Nomeando

O que faz um nome por alguém e o que poderia fazer alguém por seu nome?

Há algo na história que é inegável: ela sempre será contada pelos vencedores. E podemos ir mais adiante: não será raro observá-la citando apenas o nome dos vencedores. E avante: a história é feita de nomes. Mas será que o contrário também poderia ser verdadeiro?

Em um trabalho chamado “A onomástica, o indivíduo e o grupo”, Maria Leonor Santos (2003) nos conta que até por volta do século XII, não era incomum que habitantes medievais de Portugal carregassem apenas um nome consigo. A historiadora ainda complementa, apontando que apenas cinco nomes distintos poderiam compor metade da população portuguesa daquela época. A partir disso, já podemos imaginar quantas cabeças virariam para alguém que gritasse “João” em uma taberna por lá.

E o segundo nome (coincidente ou não com teoria lacaniana) era o nome do pai. Portanto, João Domingues seria filho de Domingos – e por isso seria reconhecido desde seu nascimento. E não demorou muito para que um terceiro nome viesse a aparecer para que se pudesse distinguir as pessoas umas das outras. Desta vez, o nome deveria falar ou sobre a origem do indivíduo, ou sobre o indivíduo em si. Pois então, se João era filho de Domingos e viesse de um local chamado Abrantes, chamar-se-ia João Domingues de Abrantes. E se Pedro fosse filho de João, que era ferreiro: Pedro Eanes Ferreira.  E até se Rodrigo fosse filho de Pedro e nascesse careca, ganharia uma alcunha (em função desta característica) que o representaria para a vida inteira: Rodrigo Pedroso Calvo.

É possível dizer que todo nome carrega consigo uma história. E os livros já nos disseram: homens que tiveram grandes feitos fizeram a história carregar seu nome. Mas por mais interessante que seja falar sobre história, a ótica de um psicanalista mais frequentemente estará direcionada ao sujeito e suas vicissitudes. Partimo-nos para ela.

Dentro de sua aguçada visão sobre a teoria do psicanalista Jacques Lacan, Bruce Fink explica em seu livro “O Sujeito Lacaniano” que existe um lugar preparado para uma criança antes de seu nascimento. Existe, inclusive, no universo linguístico de seus pais, a luta para a escolha de um nome que seja perfeito para aquela criança. Mas como poderíamos decidir o que é perfeito para quem que sequer é sujeito? Não poderíamos. E é exatamente por isso que o nome escolhido sempre dirá mais sobre os que o escolheram do que sobre seu portador. Também acontece – e não é raro que nos deparemos com estas situações – de a criança carregar um nome já existente em um avô, um tio, uma avó ou até dos próprios pais.

Observando uma situação deste tipo, poderíamos lembrar até do Pai da Psicanálise, Sigmund Freud, quando este nos contou um pouco sobre os processos de identificação que ocorrem na infância: quando uma criança começa a enxergar um mundo além da relação com sua mãe (um período em torno de seus três, quatro, cinco anos de idade), ela procurará modelos de identificação dentro de suas relações. Ou seja: procurará alguém para se espelhar, para ter como modelo do que quer ser. E vamos imaginar um cenário onde esta criança já carregue o nome daquele em que se espelha: ela poderá ser quase um perfeito reflexo daquela pessoa, certo? Talvez. Mas há aí um grande perigo: o perigo da alienação do indivíduo à história ou à pessoa presente em seu nome. E a alienação que digo, é aquela vem do latim ALIENUS, “de outro, estranho; que vem de fora”.

Mas se foi dito que este era o objetivo (inconsciente) da criança, por que seria um perigo? Porque este processo deve ocorrer com o propósito da formação de um novo indivíduo, não na reformação de um antigo. Ou seja: nosso nome deverá representar a nós mesmos e a ninguém mais. Mas como isso poderia acontecer se já antes de nosso nascimento ele representa um Outro? Que história carrega um nome até finalmente carregar a história de seu portador? E mais: como tornar o Nome Próprio, definidamente, sua propriedade? Ou melhor: um nome que o represente de fato.

Lacan vai dizer – enquanto faz uma releitura do processo de identificação proposto por Freud – que isso ocorre ainda na relação com os processos de identificação, mas também como ponte para o processo de individuação do sujeito.  Sabendo que contém no nome do sujeito traços do desejo dos pais – até sobre quem este será em seu futuro – e até traços da personalidade e do comportamento de suas referências, este só se tornará sujeito de fato assim que obtiver em si seus próprios traços. Ao que o psicanalista vai chamar de traço unário, caberá a função do incompleto apagamento dos traços anteriormente citados. Claro que não para que estes sumam, mas para que suas lacunas deem espaço para que o sujeito desenvolva seus próprios traços. Um exemplo bem didático sobre o processo é dado pelo psicanalista: o caso do famoso Marquês de Sade que, de um dia em diante, resolveu marcar na estrutura de sua cama um traço para cada orgasmo que viesse a ter. E após isso, este passaria a ser chamado por seu nome e se diferenciaria do anterior pelo que sentisse Sade, claro, mas mais ainda: pelas diferenças entre os traços realizados, já que dois traços não podem ser iguais mesmo que realizados pela mesma mão. Pois é o traço que diferenciará o sujeito do Outro, para assim se tornar, de fato, sujeito. E uma vez que alguém se torna sujeito de si, poderá, finalmente, ter liberdade de construir a história de seu – agora próprio – nome.

Portanto, antes de alguém marcar seu nome na história, deverá marcar (traçar) a si mesmo nele. Pois quem ganha a vida em função dos nomes alheios ainda não é sujeito, é tabelião.

 

Por Caio Cesar Rodrigues

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