Reflexões sobre o Aqueronte: Como alcançar o inconsciente em uma análise.

Flectere si nequeo superos, acheronta movebo! É com este verso, retirado do clássico da literatura escrito por Virgílio, A Eneida, que Sigmund Freud decide abrir a obra que dá início a história da psicanálise, A interpretação dos sonhos. Lançada sua primeira edição com a data de 1900, Freud demonstrou a intenção de fazer com que seu livro abrisse um novo horizonte para o vigésimo século que se iniciava e assim o foi.  A frase escolhida pelo primeiro psicanalista se encontra no verso 312 do livro VII do clássico latino e é normalmente traduzida como: “Se não posso dobrar os céus, moverei o inferno.” Interpreta-se deste modo que Freud estava se referindo a “mover” a parte mais profunda de nosso psiquismo, isto é, o inconsciente, uma vez que seria impossível atingir as neuroses por via da consciência. No entanto convido ao leitor a refletir um pouco mais sobre isso.

     A começar pela tradução, podemos pensar que Freud não se referiu propriamente ao inconsciente quando usou esta frase como epígrafe de seu livro. Virgílio não usou a palavra inferno, mas sim o Aqueronte, o rio que leva as almas ao submundo de Plutão. Ora, desta forma podemos interpretar que Freud estava se referindo àquilo que é o caminho para o inconsciente, ou seja o próprio sonho, assim como os chistes, os lapsos e os atos falhos. Outro grande problema  que a palavra inferno pode provocar é a associação de que o nosso inconsciente é feito somente de tudo aquilo que é recalcado por ser interpretado pela consciência como ruim, feio, tenebroso ou socialmente não aceito. Esse tipo de interpretação é aquela que alguns acabam fazendo quando associam erroneamente o id freudiano ao conceito da psicologia analítica chamado sombra, ou acabam tratando a primeira e segunda tópica da teoria psicanalítica por iguais.  Isto acontece porque acaba prevalecendo a ideia cristã de inferno. Esta ideia do inferno como um lugar de punição eterna para os pecados e cheio de labaredas de fogo foi fixada ainda mais no imaginário do ocidente graças a Divina Comédia de Dante Alighieri.

     Segundo Petrella (2009), O inferno greco-romano, não seria um lugar de castigo por atos que possam ter ofendido os deuses, uma vez que essas punições eram dadas aos humanos ainda em vida. O Hades então, seria um lugar monótono sem dor, mas também sem nenhuma expectativa de alegrias futuras. A autora ainda aponta que a frase que inicia este artigo é expressa pela deusa Juno quando esta decide evocar Alecto ao ter um pedido de ajuda negado por Júpiter. O nome da fúria pode significar “aquela que não descansa” (assim como as mensagens do inconsciente).  Podemos conjecturar que em sua genialidade Freud nos dá indícios da técnica psicanalítica de acesso ao inconsciente ao escolher tal verso como epígrafe de sua mais importante obra.  Em contato com paciente, não devemos focar propriamente nos seus sintomas e mazelas para chegar ao seu inconsciente. Devemos pois, “mover o seu Aqueronte” em um novo curso usando associações livres e interpretações para ressignificar a sua história.

O rio que leva ao inconsciente pode ser usado como metáfora para os traços mnemônicos que vão se formando no desenvolvimento psíquico do sujeito e criam um caminho onde sua libido possa circular.

acheronte
A travessia de Caronte, por Alexander Litovchenco. (imagem coletada da internet)

O Édipo é estruturante e estrutural

Tentarei aqui de modo muito sintético demonstrar como se forma os afluentes de nosso Aqueronte psíquico que vão servir de base para as três estruturas clínicas de personalidade que Lacan aborda no seu quinto seminário (1999[1957-1958]).

Lacan recebe a influência de Saussure, Jakobson e Lévi-Strauss para apoiar a tese de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Essa linguagem trata-se de uma articulação dos significantes com os eixos sintagmáticos e para-sintagmáticos da metáfora e metonímia. A linguagem é aquela que pode conduzir uma histérica a uma conversão, por exemplo (ALTOÉ S; MARTINHO M, 2012).

A linguagem é também responsável por encher de libido o corpo do bebê através de sua relação, primeiramente com a mãe, e depois com outros sujeitos.  É nesse momento que começam se formar os traços mnêmicos que vão estruturar três posicionamentos possíveis diante do mundo: A psicose, a perversão ou a neurose. Estes posicionamentos se formam em etapas pelas quais todos os sujeitos passam. A resolução destas etapas é aquilo que fará com que o sujeito se fixe em uma ou outra estrutura de personalidade.  A essas etapas Lacan dividiu como sendo os três tempos do édipo.

O édipo é pré-histórico, pois os pais já conceberam ideias sobre o bebê antes mesmo dele ter nascido. É a partir do édipo dos pais que o édipo do sujeito se formará. No primeiro tempo do édipo existem três personagens: a mãe, a criança e o falo. É importante fixar que o falo não é a parte anatômica sexual masculina, mas é sim, o significante inconsciente que vai preencher a dor da falta. Neste tempo, a criança entra em uma relação de simbiose com a mãe e experimenta ser o seu falo. Sem diferenciação do eu e do outro existe uma negação da castração e podemos dizer que o primeiro tempo é o tempo da psicose, que dará base as psicopatologias da paranoia e da esquizofrenia.

No Segundo tempo o pai é introduzido junto aos outros três personagens do tempo anterior. Ele vem para quebrar a simbiose entre mãe e bebê. Isto para o bebê é um momento de horror. A criança deixa de ser o falo, o ego ideal, e passa a ver o pai com falo, seu ideal de ego. O do Nome do Pai, ou seja, A Lei, é introduzida na relação. A criança passa então a perceber de que existem regras que devem ser cumpridas e que ela não é mais o centro do mundo e isso é algo muito difícil de ser introjetado. A criança tenta fingir que a Lei não existe, mesmo sabendo que ela está ali em sua frente. Existe então a ideia de desmentir a castração, podemos assim chamar o segundo tempo de o tempo da perversão. A função paterna é determinante neste tempo, pois se a criança percebê-la como extremamente autoritária poderá ser mais facilmente desmentida. O pai déspota é o pai da horda primeva que exerce direito sobre todas as fêmeas. Ele “É” a Lei ao contrário da função paterna democrática na qual o pai “TEM” a Lei e se comporta como representante dela.

No terceiro tempo os personagens são os mesmos, contudo passa-se ter a ideia de “ser o falo” para “ter o falo”. Isto não é algo que se é, mas algo que se tem. Se é algo que se pode ter, também é algo que se pode perder. Isto se dá através do pai, que insere a criança no mundo simbólico. Ele mostra para ela que ele também é castrado. A criança percebe que seu pai não é a personificação da lei, mas um representante dela que vai mostrar a criança que ela também pode sobreviver a falta. Assim, o sujeito pode aceitar a castração de duas maneiras: A primeira pode ser a de forma nostálgica. O sujeito sabe que não é o falo, mas seu inconsciente recorda nostalgicamente que um dia ele foi. Fazendo assim com que ele tenha uma estrutura neurótico-obsessiva. A outra maneira é quando o sujeito sabe que não é o falo, mas se sente injustiçado e lutará a vida toda para sê-lo. Esta é a estrutura histérica. Podemos então nominar o terceiro tempo como o tempo da neurose. É sob a influência destas estruturas que o sujeito forma seu jeito de lidar com a falta primordial que existe no âmago de cada psiquismo e é através das experiências no jogo fálico que a pessoa forma os caminhos pelos quais sua libido vai circular.

 

O analista no papel de Caronte, o barqueiro.

Cada estrutura tem seu mapa de traços mnêmicos que darão um modo de discurso em relação ao outro. É através desse caminho que o analista fará o manejo clinico de cada estrutura. Se na nossa metáfora o Aqueronte pode ser visto como o caminho que leva ao inconsciente, podemos também dizer que o analista pode ser visto como Caronte, o barqueiro mitológico que leva os mortos através do rio. Assim como Caronte recebe seus dois dobrões como pagamento, o analista recebe seus honorários para levar o sujeito pelo caminho do autoconhecimento. Seu barco, é a transferência.  Conhecida como “o motor da análise” a transferência se torna o veículo principal pelo qual podemos fazer interpretações e diagnósticos em psicanálise. Contudo, devemos tomar muito cuidado em fazer interpretações sistemáticas da transferência, pois isto contribuiria para reforçar um vínculo entre analista e analisando baseado na fase do espelho. Junto às interpretações transferenciais devemos também adicionar castrações simbólicas para fazer com que o analisando passe do nível do imaginário da fase do espelho para o nível simbólico. Como nos elucida Zimerman:

Para Lacan, a psicanálise consiste em um processo dialético, pelo qual o paciente traz a sua tese, o analista propõe uma antítese, daí surge uma síntese (insight) que leva a novas teses, sendo que a transferência somente surgindo quando, por alguma razão, esse processo dialético é inoperante. (ZIMERMAN D, 2010 p. 335)

Deste modo podemos perceber que a transferência não é um barco que vai à deriva, mas necessita de que o barqueiro esteja sempre atento ao manusear o leme para que o caminho através da via pluvial do inconsciente seja bem percorrido. Por meio desta reflexão pode-se notar a importância de diagnosticar em qual estrutura clínica o sujeito se encontra. Desta forma é possível saber a maneira como o processo analítico se dará. Estudar as três estruturas de personalidade torna-se basilar para compreensão da psicopatologia psicanalítica. Colocando didaticamente o sujeito em uma destas estruturas podemos entender como este é capaz de lidar com as frustrações cotidianas. Se no discurso de um paciente consigo notar que em seus relacionamentos interpessoais ele demonstra uma constante insatisfação e que está sempre numa repetição de sedução sem chegar ao ápice, usando seus sintomas como um monumento, posso então inferir de que sua estrutura é uma estrutura histérica, uma vez que percebi que no terceiro tempo do édipo esse sujeito se comportou como um “militante do falo.”  Do mesmo modo, se noto no discurso do paciente uma completa negação da realidade e que não há uma distinção entre seu Eu e o Outro, posso pensar em uma estrutura psicótica e assim por diante. É importante frisar de que na clínica contemporânea não é comum encontrar estruturas de personalidade “puras”. Acabamos sempre notando pequenos traços das outras estruturas, mas que nunca vão preencher todo o psiquismo, fazendo assim com que sempre haja uma estrutura principal.  Como terapeutas em contato com o paciente vamos dobrando e esmiuçando seus sonhos, lapsos e atos falhos. Vamos movendo seu Aqueronte, e podemos assim, chegar ao seu inconsciente.

Veja Também: A Psicanálise hoje

 

REFERÊNCIAS

ALTOÉ S; MARTINHO M. A Noção de estrutura em Psicanálise. Estilos da Clínica. São Paulo, v. 17 n.1 p.14-25, 2012.  Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/estic/v17n1/v17n1a02.pdf

LACAN J. O seminário 5; As formações do inconsciente. (1957-1958) Rio de Janeiro, J. Zahar ,1999.

PETRELLA S. Acheronta Movebo: El Infierno y el inconsciente; Virgilio y Freud. Exenzplaria 7, P. 95-109, Universidad de Huelva,2009. Disponível em: http://rabida.uhu.es/dspace/bitstream/handle/10272/1837/b15205101.pdf

ZIMERMAN D. E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica- uma abordagem didática.  Porto Alegre: Artmed, 1999.

Por Bruno de Brito

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