Você Conhece o Estado de Flow?

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

(Fernando Pessoa)

Você já realizou uma atividade onde não percebeu o tempo passar? Deixou de comer ou ir ao banheiro? Sentiu extremo prazer e conexão com aquilo que estava fazendo? Provavelmente você já experimentou essa sensação em alguns momentos da sua vida ou mesmo do seu dia-a-dia. Essa experiência vem sendo estudada pela psicologia como flow (ou estado de fluxo) e é sobre ela que vamos falar no texto de hoje 😉

Mihaly Csikszentmihalyi

É um psicólogo de origem croata considerado um dos pais da psicologia positiva (ao lado de Martin Seligman) e o pai da teoria flow. De acordo com sua biografia, teve a família destruída pela 2ª Grande Guerra Mundial e chegou a ser mantido em campo de concentração italiano quando criança. Teria descoberto a primeira “atividade flow” por meio do xadrez, depois pela pintura e fotografia. Durante os estudo de psicologia, chegou a assistir palestra de Carl Jung e interessou-se pela felicidade após conhecer húngaros que estiveram presos na União Soviética e se questionar por que alguns mantinham-se sãos enquanto outros estavam psicologicamente destruídos. Graduou-se no ano de 1959 e recebeu seu doutorado em 1964, ambos pela Universidade de Chicago (Kamei, 2018).

Foi observando pintores durante sua pesquisa de doutorado (sobre criatividade) que percebeu características daquilo que, mais tarde, viria a chamar de estado de flow. Mihaly ficou impressionado como os artistas ficavam imersos, concentrados, envolvido e absorvidos durante o processo de pintura, esquecendo-se também do tempo, das necessidades biológicas, da fadiga e das obrigações sociais, por exemplo. O mais interessante era que isso durava enquanto a pintura estivesse incompleta e sendo construída, pois, assim que o quadro era concluído, os artistas perdiam o interesse por aquela obra e se voltavam para a próxima tela. Ele entendeu que a motivação para a pintura estava no próprio processo de pintar, e não na antecipação frente a um belo quadro pronto – a qualidade da experiência já era suficientemente recompensadora.

Charles Spencelayh (England 1865-1958) The Old Copyist

Buscando explicações para o que estava descobrindo, teve dificuldades em encontrar respostas ou elucidações nas chamadas 1ª e 2ª força da psicologia (behaviorismo e psicanálise), mas encontrou um ponto de partida na psicologia humanista de A. Maslow, que já apontava dois tipos de comportamento criativo (orientado para o produto e orientado para o processo). A proposta de Maslow entendia a autorrealização por meio de experiências culminantes, o que envolvia o descobrimento das potencialidades e limitações do eu a partir das atividades e vivências. Foi o mais perto que Mihaly encontrou sobre o que estava estudando. Por meio da observação de crianças e de pesquisas realizadas com pessoas que despendiam grande parte de tempo em atividades das quais não tinham nenhum tipo de remuneração (como atletas amadores, dançarinos, compositores, alpinistas…), que ele descreveu as características e condições da experiência flow.

“Em um mundo supostamente regrado pela busca por dinheiro, poder, prestígio e prazer, é surpreendente encontrar certas pessoas que sacrificaram todas essas metas por nenhuma razão aparente: pessoas que arriscam suas vidas escalando montanhas, que devotam suas vidas à arte, que despendem suas energias jogando xadrez. Descobrindo por que elas estão dispostas a desistir de recompensas materiais pela elusiva experiência de desempenhar ações satisfatórias, nós esperamos aprender algo que nos permitirá tornar a vida cotidiana mais significativa.”

(Csikszentmihalyi, 1975)

Modelo de Experiência Flow

De acordo com o autor, existem 3 principais condições para a ocorrência do estado de flow: 1) metas claras; 2) feedback imediato; 3) equilíbrio entre habilidades, desafios e oportunidades de ação.

  1. Metas Claras: para o flow, não interessam tanto as metas finais, mas sim a série de pequenos objetivos momento a momento. Como cada nova pincelada em um quadro; como um próximo movimento preciso para a execução de uma dança; como o escrever de algumas palavras para avançar em um texto, por exemplo.
  2. Feedback Imediato: essa condição informa sobre o andamento da performance e se o autor está se aproximando do seu objetivo em cada ação. Em toda pincelada a modificação visual ocorre e isso aproxima ou distancia do efeito desejado; cada nota musical executada ou improvisada informa sobre a qualidade da performance e pode sugerir alteração na dinâmica das próximas notas; cada traço no papel do desenhista; um domínio de bola para um futebolista; uma bela figura inserida em um slide de alguém que monta uma aula…
  3. Equilíbrio Entre Habilidades, Desafios e Oportunidades de Ação: buscando mapear o espectro da experiência flow, Mihaly trabalhou, inicialmente, com 3 experiências: tédio, flow e ansiedade, relacionando-as enquanto correspondentes à combinação entre habilidades (que se possui) e desafios (a serem atingidos) envolvidos em uma tarefa. Em linhas gerais, uma pessoa com grandes habilidades frente a um desafio baixo, vai experienciar tédio, assim como uma pessoa de baixas habilidades frente a um desafio alto, vai experienciar ansiedade. Dessa forma, a experiência flow se encontra no equilíbrio entre as habilidades e os desafios, com base em uma situação de oportunidades de ação (que podem ser bem ou más sucedidas – um saque de tênis, por exemplo). Abaixo está o modelo atual de compreensão do estado de flow.
Modelo de Flow de 8 Canais – Adaptado de Csikszentmihalyi (1997)

Características do Flow

Durante o flow, as pessoas relatam sensações de estar no controle de suas ações frente ao cenário em que a atividade se desenvolve. A atenção é forte e focal, sendo que o contato acontece no aqui e agora e é presente nos fatos, deixando de lado tanto questões ruminativas sobre passado ou futuro, quanto questões relacionadas aos papeis sociais e profissionais – é comum a sensação de unicidade com a criação, o músico e o instrumento são um quando fazem a música; a bailarina e a dança torna-se uma coisa só. Essa experiência também impacta a percepção temporal, sendo que alguns relatos falam sobre o tempo discorrendo de forma muito mais rápida, mas também muito mais lenta. Assim como uma aula de horas pode parecer ter durado alguns minutos para o professor que gosta de lecionar, um movimento coreografado de milésimos de segundo pode parecer uma eternidade na percepção da bailarina. Outra característica foi chamada de experiência autotélica e diz respeito a atividade ser um fim em si mesma, sem depender de fatores posteriores – ela é satisfatória, extremamente agradável, intrinsecamente recompensadora e gratificante por si própria. Abaixo listei as principais características:

  1. Sensação de controle
  2. Concentração profunda
  3. Fusão entre ação e consciência
  4. Foco temporal no presente (aqui e agora)
  5. Distorção da experiência temporal
  6. Perda da autoconsciência social
  7. Experiência autotélica

Aplicando o Flow

Vale dizer que o estado de flow não é exclusivo dos artistas e atletas, ou de pessoas que trabalham diretamente com a criatividade, mas é uma forma de experiência que todos podem alcançar e em diversos afazeres. Em seu artigo de 1975, Csikszentmihalyi defendeu que a aplicação do modelo flow deveria ser urgente nas escolas e trabalhos, uma vez que as pessoas tendem a passar a maior parte da vida nessas instituições. Ao longo de sua obra ele fala sobre o estado de flow acontecendo nas atividades produtivas (como trabalho e estudo), atividades de manutenção (manter o corpo em forma, limpar, descansar) e atividades de lazer (consumo de mídia, conversa, hobbies), e relaciona com consequências no aumento das emoções positivas, no crescimento do self, no fortalecimento da autoestima e no próprio desempenho da tarefa que é executada.

Para empregar o flow, em linhas gerais, é necessário compreender a relação entre as habilidades (que se tem) e os desafios (necessários) para a realização de uma tarefa. Caso a tarefa seja muito difícil, ela deve ser reduzida; caso seja muito fácil, deve ser elevada. E o mesmo acontece para as habilidades de alguém, que dependem de treinamento e prática. Nas primeiras aulas de música, o professor propõe exercícios fáceis e, conforme o aluno vai aprendendo a executá-los, o grau de dificuldade deve subir, caso contrário o aluno tende a se entediar com a experiência. Da mesma forma que se o desafio for muito elevado, desde o início, a experiência tenderá à preocupação, estresse e ansiedade. O flow está no equilíbrio entre as habilidades e os desafios.

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Referências e Recomendações

Csikszentmihalyi, M. (1975). Beyond Boredom and Anxiety. Washington: Jossey-Bass Publishers.

Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow. New York: Harper Perennial Modern Classics.

Csikszentmihalyi, M. (1997). The masterminds series. Finding flow: The psychology of engagement with everyday life. Basic Books.

Kamei, H. (2018). Flow e psicologia positiva: estado de fluxo, motivação e alto desempenho. Goiânia: Editora IBC.

Snyder, C. R.; Lopez, S. J. Psicologia positiva: uma abordagem científica e prática das qualidades humanas. Porto Alegre: Artmed, 2009

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Por Caio Ferreira

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