Como a Psicologia vê o Golden Shower?

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Sexualidade – Fronteira da Normalidade

“A sexualidade humana é um obscuro dispositivo encarnado que aproveita o livre curso das funções fisiológicas para, mediante um desvio perverso da função, gerar e extrair prazer” (Baggio, 1992, apud, Carvalho Neto, 2010, p. 9).

Se a literatura nos permitir recordar, saberemos que a sexualidade humana navegou em círculos no que diz respeito aos seus limites em cada época. O banho que recebe cada um da linguagem e, portanto, das regras sociais vigentes numa sociedade dum determinado período, consequentemente delimitou o quanto cada prática sexual seria mais ou menos aceita à época. Mais ainda: quais práticas consideradas “proibidas” seriam mais ou menos interessantes à satisfação de desejos vigentes.
Talvez algumas pessoas relacionem normas celibatárias e heteronormativas de algumas religiões às notícias de seus líderes envolvidos em crimes sexuais; talvez algumas entidades considerem em lares familiares mais extremamente rígidos e rigorosos com a sexualidade de seus filhos, lugares mais propícios à gravidez na adolescência. Talvez.

[…] preferências, predisposições ou experiências sexuais, na experimentação e descoberta da sua identidade e atividade sexual, ao longo da sua existência [..] afasta[m]-se da noção simplista de mera reprodução animal associada ao coito, se prendendo apenas ao nível físico do homem, para se apresentar no plano
psicológico do indivíduo. Por isso, além dos fatores biológicos, a sexualidade é fortemente construída pelo ambiente sociocultural e religioso em que este se insere. (Carvalho Neto, 2010, p.8).

Explicando melhor: dependendo do que for proibido e de qual sujeito estiver em ação, a satisfação de realizar aquela prática que virou tabu poderá ser equivalente à intensidade de sua proibição. A famosa frase “aquilo que é proibido é mais gostoso” tem seu lugar aqui. De alguma forma, a história nos mostra o seguinte: quanto mais atenção é dada para a proibição de algumas práticas sexuais, mais estas mesmas práticas serão presentes numa determinada época. O discurso presente em um meio sociocultural se relacionará (positiva ou negativamente) à sexualidade de um período histórico específico. Os perversos que o digam!

As Parafilias

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Em seu Seminário 9 – A Identificação (1961) – Jacques Lacan, ao falar da noção de Traço Unário, conta-nos algo sobre alguém muito famoso por realizar práticas sexuais que fugiam à norma da França de Napoleão Bonaparte.

O famoso e controverso Marquês de Sade tinha o hábito de realizar um traço, uma marca, à cabeceira de sua cama. O diferencial de tal risco era que este jamais poderia ser igual ao anterior, pois cada um era feito sob os efeitos imediatos de um orgasmo que o Marquês acabara de ter. E o que isso nos poderia significar? Será possível que Sade poderia, após algum tempo, obter um prazer tão ou mais importante no registro do traço do que no ato em si? Não saberemos. Mas se a resposta foi positiva e tal ato se tornar a única forma de obtenção de prazer – mesmo que traga sofrimento ao agente, teríamos aí uma prática que poderia ser chamada de parafilia que, por etimologia, podemos entender como um “Amor/Desejo Paralelo“.

As parafilias, então, seriam uma forma de desejo que fugiria daquilo que é considerado normal dentro das práticas sexuais de uma sociedade de uma época. Mas jamais só isso. Não raro, muitas pessoas – inclusive figuras importantes – podem demonstrar certo desconhecimento e/ou curiosidade sobre estas práticas. Bem como não poderíamos esperar que deixasse de haver grande estigma e julgamento aos adeptos de alguma (s) delas. Há sim, um grande Tabu ao que foge da norma. Há mais ainda, como nos contou Freud, um grande interesse por tudo aquilo que é Tabu. Do contrário, tais práticas sequer teriam a atenção necessária para se tornarem um.

Em suma: o comportamento sexual gerador de forte excitação a partir de lugares, objetos, situações e particularidades que excedam a cópula em si, poderá ser parte de uma parafilia em determinadas situações que explicitaremos a seguir. Se pegarmos a urofilia – o famoso Golden Shower e/ou chuva dourada/amarela – como exemplo, ela também poderá adentrar nesta classificação.

DSM – V

Para o Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Norte-Americana de Psiquiatria):

“O termo parafilia representa qualquer interesse sexual intenso e persistente que não aquele voltado para a estimulação genital ou para carícias preliminares com parceiros humanos que consentem e apresentam fenótipo normal e maturidade física” (p.685).

Mas, adiante, o próprio manual vai nos informar que em sua forma patológica: uma parafilia é também um comportamento sexual atípico que cause intenso sofrimento, ameaça física e/ou psicológica para si ou para o bem-estar de outros indivíduos, presentes durante pelo menos seis meses e cause intenso prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. (2013).

O que isso quer dizer? Quer dizer que não basta que alguém tenha interesse por práticas sexuais atípicas para que esta pessoa sofra de um Transtorno Parafílico. Desde que esteja dentro da Lei, não há nada de errado em prática sexuais que fujam à norma. Entretanto, devemos abrir os olhos se:

  • A pessoa sentir uma angústia pessoal sobre seu interesse sexual que exceda o sofrimento resultante do julgamento negativo àquela prática na sociedade vigente;

  • Tenha desejo ou comportamento sexual que envolva sofrimento psicológico, lesões ou morte de outra(s)pessoa(s);

  • Tenha interesse por prática sexual que envolva pessoas que não querem ou que sejam incapazes de dar o seu consentimento legal;

  • Não consiga obter excitação ou prazer de forma alguma senão com esta prática.

Entre alguns exemplos mais conhecidos de Parafilias estão:

  • Podofilia: Marcada por uma excitação e prazer sexuais atrelados aos pés do (a) parceiro (a);
  • Odaxelagnia: Excitação e/ou prazer sexual por mordidas, mesmo que estas causem sérias lesões à pele do (s) praticante (s);
  • Cropofilia: Excitação e/ou prazer sexual em manipular, cheirar, observar ou ingerir fezes (Cropofagia);
  • Necrofilia: Excitação e/ou obtenção de prazer na prática sexual com cadáveres;
  • Zoofilia: Excitação e/ou obtenção de prazer na prática sexual com animais (no Brasil, considerada crime de maus tratos, apesar de não serem raras as menções a esta no âmbito rural).

A Urofilia – O Golden Shower

(O empresário Omar Monteiro com a fantasia de Golden Shower para o carnaval Foto: Omar Monteiro/ Divulgação)
Recentemente, dois tweets do Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro causaram certa polêmica no mundo inteiro. Além de uma crescente procura pelo termo “Golden Shower” no google, opiniões favoráveis e desfavoráveis circularam pelas redes sociais.
Mantendo seu foco na difusão da psicologia no Brasil, a Sociedade dos Psicólogos trouxe este texto informativo para quem tiver curiosidade sobre o assunto.

Entendida como o comportamento sexual caracterizado pela excitação e/ou obtenção de prazer a partir da urina de um (a) parceiro (a), a urofilia já foi presente em boa parte da cultura pop, aparecendo até em seriados como Sex and the City.
Está comumente relacionada às relações de poder, como se quem recebesse o “banho” se colocasse em uma situação de submissão àquele que o provê.

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), a protagonista da série Sex and The City (1998-2004), recebe a proposta do político Bill Kelley (John Slattery) do famoso “Golden Shower” (imagem da internet)

Em portais pornográficos caracterizados por práticas consideradas mais violentas do que o habitual, a esta mesma prática, popularmente conhecida como Golden Shower, tende a aparecer como se fosse o clímax da dominância de um sujeito perante outro. Num contexto onde o poder, teoricamente, emanaria de quem provê a urina, aquele que a recebe é colocado numa posição de extrema submissão, lembrando relações de sádicos e masoquistas.
A psicologia, a psiquiatria e a psicanálise não entram e nem devem entrar no mérito de julgar a correção ou não de uma prática sexual considerada atípica. Entretanto, seu olhar estará sim, atento ao que se configurar como um Transtorno Parafílico e/ou àquilo que trouxer prejuízos graves a quem participa, voluntaria ou involuntariamente de práticas sexuais consideradas atípicas.

Quando realizada de maneira patológica, a Urofilia é caracterizada no DSM-V dentro da sessão de Transtornos Parafílicos. Entretanto, a parafilia popularmente conhecida como Golden Shower, juntamente com a escatologia telefônica (telefonemas obscenos), a necrofilia (cadáveres), a zoofilia (animais), a coprofilia (fezes), clismafilia (enemas), entre outras, não estão exclusivamente descritas no Manual como transtornos parafílicos especifícos. Coube a estas serem, junto a outras não mencionadas aqui, incluídas dentro do que é chamado pelo DSM-V como Outro Transtorno Parafílico Especificado (F65.89).

Exemplo de alguns Transtornos Parafílicos Específicos :

  • Transtorno Voyeurista – excitação sexual recorrente e intensa ao observar
    uma pessoa que ignora estar sendo observada e que está nua (F65.3);
  • Transtorno Exibicionista – excitação sexual recorrente e intensa decorrente da
    exposição dos próprios genitais a uma pessoa que não espera o fato (F65.2);
  • Transtorno do Masoquismo Sexual – excitação sexual recorrente e intensa resultante do ato de ser humilhado, espancado, amarrado ou vítima de qualquer outro tipo de sofrimento (F65.51);
  • Transtorno do Sadismo Sexual – excitação sexual recorrente e intensa resultante de sofrimento físico ou psicológico de outra pessoa (F65.52);
  • Transtorno Pedofílico – fantasias sexualmente excitantes, impulsos sexuais
    ou comportamentos intensos e recorrentes envolvendo atividade sexual com criança ou crianças pré-púberes (em geral, 13 anos ou menos), etc.

Sabendo o que é necessário para que alguém seja diagnosticado, é preciso saber do que dependerá a noção de uma melhora no quadro. Para tal, falamos principalmente da:

  • não realização de práticas que caracterizam o Transtorno Parafílico por pelo menos cinco anos fora de Ambiente Protegido.

É considerado Ambiente Protegido todo lugar que impossibilite e/ou dificulte o acesso e/ou a prática de comportamento sexual e/ou parafílico por questões externas, ou seja, alheias à vontade do indivíduo. Exemplo: instituições penitenciárias e clínicas de reabilitação.

A partir deste ponto o Transtorno Parafílico será considerado “Em remissão”.

O que Dizem os Especialistas?

De acordo com o Psicólogo e Psicoterapeuta Caio Ferreira, em práticas sexuais atípicas como a urofilia, que envolvem mais de um indivíduo, deve-se averiguar, antes de mais nada: se há claro consentimento (e obviamente idade para tal) entre as partes. Caio, que também é Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos, diz que pessoalmente, não sente despertar algum pela prática, mas que como psicólogo entende que “havendo comum acordo entre os praticantes, é um exercício de libertação, vinculação e prazer como qualquer outro”.

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Caio Ferreira (CRP 06/147859) também é Diretor do Centro de Investigação do Comportamento Emocional (CICEM).

Quando questionado, o psicoterapeuta afirmou ter se deparado com o vídeo publicado pelo Presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais. Ao dar sua opinião sobre o ocorrido, Ferreira levantou questões a respeito da presença de outras práticas no video, como o exibicionismo, por exemplo. Mas o psicólogo também levantou questões éticas e legais a respeito da prática. Caio, porém não deixou de advertir os riscos da divulgação deste tipo de conteúdo sem consentimento e em redes abertas:

“Devo dizer que lamento o fato desta atividade ter sido realizada em vias públicas. Além de configurar um crime, podemos pensar em componentes exibicionistas a par das contingências do carnaval. E lamento mais ainda a exposição da filmagem em questão – desnecessária e estigmatizante a todos os envolvidos”.

O próprio Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5 –, conforme já dito, só considera em suas sessões de Transtornos Parafílicos as práticas que, recorrentes por pelo menos seis meses, causem sofrimento clinicamente significativo e/ou prejuízo no funcionamento social, profissional e/ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo, ainda mais aquelas que são realizadas com terceiros que não deram ou não poderiam, legal ou cognitivamente, dar consentimento à prática.

Junto com o DSM-V, o Psicólogo e Psicanalista Igor Banin se atém a ética necessária em sua profissão em sua colocação: “Deixo o julgamento moral a quem lhe cabe”. Quando entrevistado, o também Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos postulou que “o desejo do sujeito passa por caminhos que não conhecemos. O prazer sexual pode vir de diversas maneiras”.

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Igor Banin (CRP 06/135177) é Psicólogo, Psicanalista e Sócio-Fundador da Sociedade dos Psicólogos.

Em termos mais simples: se uma prática sexual é feita sob pleno consentimento e não causa sofrimento e/ou prejuízo a quem participa dela, ela não causa preocupação à comunidade psi. Contudo, caso alguém seja de fato diagnosticado nas condições de um Transtorno Parafílico, deverá procurar tratamento médico e psicológico – que poderá envolver medicamentos e psicoterapia.

Vale ressaltar que o tratamento não terá a função de definir se a prática é certa ou errada, mas de diminuir e/ou erradicar a quantidade de sofrimento que ela possa trazer para o indivíduo ou para um outro.

De Onde vem o Interesse?

E entrevista, a Psicóloga e psicoterapeuta cognitivo-comportamental Masilvia Diniz, ao ser questionada sobre possíveis explicações sobre a preferência de alguns indivíduos à prática das parafilias (já considerando que estas deixaram de ser meras atividades sexuais atípicas devido seus prejuízos), a Sócia-Colunista da Sociedade dos Psicólogos disse que:

“Do ponto de vista cognitivo-comportamental, quando se trata de algo que se repete e traz grandes prejuízos ao indivíduo, são investigados os pensamentos, os chamados erros cognitivos (sistemas de crenças que foram condicionados e reforçados ao longo do tempo na vida de alguém – que passa a acreditar nestes como parte de sua personalidade), a maneira como estes alteram suas emoções e, consequentemente, desencadeiam seus comportamentos”.

Psicóloga Masilvia Diniz
Masilvia Diniz (CRP 06/89266) é Psicóloga e Psicoterapeuta Cognitivo-comportamental, além de Sócia-Colunista da Sociedade dos Psicólogos.

Mesmo com o olhar de linhas teóricas divergentes, Igor e Masilvia pareceram concordar a respeito da individualidade de cada caso, entendendo que cada sujeito terá sua história individual que explique seu interesse sexual além da norma de forma particular.

Longe de condenar quaisquer práticas que não estejam infringindo a Lei ou a integridade de outrem, o psicanalista Igor Banin afirma ser difícil apontar que lugar esta ou aquela prática sexual representariam no discurso de um sujeito. Para ele, deve-se evitar a generalização, pois “a Psicanálise se constitui no caso a caso”.

“Todavia, pensando na teoria da sexualidade infantil de Freud, podemos pensar na excreção como a primeira forma de produção de um objeto do bebê para o outro” disse o psicanalista.

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Sigmund Freud (1856-1939)

A corroborar com ambos, está o neurologista Sigmund Freud (1856-1939). O pai da psicanálise já dizia que “Cada um de nós, em sua própria vida sexual, ora nisto, ora naquilo, transgride um pouco os estreitos limites do que se julga normal” (Freud, 1905[1901], p. 45). Possivelmente o psiquiatra e psicanalista Jacques Lacan (1901-1981) também estivera de acordo ao dizer que “Em relação à instância da sexualidade, todos os sujeitos estão em igualdade […]” (Lacan, 1964b, p. 167).

Parece ser consenso entre os especialistas: se deve dar mais importância ao dano, à angústia e/ou sofrimento que uma prática sexual poderá desencadear aos envolvidos do que à estranheza que esta causaria aos padrões de alguém alheio. Talvez lhes seja mais útil compreender a função daquela prática às pessoas que participam dela do que às que a julgam. Em suma, espero que o Golden Shower esteja explicado e caberá a cada um (a) decidir se este estará liberado, desde que faça bem a todos (as) os (as) envolvidos (as).

E a opinião do autor deste texto?

“Se não há crime e há consentimento
Se em todos há prazer e em nenhum se vê sofrimento
Se cada um tem a sua liberdade na ausência da censura
Por que então chamas, de doença?

Tu que reclamas, sem presença
Em sua dita dura cama, sem prazer
Da cura e do conforto trocados entre
quem ama?

Caio Cesar Psicólogo
Psicólogo (CRP 06/139621), psicoterapeuta e Sócio-Colunista da Sociedade dos Psicologos. Ator, em busca do que Plínio Marcos atribui aos atores: a esperança de rir todos os risos e chorar todos os prantos

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

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REFERÊNCIAS:

Associação Psiquiátrica Americana – APA. (2014). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed.

CARVALHO NETO, J.S. (2010). A Relação Edipiana na Contemporaneidade: Novos formatos para a constituição das neuroses. Saquarema. Setembro

FREUD, S. (1905). Um Caso de Histeria. Três Ensaios Sobre Sexualidade e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro. Imago, 1996.

LACAN, J. A Identificação: Seminário (1961 – 1962) Tradução de Ivan Corrêa e Marcos Bagno. Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.

LACAN, J. (1990). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar (Trabalho original publicado em 1964).

***Todas as imagens utilizadas no texto foram obtidas de maneira gratuita através da internet. Caso você detenha os direitos autorais de alguma destas imagens, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos imediatamente.

Como Vencer o Vício em Drogas? Dependência Química: Internação Resolve?

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Afina, o que é dependência química?  É caso de polícia ou de Saúde Pública? O que fazer?

Ainda se alguém não conheceu um dependente químico, com certeza já ouviu falar sobre o assunto nos noticiários. Seja sobre a famosa "cracolândia", seja sobre as ações politico-policiais que a envolvem. Mas o que caracteriza a dependência química? Qual a diferença entre um usuário eventual e um dependente? A melhor solução seria cadeia, internação ou nenhum dos dois? 
A Sociedade dos Psicólogos preparou um texto exclusivo sobre o assunto.

O que é Dependência? Quem pode ser considerado um dependente químico?

Como podemos diferenciar um usuário de um dependente? É muito comum observarmos na grande mídia a utilização de termos como “usuários” e “dependentes”. Mas o que significa cada um destes termos?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) a dependência química é uma doença crônica, progressiva (piora com o passar do tempo) e primária — pois outras doenças aparecem em sua decorrência. A dependência química é um transtorno mental caracterizado por um grupo de sinais e sintomas decorrentes do uso de drogas.
De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em junho de 2017, 5% da população mundial consumiu algum tipo de droga em 2015 (aproximadamente 250 milhões de pessoas) e pelo menos 190 mil morreram neste mesmo ano por causas diretas relacionadas com entorpecentes.
O Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, mostra especial preocupação pois há cerca de 29,5 milhões de pessoas que sofrem com transtornos graves pelo consumo de drogas.

Uso, Uso nocivo e Dependência:

Pode-se entender que o Uso é caracterizado como a administração de qualquer quantidade de substância psicoativa no organismo.
Na definição dada pela OMS, através da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), o chamado "abuso", é chamado de Uso Nocivo, caracterizado por:

• Evidência de correlação entre o uso da substância e danos físicos, psicológicos e/ou comprometimento das capacidades de julgamento ou disfunções comportamentais; 
• Dano claramente identificável à vida do usuário;
• Uso contínuo durante um mês ou repetido ao longo de 12 meses;
• Com exceção da intoxicação aguda, não há critérios que identifiquem outro transtorno relacionado à substância em questão.

Ainda seguindo os padrões do CID-10, a Dependência é caracterizada por:

• Forte desejo ou compulsão pelo uso da droga;
• Incapacidade de controlar os níveis de consumo;
• Presença da Síndrome de Abstinência (conjunto de Sinais e Sintomas físicos e/ou psicológicos após interrupção do uso de substâncias);
• Tolerância à substância;
• Abandono de atividades prazerosas ou de grande interesse para o consumo de drogas;
• Uso contínuo apesar das consequências.

O Uso de Drogas no Brasil

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Uma vez que conseguimos entender melhor as definições tão utilizadas na grande mídia, será possível que possamos nos aprofundar mais no assunto. Entretanto, é necessário algum embasamento: como é o uso de drogas no Brasil?
Apesar de poucas pesquisas realizadas, existem dados que mostram um pouco sobre como o brasileiro se relaciona com as drogas.
A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) realizou duas pesquisas para entender como se dava a relação da população brasileira com as drogas lícitas e ilícitas.
Tais pesquisas foram realizadas em domicílios e em universidades.

Uso de Drogas — Um Levantamento Domiciliar

Em 2005, 7.939 pessoas passaram por entrevistas feitas diretamente em domicílios de todo o país. Foram feitas perguntas específicas e garantia de sigilo. Assim, foi realizado o II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: Estudo Envolvendo as 108 Maiores Cidades do País. Realizado pelo SENAD. 
Através dele, foi possível identificar que, entre os brasileiros:

• 74,3% já fizeram uso de Álcool na vida, enquanto 38,3% no último mês;
• 44,0% já fizeram uso de Tabaco na vida, enquanto 18,4% no último mês;
• 8,8% já fizeram uso de Maconha na vida, enquanto 1,9% no último mês;
• 2,9% já fizeram uso de Cocaína na vida, enquanto 0,4% no último mês;
• 0,7% já fizeram uso de Crack na vida, enquanto 0,1% no último mês.
Confira a pesquisa completa.

Uso de Drogas entre Universitários:

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Já em um outro estudo, alguns resultados são um pouco mais elevados. No estudo realizado com 12.711 universitários em Instituições de Ensino Superior (públicas e privadas) em todas as regiões do país em 2010, a Secretaria Nacional de Politicas sobre Drogas, ao realizar o I Levantamento Nacional sobre o uso de álcool,tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras, constatou:

• 86,7% já havia feito uso de Álcool alguma vez na vida, enquanto 60,5% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 26,1% já havia feito uso de Maconha ou variações dela alguma vez na vida, enquanto 9,1% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 7,7% já havia feito uso de Cocaína alguma vez na vida, enquanto 1,8% fizeram uso nos últimos 30 dias;
• 1,2% já havia feito uso de Crack alguma vez na vida, enquanto 0,2% fizeram uso nos últimos 30 dias.
Confira a pesquisa completa.

Há uma Epidemia de Dependência Química no Brasil?

A impressão que temos ao observar os noticiários ou ações policiais é de que o Brasil apresenta índices altíssimos de dependência de drogas. Entretanto, as pesquisas acima parecem não justificar todo este alarde.
Mas o que poderia, então, ser motivo de tanta preocupação e veiculação do assunto à nossa mídia?
Por que há a preocupação de alguns políticos em mobilizar forças policiais, autorizações de internação compulsória e uma clara política de combate às drogas no país?
As crackolândias são problemas reais, mas o uso de drogas não parece ser tão alarmante assim. Então o que poderia ocasionar este fenômeno nas grandes cidades?
Ainda é difícil dar uma resposta definitiva a esta pergunta. Entretanto, algo é fato: existe um perfil específico de usuário que frequenta as crackolândias — e é possível que aqui more algum tipo de explicação.

O Perfil do Usuário — Quem usa Crack no Brasil?


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Em 2013, juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz e o Ministério da Saúde, a Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas (Ministério da Justiça) realizou outra pesquisa, desta vez diretamente sobre o uso de Crack e outras drogas, tentando identificar o perfil dos usuários.
Os pesquisadores entrevistaram cerca de 7 (sete) mil usuários de crack/similares em todos os estados do Brasil e no Distrito Federal.
Era necessário ter mais de 18 (dezoito) anos e ter usado Crack, Pasta Base, Merla ou Oxi em pelos 25 dias nos últimos 6 (seis) meses.
A partir desta pesquisa, pode-se finalmente traçar um perfil dos usuários de Crack no Brasil com uma amostra significativa. Algo inédito até então.

Segundo a pesquisa, temos:

A "cara" do Dependente Químico:

• Mais de 50% dos usuários de Crack têm entre 18 e 29 anos;
• Cerca de 80% são do sexo masculino;
• 80% são de etnia considerada "não-branca" (pardos ou negros).

Nível de Escolaridade:

• 5% não terminou nenhuma série sequer;
• 55% tem escolaridade localizada no período da 4ª à 8ª série do Ensino Fundamental;
• Cerca de 20% possuí Ensino Médio completo ou Incompleto 
• 5% possui Ensino Superior.

Onde mora o Dependente Químico?

• 40% dos usuários declaram morar em casa ou apartamento próprio ou da família;
• 35% relataram estar em situação de rua.

Drogas Utilizadas em Conjunto com o Crack e Similares:

• 92,1% admite ter feito uso de Tabaco;
• 83,8% admite ter feito uso de Álcool;
• 76,1% admite ter feito uso Maconha;
• 52,2% admite ter feito uso Cocaína.

Fatores que Motivaram o Uso de Crack/Similares:

• 58% dos usuários dizem que o uso se deu por ter conseguido a droga ou ter sentido vontade/curiosidade de conhecer seus efeitos;
• 29,2% relacionam o uso às perdas afetivas (lutos, términos de relacionamento, etc), problemas familiares e/ou abuso sexual;
• 26,7% alegam que foi a pressão dos amigos;
• 8,8% à falta de perspectiva ou uma vida ruim;
• 1,6% à perda do emprego ou fonte de renda.

Outro dado alarmante é que 78,9% dos usuários de crack e/ou similares disseram vontade de realizar tratamento.

A pesquisa conclui, portanto, que o usuário de Crack no Brasil costuma ser um homem jovem, negro ou pardo, que foi pouco escolarizado; que mora na rua, usa mais de uma droga, tem pouco contato com a família e/ou amigos ou histórico de violência física e/ou sexual; além de querer realizar tratamento contra a dependência.
Clique aqui para visualizar a pesquisa na íntegra.

Um Relato em Primeira Pessoa

Será que é possível estabelecer uma relação entre o relato do usuário acima e os dados da pesquisa?

• O homem aparenta ter entre 30 e 40 anos, é negro e está desempregado;
• Sua residência é uma moradia improvisada — uma casa de madeira;
• Relata que o uso da droga o afugenta de seus problemas pessoas (20-25 pedras por dia) e também faz uso de outras drogas;
• Possui uma relação distante de sua família;
• Quer realizar tratamento (já realizou 12 vezes);
• Sente-se sem forças, sem perspectiva de vida e socialmente estigmatizado;
• Tem um histórico de perdas

Observando o perfil dos usuários e a desestabilização que a dependência em crack causa, podemos até, por alguns momentos, a entendermos também como um problema social.
Contudo, este viés dificilmente é abordado nas soluções oferecidas aos usuários — frequentemente vistos como criminosos reais ou potenciais.
Mas quais são as soluções atualmente oferecidas? 
Seriam elas as mais efetivas?

A Solução

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Em função do aumento exponencial da concentração de usuários de crack nas grandes cidades, podemos observar maiores índices de roubos, furtos e tráfico de drogas nas redondezas de onde se instalam as crackolândias. Em uma relação lógica, o aumento da criminalidade fará necessária a mobilização de um maior emprego da força policial.  Entretanto, há quase um consenso entre os especialistas: este é um problema de saúde pública.

Após anos e mais anos da adoção de medidas como: o aumento do policiamento, das investigações criminais e  de ações violentas de dispersão de usuários, as políticas de combate à crackolância pareceram finalmente visualizá-la como um problema de Saúde Pública. Entretanto, na Cidade de São Paulo, por exemplo, um dos pontos mais polêmicos desta nova visão foi a solicitação de prévia autorização judicial para a internação compulsória. 
Afinal, seria esta a solução mais adequada para o tratamento da drogadição?

Internação Compulsória é Efetiva?

Em fevereiro de 2016, um grupo de pesquisadores publicou no The International Journal of Drug Policy o artigo: The effectiveness of compulsory drug treatment: A systematic review.
O artigo tinha exatamente o objetivo de analisar se há indícios científicos de eficiência nas políticas de tratamentos compulsórios que eram impostas a alguns usuários — no que diz respeito às reduções de reincidências no uso de drogas e crimes praticados por seus usuários.
Foram selecionados 430 estudos em potencial (em língua inglesa, espanhola e portuguesa) para que a partir daí fosse feita uma triagem dos que serviriam ao critério. Entretanto, a deficiência no número de pesquisas sobre o assunto foi alarmante: apenas 9 (nove) estudos puderam ser utilizados.
Os estudos incluíam vários tipos de tratamento compulsório — inclusive aqueles que aconteciam após prisões por uso de drogas (como acontece em alguns estados dos EUA — um país que apresentou dados compatíveis aos que o estudo necessitava).
Dentro destes casos, avaliou-se como os tratamentos impostos (entre eles a internação compulsória) seriam eficientes para cessar o uso de substâncias, bem como a reduzir as taxas de reincidência nos crimes praticados por usuários após a realização do tratamento compulsório.

Dentre os nove estudos que puderam ser utilizados, concluiu-se que:

• Em três destes estudos (33%), não foram encontrados impactos significativos nos tratamentos compulsórios quando estes são comparados com políticas de prevenção do uso de drogas;
• Em dois estudos (22%), os resultados foram considerados equivocados, mas não foram comparados com as políticas de prevenção;
• Em dois estudos (22%), os resultados observados foram considerados negativos no que diz respeito aos impactos dos tratamentos compulsórios na reincidência de crimes;
• Em dois estudos, os resultados observados foram considerados positivos, no que diz respeito aos impactos do tratamento compulsório na reincidência de crimes.

Em uma conclusão final o artigo concluiu que, de fato, a literatura científica ainda está limitada, no que diz respeito à avaliação da eficiência dos tratamentos compulsórios perante o uso de drogas.

Entretanto, também diz que os poucos estudos disponíveis não sugerem melhores resultados nas abordagens de tratamento compulsórias.
Os autores ainda enfatizaram que alguns estudos sugeriam potenciais danos em tais abordagens.

A mensagem final deixada pelos cientistas foi que: considerando o potencial que o tratamento compulsório tem para o abuso dos direitos humanos, deve-se priorizar as modalidades de tratamento não-compulsórias buscando reduzir os danos relacionados.

Apesar de o estudo não ser focado exclusivamente na Internação Compulsória, ele no mínimo aponta que não há evidências diretas na eficácia de tratamentos realizados contra a vontade do usuário.

Confira o artigo (em inglês) na íntegra.

Qual é a melhor solução?

Com a precariedade de estudos científicos sobre o tema, ainda é muito difícil definir a melhor abordagem sobre o assunto.  No vídeo a seguir, temos o relato de alguns ex-usuários falando sobre como foram seus tratamentos, suas novas perspectiva de vida e as dicas que dão aos que buscam ajuda.

Há também no vídeo, o posicionamento do Doutor Arthur Guerra, que já foi Presidente do International Council on Alcohol and Addictions -ICAA e hoje é Professor Titular de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC e Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.

Complementando o posicionamento do ex-usuários e do especialista, a Sociedade do Psicólogos também acredita que pode-se combater a dependência química com mais veemência a partir:

• Da Realização de Programas de Prevenção ao Uso de Drogas nas escolas e comunidades:
Se os leitores bem se lembram, existe um perfil dos usuários de drogas. Dentro deste perfil, podemos observar que o nível de escolaridade mais comum entre os usuários de crack no Brasil é definido nas séries do Ensino Fundamental. A partir desta informação, é possível que haja uma abordagem de prevenção focada principalmente nos estudantes deste curso. Recomenda-se que esta abordagem seja realizada por profissionais do ramo — psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e agentes de saúde;

• Do Aumento Significativo no Investimento e Incentivo de Pesquisas Científicas:
Não só no Brasil, mas no mundo inteiro ainda existe um número precário de pesquisas a respeito da eficácia das diferentes modalidades de abordagem nos tratamentos de drogadição. O investimento em pesquisas científicas sobre o assunto é algo considerado crucial para que surjam novas modalidades de tratamento ou melhoria nas que estão atualmente disponíveis;

• Do Aumento da Inclusão de Políticas Sociais — Moradia, Reinserção no Mercado de Trabalho, Reinserção no Ambiente Escolar, etc:
Levando em consideração que os usuários mais comuns pertencem a um grupo em situação de vulnerabilidade social, é possível identificar (ou ao menos supor) que muitas vezes o uso de drogas está relacionado à ausência de condições básicas que garantem a dignidade humana (uma vez que uma parcela significativa dos usuários está em situação de rua, tem baixa escolaridade e pouco ou nenhum contato afetivo). Uma hipótese neste caso ,seria se a recuperação do que foi perdido (ou nunca conquistado) poderia impactar nos níveis do uso de substâncias.

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