Coronavírus: Entre a Realidade e a Ficção

Na Grécia Antiga, o teatro introduziu um meio de contar histórias, sendo que as comedias eram encenadas para contar a história do homem comum e as tragédias contava a história dos Deuses e heróis. Em nosso tempo, não há uma distinção, em meio ao caos, realidade e ficção parecem estar lado a lado e de mãos dadas. ‘A arte imita a vida’ é uma frase usualmente atribuída a Aristóteles, mas de vez enquanto e de forma inesperada, parece que vida imita a arte.

Quando o que está acontecendo em tempo real não é parecido com nada que tenhamos vivido e natural buscarmos referências. Precisamos consumir algum conteúdo que minimamente nos organize frente ao desconhecido.

Ao pesquisar conteúdo para uma serie de lives sobre Coronavírus no Instagram da Sociedade – @spsicologos – autores afirmam que em pandemias as pessoas entram em negação. A mente humana é um grande desafio à uma eterna estudante do comportamento humano, por isto eu me aprofundei no tema.

O objetivo deste texto é iniciar uma série de reflexões sobre um livro fundamental para entendermos a complexidade do comportamento humano. Para além de buscarmos a plenitude, a perfeição e a felicidade, a vida é também é feita de interrupções que podem ser bruscas, inesperadas e com incontingências. Algo que não estava, emerge e se faz presente, algo que maior que nos tira dos trilhos e fica a frente deles.

O livro em questão é “Sobre a Morte e o Morrer” (1981), Elisabeth Kubler-Ross que descreve as fases do luto, que não dialoga somente sobre a finitude da vida, mas de todos os processos de ruptura que acontece enquanto vivemos. Este texto é sobre a primeira fase: a negação.

A vida em câmera lenta

A nossa visão do futuro agora se parece com uma viagem numa estrada, que em dado momento se aproximamos do trecho com neblina e é impossível ver o que está a sua frente. A única coisa a fazer e reduzir a velocidade, seguir em frente com cautela e lendo as orientações da sinalização.

Nós provavelmente, estamos vivendo um momento trágico de proporções mundiais. Ainda não há como mensurar, mesmo que comparada a outras tragédias da história recente, o tamanho e a magnitude do Coronavírus Covid-19 para o mundo tal como o conhecemos. As imagens falam por si, pontos turísticos e avenidas das grandes cidades vazias e corredores de hospitais lotados.

Além das notícias que a cada momento relatam histórias difíceis de assistir, há uma corrida desenfreada para que os cientistas – tão desvalorizados pelo pouco investimento do governo ao longo do tempo e pela crescente corrente que relega a importância das conquistas da medicina, como campanhas antivacinação – descubram o melhor tratamento aos pacientes internados e a vacina que fara arte do nosso calendário de vacinação. Ainda assim, haverá alguém no futuro que acreditará que tomar a dose da vacina é inútil. Não é obvio?

O Ministro da Saúde Mandetta falando sobre campanhas antivacinação

Olhando pelo retrovisor

Em 2011 eu assisti ao filme Contágio, dirigido por Steven Soderbergh, que optou por narrar sua história com um tom documental baseada na pandemia do H1-N1 de 2002. Ao assistir novamente para escrever este texto, não houve como não comparar ao que estamos vivendo neste momento. Outras pessoas, por razões diferentes tiveram a mesma percepção ao assistir o Poço (Netflix, 2019). Ambos filmes são gráficos e podem causar gatilhos.

Trailer do filme Contágio

No filme Contágio (Warner Bros.), o diretor aproxima sua câmera quando quer evidenciar como é a proliferação do inimigo invisível: o vírus. Nos diálogos expositivos, personagem explicitam três conceitos: o R-zero, fômites e isolamento social.

  • R-zero é o primeiro indivíduo que contraiu a doença, saber isto é importante, pois é possível identificar como tudo começou, como é transmitido, quantas pessoas são infectadas e quais são os sintomas.
  • Fômites são meios que são capazes de transmitir o vírus, mesmo sendo inanimados, como plástico, papel, madeira, alumínio, entre outros.
  • O isolamento social é a forma que impede que pessoas portadoras do vírus, mesmo que não tenha sintomas, passem o vírus para pessoas que sejam infectadas e a doença evolua.

Porque a ficção se utiliza das mesmas regras da nossa realidade, as semelhanças não são coincidências. Principalmente quando um repórter freelance começa divulgar sua história em blog, disseminando fakenews e afirmando que ele foi curado tomando um remédio específico, isto ocasiona uma corrida as farmácias. Obvio?

Além do filme, a situação atual também se assemelha com o conceito VUCA desenvolvido pelo Exército dos Estados Unidos no pós-Guerra Fria. Quando não sabemos como lidar com a situação, o mundo a sua volta se torna volátil, incerto, complexo e ambíguo. Há algumas semanas atrás, todos nós estávamos seguindo nossas rotinas, a ideia de que sabemos o que fazer e aonde ir é tudo que seu cérebro necessita.

Quando as coisas saem do trilho e se tornam inconstantes, os especialistas não entram em consenso em quanto tempo possa durar a quarentena, informações desencontradas, discordâncias entre orientações e fakenews alimentam em nós dúvidas e incertezas. Se a vida não é mais como era antes, todos nós perdemos algo ou podemos nos perder no caminho e neste momento entramos em negação.

Não, isto não está acontecendo comigo

Acabo de ver uma reportagem na televisão na qual uma senhora idosa, estava na feira para comprar frutos do mar para ceia da sexta-feira da paixão, sem máscara ou proteção. A repórter pergunta ‘não tinha outra pessoa para vir para senhora na feira?’ e a resposta foi ‘em casa, eu não fico não minha filha, não fico em casa de jeito nenhum’, volta para ancora que apenas diz ‘senhora volta para casa’.

Negação descrita no livro é um mecanismo de defesa, que rejeita um fato que é difícil de ouvir, mas nem por isto deixa ser fato. Kubler-Ross se deparou com vários casos em suas pesquisas, muitas pessoas frente a um diagnóstico, criam histórias que colaboram com a negação, querem ouvir outras opiniões, criam estratégias e uma pequena percentagem prolonga esta fase mais que o esperado.

Vou propor um exercício, imagine por um instante como seria o trânsito nas ruas e avenidas sem farol (sinal ou sinaleira)? Caótico, não é?

Assim são suas emoções, funcionando como um farol que te comunica quando é o momento de parar ou seguir em frente. O medo é uma emoção, não menospreze sua importância, sem medo você seria incapaz de se organizar frente ao desconhecido. Sendo assim, é natural frente ao caos sentir medo. Isto fará com que, se você tiver como, evitar aglomerações, usar a máscara, manter a higiene das mãos e limpar embalagens de produtos e alimentos antes de guardar. Sem medo, seriamos inconsequentes, colocando nossas vidas em risco o tempo todo. Não é obvio?

Alguns de vocês podem se perguntar se estocar papel higiênico é um tipo de negação – na matéria do site BBC – cita Steven Taylor, autor do livro lançado no final de 2019 ‘The Psychology of Pandemics’ (A Psicologia de Pandemias) em suas pesquisas tem uma outra percepção “papel higiênico virou um símbolo de segurança, embora não vá impedir que as pessoas sejam infectadas pelo vírus. Mas quando as pessoas ficam sensíveis a infecções, aumenta a sensibilidade delas para o que é nojento. É um mecanismo para nos proteger de patógenos”. Outro mecanismo de defesa, nossa mente tentando se organizar, mas de uma maneira menos lógica, mais emocional.

Além do fundo do Poço

Antes que eu escrevesse este texto, o colega Caio Ferreira me sugeriu assistir O Poço (Netflix, 2019).

Trailer do filme O Poço

O filme é uma alegoria, com o objetivo de provocar o público a refletir uma questão: quando a necessidade mais básica e primaria para a vida humana – a comida – não chega a todos, o que os seres humanos são capazes de fazer?

Antes de saber do que se tratava o experimento social, o protagonista e algumas pessoas se candidataram ao Poço por escolha própria e outras foram postas lá por falta de escolha. Dentro da prisão vertical subterrânea, os indivíduos são colocados dois por andar, a comida desce numa plataforma, as pessoas que estão nos andares mais altos podem se fartar da comida sem se importar se haverá comida para os andares abaixo. A cada trinta dias e de forma aleatória, os de cima sobem e os debaixo descem. Mesmo tendo passado fome no mês anterior, quando se encontra num andar mais alto, é possível sentir empatia e solidariedade pelos que estão abaixo de você?

No começo o protagonista se nega a comer não aceitando que agora, querendo ou não está é a sua realidade. Mas quanto tempo ele leva para aceita-la? Mesmo parecendo, não e tão obvio assim.

O filme não explica muitas coisas propositalmente e em nenhum momento vemos se as celas possuem a porta pela qual os prisioneiros são trocados de andar. O próprio diretor disse que este filme não é uma crítica sobre capitalismo ou socialismo, mas o que significa, ele deixa para o espectador.

Entrevista com o Diretor do filme e O Poço

Evidente são as referências ao catolicismo, como passagens literais da bíblia, os sete pecados capitais, a ideia recorrente de purgatório e o sacrifício para enviar uma mensagem para administração. Se este filme causar reflexão no espectador, o sacrifício não foi em vão.

O isolamento social pode salvar vidas, se você puder, fique em casa. Assim como também é inegável seu impacto social e econômico. Portanto, podemos pensar no próximo fazendo o que estiver ao nosso alcance e assim começar a sair do estado de negação. Por ora, importante é estar atendo ao que acontece dentro de si – lembre-se do seu farol – tomar as precauções e seguir as orientações do Ministério da Saúde. Mantenha o contato com seus amigos e familiares usando tecnologia, procurando informações de fontes confiáveis, montando uma nova rotina e tentando se adaptar ao momento presente.

Após a negação, começamos a experimentar outra emoção, mas isto ficará para o próximo texto. Como tudo é cíclico, iniciamos e retornamos a Grécia, do teatro e ao mito da Pandora presenteada por Zeus com uma caixa, cuja única orientação era não a abri-la. Ela não se conteve em curiosidade, e ao abrir uma fresta libertou todos os males como: doença, a guerra, a velhice, a mentira, os roubos, o ódio, o ciúme, entre outros. Ela tentou fechar antes que todos saíssem, mas a única que ficou foi a esperança. Não é obvio?

Psicóloga Masilvia Diniz

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Referências

ATLAS OF EMOTIONS. EKMAN, Paul. (Opção em Português), 2020 Disponível: http://atlasofemotions.org/#introduction/. Acesso em 08 abr. 2020.

Bennett, Nathan and Lemoine, James, What VUCA Really Means for You (Jan/Feb 2014). Harvard Business Review, Vol. 92, No. 1/2, 2014. Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=2389563

CONTAGIO (Contagion). Direção: Steven Soderbergh: Warner, 2019. (106 minutos).

O POÇO (El Hoyo). Direção: Galder Gaztelu-Urrutia: Netlflix, 2019. (94 minutos).ROSS, Elisabeth Kübler. Sobre a Morte e o Morrer. Editora Martins Fontes. São Paulo 1996.

PANDORA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Pandora&oldid=57738502>. Acesso em: 8 mar. 2020.

ROSS, Elisabeth Kübler. Sobre a Morte e o Morrer. Editora Martins Fontes. São Paulo 1996.

Sociedade dos Psicólogos – Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber?

Guia Para Atendimento Psicológico Online Durante a Pandemia

Alô psi! No texto de hoje vou abordar as principais questões que tenho esbarrado sobre o atendimento psicológico por meio das tecnologias da informação e da comunicação frente às demandas e implicações da pandemia do novo coronavírus.

terapia onlinePrimeiramente, é importante frisar que esse vírus nos vem como algo inédito, sem precedentes, cujos efeitos já foram caracterizados como um dos maiores problemas sanitários da contemporaneidade e como a maior pandemia da nossa geração. As medidas de prevenção comunitária e a incerteza sobre o futuro atingiram, de forma inesperada, nossos comportamentos e afetos, sendo que, de uma hora para a outra, fomos direcionados a mudar, desde a forma como cumprimentamos e nos relacionamos com as pessoas, até a forma como nos higienizamos, realizamos compras e realizamos nossos serviços.

Essas mudanças repentinas na rotina das pessoas costumam se desenrolar em estresse, sendo que esse, por sua vez, pode carregar ansiedades, amplificar psicopatologias e também mobilizar a pessoa para o crescimento pessoal. Do ponto de vista da saúde mental, tenho percebido que alguns fenômenos que encontramos na prática clínica estão “em alta” devido à situação de pandemia, do qual valem destacar os transtornos de ansiedade e episódios de pânico, hipocondria, TEPT (transtorno do estresse pós-traumático), aumento da violência doméstica, depressão, acúmulos e compulsividades.

Como o nosso trabalho está sendo direcionado para a prática online e isso ainda gera muitas dúvidas entre os profissionais, no texto de hoje pretendo abordar as seguintes perguntas: como realizar os atendimentos psicológicos de forma online? Quais serviços são permitidos? Qual plataforma usar? O que o CFP e os CRPs têm recomendado? Quais as implicações para com o setting e com o sigilo?

Comunicados e regulamentações do CFP – Conselho Federal de Psicologia

Atualmente, temos 2 regulamentações do CFP que direcionam a nossa prática, são elas: a Resolução CFP Nº 11/2018 e a Resolução CFP Nº 04/2020, sendo essa última temporária e diretamente relacionada com o cenário da pandemia.

O atendimento psicológico a distância é permitido desde 2012 (Resolução CFP nº 11/2012), mas a Resolução CFP Nº 11/2018 revogou o que estava apresentado na resolução de 2012. Da resolução de 2018, quero destacar os seguintes pontos (art 2º, art. 5º e art. 9º).

Resolução CFP Nº 11/2018

Art. 2º São autorizadas a prestação dos seguintes serviços psicológicos realizados por meios tecnológicos da informação e comunicação, desde que não firam as disposições do Código de Ética Profissional da psicóloga e do psicólogo a esta Resolução:

I – As consultas e/ou atendimentos psicológicos de diferentes tipos de maneira síncrona ou assíncrona;

II – Os processos de Seleção de Pessoal;

III – Utilização de instrumentos psicológicos devidamente regulamentados por resolução pertinente, sendo que os testes psicológicos devem ter parecer favorável do Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos (SATEPSI), com padronização e normatização específica para tal finalidade.

IV – A supervisão técnica dos serviços prestados por psicólogas e psicólogos nos mais diversos contextos de atuação.

Art. 5º O atendimento de crianças e adolescentes ocorrerá na forma desta Resolução, com o consentimento expresso de ao menos um dos responsáveis legais e mediante avaliação de viabilidade técnica por parte da psicóloga e do psicólogo para a realização desse tipo de serviço.

Art. 9º A prestação de serviços psicológicos, por meio de tecnologias de informação e comunicação, deverá respeitar as especificidades e adequação dos métodos e instrumentos utilizados em relação às pessoas com deficiência na forma da legislação vigente.

Os itens acima nos reforçam a importância de conhecer e seguir o Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP Nº 10/2005) e nos informam quais tipos de serviços psicológicos e instrumentos são permitidos por meio da internet. Vale dizer que alguns testes psicológico utilizados em sessões presenciais não são favoráveis para utilização por meio das tecnologias da comunicação e da informação. Para acessar o Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos (SATEPSI) e encontrar as informações sobre os testes favoráveis, clique aqui.

CLIQUE AQUI para acessar a íntegra da Resolução CFP Nº 11/2018.

Resolução CFP Nº 04/2020

Com base nas recomendações de distanciamento e isolamento social, a prática profissional do psicólogo está, atualmente, direcionada para a atuação à distância e, dessa forma, uma nova e emergencial resolução foi apresentada pelo CFP. De uma forma geral, essa resolução suspende, de forma temporária, alguns artigos encontrados na resolução de 2018 e reforça instruções para o cadastro na plataforma e-Psi (necessária para a prática dos serviços psicológicos realizados por meios tecnológicos da informação e comunicação).

A resolução de 2020 é apresentada em 4 artigos que vou copiar e colar aqui:

Art. 1º Esta Resolução regulamenta os serviços psicológicos prestados por meios de tecnologia da informação e da comunicação durante o período de pandemia do COVID-19.

Art. 2º É dever fundamental do psicólogo conhecer e cumprir o Código de Ética Profissional estabelecido pela Resolução CFP nº 10, de 21 de julho de 2005, na prestação de serviços psicológicos por meio de tecnologias da comunicação e informação.

Art. 3º A prestação de serviços psicológicos referentes a esta Resolução está condicionada à realização de cadastro prévio na plataforma e-Psi junto ao respectivo Conselho Regional de Psicologia – CRP.

§ 1º O psicólogo deverá manter o próprio cadastro atualizado.

§ 2º O psicólogo poderá prestar serviços psicológicos por meios de Tecnologia da Informação e da Comunicação até emissão de parecer do respectivo CRP.

I – Da decisão de indeferimento do cadastro pelo CRP cabe recurso ao CFP, no prazo de 30 dias;

II – O recurso para o CFP terá efeito suspensivo, de modo que o psicólogo poderá prestar o serviço até decisão final do CFP;

III – A ausência de recurso implicará no impedimento e interrupção imediata da prestação do serviço;

IV – Na hipótese de ausência de recurso ou de decisão final do CFP confirmando o indeferimento do cadastro pelo CRP, o psicólogo fica impedido de prestar serviços psicológicos por meio de tecnologias da comunicação e informação até a aprovação de novo requerimento de cadastro pelo CRP.

V – Incorrerá em falta ética o psicólogo que prestar serviços psicológicos por meio Tecnologia da Informação e da Comunicação após indeferimento do CFP.

Art. 4º Ficam suspensos os Art. 3º, Art. 4º, Art. 6º, Art. 7º e Art. 8º da Resolução CFP nº 11, de 11 de maio de 2018, durante o período de pandemia do COVID-19 e até que sobrevenha Resolução do CFP sobre serviços psicológicos prestados por meios de tecnologia da informação e da comunicação.

Antes da pandemia, os cadastros feitos no e-Psi eram submetidos à avaliação e o profissional deveria aguardar a decisão favorável do CRP para iniciar os serviços online. Atualmente, ao finalizar o cadastro no e-Psi, imediatamente o profissional está autorizado a iniciar a prática, todavia, os cadastros continuam sendo analisados e o artigo 2º da Resolução CFP Nº 04/2020 nos informa sobre as possibilidades de indeferimento do mesmo.

(Tela inicial atual do portal Cadastro e-Psi: https://e-psi.cfp.org.br/)

Trocando em miúdos, caso você tenha feito o cadastro no e-Psi e, posteriormente, recebeu parecer negativo do CRP, você tem até 30 dias para recorrer ao CFP e poderá continuar atendendo nesse período. Caso não recorra, em 30 dias, seu cadastro será impedido e você deverá interromper os atendimentos online. Vale reforçar que o profissional que realizar os serviços psicológicos a distância, sem o cadastro no e-Psi, estará cometendo falta ética e estará sujeito às medidas do Conselho.

Conforme viram na resolução 04/2020, ela suspende, temporariamente, os artigos. 3º, 4º, 6º, 7º e 8º da Resolução CFP Nº 11/2018. Vejamos o que informam esses artigos:

Art. 3º A prestação de serviços psicológicos referentes a esta Resolução está condicionada à realização de um cadastro prévio junto ao Conselho Regional de Psicologia e sua autorização.

Art. 4º O profissional que mantiver serviços psicológicos por meios tecnológicos de comunicação a distância, sem o cadastramento no Conselho Regional de Psicologia, cometerá falta disciplinar.

Art. 6º O atendimento de pessoas e grupos em situação de urgência e emergência pelos meios de tecnologia e informação previstos nesta Resolução é inadequado, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial.

Art. 7º O atendimento de pessoas e grupos em situação de emergência e desastres pelos meios de tecnologia e informação previstos nesta Resolução é vedado, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial.

Art. 8º É vedado o atendimento de pessoas e grupos em situação de violação de direitos ou de violência, pelos meios de tecnologia e informação previstos nesta Resolução, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial. 

De uma forma geral, os artigos 3º e 4º foram atualizados por comunicado do CFP e pela Resolução CFP Nº 04/2020, sendo que o cadastro no e-Psi é obrigatório, mas não há necessidade de esperar aprovação do CRP. Já os artigos 6º, 7º e 8º vetavam o atendimento a determinados públicos, mas que agora podem ser atendidos de forma remota.

CLIQUE AQUI para acessar a íntegra da Resolução CFP Nº 04/2020.

Para saber mais e acompanhar as diretrizes do CFP, acesse aqui a página que reúne notícias, podcasts e vídeos.

Cadastro e-Psi

O cadastro na plataforma Cadastro e-Psi é obrigatória para que os profissionais de psicologia possam realizar os serviços por meio das tecnologias da informação e da comunicação. Fica aqui a recomendação do primeiro texto publicado pela Sociedade dos Psicólogos sobre terapia online. O texto foi escrito pelo Psicólogo e Sócio-Colunista Caio Cesar Rodrigues de Araujo (CRP 06/139621), reúne um passo a passo com fotos para compreensão do cadastro e pode ser acessado aqui: Tudo Sobre Terapia Online: Como Funciona? Prós e Contras; Como se Cadastrar? Passo a Passo com Fotos.

Acesso ao portal Cadastro e-Psi: https://e-psi.cfp.org.br/

Qual plataforma usar?

Primeiramente, é importante diferenciar o tipo de atendimento síncrono e assíncrono, sendo que as consultas e/ou atendimentos psicológicos de diferentes tipos nos são garantidas de maneira síncrona ou assíncrona pelo artigo 2º da Resolução CFP Nº 11/2018.

Atendimento síncrono

Esse tipo de comunicação se estabelece quando emissor e receptor estão sincronizados, isso é, em tempo real, por meio de videoconferência ou chamada telefônica, por exemplo. Nesse caso, as principais plataformas utilizadas são: WhatsApp, Skype, Zoom, Whereby, Google Duo, Facebook Messenger e FaceTime (esse último exclusivo para Apple).

Atendimento assíncrono

Já na comunicação assíncrona as informações são transmitidas sem que haja um fluxo estável, isso é, sem que ambas partes da comunicação estejam presentes naquele momento, como troca de e-mails, mensagens de texto ou voz no WhatsApp ou Telegram, por exemplo.

Seja para atendimento síncrono ou assíncrono, na hora de escolher a plataforma que você vai utilizar, é importante que você leia os termos de serviço e verifique a questão do sigilo da comunicação. Muitas vezes é necessário passar alguma informação prévia, verificar os conhecimentos do paciente e até instruí-lo a utilizar essas plataformas.

DICA 1 – No caso de utilização de serviços como WhatsApp, Telegram e Facebook Messenger, por exemplo, o profissional deve ter em mente que essas plataformas costumam carregar interrupções e notificações de outras conversas, o que não é ideal durante o atendimento. Dessa forma, é preferível a utilização de plataformas “mais fechadas”.

DICA 2 – É importante também ter um “plano B” das plataformas e para a utilização dessas, uma vez que elas dependem de energia elétrica e acesso a internet. No meu caso, para videochamadas, utilizo, preferencialmente, o Zoom em meu laptop. Caso aconteça algum problema com minha máquina, passo para um tablet e caso esse dê problema ou não haja wi-fi, o “plano C” é utilizar o Zoom pelo smartphone com o 4G. Meu software backup é o Skype, que também está instalado nesses 3 dispositivos.

Como manter o sigilo

Há diferenças significativas do sigilo no atendimento presencial para o online. De uma forma geral, no atendimento presencial, o profissional é o responsável pelo sigilo, o que vai desde a estrutura da sua sala até a guarda dos documentos. Já no atendimento a distância, há a corresponsabilidade, isso é, tanto o profissional quanto o cliente são responsáveis pelo sigilo.

O consultório mudou de lugar e foi para casa. Casa essa que, muitas vezes, comporta mais de uma pessoa, seja do lado do paciente ou do lado do terapeuta. Assim, alguns cuidados são importantes:

  • É dever do psicólogo escolher uma plataforma segura;
  • Ambos devem estar em ambiente reservado para as sessões (por vezes, durante a pandemia, tem sido comum o atendimento em horários mais avançados da noite, pois é o único horário que alguns pacientes se sentem confortáveis e sem interrupções/interferências de outros moradores);
  • Utilização de fone de ouvido (principalmente pelo profissional);
  • Não gravação das videoconferências;
  • Equipamentos protegidos por senhas pessoais;
  • Equipamentos protegidos pro antivírus;
  • Os atendimentos não poderão ser realizados em ambientes públicos, “infocentros” e lanhouses;
  • O profissional que está atendendo em casa deve informar aos demais moradores e, caso ache necessário, pode também colocar uma plaquinha na porta do seu cômodo informando que está em horário de trabalho).

Contrato de trabalho

Contrato escrito e contrato verbal

Apesar das recomendações de se estabelecer um contrato escrito de trabalho, é sabido que muitos profissionais utilizam o chamado contrato verbal em sua prática e relação terapêutica. Todavia, seja no verbal ou no escrito (e recomendo o escrito), é importante que o profissional inclua, para além das informações padrão, as questões sobre o funcionamento online e as plataformas escolhidas, bem como a questão da corresponsabilidade do sigilo, que deve incluir os elementos discutidos no tópico anterior.

Trabalho voluntário e contrato de trabalho

Frente à situação de pandemia, muitos profissionais e grupos tem se organizado para realizar atendimento voluntário gratuito. Sobre isso, vale conhecer algumas diretrizes do CFP que foram reunidas no comunicado publicado em 21/03/2020:

Não há impedimento na legislação profissional em prestar serviços psicológicos de forma voluntária/gratuita. Contudo, não deverá haver referências a valores na divulgação do serviço. Caso se trate de uma gratuidade, esta informação deverá ser disponibilizada individualmente. Ressalta-se, ainda, que as(os) profissionais devem ter uma proposta de trabalho com início, meio e fim, ou que garanta a gratuidade por todo o período da prestação do serviço. Salienta-se que deve haver o compromisso profissional estabelecido, com direitos e obrigações, como em qualquer outra situação de sua prática. Portanto, é necessário atentar aos preceitos do Código de Ética Profissional do Psicólogo e demais normativas do Sistema Conselhos de Psicologia do Brasil, destacando-se:

Art. 1º – São deveres fundamentais do psicólogo:

  1. b) Assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente.
  2. c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional.
  3. d) Prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou de emergência, sem visar benefício pessoal.

Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:

  1. i) Induzir qualquer pessoa ou organização a recorrer a seus serviços.
  2. n) Prolongar, desnecessariamente, a prestação de serviços profissionais.
  3. o) Pleitear ou receber comissões, empréstimos, doações ou vantagens outras de qualquer espécie, além dos honorários contratados, assim como intermediar transações financeiras.
  4. p) Receber, pagar remuneração ou porcentagem por encaminhamento de serviços.

Art. 4º – Ao fixar a remuneração pelo seu trabalho, o psicólogo:

  1. a) Levará em conta a justa retribuição aos serviços prestados e as condições do usuário ou beneficiário.
  2. b) Estipulará o valor de acordo com as características da atividade e o comunicará ao usuário ou beneficiário antes do início do trabalho a ser realizado.
  3. c) Assegurará a qualidade dos serviços oferecidos independentemente do valor acordado.

Com base no exposto, reforço a questão de que não deve haver referencia a valores em qualquer divulgação do profissional de psicologia e que a gratuidade deve ser informada individualmente. A nível do contrato, como trabalho com contrato escrito e tenho realizado também atendimentos voluntários, incluí a seguinte cláusula “O atendimento psicológico não terá custo enquanto perdurar o estado de emergência de saúde pública decorrente da COVID-19”.

Características do setting virtual

terapia onlineComo sabemos, o consultório mudou de lugar. Até então, precisávamos nos preocupar em encontrar uma boa sala, com um bom isolamento acústico, com uma boa localização, com um divã… atualmente, a preocupação é, principalmente, com uma boa plataforma, com uma boa internet e com a adaptação das técnicas para o atendimento a distância.

Não dá pra pensar que a terapia a online é igual a presencial. Ela é diferente e mais desafiadora, sendo que é tempo de nos reinventarmos e de descobrirmos novas possibilidades dentro da prática psicológica. Penso que é um ótimo momento para fazer ciência.

Para o profissional, é hora do trabalho, devemos nos preocupar com os ruídos do ambiente, com a qualidade da transmissão, com a nossa aparência profissional, com os elementos que são captados pela nossa câmera, entre outros detalhes, mas é importante pensar que o paciente pode estar na cama, de pijama, sem camisa, descabelado… e aí, cabe ao profissional e sua abordagem aceitar ou direcionar esses fenômenos vindos do cliente. No caso de haver mais pessoas no ambiente do cliente, o profissional deve informar e apontar sobre as perturbações.

A nível de desafios e possibilidades, vou copiar e colar algumas observações que foram escritas pelo meu xará, Caio Cesar Rodrigues de Araujo (CRP 06/139621), e que estão no texto Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber? e pode ser acessado na íntegra clicando aqui.

Dificuldades:

  • Problemas de conexão que podem causar delay (atraso) no áudio/vídeo, assim como problemas técnicos com microfone e/ou fones de ouvido;
  • Problemas de privacidade, onde o paciente encontra dificuldade em encontrar um local tranquilo, silencioso e que lhe garanta a possibilidade de falar o que quer e/ou precisa. Neste cenário, alguns optam por realizarem a sessão por dispositivos móveis de seus quartos, escritórios, banhos e até dentro de seus carros;
  • Dificuldade de manter o silêncio das sessões, podendo ele eventualmente ser confundido com problemas de conexão;

Vantagens:

  • Possibilidade de maior desinibição de alguns pacientes, pois agora pode haver a sensação de não estar falando diretamente algo a alguém, algo semelhante àquela confiança que muitas pessoas demonstram de maneira mais elevada na internet, cabendo aos terapeutas e analistas a devida atenção à fala e ao conteúdo. Algo longe de ser o caso de casos e também longe de não ser o caso de ninguém;
  • Maior flexibilidade de horários e, em alguns casos até de valores, de forma que fique mais confortável para ambas as partes, pois cada um está em sua residência.

Recomendações gerais

Flexibilidade, flexibilidade e flexibilidade. Iniciei o texto comentado que vivemos algo sem precedentes. Todos nós estamos sendo bombardeados, constantemente, com informes, notícias, recomendações, resoluções e tudo isso causa sensações de instabilidade e imprevisibilidade sobre a nossa prática e sobre o futuro da psicologia. Cabe a nós sermos flexíveis e atentos para poder compreender e conseguir atuar frente ao momento dinâmico que estamos vivendo.

Como recomendações gerais e finais, repito que o terapeuta que anteder online deverá tratar sua hora como trabalho, estando arrumado, fazendo os devidos registros, guardando os documentos, utilizando fones de ouvido e garantindo o sigilo, reservando e arrumando o espaço profissional, colocando a plaquinha na porta, tendo backups e planos B para a utilização dos softwares e aplicativos, mantendo laptop, tablet e celular carregados antes das sessões, configurar senhas para os dispositivos e estar atendo, sensível e estudando, estudando e estudando.

Referências

CFP – Coronavírus: Comunicado sobre atendimento on-line – Disponível Aqui

CFP – Nota Orientativa às(aos) Psicólogas(os): Trabalho Voluntário e Publicidade em Psicologia, diante do Coronavírus (COVID-19) – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 10/2005 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 11/2018 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 04/2020 – Disponível Aqui

Sociedade dos Psicólogos – Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber?

Sociedade dos Psicólogos – Tudo Sobre Terapia Online: Como Funciona? Prós e Contras; Como se Cadastrar? Passo a Passo com Fotos

Por Caio Ferreira

Pandemia Coronavirus e Psicologia — O que te falta saber?

“O que é mais assustador? A idéia de extraterrestres em mundos estranhos, ou a idéia de que, em todo este imenso universo, nós estamos sozinhos?”

– Carl Sagan.

Por Caio Cesar Rodrigues .

Olá psicólogas e psicólogos, estudantes e leitores de todo o Brasil (e os de fora daqui que também nos acessam). Me chamo Caio. O artigo a seguir surgiu para tentar sanar certo Não Saber de nossa categoria durante este momento tão incerto que vivemos.

O texto inicialmente era destinado à psicólogas e psicologos, contudo, seu conteúdo servirá também a quem ainda se considere pouco informado a respeito do Novo Coronavirus.

Estamos em tempos difíceis. Estabelecimentos fechando, superlotação em mercados, pré-escassez de produtos como álcool gel e papel higiênico; isolamento, fechamento de fronteiras e quarentena em países Desenvolvidos e Em Desenvolvimento. Apesar de todo mundo sentir essa diferença, nem todos estão conseguindo ou até querendo se informar a respeito. E o texto tem meramente este propósito: informar.
Me disponho a ler e responder a todos os feedbacks; bem como a considerar a inclusão ou exclusão de partes deste texto a partir destes — na condição de haver o devido fundamento e/ou veracidade à avaliação destes, feita por mim.

O que será falado neste artigo?

Neste artigo tentarei falar sobre os seguintes aspectos:

  1. O que é e o que sabemos sobre o Novo Coronavirus e a doença COVID-19?
  2. Formas de contaminação, contágio e prevenção;
  3. Quantas pessoas estão contaminadas com o Novo Coronavirus ao redor do mundo até o momento?
  4. Quarentena, Isolamento, Fechamento de Fronteiras e Estado de Emergência e Calamidade Pública — Efeitos sociais que Pandemia está causando no Brasil e no Mundo ;
  5. Consequências da Pandemia no trabalho da (o) profissional da psicologia — mudanças, restrições;
  6. Influência da Pandemia em pacientes que possuem ou não psicopatologias/Transtornos Mentais – Implicações, complicações e manejo;
  7. Sugestões, discussões e possíveis soluções para a atuação da Psicologia em meio a este cenário Mundial nunca antes visto em sua história como ciência e profissão.

Após a publicação deste artigo completo, ele também será fragmentado em seus tópicos, linkados acima para facilitar a leitura, uma vez que sua extensão ficou bem maior do que o planejado.

O que é o Novo Coronavirus (COVID-19)?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a mesma declarar que estamos em uma Pandemia de Coronavirus, no dia 11 de março de 2020:

Os Coronavirus são uma grande família de vírus que podem causar doenças em humanos e animais. Nos humanos, muitos tipos de coronavírus são conhecidos por causarem infecções respiratórias, que variam de um simples resfriado comum, até graves doenças como A Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). O último tipo de coronavírus descoberto tem como causa a doença COVID-19.

(OMS, Q&A on coronaviruses (COVID-19) 9 March 2020 | Q&A, acessado em 19/03/2020)

E o que é COVID-19?

A resposta também é trazida pelo mesmo órgão, chefiado pelo Doutor em Saúde Comunitária pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido o acadêmico etíope que se tornou referência mundial a partir de suas pesquisas a respeito de epidemias, Tedros Adhanom Ghebreyesus:

“COVID-19 é a doença infecciosa causada pelo coronavirus descoberto mais recentemente (novo coronavirus). Este novo vírus e esta nova doença eram desconhecidos antes do surto começar em Wuhan, China, em dezembro de 2019″.

(OMS, Q&A on coronaviruses (COVID-19) 9 March 2020 | Q&A, acessado em 19/03/2020)

Tedros Adhanom Ghebreyesus é Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde

Ainda de acordo com a OMS, os principais sintomas de COVID-19 são febre, cansaço e tosse seca. Alguns pacientes têm dores, congestão e coriza nasal, garganta seca e até diarréia (OMS, 2020). Apesar disso, algumas pessoas não manifestam sintomas e se sentem muito bem, inclusive. A instituição também ressalta que 80% das pessoas se recuperam da doença sem a necessidade de nenhum tratamento especial e/ou hospitalizado. Contudo, uma em cada seis pessoas com COVID-19 irá desenvolver o sintoma grave da doença que é a falta de ar/dificuldade de respiração.

E quando falamos de pessoas idosas (+60 anos) e super-idosas (+80 anos) os problemas podem ser piores ainda. O mesmo vale para pessoas que têm/estão com baixa imunidade e portadores de doenças crônicas como hipertensão e diabetes (OMS, 2020). O órgão recomenda: pessoas com febre, dificuldade respiratória e tosse, devem procurar atenção médica.

Como o Vírus se Espalha?

A princípio por gotículas de secreções bucais ou nasais. Tosses, espirros; cuspes, escarros e beijos seriam formas diretas de contaminação. Contudo, se alguém tossir, espirrar, cuspir ou escarrar em uma superfície, esta também poderá conter o vírus por um prazo ainda desconhecido, em função da novidade que é a doença para o mundo. Consequentemente, as pessoas que tocarem nestas superfícies e levarem as mãos aos olhos, boca, nariz (ou ainda ao rosto e o próprio suor fizer o restante do caminho), poderão se contaminar (OMS, 2020).

Também será possível que isso seja feito através do compartilhamento de copos, talheres, travesseiros (pois pode haver saliva secretada durante o sono), etc.

A Agência ainda ressalta que:

  1. É mais provável que o vírus seja espalhado por gotículas do que pelo ar em si;
  2. É possível SIM contrair o vírus de quem ainda sequer manifestou (ou irá manifestar) sintomas;
  3. A forma mais eficiente de prevenção é lavar as mãos a partir de todo e qualquer contato tátil com pessoas e objetos utilizados por você e por elas, recomenda-se também a limpeza da superfície destes objetos;
  4. Deve-se manter a distância de 1 a 2 metros de qualquer pessoa que possa ter o vírus (5 metros em caso de espirros);
  5. A qualquer sintoma seu e de pessoas próximas a você FIQUE EM CASA;
  6. Havendo grandes sinais de contaminação na sua região, FIQUE EM CASA.

(OMS, 2020)

Apesar de todas as recomendações a respeito da contaminação, é praticamente impossível conter este tipo de contato nas dimensões ideais, mas sua minimização favorece na redução dos picos de infecção de uma região.

Um dos motivos para a facilidade de transmissão do vírus é o próprio tempo de incubação, período em que mesmo que o paciente não demonstre sintoma algum, já irá iniciar o contágio.

Acredita-se também que uma pessoa é capaz de infectar de duas a quatro pessoas simultaneamente, assim como essas pessoas infectadas também irão conduzir o contágio a mais 2-4 pessoas que, sucessiva e exponencialmente, contaminarão milhares de pessoas em poucos dias.

Como Desinfectar algo que contém o Novo Coronavirus?

Como matar o vírus?

Para que haja a desinfecção de uma superfície que teve contato com o vírus, é necessário que sua capacidade de reprodução e respiração sejam cessadas. E isso acontece quando destruímos sua composição principal.

O que faz isso? Água com sabão!

Mas como algo tão simples e que parou o mundo é morto apenas por água e sabão? Vejamos o que diz o especialista.

Segundo Thomas Pietschmann, virologista molecular e pesquisador no Centro de Pesquisa de Infecção Experimental e Clínica, chamado Twincore, em Hannover, na Alemanha, o Novo Coronavirus se assemelha ao vírus da Hepatite C porque ” é cercado por uma camada lipídica, ou seja, uma camada de gordura”.

Sombra e água fresca

Sabendo a composição do vírus, ja podemos nos indagar sobre qual tipo de ambiente favorece ou desfavorece sua sobrevivência e, consequentemente, sua reprodução.

Portanto “os vírus possuem mais estabilidade em baixas temperaturas. Semelhante aos alimentos que têm maior vida útil na geladeira”, já que a gordura não se dá muito bem o calor. Podemos imaginar a estrutura de algo gorduroso, manteiga por exemplo: permanecerá em sua forma ideal em menores temperaturas.

Provavelmente agora já seja possível imaginar ou, para os mais familiarizados à biologia, entender por que é tão importante lavar as mãos com água e sabão. O sabão, o detergente e shampoo são agentes utilizados para remover a gordura das superfícies. Logo: quando fazemos isso com o vírus, removemos o que o faz sobreviver. O álcool em gel 70% também realiza esta função.

O especialista ainda deixa um alerta em relação à umidade do ar: “Nos dias frios e, em sua maior parte, secos do inverno, as pequenas gotículas flutuam, junto aos vírus, por mais tempo na atmosfera do que nos dias de alta umidade”.. Contudo, ainda somos um dos países onde mais há contato humano direto.e aqui está explicado o porquê é tão dito por aí que este vírus terá mais dificuldade de se espalhar em um país tropical como o nosso

A seguir um vídeo sobre como lavar as mãos corretamente, para se prevenir do Novo Coronavirus de acordo com a própria OMS:

Detalhe: a torneira que é aberta com as mãos “sujas” (supostamente contaminadas) só é fechada pelas mãos limpas com o auxílio de um papel que impede o contato da mão com a torneira, possivelmente para prevenir a reinfecção através da superfície supostamente contaminada pela mão, que antes estava suja.

Você também poderá conferir toda a entrevista que o virologista deu ao site de Notícias DW Brasil Clicando aqui neste link.

Quantas pessoas estão contaminadas com o novo Coronavirus?

Até o momento da publicação deste artigo (20/03/2020), segundo o portal criado pela Microsoft para acompanhar os casos de Coronavirus (COVID-19) no mundo em tempo real, Às 07 da manhã deste mesmo dia os dados atualizados sobre a doença no mundo eram:

covid 19 pelo mundo

covid 19 pelo brasil

Vale ressaltar que, ao que a China conseguiu identificar, num trabalho de investigação de vários médicos, o chamado paciente zero (o primeiro a se infectar do mundo) — de acordo com o processo de rastreamento adotado a partir da investigação de dados fornecidos por mais de 250 pessoas infectadas — tenha iniciado o contágio em 17 de novembro de 2019, na cidade de Wuhan, localizada na província de Hubei, na China. A hipótese é que a transmissão tenha ocorrida após a ingestão de carne animal contaminada com o Novo Coronavirus. Uma das hipóteses é que tenha sido através da carne de morcego.

Mas o ponto principal de nossa atenção está na linha do tempo: do dia 17 de novembro de 2019 ao dia 20 de março de 2020, o vírus contaminou mais de 245 mil pessoas, matando mais de 10 mil, saindo de uma cidade da China para o mundo todo.

Casos Subnotificados

Deve-se levar em consideração que os Governos apenas estão testando os casos mais graves que derem entrada nos hospitais. A parte falha, no que diz respeito a conhecer o número real de casos em um país, é que: nem todos irão manifestar sintomas, assim como a maioria apresentará sintomas leves; contudo, este tipo grave de sintoma que o governo procura ter como alvo dos testes, justamente é aquele que só ocorre após quase duas semanas de infecção — período em que está pessoa irá contaminar outras sem saber que possui o vírus. (Tal modus operandi passou a funcionar no Brasil após o Governo localizar casos de contaminação comunitária, isto é, onde pessoas que não tiveram contato foram diagnosticadas com Covid-19).

Essas políticas de testagem também eram empregadas a princípio na China, mas foram substituídas pela testagem geral, principalmente das regiões em isolamento.

Estes fatores certamente ampliam muito a disseminação do vírus, então a orientação é para limitar tal contágio desenfreado por pessoas que não têm ciência de terem sido infectadas. Por conta disso, perante à percepção do aumento dos casos, Governos de todo o mundo começam a implantar políticas de isolamento, quarentena e até confinamento de suas populações, visando evitar tal transmissão comunitária.

Veja o exemplo do vídeo:

Quarentena, Isolamento, Fechamento de Fronteiras e Estado de Emergência e Calamidade Pública

O que significam os termos Quarentena e Isolamento? Por que estamos falando até em confinamento?

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Agentes da Polícia Nacional Espanhola fazendo guarda de uma rua vazia, após ser decretado isolamento parcial na Espanha. A foto é do dia 15 de março em Málaga, Espanha. (via Jon Nazca/Reuters)

Segundo o Minitério da Saúde, como o Brasil se encontra em Emergência em Saúde Pública de importância Nacional (ESPIN) em decorrência da Infecção Humana pelo novo Coronavírus (2019-nCoV), serão adotadas medidas como:

  • Quarentena: determinada mediante ato administrativo formal e devidamente motivado e deverá ser editada por Secretário de Saúde do Estado, do Município, do Distrito Federal ou Ministro de Estado da Saúde ou superiores em cada nível de gestão. Publicada no Diário Oficial e amplamente divulgada pelos meios de comunicação, com duração de até 40 dias, podendo ser prorrogada pelo tempo necessário para reduzir a transmissão comunitária e garantir a manutenção dos serviços de saúde no território.

No Estado de São Paulo, o Governo recomenda fechamento de shoppings e academias da Grande SP até fim de abril, e também recomenda fechamento de igrejas, suspende cobrança de água e dá férias a professores.

enquanto a Prefeitura de São Paulo adota medidas para evitar disseminação do coronavírus, tais medidas servirão para evitar a circulação de pessoas e a formação de aglomerações, sendo que na Cidade apenas comércios considerados essenciais irão funcionar (mercados, farmácias, restaurantes, hospitais, etc).

Tanto a Prefeitura Municipal, como o Governo Estadual de São Paulo, já decretaram suspensão das aulas. A medida também ocorre em outros Estados e Cidades.

E no Mundo?

Militares usam máscaras na Catedral de Milão: ponto turístico foi fechado após surto de coronavírus na região Flavio Lo Scalzo/Reuters

Atualmente, de acordo com o jornal inglês Metro UK ao menos 7 países já declararam quarentena em todo o território nacional, são eles:

E além dos países que não decretaram quarentena em todo território nacional, há os que decretaram em determinadas regiões, bem como os que decretaram quarentena voluntária.

A Polônia, Russia e Noruega fecham suas fronteiras, a Nova Zelandia diz que passageiros que chegarem ao país, inclusive cidadãos neozelandeses, deverão permanecer isolados por 14 dias; A cidade de Londres fecha escolas e boa parte dos comércios, bem como cerca de 40 estações do Underground, o metrô londrino; os Estados Unidos decretam restrição de voos que venham da Europa. (Segundo o Jornal Metro UK, 2020).

Em cenários como estes, como as pessoas são orientadas à permanência em casa, é previsto que os comércios comecem a fechar por conta própria, as ruas já se encontrarem vazias e a sensação de quarentena ocorra mesmo sem um decreto oficial.

O colapso se estende à economia, ao abastecimento e à autoestima dos moradores.

Impactos

Empresas estão convertendo o trabalho presencial de seus funcionários em trabalho remoto (home-office), assim como também preveem queda nos lucros e atividades. A tendência é que todas as áreas em que forem possíveis o trabalho remoto, ele seja empregado o mais rapidamente possível.

E estas são as medidas que também chegarão à Psicologia, uma vez que causarão intensa mudança no estilo de vida, desemprego, mudança nas formas de trabalho; alteração nas relações sociais, na percepção da solidão e em casos de psicopatologias de caráter ansioso e depressivo, por exemplo.

E se o psicólogo ou a psicóloga forem seguir as determinações dos órgãos governamentais e da OMS, como poderá atender seus pacientes? Se devem ser evitados os deslocamentos, como os pacientes chegarão até o consultório? E todos deitarão no mesmo divã ou sentarão na mesma poltrona — onde outros que poderiam ter se contaminado sem saber já teriam deitado?

Numa profissão onde o tato tem seu lugar imprescindível, as restrições de contato podem contaminar nossa prática?

Consequências da Pandemia no trabalho da (o) Profissional da Psicologia — mudanças, restrições

No dia 14/03/2020, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), fez um comunicado à categoria que poderá ser visto neste link.

Nele, havia as seguintes orientações:

  • A(O) profissional deverá observar recomendações do Ministério da Saúde, OMS, Secretarias de Saúde e autoridades civis sobre eventuais possibilidades de quarentena, resguardo, isolamento. Para fins laborais, deverá seguir a legislação vigente referente a atestado de afastamento;
  • Recomenda-se a prestação de serviços em locais ventilados, não fechados, que permitam manter distância de um a dois metros entre pessoas, se possível. Pois, até aquele momento, não houve orientação das autoridades para suspensão de atividades;
  • Caso a(o) profissional opte pela prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologia da informação e da comunicação, como o atendimento on-line, deverá seguir as orientações da Resolução CFP nº 11/2018, em especial a necessidade de realização de um cadastro prévio junto ao seu Conselho Regional de Psicologia (CRP); (CFP, 2020)

Houve também a suspensão dos eventos com maior número de atividades no Conselho.

Contudo, dois dias depois, publicou um este comunicado sobre atendimento online, dizendo que apesar de ainda ser necessária a realização de um cadastro no portal E-Psi, durante os meses de Março e Abril, não será necessário aguardar a confirmação para realizar tais atendimentos (regra imprescindível antes da Pandemia de Covid-19).

Imagem do comunicado divulgado pelo CFP disponível em https://site.cfp.org.br/

Caso você seja psicóloga (o) e deseja saber como se cadastrar para realizar atendimento online, há um tutorial gratuito, que publiquei em um texto deste blog ensinando o passo-a-passo e com dúvidas comentadas sobre o tema. Clique neste link e disponha.

Há aderência da categoria?

É muito cedo para que tenhamos dados concretos e publicados em algum local oficial. Mas no contato que tenho tido com colegas de profissão, amigos que fazem análise, supervisão ou psicoterapia e até mesmo em meus próprios atendimentos, o atendimento online/virtual/remoto tem sido um opção bastante oferecida, considerada e utilizada. Mas ainda há sessões presenciais sendo realizadas.

E o que muda?

Isso irá depender de muita coisa, inclusive das linhas teóricas. Mas apesar de ser muito difícil de determinar, em função do pouco tempo em que isso é adotado mesmo antes da quarentena, as diferenças aparecem de maneira positiva e negativa; de maneira sutil ou moderada.

Indaga-se se poderia haver um aumento da Resistência ao Tratamento, uma redução da eficácia dos atos analíticos, mas estas são Outras discussões. Em tempos onde as opções são: a) realizar o atendimento remoto; b) interromper o tratamento; ou c) correr o risco de agravar ainda mais a pandemia desconsiderando medidas de quarentena, édevemos nos adaptar à realidade e ao que ela nos permite. Contudo, listei algumas dificuldades até agora observadas:

  • Problemas de conexão que podem causar delay (atraso) no áudio/vídeo, assim como problemas técnicos com microfone e/ou fones de ouvido;
  • Problemas de privacidade, onde o paciente encontra dificuldade em encontrar um local tranquilo, silencioso e que lhe garanta a possibilidade de falar o que quer e/ou precisa. Neste cenário, alguns optam por realizarem a sessão por dispositivos móveis de seus quartos, escritórios, banhos e até dentro de seus carros;
  • Dificuldade de manter o silêncio das sessões, podendo ele eventualmente ser confundido com problemas de conexão;

Outrossim, pude perceber, com base na minha experiência, de pessoas que passam por tratamento desta forma e também de alguns colegas: que o processo têm funcionado. Dados estes que passam milhas astronômicas de distância de serem científicos ou bem fundamentos em alguma pesquisa, uma vez que estamos falando de algo inédito.

E também há algumas vantagens percebidas, como por exemplo:

  • Possibilidade de maior desinibição de alguns pacientes, pois agora pode haver a sensação de não estar falando diretamente algo a alguém, algo semelhante àquela confiança que muitas pessoas demonstram de maneira mais elevada na internet, cabendo aos terapeutas e analistas a devida atenção à fala e ao conteúdo. Algo longe de ser o caso de casos e também longe de não ser o caso de ninguém;
  • Maior flexibilidade de horários e, em alguns casos até de valores, de forma que fique mais confortável para ambas as partes, pois cada um está em sua residência.

Contudo, o assunto do Novo Coronavirus e os impactos que ele tem na vida das pessoas, naturalmente, se tornou recorrente no consultório. A vida das pessoas mudou e irá mudar. O futuro é um lugar mais incerto do que já era em nossos tempos ditos normais. O que se pôde perceber no consultório em função da Pandemia?

Influência da Pandemia em pacientes que possuem ou não psicopatologias/Transtornos Mentais – Implicações, complicações e manejo;

Como a nossa Psiquê pode perceber a quarentena e o isolamento?

A Itália está com suas ruas vazias. A Espanha tem locais que parecem inabitados. Alguns cidadãos Europeus estão assemelhando os carros da polícia, do exército e a cidade vazia a um cenário de Guerra. E podemos nós dizer que estão errados?

Um membro da Brigada Paraquedista do Exército Espanhol patrulha a icônica Puerta del Sol, praça no centro de Madrid, na Espanha, em 17 de Março de 2020.

Nosso futuro, ao menos o futuro recente, está morto quando pensamos em algum tipo de previsão a respeito do desfecho do cenário atual. Não há ainda pleno saber da dimensão que a Pandemia irá tomar. O vírus não distingue anônimos de famosos, ricos de pobres, ateus de religiosos, brancos e pretos; políticos e apolíticos (incluindo o Presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre).

Não importa quem você seja, você está sujeito a ser contaminado. Não é uma frase tão simples de se dizer ou ouvir. Muito menos quando o preço para não ser contaminado e não contaminar ninguém é a tal da liberdade. E até aquele tal do afeto, que é expressado por abraços, beijos e apertos de mão.

Algumas pessoas podem até não acreditar na veracidade ou da gravidade desta Pandemia. Outras até o fazem, mas se recusam a levar a sério as medidas de precaução, como se suas pessoas já estivessem imunes ou ainda que seja improvável a sua contaminação.

Após recomendação de quarentena de seu Ministro da Saúde, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, vai à frente do Palácio do Planalto cumprimentar e tirar foto com manifestantes. em protesto de apoio ao Presidente e repúdio aos Outros Poderes, no dia 15/03/2020. As manifestações ocorram por todo o país, mesmo após a recorrente solicitação de não aglomeração.

Agora iremos nos deparar com nós mesmos. Mais ainda: com a fragilidade de nosso corpo, com a morte da imagem Imaginária de uma pessoa que não poderia ser nada senão sadia, potente e invulnerável, como se fosse recebesse eternamente o afeto de suas figuras de proteção.

Qual será a plateia para nossas demonstrações de potência? Seja financeira, seja de influência sobre os outros. Em alguns casos sobrará a virtual, em outros não. De onde virá nosso apoio durante este período de solidão e reclusão? E se estivermos sendo descartados do convívio social em função de nossa vulnerabilidade? Como lidar com isso?

Tudo isso poderá ser causador de grande aprendizado e fortalecimento; mas também causador de certa angústia, de certa ansiedade – e o que seria a ansiedade senão também o pensamento nas mil possibilidades de um futuro incerto, mas certamente danoso? Mas que outra chance teríamos de conhecer a nós e a aos pares, trios, grupos e aglomerações afetivas que ficarão conosco durante este isolamento?

É sem dúvida um momento de intensa reflexão: voluntária ou não, mas como fica este cenário em pacientes que já lutavam com alguns aspectos deste dia-a-dia, mas de forma nada deliberada e socialmente estimulada?É triste.

E os que tiverem Transtornos Mentais?

TOC – Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) (CID 10: F42/ DSM 5: 300.3)

Tomando como exemplo o TOC, colocarei em paralelo sintomas e necessidades nos tempos de urgência.

Caracterizado por obsessões — pensamentos ou imagens mentais de natureza recorrente, invasiva, incessante, ordenada e indesejada, que promovem severo desconforto. Nestas, em geral, há regras sobre o que pensar, organizar mentalmente ou imaginar para que haja cessão deste desconforto. E também por compulsões, onde é exigido do sujeito, por si mesmo, a realização de atos, dizeres, movimentos e até a organização do cenário externo para que haja equilíbrio internamente. Estes se tornam uma espécie de ritual, não raro fazendo parte da rotina de indivíduos durantes anos, mas que também podem ter aparição ou intensificação durante períodos específicos de sua vida. Em geral, os atos compulsivos tendem a se alinhar aos pensamentos obsessivos e/ou até serem necessários para sua cessão.

O tipo de ritual e/ou pensamento tende a variar de acordo com cada sujeito. Havendo até tipos de pensamentos e ações de múltipla ordem, em geral associados a muita ansiedade. Mas há duas formas de manifestação do transtorno que escolhi destacar: os relacionados à higienização do corpo e dos objetos/ambientes.

Rituais de Higienização Compulsiva

Para ilustrar melhor um dos casos, trouxe o vídeo a seguir, onde uma pessoa lava as mãos de maneira compulsiva dentro de uma escola:

Contudo, ao assistir este vídeo, além de me compadecer ao sofrimento de quem passa por isso, também me veio à mente algo muito incômodo: esta pessoa seguiu exatamente as recomendações da OMS sobre uma das formas de não contrair o Novo Coronavirus. Inclusive, o próprio vídeo demonstrativo do órgão pode trazer algumas semelhanças com o vídeo acima, confira novamente:

Claro que em alguns casos de TOC desta natureza o ritual chega até a tomar horas do dia do sujeito, sendo repetido até bem mais do que as 5 vezes que a OMS nos recomenda realizar tais ações.

E também não podemos esquecer da compulsão por limpeza de superfícies e ambientes:

  • pessoas que podem lavar a louça duas vezes;
  • higienizar maçanetas várias vezes ao dia;
  • limpar o chão, os móveis e os objetos da casa repetidas vezes e em determinadíssimos horários, entre outros.

Mas o nosso ponto é que:

  • Pensamentos em relação à incerteza, culpa, (pela?) a contaminação, a sujeira e a iminência de morte ou doença, podem estar associados a rituais deste tipo de TOC também. E estes não poderiam se agravar em meio a uma pandemia? Seus atos compulsivos agora podem ter, além de múltiplas e misteriosas motivações internas, uma nova e alarmante motivação externa? Sem dúvida, e este pode ser o problema;
  • Pensamentos obsessivos e atos compulsivos podem aparecer e se intensificar relação à associação de uma linha direta entre a contaminação e morte de terceiros, mais ainda quando estes são pais, mães, avós e pessoas de altíssima estima ao sujeito, que fazem parte dos Grupos de Risco, os mais propensos a complicações severas e até à morte com a COVID-19.
  • Me pergunto se também falamos de pessoas que já podem ter sentido sentimentos dúbios a respeito da vida ou morte dessas pessoas, como toda pessoa pode ter tido em alguns momentos da vida.
  • A culpa — mesmo que apenas em pensamento — de contaminar alguém nessas condições, principalmente por descuido — por sujeira, por falta de higienização e atenção — , é algo que deveras alguém não gostaria de carregar. Muito menos se já houve pensamentos desta ordem em algum momento, mesmo que distante, de sua vida. E geralmente nestes momentos se intensificam os rituais e o sofrimento destes pacientes.
  • Agora que há uma justificativa elevadamente plausível (mesmo que em níveis e intensidades diferentes) para alguns destes atos dos sujeitos, o acompanhamento destes casos será crucial para que os sujeitos consigam diferenciar seus sintomas de seus cuidados.

Transtornos de Ansiedade Generalizada, Social e Pânico; Fobias, Estresse Pós-Traumático; Depressão e Compulsão por Compras (Oniomania)

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Os pensamentos a respeito de um futuro incerto, o medo irracional de objetos e situações e, pasme, aglomerações; o temor em sair de casa e a falta de prazer e vontade em relação às atividades disponíveis durante o isolamento; a compra compulsiva por itens como alimentos, álcool gel e até papel higiênico, e até armas! O conhecido panic buying. Sem contar na ansiedade que é experimentada durante todo contato social, evitando-o ao máximo.

Observando tais comportamentos da maioria da população em suas casas, estabelecimentos, cidades e até países, poderíamos até experimentar um sentimento parecido com aquele de Simão Bacamarte em Itaguaí. Mas definitivamente não podemos apressar nossos julgamentos, conforme fez, erroneamente, o médico português da obra de Machado.

Pessoa idosa se deparando com escassez de produtos de higiene pessoal,

Se em dias normais estaríamos falando de claramente de sintomas de alguns Transtornos Mentais como Depressão, Transtorno do Pânico, Agorafobia, Compra Compulsiva e TOC, nos dias de hoje, comportamentos incomuns como os que foram descritos, podem se tratar de necessidades reais. Mas nem sempre, precisamos de muita atenção neste momento:

Um paciente que sofre de hipocondria (condição caracterizada pelo medo desproporcional de ficar doente e/ou a constante confusão de condições normais a sintomas de doenças graves e/ou recorrentes) poderá experienciar ou acreditar estar vivenciando sintomas da Covid-19 em função de seu estado mental. Assim como um paciente que sofre de algum transtorno de ansiedade poderá experimentar falta de ar durante uma crise de ansiedade e confundí-la com um sintoma da doença causada pelo Novo Coronavirus. Daqui poderia acontecer, por exemplo, uma ida desnecessária aos hospitais que poderá: tirar as escassas vagas de quem precisa e até gerar uma exposição desnecessária que resulte num contágio real.

A sutileza da diferença entre o que pertence ao interno e ao externo nunca foi de tamanha importância. E aí é que entrará a importância do trabalho dos profissionais da saúde mental — mesmo que online!

O isolamento poderá mobilizar o paciente deprimido, assim como o paciente que sofre de Pânico poderá reagir de maneira desproporcional às orientações de ficar em casa. Quando tivemos o surto de outro tipo de coronavirus em 2003, um número considerável de pacientes e profissionais das equipes médicas que cuidaram destes, desenvolveram sintomas e transtornos de ansiedade, estresse pós-traumático, depressão e Agorafobia.

Nosso trabalho envolverá pacientes da doença ou não, acometidos por esta onda esmagadora de tensão que vive o mundo. Equipes médicas sobrecarregadas, familiares em luto e até pacientes que entrem em Cuidados Paliativos necessitarão de profissionais da Saúde Mental como nunca antes visto.

Nosso papel será, além de atenuar o agravamento dos sintomas daqueles que já sofrem destas condições e tentar minimizar o impacto psicológico que estes tempos poderão trazer.

Mas o faremos com calma.

Sugestões, discussões e possíveis soluções para a atuação da Psicologia em meio a este cenário Mundial nunca antes visto em sua história como ciência e profissão

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP e ganhador do Prêmio Jabuti. Foto: O Estado de Sâo Paulo

Os profissionais da psicologia também são treinados para a atuação em situações de emergência e desastres. Esta é, inclusive, uma linha de atuação da profissão. Contudo, e quando eles mesmos estão em quarentena? Quando mesmo não sendo desta especialidade, precisarão agir de forma minimamente semelhante com seus pacientes e clientes que também são afetados por tal condição?

“Se você está exagerando na compulsão por notícias ou no estoque de álcool gel, verifique se não está tentando pular o trabalho de “se acalmar”. Ler, meditar, conversar livremente, escrever são práticas que ajudam para isso”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Em entrevista ao Estadão, Christian Dunker, psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP, e autor de diversas obras, sendo uma delas ganhadora do Prêmio Jabuti. Quando perguntado sobre os efeitos de isolamentos/confinamentos ao redor do mundo, nos faz olhar para a semântica cultural da palavra, que poderia ser muito significante à forma com que fomos apresentados ao que fazia ilusão, em outros momentos, às situações de hoje: “o confinamento é uma experiência psíquica desafiante, pois aprendemos desde cedo que ele é uma forma de punição: ‘vá pensar no seu quarto’ ou pior ‘vá para a prisão'”.

O autor classifica o isolamento como experiência “potencialmente ansiogênica [que cria ansiedade]”, e que “Notícias, informações e cuidados podem nos acalmar desde fora, mas a angústia que a solidão causa, exige que nos pacifiquemos desde dentro..”. A orientação do Ganhador do Prêmio Jabuti é que:

“Se você está exagerando na compulsão por notícias ou no estoque de álcool gel, verifique se não está tentando pular o trabalho de “se acalmar”. Ler, meditar, conversar livremente, escrever são práticas que ajudam para isso”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

O psicanalista nos alerta que este cenário também pode estimular nosso egoísmo, sensibilidade e até negação da realidade severa e preocupante que nos ronda. Para o pós-doutor pela Manchester Metropolitan University, estas situações podem nos remeter a algo semelhante ao desemparo, ao abandono e à desproteção.

O psicólogo ilustra o que o caos de uma pandemia pode mobilizar em nossa psiquê: tanto uma narrativa desesperada, buscando apontar que haja, por parte da humanidade, alguma forma de controle a respeito da situação de exceção, como quais sentimentos poderiam aparecer sem a presença de tais narrativas:

“Podemos simplesmente negar a situação, colocando a cabeça dentro da terra, podemos inventar conspirações delirantes de modo a nos garantirmos que no fundo há “um sentido maior nisso”. Podemos nos sentir desamparados, abandonados, como se nossos protetores tivessem tirado férias”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Fica a pergunta:

Se a presença do vírus e, consequentemente, a ausência da imagem que tentávamos manter perante o mundo persistir, será que o Novo Coronavirus poderá ser um antídoto para o Mal Estar que nossa Civilização estaria vivendo em função do Poder? Pois como algo microscópico poderia ter tanta facilidade em derrubar Grandes Nações e, ao mesmo tempo, nos causar tanta dificuldade perante a Grandeza (ou mania de) de alguns?Esperemos que o psicanalista esteja certo a respeito do aprendizado que este momento poderá nos prover em meio a tanto desprovimento. Pois, ao que parece, sua visão também contém certo otimismo:

“Penso que será uma dose cavalar de vitamina h que está faltando ao Brasil, ou seja menos potência de controle, arrogância e grandiosidade e mais humildade diante da vida e dos pequenos microorganismos que podem nos derrubar”.

(Dunker, C. Entrevista ao Estado de Sâo Paulo. 2020)

Leia a entrevista diretamente no site do Estado de São Paulo clicando aqui.

Há males que vem para o Bem? Parece ser exatamente o tipo de discurso que seria criticado por outra e não menos importante referência na área.

“A cada doença são atribuídos significados diferentes, mas o pano de fundo é quase sempre um ódio pela vida urbana como lugar mefítico, perigoso, onde o mal prolifera”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

Já o também psicanalista italiano radicado no Brasil, deixa sua impressão. Contardo Calligaris, que já realizou um doutorado em Semiologia com Roland Barthes e também participava das conferências do famoso psicanalista francês Jacques Lacan, dedicou sua Coluna Semanal à Folha de São Paulo às falas sobre o Novo Coronavius. Numa delas do dia 11/03, avaliou o “Coronavirus como Metáfora“, num genial comparativo da Covid-19 com outras chagas de nossa história.

Calligaris, 2009 (foto:Rodrigo Cancela/CPFL Cultura)

Colocando tais doenças como metáforas (sintomas?) aos acontecimentos de uma determinada cultura, podendo estas serem utilizadas, em discursos oportunistas como formas de castigo aos comportamentos humanos, que alguns grupos radicais querem excluir, usando como exemplo os que era dito durante a epidemia de AIDS nos anos 80:

“A cada doença são atribuídos significados diferentes, mas o pano de fundo é quase sempre um ódio pela vida urbana como lugar mefítico, perigoso, onde o mal prolifera”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

Mas também chamou atenção à doença atual que, por coincidência ou não, poderia até servir de metáfora, de narrativa, para comportamentos e pensamentos inerentes deste determinado período civilizatório:

“Considere a Europa se fechando diante dos refugiados africanos e asiáticos, e os Estados Unidos, diante dos refugiados das Américas. Considere a Inglaterra do brexit. Considere a volta de patriotismos abstratos mundo afora. Considere a estranha vontade de construir muros. Paira no ar uma nostalgia do lar, um suposto “amor” da “nossa terra”, que é sobretudo medo do novo e do estrangeiro”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020)

E o produtor da serie Ps! (Psi) da HBO ressalta que: “A epidemia de coronavírus será, por um tempo, metáfora da resistência à ampliação do mundo. Mas não é o caso de se preocupar. A epidemia não vai ganhar, não como metáfora”.

É possível ler sua coluna completa clicando neste link.

“[…] é a primeira pandemia em época de televisão e de streaming e, sobretudo, a primeira em que dispomos da possibilidade ilimitada de nos relacionar com amigos, parentes e amantes. Podemos estar isolados mas nunca sozinhos”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Uma semana depois, num considerável aumento da doença pelo mundo, suas cirúrgicas impressões se atualizam um pouco mais — fazendo um deslocamento importante de nossos olhares para o frequente estágio de negação das pessoas perante à doença, ao invés das urgências em realizar estoques de produtos como alimentos e itens de higiene, frequentemente colocado em foco.

Para citar exemplos de tais fenômenos o psicanalista cita que: “um bispo declara que o vírus é simpático e irrelevante, enquanto o medo do vírus é coisa de Satanás”; e também a aparente despreocupação do Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Bolsonaro, frente à Pandemia:

“Outro exemplo de negação nos foi oferecido pelo presidente do Brasil, que se comportou como um garotão, o que o tornaria até simpático, se ele não fosse presidente. O que significa se comportar como um garotão? Significa uma insegurança radical, pela qual nada é tão importante quanto receber um aplauso.

Bolsonaro pode certamente entender os argumentos de seu próprio ministro da Saúde, mas é incapaz de resistir ao charme de um breve momento em que será admirado por um punhado de seguidores”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Para o escritor ítalo-brasileiro, ao caminhar portando a bandeira que antes estava na mão de um de seus apoiadores à porta do Palácio do Planalto, o Presidente demonstrou um “exemplo perfeito de patriotismo abstrato”, pois […]um transtorno narcisista (banal nos adolescentes, mas nem tanto num idoso) prevaleceu sobre qualquer cuidado (este, concreto) com a população brasileira”, um entusiasmo que o presidente acreditava causar em seus apoiadores enquanto tentava demonstrar felicidade e patriotismo, seus atos colocavam em perigo seus “compatriotas”.

Presidente Jair Bolsonaro segurando uma Bandeira do Brasil, pega das mãos de manifestantes no Palácio do Planalto, mesmo contrariando as recomendações de seu Ministro da Saúde

Mas nem tudo é ruim na visão do Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de Provença, na França. Ele também acaba elogiando o canto que revelava o “sentimento de um destino compartilhado” daqueles confinados na quarentena que ocorre em sua Terra Natal, o que considera, de fato, patriotismo.

O psicanalista, que também diz na Coluna que está atendendo seus pacientes de maneira remota (online), ressaltou o lado bom que pode haver neste momento de nossa história:

“[…] é a primeira pandemia em época de televisão e de streaming e, sobretudo, a primeira em que dispomos da possibilidade ilimitada de nos relacionar com amigos, parentes e amantes. Podemos estar isolados mas nunca sozinhos”.

(Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020)

Clique aqui e leia o texto de Contardo Calligaris na íntegra.

“O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

O Presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), Bernardo Tanis, publicou no blog da Instituição uma carta de recomendação aos psicanalistas do Instituto. Conhecido por sua tradição, o local que foi pioneiro e é referência em oferecer, oficialmente, uma formação em psicanálise no Brasil, foi responsável pela formação em de muitos profissionais no Brasil. Entre eles, muitos psicólogos, médicos e psiquiatras.

Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP. Foto disponível em: https://psicanaliseblog.com.br/

Dentre estas orientações uma se destaca: “estarmos disponíveis para nossos analisandos, seja de modo presencial quando possível ou pelas ferramentas remotas ao nosso alcance”. Conforme já sabemos, o analista deve mostrar seu desejo: que o analisando se analise! E hoje os meios tecnológicos permitem mais flexibilidade em tempos como este.

Tivemos casos de negação da condição e dimensão reais do vírus, um dado que, mesmo denso, merece receber nosso olhar com atenção nos casos recentes.

Em ligeiro tom de advertência, Bernardo nos lembra a importância de não ficarmos próximos a nada que for extremo:

“O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

Mesmo considerando as medidas adotadas pelos Governos mundo afora como “importantes” e “necessárias”, o psicanalista que também é Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP, deixou um importante recado sobre o momento em que vivemos:

“Como psicanalistas sabemos que a incerteza, o medo e a insegurança têm ressonância com angústias primárias e o nosso desamparo constitutivo e demandam também outras modalidades de contenção. O melhor e o pior da humanidade emergem nestas horas”.

(Bernardo Tanis, Presidente da SBPSP, 2020)

Considerações Finais

Apesar de minhas impressões vazarem ao longo da escrita, a intenção deste artigo não era bem revelá-las, mas aproveitando o inevitável, me vem à cabeça o duro golpe dado pelo vírus em nosso Saber,

Ele danifica nossos pulmões muito menos do que o faz em relação à nossa Imagem de que tudo estaria sob controle. Os Lugares que passaremos a ocupar nesta sociedade que foi contaminada pelo nosso temido e angustiante Não Saber, se tornaram plenamente incertos. O tempo que ficaremos sob o confinamento de todas as nossas certezas é, decerto, muito menos certo do que a única coisa que será Real a respeito de tudo isso: o nosso Não-Saber.

A partir da Pandemia de um vírus invisível, sofreremos daquilo que nos será indizível, inominado e inaudível a tudo que construímos como civilização até hoje, da frase que assola da criança ao Presidente; do terraplanista ao cientista; do religioso ao cirurgião: ainda não somos bons o suficiente.

Mas meus colegas sabem bem que daremos nosso jeito. A dor e a perda farão parte do processo, bem como fizeram de nossa Constituição como Sujeitos; a falta de liberdade nos fará lembrar dos dias de chuva que vivíamos lá atras, mas sem previsão de Sol tão cedo. Contudo, seja pela culpa, pela alegria ou por alguma bondade resista em meio à tantas histórias: sejamos solidários, sejamos lúcidos e pacientes. Mas não sejamos neutros — e que não nos falte ar para gritar, mesmo que pela internet — que resistimos. E será um prazer resistir, dividir e existir, pois, nas últimas aspas deste artigo:

“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.”

Carl Sagan

Por Caio Cesar Rodrigues .

REFERÊNCIAS

(Em ordem e estilo livre)

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014

Organização Mundial da Saúde. CID10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10a rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997.

https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses

http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-188-de-3-de-fevereiro-de-2020-241408388

http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-356-de-11-de-marco-de-2020-247538346

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/03/19/senado-vai-votar-projeto-de-decreto-de-calamidade-publica-nesta-sexta

Clique para acessar o srag18_orientacao_atendimento_casos.pdf

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51803421

https://www.dw.com/pt-br/do-que-os-v%C3%ADrus-precisam-para-sobreviver/a-52573544
(Conselho Federal de Psicologia, 2020. Disponível em: https://site.cfp.org.br/coronavirus-comunicado-a-categoria/ . Acessado em: 19/03/2020).

Coronavírus: Comunicado sobre atendimento on-line

https://brasil.estadao.com.br/blogs/inconsciente-coletivo/saude-mental-durante-a-pandemia-por-christian-dunker/

Calligaris, C. Folha de São Paulo, 11/03/2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/03/quais-os-efeitos-do-coronavirus-na-cabeca-da-gente.shtml. Acessado em: 20/03/2020

Calligaris, C. Folha de São Paulo, 18/03/2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/03/quais-os-efeitos-do-coronavirus-na-cabeca-da-gente.shtml. Acessado em: 20/03/2020

Bernardo Tanis, 2020. Via blog de psicanálise da SBPSP. Disponível em: https://psicanaliseblog.com.br/. Acessado em: 20/03/2020