O Querido Agente do Caos Chamado Trickster

Preâmbulo

Este texto faz parte de uma apresentação de trabalho acadêmico, que realizei em 2015, com o tema “o arquétipo do trickster e a figura do saci”, pela disciplina de Teoria e Técnica Analítica, do Curso de Psicologia, das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Foi revisado e ampliado para as finalidades desta publicação.

O Mito do Heroi e o Mito do Trickster

O trickster é um objeto de estudo de muitas áreas, como a mitologia, religião, antropologia, psicologia, e até o cinema. Para contextualizar os estudos mais relevantes sobre o trickster, vamos começar fazendo alguns recortes. Um militar britânico pré-junguiano, chamado Lord Raglan, disse, após ter estudado mitologia e se aventurado pela poesia, em meados do século XIX, que o mito do herói representaria o homem tornando-se Deus. Neste caso, podemos entender o mito do herói como a busca pelo sagrado, isto é, há um chamado – geralmente divino – direcionado a um homem comum que se encontra, inicialmente, em sua zona de conforto e é impelido a se separar dela para iniciar uma jornada que, de uma forma resumida, quase vai matá-lo, sendo que o mesmo vai ou enfrentar e derrotar essa morte ou retornar do mundo dos mortos. Ambas as formas vão culminar com o retorno do herói ao seu local inicial de partida, onde, desta vez, seu estatuto não é mais de um homem comum.

E por que estamos falando do mito do herói? Bem, uma das coisas que este Lord Raglan observou em seu estudo, foi que, sobre a infância do herói, não nos é dito nada. É um espaço vazio. E a sugestão dele, é que ali se esconde o mito do Trickster.

A Função do Trickster

The Trickster, por Mel Ramos, 1962.

Então, o que seria o trickster? De acordo com alguns dicionários e traduções literais, podemos chamá-lo de trapaceiro, malandro, impostor, vigarista, intrujão, embusteiro e até pícaro. Mas não devemos confundi-lo com o vilão. O vilão ocupa um outro lugar no mito do herói e possui, além de outras características, outro objetivo ou outra função.

“Aqui vale a pena fazer uma pausa para explicar que o Diabo e o trickster não são a mesma coisa, embora tenham sido confundidos com frequência.* Os que os confundem o fazem porque deixaram de perceber a grande ambivalência do trickster. O Diabo é um agente do mal, mas o trickster é amoral”.

(Hyde, 2017, p. 20)

Sendo assim, antes de entrarmos nas características e funções do trickster, eu vou trazer um outro recorte teórico que vai complementar a explanação anterior sobre o mito do herói e preparar o terreno para compreendemos melhor a figura do trickster.

Jung e Campbell

Carl G. Jung

É sabido que Carl G. Jung foi um nome de referência no estudo da mitologia e dos arquétipos e, tendo contato com este trabalho, um estudioso norte-americano chamado Joseph Campbell sentiu-se levado a fazer uma análise profunda das ideias deste psicólogo suíço, produzindo um trabalho riquíssimo conhecido como monomito ou a jornada do herói. Trata-se esta, de uma visão do fenômeno mitológico, apoiada no método estruturalista, ao passo que vai afirmar que existem padrões, ou seja, estruturas universais que alicerçam todas as narrativas. A tese do autor é de que todos os mitos seguem essa estrutura em algum grau. Isto é, as histórias de Prometeu, Osíris, Buda, Jesus Cristo, todas seguem este paradigma quase exatamente. Em 1949, Campbell publicou o livro “O Herói de Mil Faces”, em que demonstra que cada herói adquire a face de sua cultura específica, mas sua jornada é sempre a mesma, vivendo sempre o mesmo mito, um “monomito”. Então vamos descobrir que jornada é essa! Lembrem-se que os personagens principais dividem-se em: protagonistas, que agem e fazem as  coisas acontecerem, e os antagonistas que assumem uma posição oposta aos primeiros – é o clássico conflito de luz x sombra.

Renart the fox, por Ernest Griset, 1869.

Os 12 Estágio da Jornada do Heroi

  1. “Mundo Comum – O mundo normal do herói antes da história começar.
  2. O Chamado da Aventura – Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura.
  3. Reticência do Herói ou Recusa do Chamado – O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo.
  4. Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural – O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura.
  5. Cruzamento do Primeiro Portal – O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.
  6. Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia – O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial.
  7. Aproximação – O herói tem êxitos durante as provações
  8. Provação difícil ou traumática – A maior crise da aventura, de vida ou morte.
  9. Recompensa – O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir).
  10. O Caminho de Volta – O herói deve voltar para o mundo comum.
  11. Ressurreição do Herói – Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido.
  12. Regresso com o Elixir – O herói volta para casa com o “elixir“, e o usa para ajudar todos no mundo comum.”

(Adaptado por C. Vogler, sobre os trabalho de Campbell)

Exemplos clássicos de utilização da Jornada do Heroi no cinema são: Star Wars; O Senhor dos Anéis; Harry Potter; O Mágico de Oz; Matrix; O Rei Leão; entre outros…

O Agente do Caos Encarnado

Trickster, por Pabel&9.

Dentro desta estrutura, vai aparecer o trickster, que sempre vai trazer a questão de rever o status quo – isto é, como as coisas eram antes de sua aparição. Este arquétipo carrega em si o desejo de mudança da realidade. A sua função é acordar o Herói para a realidade, denunciando a hipocrisia e as incoerências. Para acontecer o ciclo heroico, deve aparecer o trickster em algum momento. Ele é o deus das encruzilhadas, do comércio, da malícia; a representação física de aleatoriedade, é um agente do caos. Muitas vezes ele prega peças em outro – seja ele humano, deus ou até elemento da natureza. Mas além disso, o trickster também é o portador do conhecimento, ele rouba o fogo dos deuses, e é alguém que por quebrar as regras, cria novas.

Suas encarnações são, entre outros Mercurius, Hermes e Prometheus em Roma e Grécia antiga, Eshu e Anansi na África, na mitologia nórdica é Loki, e na brasileira seria tanto o Curupira quanto o Saci-Pererê e assim por diante de cultura em cultura. Na televisão, podemos citar, por exemplo, o Pernalonga, o Pica-Pau, o Máscara, a Pantera cor de rosa,  o Gato Felix, o Doutor de Doctor Who, o Coringa do Batman, o Groot dos Vingadores, o R2-D2 de Star Wars, o Didi de Os Trapalhões.

Trickster, por Bill Lewis, 1992.

Jung estudou o trickster como um arquétipo humano básico. Ele acreditava que era parte do inconsciente coletivo compartilhado pela raça humana. Ele supôs que o trickster estaria  representado pela nossa própria natureza básica, o animal que tínhamos deixado para trás e como nós aprendemos a dominar ferramentas e fogo. Dentro da psicologia o trickster tem sido visto como uma espécie de id, ou, em se tradando de Jung, uma sombra de nossa verdadeira natureza. O que nos faz voltar para o começo do texto, colocando o trickster na lacuna, na sombra do herói. “O trickster é ao mesmo tempo criador e destruidor, doador e negador, ele engana os outros e está sempre enganando a si mesmo”.

“Em contos picarescos, na alegria desenfreada do carnaval, em rituais de cura e magia, nas angústias e iluminações religiosas, o fantasma do “trickster” se imiscui em figuras ora inconfundíveis, ora vagas, na mitologia de todos os tempos e lugares , obviamente um “psicologema”, isto é, uma estrutura psíquica arquetípica antiqüíssima. Esta, em sua manifestação mais visível, é um reflexo fiel de uma consciência humana indiferenciada em todos os aspectos, correspondente a uma psique que, por assim dizer, ainda não deixou o nível animal”.

(Jung, 2000, p. 256)

Referencias

Campbell, J. (1989). O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento.

Hyde, L. (2017). A astúcia cria o mundo. Trickster: trapaça, mito e arte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Jung, C. G. (2000). Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes.

Radin, P. (1956). The trickster: a study in american indian mythology. New York: Schocken Books.

Por Caio Ferreira

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