Em 1993, Tim Burton e Henry Selick trouxeram às telas um personagem que sintetiza, com uma precisão quase desconcertante, um dos conceitos mais fundamentais da psicanálise lacaniana: o Estádio de Espelho. Jack Skellington, o Rei da Abóbora de O Estranho Mundo de Jack, não é apenas um esqueleto melancólico que se apaixona pelo Natal. Ele é, antes de tudo, um sujeito que se depara com sua própria imagem refletida em algo que não é ele — e que, mobilizado por esse encontro, parte em direção a uma identificação fadada ao fracasso.

O encontro com o espelho

A cena é conhecida: Jack tropeça, quase por acaso, nas portas encantadas que levam a outros mundos temáticos. Ao abrir a porta do Natal, ele é inundado por cores, cheiros, luzes e uma atmosfera que lhe escapa completamente. Ele não reconhece aquele mundo — mas, paradoxalmente, reconhece nele algo que lhe falta. O espaço do Natal funciona, narrativamente, como o espelho lacaniano: uma imagem exterior, coerente, unificada, que oferece ao sujeito uma completude que ele não possui em si mesmo.

É exatamente isso que Lacan descreve em O Estádio de Espelho Como Formador da Função do Eu. O sujeito, partindo de uma experiência interna de fragmentação — o corpo em pedaços, a insuficiência do Innenwelt —, depara-se com uma imagem especular que lhe promete totalidade. A criança diante do espelho reconhece uma forma coesa onde, até então, só havia dispersão. Jack, diante do Natal, reconhece uma plenitude onde, até então, só havia o vazio repetitivo de seus rituais de Halloween.

“O rompimento do círculo do Innenwelt para o Umwelt gera a quadratura inesgotável dos arrolamentos do eu.”

Jacques Lacan, Escritos, 1966

Escrevi sobre essa afirmação em um dos meus primeiros textos publicados aqui na Sociedade.

O Innenwelt de Jack — seu mundo interno, seu universo do terror e da melancolia — não é suficiente. Ele sente isso com toda a clareza na canção de abertura do filme: “And since I am dead, I can take off my head to recite Shakespearean quotations / No animal nor man can scream like I can with the fury of my recitations / But who here would ever understand that the Pumpkin King with the skeleton grin would tire of his crown, if they only understood… [E já que estou morto, posso tirar minha cabeça para recitar citações de Shakespeare / Nenhum animal nem homem pode gritar como eu com a fúria das minhas recitações / Mas quem aqui entenderia que o Rei Abóbora com o sorriso esquelético se cansaria de sua coroa, se ao menos entendessem…]”. Há ali um sujeito que se sente estrangeiro a si mesmo, incapaz de coincidir com a imagem que projeta e que o mundo ao redor lhe devolve.

Da insuficiência à antecipação

O movimento que Lacan descreve no Estádio de Espelho é preciso: o sujeito parte da insuficiência — a vivência de um corpo ainda incoordenado, de um eu ainda não constituído — e antecipa uma imagem de si mesmo que ainda não é, mas que deseja ser. Essa antecipação é fundante; ela é o que nos faz sujeitos desejantes. Mas ela carrega em si uma impossibilidade estrutural: a imagem antecipada é sempre o Outro, e o Outro está sempre além.

Jack não apenas admira o Natal — ele decide que será o Natal. Ele estuda, analisa, disseca (literalmente, com a precisão científica de um espírito curioso), e então convoca a si mesmo e aos habitantes de Halloween para realizarem o Natal daquele ano. A antecipação é total: Jack já se vê no lugar de Papai Noel, já se imagina completado pela imagem que viu no espelho da floresta encantada.

O que se segue é uma sequência de fracassos que o roteiro de Caroline Thompson e o diretor Henry Selick constroem com uma crueldade poética admirável: os presentes são monstruosos; as crianças choram; o Exército e a Guarda Nacional disparam contra o trenó. O mundo que Jack tentava habitar, a imago que tentava incorporar, não se deixa apropriar. Porque, como Lacan nos ensina, a correspondência entre o sujeito e sua imagem ideal é geometricamente impossível — uma quadratura do círculo, um quadrado que jamais preencherá a área do círculo que o contém.

O conflito entre o Imaginário e o Real

A teoria lacaniana organiza a experiência subjetiva em três registros: o Simbólico, o Imaginário e o Real. O Estádio de Espelho opera fundamentalmente no registro do Imaginário — é o domínio das imagens, das identificações, das semelhanças e rivalidades. Quando Jack decide ser o Natal, ele está completamente capturado pelo Imaginário: a imagem do Natal como promessa de plenitude domina sua percepção e sua ação.

Mas o Real — aquilo que resiste à simbolização, que não se deixa capturar pela imagem — irrompe com violência: os presentes que deveriam trazer alegria, trazem terror; o trenó que deveria cortar o céu noturno com graça é alvejado por mísseis; acriança que deveria sorrir ao abrir o embrulho grita. O conflito entre o Imaginário (a imagem idealizada que Jack antecipou) e o Real (a irrupção do que não pode ser controlado ou incorporado) constitui o núcleo dramático do filme. É também um conflito profundamente humano. Não há sujeito que não tenha vivido, em alguma medida, a experiência de se descobrir estrangeiro à imagem que havia antecipado de si mesmo.

Além da constituição: o espelho na vida adulta

É comum que o Estádio de Espelho seja apresentado como um momento de passagem — a transição do auto-erotismo para o narcisismo, da dispersão pulsional para a constituição de um eu unificado (ainda que fictício). Lacan o situa, em seu texto de 1949, como um momento inaugural da subjetividade. Mas seria um equívoco reduzi-lo a uma fase do desenvolvimento infantil, como se, uma vez constituído o eu, o espelho deixasse de agir.

A dinâmica do espelho — a busca por uma imagem ideal que prometa completude, o movimento da insuficiência à antecipação, o fracasso inevitável da correspondência — reaparece ao longo de toda a existência. Ela aparece no adolescente que tenta corresponder à imagem do grupo de pertencimento. No adulto que, ao mudar de emprego, de cidade ou de relação amorosa, acredita encontrar, finalmente, a versão de si mesmo que esteve procurando. No profissional que, ao assumir um novo cargo, descobre que a imagem que projetava sobre aquela posição não coincide com a experiência real de ocupá-la.

Jack, afinal, não é uma criança em desenvolvimento. Ele é o Rei da Abóbora — uma figura estabelecida, reconhecida, temida e admirada em seu reino. E ainda assim o espelho o captura. Ainda assim ele parte, com toda a urgência do desejo, em direção a uma imagem que lhe promete ser mais do que é. Isso não é uma regressão ou uma imaturidade: é a estrutura mesma do desejo humano.

Lacan é preciso ao afirmar que o desejo é sempre o desejo do Outro. Não desejamos apenas objetos ou estados — desejamos ser desejados pelo Outro, queremos que o Outro nos reconheça na imagem que antecipamos de nós mesmos. Jack não quer apenas organizar o Natal: ele quer que o mundo lhe devolva, naquele ato, uma imagem de completude que ele não encontra em Halloween. O fracasso de Jack é, portanto, o fracasso de todo sujeito que busca, no olhar do Outro, a confirmação de uma imagem que o próprio Outro não pode oferecer — porque essa imagem nunca existiu fora do Imaginário que a gerou.

O espelho partido e o reencontro consigo

Há um momento de virada no filme que merece atenção. Quando o trenó de Jack é abatido e ele cai entre as ruínas de um cemitério — entre fragmentos de seu próprio domínio —, Jack tem uma espécie de reconhecimento. Ele nomeia o que havia se passado: ele não era o Natal. Ele é Halloween. A imagem antecipada se desfaz, e o sujeito precisa fazer algo com os cacos.

Do ponto de vista lacaniano, não há resolução definitiva para a quadratura do círculo. O sujeito não se “cura” do Imaginário — ele continua sendo constituído por ele. Mas há algo que o filme sugere com elegância: a possibilidade de uma relação diferente com a própria insuficiência. Jack não encontra a completude — ele encontra Sally. E Sally, ao contrário do Natal, não é uma imagem: é um outro sujeito, igualmente fragmentado, igualmente incompleto. O encontro entre dois incompletos não produz a totalidade sonhada, mas produz algo mais honesto — e, talvez, mais sustentável.

Há nesse desfecho uma lição que extrapola a ficção e toca a clínica: o que o espelho promete (a completude, o eu ideal, a correspondência perfeita entre sujeito e imagem) é estruturalmente irrealizável. Mas é justamente essa impossibilidade que nos mantém desejantes — que nos mantém, afinal, vivos enquanto sujeitos.

Referências

Lacan, J. Escritos (1966). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 96–103. Trad. Vera Ribeiro.

Lacan, J. O Seminário, Livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953–54). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

Burton, T. (prod.); Selick, H. (dir.). The Nightmare Before Christmas. Walt Disney Pictures / Touchstone Pictures, 1993.

Freud, S. “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914). In: Obras Completas, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Por Caio Ferreira


0 comentário

Deixe um comentário

Avatar placeholder

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *