Os Sintomas: Delírio, Alucinação e Ilusão (diferenças)

É comum nos cursos oferecidos pela Sociedade dos Psicólogos os participantes nos perguntarem sobre os conceitos e diferenças entre o Delírio e a Alucinação. Vendo que essa é uma dúvida comum do estudante e do interessado em psicologia, resolvi escrever este texto.

Psicopatologia e sintoma

Primeiramente, é importante dizer que tanto o delírio, quanto a ilusão e a alucinação são fenômenos de estudo do campo da psicopatologia – a área que estuda as doenças/perturbações/disfunções da mente/alma – e encontram-se na categoria dos sintomas.

“O campo da psicopatologia inclui um grande número de fenômenos humanos especiais, associados ao que se denominou historicamente de doença mental. São vivências, estados mentais e padrões comportamentais que apresentam, por um lado, uma especificidade psicológica (as vivências dos doentes mentais possuem dimensão própria, genuína, não sendo apenas “exageros” do normal) e, por outro, conexões complexas com a psicologia do normal (o mundo da doença mental não é um mundo totalmente estranho ao mundo das experiências psicológicas “normais”).”

(Dalgalarrondo, 2008 p. 27)

 

É por meio dos sintomas, sejam eles objetivos (capazes de serem apanhados pela percepção do outro) ou subjetivos (percebidos apenas pelo portador), que se constitui a dinâmica psíquico-comportamental patológica do sujeito. Deste ponto de vista, o sintoma age como um representante que aponta para um desejo e comunica uma questão particular referente aos conflitos, fantasias e questões do indivíduo. O sintoma conta muito de seu portador e, em resumo, o conjunto de sintomas costuma apontar para alguma síndrome, transtorno ou quadro clínico.

“Os signos de maior interesse para a psicopatologia são os sinais comportamentais objetivos, verificáveis pela observação direta do paciente, e os sintomas, isto é, as vivências subjetivas relatadas pelos pacientes, suas queixas e narrativas, aquilo que o sujeito experimenta e, de alguma forma, comunica a alguém.”

(Dalgalarrondo, 2008 p. 24)

O Delírio

(Imagem encontrada na internet)

Um sintoma pode pertencer ao campo da consciência, da atenção, do raciocínio, do afeto, da percepção, da memória, por exemplo, entre outros. No caso do delírio, este diz respeito à uma alteração do juízo (que é uma função do pensamento, assim como o raciocínio). Isto é, a capacidade de discernir a verdade do erro, distinguir qualidades, e utilizar a lógica para validar ou refutar sentenças. De acordo com Paim (1980) “o juízo consiste, do ponto de vista da lógica formal, na afirmação ou negação de uma relação entre dois conceitos” (p. 77). Sendo assim, alterações nesta função mental podem levar a ideias delirantes em diversas temáticas, como, por exemplo, grandeza, perseguição, relação, ciúme, influência, referência, entre outros.

“por meio dos juízos o ser humano afirma a sua relação com o mundo, discerne a verdade do erro, assegura-se da existência ou não de um objeto perceptível (juízo de existência), assim como distingue uma qualidade de outra (juízo de valor). Ajuizar quer dizer julgar.”

(Dalgalarrondo, 2008 p. 206)

Vale citar também a explanação de Cunha (2007), autora do livro Psicodiagnóstico-V:

“Os delírios (do latim de, fora, e liros, sulco; sair da trilha arada, desviar o arado do sulco) podem ser classificados de diversas maneiras: a) conforme a sua temática (de desconfiança, de perseguição, de influência, de prejuízo, de referência, de autopreferência, de ciúme, de grandeza, de descendência ou de linhagem ilustre [genealógico], de invenção, de transformação cósmica, de prestígio, de missão divina, de reforma social, de possessão diabólica ou divina, de natureza hipocondríaca, de negação e transformação, de culpa, de auto-acusação, de ruína e vários outros, de acordo com a plasticidade da trama delirante); b) conforme o grau de elaboração (sistematizados e não-sistematizados); c) conforme o curso evolutivo (agudos e crônicos)”.

(Cunha, 2007, p. 68)

Neste momento, você já deve ter percebido que estamos falando “daquela pessoa” que começa a acreditar que o ancora da televisão está enviando mensagens codificadas que só ele é capaz de decodificar; ou que os marcianos (ainda que nunca tenha visto um) o estão espionando e perseguindo; ou que está convencido de que a esposa o está traindo e enganado; ou que acredita ser Jesus Cristo, Napoleão Bonaparte ou John Lennon; etc…

A Alucinação

Por outro lado, a par das alterações do juízo, encontramos uma categoria que diz respeito às alterações da sensopercepção e é nela que se localizam a ilusão e a alucinação, e é por ela que a realidade interna e externa nos chega de forma entendível e comum à espécie.

“Todas as informações do ambiente, necessárias à sobrevivência do indivíduo, chegam até o organismo por meio das sensações. Os diferentes estímulos físicos (luz, som, calor, pressão, etc.) ou químicos (substâncias com sabor ou odor, estímulos sobre as mucosas, a pele, etc.) agem sobre os órgãos dos sentidos, estimulando os diversos receptores e, assim, produzindo as sensações. […] Por percepção, entende-se a tomada de consciência, pelo indivíduo, do estímulo sensorial. Arbitrariamente, então, se atribui à sensação a dimensão neuronal, ainda não plenamente consciente, no processo de sensopercepção. Já a percepção diz respeito à dimensão propriamente neuropsicológica e psicológica do processo, à transformação de estímulos puramente sensoriais em fenômenos perceptivos conscientes.”

(Dalgalarrondo, 2008 p. 119)

É com esta função cerebral/mental que sentimos e reconhecemos o belo ou o feio, o cheiro de uma flor ou enxofre, o toque de uma pena ou de um tijolo, o som de uma melodia ou de um ruído, bem como o gosto doce ou salgado…

(Imagem encontrada na internet.)

Se isso está no ambiente em que estamos inseridos e nos chega por uma via sensorial (tato, audição, visão…), é transduzido em energia sensitiva, levado aos centros de percepção do cérebro e reconhecido de forma normal/comum, a situação é funcional (Lent, 2010). Caso haja sensação ou percepção de algo que não está no ambiente, trata-se de uma alucinação. Em psicologia, chamamos o que está no ambiente e se manifesta a nível da consciência de “estímulo”. Sendo assim, perceber um estímulo real é o normal e esperado. Ver, ouvir, sentir sem a presença de um estímulo, como se estivesse na presença dele constitui uma alucinação e implica numa ruptura com a realidade. “Define-se alucinação como a percepção de um objeto, sem que este esteja presente, sem o estímulo sensorial respectivo” (Dalgalarrondo, 2008 p. 124). Vale dizer, que em uma situação dessas, podemos alucinar com qualquer um dos nossos sentidos e as alucinações auditivas são o tipo mais frequente encontrado nos transtornos mentais.

A Ilusão

Dentro das alterações referentes à sensopercepção, também encontramos a Ilusão, mas esta difere da alucinação, principalmente, por contar com um estímulo que está presente no ambiente. Na ilusão há o estímulo, mas este é percebido de forma distorcida.

“O fenômeno descrito como ilusão se caracteriza pela percepção deformada, alterada, de um objeto real e presente. Na ilusão, há sempre um objeto externo real, gerador do processo de sensopercepção, mas tal percepção é deformada, adulterada, por fatores patológicos diversos”.

(Dalgalarrondo, 2008 p. 119)

As ilusões geralmente ocorrem por estados de rebaixamento do nível de consciência; estados de fadiga grave; alguns estados afetivos de acentuada intensidade.

“As ilusões mais comuns são as visuais, nas quais o paciente geralmente vê pessoas, monstros, animais, entre outras coisas, a partir de estímulos visuais como móveis, roupas, objetos ou figuras penduradas nas paredes. Também não são raras as ilusões auditivas, nas quais, a partir de estímulos sonoros inespecíficos, o paciente ouve seu nome, palavras significativas ou chamamentos”.

(Dalgalarrondo, 2008 p. 124)

Em resumo, no delírio não se enxerga ou ouve nada de anormal, mas se tem ideias enganosas a respeito de algo, por tratar-se de uma alteração do juízo e estar atrelado aos processos de pensamento. Já a alucinação e a ilusão são sintomas referentes à sensopercepção, onde, respectivamente, a primeira percebe um estímulo que não está no ambiente e a segunda deforma – pela percepção – um estímulo que está no ambiente.

Referências

Dalgalarrondo, P. (2008). Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed.

Cunha, J. A. (2007). Psicodiagnóstico-V. Porto Alegre: Artmed.

Lent, R. (2010) Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu.

Paim, I. (1980). Curso de psicopatologia. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas Ltda.

Por Caio Ferreira

2 comentários sobre “Os Sintomas: Delírio, Alucinação e Ilusão (diferenças)

  1. mais Ilusão todos nós temos, discordo quando dizem que se enquadra em “Psicopatologia” até porque é normal distorcer objetos ou coisas achando q são outras tendo uma falsa percepção. Isso é natural do ser humano nao?

    Curtido por 1 pessoa

  2. Caio, mas Ilusao n é algo que tomos nós temos, não necessariamente é adequadro a psicopatologia. Como estudante de psicologia acho um pouco equivocado usar o termo “ilusao” como tal, deverias especificar “Ilusao em psicopatologias” porque todos esperimentamos ilusoes visuais e de percepção, quem nunca confundiu algo e ao chegar algo e analisar viu q n era aquilo.

    Curtido por 1 pessoa

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