Coronavírus: Entre a Realidade e a Ficção

Na Grécia Antiga, o teatro introduziu um meio de contar histórias, sendo que as comedias eram encenadas para contar a história do homem comum e as tragédias contava a história dos Deuses e heróis. Em nosso tempo, não há uma distinção, em meio ao caos, realidade e ficção parecem estar lado a lado e de mãos dadas. ‘A arte imita a vida’ é uma frase usualmente atribuída a Aristóteles, mas de vez enquanto e de forma inesperada, parece que vida imita a arte.

Quando o que está acontecendo em tempo real não é parecido com nada que tenhamos vivido e natural buscarmos referências. Precisamos consumir algum conteúdo que minimamente nos organize frente ao desconhecido.

Ao pesquisar conteúdo para uma serie de lives sobre Coronavírus no Instagram da Sociedade – @spsicologos – autores afirmam que em pandemias as pessoas entram em negação. A mente humana é um grande desafio à uma eterna estudante do comportamento humano, por isto eu me aprofundei no tema.

O objetivo deste texto é iniciar uma série de reflexões sobre um livro fundamental para entendermos a complexidade do comportamento humano. Para além de buscarmos a plenitude, a perfeição e a felicidade, a vida é também é feita de interrupções que podem ser bruscas, inesperadas e com incontingências. Algo que não estava, emerge e se faz presente, algo que maior que nos tira dos trilhos e fica a frente deles.

O livro em questão é “Sobre a Morte e o Morrer” (1981), Elisabeth Kubler-Ross que descreve as fases do luto, que não dialoga somente sobre a finitude da vida, mas de todos os processos de ruptura que acontece enquanto vivemos. Este texto é sobre a primeira fase: a negação.

A vida em câmera lenta

A nossa visão do futuro agora se parece com uma viagem numa estrada, que em dado momento se aproximamos do trecho com neblina e é impossível ver o que está a sua frente. A única coisa a fazer e reduzir a velocidade, seguir em frente com cautela e lendo as orientações da sinalização.

Nós provavelmente, estamos vivendo um momento trágico de proporções mundiais. Ainda não há como mensurar, mesmo que comparada a outras tragédias da história recente, o tamanho e a magnitude do Coronavírus Covid-19 para o mundo tal como o conhecemos. As imagens falam por si, pontos turísticos e avenidas das grandes cidades vazias e corredores de hospitais lotados.

Além das notícias que a cada momento relatam histórias difíceis de assistir, há uma corrida desenfreada para que os cientistas – tão desvalorizados pelo pouco investimento do governo ao longo do tempo e pela crescente corrente que relega a importância das conquistas da medicina, como campanhas antivacinação – descubram o melhor tratamento aos pacientes internados e a vacina que fara arte do nosso calendário de vacinação. Ainda assim, haverá alguém no futuro que acreditará que tomar a dose da vacina é inútil. Não é obvio?

O Ministro da Saúde Mandetta falando sobre campanhas antivacinação

Olhando pelo retrovisor

Em 2011 eu assisti ao filme Contágio, dirigido por Steven Soderbergh, que optou por narrar sua história com um tom documental baseada na pandemia do H1-N1 de 2002. Ao assistir novamente para escrever este texto, não houve como não comparar ao que estamos vivendo neste momento. Outras pessoas, por razões diferentes tiveram a mesma percepção ao assistir o Poço (Netflix, 2019). Ambos filmes são gráficos e podem causar gatilhos.

Trailer do filme Contágio

No filme Contágio (Warner Bros.), o diretor aproxima sua câmera quando quer evidenciar como é a proliferação do inimigo invisível: o vírus. Nos diálogos expositivos, personagem explicitam três conceitos: o R-zero, fômites e isolamento social.

  • R-zero é o primeiro indivíduo que contraiu a doença, saber isto é importante, pois é possível identificar como tudo começou, como é transmitido, quantas pessoas são infectadas e quais são os sintomas.
  • Fômites são meios que são capazes de transmitir o vírus, mesmo sendo inanimados, como plástico, papel, madeira, alumínio, entre outros.
  • O isolamento social é a forma que impede que pessoas portadoras do vírus, mesmo que não tenha sintomas, passem o vírus para pessoas que sejam infectadas e a doença evolua.

Porque a ficção se utiliza das mesmas regras da nossa realidade, as semelhanças não são coincidências. Principalmente quando um repórter freelance começa divulgar sua história em blog, disseminando fakenews e afirmando que ele foi curado tomando um remédio específico, isto ocasiona uma corrida as farmácias. Obvio?

Além do filme, a situação atual também se assemelha com o conceito VUCA desenvolvido pelo Exército dos Estados Unidos no pós-Guerra Fria. Quando não sabemos como lidar com a situação, o mundo a sua volta se torna volátil, incerto, complexo e ambíguo. Há algumas semanas atrás, todos nós estávamos seguindo nossas rotinas, a ideia de que sabemos o que fazer e aonde ir é tudo que seu cérebro necessita.

Quando as coisas saem do trilho e se tornam inconstantes, os especialistas não entram em consenso em quanto tempo possa durar a quarentena, informações desencontradas, discordâncias entre orientações e fakenews alimentam em nós dúvidas e incertezas. Se a vida não é mais como era antes, todos nós perdemos algo ou podemos nos perder no caminho e neste momento entramos em negação.

Não, isto não está acontecendo comigo

Acabo de ver uma reportagem na televisão na qual uma senhora idosa, estava na feira para comprar frutos do mar para ceia da sexta-feira da paixão, sem máscara ou proteção. A repórter pergunta ‘não tinha outra pessoa para vir para senhora na feira?’ e a resposta foi ‘em casa, eu não fico não minha filha, não fico em casa de jeito nenhum’, volta para ancora que apenas diz ‘senhora volta para casa’.

Negação descrita no livro é um mecanismo de defesa, que rejeita um fato que é difícil de ouvir, mas nem por isto deixa ser fato. Kubler-Ross se deparou com vários casos em suas pesquisas, muitas pessoas frente a um diagnóstico, criam histórias que colaboram com a negação, querem ouvir outras opiniões, criam estratégias e uma pequena percentagem prolonga esta fase mais que o esperado.

Vou propor um exercício, imagine por um instante como seria o trânsito nas ruas e avenidas sem farol (sinal ou sinaleira)? Caótico, não é?

Assim são suas emoções, funcionando como um farol que te comunica quando é o momento de parar ou seguir em frente. O medo é uma emoção, não menospreze sua importância, sem medo você seria incapaz de se organizar frente ao desconhecido. Sendo assim, é natural frente ao caos sentir medo. Isto fará com que, se você tiver como, evitar aglomerações, usar a máscara, manter a higiene das mãos e limpar embalagens de produtos e alimentos antes de guardar. Sem medo, seriamos inconsequentes, colocando nossas vidas em risco o tempo todo. Não é obvio?

Alguns de vocês podem se perguntar se estocar papel higiênico é um tipo de negação – na matéria do site BBC – cita Steven Taylor, autor do livro lançado no final de 2019 ‘The Psychology of Pandemics’ (A Psicologia de Pandemias) em suas pesquisas tem uma outra percepção “papel higiênico virou um símbolo de segurança, embora não vá impedir que as pessoas sejam infectadas pelo vírus. Mas quando as pessoas ficam sensíveis a infecções, aumenta a sensibilidade delas para o que é nojento. É um mecanismo para nos proteger de patógenos”. Outro mecanismo de defesa, nossa mente tentando se organizar, mas de uma maneira menos lógica, mais emocional.

Além do fundo do Poço

Antes que eu escrevesse este texto, o colega Caio Ferreira me sugeriu assistir O Poço (Netflix, 2019).

Trailer do filme O Poço

O filme é uma alegoria, com o objetivo de provocar o público a refletir uma questão: quando a necessidade mais básica e primaria para a vida humana – a comida – não chega a todos, o que os seres humanos são capazes de fazer?

Antes de saber do que se tratava o experimento social, o protagonista e algumas pessoas se candidataram ao Poço por escolha própria e outras foram postas lá por falta de escolha. Dentro da prisão vertical subterrânea, os indivíduos são colocados dois por andar, a comida desce numa plataforma, as pessoas que estão nos andares mais altos podem se fartar da comida sem se importar se haverá comida para os andares abaixo. A cada trinta dias e de forma aleatória, os de cima sobem e os debaixo descem. Mesmo tendo passado fome no mês anterior, quando se encontra num andar mais alto, é possível sentir empatia e solidariedade pelos que estão abaixo de você?

No começo o protagonista se nega a comer não aceitando que agora, querendo ou não está é a sua realidade. Mas quanto tempo ele leva para aceita-la? Mesmo parecendo, não e tão obvio assim.

O filme não explica muitas coisas propositalmente e em nenhum momento vemos se as celas possuem a porta pela qual os prisioneiros são trocados de andar. O próprio diretor disse que este filme não é uma crítica sobre capitalismo ou socialismo, mas o que significa, ele deixa para o espectador.

Entrevista com o Diretor do filme e O Poço

Evidente são as referências ao catolicismo, como passagens literais da bíblia, os sete pecados capitais, a ideia recorrente de purgatório e o sacrifício para enviar uma mensagem para administração. Se este filme causar reflexão no espectador, o sacrifício não foi em vão.

O isolamento social pode salvar vidas, se você puder, fique em casa. Assim como também é inegável seu impacto social e econômico. Portanto, podemos pensar no próximo fazendo o que estiver ao nosso alcance e assim começar a sair do estado de negação. Por ora, importante é estar atendo ao que acontece dentro de si – lembre-se do seu farol – tomar as precauções e seguir as orientações do Ministério da Saúde. Mantenha o contato com seus amigos e familiares usando tecnologia, procurando informações de fontes confiáveis, montando uma nova rotina e tentando se adaptar ao momento presente.

Após a negação, começamos a experimentar outra emoção, mas isto ficará para o próximo texto. Como tudo é cíclico, iniciamos e retornamos a Grécia, do teatro e ao mito da Pandora presenteada por Zeus com uma caixa, cuja única orientação era não a abri-la. Ela não se conteve em curiosidade, e ao abrir uma fresta libertou todos os males como: doença, a guerra, a velhice, a mentira, os roubos, o ódio, o ciúme, entre outros. Ela tentou fechar antes que todos saíssem, mas a única que ficou foi a esperança. Não é obvio?

Psicóloga Masilvia Diniz

Contribua conosco, concordou, discordou ou deseja outras análises neste formato deixem seu comentário na caixa de descrição.

Referências

ATLAS OF EMOTIONS. EKMAN, Paul. (Opção em Português), 2020 Disponível: http://atlasofemotions.org/#introduction/. Acesso em 08 abr. 2020.

Bennett, Nathan and Lemoine, James, What VUCA Really Means for You (Jan/Feb 2014). Harvard Business Review, Vol. 92, No. 1/2, 2014. Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=2389563

CONTAGIO (Contagion). Direção: Steven Soderbergh: Warner, 2019. (106 minutos).

O POÇO (El Hoyo). Direção: Galder Gaztelu-Urrutia: Netlflix, 2019. (94 minutos).ROSS, Elisabeth Kübler. Sobre a Morte e o Morrer. Editora Martins Fontes. São Paulo 1996.

PANDORA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Pandora&oldid=57738502>. Acesso em: 8 mar. 2020.

ROSS, Elisabeth Kübler. Sobre a Morte e o Morrer. Editora Martins Fontes. São Paulo 1996.

Sociedade dos Psicólogos – Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber?

Coringa: Uma corda sobre o Abismo

Nietzsche em seu livro ‘Assim Falou Zaratustra’, narra a história de um homem que após anos em meditação isolado da civilização, deixa a caverna, desce da montanha para iniciar suas pregações.

Em suas andanças, depara-se com a figura de um equilibrista que fazendo seu número numa corda içada ao alto da praça e acima do povo, quando este chega ao meio do caminho, é molestado verbalmente por um homem com vestes coloridas semelhantes a um palhaço que ao chamar mais atenção do público, solta um grito “diabólico” para o equilibrista, pula entre os populares e sai ileso. O equilibrista acaba desconcentrando-se e cai, ainda consegue dizer algumas palavras antes de morrer nos braços de Zaratustra.

Ao sair da sessão de cinema de Coringa (Joker, 2019. Warner Bros) na minha mente veio a imagem deste palhaço. Contrapondo a Marvel em sua visão de mundo colorido e conectado em que todos se unem em prol do bem maior “custe o que custar”, a DC com este filme assume a postura do palhaço de Zaratustra: aquele quer desestabilizar o sistema.

Trailer do filme Coringa

Aviso este texto está repleto de spoilers do filme Coringa. Deste trecho em diante é por sua conta e risco.

Ao lutar contra os Monstros

Na trilogia do Cavalheiro das Trevas (2005/2012. Warnes Bros), tem a versão do mais aclamada do Coringa produzida pelo cinema. Grande parte disso é atribuído ao fato que a origem do Coringa indefinida. Cada vez que ele está em frente de uma vítima, ele conta uma versão diferente de como ganhou o sorriso estampado em seu rosto.

Heath Ledger, na sua construção de personagem, se trancou em seu apartamento por um mês, fazendo um diário de com colagens de referencias diversas de cinema e pinturas do Francis Bacon. A celebre interpretação consumiu muito mais do que seu talento, e talvez por isto, lhe rendeu o Oscar póstumo de ator coadjuvante.

Pensava-se até então, que era muito difícil superar algo tão icônico como: “Por que você está tão sério?”.

Afinal, o que este filme do Coringa traria de novo para os espectadores?

Seria necessário subverter certas convenções para ser mais sombrio do que as versões anteriores. A inspiração veio da Graphic Novel “A Piada Mortal” em que “Batman e Coringa são faces de uma mesma moeda”, segundo Antunes, em sua tese: Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman.

Caro leitor, o que é mais sombrio do que a própria realidade?

Numa cidade infestada por ratos gigantes e doenças, em meio a uma greve de lixeiros que dura semanas, vemos que comerciantes estão falindo e a economia está em declínio. A crescente taxa desemprego tem correlação direta com o aumento da criminalidade.

Vemos Arthur Fleck tentando ‘ganhar a vida’ como palhaço em Gotham City. Numa espécie de reality show, que vai muito além de acompanhar seu dia a dia, o convite é para passearmos em sua mente.

Evite tornar-se um monstro

Em vez de mais uma explicação cartunesca, do tipo cair no tanque de ácido e sair vivo, a risada característica do personagem é atribuída a ter um distúrbio neurológico que faz com o que ele ria em situações que usualmente as pessoas não riem, destoando das emoções que sente como raiva, stress, ansiedade e medo. Uma risada involuntária que causa aversão nas pessoas e que ele tenta aflitivamente evitar sem sucesso.

Além desta condição, o personagem apresenta um quadro psicopatológico que o filme não deixa claro de propósito. O ator Joaquin Phoenix assim quis em sua construção, para que ele pudesse passear sobre diversas formas de expressar a desregulação emocional, inabilidade social, pensamentos catastróficos, sofrimento e dor psíquica e seu corpo representasse efeitos similares que os pacientes de doenças mentais apresentam ao longo dos anos.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não o tivesse.”

Arthur Fleck

Ele mora com sua mãe, cuida dela fazendo a comida, dando banho e sendo atencioso. Ele alimenta aspirações de se tornar um comediante de stand up, mas sua mãe sentencia: “para ser comediante precisa ser engraçado, Arthur”.

Perceba, esta filme fora construído minuciosamente para que o espectador tenha compaixão por um homem que vive num mundo sem compaixão.

Quando se olha muito tempo para um abismo

Nos anos 70 fora inaugurado o subgênero da ultraviolência no cinema. Devido a grupos jovens saíram agredido cidadãos porque se sentiram inspirados pelo que viram, o diretor Stanley Kubrick, indignado porque as pessoas não entenderam seu objetivo, teve que se desculpar publicamente e retirar “Laranja Mecânica” das salas de exibição.

Menos estiloso e conceitual, mais direto ao ponto, não é à toa que este filme do Coringa se inspire nos filmes de Martin Scorsese, como Taxi Driver. Parte da sensação de crescente de angústia durante a exibição do filme e manter o espectador em suspensão de descrença. O mundo precisa ser semelhante à nossa realidade e as reações que o personagem tem poderiam ser as suas caso se encontrasse na mesma situação.

Artur tenta recusar a oferta de ter uma arma dizendo ao companheiro do trabalho, que devido a sua condição não deveria portar uma arma. Mas este insiste, mesmo assim vende a arma para ele se ‘proteja do mundo violento’. Em seguida, esta é a arma que cai no chão dentro de um hospital infantil enquanto ele se apresentava (semelhante ao Doutores da Alegria). Por isto ao tentando se explicar ao seu chefe ligando de um telefone público ele é despedido.

Voltando para casa ele vê três homens assediando uma mulher no metro, e começa rir compulsivamente sem desejar fazê-lo. A mulher foge e os três começam agredi-lo moral e fisicamente. Ele saca a arma para se defender da agressão física, matando dois instantaneamente e persegue o terceiro na estação até matá-lo.

Este é o momento sem volta do personagem. No vídeo Anatomy of a Scene, em que vemos Arthur demonstrando um vislumbre do Coringa. Em vez de se assustar e/ou questionar moralmente o que acaba de acontecer, não há remorso ou arrependimento. Em vez disso, ele se tranca num banheiro público e dança como uma expressão de se empoderar de si pela violência.

O diretor Todd Phillips narra a cena do filme Coringa

O abismo olha para você

Apesar da temática ser proveniente das histórias em quadrinhos, o nome do filme é Coringa, portanto estamos acompanhando o desenvolvimento de um vilão. Ao Coringa serve a sentença de Nietzsche: “Torna-te quem tu és!”. As pessoas na sala de cinema, que minimamente tem repertório em Batman, sabe aonde filme quer chegar. A questão é como os espectadores são impactados pelo que estão vendo.

Dias depois, sabemos que três homens mortos pelo palhaço no metro eram cidadãos de bem e funcionários das Indústrias Wayne. Interessado em salvar a cidade do caos, o Sr. Thomas Wayne se candidata ao cargo de prefeito. Ao ser questionado pela morte dos seus funcionários diz: “Que tipo de covarde faria algo tão frio? Alguém que se esconde atrás de uma máscara. Alguém que tem inveja daqueles são mais bem-sucedidos. No entanto, eles têm medo de mostrar seu próprio rosto. Pessoas que mudam o mundo para melhor, são capazes de criar algo de nossas vidas, sempre olharão para aqueles que não o fizeram nada, apenas como meros palhaços”.

Os cidadãos de Gothan então resolvem protestar nas ruas contra os bem-sucedidos usando máscaras do palhaço, cujo retrato-falado povoa as manchetes de jornal. Notem, um novo elemento surge: a mídia.

Ao contrário do que se imagina, fake news não são um fenômeno da internet. Num passado recente, jornais de baixo orçamento propagavam manchetes sensacionalistas (hoje conhecido como clickbait) apenas para vender mais exemplares.

A arte imita ou revela a vida?

Diferente de outro filme da DC, V de Vingança (V for Vendetta, 2005. Warner Bros.) na qual a revolta popular fazia parte do projeto planejado de vingança contra o sistema, Arthur e levado pelo sabor dos acontecimentos. Algo que ele causa sem pretensão alguma traz para ele uma enorme satisfação ao ver o palhaço estampado na primeira página dos tabloides. “As pessoas me tratam como se eu não existisse, nem eu mesmo acreditava que não existia, mas eu existo.” Nas manchetes, a população o vê como um vigilante justiceiro, e ele por sua vez, apenas quer ser notado, reconhecido, quer os aplausos.

Anamnese do Palhaço

Este ano, ‘O Homem Morcego’ completa 80 anos do seu lançamento nas bancas de jornal e o Coringa era vilão da edição Batman#1. Aficionados afirmam que somente no filme Batman, 1989, que o diretor Tim Burton que sugere uma correlação entre Batman x Coringa, colocando este arqui-inimigo como o assassino dos seus pais. Neste filme, isto é elevado à enésima potência.

Desempregado, Arthur é notificado que o programa assistencial teve verbas cortadas e que ele não terá acesso as medicações. Ele resolve se apresentar como comediante de Stand up num clube. Ao chegar tarde em casa, coloca sua mãe na cama, que insiste que ele envie pela manhã a carta que ela tinha escrito. A mãe do Arthur sempre manda cartas para o mesmo destinatário, o Sr. Wayne. Conta frequentemente ao seu filho que trabalhou para ele por anos e que aguardava uma resposta para que pudesse ajudá-los a sair da situação de pobreza. Naquela noite, Arthur resolve ler aquela carta e descobre sua mãe pede ajuda a Thomas Wayne alegando que ele é o seu pai.

Ao confrontar a mãe, ela alega que foi obrigada a omitir esta informação ao seu filho porque assinou alguns documentos. Artur vai em busca do seu suposto pai. O Sr. Wayne que rechaça está possibilidade, diz que sua mãe Penny é uma desequilibrada e que ele vai descobrir a verdade nos arquivos dela no asilo Arkham. Perceba a subversão, esta é a primeira vez que vemos o pai do Batman não sendo a figura paterna altruísta que costuma ser pintado nos quadrinhos. Arthur entre a risada involuntária e o choro desesperado, diz ao Sr. Wayne: “Por que todo mundo me trata tão mal? Por quê?”.

Ao voltar para casa, descobre que sua mãe teve um mal estar e precisou ser hospitalizada. Em meio a tudo isto, alguém gravou sua performance no clube de stand up e encaminhou para o talk show da TV. Ele se vê exposto em rede nacional de forma humilhante pelo apresentador/comediante Murray Abraham (não ao acaso, vivido por Robert De Niro, protagonista de Taxi Driver) que diz ironicamente: “Todo mundo acha que consegue fazer meu ofício, este cara não passa de um Coringa (uma gíria para piadista medíocre)”.

Determinado a saber seu passado, vai ao asilo Arkham e consegue furtar o prontuário da mãe. Entre os documentos, descobre papeis de adoção e um extenso arquivo de manchetes de jornal no qual ele criança fora vítima de maus tratos pelos ex-namorados da mãe. Estes abusos ocasionaram o traumatismo craniano que gerou seu riso incontrolável. A mãe era conivente com os maus-tratos e ao ser questionada se não ouvia seu filho chorar ela disse “Não, porque ele sempre estava tão feliz”. Agora que temos uma parte da anamnese, o leitor não sairá daqui com as mãos abanando, recomendo a leitura do texto As Psicologias do Psicopata: o crime e a personalidade” e o artigo para Rollings Stones Neuro criminalista elogia Coringa e considera o filme “uma ótima ferramenta educacional.

That’s Life

Após esta revelação sobre seu passado, Arthur Fleck sai definitivamente de cena. Ao longo do filme, vemos ele subindo pesarosamente com as costas arqueadas, os degraus intermináveis de uma escada que leva a sua casa, assim como Sisifo empurra a pedra de mármore até o topo da montanha. Perto do fim, quem desce a mesma escada dançando e se regurgitando ao assumir a máscara do palhaço como sua identidade é o Coringa.

Convidado como entrevistado, ele vai a caráter ao programa de TV e pede para ser introduzido como tal. Durante a entrevista, o Coringa dispara: “Não há mais civilidade Murray, uns gritam com os outros, as pessoas não são empáticas, não se colocam no lugar do outro. Thomas Wayne espera que eu seja o cara bonzinho, mas não, seremos lobisomens e enlouqueceremos.” Isto não acontece por acaso, em sua tese de mestrado “O Famoso Infame”, Fabricio Marques Franco atribui ao Coringa  ‘sua ausência de regras em suas ações perversas e o gozo desmedido sobretudo e contra todos se mostra o fundamento do seu carisma’ com seu superpoder.

Não é o objetivo deste texto estragar totalmente a experiência de assistir este filme, por isto a maioria dos acontecimentos do filme foi omitido ou deixado no último bloco deste texto, Cenas Pós Crédito.

E quanto a propagada violência do filme? A violência aparece de outra forma, menor que em filmes do gênero de ação; mas contundente, pois serve de espelho para os espectadores. Perturbador, talvez seja, o quanto a identificação do público com o vilão seja orgânica. Principalmente, quando torcem para o Coringa no momento que ele executa seus algozes ou quando riem de cenas que deveriam despertar sensações de aversão e choque.

Enfim, ‘That’s Life de Frank Sinatra, a música que conduz o personagem nesta evolução até se tornar o ‘Palhaço do Crime’, traz em suas estrofes as seguintes frases: “Eu tenho sido um fantoche, um pobre, um pirata / Um poeta, um peão e um rei / Estive de cima a baixo, sem parar / E eu sei uma coisa / Cada vez que me vejo de cara no chão / Eu me levanto e volto à corrida”.  

That’s Life interpretada por Frank Sinatra e uma montagem com cenas do filme

Psicóloga Masilvia Diniz

Contribua conosco, concordou, discordou ou deseja outras análises neste formato deixem seu comentário na caixa de descrição.

Cenas Pós Créditos

Elizabeth Loftus psicóloga americana entre os anos 80/90, postulou a “Síndrome da Falsa Memória”. Uma forma bastante simplista de explicar este conceito é com uma pergunta: o que é a verdade, aquilo que aconteceu, o que acreditamos ter ocorrido? Realizando um experimento social, verificou-se que 24% das pessoas assimilara com verdadeira uma história falsa sobre estar perdido num shopping quando criança. O que isto significa, que é possível que o que acreditamos ser real e mais potente do que os fatos.

Lembra quando eu me referi sobre o passeio na mente de Arthur? O mundo é sombrio e escuro quando é real ou colorido quando vemos suas fantasias da sua mente? O espectador vê que o mundo trata-lo mau, ou o protagonista percebe somente o mundo o tratando o mau? No início do filme, vemos a assistente social dizendo que ele já havia sendo internado, e se ele nunca saiu do hospício? Quem deixaria uma criança vítima de maus-tratos a cargo de uma mulher internada num hospício que foi conivente com a violência com seu próprio filho? Se o pai do Batman fosse mesmo pai do Coringa ele teria abandonado seu filho? Nos anos 80, seria necessário um equipamento gigantesco para gravar a performance de Arthur no clube, por que ele não viu? Principalmente, se uma mulher é perseguida por um stalker, por que teria um relacionamento com ele? A única vez que o diretor pega na mão do espectador e esclarece que relacionamento não era real.  

No fim, o filme se abre um corredor branco de pegadas vermelhas para infinitas possibilidades.

Referências consultadas

Antunes, Debora. Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman. XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Curitiba, PR – 4 a 7 de setembro de 2009. Disponível em: https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/30880501/R4-0676-1.pdf?response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DEntre_o_heroi_e_o_vilao_uma_analise_de_C.pdf&X-Amz-Algorithm=AWS4-HMAC-SHA256&X-Amz-Credential=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A%2F20191010%2Fus-east-1%2Fs3%2Faws4_request&X-Amz-Date=20191010T040744Z&X-Amz-Expires=3600&X-Amz-SignedHeaders=host&X-Amz-Signature=d522cee01887a402c4530388ff774de07b4066deaa3468b85bbfb7b135c7594e

Batman no cinema. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Batman_no_cinema&oldid=55895295>. Acesso em: 2 ago. 2019.

Batman nas revistas em quadrinhos. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Batman_(revista_em_quadrinhos)&oldid=56353462>. Acesso em: 28 set. 2019.

Camus, Albert. O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Lisboa. Editora Livros Brasil S/C.

Coringa (Joker). Direção: Todd Phillips: Warner Bros. Pictures, 2019. (121 minutos).

Existencialismo. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Existencialismo&oldid=56404173>. Acesso em: 5 out. 2019.

Franco M, Fabricio. O famoso infame: um estudo sobre a persistência do vilão Coringa nas mídias e sua relevância na cultura midiática. PUC-SP. 2017.

Joker (DC COMICS). In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Joker_(DC_Comics)&oldid=56433989>. Acesso em: 9 out. 

Nietzsche, Friedrich. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Friedrich_Nietzsche&oldid=56087153>. Acesso em: 26 ago. 2019.

Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra (tradução de Mário da Silva). São Paulo: Civilização Brasileira, 1977.

Joker Best Movie Quotes – ‘Is it just me, or is it getting crazier out there?’ (Roteiro completo do filme). Movie Quotes and More. Disponível em: https://www.moviequotesandmore.com/joker-best-movie-quotes/. Acesso em 10 out. 2019.

Setembro Amarelo: Enquanto há vida há esperança.

No mês de setembro, os laços amarelos invadem as redes sociais e os meios de comunicação. Esta é uma homenagem ao Mike de 17 anos que morreu por suicídio em 1994. Em seu funeral foi distribuído por amigos e familiares um cartão com um laço amarelo e mensagem apoio para aqueles que estivessem em sofrimento.

Em vez de citar estatísticas de suicídio no Brasil e no Mundo (mesmo porque meu colega Caio Cesar Rodrigues de Araújo parceiro deste site vez isto brilhantemente no texto Por Que Não Devemos Falar sobre Suicídio?) ou fazer uma sopa de letrinhas com palavras rebuscadas, vou aproveitar este espaço para fazer a mesma coisa, vou entregar nesta publicação o meu cartão  com uma mensagem de como podemos ajudar pessoas que estão em sofrimento.

Todos nós seres humanos temos um mundo dentro de si. Experimentamos a vida de uma forma única e particular. Ao mesmo tempo, vivemos neste mundo pós-moderno digital, em constante mudança, no qual precisamos fazer muitas tarefas ao mesmo. Enquanto isto tudo acontece, dentro de nós, pode existir uma tempestade de pensamentos e um tsunami de emoções, que geram sentimentos e sensações físicas.

Como não sabermos o que se passa na mente uns do outros, ficamos sem entender certas atitudes e comportamentos das pessoas. Por isto, seguindo as orientações da OMS, MS e do Manual de Comunicação Consciente, destaco quatro dicas que podem ser úteis quando perceber que alguém está em risco de suicídio.

1º Dica: Ouvir

A Psicologa Karina O. Fukumitsu, autora do livro “A Vida não é do Jeito que a gente Quer”, afirma que não há uma única causa, mas “são várias situações que faz com que a pessoa vá se definhando na vida” e isto ela chama de processo de morrência. Como este tipo de processo não escolhe cor, raça, crença religiosa, idade, sexo e condição social, a recomendação é ouvir a pessoa sem julgamento, com a mente aberta e no local apropriado para que a pessoa se sentir segura. Lembre-se que quem pede ajuda, tem o direito de ser respeitado, levado a sério e ter seu sofrimento em consideração. Caso você não se sinta preparado, tudo bem, oriente a entrar em contato com CVV no 188 e explique que neste telefone há uma equipe de pessoas capacitadas que estão dispostas a dar apoio emocional e de forma sigilosa.

2º Dica: Acompanhar

Não é porque você não sabe o que dizer ou fazer, que sua presença é dispensável. Doe seu tempo e mantenha contato. Se você quer ajudar verdadeiramente seu presente será sua presença.

3º Dica: Buscar ajuda profissional

De onde eu estou, posso ouvir frases como: “não preciso de um médico de cabeça” e o clássico “psicólogo é médico de louco”. Se um osso foi quebrado, levamos a pessoa no Pronto Socorro e solicitamos o médico ortopedista. Se o celular parar de funcionar, imediatamente procuramos uma assistência técnica. Se o carro apresenta problema, na sua agenda tem o contato do mecânico, do funileiro e borracheiro. Por que quando a dificuldade está dentro da mente tem que ser diferente? Nas pessoas em dor e sofrimento, o turbilhão de pensamentos e tsunami de emoções seria equivalente a óculos de lentes embaçadas e visão turva: o mundo fica parecendo um reality show de sobrevivência na selva. Portanto, oriente a pessoa que contate um profissional especializado de saúde mental, seja psicólogo ou psiquiatra, que indicará o tratamento adequado de acordo com a necessidade. Se você tiver disponibilidade, lembre-se da 2º dica e se ofereça para ser acompanhante na consulta.

4º  Dica: Proteção

Segurança é uma necessidade básica da vida e sempre estamos buscando nos proteger. Pessoas que estão em dor e sofrimento precisam de proteção, inclusive delas mesmas. Prevenção é estar atendo e diminuir quais quer tipo de riscos que possam estar no ambiente.

Finalizo está mensagem com a frase do psicólogo Shneidman, um dos maiores especialista neste assunto: ‘O suicídio é um ato definitivo para um problema que tende a ser temporário.’ Se é temporário, é porque precisa de mais tempo para ser entendido e superado. Quando uma vida se apaga o tempo para, e isto ocorre para quem vai e para quem fica. Enquanto há vida há esperança. Por isto é importante que possamos fazer com que as pessoas se permitam ter tempo para enfrentar sua dor e seu sofrimento, não importando qual seja.

Psicóloga Masilvia Diniz

Contribua conosco deixando seu comentário na caixa de descrição.

Serviço de utilidade pública: Onde buscar ajuda para prevenir o suicídio?

CAPS e UBS – Unidades Básicas de Saúde – Postos e Centros de Saúde UPA 24H / SAMU 192 e Pronto Socorro e Hospitais CVV – Centro de Valorização da Vida – 188 (Ligação Gratuita)

Referências consultadas

http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/suicidio

https://www.karinafukumitsu.com.br