HP Lovecraft e o Real em Psicanálise

Howard Phillips Lovecraft é um dos casos de autores que ganha mais notoriedade após sua morte. Cada vez mais, percebe-se a presença de elementos de sua obra literária em filmes, séries e livros.

Suas contribuições para a literatura de horror e ficção científica são notáveis, adicionando elementos típicos dos gêneros de fantasia. Alguns o comparam a Edgar Allan Poe, ao qual é atribuído a criação do gênero de Romance Policial.

Críticos e fãs costumam nomear o estilo de Lovecraft de Horror Cósmico, ou “Cosmicismo”, por suas histórias envolverem normalmente seres extraterrenos, monstros ou entidades tão antigas que estariam além da Compreensão humana.

Pensando nisso, a ideia aqui é fazer um paralelo entre o estilo de escrita verborrágica, recheada de adjetivos de Lovecraft com a noção de Real em Psicanálise.

Lovecraft, vida e escrita

Nascido em 1890 na cidade de Providence, Rhode Island no seio de uma família aristocrata da Nova Inglaterra, o pequeno Lovecraft foi criado em um ambiente confortável.

Seu pai morreu quando Lovecraft tinha apenas 08 anos de idade, após ficar internado, depois de ter uma crise nervosa em 1893 constantemente em clínicas de repouso. Suspeita-se que o pai tivesse contraído sífilis. Após a morte do pai, Lovecraft foi morar na casa de seu avô.

Seu avô era uma proeminente empresário industrial o que garantiu uma vida confortável para Lovecraft em seu início. Diz-se que a árvore genealógica de Lovecraft pode ser traçada até mais de 400 anos atrás. Sua família foi uma das primeiras a ter chegado aos Estados Unidos.

Após a morte do pai, diz-se que sua mãe desenvolveu um cuidado excessivo com o garoto. Posteriormente, Lovecraft afirma que esse zelo demasiado deixou marcas profundas em sua psiquê e seu relacionamento com o mundo. Lovecraft passava muito tempo em casa, por ter uma saúde frágil. Frequentou pouco a escola, o que o Ele sofria de poiquilotermia, uma raríssima doença que fazia com que sua pele fosse sempre gelada ao toque.

Tendo crescido na vasta biblioteca de seu avô, Lovecraft passou a venerar a cultura clássica e considerava a poesia como literatura de verdade. Para alguém que passava muito tempo em casa, com gosto pela leitura e escrita, não é de se admirar que tenha se tornado um escritor.

Howard Phillips Lovecraft em junho de 1934

Mesmo após a morte do avô, e de sua mãe, com o dinheiro escasso, H.P. não aceitava trabalhar de maneira contínua. Ele se considerava um cavalheiro aristocrata, e ele entendia que trabalhos que não fossem em jornais ou revistas consideradas adequadas, estavam abaixo dele.

Lovecraft faleceu em 15 de Março de 1937, aos 46 anos de idade.

Foi com o esforço de amigos próximos que fundaram a editora Arkham, e começaram a publicar os textos de Lovecraft em formato de livro, que sua obra ficou mais conhecida do público geral. Até então, seus escritos eram conhecidos por uma audiência mais restrita, principalmente de leitores de revistas Pulp, como a Weird Tales.

Weird Tales, 1922

Seu impacto na literatura de horror e ficção científica é profundo, influenciando autores como Neil Gaiman e Stephen King. Para além disso, sua influência em obras cinematográficas de diretores como Stanley Kubrick e John Carpenter é notável, como no filme Enigma de Outro Mundo (1982), de Carpenter.

Lovecraft durante muito tempo teve uma postura racista e xenófoba em seus contos. Especula-se, inclusive, que muitas das descrições dos monstros nas histórias de Lovecraft tenham sido baseados nos preconceitos íntimos do autor. A posição da aristocracia decadente do Nordeste dos Estados Unidos, a reclusão constante no início da vida, bem como as rápidas mudanças sociais que vinham acontecendo à época no continente americano, certamente influenciaram a visão de mundo de H.P.

Outro ponto importante de se notar nas histórias do autor é a pouca ou nenhuma participação de mulheres nos contos. Por toda a obra de Lovecraft, percebe-se um desprezo pela raça humana de maneira geral, sendo considerada sempre inferior ao cosmos.

Curiosamente, ele se casou com Sonia Greene, uma judia que o convenceu a mudar-se para Nova York, lugar onde eles moraram por pouco tempo, antes de sua separação amigável.

Algumas características importantes da escrita de Lovecraft que também são importantes.

  1. O arcaísmo patente no uso de terminologias. O texto parece, em uma primeira olhada, ter sido escrito no século XIX, tamanho o uso de termos fora de uso empregados por Lovecraft.
  2. O uso indiscriminado de adjetivos quando ele busca descrever os monstros/entidades em suas narrativas.

Essa segunda característica é muito criticada nos meios acadêmicos, sendo visto como uma limitação criativa na escrita de Lovecraft.

Um exemplo claro do estilo “Lovecraftiano” se encontra no texto Ele (1926/2017):

“… e as multidões humanas que fervilhavam pelas ruas estreitas eram seres atarracados, forasteiros escuros com caras abrutalhadas e olhos apertados, estranhos traiçoeiros sem sonhos e sem nenhuma relação com o cenário a seu redor, enigmáticos para os descendentes dos antigos habitantes, que amavam as belas alamedas verdes e as aldeias da Nova Inglaterra com suas torres em formato de agulha” (Lovecraft, p. 62).  

A noção de Real na Psicanálise

O Real na psicanálise não se trata da realidade. Talvez, seria melhor dizer que o Real é tudo aquilo que tem que ser extraído da realidade para que ela faça sentido.

O Real se trata daquilo que é inominável, indizível, impensável. No fundo, tudo aquilo que nos confronta com o nosso caráter eternamente faltante. Segundo Lacan (1953/2005): “O real é ou a totalidade ou o instante esvanecido. Na experiência analítica, para o sujeito, é sempre o choque com alguma coisa, por exemplo, com o silêncio do analista” (p. 45).

Simbólico e Imaginário tentam dar conta do Real, do furo, sendo que “o Real será definido como o que escapa ao Simbólico, o real como trauma” (Chaves, 2009, p. 43).

Uma boa definição do Real, a meu ver é dada por Fink (2018):

“O Real, tal como o apresentei até aqui, é aquilo que ainda não foi posto em palavras ou formulado. Podemos pensar nele, em certo sentido, como a ligação ou o elo entre dois pensamentos que sucumbiu ao recalcamento, e que precisa ser reestabelecido” (p.61)

Lacan dizia também que o Real é como o “muro da linguagem”, o limite que resta de não-simbolizável. A morte, por exemplo, é algo do Real. A experiência de perder alguém próximo costuma vir acompanhada da “falta de palavras”. Não existem palavras que deem conta desse sofrimento.

“Ainda nessa qualidade, em sua posição tópica, ele se caracterizará como exsistente (situado fora de todo campo demarcável). Finalmente, e na medida em que lhe é assim conferido o estatuto de um vazio, ele se articulará numa representação “borromeana” com os vazios constitutivos do simbólico e do imaginário” (Kauffman, 1998, p. 445)

Mais a frente na obra Lacaniana, o autor vai formalizar a tríade, Simbólico-Imaginário-Real, a partir do chamado Nó Borromeano, uma formação topológica que consiste de 3 aros interligado, de tal modo que se um se desvencilhar os outros também o são. Assim é o sujeito para Lacan.

O nó Borromeano

O Real em Lovecraft

Os monstros “Lovecraftianos” não apresentam forma, suas formas não podem ser compreendidas pela raça humana. Muitas vezes a geometria de construções alienígenas são consideradas estranhas e incompreensíveis para nós (Lovecraft, 2017).

A própria palavra “Cthulhu”, oriunda do conto “O Chamado de Cthulhu” (talvez seu texto mais conhecido, adaptado para uma infinidade de jogos, RPG’s, etc) publicado em 1928, seria impronunciável. Segundo ele, “a nossa conformação fisiológica não permitiria que o pronunciássemos corretamente” (Lovecraft, 2017, p.120). Não seria um idioma para a laringe humana.

Em Dagon (1919/2017), seu primeiro conto publicado profissionalmente:

“Então, de repente, eu vi. Com apenas uma leve agitação para marcar sua ascensão até a superfície, a coisa deslizou para fora das águas escuras. Tão vasto quanto Polifemo e horrendo, ele dardejou, como um estupendo monstro de pesadelos, contra o monólito, sobre o qual lançou seus gigantescos braços escamosos, enquanto curvava a cabeça hedionda e dava vazão a certos sons compassados. Naquele momento, pensei ter ficado louco” (Lovecraft, p. 26).

Interessante notar que isso se alinha com a noção de Real que escapa a Simbolização. O inominável e impensável vem de encontro aos personagens nos contos de Lovecraft. O horror, muitas vezes se baseia no desconhecido, na incerteza do que está lá. Para além disso, o fato de não haver palavras que descrevam a visão monstruosa denota um encontro com o Real: “O efeito da visão monstruosa era indescritível, já que alguma violação demoníaca das leis naturais parecia uma certeza desde o começo” (Lovecraft, 1936/2017, p. 209).

A incerteza é algo que invariavelmente estará presente nas nossas vidas, lidar com ela e produzir algo a partir disso é um dos objetivos centrais da análise, sempre apontando para onde está o desejo do sujeito.

O Real se impõe como um muro da linguagem para todos. E é nessa direção que é entendida a clínica psicanalítica lacaniana na atualidade. Levamos o sujeito a se confrontar com sua possibilidade maior de escolhas (Forbes, 2014). Com a mudança do laço social, os referenciais tidos como certos no passado não funcionam mais, com isso, temos que nos reinventar constantemente. A mudança na clínica psicanalítica, passa então por, não mais explicar o sintoma (Clínica da Simbólico), mas por implicar (Clínica do Real) o paciente em seu sintoma e em seu desejo.

Imagino o que pensaria Lovecraft se caminhasse entre nós nos dias de hoje. Talvez ele caminhe.

Até a próxima,

Igor Banin

Referências Bibliográficas

Chaves, W. (2009). Considerações a respeito do conceito de Real em Lacan. In Psicologia em Estudo. (pp. 41-46, v. 14). Maringá.

Fink, B. (2018). Introdução clínica à psicanálise lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Forbes, J. (2014) Psicanálise – A clínica do Real. Barueri: Manole.

Kauffman, P. (1998) Real. In Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. O legado de Freud e Lacan. (pp.444-445) Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1953/2005). O simbólico, o imaginário e o real. Em Nomes-do-Pai (T. André, Trad., pp. 11-53). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lovecraft, H.P. (2017). H. P. Lovecraft: medo clássico. Rio de Janeiro: Darkside Books.

Lovecraft, H.P. (2017). Contos, Volume 1 / H. P. Lovecraft. São Pauo: Martin Claret.

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