04 Filmes que VOCÊ JÁ DEVERIA TER ASSISTIDO sobre Psicologia

Se você é estudante ou profissional de psicologia, estes filmes são considerados OBRIGATÓRIOS na sua lista.

A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Não é raro encontrarmos coincidências de fatos da vida em livros, peças de teatro, filmes, séries, desenhos e videogames. Mas em algumas ocasiões também visualizamos fatores apresentados nestes cenários, a princípio vistos com fictícios, eclodindo com um improvável e ensurdecedor eco de suas características em situações da realidade.

É pressuposto que o leitor compreenda as linhas cruzadas da arte na realidade não como causa, mas como efeito. Um sujeito não age em cópia ao cenário artístico por indução, influência ou sugestão da obra, mas pela localização deste cenário ser próxima a de um abrigo, de um acolhimento às representações de sua própria vida interior. Mesmo se estivermos falando de um sujeito cuja mente abrigou qualquer suposta clivagem, qualquer diáspora de palavras soltas do sentido, quando pensamos num alguém que carrega aquele discurso distante da realidade. Conforme conhecido a partir de alguns casos de psicose. Ainda nestes sujeitos, a busca de um sentido Ideal continua vigente, mesmo que parcialmente.

Longe da irresponsabilidade de reduzir estes casos à psicose ou qualquer outra estrutura não-neurotípica, utilizo este exemplo para ilustrar que o cenário ficcional é apenas mais um – dos inúmeros lugares para alguém que sofre de algum tipo de desorganização psíquica – hospedeiro dos discursos por trás ou por frente de cada ato. Toda ação é andarilha, errante e vagal até encontrar sua representação: cabendo ela na realidade ou não. E nesta encruzilhada entre aquilo que é da imagem, do simbólico e do real, é possível ver, bem decorada e jamais carente de acabamento: a casa, de alvenaria, que é a arte.

É através da arte que o garrancho, para quem o fez e o interpreta, encontra semelhança com o desenho e a pintura que foram bem feitos. É através desta ferramenta de compreensão e exibição da realidade humana, que uma música escuta um sujeito; que um filme oferece a narrativa que alguém tanto buscou em sua vida; com seu auxílio, um livro é capaz de realizar a leitura nunca antes feita da história de alguém, e uma peça de teatro exibe ao público toda a vida psíquica que parecia ser privada àquele ser. E o videogame oferece o controle, ou o joystick, sobre a ação dos [im]pulsos que não tinham nome ou história.

Em suma: se não for na arte, será em algum [O]outro [L]lugar que aquele sujeito irá depositar as economias de uma vida inteira, ou parcial, de pensamentos. Ele apenas empresta dela a cor, o movimento e, principalmente: o discurso e a narrativa. Coisas que, pela necessidade deste, seriam encontradas em algum o[O]utro l[L]ugar a qualquer momento.

E acredito que a pessoa que agora lê, já concluiu que a arte não se faz tão diferente para representar o que, silenciosamente ou ruidosamente, se apresentava na vida das pessoas. Ou seria possível a uma escritora ou escritor fugir de aspectos de sua própria história de vida? Não estariam representados na arte aquilo que quem a produz é, foi, será ou poderia ter sido? Não mora em cada personagem da dramaturgia um momento captado por retinas, labirintos do ouvido, ou receptores olfativos? Não está no sabor de uma obra algum registro que pousou nas papilas gustativas do autor? Ou estaria lá apenas o calor do corpo de outra pessoa, que em algum momento foi transmitido através de um toque, um gesto à pele, de quem mais tarde resolveu criar uma produção artística?

Se a autoria de uma obra de arte não foi vivida, sem dúvidas ela foi testemunhada. E a partir daí, seria no mínimo paradoxal que esta não pudesse vir a ser testemunho à realidade do espectador, que até então tanto esperava pelo seu próprio.

A seguir alguns destes exemplos. Se são, ou não, relato ou inspiração: que comentem as leitoras e os leitores!

01 – Clube da Luta – Fight Club – (1999):

Banner do filme (imagem encontrada gratuitamente na internet)

Aqui o personagem de Edward Norton não se mostra muito diferente da maioria da classe trabalhadora: insatisfeito com seu emprego atual, comprando compulsivamente coisas que imagina lhe trazerem satisfação e soterrando suas dores entre as múltiplas quatro paredes do dia-a-dia. A reviravolta se dá no encontro que este tem com o personagem de Brad Pitt. Conhecer Tyler Durden foi o ponto de partida para a criação do Clube da Luta e suas duas regras: 1) você não fala sobre o Clube da Luta; 2) Se é a sua primeira vez por lá, então você vai lutar.

O filme que abriga questões que vão desde um relacionamento abusivo, até os resultados das necessidades de se encontrar uma forma de expressão, ao que tanto fora suprimido pelo capitalismo e a masculinidade. Se este dito já não for, o restante é spoiler.

02 – Cisne Negro – Black Swan (2010)

Cartaz de divulgação do filme (imagem obtida gratuitamente na internet).

Neste filme, a atriz e psicóloga Natalie Portman encarna uma bailarina, que visualizará sua performance protagonizar a obra O Lago dos Cisnes. Entretanto, tamanho destaque na considerada Obra Magna de Tchaikovski, oferece à dançarina uma lupa sobre suas relações mais íntimas: com sua mãe, com seu talento e trabalho e até consigo mesma. Se é faltante ou excessiva a cisão de sua personalidade para lidar com cada um estes aspectos, é uma análise que caberá a quem assistiu ou está em atraso para assistir esta obra magnífica.

Quais aspectos do psiquismo humano são evidenciados neste filme? Por gentileza, minha cara leitora e meu caro leitor, faça, em partes, como nossa dançarina: seja protagonista! Comente aqui suas impressões!

03 – Ilha do Medo – Shutter Island (2010):

Cartaz de divulgação do filme. Imagem obtida livramente na internet.

Nesta película, a investigação mais importante a ser feita não é, definitivamente, os motivos que cercam a óbvia preferência do premiado diretor Martin Scorcese por um tal ator, visto pelos fãs como o maior injustiçado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Óscar.

Mas uma outra investigação se torna o portal de entrada na imersiva narrativa do filme: um agente do FBI investiga o desaparecimento de uma pessoa que, além de ter escapado de um hospital destinado a criminosos acometidos de transtornos mentais, também tem em seu histórico um grave assassinato. Um filme solidário ao espectador: coloca-o dentro da ilha que abriga todo tipo de possibilidade. Quem assiste ao filme, descobre-se ali como mais um dos investigadores.

Há apenas uma forma deste caso nunca ser solucionado: se quem lê este artigo sucumbir à procrastinação de conhecer melhor a si e à psicologia como ciência e profissão, isso é: continuar sem assistir a este filme.

04 – Uma Mente Brilhante – A Beautiful Mind (2001)

Cartaz de divulgação do filme. Imagem obtida livremente na internet.

Este filme jamais deixaria de ser recomendado pela Sociedade dos Psicólogos. Muito menos por este colunista que vos escreve. Ele não foi deixado por último: ele na verdade foi o primeiro a ser comentado. Existe um post exclusivo, feito sobre a biografia em que se baseou esta obra: a do matemático e ganhador do Prêmio Nobel de Economia, John Forbes Nash. E você conhecerá gratuitamente clicando aqui.

Voltando ao filme: como seria possível explicar os atalhos que as sinapses de um gênio tomam, de maneira tão inadvertida, a ponto de causarem espanto naqueles que testemunham os destinos de tais rotas alternativas? É difícil encontrar qualquer gênio que ainda não tenha sido confundido com um louco. Em verdade, é mais frequente (e não menos frustrante), encontrarmos sentido antes no delírio do que na genialidade de alguém. Se isso se deve ao fato de um delírio eventualmente compartilhar algo que poderíamos nós mesmos ter pensado, não cabe agora discutirmos.

Outro cartaz de divulgação do filme. Imagem obtida gratuitamente na internet.

Mas, sem dúvidas, este emocionante filme estrelado por Russell Crowe, retira do espectador, por alguns breves momentos, tanto a certeza da própria genialidade, como da própria sanidade. Narrando a trajetória de John Nash dentro da Universidade de Princeton, a trama aponta como o excêntrico aluno se tornou professor, marido, pai e ganhador do Premio Nobel. Mas não faz isso sem transitar pelas adversidades que envolveram estas posições na vida do matemático. E talvez o fato deste filme ser Vencedor de 4 Estatuetas do Óscar convença mais o leitor do que a retórica deste parcial colunista que vos escreve.

E como falamos de matemática, aqui vai uma equação aos leitores e às leitoras:

assistir ao filme + indicá-lo a quem também se interessa por psicologia = não fazer mais do que a obrigação

(e aqui é feita propositalmente uma alusão à frase muito comumente utilizada por figuras de autoridade, no mero (e não necessariamente perverso!) intuito de evocar, nesta recomendação, a força de seus respectivos Supereus).

Portanto, separem a pipoca, o chocolate, refrigerante, vinho, cerveja, cigarros, charutos e todos os confortos que um retorno, via objetos de transição, à fase oral podem proporcionar! Desejo a vocês a melhor das [re]vivências da pulsão escópica: uma boa sessão de cinefilia!

Por Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos

Coraline e a parentalidade atual: Como ser pai hoje em dia?

Como ser pai hoje em dia?

Recentemente assisti um filme que é humilde em sua proposta, mas que, visto de perto explicita uma forma de relação muito própria ao nosso tempo. Ser pai e mãe, e como os filhos tomam essas figuras para si. Coraline, criado com base no livro homônimo de Neil Gaiman.

Fazendo face à esse filme, discutiremos alguns aspectos da parentalidade atual, de como é ser pai no século XXI.

Coraline e o mundo secreto

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(Imagem retirada da Internet)

Coraline é um filme de 2009, que conta a história de uma garota de 11 anos, filha única, com uma curiosidade característica da idade, que se muda para uma nova casa com seus pais.

Os pais de Coraline parecem ser a personificação de quem não investe em seus filhos, os chatos, por excelência. Ambos trabalham de casa, escrevendo para publicações sobre jardinagem (Algo que Coraline aponta de hipócrita em seus pais, é o fato de não gostarem de terra).

Sempre atolados de trabalho, não encontram (e parecem nem procurar) tempo para estar com Coraline. Sozinha, ela vaga pela casa procurando por diversão e aventura. Acaba encontrando uma pequena porta na sala de sua casa, que parece ser apenas decorativa agora, lembrança de uma passagem antiga da casa, talvez.

Logo, Coraline descobre que a passagem se abre durante a noite, revelando um “mundo à parte”, que representa de forma “quase” fidedigna o seu próprio. Lá, encontra seus Outros pais, figuras que parecem fisicamente com os pais verdadeiros, mas que agem de maneira completamente oposta, realizando todos os desejos de Coraline.

Encontra então a Bela Dama, disfarçada de a Outra mãe, a vilã de toda a história, que rapta, e se alimenta da alma (lemos desejo aqui) das crianças que moram, ou moraram, na casa. Todos os personagem neste outro mundo usam botões de costura no lugar dos olhos. Costurar os botões em seus olhos é o preço para permanecer para sempre nesse mundo de gozo eterno.

Para não estragar o desfecho, recomendo à todos que assistam o longa.

A criança em análise

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(Imagem retirada da Internet)

Em análise não tratamos da criança, e sim do sujeito (Flesler, 2012). Digo isso pois me parece estranho as divisões e especialidades que são colocadas

Entendemos que a criança já é falada mesmo antes de vir ao mundo. Como diz Alba Flesler:  “Um ser humano chega ao mundo, portanto, engedrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo…” (2012, p.17).

A criança vem ao mundo enquanto objeto de completude do Outro, ele é algo que falta à mãe.

O pai entra em cena, com a função de nomear os objetos para a criança, instaurando um corte na relação simbiótica entre mãe e bebê (O que justamente a Bela Dama buscava no filme).

Tendo isso em vista, pensamos que “Uma criança chega ao consultório de uma analista pelas ressonâncias que gera num adulto” (Flesler, 2012, p.11). Por isso, temos sempre em vista qual a queixa, e de quem é de fato, um sintoma da criança, ou uma criança enquanto sintoma dos pais.

 

No filme, os botões nos olhos representam a falta de desejo na criança. A mãe a coloca no lugar de falo, de objeto de completude. A criança não pode, pois, desejar algo além dela. Fecha-se toda a possibilidade de uma emancipação da criança em relação ao desejo dos pais.

Quando não “há jogo”, o sujeito é eclipsado pelo desejo do Outro. Novamente recorrendo à senhorita Flesler:

“… o objeto a escreve uma dupla função: como falta, será causa do desejo; como mais-de-gozar, será objeto do gozo. Quando o objeto falta ou está ausente, opera dando causa do desejo; em troca, quando está presente, é um mais-de-gozar que, caso se mantenha fixo, obstrui, como um tampão, o sítio ou furo necessário para o engendramento ou promoção do movimento desejante” (Flesler, 2012, p.26)

Tratamos a criança, e a auxiliamos à sair o mais rapidamente da trama que está a prendendo em seu desenvolvimento. Nem sempre isso é possível, haja visto que os pais é que trazem a criança. Quando a criança começa a se movimentar, causa efeitos nos pais,  e isso muitas vezes não é suportável.

Se quiser saber mais sobre a clínica da infância à partir da perspectiva lacaniana, clique aqui.

Parentalidade hoje

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(Imagem retirada da Internet)

Para a psicanálise, o papel dos pais é, em sua essência, transmitir a falta, o limite, o que parece estar cada vez mais complexo.

Pais e filhos habitam tempos diferentes (Corso, D; Corso, M, 2006). Por isso, os filhos nunca saberão como foi ter crescido onde seus pais cresceram, e os pais, por sua vez, nunca entenderão o mundo em que seus filhos estão se desenvolvendo para tomar o seu lugar.

Alguns pais, como os de Coraline, não parecem ter tempo para afetos direcionados à seus filhos, o trabalho e a pós-graduação falam mais alto. Afogam a criança em si mesmas. Com isso vêm as aulas de canto, piano, inglês e por aí vai. Existe um excesso de estímulos, onde a criança é convidada à estar sempre ocupada, e formando seu currículo.

Como disse Manonni (1999): “O sintoma vem no lugar de uma fala que falta” (p. 48). Quando a palavra não circula, o sintoma reclama seu lugar na vida do sujeito.

Outro sintoma moderno é a dificuldade dos adultos de passarem da posição de filhos, para a posição de pais. Uma mudança significativa à nível psíquico, que diz do lugar em que se está em relação ao Outro.

“Uma criança condensa, para quem a deseja, uma expectativa que exige satisfação e que convida o sujeito a ocupar muito cedo o lugar do objeto preenchedor. Não apenas em relação aquilo que dele se deseja, mas também à satisfação que outorga no plano do gozo e do amor dos pais” (Flesler, 2012, p.16-17).

Damos o que não tivemos aos nossos filhos, logo, espera-se que sejam mais do que fomos. Parece ser impossível para nós aceitar que nossos filhos podem falhar no que desejarem fazer.

Com a mudança nas relações sociais, os jovens estão autorizados à buscar o saber por si mesmos. Tudo está ao acesso por um toque. Não parecem depender mais do saber transmitido por sua família apenas. Os adultos são estrangeiros de nosso tempo.

A adolescência é um pagamento parcelado, entra-se na “adultez” pouco a pouco. Mas sempre resta algo. Todos temos pendências com a nossa adolescência.

Os pais devem sempre acreditar no possível, e poder assim transmitir uma vontade de viver para seus filhos. O analista faz esse papel, apostando em um desenvolvimento do sujeito.

Para entender nossos filhos, temos primeiro que entender nossa própria infância.

Mais análise para nós à frente.

Até a próxima.

Por Igor Banin.

Referências Bibliográficas

Corso, D; Corso, M. (2006). Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Mannoni, M. (1999) A Criança, sua “Doença” e os Outros. São Paulo: Via Lettera.

Selick, H. (Director). (2009). Coraline [Motion Picture]. USA: Laika Entertainment.

“Adolescentes e adultos: tudo fora do eixo”. Palestra da série: Adolescência em cartaz por Mario Corso e Diana Corso, feita em 2018. Promovido pela CPFL Cultura.