Psicanálise e Humor: Chistes e as intervenções do analista

Chistes e as intervenções do analista

O que possivelmente poderia haver de relação entre o humor e a prática da psicanálise? Eu diria tudo, ou quase tudo. Vocês vão ver por que.

Durante um processo de análise, existem alguns momentos em quê o analista realiza uma intervenção (não confundam com a militar), agindo sobre a fala do paciente. As intervenções costumam colocar em xeque algumas convicções e certezas estabelecidas daquela pessoa. São falas e perguntas que balançam aquele sujeito que vinha com um discurso pronto, do tipo: “Doutor, sou Borderline”. E o que isso diz de você? Nada.

A tradição de contar piadas parece estar se extinguindo em nossos dias. Talvez isso se deva à uma mudança no ponto de ancoragem da cultura. Parece estar havendo um deslizamento da palavra para a imagem (Lacadée, 2006). Não ouvimos e falamos mais, apenas vemos (O Youtube que ganha com isso).

Tentarei discutir as relações possíveis entre o mundo das piadas e a prática da Psicanálise, mostrando assim que psicanalista não é de (O)utro mundo.

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(Imagem retirada da Internet)

O significante

Uma noção popular de psicanálise lacaniana que nos pode ajudar nesse momento, é a de Significante. É uma tentativa de Lacan de articular o que Freud dizia sobre representações. O significante é algo que “representa o sujeito para um outro significante” (Varnier, 2005, p. 63). Diz de um representante do objeto, em sua forma linguística.

Os significantes são o material com o que trabalhamos na clínica, como cada um tomou as situações que lhe fizeram questão.

“As palavras são um material plástico com que se pode fazer de tudo. Há palavras que em certos usos perderam por completo o seu significado original, mas que em outros contextos ainda o têm.” (Freud, 1905/2017, p.52)

Essa característica de “uso múltiplo” das palavras nos é muito importante, pois, as intervenções são feitas justamente ao brincar com a linguagem, passeando pelos muitos sentidos que podem ser carregados por uma palavra. Com isso se fazem as piadas.

O tempo lógico

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(Imagem retirada da Internet)

Sessões curtas eram uma marca registrada de Lacan. Mas não era ao acaso que se decidia  a duração das sessões. Há uma razão teórica, explicitada por Lacan, em seu texto O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada. O tempo em psicanálise é lógico, não cronológico.

Há primeiro o tempo de ver, quando o sujeito explica sua dor, fala, fala e fala sobre o que lhe incomoda, ou o que lhe faz questão. Depois há o tempo de compreender, quando o paciente se dá conta (ou não), da razão ou razões da manutenção desse estado de coisas, isto é, porque estou nessa posição, ou por que faço isso, etc. Por fim, há o tempo de concluir, quando o paciente decide o que vai fazer a respeito (Lacan, 1945/1998).

A transição entre o ver e o compreender é marcado por atos-falhos e chistes que emergem de forma natural.

O corte que encerra a sessão é realizado justamente entre o compreender e o concluir, para que o paciente conclua lá fora, até porque, é lá fora que o paciente irá atuar a mudança.

Não é incomum que após uma intervenção demasiada precisa ou significativa o paciente fique “sem norte”, saindo para o lado errado do corredor, ou pegando o elevador no sentido incorreto.

O corte da sessão é pontuado justamente após uma fala significativa, que indica uma aproximação do que Lacan chamava da “palavra verídica” (Lacan, 1953-1954/1996).

O humor na sessão

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(Imagem retirada da Internet)

Uma passagem que ilustra o caráter múltiplo do uso das palavras, está no livro O  Chiste e sua relação com o Inconsciente (1905/2017), de Freud. “Como anda você, pergunta o cego ao paralítico. Como você está vendo, reponde o paralítico ao cego.” (p.52).

Uma das características do humor parece ser justamente o seu caráter de surpresa. Quando uma conversa é estabelecida e algo de novo e surpreendente é dito, causa o riso ou estranheza (ou os dois). Isto é, quando estamos conversando com alguém, esperamos supomos de forma quase que automática o que o outro dirá. Uma piada age exatamente ai, na forma de algo inesperado.

O intuito da intervenção é tirar o sujeito do eixo, questionar a condição de sofrimento já estabelecida. Há aí, uma quebra na cadeia significante, uma surpresa, algo de inesperado (Quinet, 2015).

Outra semelhança entre a piada e a intervenção psicanalítica é o seu timing, isto é, o momento preciso em que emerge no discurso falado. Da mesma maneira que uma piada não tem graça se não for contada no momento exato, o momento que lhe compete, uma intervenção não terá seu caráter efetivo caso seja feito fora de hora. Quando há um chiste em uma sessão, ou um ato-falho por parte do paciente, a intervenção deve (em geral) acompanhá-lo.

Quando rimos de uma piada, acontece uma abertura do inconsciente, um momento em quê suportamos a nossa condição neurótica. Processo semelhante acontece quando cometemos um ato-falho, que não é mais do que um bem-sucedido. Comentei sobre o tema em outro lugar.

Pensando que o uso múltiplo de uma palavra nos permite encaixá-la em diferentes contextos, o que efetivamente o analista faz é brincar com a linguagem. Alguém deve estar muito bem inserido na língua para poder modifica-la e brincar com ela. Mudamos a perspectiva com que o sujeito olha para o que diz.

Que mais risadas estejam à vista de vós.

Ba dum tss

Até a próxima.

Por Igor Banin

PS:

Sugestão de leitura:

Zizek, S. (2015). As Piadas de Zizek. São Paulo: Três Estrelas.

 

Referências Bibliográficas

Banin. I. (2017) O ato-falho em tempos de Whatsapp. São Paulo: Sociedade dos Psicólogos. Disponível em: https://spsicologos.com/2017/03/31/o-ato-falho-em-tempos-de-whatsapp/

Freud, S. (1905/2017). O Chiste e sua relação com o Inconsciente In O Chiste e sua relação com o Inconsciente. (pp. 13-334, Obras completas de Sigmund Freud, v.7). São Paulo: Companhia das Letras.

Lacadée, P. (2006) A autoridade da língua. In La Petit Girafe. Paris: Algalma.

Lacan, J. (1945/1998) O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. In Escritos (pp. 197-213). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1953-1954/1996) O eu e o outro. In Os escritos técnicos de Freud (pp. 56-73, Os Seminários, Livro I). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Quinet, A. (2015) O Grafo do Desejo. Aula realizada no dia 12/08/2015 no FCCL-Rio. Recuperado em 25 de Outubro de 2016, de https://www.youtube.com/watch?v=LFrD1HtPeWE

Varnier, A. (2005). Lacan. São Paulo: Estação Liberdade.

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