Humanização e a importância nas instituições de saúde

Happy male doctor discussing with senior patient at table in clinic

Em 1948, surge o conceito de saúde perfeita elaborado pela OMS, retratado como o “estado de completo bem-estar físico, mental e social, não meramente a ausência de doença ou enfermidade”. O objetivo desse conceito veio para ampliar o modelo até então biomédico que tinha por finalidade a ausência de doença. Esse termo saúde perfeita apontado pela OMS reflete um estado de completo bem-estar, porém, é impossível alcançar um estado de completa ausência de tensão, a não ser na morte. E ao contrário desse conceito, a civilização vem demandando cada vez mais que os indivíduos renunciem à satisfação de seus impulsos e ofertando cada vez menos, o suporte necessário para fortalecer o seu biopsicossocial (BETTS, 2003).

O modelo biomédico observa o homem ser compreendido como uma máquina, um conceito enraizado em sua formação profissional de que saúde significa ausência de doença e, foca-se na especialização e fragmentação, a qual gera a perda da visão holística do sujeito em suas áreas sociais e psicológicas. O indivíduo perde sua significação, mas o objetivo é a doença e a cura, na diagnose individual e no tratamento (CUTOLO, 2006).

Para Collet e Rozendo (2003) humanizar é assegurar à palavra a sua integridade ética. Isto é, para que todos os males sejam humanizados há a necessidade de se comunicar com o outro e através disso, expressar a ética da humanização. Através da linguagem, descobrem-se formas de considerar o outro e evitar sua desumanização. Isto é, sem comunicação não há humanização. Ela necessita da nossa capacidade de se comunicar através do falar e ouvir, para utilizarmos o diálogo como uma forma de se conectar ao outro e assim, entender suas necessidades e sentimentos, alcançando o bem-estar recíproco.

Segundo Costa (2013), ainda hoje nos consultórios médicos ou no SUS, o modelo biomédico é um determinante na atenção à saúde observada no trato do médico com o paciente, por meio da forma com que conduz uma entrevista ou análise clínica, Tendo como alvo, os sintomas e a consequência deles. Por isso, o médico centrado no modelo biomédico, faz perguntas aos seus pacientes do tipo: o que você está sentindo? Com certeza algo importante de questionar, mas não há preocupação com a subjetividade do paciente, apenas seus males físicos.

Gaíva e Scochi (2004) citam que embora se saiba que a assistência à saúde não está centrada apenas na instituição hospitalar, é nesse espaço onde se percebe que a desumanização no cuidado com o outro se faz mais evidente. Ainda que haja longas filas de espera nos serviços públicos ambulatoriais, para citar apenas um dos problemas, quando o ser humano necessita de hospitalização, encontra-se fragilizado pelo processo de adoecimento, o que se agrava com a falta de humanização da assistência.

Focalizar a humanização no paciente engloba, antes de tudo, uma vinculação afetiva no trato, que pode ser interpretada como a empatia, responsabilidade, consideração pelo outro como um ser singular e não compreendê-lo pela enfermidade, mas sim, se atentar que o mesmo encontra-se adoecido. Compreende-se também, desconstruir ao máximo possível a fenda entre o ser normal e o ser adoecido que lhe é atribuído diversas restrições enquanto paciente. Desta forma, não apenas o enfermo, mas sua família e pessoas próximas necessitam ser acolhidas e captadas a partir de suas histórias de vida, crenças e afetos, para que a estadia desse paciente na instituição seja pouco abalável, visto que, por exemplo, o simples ato de estar em um hospital já é uma experiência traumática que envolve sofrimento (BACKES et al, 2005).

O médico filósofo Karl Jaspers destaca a obrigação e a necessidade de a medicina resgatar os fundamentos subjetivos do relacionamento entre médico e paciente, desaprendidos desde a antiguidade, deixando-se levar por uma estrada que visa apenas à instrumentação técnica e a objetividade dos dados (GADAMER, 1994 apud CAPRARA; FRANCO, 1999). Observamos como exemplo dessa prática, os doutores da alegria, uma organização sem fins lucrativos que tem por objetivo avaliar a necessidade da criança e colocar esses conhecimentos em prática por meio da atividade lúdica que usa a habilidade, a arte e a sensibilidade para o cuidado biopsicossocial desses pacientes.

Segundo Rocha et al. (2013), a criação da relação médico-paciente surge do conhecimento utilizado pelo profissional, precisando apresentar características humanas, subjetivas, de modo não rígido. Não deve limitar-se à assertividade das ciências. Através de sua anamnese deve compreender as queixas informadas pelo enfermo e também para auxiliar no tratamento eficaz, precisa conhecer o estilo de vida do sujeito. Considerando a relação como uma perspectiva chave no desenvolvimento da qualidade do trabalho, necessita-se procurar a personalização do atendimento humanizado e o direito ao conhecimento.

Gadamer explica que a vivência que os médicos têm como pacientes, possibilita a construção de um conhecimento a partir da prática, o que pode levar a evolução dos pressupostos hermenêuticos. Esse recurso hermenêutico é formado de entendimento e explanação com duas etapas rotineiras e completivas na relação médico-paciente (GADAMER, 1994 apud CAPRARA; FRANCO, 1999). Existem médicos que na posição de pacientes retratam suas vivências de um estado de adoecimento como o neurologista Oliver Sacks. Ele explica que em certo dia, fraturou uma de suas pernas. Da posição de médico, ele assume o lado do paciente e alega que isso significou: 

[…] a sistemática despersonalização que se vive quando se é paciente. As próprias vestes são substituídas por roupas brancas padronizadas e, como identificação, um simples número. A pessoa fica totalmente dependente das regras da instituição, se perde muito dos seus direitos, não se é mais livre” (SACKS, 1991 apud ROCHA et al, 2013, p. 3)

Levemos em consideração a psicanálise. O psicanalista percorre um processo terapêutico movido por uma angústia parecido a aquela que conduz uma pessoa ao consultório para adquirir a posição de cliente. Desta forma, o psicanalista vivencia o caminho da cura que ele observa em seus pacientes. Lacan (1998) explana acerca dessa igualdade entre psicanalista e psicanalisado utilizando da imagem bíblica de que ambos são formados a partir do mesmo barro. Para vivenciar esta igualdade, o psicanalista precisa se autoconhecer e segundo Freud, quando há introdução do princípio de realidade no Ego, ocorre o ganho da consciência dos perigos, do certo e do errado, do bem e do mal e da realidade hostil e carente de recursos. Em suas palavras, o Ego não passa “de apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais incluso, na verdade totalmente mais abrangente, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o Ego e o mundo que os cerca […] O conteúdo ideal a ele apropriado seria exatamente o de ilimitabilidade e de um vínculo com o universo”. (FREUD, 1969, p.85-6)

Podemos considerar que existem diversos recursos midiáticos que trazem questionamentos a cerca do modelo biomédico, e que têm a possibilidade de serem inseridos em uma metodologia alternativa voltada ao objetivo da educação humanista e suas vertentes para estudantes e profissionais da saúde, que tenham interesse em desenvolver seus conhecimentos e sua prática envolvendo o cuidado do paciente.

Nota-se que a visão teórica do tema, como motivo de estudo, apresenta uma insuficiência em seus conteúdos publicados até o momento que agrupem e discutam de forma ativa, linhas teóricas, pesquisas empíricas e ações de intervenção, que visam por meio de instrumentos alternativos de educação, colaborar para o desenvolvimento dos atendimentos humanizados nas instituições de saúde, auxiliando desta forma, os profissionais e consequentemente, os pacientes inseridos nessas instituições.

Referências bibliográficas

BACKES, D. S. et al. Humanização hospitalar: percepção dos pacientes. Acta Sci. Health Sci. Maringá, v. 27, n. 2, p. 103-107, 2005.

BETTS, J. Considerações sobre o que é o humano e o que é humanizar. Rede Humaniza SUS. [Periódico on-line] [citado em 01 set. 2014] Disponível em: http://www.redehumanizasus.net/86514-comunicacao-um-elo-essencial-no-processo-dehumanizacao-hospitalar

CAPRARA, A.; FRANCO, A. L. S. A Relação paciente-médico: para uma humanização da prática médica. Rio de Janeiro: Caderno Saúde Pública, vol.15 n.3. 1999.

COLLET, N. ROZENDO, C.A. Humanização e trabalho na enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem; 56(2):189-92, 2003.

COSTA, R. V. Atenção à Saúde: Discussão Sobre os Modelos Biomédico e Biopsicossocial. PSICOLOGADO Artigos [periódico online]. Março de 2013. Consultado em 04 de novembro de 2016. Disponível em: https://psicologado.com/atuacao/psicologia-da-saude/atencao-asaude-discussao-sobre-os-modelos-biomedico-e-biopsicossocial

CUTOLO, L. Modelo biomédico, reforma sanitária e a educação pediátrica. Arquivos Catarinenses de Medicina. Vol. 35, nº. 4, 2006

FREUD, S. O mal estar na civilização. Edições Standard. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

GAÍVA, M.A.M. SCOCHI, C.G.S. Processo de trabalho em saúde e enfermagem em UTI neonatal. Revista Latino-americana de Enfermagem, p 469-476, maio/junho 2004.

LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos (J. Lacan, ed.), Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, p. 591-652, 1998.

ROCHA, B.V. GAZIN, C.C. PASETTO, C.V. SIMÕES, J.C. Relação Médico-Paciente. Revista Medicina Residencial, p. 114-118, 2013.