Mulheres na fenomenologia brasileira

Dicas de livros na abordagem fenomenológico-existencialista

Em 2013, o Conselho Federal de Psicologia lançou o livro “Quem é a Psicóloga brasileira: Mulher, Psicologia e trabalho” e apresentou dados de uma pesquisa revelando que 88% da nossa classe é formada por mulheres. Apesar desta porcentagem significativa, a atuação de mulheres na ciência se tornou uma possibilidade muitos anos depois da dos homens. Nossa existência nessa área vem trazendo inúmeros desafios. Lidamos com estereótipos e preconceitos de diversas formas.

Uma pesquisa feita em pelo CNPQ (Conselho Nacional de desenvolvimento Científico) em 2020 aponta que, no Brasil, a presença feminina dentro das instituições de ensino diminui à medida que os estudos avançam. Ocupamos 58% das bolsas de iniciação científica durante a graduação e apenas 38% quando se consideram as bolsas de produtividade em pesquisas ( mestrado e doutorado).

Seguimos enfrentando os desafios de sermos Psicólogas brasileiras e profissionais da ciência!

Quem são as autoras e pesquisadoras da área que você têm interesse?

Alguns dias atrás troquei reflexões com um colega de profissão sobre a quantidade de autores homens e autoras mulheres que estudamos durante a graduação e desde então. Percebi que eu nunca tinha levantado este questionamento antes e gostaria de compartilhá-lo com vocês também. Vamos dar mais visibilidade para as autoras e pesquisadoras dentro da Psicologia? Convido-lhes a conhecer uma pequena amostra de obras brasileiras sobre a teoria fenomenológico-existencialista.

Psicologia fenomenológica: Fundamentos, método e pesquisa

Yolanda Cintrão Forghieri

capa do livro retirada da pesquisa no Google

Com uma extensa caminhada acadêmica e docente, Yolanda Cintrão Forghieri desenvolveu diversos trabalhos em Psicologia.

Nesta obra, apresenta de forma fluída alguns fundamentos sobre a fenomenologia e traz pontos sobre a metodologia de pesquisas na área.

Recebi a indicação deste livro como conteúdo extracurricular para revisar alguns pontos sobre a feno. A clareza de sua linguagem torna possível a assimilação sobre a apresentação das bases teóricas.

Outras obras e palestras da autora podem ser encontradas facilmente através de sites de busca.

Conversa sobre terapia

Bilê Tatit Sapienza

Capa do livro retirada de pesquisa no Google

Com uma linguagem sensível e poética, Bilê Tatit Sapienza discorre sobre o processo Psicoterapêutico dando luz a aspectos sutis e profundamente significativos. Desta maneira, a autora promove reflexões sobre o relacionamento que se dá entre terapeuta e cliente.

Meu contato com esta obra aconteceu antes do início do estágio em atendimento clínico na abordagem fenomenológica. Digo-lhes que foi uma leitura transformadora e extremamente acolhedora. Lembro-me que as discussões sobre o livro proporcionaram uma nova possibilidade de olhar para o processo psicoterapêutico.

Deixo aqui o convite para que conheçam também outras obras da autora como “Do desabrigo à confiança”(2013) e “Encontro com a Daseinsanalyse” (2015) .

Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil

Organização de Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo e Elaine Lopez Feijoo

Capa retirada do site da editora IFEN.

Publicado pela Editora Científica IFEN (Instituto de Psicologia Fenomenológico Existencial do Rio de Janeiro), este livro traz reflexões sobre o modo de ser-criança na contemporaneidade, desenvolvimento infantil, entre outros temas.

Além de Feijoo e Feijoo, outras quatro autoras estão presentes: Cristine Monteiro Mattar, Joannelise de Lucas Freitas, Débora Candido de Azevedo e Débora Gil.

Para aquelas que trabalham com crianças ou tem interesse em, fica ai a indicação!

PS: A Editora IFEN publicou diversas coleções temáticas com outros artigos de autoras mulheres.

Pesquisa em Psicologia Fenomenológico-Existencial: Interpretações do Sofrimento na Contemporaneidade

Organização de Elza Dutra e Ana Andrea Barbosa Maux

Capa retirada do site da editora

Esta obra traz um pouco do que vem sendo desenvolvido em pesquisa em fenomenologia e aborda algumas inquietações que motivaram o ingresso de Psicólogas no campo acadêmico, visando produzir conhecimento crítico.

Considerando os diversos sofrimentos da existência humana, são apresentadas temáticas como suicídio, relacionamentos amorosos, tecnologia, maternidade e relações de trabalho.

O livro pode ser encontrado em formato digital e físico no site da editora e em outras livrarias online.

Elza Dutra é Professora Titular de Psicologia Clínica Fenomenológica, orienta Mestrado e Doutorado na UFRN ( Universidade Federal do Rio Grande do Norte), além de outros títulos, e coordena um núcleo de Psicologia chamado Poiesis que desenvolve diversas atividades.

Ana Andrea Barbosa Maux desenvolveu vários estudos com temáticas envolvendo a fenomenologia, incluindo estudos sobre adoção e a relação entre masculinidade e infertilidade.

Por último

Você gostaria de deixar nos comentários o nome de alguma autora brasileira, livro ou artigo como indicação? O espaço é todo seu (:

Até mais!

Bárbara de Souza Miranda

Referências:

FORGUIERI, Y.C. Psicologia fenomenológica: Fundamentos, método e pesquisa.

SAPIENZA, B. T. Conversa sobre Terapia.

FEIJOO, A. M. C.; FEIJOO, E. L. Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil.

DUTRA, E.; MAUX, A. A. B. Pesquisa em Psicologia Fenomenológico-Existencial: Interpretações do Sofrimento na Contemporaneidade.

Todas as outras referências foram feitas nos links.

Feminismo e Psicanálise

Porque os homens não abrem mais os potes de picles?

Porque agora as mulheres podem, simples assim. E alguns homens (a grande maioria) não sabem como lidar com isso. Usei de um estereótipo sabido na sociedade como sendo função masculina, mas não o usei de forma descabida, ele serve para ilustrar algo maior. A posição social de homens e mulheres.

O feminismo é um movimento social e político que teve seu início no século XIX, e ganhou força no século passado, com a entrada de mais mulheres no mercado de trabalho e na cena política nacional.

Feminismo e Psicanálise

O posicionamento assumido pelas mulheres na sociedade atualmente, assusta muita gente. Há algumas mulheres que não se posicionam de forma distinta, é bem verdade, mas é interessante notar a mudança.

Penso que a psicanálise nos sirva como norteador de tal debate social. Muitos psicanalistas falam da queda do significante fálico, isto é, do ponto de basta, do corte. A sociedade vive o liberalismo em seu máximo esplendor, homens e mulheres não ocupam mais papéis (ou funções) bem definidos. É muito difícil definir o que é um homem e o que é uma mulher, nos dias de hoje. Há vinte anos isso era bem possível.

Em psicanálise se pensa o lugar que o sujeito ocupa em seu discurso, ou seja, como ele se posiciona frente ao mundo, de que lugar fala, para quem fala. Por esta razão é importante lembrarmo-nos do lugar que a mulher ocupa no discurso social. Lhe é sempre imputado o lugar secundário, o de coadjuvante, em lugar de serventia ao homem, “você deve ser uma boa esposa, arrumar um bom partido”, é o que se diz. Mas as relações sociais não são estáticas, transformam-se.

Feminismo Hoje

Hoje em dia todo ato que visa maestria, um ato de ordem, de comando, é tomado como machista. Nesse ponto se enlaça o que tratei acima como ponto de corte, não há a diferenciação das coisas. Vivemos em um período socialmente liberal, temas como o feminismo são tratados abertamente, como jamais foram. Nos resta, de algum modo, encontrar nossa maneira de lidar com tudo isso.

O psicanalista francês Jaques Lacan já falava da independização das mulheres. Na década de sessenta, Lacan antecipava o mundo moderno. A maior prova de quê a
mulher não mais precisa do homem é a inseminação artificial, procedimento médico que ganhou força no meio do século XX. O homem não ocupa mais, necessariamente, o papel central dentro da estrutura familiar, e progressivamente dentro da sociedade como um todo (salvaguardam-se os salários que ainda não se equiparam, os homens ainda ganham mais que as mulheres).

Para o psicanalista brasileiro Jorge Forbes as pessoas estão desbussoladas. Ao falar dessa falta de direção, ou, desbussolamento, como ele diz, explica que as referências não são mais fixas, como antes foram. O psicanalista discute as implicações desse novo modelo social (não se restringindo ao debate feminista), até que ponto esse liberalismo vigente é razoável? Vivemos em um tempo privilegiado, historicamente falando, estamos a presenciar transformações nas relações nunca antes vistas, e poderemos vislumbrar os frutos dessa revoluções mais a frente. Quem viver verá.

Devemos nos remeter às antigas construções ou novas referências devem ser ainda
construídas? Fica o questionamento. Até a próxima.

Por Igor Banin