos pares, trios, grupos e aglomerações afetivas que ficarão conosco durante este isolamento?

É sem dúvida um momento de intensa reflexão: voluntária ou não, mas como fica este cenário em pacientes que já lutavam com alguns aspectos deste dia-a-dia, mas de forma nada deliberada e socialmente estimulada?É triste.

E os que tiverem Transtornos Mentais?

TOC – Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) (CID 10: F42/ DSM 5: 300.3)

Tomando como exemplo o TOC, colocarei em paralelo sintomas e necessidades nos tempos de urgência.

Caracterizado por obsessões — pensamentos ou imagens mentais de natureza recorrente, invasiva, incessante, ordenada e indesejada, que promovem severo desconforto. Nestas, em geral, há regras sobre o que pensar, organizar mentalmente ou imaginar para que haja cessão deste desconforto. E também por compulsões, onde é exigido do sujeito, por si mesmo, a realização de atos, dizeres, movimentos e até a organização do cenário externo para que haja equilíbrio internamente. Estes se tornam uma espécie de ritual, não raro fazendo parte da rotina de indivíduos durantes anos, mas que também podem ter aparição ou intensificação durante períodos específicos de sua vida. Em geral, os atos compulsivos tendem a se alinhar aos pensamentos obsessivos e/ou até serem necessários para sua cessão.

O tipo de ritual e/ou pensamento tende a variar de acordo com cada sujeito. Havendo até tipos de pensamentos e ações de múltipla ordem, em geral associados a muita ansiedade. Mas há duas formas de manifestação do transtorno que escolhi destacar: os relacionados à higienização do corpo e dos objetos/ambientes.

Rituais de Higienização Compulsiva

Para ilustrar melhor um dos casos, trouxe o vídeo a seguir, onde uma pessoa lava as mãos de maneira compulsiva dentro de uma escola:

Contudo, ao assistir este vídeo, além de me compadecer ao sofrimento de quem passa por isso, também me veio à mente algo muito incômodo: esta pessoa seguiu exatamente as recomendações da OMS sobre uma das formas de não contrair o Novo Coronavirus. Inclusive, o próprio vídeo demonstrativo do órgão pode trazer algumas semelhanças com o vídeo acima, confira novamente:

Claro que em alguns casos de TOC desta natureza o ritual chega até a tomar horas do dia do sujeito, sendo repetido até bem mais do que as 5 vezes que a OMS nos recomenda realizar tais ações.

E também não podemos esquecer da compulsão por limpeza de superfícies e ambientes:

  • pessoas que podem lavar a louça duas vezes;
  • higienizar maçanetas várias vezes ao dia;
  • limpar o chão, os móveis e os objetos da casa repetidas vezes e em determinadíssimos horários, entre outros.

Mas o nosso ponto é que:

  • Pensamentos em relação à incerteza, culpa, (pela?) a contaminação, a sujeira e a iminência de morte ou doença, podem estar associados a rituais deste tipo de TOC também. E estes não poderiam se agravar em meio a uma pandemia? Seus atos compulsivos agora podem ter, além de múltiplas e misteriosas motivações internas, uma nova e alarmante motivação externa? Sem dúvida, e este pode ser o problema;
  • Pensamentos obsessivos e atos compulsivos podem aparecer e se intensificar relação à associação de uma linha direta entre a contaminação e morte de terceiros, mais ainda quando estes são pais, mães, avós e pessoas de altíssima estima ao sujeito, que fazem parte dos Grupos de Risco, os mais propensos a complicações severas e até à morte com a COVID-19.
  • Me pergunto se também falamos de pessoas que já podem ter sentido sentimentos dúbios a respeito da vida ou morte dessas pessoas, como toda pessoa pode ter tido em alguns momentos da vida.
  • A culpa — mesmo que apenas em pensamento — de contaminar alguém nessas condições, principalmente por descuido — por sujeira, por falta de higienização e atenção — , é algo que deveras alguém não gostaria de carregar. Muito menos se já houve pensamentos desta ordem em algum momento, mesmo que distante, de sua vida. E geralmente nestes momentos se intensificam os rituais e o sofrimento destes pacientes.
  • Agora que há uma justificativa elevadamente plausível (mesmo que em níveis e intensidades diferentes) para alguns destes atos dos sujeitos, o acompanhamento destes casos será crucial para que os sujeitos consigam diferenciar seus sintomas de seus cuidados.

Transtornos de Ansiedade Generalizada, Social e Pânico; Fobias, Estresse Pós-Traumático; Depressão e Compulsão por Compras (Oniomania)

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Os pensamentos a respeito de um futuro incerto, o medo irracional de objetos e situações e, pasme, aglomerações; o temor em sair de casa e a falta de prazer e vontade em relação às atividades disponíveis durante o isolamento; a compra compulsiva por itens como alimentos, álcool gel e até papel higiênico, e até armas! O conhecido panic buying. Sem contar na ansiedade que é experimentada durante todo contato social, evitando-o ao máximo.

Observando tais comportamentos da maioria da população em suas casas, estabelecimentos, cidades e até países, poderíamos até experimentar um sentimento parecido com aquele de Simão Bacamarte em Itaguaí. Mas definitivamente não podemos apressar nossos julgamentos, conforme fez, erroneamente, o médico português da obra de Machado.

Pessoa idosa se deparando com escassez de produtos de higiene pessoal,

Se em dias normais estaríamos falando de claramente de sintomas de alguns Transtornos Mentais como Depressão, Transtorno do Pânico, Agorafobia, Compra Compulsiva e TOC, nos dias de hoje, comportamentos incomuns como os que foram descritos, podem se tratar de necessidades reais. Mas nem sempre, precisamos de muita atenção neste momento:

Um paciente que sofre de hipocondria (condição caracterizada pelo medo desproporcional de ficar doente e/ou a constante confusão de condições normais a sintomas de doenças graves e/ou recorrentes) poderá experienciar ou acreditar estar vivenciando sintomas da Covid-19 em função de seu estado mental. Assim como um paciente que sofre de algum transtorno de ansiedade poderá experimentar falta de ar durante uma crise de ansiedade e confundí-la com um sintoma da doença causada pelo Novo Coronavirus. Daqui poderia acontecer, por exemplo, uma ida desnecessária aos hospitais que poderá: tirar as escassas vagas de quem precisa e até gerar uma exposição desnecessária que resulte num contágio real.

A sutileza da diferença entre o que pertence ao interno e ao externo nunca foi de tamanha importância. E aí é que entrará a importância do trabalho dos profissionais da saúde mental — mesmo que online!

O isolamento poderá mobilizar o paciente deprimido, assim como o paciente que sofre de Pânico poderá reagir de maneira desproporcional às orientações de ficar em casa. Quando tivemos o surto de outro tipo de coronavirus em 2003, um número considerável de pacientes e profissionais das equipes médicas que cuidaram destes, desenvolveram sintomas e transtornos de ansiedade, estresse pós-traumático, depressão e Agorafobia.

Nosso trabalho envolverá pacientes da doença ou não, acometidos por esta onda esmagadora de tensão que vive o mundo. Equipes médicas sobrecarregadas, familiares em luto e até pacientes que entrem em Cuidados Paliativos necessitarão de profissionais da Saúde Mental como nunca antes visto.

Nosso papel será, além de atenuar o agravamento dos sintomas daqueles que já sofrem destas condições e tentar minimizar o impacto psicológico que estes tempos poderão trazer.

Mas o faremos com calma.

Sugestões, discussões e possíveis soluções para a atuação da Psicologia em meio a este cenário Mundial nunca antes visto em sua história como ciência e profissão

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP e ganhador do Prêmio Jabuti. Foto: O Estado de Sâo Paulo

Os profissionais da psicologia também são treinados para a atuação em situações de emergência e desastres. Esta é, inclusive, uma linha de atuação da profissão. Contudo, e quando eles mesmos estão em quarentena? Quando mesmo não sendo desta especialidade, precisarão agir de forma minimamente semelhante com seus pacientes e clientes que também são afetados por tal condição?

“Se você está exagerando na compulsão por notícias ou no estoque de álcool gel, verifique se não está tentando pular o trabalho de “se acalmar”. Ler, meditar, conversar livremente, escrever são práticas que ajudam para isso”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Em entrevista ao Estadão, Christian Dunker, psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP, e autor de diversas obras, sendo uma delas ganhadora do Prêmio Jabuti. Quando perguntado sobre os efeitos de isolamentos/confinamentos ao redor do mundo, nos faz olhar para a semântica cultural da palavra, que poderia ser muito significante à forma com que fomos apresentados ao que fazia ilusão, em outros momentos, às situações de hoje: “o confinamento é uma experiência psíquica desafiante, pois aprendemos desde cedo que ele é uma forma de punição: ‘vá pensar no seu quarto’ ou pior ‘vá para a prisão'”.

O autor classifica o isolamento como experiência “potencialmente ansiogênica [que cria ansiedade]”, e que “Notícias, informações e cuidados podem nos acalmar desde fora, mas a angústia que a solidão causa, exige que nos pacifiquemos desde dentro..”. A orientação do Ganhador do Prêmio Jabuti é que:

“Se você está exagerando na compulsão por notícias ou no estoque de álcool gel, verifique se não está tentando pular o trabalho de “se acalmar”. Ler, meditar, conversar livremente, escrever são práticas que ajudam para isso”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

O psicanalista nos alerta que este cenário também pode estimular nosso egoísmo, sensibilidade e até negação da realidade severa e preocupante que nos ronda. Para o pós-doutor pela Manchester Metropolitan University, estas situações podem nos remeter a algo semelhante ao desemparo, ao abandono e à desproteção.

O psicólogo ilustra o que o caos de uma pandemia pode mobilizar em nossa psiquê: tanto uma narrativa desesperada, buscando apontar que haja, por parte da humanidade, alguma forma de controle a respeito da situação de exceção, como quais sentimentos poderiam aparecer sem a presença de tais narrativas:

“Podemos simplesmente negar a situação, colocando a cabeça dentro da terra, podemos inventar conspirações delirantes de modo a nos garantirmos que no fundo há “um sentido maior nisso”. Podemos nos sentir desamparados, abandonados, como se nossos protetores tivessem tirado férias”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Fica a pergunta:

Se a presença do vírus e, consequentemente, a ausência da imagem que tentávamos manter perante o mundo persistir, será que o Novo Coronavirus poderá ser um antídoto para o Mal Estar que nossa Civilização estaria vivendo em função do Poder? Pois como algo microscópico poderia ter tanta facilidade em derrubar Grandes Nações e, ao mesmo tempo, nos causar tanta dificuldade perante a Grandeza (ou mania de) de alguns?Esperemos que o psicanalista esteja certo a respeito do aprendizado que este momento poderá nos prover em meio a tanto desprovimento. Pois, ao que parece, sua visão também contém certo otimismo:

“Penso que será uma dose cavalar de vitamina h que está faltando ao Brasil, ou seja menos potência de controle, arrogância e grandiosidade e mais humildade diante da vida e dos pequenos microorganismos que podem nos derrubar”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Leia a entrevista diretamente no site do Estado de São Paulo clicando aqui.

Há males que vem para o Bem? Parece ser exatamente o tipo de discurso que seria criticado por outra e não menos importante referência na área.

“A cada doença são atribuídos significados diferentes, mas o pano de fundo é quase sempre um ódio pela vida urbana como lugar mefítico, perigoso, onde o mal prolifera”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

Já o também psicanalista italiano radicado no Brasil, deixa sua impressão. Contardo Calligaris, que já realizou um doutorado em Semiologia com Roland Barthes e também participava das conferências do famoso psicanalista francês Jacques Lacan, dedicou sua Coluna Semanal à Folha de São Paulo às falas sobre o Novo Coronavius. Numa delas do dia 11/03, avaliou o “Coronavirus como Metáfora“, num genial comparativo da Covid-19 com outras chagas de nossa história.

Calligaris, 2009 (foto:Rodrigo Cancela/CPFL Cultura)

Colocando tais doenças como metáforas (sintomas?) aos acontecimentos de uma determinada cultura, podendo estas serem utilizadas, em discursos oportunistas como formas de castigo aos comportamentos humanos, que alguns grupos radicais querem excluir, usando como exemplo os que era dito durante a epidemia de AIDS nos anos 80:

“A cada doença são atribuídos significados diferentes, mas o pano de fundo é quase sempre um ódio pela vida urbana como lugar mefítico, perigoso, onde o mal prolifera”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

Mas também chamou atenção à doença atual que, por coincidência ou não, poderia até servir de metáfora, de narrativa, para comportamentos e pensamentos inerentes deste determinado período civilizatório:

“Considere a Europa se fechando diante dos refugiados africanos e asiáticos, e os Estados Unidos, diante dos refugiados das Américas. Considere a Inglaterra do brexit. Considere a volta de patriotismos abstratos mundo afora. Considere a estranha vontade de construir muros. Paira no ar uma nostalgia do lar, um suposto “amor” da “nossa terra”, que é sobretudo medo do novo e do estrangeiro”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

E o produtor da serie Ps! (Psi) da HBO ressalta que: “A epidemia de coronavírus será, por um tempo, metáfora da resistência à ampliação do mundo. Mas não é o caso de se preocupar. A epidemia não vai ganhar, não como metáfora”.

É possível ler sua coluna completa clicando neste link.

“[…] é a primeira pandemia em época de televisão e de streaming e, sobretudo, a primeira em que dispomos da possibilidade ilimitada de nos relacionar com amigos, parentes e amantes. Podemos estar isolados mas nunca sozinhos”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Uma semana depois, num considerável aumento da doença pelo mundo, suas cirúrgicas impressões se atualizam um pouco mais — fazendo um deslocamento importante de nossos olhares para o frequente estágio de negação das pessoas perante à doença, ao invés das urgências em realizar estoques de produtos como alimentos e itens de higiene, frequentemente colocado em foco.

Para citar exemplos de tais fenômenos o psicanalista cita que: “um bispo declara que o vírus é simpático e irrelevante, enquanto o medo do vírus é coisa de Satanás”; e também a aparente despreocupação do Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Bolsonaro, frente à Pandemia:

“Outro exemplo de negação nos foi oferecido pelo presidente do Brasil, que se comportou como um garotão, o que o tornaria até simpático, se ele não fosse presidente. O que significa se comportar como um garotão? Significa uma insegurança radical, pela qual nada é tão importante quanto receber um aplauso.

Bolsonaro pode certamente entender os argumentos de seu próprio ministro da Saúde, mas é incapaz de resistir ao charme de um breve momento em que será admirado por um punhado de seguidores”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Para o escritor ítalo-brasileiro, ao caminhar portando a bandeira que antes estava na mão de um de seus apoiadores à porta do Palácio do Planalto, o Presidente demonstrou um “exemplo perfeito de patriotismo abstrato”, pois […]um transtorno narcisista (banal nos adolescentes, mas nem tanto num idoso) prevaleceu sobre qualquer cuidado (este, concreto) com a população brasileira”, um entusiasmo que o presidente acreditava causar em seus apoiadores enquanto tentava demonstrar felicidade e patriotismo, seus atos colocavam em perigo seus “compatriotas”.

Presidente Jair Bolsonaro segurando uma Bandeira do Brasil, pega das mãos de manifestantes no Palácio do Planalto, mesmo contrariando as recomendações de seu Ministro da Saúde

Mas nem tudo é ruim na visão do Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de Provença, na França. Ele também acaba elogiando o canto que revelava o “sentimento de um destino compartilhado” daqueles confinados na quarentena que ocorre em sua Terra Natal, o que considera, de fato, patriotismo.

O psicanalista, que também diz na Coluna que está atendendo seus pacientes de maneira remota (online), ressaltou o lado bom que pode haver neste momento de nossa história:

“[…] é a primeira pandemia em época de televisão e de streaming e, sobretudo, a primeira em que dispomos da possibilidade ilimitada de nos relacionar com amigos, parentes e amantes. Podemos estar isolados mas nunca sozinhos”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Clique aqui e leia o texto de Contardo Calligaris na íntegra.

“O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

O Presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), Bernardo Tanis, publicou no blog da Instituição uma carta de recomendação aos psicanalistas do Instituto. Conhecido por sua tradição, o local que foi pioneiro e é referência em oferecer, oficialmente, uma formação em psicanálise no Brasil, foi responsável pela formação em de muitos profissionais no Brasil. Entre eles, muitos psicólogos, médicos e psiquiatras.

Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP. Foto disponível em: https://psicanaliseblog.com.br/

Dentre estas orientações uma se destaca: “estarmos disponíveis para nossos analisandos, seja de modo presencial quando possível ou pelas ferramentas remotas ao nosso alcance”. Conforme já sabemos, o analista deve mostrar seu desejo: que o analisando se analise! E hoje os meios tecnológicos permitem mais flexibilidade em tempos como este.

Tivemos casos de negação da condição e dimensão reais do vírus, um dado que, mesmo denso, merece receber nosso olhar com atenção nos casos recentes.

Em ligeiro tom de advertência, Bernardo nos lembra a importância de não ficarmos próximos a nada que for extremo:

“O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

Mesmo considerando as medidas adotadas pelos Governos mundo afora como “importantes” e “necessárias”, o psicanalista que também é Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP, deixou um importante recado sobre o momento em que vivemos:

“Como psicanalistas sabemos que a incerteza, o medo e a insegurança têm ressonância com angústias primárias e o nosso desamparo constitutivo e demandam também outras modalidades de contenção. O melhor e o pior da humanidade emergem nestas horas”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

Considerações Finais

Apesar de minhas impressões vazarem ao longo da escrita, a intenção deste artigo não era bem revelá-las, mas aproveitando o inevitável, me vem à cabeça o duro golpe dado pelo vírus em nosso Saber,

Ele danifica nossos pulmões muito menos do que o faz em relação à nossa Imagem de que tudo estaria sob controle. Os Lugares que passaremos a ocupar nesta sociedade que foi contaminada pelo nosso temido e angustiante Não Saber, se tornaram plenamente incertos. O tempo que ficaremos sob o confinamento de todas as nossas certezas é, decerto, muito menos certo do que a única coisa que será Real a respeito de tudo isso: o nosso Não-Saber.

A partir da Pandemia de um vírus invisível, sofreremos daquilo que nos será indizível, inominado e inaudível a tudo que construímos como civilização até hoje, da frase que assola da criança ao Presidente; do terraplanista ao cientista; do religioso ao cirurgião: ainda não somos bons o suficiente.

Mas meus colegas sabem bem que daremos nosso jeito. A dor e a perda farão parte do processo, bem como fizeram de nossa Constituição como Sujeitos; a falta de liberdade nos fará lembrar dos dias de chuva que vivíamos lá atras, mas sem previsão de Sol tão cedo. Contudo, seja pela culpa, pela alegria ou por alguma bondade resista em meio à tantas histórias: sejamos solidários, sejamos lúcidos e pacientes. Mas não sejamos neutros — e que não nos falte ar para gritar, mesmo que pela internet — que resistimos. E será um prazer resistir, dividir e existir, pois, nas últimas aspas deste artigo:

“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.”

Carl Sagan

Por Caio Cesar Rodrigues .

REFERÊNCIAS

(Em ordem e estilo livre)

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014

Organização Mundial da Saúde. CID10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10a rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997.

https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses

http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-188-de-3-de-fevereiro-de-2020-241408388

http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-356-de-11-de-marco-de-2020-247538346

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/03/19/senado-vai-votar-projeto-de-decreto-de-calamidade-publica-nesta-sexta

http://www.saude.sp.gov.br/resources/cve-centro-de-vigilancia-epidemiologica/areas-de-vigilancia/doencas-de-transmissao-respiratoria/influenza/doc/srag18_orientacao_atendimento_casos.pdf

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51803421

https://www.dw.com/pt-br/do-que-os-v%C3%ADrus-precisam-para-sobreviver/a-52573544
(Conselho Federal de Psicologia, 2020. Disponível em: https://site.cfp.org.br/coronavirus-comunicado-a-categoria/ . Acessado em: 19/03/2020).

Coronavírus: Comunicado sobre atendimento on-line

https://brasil.estadao.com.br/blogs/inconsciente-coletivo/saude-mental-durante-a-pandemia-por-christian-dunker/

Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/03/quais-os-efeitos-do-coronavirus-na-cabeca-da-gente.shtml. Acessado em: 20/03/2020

Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/03/quais-os-efeitos-do-coronavirus-na-cabeca-da-gente.shtml. Acessado em: 20/03/2020

Bernardo Tanis, 2020. Via blog de psicanálise da SBPSP. Disponível em: https://psicanaliseblog.com.br/. Acessado em: 20/03/2020

Diferenças entre Medo, Fobia e Ansiedade.

Você saberia diferenciar medo, fobia e ansiedade? Sim? Não? Em ambos os casos: este texto será perfeito para você.

O Grito. Obra-prima em óleo sobre tela do pintor expressionista norueguês Edvard Munch. Foi pintada no ano de 1893 e atualmente pertence ao acervo da Galeria Nacional de Oslo. O Pintor se inspirara muito em Vincent Van Gogh, tendo a autoria de sua obra frequentemente confundida, como se fosse do pintor holandês. Suas cores, suas formas, seus traços e as expressões faciais ali representadas são frequentemente associadas ao sentimento de medo, fobia, angústia e ansiedade do ser humano.

O Medo

E se você pudesse sentir medo pela primeira vez?

Outro dia me peguei pensando sobre o que seria uma reação estranha e incômoda de meu corpo. Mais ainda: o que seria esta reação que ao longo de minha vida aprendi a enxergar como algo normal, mas no sentido de quase inexistente: inerente. Tal fato fez com que eu me questionasse: como poderia ser sentir isso pela primeira vez? Este questionamento se deu quando eu estava com meus pensamentos envoltos sobre o ato de sentir medo. Afinal, o que é isso?

O Medo é uma emoção. Uma emoção básica. Se você ainda tiver dúvidas sobre o que é uma emoção, consulte este texto do psicólogo Caio Ferreira. O medo é uma resposta neuropsicofisiológica, com caráter evolutivo, por vezes mais motivado à via cultural, por outras pela via instintiva. Mas sua convergência é uma só: o medo sempre causará fortes desconfortos físicos e/ou psíquicos a quem o experimenta.

Se você encontrar um Leão…

“Hércules luta com o leão de Nemea” é uma pintura de Francisco de Zurbarán exibida no Museu do Prado em Madri, Espanha.

Pra que serve o medo?

O medo é uma emoção que provoca descargas de adrenalina; que aumenta ou diminui o fluxo de sangue do corpo — pode causar vasodilatação ou vasoconstrição – provocando vermelhidão ou palidez na pele; o medo dilata as pupilas para melhorar nossa capacidade de visão até em ambientes mais escuros; o medo é até capaz de provocar a liberação de urina ou fezes de maneira involuntária. E há tantas outras descrições… Embora estas interações emocionais – ocorridas em muitas áreas do cérebro, mas principalmente na integração entre a amígdala, o hipocampo e o hipotálamo – apontem principalmente um caráter de paralisia ou fuga – maior fluxo sanguíneo para maior produção de ATP e maior energia muscular para correr; liberação de urina e/ou fezes com função de afastar predadores através do odor, por exemplo – o medo também pode ser uma forma de preparar nosso corpo para uma luta. Inclusive, paralisia, luta e fuga são respostas autônomas ao medo. Tanto no ser humano como nós animais.

Por exemplo na imagem acima. Hércules, apesar de ter derrotado o Leão de Neméia através de uma árdua luta, provavelmente não teria deixado de sentir medo. Contudo, outras pessoas (e me incluo nessa lista) provavelmente não lutariam contra um leão. Algumas ficariam paralisadas, tremeriam suas mãos e pernas e ficariam com dificuldade para respirar; outras correriam; algumas até poderiam utilizar o córtex pré-frontal em conjunto com o hipocampo para lembrar daquelas técnicas aprendidas na internet sobre como agir perante um leão. Mas aqui falamos de uma exclusividade humana.

Em suma: o medo, apesar de seus desconfortos, serve para proteger a nós mesmos e à nossa espécie. Mas e quando ele acontece de maneira desmedida?

As Fobias

Fobos (Phobos) e seu pai Ares em uma carroagem retratados em Ânfora de aproximadamente 500 anos A.C.

O que une Marte a Vênus é o medo e o terror na Terra.

Phobos e Deimos eram os gêmeos que nasceram da junção do amor, da sensualidade e da beleza de Afrodite (Vênus na versão Romana) em contato com a Guerra, as Armas e os Conflitos de Ares (Marte, na versão Romana). Vale ressaltar que Afrodite era casada com Hefesto, tratando-se, portanto, também de uma traição. Bons filhos que eram, entre seus desejos e aspirações encontrava-se a vontade de sempre acompanhar o pai em suas Guerras. Desta forma, não haveria Guerra em que o Medo (Phobos) e o Terror (Deimos) não acompanhassem os homens.

Em seu papel de Daímon, alguma parte própria natureza humana se manifestava através deles. Se essas divindades não existiram na realidade, com certeza existiram através da força que seu mito tinha para permear o discurso dos guerreiros. Passam a existir no corpo de cada soldado e de cada general — através daquilo que este sente — sua aparição é inerente à Guerra. E não haverá Guerra alguma sem medo ou terror. Mas haveria menos ainda a existência de qualquer um dos dois se até o maior dos guerreiros não precisasse de amor. Então para resumir o mito: a paixão (pathos) que transita entre o amor e a guerra deu a luz ao medo e ao terror dos seres humanos.

A palavra Fobia, em sua raiz grega, deriva deste Deus ou demônio (daímon) que era Phobos, a personificação do medo.

O que é uma Fobia?

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) entendemos como fobia um medo específico e irracional, ou seja, além das perspectivas reais de perigo daquele objeto que causa tal medo — que pode ser um animal, uma situação e/ou um próprio objeto inanimado:

“Os indivíduos com fobia específica são apreensivos, ansiosos ou se esquivam de objetos ou situações circunscritos. Uma ideação cognitiva específica não está caracterizada nesse transtorno como está em outros transtornos de ansiedade. Medo, ansiedade ou esquiva é quase sempre imediatamente induzido pela situação fóbica, até um ponto em que é persistente e fora de proporção em relação ao risco real que se apresenta. Existem vários tipos de fobias específicas: a animais, ambiente natural, sangue-injeção-ferimentos, situacional e outros”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233-234).

A palavra fobia entra como uma representação patológica do que seria a superestimação do perigo real que este medo a um objeto ou evento específico (para ser caracterizado fobia precisa ser em relação a algo específico) pode ou não acompanhar as manifestações fisiológicas mais comum a quem experiencia a emoção do medo em graus elevados. Ex: sudorese, tremores, paralisia, gritos, etc.

Curiosamente, derivando do grego Phobos, o daímon que representava o medo na Mitologia Grega, a nomenclatura deste Transtorno Mental parece ter sido escolhida de forma que também acompanhasse, em partes, a narrativa do mito.

Fobias Específicas

Certa vez, enquanto uma pessoa me relatava sobre uma fobia que possuía, correu um fato curioso: apenas por dar uma descrição mais detalhada do objeto em questão, esta pessoa demonstra tremendo desconforto, visível ao seu rosto e ao seu corpo – ambos passaram a ser protegidos pelas suas mãos.

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A Fobia pode se tornar uma espécie de lente de aproximação dos perigos quem podem ou não representar aquele objeto ou evento específicos.

Talvez você conheça algumas pessoas têm nojo de barata. Sem dúvida também conhece outras que têm medo. Mas você conhece adultos, idosos anônimos e famosos que paralisariam, suariam frio, sofreriam de uma incômoda taquicardia e até chorariam como uma criança perante este mero inseto? Para o caso de conhecer: ajude esta pessoa a buscar por um psicólogo e/ou um psiquiatra, pois é possível que ela sofra de entomofobia, ou insetofobia.

Para o diagnóstico de fobia específica ser considerado, é importante ressaltar que a relação de elevada aversão e ansiedade perante o objeto deverá persistir por período igual ou superior a seis meses. Ainda se faz necessário destacar que para começarmos a distinguir um medo de uma fobia, é também preciso avaliar se e o quanto aquilo causa sofrimento e incapacitação na vida daquele indivíduo.

Alguns exemplos de Fobias Específicas

ATENÇÃO: Caso o leitor sofra de algum caso de Fobia Específica, esta seção poderá conter imagens explícitas de seu objeto fóbico.

Aracnofobia: aranha, de forma real ou imaginada;

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Acrofobia: de altura; de lugares altos, de muros, sacadas, etc;

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Agorafobia: de espaços abertos; shows, concertos, multidões em geral;

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Claustrofobia: de lugares fechados/trancados: elevadores, túneis, etc.;

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Hematofobia: de ter contato ou de apenas ver sangue ou vestígios de.

Imagem relacionada

A Fobia na Psicanálise

Talvez o caso mais famoso de fobia retratado na psicanálise é o do Pequeno Hans, e sua fobia de cavalos. Caso contado por Freud. Recomendo a leitura da obra, mas para quem quiser conhecer brevemente o caso, o psicanalista Christian Dunker traz um breve resumo em seu Canal no Youtube:

A Ansiedade

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“Chegou o final de semana. Finalmente eu poderei colocar em dia os estudos que deixei atrasar. Dessa vez eu vou conseguir atualizar os detalhes de minha agenda! Agora dará tempo de arrumar o meu quarto, de trocar a lâmpada do forno do meu fogão. Mas hey, primeiro eu preciso levar o cachorro para passear. Também não posso me esquecer de reservar uma hora de cada dia para ir à academia e, com certeza, de ler minhas 50 páginas diárias. É bom que eu também me lembre de relaxar, de ouvir alguma música. Será que não tá na hora de checar as minhas redes sociais? O que as pessoas poderiam estar pensando de mim? Será que aquela foto ficou muito comprometedora para o pessoal do trabalho ver? MAS EU AINDA NÃO ESTUDEI! Imagina se o cachorro ficar o dia inteiro sem passear? Eu deveria me esforçar para me organizar mais. MEU DEUS! Eu ainda não atualizei a agenda e ainda faltam 49 páginas. Acho que vou dormir. É uma pena que eu não consigo fazer nada direito”.

Esta é a síntese de alguns pequenos momentos dentro da mente de alguém que sofre de ansiedade. É como se o pensamento tivesse vida própria, como dizem muitos pacientes. E isso cansa, pensar se torna um trabalho. Um trabalho pra lá de exaustivo.

A ansiedade torna a vida do sujeito atemporal. Vive-se o passado e presente em simbiose com as possibilidades (frequentemente negativas) do futuro. É o medo em sua forma crônica, constante e às vezes invisível. É uma enxurrada de palavras preocupadas que pré-ocupam toda e qualquer atenção e relaxamento na vida de um sujeito.

Quem sofre de Ansiedade não tira Férias

A imagem pode conter: texto
Passagem do Romance “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski.

A ansiedade ocorre na mente e no corpo. Dificilmente ela age isoladamente em um dos dois, por mais que a princípio alguns sintomas dêem a entender tal fato.

Não é incomum que um paciente que sofra de ansiedade descubra isso após seu dentista lhe apontar o desgaste que o bruxismo causa em seus dentes.

Em alguns casos, quem prevê o diagnóstico é o próprio gastroenterologista, após uma forte dor no estômago que mais tarde se descobre ser uma gastrite.

Quando me perguntam sobre a relação entre gastrite e ansiedade, eu gosto de recorrer à seguinte explicação:

– A gastrite é uma condição médica onde o próprio suco gástrico, que, presente no estômago para auxiliar na digestão dos alimentos, acaba corroendo as paredes que revestem o órgão internamente – quadro muitas vezes corroborado por um padrão alimentício rico em acidez.

Contudo, há relatos de pacientes que mesmo em uma dieta praticamente alcalina apresentaram o distúrbio. Por alguma coincidência, esses pacientes geralmente têm um perfil comportamental mais ansioso. Eventualmente temos aqui um diagnóstico de um quadro conhecido como dispepsia funcional. Ou, popularmente falando: Gastrite Nervosa.

– Uma das causas da gastrite nervosa é a liberação de suco gástrico sem a presença de alimento e/ou fisiopatologia que cause tal fato. Mas o que faria o organismo ter este tipo de comportamento? Talvez um chiclete, já que ele simula uma refeição e a pessoa poderá sofrer caso se encontre de “barriga vazia”. Mas e se o paciente sofrer da condição mesmo sem o hábito de mascar chiclete?

Será que isso é algo como se o organismo estivesse pulando etapas? Como se este se atropelasse na pressa de fazer tudo de uma vez? Talvez como se a sua digestão, da mesma forma em que ocorre com os pensamentos apreensivos de um paciente ansioso, esteja lá no futuro, lhe causando desconforto agora.

O que é a Ansiedade, afinal?

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A ansiedade, segundo Dalgalarrondo:

[…] é definida como estado de humor desconfortável, apreensão negativa em relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e fisiológicas (dispneia, taquicardia, vasoconstrição ou dilatação, tensão muscular, parestesias, tremores, sudorese, tontura, etc.) e manifestações psíquicas (inquietação interna, apreensão, desconforto mental, etc.).

(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166).

Portanto, é importante ressaltar que estamos falando de uma condição por vezes altamente incapacitante. A ansiedade costuma trazer insônia, comprometendo a organização dos ciclos circadianos do paciente; pode atrapalhar relações de trabalho com atrasos e faltas frequentes; pode, inclusive, comprometer relações amorosas e familiares. Nada aqui se compara ao famoso “frio na barriga” antes de uma esperada viagem – causado por uma descarga de adrenalina

Lembrando disso me cabe também contar que, ao começo de minha vivência clínica, quando atendia pacientes encaminhados via convênio médico em parceria com uma instituição, era altíssimo o número dos encaminhamentos médicos com a hipótese diagnóstica de algum Transtorno de Ansiedade.

Mas o fato mais curioso, que não me foi ensinado à graduação de psicologia era que a maioria destes pacientes não era composta por pessoas encaminhadas por um psiquiatra, mas sim pelo cardiologista – em geral após uma suspeita de infarto ou cardiopatia ser descartada por uma bateria de exames realizada um pouco depois de o paciente ter dado entrada no Pronto Socorro de um hospital.

Os Sintomas da Ansiedade

Dalgalarrondo (Ibid) divide os sintomas entre mentais, ou seja, relacionados à experiência interna, subjetiva, do indivíduo; e somáticos, relativos ao corpo, à fisiologia; à parte observável diretamente.

Quadrinho
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166. Quadro 16.3)

Contudo, é preciso cuidado. Os sintomas da ansieda não lhe são exclusivos. Eles já apareceram em Outro lugar. Eles são muito semelhantes ao que se sente no medo. Entretanto, o próprio DSM-V faz questão de nos atentar às diferenças entre medo e ansiedade:

“Medo é a resposta emocional à ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, com o medo sendo com mais frequência associado a períodos de excitabilidade autonômica aumentada, necessária para luta ou fuga; pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga e a ansiedade sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e vigilância em preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233).

A partir desta afirmação, se faz importante observar que há uma clara semelhança entre os sintomas da ansiedade com a expressão de uma das sete emoções básicas: o medo. Não é atoa que há eventual confusão entre os dois termos. A ansiedade talvez se pareça mais com um medo que, a princípio, se hospedaria naquele local apenas por um final de semana, mas encontrou lá razões para permanecer por tempo indeterminado.

As próprias manifestações fisiológicas são bem parecidas às do medo e da fobia. Mas a principal diferença é que, pelo menos a princípio: a ansiedade pode não possuir relação com causa/objeto específicos. Em alguns casos, como no Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), uma crise de ansiedade pode acontecer de maneira súbita, sem causa aparente. Quem quiser mais detalhes sobre a ansiedade, recomendo a leitura de um excelente texto da psicóloga Masilvia Diniz clicando aqui.

Transtornos de Ansiedade

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Você sabia que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde?

Os Transtornos de Ansiedade são diagnosticados de acordo com as recomendações da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID 10) – gerido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) –, e/ou pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) – regido pela American Psychiatric Association. Sempre por um psiquiatra. Contudo, o tratamento pode e deve ser realizado com vários profissionais trabalhando em equipe. A multidisciplinaridade, como forte aliada à saúde mental, é indispensável. Desde o psicólogo, o psiquiatra; à nutricionista, o terapeuta ocupacional; até ao educador físico e ao endocrinologista. Caso você sofra de algo parecido, procure urgente um profissional da área da saúde mental.

Exemplos de Transtornos de Ansiedade

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Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Sendo uma de suas marcas o roer de unhas, falamos aqui de um quadro de sintomas ansiosos que persistem por pelo menos seis meses, passando a causar elevados prejuízos aos âmbitos social, produtivo e afetivo do indivíduo que sofre desta condição.

A angústia e a insônia não são raras, confira a lista de sintomas que Dalgarrondo (2008) descreve a respeito desta condição:

TAG
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

O TAG é algo que com alguma frequência parece não ter uma causa aparente em suas crises. E de fato não é fácil estabelecer uma linha entre os fatores que poderiam desencadear a expressão de uma crise de ansiedade.

Para ilustrar tal fato, me recordo de uma situação relatada para mim onde, todos os dias na mesma hora, um pouco após chegar ao trabalho, uma pessoa que sentia muita vontade de ser demitida começava a experimentar uma crise de ansiedade. A princípio, para alguns psicólogos e psicanalistas, a relação entre as duas coisas parecerá evidente. Contudo, foi preciso que mais detalhes fossem buscados para que se começasse, em consultório, recolher as migalhas de pão”deixadas no caminho através da fala do paciente para depois entender mais nuances que o sigilo profissional não me permitirá expor aqui. As informações deste tipo não são tão simples de se chegar ao acesso, exigindo um pouco de paciência e atenção da parte do terapeuta.
O tratamento para o TAG é realizado com psicoterapia e, em casos mais acentuados, há o uso de medicamentos em conjunto.

Transtorno do Pânico

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É o medo de sentir medo. Um dos mais incapacitantes transtornos de ansiedade. Suas manifestações se estendem através de descargas do sistema nervoso autônomo; exatamente por isso, seus sintomas são até mais incapacitantes do que no caso de outros transtornos. Por exemplo: “batedeira ou taquicardia, suor frio,
tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos
em membros e/ou lábios” (Dalgalarrondo, 2008, p. 305).

Panico
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

Ainda de acordo com Dalgalarrondo (2008) , algo é unânime entre os pacientes: a sensação de que irá morrer a qualquer momento. Em crises mais intensas pode haver até certo grau de despersonalização. O ataque de pânico costuma ocorrer por mais tempo que o convencional. Quando estas crises de pânico se repetem com certa frequência por um período de 6 meses, pode-se começar a indagação a respeito de um diagnóstico relacionado ao Transtorno do Pânico (podendo ser com ou sem agorafobia).

Pacientes que sofrem de Transtorno do Pânico começam a evitar sair de casa com medo dos ataques; pedem demissão, terminam relacionamentos e, em casos mais graves até cometem suicídio em função da insuportabilidade de seu sofrimento.

A Ansiedade tem tratamento

Agora que você já sabe a diferença entre medo, fobia (que no DSM-V também é considerada um transtorno de ansiedade) e ansiedade teremos o objetivo principal em pauta: auxiliar na busca pelo tratamento, inclusive estimulando pessoas próximas a fazerem o mesmo. Se o leitor se identifica com a maior parte dos sintomas e algum dos transtornos aqui apresentados, a recomendação é que procure um psicólogo e/ou um psiquiatra o mais rápido possível, mesmo que apenas para tirar a dúvida. A internet não serve para isso.

A diferença é feita na hora da procura por um profissional. Mas a difusão do conhecimento sobre o assunto também poderá ajudar para que mais pessoas consigam entender que talvez seja a hora de escutar a opinião de quem dedicou, e ainda dedica a vida pessoal e profissional para ajudar quem passa por este tipo de sofrimento. Compartilhar este texto e deixar seu feedback também ajudarão à difusão deste conhecimento. Faça a sua parte. Até a próxima.

*Todas as imagens contidas no texto foram obtidas de forma gratuita na internet. Caso alguma delas seja de sua autoria, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos o mais rápido possível*.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERENCIAS:

American Psychiatric Association et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.

Cabral, A.; Nick, E. Dicionário Técnico de Psicologia. São Paulo. Editora Cultrix. 2006.

Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed Editora. 2008.
Darwin, C. A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras. 2009. (Obra original publicada em 1872).
Ekman, P. A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel. 2003.

Lent, R. Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu. 2010.
Rafailov, Igor. “Dicionário Igor de Fobias.” Forum de Fobias, 2003.

Spinelli, M. “O Daimónion de Sócrates”. Revista HYPNOS. São Paulo. Ano 11/nº 16 – 1º sem. 2006 – p. 32-61. acessível em http://revistas.pucsp.br/index.php/hypnos/article/view/4777/3327

Ansiedade, Atenção Plena e Black Mirror

“Agora, mais uma vez, concentre-se na sua respiração… Repare como a sua respiração continua por si só… Sua mente pode vagar. Simplesmente observe… Calmamente… Sem julgamento…”

Assim começa o segundo episódio da quinta temporada de Black Mirror – Smithereens. Não parece, é um App Mindfulness (ou em português Atenção Plena), a narração transcrita acima é uma meditação guiada. Amplamente utilizada para tratamento complementar dos Transtornos de Ansiedade ou como uma maneira de ser manter o indivíduo focado no momento presente.

Charlie Brooker aparentemente trabalhou com uma paleta de cores pastel na quinta temporada do seriado Black Mirror (2011/____ ), diferente da temática do filme-evento Bandersnach. Em vez da usual crônica da vida privada sobre possibilidades de futuro HI-TEC distópico/pessimista, neste episódio vemos algo contemporâneo situado em 2018.

Black Mirror: Season 5 | Official Trailer | Netflix

Black Mirror é o convite a reflexão sobre efeito da tecnologia em nossas vidas, uma noção que se perde à medida que as facilidades vão aumentando. Você pode dizer que os dispositivos ou ‘modo de usar’ apresentados no seriado nem sejam inventados, mas o que está em jogo é que todos os dias novas tecnologias são criadas sem regulamentação jurídica ou vinculadas a um código de ética.

Quando você posta uma opinião no campo comentário, ou fotos em rede sociais, ou expia a vida alheira, curtidas, deslikes, retweets, solicita transporte, remédios, amenidades, roupas, peças de carros, aparelhos eletrônicos ou comidas, cada vez que você clica em botão aceito, seu bem mais precioso pode ser utilizado sem sua percepção: suas informações pessoais.

“Meios cada vez mais precisos para fins cada vez mais vagos, são uma característica da nossa época”.

Albert Einstein

Desde os primórdios, nossos ancestrais desenvolvem tecnologia para facilitar a execução e/ou minimizar o tempo de trabalho. Tecnologia Digital faz isto com maestria, cada vez menos intervenções humanas e cada vez mais algoritmos proporcionando autosserviço ao toque das suas mãos. Como sobra mais espaço em nossas agendas, podemos consumir outros conteúdos, e com isto, nosso tempo de vida é consumido.

Persona – Conectando você com o que importa

Após um dia de trabalho, o motorista do App de transporte vai a cafeteria, e ao ouvir o alarme de notificação dos celulares a sua volta, tem visível aumento de sudorese, demonstra irritabilidade e alteração comportamento. O intuito desta cena sem diálogos é instigar o espectador através da edição, sugerindo que o personagem apresenta sintomas de ansiedade. Geralmente, quando se menciona a palavra ansiedade, esta é sempre referida pelo escopo psicopatológico, descrição dos possíveis transtornos, sintomatologia, posologia e tratamento psicológico.

Afinal de conta, o que é Ansiedade?

Ansiedade é o medo de uma ameaça antecipada ou real e incerteza sobre a capacidade de lidar com isso, definição que consta no The Ekman Atlas of Emotions (tradução livre: Altas das Emoções de Paul Ekman). Semelhante ao sinal amarelo do semáforo (farol ou sinaleira, entre outro regionalismos do Brasil) que indica atenção, mostrando a iminência da parada obrigatória.

Por que nos sentimos ansiosos frente as situações?

A Psicologia Evolucionista, disciplina resultante da síntese entre a Psicologia Cognitiva e a Biologia Evolutiva, que engloba conhecimentos da Antropologia, Paleontropologia, das Ciências Cognitivas e das Neurociência, aponta que a perpetuação da espécie equipou seres humanos com este mecanismo biológico das emoções.

Você encontrará neste blog no texto a Psicologia das Emoções, a evolução dos estudos e embasamento teórico, mas adianto que medo é uma emoção humana, cuja função principal é preservar a vida. Se o dispositivo emocional de ansiedade de um individuo não sinaliza frente há uma situação de perigo, existe a possibilidade deste não ser humano.

Em outro texto também publicado neste blog (Por que todos desejam ser como Spock?) descrevo mecanismos do desenvolvimento biopsicossoal na Teoria Comportamental Cognitiva, mas neste ponto irei me ater aos mecanismos cognitivos do desenvolvimento humano.

“As funções executivas do cérebro humano podem ser consideradas um conjunto de processos cognitivos que de forma integrada, permitem ao individuo direcionar comportamentos a metas, avaliar eficiência e adequação destes comportamentos, abandonar estratégias ineficazes em prol de outras mais eficientes e, desse modo, resolver problemas de médio e de longo prazo (Malloy-Diniz, de Paula, Sedó, Fuentes e Leite, 2014).”

Todos os seres humanos deste planeta, independente de ter acesso a educação escolar, possuem este conjunto de capacidades. Porque aprendemos com nossas experiências, podemos ter respostas adaptativas aos problemas apresentados, é com isto, começamos em anteciparmos os acontecimentos. Então, podemos supor que em teoria, quanto maior for o repertório do sujeito, melhor será resposta frente as situações. Certo?

Daniel Kahneman, o Prêmio Nobel de Economia em 2002, afirma em seu livro Pense Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, que há dois sistemas funcionando em paralelo no cérebro: e o que pensa depressa e é automático – ligado a memória e as emoções – e o que pensa devagar é racional – isto leva tempo e consome energia. Podemos supor que o cérebro funciona no módulo avião (recurso que limita o consumo da bateria do seu celular), talvez por isto muitas funções são automatizadas, inclusive o pensamento.

Quando ansiedade vira doença?

De acordo com Robert L. Leahy no seu livro Livre de Ansiedade a reposta é clara e objetiva: é quando o sujeito começa sentir o medo certo na hora errada.

Uma mente pode estar com a sensação de algo está acontecendo novamente, ou que está perdendo o controle. Imagine como é ficar tentando antecipar possibilidades cuja evidências não corroboram para que se realizem?

Leahy afirma que, quando somos dominados pela ansiedade, a mente funciona 24/7, como se o botão liga/desliga estivesse sempre ligado. Um tsunami de pensamentos invade a mente do individuo, independe se a vida estiver com alegrias e as coisas estão indo bem, este fica preocupado demais com as ansiedades do passado e do futuro, que tudo que está a sua volta fica imperceptível. Isto mesmo, ao contrário do que dizem a ansiedade não é a mente pensando somente no futuro, a mente pode estar presa em algo que aconteceu e revivendo a sensação constantemente.

Ansiedade: Aviso de Utilidade Pública

Os Transtornos de Ansiedade são categorizados nos compêndios médicos CID 10 – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde publicado pela OMS em fase de atualização para CID 11 e DSM V – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Para saber se você é acometido por uma psicopatologia deste grupo, é necessário um diagnóstico adequado que nenhum site de busca não dará para você. O tratamento deve ser realizado com acompanhamento psicológico e medicamentoso, dependendo do grau de comprometimento do paciente.

Aos familiares, amigos e pessoas próximas é sempre importante lembrar que tentar acalmar dizendo ‘não se preocupe’ e ‘vai ficar tudo bem’, quase nunca ajuda efetivamente. A sensações físicas e sofrimentos psicológicos são reais é devem ser tratados com empatia genuína, gentileza e cuidado.

A orientação é buscar profissionais capacitados e treinados que irão auxiliar o indivíduo e familiares o caminho da melhor qualidade de vida.

Vale ressaltar que deste ponto em diante entraremos nos questionamentos e reflexões propostos neste episódio, portanto spoilers estão chegando.

“Descobre o que você puder sobre este cara.”

No início deste episódio, vemos o motorista de App de transporte (usando um App de Mindfulness) indo pegar uma passageira na porta Smithereens, que é um App de Rede Social. Ele pergunta para a mulher se ela trabalha naquela empresa, e a resposta é: “nem estava prestando atenção no que disse, mas não, quem me dera se eu trabalhasse.”

Dia seguinte novo passageiro, mesmo local de embarque, mesma pergunta: “você trabalha na Smithereens?” O rapaz em sua primeira semana de emprego, responde com um sorridente sim. Em seguida o motorista diz: “o App esta sinalizando trânsito no caminho para o aeroporto, posso utilizar um caminho alternativo?” Duas respostas afirmativas em seguida num episódio de Black Mirror, nunca é bom sinal. O motorista pacato se revela um sequestrador armado cujo o único objetivo é conseguir contato com o ‘Todo Poderoso’ criador/CEO do Smithereens (apenas para registrar é o App de Rede Social).  

O sequestro ganha contornos dramáticos quando o carro do sequestrador é cercado por várias viaturas da polícia. Os agentes têm dificuldades identificar o motorista, pois a placa do veículo está no nome de uma mulher. Enquanto isto, o sequestrador segue com seu plano, entrega seu celular na mão do sequestrado e o ameaça a ligar na Smithereens, ao fazer o que foi mandado, o número é rastreado.

Alguns cliques depois, os funcionários da rede social fictícia conseguem, como dizem no jargão policial, levantar a capivara do sequestrador. Gostos musicais, quantidades de acessos, compras, documentos, viagens, e entre outros padrões de comportamento comum em redes sociais. Como um passe de mágica um hacker disponibiliza o áudio do celular de dentro do carro e passamos a ouvir tudo que sequestrador e sequestrado conversam. Até os agentes da polícia, que não conseguiram identificar a placa, se impressionam…

Enquanto vidas correm perigo, usar a tecnologia para nossa proteção pode ser uma estratégia fantástica. No filme V de Vingança, o terrorista V diz: “eu entendo por que o medo fez com o que as pessoas entregassem sua liberdade em troca de segurança”. Bauman fala em seus livros sobre o Medo Líquido, que ocorre em relações amorosas, conflito entre países e instituições, que deixaram a ultrapassada solidez para um estado líquido impermanente, isto é atribuído ao medo.

“Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.”

Zygmunt Bauman

Você pode me dizer que não teve escolha. O mundo ficou grande demais, populoso, globalizado e concentrou riqueza em pouquíssimas mãos, e talvez por isto, o controle comportamental pelas plataformas digitais se tornou como vilão dos filmes da Marvel Thanos se auto proclama: inevitável.

No mesmo dia da postagem deste texto, o especialista em cibersegurança Marcelo Lau em entrevista ao Programa Pânico explicando como as mídias digitais impactam sua vida.

“Quero que você apenas me escute, apenas me escute.”

Enquanto isto, o sequestrador permanece irredutível, a única maneira de evitar uma tragédia é ter que interromper o retiro de dez dias em silêncio (uma espécie de detox sem eletrônicos, sem falar e sem contato humano) do “Todo Poderoso” criador/CEO do Smithereens, que ao ficar ciente da gravidade do caso, prontamente se oferece para atender a exigência do sequestrador. Muito suspense, manipulação e jogo de poder, jurídico e assessores tentam sem sucesso demover ideia do seu chefe. Quando o criador/CEO toma a decisão, dispensa seu staff e diz a sua assistente pessoal: “a vantagem de estar na minha posição é que eu posso brincar de ser Deus”. Ele mesmo captura o número e entra em contato com o sequestrador.

Neste momento, uma pausa para reflexão. Em tradições religiosas seculares, Deus é onipresente e onisciente, ou seja, está em todo lugar e sabe tudo. A ideia de falar com o criador é um desejo antigo do ser humano, Mary Shelley assombrou o mundo literário com seu romance Frankenstein em 1816, desde de então a ficção nos brinda com a mesma dinâmica, seja em Blade Runner (1982) ou até mesmo no recente seriado Westword (2016/___ ) da HBO.

O criador/CEO se identifica no outro lado da linha, dá a voz ao sequestrador que desejava confessar uma falha, algo que vez com que ele perdesse a razão do seu viver. Apenas porque naquele instante, ele deixou o momento presente e foi olhar em seu celular, que disparou uma notificação aleatória de algo de menor importância. O “Todo Poderoso”, com aparência messiânica de fala calma e tranquila, diz que não foi por isto que seu App foi criado. O objetivo inicial se perdeu com o tempo, cada vez mais pessoas subordinadas entravam no circuito, dando sugestões de melhorias que fizessem com que a rede social se tornasse mais atrativa, estimulante e consequentemente, mais viciante.

Não vou revelar o final do episódio, para não estragar a experiência, entenda isto como um convite. O objetivo é expor o quanto associamos ansiedade com o mundo contemporâneo em que vivemos, devido a constante eminência do perigo tecnológico e Black Mirror faz isto como nenhuma outra proposta de entretenimento.

O fato também inegável é que não há como parar a Revolução Digital. Antes bastava pensar para existir. A exigência agora é que para existir é preciso ser visto, curtido e compartilhado, nem que seja por seguidores comprados.

Talvez seja necessário regularizar, criar jurisprudência, aprender com os erros passados e ter mecanismos de segurança, pelo menos esta é a bandeira do Mark Zuckerberg, dono do Facebook.

“Não é possível que eu não possa fazer nada por você.”

Assim como no seriado, é fácil encontrar aplicativos de Mindfulness em loja de App para celular. Repare que há uma crítica no episódio na forma de utilização, o sequestrador usa Atenção Plena para aparentar calma ao manter-se na execução do seu plano. Este definitivamente não é o “para que” da Atenção Plena. Pesquisas cientificas revelam que mentes que conseguem manter-se no momento presente são mais funcionais e tem uma melhor qualidade de vida.

Recentemente, ouvi numa palestra na Taverna Medieval em São Paulo, na semana do Pint of Science, o Lama Rinchen dizendo que meditação “não é dizer o que uma pessoa deva fazer, mas guiá-la para que ela encontre a si mesmo no processo”.

Conheça a ti mesmo’, frase ainda hoje é atribuída ao filosofo Sócrates, mas tratava-se do lema dos cidadãos de Delfos na Grécia. Alegam que fora no Templo de Apolo que oráculo proclamou Sócrates ‘o homem mais sábio na Grécia’, e ele prontamente teria respondido: “se assim fosse, isso faria com que fosse o único homem que estava ciente da sua própria ignorância”. Na Enciclopédia Grega Suda do século X, há este interessante complemento à esta conhecida frase: “o provérbio é aplicado àqueles que tentam ultrapassar o que são“, ou “ainda um aviso para não prestar atenção à opinião da multidão.”

Psicóloga Masilvia Diniz

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BLACK MIRROR – Smithereens (5S2E). Criação: Charlie Brooker: Netflix, 2019. Streaming (70 minutos).

BAUMAN, ZYGMUNT – Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004b BAUMAN, ZYGMUNT –

CONHECE A TI MESMO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Conhece_a_ti_mesmo&oldid=55470184>. Acesso em: 12 jun. 2019.

LEAHY, Robert L. Livre de ansiedade / tradução: Vinicius Figuiera; revisão técnica: Edwiges Ferreira de Mattos, Rodrigo Fernando Pereira – Porto Alegre: Artmed, 2011. 248p.

KAHNEMAN, DANIEL. Rápido e devagar [recurso eletrônico]: duas formas de pensar / Daniel Kahneman; tradução Cássio de Arantes Leite. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS: DSM V [ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition], Tradução Maria Inês Correa Nascimento. Porto Alegre. Ed.: Artmed, 2014

MALLOY-DINIZ, Leandro F.; CAMARGO, (Org.). Neuropsicologia: aplicações clinicas. Porto Alegre: Artmed, 2016.p. 291.

MLA style: Daniel Kahneman – Biographical. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2019. Thu. 20 Jun 2019. <https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/2002/kahneman/biographical/

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. CID-10 : Classificação Internacional de Doenças. São Paulo : EDUSP, 1994, 1ª ed.