Como já virou tradição por aqui, listo abaixo as minhas melhores leituras de 2025. Foi um ano de menos volume, mas de intensidade maior. As obras que listo abaixo tiveram um impacto importante sobre mim e dialogaram com o meu momento pessoal e profissional.

Caso tenha interesse, aqui estão as listas de 202420232022 e 2021.

Árvores (2018) por Piotr Socha (1966-) e Wojciech Grajkowski (1980-)

Esse foi um presente da minha esposa, e desde que havíamos folheado na livraria, vimos que ele não é “só” um livro sobre botânica. É um daqueles livros que a gente folheia por curiosidade e acaba lendo como quem passeia sem pressa. Para quem gosta, ele passa a sensação de ser um daqueles compêndios de botânica antigos.

O livro parte das árvores como eixo central, mas vai muito além da descrição biológica. Cada dupla de páginas mistura informação científica, história, cultura, mitologia e curiosidades: das árvores mais antigas do mundo às que mudaram o curso de civilizações, das que viraram templos, navios ou instrumentos musicais às que ainda hoje estruturam ecossistemas inteiros. Tem espaço para Darwin, para as cerejeiras do Japão, para o carvalho como símbolo, para as sequoias gigantes e até para a relação íntima entre árvores e cidades.

(Divulgação: WMF Martins Fontes)

O grande charme está no tom: o texto é informativo, mas nunca escolar; curioso, mas sem pedantismo. E as ilustrações do Socha e Grajkowski não são meramente decorativas, elas fazem parte do pensamento do livro. Às vezes explicam, às vezes ampliam, às vezes brincam com a informação.

“Sob as árvores,
sopa, salada de peixe
e, por toda parte,
pétalas de cerejeira.” 

Matsuo Basho (1644 – 1694), 1690

No fim, Árvores acaba sendo menos um manual e mais uma espécie de atlas afetivo da relação entre humanos e árvores. As minhas idas aos parques não foram as mesmas desde então.

Para esse ano, estou interessado em seguir com outro livro do Piotr, sobre Abelhas.

Recomendo aqui também a resenha da Maria Guimarães na revista Quatro Cinco Um sobre o livro: https://quatrocincoum.com.br/resenhas/literatura/literatura-infantojuvenil/a-vida-das-arvores/

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Acender uma Fogueira (2016) por Christophe Chabouté (1967-)

acender uma fogueira, livro Chabouté, Editora Pipoca e Nanquim
(Divulgação: Pipoca e Nanquim)

Acender uma Fogueira (2016), de Christophe Chabouté, é a adaptação em quadrinhos de uma história curta de Jack London (1876 – 1916) escrita em 1902 (e posteriormente revisada em 1908). O quadrinho funciona com uma força própria, como se a história tivesse sido pensada desde o início para esse formato. É uma narrativa quase muda, em preto e branco, sobre um homem que atravessa junto de um cão, a paisagem gelada do Yukon e subestima, passo a passo, o frio que o cerca.

O enredo é simples e conhecido: o homem caminha, o frio aperta, pequenos erros se acumulam, e a tentativa de acender a fogueira vira uma questão de sobrevivência. O que Chabouté faz é transformar isso numa experiência física para quem lê. O silêncio das páginas, os grandes vazios brancos, o ritmo lento e repetitivo dos quadros fazem a gente sentir o cansaço, a rigidez dos dedos, a indiferença da paisagem.

Não há heroísmo aqui, nem drama exagerado. O livro é quase cruel na maneira como mostra a distância entre a confiança racional do homem e a lógica implacável da natureza. O cachorro (muitíssimo melhor adaptado ao ambiente do que o homem), que acompanha a caminhada, acaba funcionando como um contraste silencioso: o instinto entende o perigo muito antes do pensamento.

No fim, Acender uma Fogueira é uma história sobre arrogância, limites e sobre o quanto o mundo não precisa de nós para continuar existindo. É uma leitura curta, mas que fica conosco por muito tempo, inclusive, essa leitura me motivou a retornar à Jack London que aparecerá mais adiante na lista.

Essa edição ainda conta com rascunhos de Chabouté retirados de seus cadernos usados durante a produção da obra.

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O Apelo da Selva (1903) por Jack London (1876 – 1916)

Como eu disse, cá estamos novamente com outra obra de Jack London. O Apelo da Selva (1903), de Jack London, conta a história de Buck, um cachorro doméstico que é arrancado de uma vida confortável na Califórnia e jogado no meio da corrida do ouro no Alasca. Aos poucos, ele aprende, primeiro à força, depois por necessidade, as regras brutais daquele novo mundo: o frio, a fome, a violência e a hierarquia dos cães de trenó.

(Divulgação: Editora Abril)

O que poderia ser só uma aventura vira outra coisa. O livro acompanha a transformação de Buck, não apenas em termos de sobrevivência, mas de identidade. Conforme ele se adapta, algo mais antigo começa a despertar: instintos, memórias quase míticas, uma espécie de chamado que vem de antes da domesticação, de antes da vida entre humanos.

(Jack London. Reprodução/Huntington Library, San Marino, California)

London escreve a natureza como uma força indiferente, mas também como um espelho. Os homens no livro variam entre o cruel, o mesquinho e o generoso, mas são sempre frágeis diante do ambiente. Já Buck, ao contrário, vai ficando cada vez mais inteiro conforme se afasta do mundo humano.

No fundo, O Apelo da Selva é um livro sobre o que acontece quando toda a camada de conforto, moral e hábito é arrancada, e sobra só aquilo que é essencial. É uma história de retorno, mas também de perda: para atender ao chamado, alguma coisa precisa ficar para trás.

A obra já foi adaptada diversas vezes para as telas, mas ainda não assisti nenhum deles.

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Aproveitar a vida e suas dores (2025) por Contardo Calligaris (1948-2021)

Aproveitar a vida e suas dores (2025), de Contardo Calligaris, é um livro póstumo que reúne textos escritos ao longo de anos, muitos deles originalmente publicados em coluna. Não é um tratado, nem um manual de autoajuda. É mais parecido com uma conversa longa, dessas que vão e voltam nos mesmos temas: amor, trabalho, desejo, envelhecimento, fracasso, medo, liberdade.

(Contardo Calligaris. Reprodução/Ana Paula Paiva/Valor)

Calligaris, fundamental na minha formação, escreve como pensava: com clareza, ironia e uma certa desconfiança saudável de qualquer resposta fácil. Ele não tenta poupar o leitor da parte difícil da vida, pelo contrário, insiste que não existe vida “bem vivida” sem conflito, sem perda, sem desconforto. As dores não aparecem como um erro de percurso, mas como parte do próprio pacote.

“Não sei se inventamos, aos poucos, a tecnologia que corresponde à nossa necessidade de estarmos e de ter o outro sempre ao alcance, ou se a tecnologia, mudando, fez com que nos acostumássemos à presença constante de todos, sempre alcançáveis.” (Calligaris, 2025, p.51).

O que dá unidade ao livro é essa postura: uma recusa tanto do cinismo quanto do otimismo bobo. Há momentos de humor, outros de dureza, e muitos em que ele simplesmente desmonta nossas pequenas ilusões cotidianas com duas ou três frases muito bem colocadas.

(Divulgação: Paidós)

No fim, Aproveitar a vida e suas dores não ensina a ser feliz. Ensina, talvez, a não desperdiçar a própria vida tentando fugir daquilo que é inevitável, e a lidar com isso com um pouco mais de lucidez e menos autoengano.

Deixo aqui um trecho da fala de Calligaris no Fronteiras do Pensamento:

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Aniquilar (2022) por Michel Houellebecq (1956-)

Aniquilar, começa quase como um thriller político: ataques misteriosos, vídeos perturbadores, clima de conspiração na França pré-eleitoral. Aos poucos, o livro se desloca para outra coisa muito mais íntima e muito mais lenta.

(Divulgação: Alfaguara)

O centro real da história é Paul Raison, um alto funcionário do governo, seu casamento sem vida, sua relação distante com a família e, principalmente, a doença do pai. O romance vai se transformando num livro sobre esgotamento: do corpo, dos afetos, das ideias, da própria noção de futuro.

“Havia visitado o pai várias vezes nos últimos anos, mas sempre preferia dormir em um quarto de hóspedes, nunca mais pusera os pés no quarto que tinha sido o seu quando era criança, e depois adolescente; fazia vinte e cinco anos que não entrava lá. Provavelmente era um mau sinal querer voltar desse jeito aos anos da juventude, provavelmente é isso que acontece com aqueles que começam a perceber que fracassaram na vida.” (Houellebecq, 2022, p.94)

(Michel Houellebecq. Reprodução: CC BY-SA 4.0)

Houellebecq continua o mesmo observador cruel de sempre da sociedade contemporânea, a solidão, a burocratização da vida, o vazio emocional, o cansaço civilizacional. Mas aqui aparece algo um pouco diferente: uma espécie de melancolia mais suave, quase ternura, sobretudo nas partes finais, quando o livro se aproxima do tema do cuidado e da despedida.

“A vida humana é composta de uma sucessão de dificuldades administrativas e técnicas, intercaladas com problemas médicos; quando chega a idade, os aspectos médicos começam a prevalecer. A vida então muda de natureza e começa a se assemelhar a uma corrida de obstáculos: exames cada vez mais variados e frequentes investigam o estado dos seus órgãos. Todos concluem que a situação é normal, ou pelo menos aceitável, até que um deles dá um veredito diferente. Então a vida muda de natureza pela segunda vez, para se tornar um percurso mais ou menos longo e doloroso rumo à morte” (Houellebecq, 2022, p. 175)

O enredo político, que parecia prometer grandes revelações, acaba sendo deliberadamente anticlimático. E isso não é um defeito: é como se o livro dissesse que, no fim das contas, mesmo o “fim do mundo” perde importância diante da decadência muito concreta de um corpo e de uma família.

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(Foto: Caroline Serretiello)

Algumas menções honrosas:

  • Enquanto Agonizo (1930) — William Faulkner (1897 – 1962)
  • PTSD Radio (2010–2018) — Masaaki Nakayama
  • Sapiens: Uma Breve História da Humanidade (2011) — Yuval Noah Harari (n. 1976 –)
  • O Oceano no Fim do Caminho (2013) — Neil Gaiman (n. 1960 –)

Até a próxima,

Igor Banin


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