O cuidar de quem cuida: traços da realidade dos protagonistas do Autismo

A manutenção do cuidado de quem cuida. Uma dedicação e um pedido de atenção aos pais. 

Neste mês de Abril, em referência ao Autismo, nada mais justo do que a dedicação em falar sobre aqueles que tanto se dedicam e assumem a linha de frente desta realidade. Em outras palavras, se trata de um momento especial para retratar a relação de cuidado daqueles que cuidam, os pais

Em explicações gerais, o transtorno do espectro autista, conhecido como TEA, caracteriza-se pelo comprometimento das habilidades sociais, comunicativas e comportamentais, impactando no desenvolvimento infantil, interferindo na prática das atividades diárias e nas relações sociais. Por ora, segundo MAIA et al. (2016), o TEA ainda é pouco conhecido e o seu tratamento é um processo lento.  

Mas tratando-se dos bastidores ao redor das crianças autistas, os familiares se configuram como protagonistas no desenrolar das histórias de seus filhos, desde a gestação até mesmo da descoberta do diagnóstico adiante. E considerando que estes mesmos pais também possuem suas próprias histórias construídas antes mesmo da geração de seus filhos, é propício se aproximar do impacto, das consequências e mudanças geradas entre o desenrolar de uma situação à outra. 

É possível considerar que antes dos pais vivenciarem a dinâmica familiar e de cuidado aos filhos, eles se caracterizavam como indivíduos que seguiam com suas próprias vidas, cultivando os próprios interesses, valores e necessidades pertinentes aos seus contextos sociais, profissionais, afetivos e de qualquer outro aspecto que se enquadra/ enquadravam em suas rotinas. 

Porém, a chegada de um filho, especificamente de uma criança autista, acarreta na necessidade, quase com teor de imposição e/ou aparente única saída, em abrir mão de pedaços pertinentes a sua própria história. A exemplo, SILVA et at. (2018), menciona sobre as renúncias do próprio trabalho e do convívio social que as mães assumem. A condição de renúncia dos pais de modo geral e das mães especificamente, considerando o contexto familiar do Brasil, manifesta grandes mudanças em suas rotinas, em suas prioridades, em suas relações e principalmente no gesto do cuidar de si e dos demais aspectos lhes importam, além do filho. 

Neste processo entre o parto, a descoberta do diagnóstico e as vivências cotidianas com a criança autista, propiciam aos pais o constante confronto com o desconhecido, e a frequente necessidade em adaptar-se e mudar-se conforme as limitações do contexto em geral, desde as características de seus filhos até mesmo das questões financeiras, estruturais, relacionais e do repertório de informações. 

O confronto com o desconhecido, com as limitações e a frequente necessidade perante o adaptar-se, tende a gerar nos pais possíveis manifestações de frustração, raiva, tristeza e até mesmo de medo, ao questionar-se sobre as perspectivas futuras tanto deles quanto de seus filhos. Como também os pais estão sujeitos a vivenciar a condição de sobrecarga, desgaste emocional, cansaço mental e físico, desesperança e por fim, até mesmo a solidão e o desamparo, advindos de possível isolamento social. 

Ao considerar brevemente o cenário citado acima, é necessário ressaltar a importância e a necessidade do cuidado em relação aos próprios pais. A relação de cuidado é algo subjetivo, que implica aspectos individuais de cada um. Mas de modo geral, alguns pontos em comuns podem ser compartilhados entre os pais que são protagonistas de histórias permeadas pelo enredo do autismo.

Modos de cuidado aos pais

  • manter-se em uma rede de apoio, como: terapia em grupo ou grupos de apoio, em geral.  

O acolhimento se faz necessário, a fim de minimizar manifestações de angústia e o sentimento de desamparo, por exemplo. 

  • vincular-se ao processo de psicoterapia.  

O autoconhecer, desenvolver a inteligência emocional, e fortalecer a autoestima, a autoconfiança e o gesto de autocuidado geram grandes diferenciais. Tais aspectos fortalecem a condição de segurança e confiança perante as escolhas diárias e os relacionamentos.

É importante potencializar a esperança e a melhor aderência aos tratamentos sugeridos pelas equipes de saúde e dos estudos de profissionais da área.

  • aproximar-se de conteúdos de pessoas que compartilham da mesma experiência. A exemplo de vídeos, textos, posts nas redes sociais e até artigos científicos.  

Identificar a própria história através da história do outro é um importante recurso acolhedor, de alívio e fortalecimento emocional.

  • manter o convívio familiar e social.  

Aproximar as pessoas à sua realidade tende a ser uma construção, que gera reorganização e adaptação. Porém contar com as pessoas ao seu redor, tende a minimizar os impactos advindos do isolamento social, tal como o sentimento de rejeição.

  • organização em relação aos compromissos diários e o tempo.  

Seja quem for, a organização das atividades diárias tende a ser um recurso para minimizar estados ansiosos 

  • praticar exercícios físicos, manter o cuidado com a alimentação e a prática de hobbies, são importantes recursos para manutenção do bem-estar e a saúde.  

  • em relação ao cuidado com o filho, é importante manter práticas que o ajude a fortalecer a independência e o cultivo do contexto social, apesar das dificuldades.  

É importante sinalizar que manter o filho envolvido em suas terapias e em atividades grupais, são oportunidades para desenvolver a independência e as habilidades sociais.

Reflexões finais

O autismo não tende a ser uma realidade apenas das crianças e dos pais que convivem com ela, mas de todos. A condição de sobrecarga mental e emocional, de descuido de e de isolamento social, neste caso, possivelmente também reflete a desinformação, o possível “pre conceito” e a dificuldade em recepcionar aquilo que se difere do aparente e do enganoso “normal”

Em termos gerais, é notário o quão se faz necessário o amparo social e profissional aqueles que cuidam. O cuidado que os pais geram a si mesmo ou até falta deles, é também um compromisso da sociedade. E este compromisso implica a construção e o compartilhamento de informações pertinentes ao repertório do mundo do Autismo. Informações essas que não cabem somente às características do diagnóstico, mas também sobre a realidade das crianças e de todos os seus bastidores, incluindo as mudanças e as necessidades vivenciadas por seus pais. E neste trabalho, em paralelo as informações, o gesto de respeito, compreensão, empatia e receptividade à esta realidade, também se faz extremamente necessário.

Normal é tratar bem, é cuidar! Normal é estar junto e respeitar! 

O Autismo pode ensinar e agregar. Ele é uma realidade minha e sua. Ele é azulzinho, como o céu e o mar, pra todos poderem olhar e se entregar. Você e eu, podemos cuidar. 

E só pra lembrar, a dedicação aqui é para os pais, os grandes protagonistas da parte azulzinha deste mundo tão colorido.   

Por Tayna Wasoncellos Damaceno.

Referências

MAIA, Fernanda Alves et al. Importância do acolhimento de pais que tiveram diagnóstico do transtorno do espectro do autismo de um filho. Cad. saúde colet., Rio de Janeiro, v.24, n.2, p.228-234, Junho de 2016.

Disponível Aqui. Acesso em 14/04/2021. 

SILVA SED, Santos AL, Sousa YM, Cunha NMF, Costa JL, Araújo JS. A família, o cuidar e o desenvolvimento da criança autista. J Health Biol Sci., 6(3): 334-341, Julho-Setembro de 2018.

Disponível Aqui. Acesso em 14/04/2021. 

Sociedade dos Psicólogos – O que é Autismo? Sintomas e Tratamento.

 

Coraline e a parentalidade atual: Como ser pai hoje em dia?

Como ser pai hoje em dia?

Recentemente assisti um filme que é humilde em sua proposta, mas que, visto de perto explicita uma forma de relação muito própria ao nosso tempo. Ser pai e mãe, e como os filhos tomam essas figuras para si. Coraline, criado com base no livro homônimo de Neil Gaiman.

Fazendo face à esse filme, discutiremos alguns aspectos da parentalidade atual, de como é ser pai no século XXI.

Coraline e o mundo secreto

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(Imagem retirada da Internet)

Coraline é um filme de 2009, que conta a história de uma garota de 11 anos, filha única, com uma curiosidade característica da idade, que se muda para uma nova casa com seus pais.

Os pais de Coraline parecem ser a personificação de quem não investe em seus filhos, os chatos, por excelência. Ambos trabalham de casa, escrevendo para publicações sobre jardinagem (Algo que Coraline aponta de hipócrita em seus pais, é o fato de não gostarem de terra).

Sempre atolados de trabalho, não encontram (e parecem nem procurar) tempo para estar com Coraline. Sozinha, ela vaga pela casa procurando por diversão e aventura. Acaba encontrando uma pequena porta na sala de sua casa, que parece ser apenas decorativa agora, lembrança de uma passagem antiga da casa, talvez.

Logo, Coraline descobre que a passagem se abre durante a noite, revelando um “mundo à parte”, que representa de forma “quase” fidedigna o seu próprio. Lá, encontra seus Outros pais, figuras que parecem fisicamente com os pais verdadeiros, mas que agem de maneira completamente oposta, realizando todos os desejos de Coraline.

Encontra então a Bela Dama, disfarçada de a Outra mãe, a vilã de toda a história, que rapta, e se alimenta da alma (lemos desejo aqui) das crianças que moram, ou moraram, na casa. Todos os personagem neste outro mundo usam botões de costura no lugar dos olhos. Costurar os botões em seus olhos é o preço para permanecer para sempre nesse mundo de gozo eterno.

Para não estragar o desfecho, recomendo à todos que assistam o longa.

A criança em análise

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(Imagem retirada da Internet)

Em análise não tratamos da criança, e sim do sujeito (Flesler, 2012). Digo isso pois me parece estranho as divisões e especialidades que são colocadas

Entendemos que a criança já é falada mesmo antes de vir ao mundo. Como diz Alba Flesler:  “Um ser humano chega ao mundo, portanto, engedrado no entrecruzamento desses modos expectantes do adulto que, nos vazios de sua trama, lhe dará lugar como objeto do desejo, de amor e de gozo…” (2012, p.17).

A criança vem ao mundo enquanto objeto de completude do Outro, ele é algo que falta à mãe.

O pai entra em cena, com a função de nomear os objetos para a criança, instaurando um corte na relação simbiótica entre mãe e bebê (O que justamente a Bela Dama buscava no filme).

Tendo isso em vista, pensamos que “Uma criança chega ao consultório de uma analista pelas ressonâncias que gera num adulto” (Flesler, 2012, p.11). Por isso, temos sempre em vista qual a queixa, e de quem é de fato, um sintoma da criança, ou uma criança enquanto sintoma dos pais.

 

No filme, os botões nos olhos representam a falta de desejo na criança. A mãe a coloca no lugar de falo, de objeto de completude. A criança não pode, pois, desejar algo além dela. Fecha-se toda a possibilidade de uma emancipação da criança em relação ao desejo dos pais.

Quando não “há jogo”, o sujeito é eclipsado pelo desejo do Outro. Novamente recorrendo à senhorita Flesler:

“… o objeto a escreve uma dupla função: como falta, será causa do desejo; como mais-de-gozar, será objeto do gozo. Quando o objeto falta ou está ausente, opera dando causa do desejo; em troca, quando está presente, é um mais-de-gozar que, caso se mantenha fixo, obstrui, como um tampão, o sítio ou furo necessário para o engendramento ou promoção do movimento desejante” (Flesler, 2012, p.26)

Tratamos a criança, e a auxiliamos à sair o mais rapidamente da trama que está a prendendo em seu desenvolvimento. Nem sempre isso é possível, haja visto que os pais é que trazem a criança. Quando a criança começa a se movimentar, causa efeitos nos pais,  e isso muitas vezes não é suportável.

Se quiser saber mais sobre a clínica da infância à partir da perspectiva lacaniana, clique aqui.

Parentalidade hoje

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(Imagem retirada da Internet)

Para a psicanálise, o papel dos pais é, em sua essência, transmitir a falta, o limite, o que parece estar cada vez mais complexo.

Pais e filhos habitam tempos diferentes (Corso, D; Corso, M, 2006). Por isso, os filhos nunca saberão como foi ter crescido onde seus pais cresceram, e os pais, por sua vez, nunca entenderão o mundo em que seus filhos estão se desenvolvendo para tomar o seu lugar.

Alguns pais, como os de Coraline, não parecem ter tempo para afetos direcionados à seus filhos, o trabalho e a pós-graduação falam mais alto. Afogam a criança em si mesmas. Com isso vêm as aulas de canto, piano, inglês e por aí vai. Existe um excesso de estímulos, onde a criança é convidada à estar sempre ocupada, e formando seu currículo.

Como disse Manonni (1999): “O sintoma vem no lugar de uma fala que falta” (p. 48). Quando a palavra não circula, o sintoma reclama seu lugar na vida do sujeito.

Outro sintoma moderno é a dificuldade dos adultos de passarem da posição de filhos, para a posição de pais. Uma mudança significativa à nível psíquico, que diz do lugar em que se está em relação ao Outro.

“Uma criança condensa, para quem a deseja, uma expectativa que exige satisfação e que convida o sujeito a ocupar muito cedo o lugar do objeto preenchedor. Não apenas em relação aquilo que dele se deseja, mas também à satisfação que outorga no plano do gozo e do amor dos pais” (Flesler, 2012, p.16-17).

Damos o que não tivemos aos nossos filhos, logo, espera-se que sejam mais do que fomos. Parece ser impossível para nós aceitar que nossos filhos podem falhar no que desejarem fazer.

Com a mudança nas relações sociais, os jovens estão autorizados à buscar o saber por si mesmos. Tudo está ao acesso por um toque. Não parecem depender mais do saber transmitido por sua família apenas. Os adultos são estrangeiros de nosso tempo.

A adolescência é um pagamento parcelado, entra-se na “adultez” pouco a pouco. Mas sempre resta algo. Todos temos pendências com a nossa adolescência.

Os pais devem sempre acreditar no possível, e poder assim transmitir uma vontade de viver para seus filhos. O analista faz esse papel, apostando em um desenvolvimento do sujeito.

Para entender nossos filhos, temos primeiro que entender nossa própria infância.

Mais análise para nós à frente.

Até a próxima.

Por Igor Banin.

Referências Bibliográficas

Corso, D; Corso, M. (2006). Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed.

Flesler, A. (2012). Psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar.

Mannoni, M. (1999) A Criança, sua “Doença” e os Outros. São Paulo: Via Lettera.

Selick, H. (Director). (2009). Coraline [Motion Picture]. USA: Laika Entertainment.

“Adolescentes e adultos: tudo fora do eixo”. Palestra da série: Adolescência em cartaz por Mario Corso e Diana Corso, feita em 2018. Promovido pela CPFL Cultura.