A Arteterapia é uma prática terapêutica que utiliza a expressão artística como meio de comunicação não verbal, através das diversas linguagens da Arte, onde são aplicadas técnicas terapêuticas, buscando explorar o emocional do indivíduo promovendo um espaço seguro para o autoconhecimento, autoexpressão e reflexão.

Através da arte é possível acessar camadas mais profundas da psique humana que por vezes não conseguem manifestar através das palavras, sendo assim a Arteterapia encoraja o sujeito a explorar seus pensamentos através de esculturas, recortes, poesia, pintura, gravura, escrita criativa, expressão corporais como a dança e o teatro e com diversos materiais, como lápis de cor, giz de cera, canetinha, argila, cartolina, materiais recicláveis etc. Isso possui um poder transformador para o indivíduo que consegue ter novas perspectivas e insights sobre si, promovendo um processo de autocura, que apesar de não substituir tratamentos convencionais, é capaz de reduzir o estresse, melhorar a autoestima, além de ajudar com a ansiedade, depressão e outros transtornos mentais.

É importante destacar que não é necessário ter nenhuma habilidade artística para praticar a Arteterapia já que a proposta da Arteterapia não é criar obras de arte perfeitas e sim, explorar o processo criativo e sensorial.

(Exercício terapêutico pessoal usando vermelho, azul e amarelo, por Caroline Serretiello)

História da Arteterapia

A arteterapia como prática surgiu em 1941, uma de suas pioneiras foi Margaret Naumburg (1890- 1983), usando assim a arteterapia como processo de cura. Ela foi uma psicóloga clínica americana que acreditava no potencial da arte como tratamento de comunicação e expressão não falada. Publicou diversos livros sobre o tema abordando fundamentos teóricos e práticos da Arteterapia (REIS, 2014).

(Margaret Naumburg)

Já no Brasil, uma das maiores influências para arteterapia vem da psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), que revolucionou o tratamento de pacientes psiquiátricos, onde eles eram encorajados a canalizar suas emoções na arte, expressando seus medos, angústias e anseios. Ela acreditava que a expressão artística era uma cura transformadora, em seu livro ‘Imagens do inconsciente’, ela diz:

Apesar de nunca terem pintado antes da doença, muitos dos frequentadores do atelier, todos esquizofrênicos, manifestavam intensa exaltação da criatividade, num contraste com a atividade reduzida de seus autores fora do atelier, quando não tinham mais nas mãos os pinceis (SILVEIRA, 2015, p.15).

(Escultura em homenagem à psiquiatra alagoana Nise da Silveira em Maceió 2019. Foto: Reprodução/Pei Fon/Secom Maceió)

Nise da Silveira cursou a faculdade de Medicina da Bahia sendo a única mulher de sua turma, e suas pesquisas revolucionaram a abordagem tradicional ao tratamento de transtornos mentais ao integrar a expressão artística ao invés dos métodos desumanizados como o tratamento de choque. Para Nise, a arte era uma janela para entrar na psique humana, no qual era possível externalizar todos os conflitos do inconsciente, buscando entender a experiencia de cada indivíduo.

Atualmente, existe um museu dedicado aos trabalhos dos pacientes da Nise da Silveira com cerca de 400 mil obras, o Museu de Imagens do Inconsciente foi inaugurado em 20 de maio de 1952 localizado em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro com horários de visitação de terça a sábado das 10h ás 16h. https://www.museuimagensdoinconsciente.org.br/

(Museu de Imagens do Inconsciente. Foto: Reprodução/Claudio Lara)

Como diz Nise da Silveira (2009 , p.33): “Pensei até em substituir a palavra esquizofrenia pela expressão ‘os inumeráveis estados do ser’ porque a psiquiatria descritiva não dispõe de descrição tão exata para transmitir a dramaticidade das estranhas vivências do esquizofrênico”.

A Simbologia na Arteterapia (arquétipos)

Os Símbolos são elementos visuais que funcionam como ponte entre o consciente e o inconsciente, permitindo a comunicação não verbal. O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) introduziu o conceito de arquétipos como padrões universais de imagens, símbolos e experiencias presentes na humanidade.  Esses arquétipos são fundamentais para entender as respostas emocionais de cada indivíduo de diferentes culturas e contextos.

(Carl Jung. Foto: Divulgação)

Carl Jung identificou vários arquétipos que são padrões universais de pensamento e comportamento presentes no inconsciente coletivo da humanidade. Alguns dos principais arquétipos incluem:

1. O Herói

O Herói é o arquétipo da coragem e da determinação. Representa a jornada de superação de desafios e adversidades, muitas vezes envolvendo uma missão que beneficia a sociedade ou um grupo específico. Este arquétipo é exemplificado por figuras como super-heróis ou até mesmo o protagonista de uma história (mocinho) como Harry Potter (1997).

(Henry Cavill interpretando o Superman no filme O Homem de Aço (2013). Foto: Divulgação)

2. O Mentor

O Mentor é o arquétipo da sabedoria e orientação. Ele serve como guia, oferecendo suporte, conselhos e ensinamentos ao Herói. Este arquétipo pode ser encontrado em personagens como Gandalf de “O Senhor dos Anéis” (1954) e Dumbledore de “Harry Potter” (1997), que proporcionam não apenas conhecimento, mas também inspiração e confiança.

(Gandalf, personagem da série de livros “O Senhor dos Anéis”, escrito por J.R.R. Tolkien [1892-1973]. Foto: Divulgação)

3. O Guardião

O Guardião é o arquétipo da proteção e da segurança. Representa o desejo de proteger o que é valioso e de manter a ordem e a estabilidade. Pode se manifestar em figuras de autoridade ou protetores que garantem a segurança e o bem-estar de um grupo ou indivíduo como por exemplo o Rúbeo Hagrid de harry Potter (1997).

(Rúbeo Hagrid, personagem da série de livros “Harry  Potter”, escrito por J. K. Rowling  [1965-]. Foto: Divulgação)

4. O Explorador

O Explorador busca a aventura e a descoberta. Este arquétipo é movido pela curiosidade e pelo desejo de explorar o desconhecido, muitas vezes desafiando as convenções e se aventurando para além dos limites estabelecidos, na cultura pop por exemplo, vemos esse arquétipo em personagens como Indiana Jones (1981) e Lara Croft, da série de videojogos “Tomb Raider” (1996).

(Filme indiana Jones: Os Caçadores da Arca Perdida  dirigido por James Mangold e Steven Spielberg  [1981]. Foto: Reprodução)

5. O Rebelde

O Rebelde é o arquétipo da mudança e da ruptura. Ele desafia normas e sistemas estabelecidos, buscando inovação e transformação. Este arquétipo é exemplificado por figuras como Katniss Everdeen de “Jogos Vorazes” (2008) e Tyler Durden de “Clube da Luta” (1999) que lutam contra o status em busca de um mundo mais justo.

(Katniss Everdeen personagem da série de livros “Jogos Vorazes”, escrito por Suzanne Collins [1962-]. Foto: Divulgação).

6. O Amante

O Amante representa a paixão, o desejo e a conexão profunda com os outros. Este arquétipo é movido pelo amor e pela beleza, buscando experiências emocionantes e gratificantes. Personagens como Romeu e Julieta (1597) são representações desse arquétipo.

(Romeu e Julieta [1886] de Francisco Sidney Muschamp [1851–1929]. Foto: Reprodução)

7. O Sábio

O Sábio é o arquétipo da busca pelo conhecimento e pela verdade. Ele é o buscador da sabedoria e da compreensão profunda, frequentemente oferecendo insights e discernimento que ajudam a iluminar o caminho dos outros. Este arquétipo pode ser encontrado em figuras como o filósofo Sócrates e o Sr. Miyagi, famoso personagem do filme “Karate Kid” (1984).

(Busto de Sócrates no Museu do Vaticano. Foto: Reprodução)

8. O Bobo

O Bobo é o arquétipo do humor e da leveza. Ele traz alegria e alívio, muitas vezes desafiando as normas e fazendo críticas através da ironia e do humor. O Bobo pode ser visto em personagens como o bobo da Corte e o Puck de “Sonho de uma Noite de Verão” (1595). Também conhecido como Trickster.

(Duende Puck, personagem de “Sonho de Uma Noite de Verão” [1595], pintado por Arthur Rackham [1867 – 1939] em 1910. Foto: Reprodução).

9. O Cuidador

O Cuidador é o arquétipo da empatia e da proteção. Ele é dedicado ao bem-estar dos outros e está sempre pronto para ajudar e apoiar aqueles em necessidade. Figuras como a Madre Teresa (1910 -1997) e Dory de “Procurando Nemo(2003)exemplificam esse arquétipo, dedicando suas vidas ao serviço e ao cuidado dos outros.

(Filme “Procurando Nemo”, animação da Walt Disney lançado em 2003. Foto: Divulgação)

10. O Criador

O Criador é o arquétipo da inovação e da expressão artística. Ele busca trazer algo novo ao mundo, muitas vezes desafiando convenções e criando obras que inspiram e transformam. Este arquétipo se reflete em artistas, inventores e visionários como Leonardo da Vinci (1452-1519) e Steve Jobs (1955 – 2011).

(Reprodução/BBC)

11. O Governante

O Governante é o arquétipo da liderança e da responsabilidade. Ele busca estabelecer ordem e criar um impacto duradouro através da autoridade e do poder. Personagens como Júlio César (100 a.C – 44 a.C) e Mufasa (de O Rei Leão, 1994) exemplificam esse arquétipo, liderando e guiando com visão e determinação.

Filme “O Rei Leão”, animação da Walt Disney lançada em 1994. Foto: Divulgação)

12. O Inocente

O Inocente é o arquétipo da pureza e da esperança. Ele representa a visão otimista e a fé na bondade fundamental da vida, muitas vezes mantendo uma perspectiva ingênua, mas esperançosa. Exemplos incluem a Alice do País das Maravilhas (1865), escrito por Lewis Carrol (1832-1898)  e a figura do Pequeno Príncipe (1943), personagem criado pelo francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) que mantém a simplicidade e a fé na bondade do mundo.

(O pequeno príncipe, personagem da série de livros “O Pequeno Príncipe”, escrito por Antoine de Saint-Exupéry [1900-1944]. Foto: Divulgação)

Esses arquétipos são fundamentais na teoria de Jung para explicar padrões de comportamento, mitos, símbolos e sonhos, refletindo aspectos universais da experiência humana.

As obras de William Shakespeare (1582 a 1616) são um excelente exemplo de como esses arquétipos podem ser incorporados para explorar aspectos fundamentais da sociedade, por isso existe uma identificação imediata com as suas obras. Os arquétipos, ajudam a construir personagens que são universais e atemporais, permitindo que suas histórias ressoem profundamente com o público ainda nos dias de hoje.

No Tarô, também podemos ver estes arquétipos representado nas cartas, o tarot espelha o inconsciente sendo que cada arquétipo contido em suas cartas está presente na mente universal como diz o livro “o Tarô na arteterapia”.

O tarô na arteterapia retrata a conexão e a restauração entre o eixo ego-self, representando situações arquetípicas e necessárias à rendição do ego contribuindo para o restabelecimento e o desenvolvimento da consciência neste processo de individualização. (REIS, 2023, p.35).

Conclusão

A arteterapia é um trabalho contínuo de ambos os lados, do indivíduo e do arte terapeuta, é um processo de metamorfose que vai muito além de um dote, é um trabalho de autodescoberta, autoaceitação e autocuidado, que não é um caminho simples, pois, muitas vezes somos inclinados a não lidar com conflitos internos, reprimindo para si, e não sabendo o que fazer depois.

O desígnio da arte terapeuta é justamente ajudar o indivíduo a estourar essa bolha, trazer à tona uma visão mais panorâmica de si, enxergar além do que se está visível, ajudar em suas relações pessoais e interpessoais e sobretudo se autoconhecer.

A Arteterapia, ao unir criatividade e psicologia, não só ajuda a aliviar o estresse e melhorar a autoestima, mas também promove uma jornada de autodescoberta e crescimento pessoal, reafirmando a importância da expressão artística como um caminho para a saúde e a transformação interior.

Como diz Calligaris (2023, p.127): “A experiência da vida é uma experiência criativa de uma obra de arte. A vida de cada um de nós é uma obra de arte”.

Portanto, pinte, cante, dance, seja criativo, deixe florescer, a vida com certeza será mais colorida após isso.

por Caroline Serretiello

Referências Bibliográficas

CALLIGARIS, C. O sentido da vida. São Paulo: Paidós, 2023.

DUCHASTEL, A. O caminho do imaginário: o processo de arte-terapia. São Paulo: Paulus, 2010.

JUNG, C.G. (org.) O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Harper Collins. 2016

MELLO, L.C (org.) Encontros: Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Azogue, 2009.

REIS, A. C. dos .. (2014). Arteterapia: a arte como instrumento no trabalho do Psicólogo. Psicologia: Ciência E Profissão, 34(1), 142–157. https://doi.org/10.1590/S1414-98932014000100011

REIS, E.M. O tarô na arteterapia. São Paulo: Madras, 2023.

SILVEIRA, N. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 2015.


5 comentários

Caroline Serretiello · 2 de setembro de 2024 às 16:15

Obrigada pela oportunidade de divulgar o meu texto, estou imensamente grata.

Milena Alessandra · 2 de setembro de 2024 às 16:34

Expansão de consciência
Antepassados

Ivanilson José Neves · 2 de setembro de 2024 às 18:08

Com certeza é um método diferente , mais eficaz para a ajuda de pessoas .

Larissa Barros · 3 de setembro de 2024 às 12:53

Adorei o texto, foi muito bom conhecer mais sobre os arquétipos. Tenho um exemplo em casa de como a Arteterapia pode ser benéfica para enfrentar momentos difíceis.

Fernando José serretiello · 4 de setembro de 2024 às 07:36

Com certeza esse método vai ajudar muitas pessoas,e descobrir que além de ajudar cada um ainda vai descobrir uma arte escondida dentro dela

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