Coringa: Uma corda sobre o Abismo

Nietzsche em seu livro ‘Assim Falou Zaratustra’, narra a história de um homem que após anos em meditação isolado da civilização, deixa a caverna, desce da montanha para iniciar suas pregações.

Em suas andanças, depara-se com a figura de um equilibrista que fazendo seu número numa corda içada ao alto da praça e acima do povo, quando este chega ao meio do caminho, é molestado verbalmente por um homem com vestes coloridas semelhantes a um palhaço que ao chamar mais atenção do público, solta um grito “diabólico” para o equilibrista, pula entre os populares e sai ileso. O equilibrista acaba desconcentrando-se e cai, ainda consegue dizer algumas palavras antes de morrer nos braços de Zaratustra.

Ao sair da sessão de cinema de Coringa (Joker, 2019. Warner Bros) na minha mente veio a imagem deste palhaço. Contrapondo a Marvel em sua visão de mundo colorido e conectado em que todos se unem em prol do bem maior “custe o que custar”, a DC com este filme assume a postura do palhaço de Zaratustra: aquele quer desestabilizar o sistema.

Trailer do filme Coringa

Aviso este texto está repleto de spoilers do filme Coringa. Deste trecho em diante é por sua conta e risco.

Ao lutar contra os Monstros

Na trilogia do Cavalheiro das Trevas (2005/2012. Warnes Bros), tem a versão do mais aclamada do Coringa produzida pelo cinema. Grande parte disso é atribuído ao fato que a origem do Coringa indefinida. Cada vez que ele está em frente de uma vítima, ele conta uma versão diferente de como ganhou o sorriso estampado em seu rosto.

Heath Ledger, na sua construção de personagem, se trancou em seu apartamento por um mês, fazendo um diário de com colagens de referencias diversas de cinema e pinturas do Francis Bacon. A celebre interpretação consumiu muito mais do que seu talento, e talvez por isto, lhe rendeu o Oscar póstumo de ator coadjuvante.

Pensava-se até então, que era muito difícil superar algo tão icônico como: “Por que você está tão sério?”.

Afinal, o que este filme do Coringa traria de novo para os espectadores?

Seria necessário subverter certas convenções para ser mais sombrio do que as versões anteriores. A inspiração veio da Graphic Novel “A Piada Mortal” em que “Batman e Coringa são faces de uma mesma moeda”, segundo Antunes, em sua tese: Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman.

Caro leitor, o que é mais sombrio do que a própria realidade?

Numa cidade infestada por ratos gigantes e doenças, em meio a uma greve de lixeiros que dura semanas, vemos que comerciantes estão falindo e a economia está em declínio. A crescente taxa desemprego tem correlação direta com o aumento da criminalidade.

Vemos Arthur Fleck tentando ‘ganhar a vida’ como palhaço em Gotham City. Numa espécie de reality show, que vai muito além de acompanhar seu dia a dia, o convite é para passearmos em sua mente.

Evite tornar-se um monstro

Em vez de mais uma explicação cartunesca, do tipo cair no tanque de ácido e sair vivo, a risada característica do personagem é atribuída a ter um distúrbio neurológico que faz com o que ele ria em situações que usualmente as pessoas não riem, destoando das emoções que sente como raiva, stress, ansiedade e medo. Uma risada involuntária que causa aversão nas pessoas e que ele tenta aflitivamente evitar sem sucesso.

Além desta condição, o personagem apresenta um quadro psicopatológico que o filme não deixa claro de propósito. O ator Joaquin Phoenix assim quis em sua construção, para que ele pudesse passear sobre diversas formas de expressar a desregulação emocional, inabilidade social, pensamentos catastróficos, sofrimento e dor psíquica e seu corpo representasse efeitos similares que os pacientes de doenças mentais apresentam ao longo dos anos.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não o tivesse.”

Arthur Fleck

Ele mora com sua mãe, cuida dela fazendo a comida, dando banho e sendo atencioso. Ele alimenta aspirações de se tornar um comediante de stand up, mas sua mãe sentencia: “para ser comediante precisa ser engraçado, Arthur”.

Perceba, esta filme fora construído minuciosamente para que o espectador tenha compaixão por um homem que vive num mundo sem compaixão.

Quando se olha muito tempo para um abismo

Nos anos 70 fora inaugurado o subgênero da ultraviolência no cinema. Devido a grupos jovens saíram agredido cidadãos porque se sentiram inspirados pelo que viram, o diretor Stanley Kubrick, indignado porque as pessoas não entenderam seu objetivo, teve que se desculpar publicamente e retirar “Laranja Mecânica” das salas de exibição.

Menos estiloso e conceitual, mais direto ao ponto, não é à toa que este filme do Coringa se inspire nos filmes de Martin Scorsese, como Taxi Driver. Parte da sensação de crescente de angústia durante a exibição do filme e manter o espectador em suspensão de descrença. O mundo precisa ser semelhante à nossa realidade e as reações que o personagem tem poderiam ser as suas caso se encontrasse na mesma situação.

Artur tenta recusar a oferta de ter uma arma dizendo ao companheiro do trabalho, que devido a sua condição não deveria portar uma arma. Mas este insiste, mesmo assim vende a arma para ele se ‘proteja do mundo violento’. Em seguida, esta é a arma que cai no chão dentro de um hospital infantil enquanto ele se apresentava (semelhante ao Doutores da Alegria). Por isto ao tentando se explicar ao seu chefe ligando de um telefone público ele é despedido.

Voltando para casa ele vê três homens assediando uma mulher no metro, e começa rir compulsivamente sem desejar fazê-lo. A mulher foge e os três começam agredi-lo moral e fisicamente. Ele saca a arma para se defender da agressão física, matando dois instantaneamente e persegue o terceiro na estação até matá-lo.

Este é o momento sem volta do personagem. No vídeo Anatomy of a Scene, em que vemos Arthur demonstrando um vislumbre do Coringa. Em vez de se assustar e/ou questionar moralmente o que acaba de acontecer, não há remorso ou arrependimento. Em vez disso, ele se tranca num banheiro público e dança como uma expressão de se empoderar de si pela violência.

O diretor Todd Phillips narra a cena do filme Coringa

O abismo olha para você

Apesar da temática ser proveniente das histórias em quadrinhos, o nome do filme é Coringa, portanto estamos acompanhando o desenvolvimento de um vilão. Ao Coringa serve a sentença de Nietzsche: “Torna-te quem tu és!”. As pessoas na sala de cinema, que minimamente tem repertório em Batman, sabe aonde filme quer chegar. A questão é como os espectadores são impactados pelo que estão vendo.

Dias depois, sabemos que três homens mortos pelo palhaço no metro eram cidadãos de bem e funcionários das Indústrias Wayne. Interessado em salvar a cidade do caos, o Sr. Thomas Wayne se candidata ao cargo de prefeito. Ao ser questionado pela morte dos seus funcionários diz: “Que tipo de covarde faria algo tão frio? Alguém que se esconde atrás de uma máscara. Alguém que tem inveja daqueles são mais bem-sucedidos. No entanto, eles têm medo de mostrar seu próprio rosto. Pessoas que mudam o mundo para melhor, são capazes de criar algo de nossas vidas, sempre olharão para aqueles que não o fizeram nada, apenas como meros palhaços”.

Os cidadãos de Gothan então resolvem protestar nas ruas contra os bem-sucedidos usando máscaras do palhaço, cujo retrato-falado povoa as manchetes de jornal. Notem, um novo elemento surge: a mídia.

Ao contrário do que se imagina, fake news não são um fenômeno da pós-modernidade. Num passado recente, jornais de baixo orçamento propagavam manchetes sensacionalistas (hoje conhecimento como clickbait) apenas para vender mais exemplares.

A arte imita ou revela a vida?

Diferente de outro filme da DC, V de Vingança (V for Vendetta, 2005. Warner Bros.) na qual a revolta popular fazia parte do projeto planejado de vingança contra o sistema, Arthur e levado pelo sabor dos acontecimentos. Algo que ele causa sem pretensão alguma traz para ele uma enorme satisfação ao ver o palhaço estampado na primeira página dos tabloides. “As pessoas me tratam como se eu não existisse, nem eu mesmo acreditava que não existia, mas eu existo.” Nas manchetes, a população o vê como um vigilante justiceiro, e ele por sua vez, apenas quer ser notado, reconhecido, quer os aplausos.

Anamnese do Palhaço

Este ano, ‘O Homem Morcego’ completa 80 anos do seu lançamento nas bancas de jornal e o Coringa era vilão da edição Batman#1. Aficionados afirmam que somente no filme Batman, 1989, que o diretor Tim Burton que sugere uma correlação entre Batman x Coringa, colocando este arqui-inimigo como o assassino dos seus pais. Neste filme, isto é elevado à enésima potência.

Desempregado, Arthur é notificado que o programa assistencial teve verbas cortadas e que ele não terá acesso as medicações. Ele resolve se apresentar como comediante de Stand up num clube. Ao chegar tarde em casa, coloca sua mãe na cama, que insiste que ele envie pela manhã a carta que ela tinha escrito. A mãe do Arthur sempre manda cartas para o mesmo destinatário, o Sr. Wayne. Conta frequentemente ao seu filho que trabalhou para ele por anos e que aguardava uma resposta para que pudesse ajudá-los a sair da situação de pobreza. Naquela noite, Arthur resolve ler aquela carta e descobre sua mãe pede ajuda a Thomas Wayne alegando que ele é o seu pai.

Ao confrontar a mãe, ela alega que foi obrigada a omitir esta informação ao seu filho porque assinou alguns documentos. Artur vai em busca do seu suposto pai. O Sr. Wayne que rechaça está possibilidade, diz que sua mãe Penny é uma desequilibrada e que ele vai descobrir a verdade nos arquivos dela no asilo Arkham. Perceba a subversão, esta é a primeira vez que vemos o pai do Batman não sendo a figura paterna altruísta que costuma ser pintado nos quadrinhos. Arthur entre a risada involuntária e o choro desesperado, diz ao Sr. Wayne: “Por que todo mundo me trata tão mal? Por quê?”.

Ao voltar para casa, descobre que sua mãe teve um mal estar e precisou ser hospitalizada. Em meio a tudo isto, alguém gravou sua performance no clube de stand up e encaminhou para o talk show da TV. Ele se vê exposto em rede nacional de forma humilhante pelo apresentador/comediante Murray Abraham (não ao acaso, vivido por Robert De Niro, protagonista de Taxi Driver) que diz ironicamente: “Todo mundo acha que consegue fazer meu ofício, este cara não passa de um Coringa (uma gíria para piadista medíocre)”.

Determinado a saber seu passado, vai ao asilo Arkham e consegue furtar o prontuário da mãe. Entre os documentos, descobre papeis de adoção e um extenso arquivo de manchetes de jornal no qual ele criança fora vítima de maus tratos pelos ex-namorados da mãe. Estes abusos ocasionaram o traumatismo craniano que gerou seu riso incontrolável. A mãe era conivente com os maus-tratos e ao ser questionada se não ouvia seu filho chorar ela disse “Não, porque ele sempre estava tão feliz”. Agora que temos uma parte da anamnese, o leitor não sairá daqui com as mãos abanando, recomendo a leitura do texto As Psicologias do Psicopata: o crime e a personalidade” e o artigo para Rollings Stones Neuro criminalista elogia Coringa e considera o filme “uma ótima ferramenta educacional.

That’s Life

Após esta revelação sobre seu passado, Arthur Fleck sai definitivamente de cena. Ao longo do filme, vemos ele subindo pesarosamente com as costas arqueadas, os degraus intermináveis de uma escada que leva a sua casa, assim como Sisifo empurra a pedra de mármore até o topo da montanha. Perto do fim, quem desce a mesma escada dançando e se regurgitando ao assumir a máscara do palhaço como sua identidade é o Coringa.

Convidado como entrevistado, ele vai a caráter ao programa de TV e pede para ser introduzido como tal. Durante a entrevista, o Coringa dispara: “Não há mais civilidade Murray, uns gritam com os outros, as pessoas não são empáticas, não se colocam no lugar do outro. Thomas Wayne espera que eu seja o cara bonzinho, mas não, seremos lobisomens e enlouqueceremos.” Isto não acontece por acaso, em sua tese de mestrado “O Famoso Infame”, Fabricio Marques Franco atribui ao Coringa  ‘sua ausência de regras em suas ações perversas e o gozo desmedido sobretudo e contra todos se mostra o fundamento do seu carisma’ com seu superpoder.

Não é o objetivo deste texto estragar totalmente a experiência de assistir este filme, por isto a maioria dos acontecimentos do filme foi omitido ou deixado no último bloco deste texto, Cenas Pós Crédito.

E quanto a propagada violência do filme? A violência aparece de outra forma, menor que em filmes do gênero de ação; mas contundente, pois serve de espelho para os espectadores. Perturbador, talvez seja, o quanto a identificação do público com o vilão seja orgânica. Principalmente, quando torcem para o Coringa no momento que ele executa seus algozes ou quando riem de cenas que deveriam despertar sensações de aversão e choque.

Enfim, ‘That’s Life de Frank Sinatra, a música que conduz o personagem nesta evolução até se tornar o ‘Palhaço do Crime’, traz em suas estrofes as seguintes frases: “Eu tenho sido um fantoche, um pobre, um pirata / Um poeta, um peão e um rei / Estive de cima a baixo, sem parar / E eu sei uma coisa / Cada vez que me vejo de cara no chão / Eu me levanto e volto à corrida”.  

That’s Life interpretada por Frank Sinatra e uma montagem com cenas do filme

Psicóloga Masilvia Diniz

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Cenas Pós Créditos

Elizabeth Loftus psicóloga americana entre os anos 80/90, postulou a “Síndrome da Falsa Memória”. Uma forma bastante simplista de explicar este conceito é com uma pergunta: o que é a verdade, aquilo que aconteceu, o que acreditamos ter ocorrido? Realizando um experimento social, verificou-se que 24% das pessoas assimilara com verdadeira uma história falsa sobre estar perdido num shopping quando criança. O que isto significa, que é possível que o que acreditamos ser real e mais potente do que os fatos.

Lembra quando eu me referi sobre o passeio na mente de Arthur? O mundo é sombrio e escuro quando é real ou colorido quando vemos suas fantasias da sua mente? O espectador vê que o mundo trata-lo mau, ou o protagonista percebe somente o mundo o tratando o mau? No início do filme, vemos a assistente social dizendo que ele já havia sendo internado, e se ele nunca saiu do hospício? Quem deixaria uma criança vítima de maus-tratos a cargo de uma mulher internada num hospício que foi conivente com a violência com seu próprio filho? Se o pai do Batman fosse mesmo pai do Coringa ele teria abandonado seu filho? Nos anos 80, seria necessário um equipamento gigantesco para gravar a performance de Arthur no clube, por que ele não viu? Principalmente, se uma mulher é perseguida por um stalker, por que teria um relacionamento com ele? A única vez que o diretor pega na mão do espectador e esclarece que relacionamento não era real.  

No fim, o filme se abre um corredor branco de pegadas vermelhas para infinitas possibilidades.

Referências consultadas

Antunes, Debora. Entre o herói e o vilão: uma análise de Coringa e Batman. XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Curitiba, PR – 4 a 7 de setembro de 2009. Disponível em: https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/30880501/R4-0676-1.pdf?response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DEntre_o_heroi_e_o_vilao_uma_analise_de_C.pdf&X-Amz-Algorithm=AWS4-HMAC-SHA256&X-Amz-Credential=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A%2F20191010%2Fus-east-1%2Fs3%2Faws4_request&X-Amz-Date=20191010T040744Z&X-Amz-Expires=3600&X-Amz-SignedHeaders=host&X-Amz-Signature=d522cee01887a402c4530388ff774de07b4066deaa3468b85bbfb7b135c7594e

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Camus, Albert. O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Lisboa. Editora Livros Brasil S/C.

Coringa (Joker). Direção: Todd Phillips: Warner Bros. Pictures, 2019. (121 minutos).

Existencialismo. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Existencialismo&oldid=56404173>. Acesso em: 5 out. 2019.

Franco M, Fabricio. O famoso infame: um estudo sobre a persistência do vilão Coringa nas mídias e sua relevância na cultura midiática. PUC-SP. 2017.

Joker (DC COMICS). In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Joker_(DC_Comics)&oldid=56433989>. Acesso em: 9 out. 

Nietzsche, Friedrich. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Friedrich_Nietzsche&oldid=56087153>. Acesso em: 26 ago. 2019.

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Joker Best Movie Quotes – ‘Is it just me, or is it getting crazier out there?’ (Roteiro completo do filme). Movie Quotes and More. Disponível em: https://www.moviequotesandmore.com/joker-best-movie-quotes/. Acesso em 10 out. 2019.