Explicando Lacan: a quadratura inesgotável dos arrolamentos do eu

Lacan e a Frase

Jaques Lacan, renomado psicanalista francês que propôs o retorno a S. Freud e utilizou dos matemas e das expressões idiomáticas e/ou idiossincrásicas em suas explanações sobre psicanálise, em um trecho que aparece no seu texto O Estádio de Espelho Como Formador da Função do Eu Tal Como Nos é Revelada Na Experiência Psicanalítica, diz que:

“O rompimento do círculo do Innenwelt para o Umwelt gera a quadratura inesgotável dos arrolamentos do eu”

Mas o que Lacan quer dizer com isso? Tentarei (na medida do possível que é explicar Lacan), no texto de hoje, elucidar esta frase, fazendo algumas referências a outros conceitos pertinentes da leitura lacaniana sobre a psicanálise (que serão abordados de forma mais adequada em outros textos).

Então Vamos Por Partes

O Innenwelt é um termo alemão que faz referência ao mundo interno e Umwelt faz referência ao ambiente ou mundo externo.


Este Innenwelt às vezes se manifesta por meios de sonhos, por meio de imagens de fortalezas e/ou outros espaços protegidos e fechados. Relaciona-se com os conceitos da Imago, que fornece seus limites imaginários, e do corpo fragmentado, que constitui uma ameaça perpétua para o espaço interior vulnerável do corpo que o “eu” ocupa. A conexão entre Innenwelt e Umwelt é, para Lacan, sempre dialética. No Estágio do Espelho, o “Eu” só vem a ser por meio de uma associação com uma imagem que está fora e diferente do indivíduo.

O Umwelt relaciona-se com o Grande Outro (ou Outro) ao passo que refere-se à sociedade, à cultura e as normas que devem ser interiorizadas e fazem parte da constituição do sujeito.

Imago é um estado imaginário ou tipo de modelo/protótipo inconsciente de uma pessoa sobre si mesma. Este é um conceito que Lacan pega emprestado das teorias de C. G. Jung.

(A Quadratura do Círculo – Imagem Retirada da Internet)

A Quadratura do Círculo

A referência à quadratura do círculo diz respeito à um problema sem solução que teve origem na antiguidade clássica. A ideia era construir um quadrado cuja área fosse igual à área de um círculo inserido nele e isso nunca foi resolvido pela geometria. Lacan utiliza esta alegoria para falar da impossibilidade de correspondência entre a imagem que se tem do corpo e a realidade. É um círculo inserido dentro de um quadrado, que tenta preencher toda a forma, mas e por mais que tente, nunca conseguirá atingir à área desejada ou, no caso, o seu “Eu ideal”.

Também diz respeito à formação do sujeito e está relacionada com o Estádio de Espelho.

O Estádio de Espelho

É um conceito que veio para preencher a lacuna deixada por S. Freud sobre a passagem do Auto-Erotismo para o Narcisismo. Freud destacou estes dois momentos de desenvolvimento libidinal da pessoa, mas não deixou claro como ocorria essa transição de uma fase para a outra.

Então Lacan propôs o Estadio de Espelho, como sendo o momento em que a criança começa a reconhecer a diferença entre o “eu” e o outro, sendo que, frente ao Grande Outro e mobilizado pelo drama e impulsos internos, parte da insuficiência para a antecipação (suas próprias limitações de um corpo fragmentado em formação), imitando e tentando corresponder ao Outro, porém e obviamente, sem sucesso, pois o Outro sempre estará além do sujeito. Esta imitação não será completa, será fragmentada e forçada.

Por fim, vale dizer que o desejo é sempre o desejo do Outro, para Lacan. Nós desejamos o desejo do Outro, pois o outro e seu desejo são estruturais para a nossa formação enquanto sujeitos desejantes. Somos moldados à forma do Outro e buscamos corresponder a ele, tememos ele e queremos ser ele.

Referência:

Lacan, J., Escritos (1966). RJ: Jorge Zahar Editor, 1998, p 96-103. Trad. de Vera Ribeiro.

Por Caio Ferreira