Os Fantasmas em nós

Fantasmas e Psicanálise

Carregamos um peso que não é nosso, pelo menos na medida em que ele nos precede, vem de alguém antes de nós. Tomamos decisões e caminhos na vida que, muitas vezes são guiados por isso.

Ultimamente tenho pensado bastante sobre o tema do peso que a história da nossa família incide em nós.

História familiar x Psicopatologia

Menina com Máscara da Morte (Niña con Máscara de Calavera): Frida Kahlo, 1938
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(Menina com Máscara da Morte: Frida Kahlo, 1938)

Quando nascemos, somos bombardeados por desejos e expectativas de nossos pais e familiares. Nosso nome é carregado de significações consciente e inconscientes. Entramos em uma rede simbólica complexa, que nos precede e nos sucederá no futuro.

Fazendo uma alusão rápida à noção de nó-borromeano, em Lacan, podemos pensar que o sujeito, inicialmente inscrito no Real, recebendo a significação externa do Outro, bem como suas fantasias e formas de ver o mundo.

É discutido se transtornos mentais são passados entre as gerações. Alguns, acredito, com mais propensão à serem de fato, como a Esquizofrenia. O que se propõe é que o sintoma familiar é atualizado geração após geração em seus membros novos, através dessa rede de significações.

Essa rede de filiação nos determina, isto é, dependemos dela, principalmente no início da vida para constituirmos nosso Eu. O que faremos com isso é o importante. Temos, em geral, 03 opções:

– Seguir à risca o que queriam de nós, algo do tipo: “ser um advogado pois meu pai sempre quis, ou porque foi de fato um”;

– Ir absolutamente contra todos os modelos apresentados, fazer “exatamente o contrário do que o pai queria”, causando, geralmente, um rompimento das relações entre pais e filhos;

– Produzir algo à partir daquilo que se recebeu. Aceitar a herança simbólica e subjetiva, e fazer produzir.

É interessante perceber que hora ou outra, durante uma análise, se empreende uma busca pela história da família. O sujeito começa à desamarrar questões que podem estar determinando suas escolhas, suas vontades, seu desejo, em última instância.

Os mortos andam entre nós

O passado está vivo. E quem não quiser olhar para ele, que pague a conta de seu enterro vivo. Pelos estudos mais confiáveis, para cada pessoa viva hoje na terra, existem cerca de 15 mortos, que um dia andaram pelo planeta. Passo à perceber cada vez mais a importância dos mortos nos vivos.

O inconsciente é atemporal, já dizia Freud. Justamente por essa atemporalidade podemos pensar em uma transmissão dos traumas, das expectativas, medos e desejos mais profundos da família.

A noção de Fantasma* em Psicanálise está ligada à fantasia fundamental daquele sujeito, isto é, uma narrativa através da qual o sujeito se coloca no mundo, se enxerga e se relaciona com os outros. O atravessamento dessa fantasia, isto é, das identificações mais aglutinadas e alienantes em relação ao Outro, é o objetivo de uma análise, até porque, como dizia Lacan, não há cura, na medida em que não se pode cura-lo de seu inconsciente.

Uma referência na cultura

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(A maldição da residência Hill: Netflix, 2018)

Recentemente assisti à mini-série do Netflix, “A maldição da residência Hill”, que por sinal gostei muito, e me levou à iniciar essa reflexão.

À primeira vista parece mais uma história clichê de filmes de terror: uma casa no meio do nada, uma família tradicional americana, um fundo religioso e muitos jump-scares (sustos com imagens chocantes, cortes rápidos de câmera e sons altos). É muito mais do que isso. Acreditem.

Acho que os piores fantasmas são aqueles desejos, vontades, sentimentos e afetos que não damos vazão, ou não fazemos nada à respeito. Eles nos assombram através das décadas e talvez até dos séculos. A Cultura nos permite isso.

Aquilo que não é simbolizado retorna de forma brutal, no Real. Ai que se dá, de forma simplista, o sintoma das psicoses.

Escravidão: um aporte nacional

Calligaris (2017), aponta que, no Brasil, parece se perpetuar um “Fantasma da escravidão”. As nossas relações são permeadas por essa lógica de dominação e servidão ao outro. Nossas relações de trabalho estão pautadas justamente na dialética senhor-escravo.

Relacionamentos amorosos entram também nesse jogo, uma briga de poder de quem pode mais. O casamento é tido por muitos como o fim do mundo, entra-se em uma relação de subjugação.

 

Alguns fantasmas parece que insistem em voltar. Pouco a pouco, parece que estamos voltamos à 64. Tomara que eu esteja errado.

Como um ditado popular italiano diz: “Aquilo que você manda embora pela janela, volta pela porta”.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Importante notar que Lacan se utiliza do termo fantasma, em contrapartida à Freud, que falava em Fantasia. Para maior detalhamento, sugiro a leitura do texto de Jean-Jacques Tyszler, e do vídeo de Christian Dunker, listados abaixo.

Referências Bibliográficas

Calligaris, C. (2017). Hello Brasil e outros ensaios. São Paulo: Três estrelas.

Dunker, C. (2017) Fantasma, fantema e fantasia na psicanálise? In Falando nisso produzido por Buli, L & Bulhões, J. Link:

https://www.youtube.com/watch?v=QqZnJVRRtsk

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

A Psicanálise hoje

A virulência em tempos de truculência

Muitos declaram hoje que a Psicanálise morreu, eu discordo. Outros tantos acreditam que se trata apenas de charlatanismo (não só hoje em dia).

Nesse texto gostaria de falar um pouco sobre a relevância da ciência da fala, ou da cura pela palavra no século XXI.

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(Imagem retirada da Internet)

A Clínica do Real

Lacan, no final de seu ensino, apontou para uma direção que deveria ser seguida por seus alunos. “A Clínica do Real”, como é nomeada pelos teóricos lacanianos, diz respeito ao período entre o seminário 20 (Mais ainda, 1972-73) e o Seminário 26 (La topologie et le temps, 1978-79).

Lacan denotou uma mudança radical em sua forma de pensar o tratamento e a função da análise. A articulação entre os 3 aros do Nó-Borromeano passa à ser de maior importância do que a estrutura clínica clássica (a tríade clássica: neurose, psicose e perversão).

O laço social mudou, isto é, a forma como nos relacionamos mudou. O mestre francês já falava disso nos anos 70. Não nascemos, crescemos, estudamos, namoramos ou morremos como antigamente. Nossos pais habitaram outro mundo, com certeza.

Outras relações pedem outra clínica. Não escutamos (eu espero) nossos pacientes como Freud o fazia. E nem deveríamos. Nossas intervenções hoje buscam muito mais uma responsabilização do sujeito pelo seu Gozo (sua posição hoje, seu círculo e forma de sofrimento), do que uma explicação dos fatos. Freud explica e Lacan implica, dizem.

Remédios: Solução em cápsulas

remédios

(Imagem retirada da Internet)

Uma questão já batida na clínica psicanalítica é o uso de psico-fármacos durante a análise.

Um tema que normalmente coloca em embate Psiquiatras e psicólogos. Cada um parece puxar a razão para o seu lado, querendo a exclusividade sobre o tratamento daquele sujeito.

Minha crítica vai na direção da ilusão de quem acredita que apenas o remédio é a solução. Parece um sintoma atual, de nós, que não temos tempo para nada, resolver um problema tomando um comprimido duas vezes ao dia.

Com isso não quero dizer que sou contra qualquer tipo de medicação. O tratamento farmacológico é sim muito importante em diversos casos. O problema é quando se espera que um milagre venha de dentro de uma embalagem.

Nós temos é que ser responsáveis por nossas faltas, nossos acertos e erros.

A falta que a falta faz

A parte que falta

(A parte que falta, Shel Silverstein)

Esse subtítulo se refere à um vídeo viral feito pela youtuber “Jout Jout”, falando sobre um livro pequenino de Shel Silverstein, intitulado “A parte que falta” (https://www.youtube.com/watch?v=GFuNTV-hi9M). Livro maravilhoso, que recomendo a leitura, bem como de seu sucessor, “A parte que falta encontra o grande O”.

Parece que vivemos em um momento onde não pode haver falta. “Tempo livre? Mais trabalho, ou dedique horas on-line para realizar cursos de auto-conhecimento”. E as crianças? Não pode haver tédio em nosso tempo. Nossos celulares, que à cada geração vêm com promessas de maior duração de bateria, mantém as crianças entretidas sempre.

Sem querer dar spoilers do livro, mas, encontrar aquilo que nos completa totalmente pode ser chato à beça.

Justamente aí a Psicanálise pode atuar. Ao questionar as certezas cegas, ou sensações ilusórias de completude.

Psicologia das Massas

A psicanálise não é apenas uma ciência que nos ajuda a entender o indivíduo que está ali, deitado em nosso divã, mas é uma forma de ler o social, até porque, entendemos o sujeito sempre como um sujeito do social. Nos formamos à partir do outro, no início nossos pais, depois, tomamos como referenciais outros alhures, como professores, figuras conhecidas na mídia, etc.

Passamos um momento político e social que muitos consideram de polarização. Particularmente, a discordância de idéias me é simpática, se todos pensássemos o mesmo eu ficaria preocupado, todavia, parecia, na eleição presidencial haver duas figuras, dois estereótipos. Um traidor, coisa-ruim, tudo que há de mal na terra, e um salvador, um Messias, caso queiram.

Sugiro a leitura de Psicologia das Massas e Análise do Eu, texto de 1921, de Freud, para localizar esses sintomas de grupo. (Falei sobre o texto em outro lugar).

 

Que sejamos mais sujeitos de nossa própria história.

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências Bibliográficas

Forbes, J. (2010) Você quer o que deseja? Rio de Janeiro: BestSeller.

Forbes, J. (2014) Psicanálise – A clínica do Real. Barueri: Manole.

Freud, S. (1921/1996). Além do Princípio do Prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos. (Obras completas de Sigmund Freud, v.18). Rio de Janeiro: Imago.

 

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

A política de Trump e seus efeitos nos pequenos

Estruturação frente à falta do Outro

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(Imagem retirada da Internet. Na imagem lê-se: Nós temos os líderes que merecemos?)

Algum tempo atrás, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, intensificou a luta com relação à restrição da entrada no país de imigrantes ilegais.

Com a prática chamada de “tolerância zero”, o presidente determinou que ao serem flagradas ingressando em solo americano ilegalmente, as famílias fossem apartadas, com as crianças sendo direcionadas a abrigos. Antes, sempre que possível, as famílias eram mantidas unidas em prisões.

É importante apontar que parte das crianças que se encontram em abrigos, atravessou a fronteira sozinha, fugindo da violência de seus países de origem.

Muitas das crianças foram separadas dos pais antes dos 04 anos de idade. Isso impacta diretamente na estruturação da criança enquanto sujeito.

As fases do desenvolvimento sexual foram magistralmente descritas pelo meu colega Caio César. Sugiro que se remetam à esse texto para maior enfoque no tema.

Nasce um sujeito

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(Imagem retirada da Internet)

Quando uma criança vem ao mundo, ela “chega ao mundo, portanto, engendrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo” (Flesler, 2012, p.17). Isto é, ela vem carregada já de significação, ela já é falada no discurso dos pais.

A sua entrada na sociedade se dará por meio de uma balização imaginária, de forma especular. Explico. O eu, a noção própria de quem somos, que é diferente dos outros, só é obtida à partir do tu, à partir, justamente do outro, que é encarnado, normalmente, pela mãe, pai, e/ou cuidadores iniciais da criança.

Pouco à pouco começa à emergir na criança o símbolo (Lacan, 1953-1954/1996). A criança começa à entrar no jogo simbólico, começa a estar submetida à regras, na escola e em casa. Aí, efetivamente começa a humanização, o processo de entrada na cultura.

Dois conceitos concebidos por Freud merecem nossa atenção nesse momento, pois interpelam diretamente a estruturação da criança enquanto sujeito.

O primeiro é a noção de Eu Ideal, uma instância primariamente imaginária, ligada ao desejo materno, ao olhar do Outro sobre o bebê. Quando uma criança nasce, há um investimento libidinal muito forte por parte dos pais (ou cuidadores). Eles depositam na criança uma série de afetos muito intensos.

Após o Complexo de Édipo, entra em cena o Ideal de Eu, referência externa à família, que baliza as relações da criança com o grupo social em que está inserida. Ou seja, a criança passa à ter como referência algo externo, um ideal, uma causa que não esteja em seu círculo familiar.

O olhar desejante da mãe para o bebê configura o primeiro objeto da criança, a primeira forma de relação do sujeito. Esse é o Eu Ideal.

Psicoses e outras saídas desfavoráveis

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(Imagem retirada da Internet)

O rompimento abruto do contato da criança com os genitores pode ocasionar uma série de complicações. Buscarei me apoiar também em trabalhos de F. Dolto e D. Winnicott.

A presença de um genitor nessa fase que é crucial para a constituição do sujeito. O atendimento psicanalítico à essas crianças vai na direção de uma aposta em um possível, de uma estruturação possível.

Um exemplo de um caso em que o analista aposta no sujeito, é o Caso Dominque, contado por Françoise Dolto no livro de mesmo nome. É um texto que me parece importante citar, dado que a “criança”, já com 14 anos, apresentava uma  série de comportamentos psicóticos, totalmente desconexos com a realidade.

Naturalmente, a separação vivida por Dominique é bem diferente daquela enfrentada pelos filhos e filhas de imigrantes ilegais, atualmente nos EUA. Todavia, os efeitos psicotizantes da falta de uma figura paterna (ou que faça a função paterna) são notáveis.

Como diz Dolto (2010): “O amor que o ser humano, em sua pessoa em via de estruturação, tem pela mãe e pelas pessoas à sua volta é um amor cuja resultante efetiva é uma mímica de identificação, seguida do processo de introjeção”. Vemos aqui, o reconhecimento em forma de espelho que lhes dizia, uma identificação com os pais ou cuidadores que se rompida abruptamente, resulta em um sujeito preso em tempo passado, não conseguindo elaborar sua perda.

Winnicott, em seu trabalho Privação e Delinquência, fala justamente dos efeitos em crianças que não tiveram o acolhimento necessário, ou que o perderam, em momentos muito precoces da vida. A Criatividade Primária da criança é prejudicada, e surge, o que o autor chama de Tendência Anti-Social. Falando de Criatividade Primária, sugiro a leitura do texto do meu colega Caio Ferreira.

winnicott

(Sociedade dos Psicólogos, 2017)

Olhemos pelos pequenos.

Até a próxima.

Por Igor Banin

*Todas as imagens aqui utilizadas foram retiradas da internet. Caso alguma seja de sua propriedade, entre em contato conosco imediatamente.

Referências Bibliográficas

Dolto, F. (2010). O caso Dominique. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1953-1954/1996) Os escritos técnicos de Freud – Os Seminários, Livro I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Winnicott, D. (1987). Privação e Delinquência. São Paulo: Martins Fontes.

Homo Universalis: O Saber Pluralizado como Instrumento na Psicologia

Em uma sociedade mercantilista do capitalismo tardio toda e qualquer coisa pode ser transformada em mercadoria, inclusive o saber. Deste modo, acaba que se tornando quase que natural pensar sobre como o desenvolvimento do saber e o aprendizado possam ser úteis para gerar lucro. Algumas disciplinas passam então a ter menos valor mercadológico, e por consequência, despertando menos interesse nos estudantes. Este movimento que o Capital faz de colocar valor simbólico em todas as coisas é chamado por Marx de fetichismo da mercadoria. Para Marx (2005 [1867]), o valor real das manufaturas seria medido por questões objetivas, como por exemplo matéria prima gastas no processo. Para aumentar seu lucro o capitalista atribui importâncias ao produto, o transformando em um “bezerro de ouro”, um objeto de culto. A obra do artista italiano Piero Manzoni intitulada: ‘Merda d’artista’ ilustra muito bem o conceito de fetiche de mercadoria.

Piero Mazoni colocou suas próprias fezes em 90 latinhas estilizadas e ajudou a mudar a história da arte.

Tratando a formação acadêmica como somente um meio para chegar ao fim de sucesso profissional pode fazer com que o estudante fixe num alvo e se esqueça de todo resto ao redor, criando assim uma visão alienada da realidade. Uma outra coisa que retumba na cabeça de quem está construindo sua carreira é a preocupação sobre em que se deve especializar-se. No caso da psicologia, uma área do saber que possui um leque variado de campo onde a ciência pode ser aplicada, estas escolhas se fragmentam ainda mais. Pois, optando pela escolha da área de atuação, ainda existe a linha teórica a ser seguida: Psicanálise ou Gestalt? Segue-se ainda outras subdivisões das escolas teóricas: Psicanálise kleiniana ou lacaniana? Todas estas são escolhas importantes, mas que podem limitar a visão e o interesse acadêmico. Fazendo com que todo o foco seja despendido somente naquilo que se escolheu.

Quando olhamos para os pensadores do passado podemos observar o domínio destes em diversas áreas do saber. Leonardo da Vinci era pintor, arquiteto, botânico, cartografo, anatomista, engenheiro e muitas outras coisas, pra encurtar a lista. Rui Barbosa tinha conhecimentos nas áreas do direito, linguística, e diplomacia. Gilberto Freire, além de sociólogo e antropólogo, era também pintor, historiador e ensaísta. Quanto mais afastado da modernidade e da época contemporânea, mais facilmente se pode encontrar polímatas com conhecimentos tão distintos. Como é que no tempo hodierno o saber se tornou tão específico?

A dialética do esclarecimento e o saber especializado

Adorno e Horkheimer (2006 [1969]) nos mostram que o racionalismo iluminista transformou o saber em algo tecnicista. Esse racionalismo técnico capaz de gerar ciência e tecnologia, também foi o responsável pelo fato do ser humano ter sido capaz dos horrores das duas grandes guerras. A teoria crítica vem nos dizer, que o ser humano passou a pensar somente pelo viés do racionalismo técnico e assim acabou entrando em decadência ética e moral, uma vez que o sistema capitalista visa somente o lucro. Sob a óptica da teoria critica o conceito de indústria cultural foi desenvolvido para demonstrar a mercantilização da produção simbólica dos homens. Numa época onde a industrialização chega ao seu auge com novas técnicas de produção em massa, o capitalismo se torna maduro e sólido. Necessitando fazer girar a engrenagem consumista que o alimenta, o capitalismo passa a usar o cinema, a música e a arte e o saber em geral como mercadoria, esvaziando de sentido a produção intelectual e simbólica. Dessa forma o homem se coisifica, pois sua interioridade é violentada e sua criatividade minada, fragilizando assim a capacidade de crítica norteadora de uma ação emancipatória (RODRIGUES; CANIATO,2012).

O cientificismo também contribui para detrimento de outros saberes, pois somente aquilo que pode ser provado de forma experimental em laboratório passa a ter valor de saber científico. Aplica-se aqui uma máxima nietzschiana bem conhecida: Deus está morto e foram vocês que o mataram!  Logo, o conhecimento difuso em nossa sociedade é aquele cartesiano-positivista-técnico-racionalista. Este tipo especifico de conhecimento faz com que especializar-se em uma única disciplina seja necessário, uma vez que o saber se torna sempre cindido.

Mas o leitor pode nesse momento estar pensado: “Não foi a subdivisão e especialização do saber que fez com que a ciência se desenvolvesse tanto em tão pouco tempo na atualidade, uma vez que, se fossemos se especializar em tantas áreas teríamos de viver 200 anos?  É claro, isto está completamente correto. Contudo, a cisão do saber influencia amiúde o pensamento ocidental, pois pode trazer consigo um modo de pensar maniqueísta que divide as coisas em extremos opostos. Isto faz com que ao querer se especializar em uma área haja detrimento de outra e diminui a possibilidade de inter-relação e diálogos de saberes distintos ou hibridismos disciplinares que formularão outros novos saberes. Além disso, cria-se uma espécie de “rivalidade” ou transformação de certas teorias em “tipos de seitas”. Destarte, em algumas situações, o estudante que decide optar pela especialização em psicanálise passa a desvalorizar a teoria junguiana, por exemplo; ou o analista do comportamento passa a ridicularizar as abordagens psicodinâmicas. Neste movimento sectário de “o meu é maior do que o seu”, se constrói visões de mundo obtusas e com pouca possibilidade de criatividade. Obviamente, existem incompatibilidades de pensamento que provocam dicotomias ou resoluções diferentes. No entanto, devemos compreender que os saberes são formas de linguagem incapazes de explicar toda a realidade. Do simbólico somado ao imaginário sempre escapa o real, diria um lacaniano.

Formar-se é aventurar-se

Dunker C. (2017) mostra que o processo de formação é não somente o de adquirir conhecimento, mas é um processo de formar-se como indivíduo, é um processo de entrar em uma aventura. Para ele o psicanalista deveria conhecer línguas, história das religiões, artes e até matemática. Ora, pode-se inferir então que o processo de tornar-se psicanalista envolve o desejo de tentar se tornar um homo universalis. Em se tratando de psicologia, o interesse de estudo continuo em disciplinas completamente diferentes se torna essencial, pois conhecer as produções da mente humana faz com que se tenha o conhecimento da própria humanidade, assim como também auxilia em conhecer o modo de pensar que cada pessoa desenvolve ao fazer determinada formação. O psicólogo bem sabe que a escolha profissional de alguém está ligada àquela personalidade que decidiu seguir aquele caminho.

Pós-moderno, però non mucho!

Podemos então concluir que estimular o conhecimento plural e diversificado é algo essencial na formação do psicólogo. Não é a intenção deste escrito desvalorizar as especializações universitárias, mas mostrar ao leitor que títulos e premiações não devem ser o único meio para se tornar um exímio profissional. Quer-se aqui estimular o retorno de um saber renascentista que é capaz de tornar o estudante, além de um ótimo profissional, um ótimo ser humano.  Deixo o convite a reflexão sobre como se aprofundar em disciplinas que à primeira vista não tem nada a ver com psicologia pode transformar e alavancar a formação de psicólogo. Tentar construir pontes entre saberes que não dialogam entre si pode ser proveitoso para o desenvolvimento da psicologia em si. Assim como não devemos mostrar pré-julgamento diante de nossos pacientes ou clientes, não devemos mostrar pré-julgamento entre as teorias. Pensemos antes que se tais teorias sobreviveram até hoje, certamente elas tem algo a nos acrescentar. Procuremos desfazer esses nós criados pela rivalidade de escolas teóricas ao longo do tempo. Vejamos cada uma delas como partes singulares de um corpo chamado ciência psicológica. Aproveitemos das maravilhas que um saber especializado e focal podem dar ao nosso conhecimento, todavia, sem nos esquecermos que existem muitos meios de se chegar à resposta para nossas questões. E lembremos que é o psicótico, em seu sofrimento, que percebe seu corpo como cindido e não partes de um todo.

Referências

DUNKER C. O que torna uma pessoa psicanalista. YouTube. 29 Mar. 2017. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=vMIq5GJH4ls>

HORKHEIMER M; ADORNO T.(1969) Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

MARX K.(1867) O Capital. São Paulo: Centauro Editora, 2005.

RODRIGUES S; CANIATO A. Subjetividade e indústria cultural: uma leitura psicanalítica da cumplicidade dos indivíduos com a lógica da mercadoria. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 18, n.2, p.227-248, Ago.2012. Disponível em:< http://pepsic.bvsalud.org > Acesso em: 21 Mar. 2017

Por Bruno Davison de Brito

Psicólogo formado pela UnG

Faz pós-graduação na PUC-SP: Especialização em Semiótica Psicanalítica — Clínica da Cultura

A Interpretação dos Sonhos

De Freud até o século XXI

Vamos fazer agora uma viagem, uma viagem ao início da Psicanálise, mais ou menos como a conhecemos hoje.

A interpretação dos sonhos constituiu a primeira via das investigações da Psicanálise, empreendida por Sigmund Freud. Com a falha de seu projeto para uma psicologia científica, Freud se debruçou sobre os conteúdos obscuros da produção de sonhos.

A obra magna de Freud, que leva o nome do nosso texto de hoje, foi publicada em 1899, porém com a data de 1900. Sabem por quê? Por que Freud queria que fosse o livro do século. E foi.

É importante apontar que, me refiro aqui ao sonho enquanto formação onírica, presente durante nosso sono, e não de sonho, enquanto meta, algo desejado e muitas vezes inalcançável.

Os sonhos

 

Sonhos
(Imagem retirada da Internet)

Na Antiguidade, o sonho era fonte de especulações por parte dos estudiosos. Era tido como ferramenta para previsão do futuro, podendo indicar boa fortuna para aqueles que fossem retratados no sonho do sonhador, ou ainda um mau agouro, a depender da forma como os acontecimentos tomavam vez.

Com a Psicanálise, passamos a ter um entendimento distinto sobre a formação e função dos sonhos.

Freud fala sobre as fontes dos sonhos, sendo elas quatro: “(1) excitação sensoriais externas (objetivas); (2) excitações sensoriais internas (subjetivas); (3) estímulos somáticos internos (orgânicos); e (4) fontes de estimulação puramente psíquicas.” (Freud, 1900/1996, p. 59).

As “excitações sensoriais externas” são estímulos do ambiente, que acontecem enquanto estamos dormindo, como barulhos próximos, ou o contato de algum objeto em nossa pele. Já as internas, dizem respeito às percepções sensorias que nos são familiares, e que tem sua origem em nossos órgãos dos sentidos.

As excitações orgânicas são estímulos que ocorrem internamente, em nosso organismo. Como diz Freud (1900/1996): “Um escritor tão remoto quanto Aristóteles já considerava perfeitamente possível que os primórdios de uma doença se pudessem fazer sentir nos sonhos, antes que se pudesse observar qualquer aspecto dela na vida de vigília…” (p.70). A quarta fonte dos sonhos seria a de estímulos puramente psíquicos, isto é, percepções, afetos que tivemos em nossa vida, quando acordados. Aqui está o desejo (Lacan, 1964/1988).

Naturalmente, os sonhos não são desmembrados de tal maneira à demonstrar tal ou qual fonte, mas são, em sua grande maioria, uma combinação desses fatores.

Manifesto x Latente

A barreira do recalque é enfraquecida durante a vida de sonho, permitindo que conteúdos latentes, isto é, que dizem respeito ao inconsciente, possam emergir para a consciência. Pensamentos, desejos e sentimentos que durante o estado de vigília não são suportados pelo consciente.

No passado, acreditava-se que os sonhos eram inseridos na cabeça do sonhador por deuses, talvez como forma de aviso. Não seria essa, uma forma de nos desresponsabilizar pelo conteúdo sonhado? É nosso aquele desejo que aparece em cena, quando em um sonho erótico imoral, por exemplo (Freud, 1900/1996).

Podemos distinguir o conteúdo dos sonhos (e do discurso do sujeito, como um todo), entre manifesto e latente. O que é isso? O manifesto é a parte consciente daquilo que contamos de nosso sonho. É, normalmente, uma deformação daquilo que sonhamos de fato. Mas o que o sonho quis dizer, na verdade, é outra coisa.

Aí está o que chamamos de latente. Tudo aquilo que está por baixo da superfície. A clássica analogia freudiana do iceberg encaixa muito bem aqui. Aquilo à que o sonho se remeteu, na verdade. Se fala sempre de um desejo, algo que aparece aqui e ali no discurso, que emerge a todo o momento (Lacan, 1953-1954/1996).

Iceberg
(Imagem retirada da Internet)

Deslocamento e condensação

Dois mecanismos são diretamente ativados durante o processo do sonhar, são eles: Deslocamento e a Condensação.

O deslocamento diz respeito à uma mudança, de um lugar para outro, e a condensação, é a somatória de dois ou mais elementos.

Lacan, ao lançar mão da Linguística como interface de suas explanações psicanalíticas, fala do deslocamento enquanto metáfora, e a condensação, metonímia.

O que é metáfora? Segundo o Dicionário Michaelis Online (2017), metáfora é uma “figura de linguagem em que uma palavra que denota um tipo de objeto ou ação é usada em lugar de outra, de modo a sugerir uma semelhança ou analogia entre elas; translação (por metáfora se diz que uma pessoa bela e delicada é uma flor, que uma cor capaz de gerar impressões fortes é quente, ou que algo capaz de abrir caminhos é a chave do problema)”.

Aparece frequentemente no discurso de analisandos, por exemplo, quando estes falam de uma pessoa, mas na realidade estão se referindo à outra.

E a metonímia?

É essencialmente, uma “Figura de linguagem que tem por fundamento a proximidade de ideias, havendo o uso de um vocábulo fora de seu contexto semântico. Trata-se do uso de uma palavra por outra, explorando-se a relação existente entre elas.” (Dicionário Michaelis Online, 2017).

A metonímia aparece, justamente como a condensação, quando dois elementos se fundem.

Ambos os elementos são constitutivos das nossas narrativas oníricas, são mecanismos, por onde o desejo consegue emergir de uma forma “disfarçada”.

Na visão lacaniana inicial, faz-se a diagnóstica estrutural com base na ausência ou presença da metáfora paterna. O que isso quer dizer? Que divisamos a neurose da psicose, baseados na interiorização ou não da lei simbólica, da presença do corte (paterno) (Riolfi, 2014).

Os sonhos na clínica

Divã
(Imagem retirada da Internet)

Os sonhos, como já disse, são (ou podem ser) elementos do trabalho analítico. Estão entre os quatro pontos que nos atentamos, em nossa escuta enquanto analistas. São eles: o sonho, ato-falho, chiste e o sintoma.

Como diz Lacan (1953-1954/1996): “A revelação é o móvel último daquilo que procuramos na experiência analítica” (p. 69). A interpretação dos sonhos de nossos analisantes, permite-nos acessar conteúdos, que a primeira vista não se relacionam com a queixa consciente (manifesta), mas que contém elementos inconscientes (latente), importantíssimos ao trabalho analítico.

O sonho é um momento em que a barreira exercida pelo recalque (defesa maior, em sujeitos de estrutura neurótica), parece diminuir, fraquejar, e alguns conteúdos que são inacessíveis em estado de vigília, conseguem emergir.

“É na dúvida mesma que o sujeito manifesta sobre certas partes do sonho, que ele, Freud, que o escuta, que o espera, que está lá para revelar o seu sentido, reconhece justamente o que é importante.” (Lacan, 1953-1954/1996, p.64). Nesta passagem, percebemos a posição de escuta e de intervenção do analista. Nos momentos onde o paciente para, onde não fala, por vergonha talvez, ali está algo de uma palavra verídica (Lacan, 1953-1954/1996).

Todavia, a noção de fantasia nos é muito valiosa neste momento. A fantasia enquanto pertencente ao Imaginário, que rege nossas percepções e vigília, atuando como formulação possível ao terror do encontro com o Real, isto é, do nosso desejo mesmo, é, por vezes, menos penosa do que os sonhos. Acordamos, porque não podemos encarar algum conteúdo que emerge. Acordamos, para continuar sonhando (Zizek, 2010).

Até a próxima.

Por Igor Banin

Referências Bibliográficas

Freud, S. (1900/1996). A Interpretação dos Sonhos. In A Interpretação dos Sonhos (I). (pp. 11-652 Obras completas de Sigmund Freud, v.4). Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1953-1954/1996) O eu e o outro. In Os escritos técnicos de Freud (pp. 56-73, Os Seminários, Livro I). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

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