Coronavírus: Entre a Realidade e a Ficção

Na Grécia Antiga, o teatro introduziu um meio de contar histórias, sendo que as comedias eram encenadas para contar a história do homem comum e as tragédias contava a história dos Deuses e heróis. Em nosso tempo, não há uma distinção, em meio ao caos, realidade e ficção parecem estar lado a lado e de mãos dadas. ‘A arte imita a vida’ é uma frase usualmente atribuída a Aristóteles, mas de vez enquanto e de forma inesperada, parece que vida imita a arte.

Quando o que está acontecendo em tempo real não é parecido com nada que tenhamos vivido e natural buscarmos referências. Precisamos consumir algum conteúdo que minimamente nos organize frente ao desconhecido.

Ao pesquisar conteúdo para uma serie de lives sobre Coronavírus no Instagram da Sociedade – @spsicologos – autores afirmam que em pandemias as pessoas entram em negação. A mente humana é um grande desafio à uma eterna estudante do comportamento humano, por isto eu me aprofundei no tema.

O objetivo deste texto é iniciar uma série de reflexões sobre um livro fundamental para entendermos a complexidade do comportamento humano. Para além de buscarmos a plenitude, a perfeição e a felicidade, a vida é também é feita de interrupções que podem ser bruscas, inesperadas e com incontingências. Algo que não estava, emerge e se faz presente, algo que maior que nos tira dos trilhos e fica a frente deles.

O livro em questão é “Sobre a Morte e o Morrer” (1981), Elisabeth Kubler-Ross que descreve as fases do luto, que não dialoga somente sobre a finitude da vida, mas de todos os processos de ruptura que acontece enquanto vivemos. Este texto é sobre a primeira fase: a negação.

A vida em câmera lenta

A nossa visão do futuro agora se parece com uma viagem numa estrada, que em dado momento se aproximamos do trecho com neblina e é impossível ver o que está a sua frente. A única coisa a fazer e reduzir a velocidade, seguir em frente com cautela e lendo as orientações da sinalização.

Nós provavelmente, estamos vivendo um momento trágico de proporções mundiais. Ainda não há como mensurar, mesmo que comparada a outras tragédias da história recente, o tamanho e a magnitude do Coronavírus Covid-19 para o mundo tal como o conhecemos. As imagens falam por si, pontos turísticos e avenidas das grandes cidades vazias e corredores de hospitais lotados.

Além das notícias que a cada momento relatam histórias difíceis de assistir, há uma corrida desenfreada para que os cientistas – tão desvalorizados pelo pouco investimento do governo ao longo do tempo e pela crescente corrente que relega a importância das conquistas da medicina, como campanhas antivacinação – descubram o melhor tratamento aos pacientes internados e a vacina que fara arte do nosso calendário de vacinação. Ainda assim, haverá alguém no futuro que acreditará que tomar a dose da vacina é inútil. Não é obvio?

O Ministro da Saúde Mandetta falando sobre campanhas antivacinação

Olhando pelo retrovisor

Em 2011 eu assisti ao filme Contágio, dirigido por Steven Soderbergh, que optou por narrar sua história com um tom documental baseada na pandemia do H1-N1 de 2002. Ao assistir novamente para escrever este texto, não houve como não comparar ao que estamos vivendo neste momento. Outras pessoas, por razões diferentes tiveram a mesma percepção ao assistir o Poço (Netflix, 2019). Ambos filmes são gráficos e podem causar gatilhos.

Trailer do filme Contágio

No filme Contágio (Warner Bros.), o diretor aproxima sua câmera quando quer evidenciar como é a proliferação do inimigo invisível: o vírus. Nos diálogos expositivos, personagem explicitam três conceitos: o R-zero, fômites e isolamento social.

  • R-zero é o primeiro indivíduo que contraiu a doença, saber isto é importante, pois é possível identificar como tudo começou, como é transmitido, quantas pessoas são infectadas e quais são os sintomas.
  • Fômites são meios que são capazes de transmitir o vírus, mesmo sendo inanimados, como plástico, papel, madeira, alumínio, entre outros.
  • O isolamento social é a forma que impede que pessoas portadoras do vírus, mesmo que não tenha sintomas, passem o vírus para pessoas que sejam infectadas e a doença evolua.

Porque a ficção se utiliza das mesmas regras da nossa realidade, as semelhanças não são coincidências. Principalmente quando um repórter freelance começa divulgar sua história em blog, disseminando fakenews e afirmando que ele foi curado tomando um remédio específico, isto ocasiona uma corrida as farmácias. Obvio?

Além do filme, a situação atual também se assemelha com o conceito VUCA desenvolvido pelo Exército dos Estados Unidos no pós-Guerra Fria. Quando não sabemos como lidar com a situação, o mundo a sua volta se torna volátil, incerto, complexo e ambíguo. Há algumas semanas atrás, todos nós estávamos seguindo nossas rotinas, a ideia de que sabemos o que fazer e aonde ir é tudo que seu cérebro necessita.

Quando as coisas saem do trilho e se tornam inconstantes, os especialistas não entram em consenso em quanto tempo possa durar a quarentena, informações desencontradas, discordâncias entre orientações e fakenews alimentam em nós dúvidas e incertezas. Se a vida não é mais como era antes, todos nós perdemos algo ou podemos nos perder no caminho e neste momento entramos em negação.

Não, isto não está acontecendo comigo

Acabo de ver uma reportagem na televisão na qual uma senhora idosa, estava na feira para comprar frutos do mar para ceia da sexta-feira da paixão, sem máscara ou proteção. A repórter pergunta ‘não tinha outra pessoa para vir para senhora na feira?’ e a resposta foi ‘em casa, eu não fico não minha filha, não fico em casa de jeito nenhum’, volta para ancora que apenas diz ‘senhora volta para casa’.

Negação descrita no livro é um mecanismo de defesa, que rejeita um fato que é difícil de ouvir, mas nem por isto deixa ser fato. Kubler-Ross se deparou com vários casos em suas pesquisas, muitas pessoas frente a um diagnóstico, criam histórias que colaboram com a negação, querem ouvir outras opiniões, criam estratégias e uma pequena percentagem prolonga esta fase mais que o esperado.

Vou propor um exercício, imagine por um instante como seria o trânsito nas ruas e avenidas sem farol (sinal ou sinaleira)? Caótico, não é?

Assim são suas emoções, funcionando como um farol que te comunica quando é o momento de parar ou seguir em frente. O medo é uma emoção, não menospreze sua importância, sem medo você seria incapaz de se organizar frente ao desconhecido. Sendo assim, é natural frente ao caos sentir medo. Isto fará com que, se você tiver como, evitar aglomerações, usar a máscara, manter a higiene das mãos e limpar embalagens de produtos e alimentos antes de guardar. Sem medo, seriamos inconsequentes, colocando nossas vidas em risco o tempo todo. Não é obvio?

Alguns de vocês podem se perguntar se estocar papel higiênico é um tipo de negação – na matéria do site BBC – cita Steven Taylor, autor do livro lançado no final de 2019 ‘The Psychology of Pandemics’ (A Psicologia de Pandemias) em suas pesquisas tem uma outra percepção “papel higiênico virou um símbolo de segurança, embora não vá impedir que as pessoas sejam infectadas pelo vírus. Mas quando as pessoas ficam sensíveis a infecções, aumenta a sensibilidade delas para o que é nojento. É um mecanismo para nos proteger de patógenos”. Outro mecanismo de defesa, nossa mente tentando se organizar, mas de uma maneira menos lógica, mais emocional.

Além do fundo do Poço

Antes que eu escrevesse este texto, o colega Caio Ferreira me sugeriu assistir O Poço (Netflix, 2019).

Trailer do filme O Poço

O filme é uma alegoria, com o objetivo de provocar o público a refletir uma questão: quando a necessidade mais básica e primaria para a vida humana – a comida – não chega a todos, o que os seres humanos são capazes de fazer?

Antes de saber do que se tratava o experimento social, o protagonista e algumas pessoas se candidataram ao Poço por escolha própria e outras foram postas lá por falta de escolha. Dentro da prisão vertical subterrânea, os indivíduos são colocados dois por andar, a comida desce numa plataforma, as pessoas que estão nos andares mais altos podem se fartar da comida sem se importar se haverá comida para os andares abaixo. A cada trinta dias e de forma aleatória, os de cima sobem e os debaixo descem. Mesmo tendo passado fome no mês anterior, quando se encontra num andar mais alto, é possível sentir empatia e solidariedade pelos que estão abaixo de você?

No começo o protagonista se nega a comer não aceitando que agora, querendo ou não está é a sua realidade. Mas quanto tempo ele leva para aceita-la? Mesmo parecendo, não e tão obvio assim.

O filme não explica muitas coisas propositalmente e em nenhum momento vemos se as celas possuem a porta pela qual os prisioneiros são trocados de andar. O próprio diretor disse que este filme não é uma crítica sobre capitalismo ou socialismo, mas o que significa, ele deixa para o espectador.

Entrevista com o Diretor do filme e O Poço

Evidente são as referências ao catolicismo, como passagens literais da bíblia, os sete pecados capitais, a ideia recorrente de purgatório e o sacrifício para enviar uma mensagem para administração. Se este filme causar reflexão no espectador, o sacrifício não foi em vão.

O isolamento social pode salvar vidas, se você puder, fique em casa. Assim como também é inegável seu impacto social e econômico. Portanto, podemos pensar no próximo fazendo o que estiver ao nosso alcance e assim começar a sair do estado de negação. Por ora, importante é estar atendo ao que acontece dentro de si – lembre-se do seu farol – tomar as precauções e seguir as orientações do Ministério da Saúde. Mantenha o contato com seus amigos e familiares usando tecnologia, procurando informações de fontes confiáveis, montando uma nova rotina e tentando se adaptar ao momento presente.

Após a negação, começamos a experimentar outra emoção, mas isto ficará para o próximo texto. Como tudo é cíclico, iniciamos e retornamos a Grécia, do teatro e ao mito da Pandora presenteada por Zeus com uma caixa, cuja única orientação era não a abri-la. Ela não se conteve em curiosidade, e ao abrir uma fresta libertou todos os males como: doença, a guerra, a velhice, a mentira, os roubos, o ódio, o ciúme, entre outros. Ela tentou fechar antes que todos saíssem, mas a única que ficou foi a esperança. Não é obvio?

Psicóloga Masilvia Diniz

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Referências

ATLAS OF EMOTIONS. EKMAN, Paul. (Opção em Português), 2020 Disponível: http://atlasofemotions.org/#introduction/. Acesso em 08 abr. 2020.

Bennett, Nathan and Lemoine, James, What VUCA Really Means for You (Jan/Feb 2014). Harvard Business Review, Vol. 92, No. 1/2, 2014. Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=2389563

CONTAGIO (Contagion). Direção: Steven Soderbergh: Warner, 2019. (106 minutos).

O POÇO (El Hoyo). Direção: Galder Gaztelu-Urrutia: Netlflix, 2019. (94 minutos).ROSS, Elisabeth Kübler. Sobre a Morte e o Morrer. Editora Martins Fontes. São Paulo 1996.

PANDORA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Pandora&oldid=57738502>. Acesso em: 8 mar. 2020.

ROSS, Elisabeth Kübler. Sobre a Morte e o Morrer. Editora Martins Fontes. São Paulo 1996.

Sociedade dos Psicólogos – Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber?

Diferenças entre Medo, Fobia e Ansiedade.

Você saberia diferenciar medo, fobia e ansiedade? Sim? Não? Em ambos os casos: este texto será perfeito para você.

O Grito. Obra-prima em óleo sobre tela do pintor expressionista norueguês Edvard Munch. Foi pintada no ano de 1893 e atualmente pertence ao acervo da Galeria Nacional de Oslo. O Pintor se inspirara muito em Vincent Van Gogh, tendo a autoria de sua obra frequentemente confundida, como se fosse do pintor holandês. Suas cores, suas formas, seus traços e as expressões faciais ali representadas são frequentemente associadas ao sentimento de medo, fobia, angústia e ansiedade do ser humano.

O Medo

E se você pudesse sentir medo pela primeira vez?

Outro dia me peguei pensando sobre o que seria uma reação estranha e incômoda de meu corpo. Mais ainda: o que seria esta reação que ao longo de minha vida aprendi a enxergar como algo normal, mas no sentido de quase inexistente: inerente. Tal fato fez com que eu me questionasse: como poderia ser sentir isso pela primeira vez? Este questionamento se deu quando eu estava com meus pensamentos envoltos sobre o ato de sentir medo. Afinal, o que é isso?

O Medo é uma emoção. Uma emoção básica. Se você ainda tiver dúvidas sobre o que é uma emoção, consulte este texto do psicólogo Caio Ferreira. O medo é uma resposta neuropsicofisiológica, com caráter evolutivo, por vezes mais motivado à via cultural, por outras pela via instintiva. Mas sua convergência é uma só: o medo sempre causará fortes desconfortos físicos e/ou psíquicos a quem o experimenta.

Se você encontrar um Leão…

“Hércules luta com o leão de Nemea” é uma pintura de Francisco de Zurbarán exibida no Museu do Prado em Madri, Espanha.

Pra que serve o medo?

O medo é uma emoção que provoca descargas de adrenalina; que aumenta ou diminui o fluxo de sangue do corpo — pode causar vasodilatação ou vasoconstrição – provocando vermelhidão ou palidez na pele; o medo dilata as pupilas para melhorar nossa capacidade de visão até em ambientes mais escuros; o medo é até capaz de provocar a liberação de urina ou fezes de maneira involuntária. E há tantas outras descrições… Embora estas interações emocionais – ocorridas em muitas áreas do cérebro, mas principalmente na integração entre a amígdala, o hipocampo e o hipotálamo – apontem principalmente um caráter de paralisia ou fuga – maior fluxo sanguíneo para maior produção de ATP e maior energia muscular para correr; liberação de urina e/ou fezes com função de afastar predadores através do odor, por exemplo – o medo também pode ser uma forma de preparar nosso corpo para uma luta. Inclusive, paralisia, luta e fuga são respostas autônomas ao medo. Tanto no ser humano como nós animais.

Por exemplo na imagem acima. Hércules, apesar de ter derrotado o Leão de Neméia através de uma árdua luta, provavelmente não teria deixado de sentir medo. Contudo, outras pessoas (e me incluo nessa lista) provavelmente não lutariam contra um leão. Algumas ficariam paralisadas, tremeriam suas mãos e pernas e ficariam com dificuldade para respirar; outras correriam; algumas até poderiam utilizar o córtex pré-frontal em conjunto com o hipocampo para lembrar daquelas técnicas aprendidas na internet sobre como agir perante um leão. Mas aqui falamos de uma exclusividade humana.

Em suma: o medo, apesar de seus desconfortos, serve para proteger a nós mesmos e à nossa espécie. Mas e quando ele acontece de maneira desmedida?

As Fobias

Fobos (Phobos) e seu pai Ares em uma carroagem retratados em Ânfora de aproximadamente 500 anos A.C.

O que une Marte a Vênus é o medo e o terror na Terra.

Phobos e Deimos eram os gêmeos que nasceram da junção do amor, da sensualidade e da beleza de Afrodite (Vênus na versão Romana) em contato com a Guerra, as Armas e os Conflitos de Ares (Marte, na versão Romana). Vale ressaltar que Afrodite era casada com Hefesto, tratando-se, portanto, também de uma traição. Bons filhos que eram, entre seus desejos e aspirações encontrava-se a vontade de sempre acompanhar o pai em suas Guerras. Desta forma, não haveria Guerra em que o Medo (Phobos) e o Terror (Deimos) não acompanhassem os homens.

Em seu papel de Daímon, alguma parte própria natureza humana se manifestava através deles. Se essas divindades não existiram na realidade, com certeza existiram através da força que seu mito tinha para permear o discurso dos guerreiros. Passam a existir no corpo de cada soldado e de cada general — através daquilo que este sente — sua aparição é inerente à Guerra. E não haverá Guerra alguma sem medo ou terror. Mas haveria menos ainda a existência de qualquer um dos dois se até o maior dos guerreiros não precisasse de amor. Então para resumir o mito: a paixão (pathos) que transita entre o amor e a guerra deu a luz ao medo e ao terror dos seres humanos.

A palavra Fobia, em sua raiz grega, deriva deste Deus ou demônio (daímon) que era Phobos, a personificação do medo.

O que é uma Fobia?

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) entendemos como fobia um medo específico e irracional, ou seja, além das perspectivas reais de perigo daquele objeto que causa tal medo — que pode ser um animal, uma situação e/ou um próprio objeto inanimado:

“Os indivíduos com fobia específica são apreensivos, ansiosos ou se esquivam de objetos ou situações circunscritos. Uma ideação cognitiva específica não está caracterizada nesse transtorno como está em outros transtornos de ansiedade. Medo, ansiedade ou esquiva é quase sempre imediatamente induzido pela situação fóbica, até um ponto em que é persistente e fora de proporção em relação ao risco real que se apresenta. Existem vários tipos de fobias específicas: a animais, ambiente natural, sangue-injeção-ferimentos, situacional e outros”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233-234).

A palavra fobia entra como uma representação patológica do que seria a superestimação do perigo real que este medo a um objeto ou evento específico (para ser caracterizado fobia precisa ser em relação a algo específico) pode ou não acompanhar as manifestações fisiológicas mais comum a quem experiencia a emoção do medo em graus elevados. Ex: sudorese, tremores, paralisia, gritos, etc.

Curiosamente, derivando do grego Phobos, o daímon que representava o medo na Mitologia Grega, a nomenclatura deste Transtorno Mental parece ter sido escolhida de forma que também acompanhasse, em partes, a narrativa do mito.

Fobias Específicas

Certa vez, enquanto uma pessoa me relatava sobre uma fobia que possuía, correu um fato curioso: apenas por dar uma descrição mais detalhada do objeto em questão, esta pessoa demonstra tremendo desconforto, visível ao seu rosto e ao seu corpo – ambos passaram a ser protegidos pelas suas mãos.

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A Fobia pode se tornar uma espécie de lente de aproximação dos perigos quem podem ou não representar aquele objeto ou evento específicos.

Talvez você conheça algumas pessoas têm nojo de barata. Sem dúvida também conhece outras que têm medo. Mas você conhece adultos, idosos anônimos e famosos que paralisariam, suariam frio, sofreriam de uma incômoda taquicardia e até chorariam como uma criança perante este mero inseto? Para o caso de conhecer: ajude esta pessoa a buscar por um psicólogo e/ou um psiquiatra, pois é possível que ela sofra de entomofobia, ou insetofobia.

Para o diagnóstico de fobia específica ser considerado, é importante ressaltar que a relação de elevada aversão e ansiedade perante o objeto deverá persistir por período igual ou superior a seis meses. Ainda se faz necessário destacar que para começarmos a distinguir um medo de uma fobia, é também preciso avaliar se e o quanto aquilo causa sofrimento e incapacitação na vida daquele indivíduo.

Alguns exemplos de Fobias Específicas

ATENÇÃO: Caso o leitor sofra de algum caso de Fobia Específica, esta seção poderá conter imagens explícitas de seu objeto fóbico.

Aracnofobia: aranha, de forma real ou imaginada;

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Acrofobia: de altura; de lugares altos, de muros, sacadas, etc;

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Agorafobia: de espaços abertos; shows, concertos, multidões em geral;

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Claustrofobia: de lugares fechados/trancados: elevadores, túneis, etc.;

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Hematofobia: de ter contato ou de apenas ver sangue ou vestígios de.

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A Fobia na Psicanálise

Talvez o caso mais famoso de fobia retratado na psicanálise é o do Pequeno Hans, e sua fobia de cavalos. Caso contado por Freud. Recomendo a leitura da obra, mas para quem quiser conhecer brevemente o caso, o psicanalista Christian Dunker traz um breve resumo em seu Canal no Youtube:

A Ansiedade

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“Chegou o final de semana. Finalmente eu poderei colocar em dia os estudos que deixei atrasar. Dessa vez eu vou conseguir atualizar os detalhes de minha agenda! Agora dará tempo de arrumar o meu quarto, de trocar a lâmpada do forno do meu fogão. Mas hey, primeiro eu preciso levar o cachorro para passear. Também não posso me esquecer de reservar uma hora de cada dia para ir à academia e, com certeza, de ler minhas 50 páginas diárias. É bom que eu também me lembre de relaxar, de ouvir alguma música. Será que não tá na hora de checar as minhas redes sociais? O que as pessoas poderiam estar pensando de mim? Será que aquela foto ficou muito comprometedora para o pessoal do trabalho ver? MAS EU AINDA NÃO ESTUDEI! Imagina se o cachorro ficar o dia inteiro sem passear? Eu deveria me esforçar para me organizar mais. MEU DEUS! Eu ainda não atualizei a agenda e ainda faltam 49 páginas. Acho que vou dormir. É uma pena que eu não consigo fazer nada direito”.

Esta é a síntese de alguns pequenos momentos dentro da mente de alguém que sofre de ansiedade. É como se o pensamento tivesse vida própria, como dizem muitos pacientes. E isso cansa, pensar se torna um trabalho. Um trabalho pra lá de exaustivo.

A ansiedade torna a vida do sujeito atemporal. Vive-se o passado e presente em simbiose com as possibilidades (frequentemente negativas) do futuro. É o medo em sua forma crônica, constante e às vezes invisível. É uma enxurrada de palavras preocupadas que pré-ocupam toda e qualquer atenção e relaxamento na vida de um sujeito.

Quem sofre de Ansiedade não tira Férias

A imagem pode conter: texto
Passagem do Romance “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski.

A ansiedade ocorre na mente e no corpo. Dificilmente ela age isoladamente em um dos dois, por mais que a princípio alguns sintomas dêem a entender tal fato.

Não é incomum que um paciente que sofra de ansiedade descubra isso após seu dentista lhe apontar o desgaste que o bruxismo causa em seus dentes.

Em alguns casos, quem prevê o diagnóstico é o próprio gastroenterologista, após uma forte dor no estômago que mais tarde se descobre ser uma gastrite.

Quando me perguntam sobre a relação entre gastrite e ansiedade, eu gosto de recorrer à seguinte explicação:

– A gastrite é uma condição médica onde o próprio suco gástrico, que, presente no estômago para auxiliar na digestão dos alimentos, acaba corroendo as paredes que revestem o órgão internamente – quadro muitas vezes corroborado por um padrão alimentício rico em acidez.

Contudo, há relatos de pacientes que mesmo em uma dieta praticamente alcalina apresentaram o distúrbio. Por alguma coincidência, esses pacientes geralmente têm um perfil comportamental mais ansioso. Eventualmente temos aqui um diagnóstico de um quadro conhecido como dispepsia funcional. Ou, popularmente falando: Gastrite Nervosa.

– Uma das causas da gastrite nervosa é a liberação de suco gástrico sem a presença de alimento e/ou fisiopatologia que cause tal fato. Mas o que faria o organismo ter este tipo de comportamento? Talvez um chiclete, já que ele simula uma refeição e a pessoa poderá sofrer caso se encontre de “barriga vazia”. Mas e se o paciente sofrer da condição mesmo sem o hábito de mascar chiclete?

Será que isso é algo como se o organismo estivesse pulando etapas? Como se este se atropelasse na pressa de fazer tudo de uma vez? Talvez como se a sua digestão, da mesma forma em que ocorre com os pensamentos apreensivos de um paciente ansioso, esteja lá no futuro, lhe causando desconforto agora.

O que é a Ansiedade, afinal?

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A ansiedade, segundo Dalgalarrondo:

[…] é definida como estado de humor desconfortável, apreensão negativa em relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e fisiológicas (dispneia, taquicardia, vasoconstrição ou dilatação, tensão muscular, parestesias, tremores, sudorese, tontura, etc.) e manifestações psíquicas (inquietação interna, apreensão, desconforto mental, etc.).

(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166).

Portanto, é importante ressaltar que estamos falando de uma condição por vezes altamente incapacitante. A ansiedade costuma trazer insônia, comprometendo a organização dos ciclos circadianos do paciente; pode atrapalhar relações de trabalho com atrasos e faltas frequentes; pode, inclusive, comprometer relações amorosas e familiares. Nada aqui se compara ao famoso “frio na barriga” antes de uma esperada viagem – causado por uma descarga de adrenalina

Lembrando disso me cabe também contar que, ao começo de minha vivência clínica, quando atendia pacientes encaminhados via convênio médico em parceria com uma instituição, era altíssimo o número dos encaminhamentos médicos com a hipótese diagnóstica de algum Transtorno de Ansiedade.

Mas o fato mais curioso, que não me foi ensinado à graduação de psicologia era que a maioria destes pacientes não era composta por pessoas encaminhadas por um psiquiatra, mas sim pelo cardiologista – em geral após uma suspeita de infarto ou cardiopatia ser descartada por uma bateria de exames realizada um pouco depois de o paciente ter dado entrada no Pronto Socorro de um hospital.

Os Sintomas da Ansiedade

Dalgalarrondo (Ibid) divide os sintomas entre mentais, ou seja, relacionados à experiência interna, subjetiva, do indivíduo; e somáticos, relativos ao corpo, à fisiologia; à parte observável diretamente.

Quadrinho
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 166. Quadro 16.3)

Contudo, é preciso cuidado. Os sintomas da ansieda não lhe são exclusivos. Eles já apareceram em Outro lugar. Eles são muito semelhantes ao que se sente no medo. Entretanto, o próprio DSM-V faz questão de nos atentar às diferenças entre medo e ansiedade:

“Medo é a resposta emocional à ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, com o medo sendo com mais frequência associado a períodos de excitabilidade autonômica aumentada, necessária para luta ou fuga; pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga e a ansiedade sendo mais frequentemente associada à tensão muscular e vigilância em preparação para perigo futuro e comportamentos de cautela ou esquiva”.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014. p. 233).

A partir desta afirmação, se faz importante observar que há uma clara semelhança entre os sintomas da ansiedade com a expressão de uma das sete emoções básicas: o medo. Não é atoa que há eventual confusão entre os dois termos. A ansiedade talvez se pareça mais com um medo que, a princípio, se hospedaria naquele local apenas por um final de semana, mas encontrou lá razões para permanecer por tempo indeterminado.

As próprias manifestações fisiológicas são bem parecidas às do medo e da fobia. Mas a principal diferença é que, pelo menos a princípio: a ansiedade pode não possuir relação com causa/objeto específicos. Em alguns casos, como no Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), uma crise de ansiedade pode acontecer de maneira súbita, sem causa aparente. Quem quiser mais detalhes sobre a ansiedade, recomendo a leitura de um excelente texto da psicóloga Masilvia Diniz clicando aqui.

Transtornos de Ansiedade

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Você sabia que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde?

Os Transtornos de Ansiedade são diagnosticados de acordo com as recomendações da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID 10) – gerido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) –, e/ou pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) – regido pela American Psychiatric Association. Sempre por um psiquiatra. Contudo, o tratamento pode e deve ser realizado com vários profissionais trabalhando em equipe. A multidisciplinaridade, como forte aliada à saúde mental, é indispensável. Desde o psicólogo, o psiquiatra; à nutricionista, o terapeuta ocupacional; até ao educador físico e ao endocrinologista. Caso você sofra de algo parecido, procure urgente um profissional da área da saúde mental.

Exemplos de Transtornos de Ansiedade

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Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Sendo uma de suas marcas o roer de unhas, falamos aqui de um quadro de sintomas ansiosos que persistem por pelo menos seis meses, passando a causar elevados prejuízos aos âmbitos social, produtivo e afetivo do indivíduo que sofre desta condição.

A angústia e a insônia não são raras, confira a lista de sintomas que Dalgarrondo (2008) descreve a respeito desta condição:

TAG
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

O TAG é algo que com alguma frequência parece não ter uma causa aparente em suas crises. E de fato não é fácil estabelecer uma linha entre os fatores que poderiam desencadear a expressão de uma crise de ansiedade.

Para ilustrar tal fato, me recordo de uma situação relatada para mim onde, todos os dias na mesma hora, um pouco após chegar ao trabalho, uma pessoa que sentia muita vontade de ser demitida começava a experimentar uma crise de ansiedade. A princípio, para alguns psicólogos e psicanalistas, a relação entre as duas coisas parecerá evidente. Contudo, foi preciso que mais detalhes fossem buscados para que se começasse, em consultório, recolher as migalhas de pão”deixadas no caminho através da fala do paciente para depois entender mais nuances que o sigilo profissional não me permitirá expor aqui. As informações deste tipo não são tão simples de se chegar ao acesso, exigindo um pouco de paciência e atenção da parte do terapeuta.
O tratamento para o TAG é realizado com psicoterapia e, em casos mais acentuados, há o uso de medicamentos em conjunto.

Transtorno do Pânico

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É o medo de sentir medo. Um dos mais incapacitantes transtornos de ansiedade. Suas manifestações se estendem através de descargas do sistema nervoso autônomo; exatamente por isso, seus sintomas são até mais incapacitantes do que no caso de outros transtornos. Por exemplo: “batedeira ou taquicardia, suor frio,
tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos
em membros e/ou lábios” (Dalgalarrondo, 2008, p. 305).

Panico
(DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 306. Quadro 26.1)

Ainda de acordo com Dalgalarrondo (2008) , algo é unânime entre os pacientes: a sensação de que irá morrer a qualquer momento. Em crises mais intensas pode haver até certo grau de despersonalização. O ataque de pânico costuma ocorrer por mais tempo que o convencional. Quando estas crises de pânico se repetem com certa frequência por um período de 6 meses, pode-se começar a indagação a respeito de um diagnóstico relacionado ao Transtorno do Pânico (podendo ser com ou sem agorafobia).

Pacientes que sofrem de Transtorno do Pânico começam a evitar sair de casa com medo dos ataques; pedem demissão, terminam relacionamentos e, em casos mais graves até cometem suicídio em função da insuportabilidade de seu sofrimento.

A Ansiedade tem tratamento

Agora que você já sabe a diferença entre medo, fobia (que no DSM-V também é considerada um transtorno de ansiedade) e ansiedade teremos o objetivo principal em pauta: auxiliar na busca pelo tratamento, inclusive estimulando pessoas próximas a fazerem o mesmo. Se o leitor se identifica com a maior parte dos sintomas e algum dos transtornos aqui apresentados, a recomendação é que procure um psicólogo e/ou um psiquiatra o mais rápido possível, mesmo que apenas para tirar a dúvida. A internet não serve para isso.

A diferença é feita na hora da procura por um profissional. Mas a difusão do conhecimento sobre o assunto também poderá ajudar para que mais pessoas consigam entender que talvez seja a hora de escutar a opinião de quem dedicou, e ainda dedica a vida pessoal e profissional para ajudar quem passa por este tipo de sofrimento. Compartilhar este texto e deixar seu feedback também ajudarão à difusão deste conhecimento. Faça a sua parte. Até a próxima.

*Todas as imagens contidas no texto foram obtidas de forma gratuita na internet. Caso alguma delas seja de sua autoria, entre em contato com a Sociedade dos Psicólogos o mais rápido possível*.

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo

REFERENCIAS:

American Psychiatric Association et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.

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