As 3 Grandes Forças em Psicologia

Psicologia? Psicanálise? Behaviorismo? Gestalt-Terapia? Perls? Skinner? Freud? Como é estruturado o saber psicológico? O que é o que?

O texto de hoje visa explanar sobre as chamadas 3 Grandes Forças em Psicologia, a fim de traçar uma organização teórica e cronológica acerca do behaviorismo, psicanálise e das linhas humanistas-existenciais.

A Psicologia enquanto ciência

Wundt e estudantes de psicologia em Leipzig

1879 é considerado o ano de nascimento da psicologia. Naturalmente que já se falava de psicologia e de temas como mente, comportamento, felicidade, sofrimento, percepção, inteligência, emoção, saúde, doença, entre outros tópicos basilares, desde a antiguidade, porém, 1879 é o ano em que W. M. Wundt (1832-1920) funda o 1º laboratório de psicologia experimental (Psychologische Institut, na Universidade de Leipzig – Alemanha). É a partir dessa data que a psicologia começa a criar um campo de conhecimento próprio, com metodologia própria e separada do saber filosófico.

Esta ciência tem de investigar os fatos da consciência, suas combinações e relações, de tal modo que possam, finalmente, descobrir as leis que governam tais relações e combinações.

(Wundt, 1912/1973, p. 1)

Os primeiros psicólogos experimentais (além de Wundt vale citar Ernst Heinrich Weber [1795-1878] e Gustav Theodor Fechner [1801-1889]) se debruçaram sobre temas como consciência, introspecção, sensação e percepção, limiares de percepção, atenção e emoções, por exemplo e utilizaram, principalmente, técnicas da chamada psicometria e psicofísica, para analisar e medir esses fenômenos.

A partir dessas investigações surgem ramificações, movimentos e escolas próprias como o estruturalismo, o funcionalismo, o behaviorismo (1ª grande força), a psicanálise (2ª grande força) e a psicologia humanista-existencial (3ª grande força). Essas correntes psicológicas são arcabouços teórico-práticos que influenciam a forma com que o psicólogo compreende e intervém sobre as questões humanas.

1ª Grande Força em Psicologia: o Behaviorismo

skinner, watson e pavlov
(Skinner, Watson e Pavlov com um cão, respectivamente)

O behaviorismo (ou comportamentalismo) nasce como uma crítica ao introspeccionismo e às teorias mentalistas (como a psicanálise), isto é, quando o indivíduo busca acessar, se conscientizar e relatar seus estados internos. Para os behavioristas, o introspeccionismo é falho e, além de fornecer informações errôneas, afasta a psicologia do seu verdadeiro objeto de estudo – o comportamento.

O problema mentalista pode ser evitado com procurarmos diretamente as causas físicas anteriores, desviando-nos dos sentimentos ou estados mentais intermediários. A maneira mais rápida de fazer isto consistem em limitarmo-nos àquilo que um dos primeiros behavioristas, Max Meyer, chamou de “a psicologia do outro”; considerar apenas aqueles fatos que podem ser objetivamente observados no comportamento de alguém em relação com a sua história ambiental prévia. Se todas as ligações são lícitas, não se perde nada por desconsiderar uma ligação supostamente imaterial.

(Skinner, 1974/2006, p. 16)

Dessa forma, essa corrente da psicologia se debruçou sobre o que pode ser observado e mensurado diretamente, isto é, o ambiente e o comportamento da pessoa, ou seja, as contingencias ambientas e comportamentais (estímulos anteriores e posteriores referentes à uma ação).

Podemos entender estímulo como “uma alteração detectável no meio em que o indivíduo está inserido” (Lombard-Platet, Watanabe & Cassetari, p. 37, 2008), o que compreende, por exemplo, alterações na luminosidade, temperatura, sons, cheiros e qualquer coisa captada pelos órgãos sensoriais. O comportamento, em um primeiro momento, tem ser uma ação observável e mensurável, isto é, o behaviorista não analisa o “sofrer” ou a “diversão”, mas pode analisar, em intensidade e frequência, o chorar, a diminuição da fala, a mudança na postura, o gritar, o sorrir, o pular, o correr…. Também falamos de comportamentos involuntários (respondentes, como alteração de pupila, sudorese, salivação, erubescer…) e voluntários (operantes, como acender a luz, pegar uma revista, andar até a padaria…). De uma forma resumida, os comportamentos involuntários são eliciados pelos estímulos antecedentes (condicionamento clássico, pavloviano ou respondente) enquanto os comportamentos voluntários são emitidos, reforçados, punidos ou extintos pelas suas consequências – o estímulo posterior (condicionamento operante). Com o avanço da corrente behaviorista passou-se a falar também dos chamados comportamentos encobertos, isto é, aqueles que não são observados diretamente por outrem (como pensar, sonhar, imaginar…). É importante dizer também que seu desenrolar/legado fez nascer a TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental.

Autores do Behaviorismo

Os 3 principais e “clássicos” autores do behaviorismo são I. Pavlov (1849-1936), responsável pela descoberta do comportamento respondente; J. B. Watson (1878-1958), considerado o fundador da corrente, pai do behaviorismo metodológico e famoso pelo experimento do pequeno Albert; e B. F. Skinner (1904-1990), pai do behaviorismo radical, que ampliou as “Leis do Efeito” (de E. L. Thorndike) enquanto compreensão do comportamento operante, grande autor sobre processo de aprendizagem, criador da Caixa de Skinner, famoso pelos experimentos e demonstrações com ratos e pombos.

2ª Grande Força em Psicologia: a Psicanálise

consciente inconsciente id ego superego
(Representação da compreensão Freudiana sobre o aparelho psíquico humano: 1ª e 2ª tópica)

Aqui temos o papel do influente Sigmund Freud (1856-1939) e a importância da vida psíquica inconsciente, onde emergem temas como psicossomática, desenvolvimento psicossexual, neurose, histeria, mecanismos de defesa, sonhos, desejos e censuras. A psicanálise nasce na psicologia e dialoga, principalmente, com a psicologia clínica, todavia, hoje ela está para além da questão clínica, aparecendo como uma forma de estudar os aspectos dinâmicos da sociedade, economia, política e pensamento. Dessa forma, hoje temos muitos psicanalistas que não são psicólogos, mas possuem formação básica em filosofia, sociologia, medicina, letras e outras graduações. Falamos também de psicanálises, isso pois se trata de uma das linhas teórico-práticas que mais apresentam diferenças conceituais e intervencionistas de autor para autor, o costuma causar confusões naquilo que diz respeito às compreensões iniciais na temática. Mas, independente das diferenças do psicanalista em questão e como ele vai compreender aspectos do psiquismo, as psicanálises se aproximam quando compreendem um processo de conhecimento/tratamento/cura que, necessariamente e para sua efetividade, precisa passar pelo outro. Isto é, só sei de mim, pelo outro – e sobre essa questão específica, recomendo o seminário A Utopia do Autoconhecimento, veiculado no Café Filosófico, por Ricardo Goldenberg.

As psicanálises também costumam compartilhar a questão da transferência, isso é, padrões específicos relacionados às relações interpessoais passadas que direcionam a forma como a relação presente se manifesta e se estabelece – a transferência diz sobre seu portador e seu manejo pode ressignificar/resolver conflitos reprimidos. A noção da influência dos processos inconscientes também é basilar sobre o discurso do sujeito (discurso aqui, não compreende apenas a fala).

Digamos que alguém — um paciente em análise, por exemplo — nos relata um de seus sonhos. Nós supomos que desse modo ele faz uma das comunicações que se comprometeu a fazer iniciando um tratamento psicanalítico. Uma comunicação com meios inadequados, é certo, pois o sonho não é uma expressão social, um meio de entendimento. Não compreendemos o que ele quer dizer, e ele próprio não sabe o que é. Então temos que tomar rapidamente uma decisão: ou o sonho, como nos asseguram os médicos que não são psicanalistas, é um indício de que a pessoa dormiu mal, de que nem todas as partes do seu cérebro descansaram igualmente, de que alguns pontos quiseram continuar trabalhando, sob a influência de estímulos desconhecidos, e só puderam fazê-lo de modo bastante incompleto. Se assim for, será correto não nos ocuparmos mais do produto — psiquicamente sem valor — da perturbação noturna; pois o que tal pesquisa traria de útil para nossos propósitos? Ou então — percebemos que desde o início já decidimos de outra forma. Fizemos o pressuposto, adotamos o postulado — bem arbitrariamente, deve-se admitir — de que também esse sonho incompreensível teria de ser um ato psíquico inteiramente válido, de sentido e valor plenos, que podemos usar como qualquer outra comunicação na análise.

(Freud, 2010 pp. 95-96)

O clínico Freud foi influenciado, principalmente, por J.-M. Charcot (1825-1893), com quem aprendeu sobre histeria e hipnose, e J. Breuer (1942-1925) com quem estudou o método catártico (a cura pela fala). Sua obra é grande, estruturada e desenvolve o nascimento da psicanálise por meio de contato com outros saberes (biologia, física e literatura) e por meio dos processos de análise clínica e da autoanálise do próprio Freud.

Durante muito tempo, o aspecto mais conhecido e discutido da obra de Freud era o da teoria da libido, que ele elaborou inspirado nos modelos da eletrodinâmica ou da hidrodinâmica vigentes na ciência da época. Assim, o conceito de libido, que Freud concebeu como sendo a manifestação psicológica do instinto sexual, recebeu sua origem na tentativa de explicar fenômenos, tais como os da histeria, que Freud explicava como sendo resultantes do fato de que a energia sexual era impedida de expandir-se através de sua saída natural e fluía, então, para outros órgãos, ficando restringida ou contida em certos pontos e manifestando-se através de sintomas vários. Freud chegara à conclusão de que as neuroses, como a histeria, a neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia (fobia), teriam sua causa imediata no aspecto “econômico” da energia psíquica, ou seja, num represamento quantitativo da libido sexual.

(Zimerman, 2007, p.23)

Autores da Psicanálise

Para além do próprio Freud, podemos citar a influência de nomes como J. Lacan (1901-1981), que propôs um retorno sistemático à obra de Freud e a relacionou com os saberes da antropologia, linguística e estruturalismo, além de ter desenvolvido conceitos como Real, Simbólico e Imaginário; M. Klein (1882-1960), expoente da chamada “escola inglesa de psicanálise” foi uma das primeiras psicanalistas a atender crianças e sua contribuição se dá, principalmente, na compreensão dos componentes e fenômenos associados à vida psíquica primitiva; D. Winnicott (1896-1971) que abordou o papel do ambiente-cuidador para com o desenvolvimento emocional do sujeito e trouxe, entre outros, os conceitos de criatividade primária e tendência antissocial.

3ª Grande Força em Psicologia: a Psicologia Humanista-Existencial

Como uma reação ao behaviorismo e à psicanálise, a partir da segunda metade dos anos 1950 (e ganhado maior desenvolvimento e destaque durante as duas décadas posteriores), surge a 3ª Força. Contrária a uma visão determinista do homem (seja pela questão dos condicionamentos comportamentais ou pelo determinismo do inconsciente), ela valoriza a experiência consciente e trabalha com tópicos como: livre arbítrio; autorrealização; criatividade; esperança; potencial; sentido; contato; decisão; congruência; responsabilidade; entre outros…

(Abraham Maslow)

Seu fundador é considerado A. Maslow (1908-1970), famoso por desenvolver a “pirâmide hierárquica das necessidades básicas” e quem primeiro cunhou o termo “psicologia positiva“, em uma contraposição à chamada “psicologia negativa” – tradicional e focada na doença, no transtorno, no sofrimento e em seu tratamento/cura. Dessa forma, a Psicologia Humanista incorporou a visão de homem e mundo referente aos movimentos intelectuais do humanismo, do existencialismo e da fenomenologia. Dentro dela, vamos encontrar abordagens distintas como a Gestalt-Terapia, a Abordagem Centrada na Pessoa, ou a Logoterapia, por exemplo, onde cada uma tem suas particularidades clínicas e acabam por se aproximar mais do humanismo ou do existencialismo, a depender da linha téorico-prática, mas todas fazem parte da 3ª força que, segundo Schultz & Schultz (2008), integra os seguintes pontos essenciais:

  1. uma ênfase na experiência consciente;
  2. uma crença na integralidade da natureza e da conduta do ser humano;
  3. a concentração no livre-arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do indivíduo;
  4. o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição humana.

Dentre as abordagens clínicas dessa corrente psicológica, aquela que mais me identifico e acabei por estudar é a Gestalt-Terapia (não confundir com Psicologia da Gestalt). Essa abordagem é sempre uma terapia do contato e seu manejo é pautado no aqui-agora, sendo que a relação terapeuta-paciente funciona do ponto de vista dialógico, onde o terapeuta confronta e frustra o paciente que tenta se esquivar ou fugir do seu contato e experiência com o presente. A fenomenologia pauta o setting clínico e, desta forma, a interpretação não é adequada, mas sim a descrição. A farsa, as atuações e as incongruências não se sustentam na Gestalt-Terapia, uma vez que são valorizadas e validadas as experiências mais espontâneas e verdadeiras de alguém.

Gestalt-terapia é uma das forças rebeldes, humanistas e existenciais da psicologia, que procura resistir à avalanche de forças autodestrutivas, autoderrotistas, existentes entre alguns membros de nossa sociedade. Ela é “existencial” num sentido amplo. […] Nosso objetivo como terapeutas é ampliar o potencial humano através do processo de integração. Nós fazemos isto apoiando os interesses, desejos e necessidades genuínas do indivíduo.

(Perls, 1977, p.19)

A Gestalt-Terapia deve ser experimentada para melhor compreensão – ela não se basta enquanto teoria. Caso tenha curiosidade em saber como é uma sessão com abordagem gestáltica, recomendamos que participe de uma 😉 E recomendamos também que assista um, das várias sessões gravadas, com F. Perls – pai da GT. (após esse vídeo, colocamos também um atendimento de Carl Rogers, com a mesma mulher, para finalidades didáticas e comparativas).

Autores da Psicologia Humanista-Existencial

Como já foi dito antes, há abordagens mais humanistas e outras mais existenciais. C. Roger (1902-1987) pai da Abordagem Centrada na Pessoa e dos Grupos de Encontro, estudou sobre o crescimento pessoal, as relações interpessoais e os processos experienciais; F. Perls (1893-1970) ex-psicanalista, pai da Gestalt-Terapia, contribuiu naquilo que diz respeito à visão holística sobre o indivíduo, sobre o papel do terapeuta na conscientização das incongruências, bem como sobre as dificuldades da pessoa em experienciar e desfrutar do presente. V. Frankl (1905-1997), pai da Logoterapia, tem uma abordagem mais existencialista que se relaciona com a temática do sentido da vida – que começou a ser desenvolvida quando esse foi prisioneiro em um campo de concentração nazista.

Referências

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras.

Lombard-Platet, V. L. V.; Watanabe, O. M. & Cassetari, L. (2008). Psicologia experimental: Manual teórico e prático de análise do comportamento. São Paulo: Edicon.

Schultz, D. P. & Schultz, S. E. (2008). História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning.

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Stevens, J. O. (Perls, F. et al.) (1977). Isto é Gestalt. São Paulo. Summus.

Wundt, W. (1912/1973). An introduction to psychology. Translation R. Pintner. London: George Allen & Company, Ltd.

Zimerman, D. E. (2007). Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

A Psicologia Positiva e o Estudo da Felicidade

Psicologia positiva no Brasil
Construtos teóricos identificados em revisão sistemática da literatura científica brasileira associada à psicologia positiva (Pureza et al., 2012).

A psicologia deve olhar para a doença ou para a saúde? A psicologia detém a visão completa do comportamento humano? Para onde ela deve olhar, se quiser avistar as “leis do comportamento”?

Dentro da psicologia contemporânea, um tópico que vem ganhando relevância nos últimos anos é o da Psicologia Positiva (PP). Crítica à tradicional ênfase dada sobre doenças e transtornos mentais, a psicologia positiva visa expandir o alcance/atuação da psicologia e resgatar suas missões, principalmente naquilo que diz respeito à investigação, classificação e desenvolvimento de qualidades positivas. É um paradigma teórico que implica na análise de fenômenos como bem-estar; satisfação em determinadas áreas da vida; experiências de flow; emoções positivas; saúde geral; auto-estima, habilidades sociais; e felicidade (Pureza et al., 2012).

A 3ª Força da Psicologia

A psicologia positiva começa a brotar com a chamada 3ª Grande Força da Psicologia. Esse movimento psicológico foi inicialmente desenvolvido durante as décadas de 1950 e 1960 e se caracteriza por ter abordagens teóricas vindas da corrente humanista. Em resumo, a 1ª Grande Força é considerada o behaviorismo e a 2ª Grande Força a psicanálise. No behaviorismo é apresentado o valor das contingências ambientais que antecedem e sucedem o comportamento; na psicanálise é apresentado o valor da vida psíquica inconsciente e seus impactos para com a nossa forma de se sujeitar no mundo; na vertente humanista, é apresentado o valor da vida psíquica consciente e do real contato consigo e com o outro.

Na 3ª Grande Força encontramos abordagens e autores como a Gestalt-Terapia e Fritz Perls; a Abordagem Centrada na Pessoa e Carl Rogers; ou a Logoterapia e Viktor Frankl, por exemplo. Essas abordagens e autores possuem diferenças e peculiaridades que as tornam únicas e singulares – mas todas partilham do legado comum proveniente da filosofia humanista – o que afeta sua visão de homem e de mundo. Vale dizer que a PP não se configura como mais uma linha/abordagem teórico-prática, mas sim como uma filosofia e conduta do psicólogo.

O pai da psicologia humanista é considerado Abraham Maslow, psicólogo estadunidense que viveu entre 1908 e 1970. Foi ele quem deu credibilidade científica aos fenômenos observados, mas que, muitas vezes, é apenas lembrado e citado por sua pirâmide hierárquica das necessidades humanas. Foi Maslow quem começou a (re)abrir os olhos para o foco das investigações e dos rumos que a psicologia havia tomado. Ele se interessou pelo estudo do crescimento e desenvolvimento do potencial humano, e defendeu a psicologia como um instrumento de promoção do bem-estar social e psicológico. Maslow também foi o 1º a utilizar o termo psicologia positiva, comparando-a com uma psicologia negativa, em seu livro Motivation and Personality, de 1954. (Kamei, 2018).

A psicologia tem sido mais bem-sucedida no lado negativo do que no positivo; revelou-nos muito sobre as falhas humanas, suas doenças, seus pecados, mas pouco sobre suas potencialidades, virtudes, aspirações e seu auge psicológico.

(Maslow)

Dr. Abraham Maslow durante aula proferida na Universidade de Brandeis, em 1968.

A APA e a Psicologia Positiva

Building human strength: psychology’s forgotten mission

No final de 1997, Martin E. P. Seligman, psicólogo estadunidense nascido em 1942, foi eleito Presidente da American Psychological Association (APA) e, juntamente, com Mihaly Csikszentmihalyi (o pai do “estado flow”), psicólogo húngaro nascido em 1934, começaram a publicar e empregar recursos em prol da difusão da psicologia positiva, como edições especiais de publicações, revistas científicas, convenções e encontros.

Em 1998, Seligman escreveu, na coluna presidencial do APA Monitor, o artigo “Building human strength: psychology’s forgotten mission” (Construir forças humanas: a missão esquecida da psicologia), onde apontou que, antes de II Grande Guerra Mundial, a psicologia tinha 3 objetivos:

  • curar as doenças mentais;
  • tornar a vida das pessoas mais satisfatória;
  • identificar e cultivar talentos superiores;

Nesse mesmo texto, ele também aponta que após a II GGM, “todos os esforços da psicologia se voltaram para o tratamento das doenças mentais e dos transtornos psicológicos” (Kamei, 2018, p. 27), ou seja, praticamente, um voltar-se para a reparação de danos.

Esse foco, quase exclusivamente curativo, fez com que se olhasse pouco para os aspectos positivos que também são parte do sujeito e das comunidades. Assim, tais aspectos foram negligenciados por um longo período, tornando a visão da psicologia incompleta. Com base nisso, esses autores propuseram que o objetivo da psicologia positiva é promover um ajuste no foco da psicologia para que aspectos saudáveis também recebam atenção.

(Hutz, 2014, p.13)

Dentre encontros, reuniões e publicações científicas foram investigadas interrogações como:

  • Felicidade é um meio ou um fim?
  • Motivações positivas derivam das motivações negativas?
  • Qual é a relação entre o indivíduo e as forças interpessoais?
  • Qual é a função evolucionária das emoções positivas?

É importante ressaltar que a psicologia positiva, como movimento, não está criando uma nova área do saber psicológico, mas propondo um exercício teórico e, especialmente, metodológico no sentido de orientar a visão que se lança aos fenômenos investigados pela psicologia para os aspectos positivos e saudáveis do desenvolvimento, visando priorizar a prevenção ao tratamento.

(Hutz, 2014, p. 14)

O DSM da Psicologia Positiva: O CSV

psicologia positiva CSV felicidade character strengths and virtues

Após uma série de encontros, pesquisas e publicações os autores C. Peterson e M. Selgiman publicaram, em 2014, o que seria o DSM da psicologia positiva. Antes de mais paralelos, e pensando principalmente no público que lê esse texto, mas não é da área da psicologia ou psiquiatria, o DSM é a sigla para Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) que, em resumo, é uma referência internacional publicada pela APA, que se encontra na 5ª edição e informa sobre quadros e tratamentos associados à sintomas e transtornos psíquicos/mentais. No DSM não há espaço para o positivo. É verdade que lá se fala de motivação e vontade, por exemplo, mas somente explana sobre os distúrbios e disfunções do componente, além de oferecer possíveis tratamentos. O mesmo ocorre com os outros componentes humanos.

Sendo assim, não fazia sentido a emergente psicologia positiva utilizar o foco negativo do DSM e da tradicional psicologia pós-guerra – nasceu o Character Strengths and Virtues: A handbook and classification (CSV), como um desenvolvimento de aplicações práticas dentro da psicologia positiva.

Em resumo, essa publicação identifica 6 classes de virtude (“virtudes centrais”), compostas de 24 “forças de caráter” mensuráveis:

  • Sabedoria e Conhecimento: criatividade, curiosidade, abertura de espírito, amor à aprendizagem, perspectiva, inovação
  • Coragem: bravura, persistência, integridade, vitalidade, entusiasmo
  • Humanidade: amor, bondade, inteligência social
  • Justiça: cidadania, justiça, liderança
  • Temperança: perdão e misericórdia, humildade, prudência, autocontrole
  • Transcendência: valorização da beleza e excelência, gratidão, esperança, humor, espiritualidade

(com base em Peterson & Seligman [2004]. Character strengths and virtues: A handbook and classification – sem tradução oficial para língua portuguesa)

O Jeito Harvard de Ser Feliz

Nos últimos anos, com a crescente investigação e divulgação sobre a psicologia positiva, vem crescendo também o interesse geral e o mercado diretamente associado. Cursos de psicologia positiva e workshops de inteligência emocional, por exemplo, são mais oferecidos e vendidos – no Brasil – agora, do que há 5 ou 7 anos, por exemplo.

Livros de psicologia positiva e inteligência emocional viram best-sellers, o tema é globalmente acessado na internet, ganha os palcos do TED e nos chega, até nos grupos de WhatsApp, vídeos de apresentações ou ideias de pessoas como Tal Ben-Shahar e Shawn Achor (professores de Harvard e difusores contemporâneos, mundialmente conhecidos, no trabalho com a psicologia positiva).

Um dos autores mais populares em psicologia positiva, na atualidade, é Shawn Achor – que publicou o best seller O jeito Harvard de ser feliz (2012). Nesse livro, dividido em 3 partes, Achor nos conta sobre seu percurso na psicologia positiva, sobre as principais bases teóricas e metodológicas da investigação/intervenção positiva, uma série de histórias e observações, bem como sobre os chamados sete princípios – que, em resumo, dizem respeito à atitudes mentais e comportamentais específicas (que merecem ser elaboradas em um texto próprio para tal).

Acreditava-se que o sucesso era o ponto fixo do universo do trabalho, com a felicidade gravitando em torno dele. Agora, graças às descobertas revolucionárias do campo emergente da psicologia positiva, estamos aprendendo que o que acontece na verdade é o contrário. Quando estamos felizes – quando a nossa atitude e estado de espírito são positivos –, somos mais inteligentes, mais motivados e, em consequência, temos mais sucesso. A felicidade é o centro, e o sucesso é que gira em torno dela.

(Achor, 2012, p.43)

Nessa obra, o autor também quebra mitos (como a felicidade ser algo a posteriori – isto é, a crença comum de que serei feliz depois de obter um certo bem, ou depois de algum tipo de conquista/acontecimento, por exemplo) e expõe falhas ou erros da psicologia (como o culto da média).

psicologia positiva culto à media shawn achor felicidade harvard erros da psicologia

(Escape do culto da média, contido em Achor [2012], p. 21)

O gráfico acima representa uma amostragem hipotética que revela um padrão e uma tendência. É um gráfico em dois eixos, que poderia representar “peso em relação à altura, o tempo de sono em relação à energia, felicidade em relação ao sucesso e assim por diante” (Achor, 2012, pp. 21-22). Estatisticamente, o ponto fora do padrão é chamado de valor discrepante. É um problema estatístico que pode representar um erro de mensuração ou um valor real, todavia, ele atrapalha os dados e costuma ser acompanhado de procedimentos estatisticamente válidos para removê-lo dali – o que não é um problema para quem quer estudar a média ou uma característica geral sobre algo.

Se alguém fizer uma pergunta do tipo “Em quanto tempo uma criança consegue aprender a ler em uma sala de aula?”, a ciência muda essa pergunta para “Em quanto tempo, em média, uma criança consegue aprender a ler em uma sala de aula?”. Com isso ignoramos as crianças que aprendem a ler mais rapidamente ou mais lentamente e adaptamos as aulas tendo em vista a criança “mediana”. Esse é o primeiro erro cometido pela psicologia tradicional. […] Naturalmente, as pessoas que estão abaixo do normal são aquelas que tendem a precisar de mais ajuda – para serem afastadas da depressão, do abuso de álcool ou do estresse crônico. Em consequência, os psicólogos, justificadamente, dedicaram um considerável esforço estudando como poderiam ajudar essas pessoas a se recuperarem e voltarem ao normal. No entanto, por mais valioso que seja esse trabalho, ele só revela metade da realidade. Você pode eliminar a depressão sem tornar a pessoa feliz. Pode curar a ansiedade sem ensinar a pessoa a ser otimista. Pode fazer uma pessoa voltar a trabalhar sem, no entanto, melhorar seu desempenho profissional. Se você só luta para reduzir os aspectos negativos, você apenas atingirá a média e deixará passar irremediavelmente a oportunidade de superá-la.

(Achor, 2012, pp. 22-23)

A psicologia positiva nasce na gringolândia e ainda é desconhecida por uma série de psicólogos canarinhos, além de ser associada às funções e flertes dos coachings, por tantos outros – que faz com que muitos psicólogos tenham preconceitos ou cautelas para tocar na temática.

É sabido que a psicologia lida com a mente e o comportamento humano, mas são os conflitos emocionais que levam a maioria dos clientes aos nossos consultórios e esse é o foco tradicional do ensino em psicologia no Brasil – classificação e tratamento de sintomas e transtornos. Desse ponto de vista, a psicologia positiva é uma tentativa de resgatar missões que já foram do campo e do estudo psicológico, (re)ampliar o alcance da psicologia e estudar, cientificamente, as emoções e qualidades positivas humanas.

Quer saber mais sobre a psicologia das emoções? Inscreva-se já para o próximo curso de Introdução à Psicologia das Emoções.

Referências consultadas

Achor, Shawn (2012). O jeito Harvard de ser feliz. São Paulo: Editora Saraiva.

Hutz, C. S. (2014). Avaliação em psicologia positiva. Porto Alegre: Editora Artmed.

Kamei, H. (2018). Flow e psicologia positiva: estado de fluxo, motivação e alto desempenho. Goiânia: Editora IBC.

Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press and Washington, DC: American Psychological Association.

Pureza, J. R.; Kuhn, C. H. C.; Castro, E. K. & Lisboa, C. S. M. (2012). Psicologia positiva no Brasil: uma revisão sistemática da literatura. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. 2012, 8 (2), pp.109-117.

Por Caio Ferreira

Psicanálise Infantil: O Que Precisa Ter Dentro da Sua Caixa Lúdica?

Hoje falaremos sobre questões relacionadas à psicoterapia psicanalítica infantil e à utilização da caixa lúdica em contexto clínico.

Psicoterapia infantil

Primeiramente, e buscando responder uma dúvida que se mostrou comum, principalmente para os estudantes de psicologia, é importante dizer que existem diversas abordagens dentro da psicologia clínica e essas possuem teorias e técnicas distintas para compreensão e intervenção sobre o comportamento/psiquismo infantil, o que implica, por exemplo, e para as finalidades do seguinte texto, na utilização ou não de brinquedos/técnica do brincar e/ou caixa lúdica, variando de psicoterapeuta para psicoterapeuta e correspondendo diretamente às suas respectivas linhas e abordagens teórico-práticas. Dentro mesmo da psicanálise (onde há um volume relevante de publicações acerca da utilização de brinquedos no setting analítico) existem profundas divergências sobre a prática. Sendo assim, para quem busca compreender melhor as possibilidades de atuação em psicoterapia infantil que não empregam os tais recursos lúdicos, recomendamos o texto A Clínica da Infância à Partir de Lacan, que foi escrito pelo Psicólogo e Psicanalista Igor Banin.

Anna Freud & Melanie Klein

No começo, a psicanálise não atendia crianças. Hermine Von Hug-Hellmuth, Anna Freud (filha de Sigmund Freud) e Melanie Klein foram as primeiras psicanalistas a atenderem crianças. É verdade que Freud analisou o Pequeno Hans (sendo que os primeiros relatos apontam que esse tinha 3 anos), mas as observações foram feitas pelo pai da criança e Freud encontrou uma única vez com Hans (Reghelin, 2008).

psicanálise infantil psicoterapia brincar
(Anna e Sigmund Freud)

Anna e Klein trilharam caminhos distintos e propuseram atuações clínicas muitos diferentes. Para Anna, “o analista deve ser educador, porque o superego do paciente ainda depende dos objetos exteriores que o originaram e não está maduro.” (Paula, 2017,p.16). Podemos dizer que sua orientação clínica foi essencialmente pedagógica e que voltou-se mais para o Ego consciente do que para a esfera do inconsciente (Zimerman, 2004), além de valorizar o processos como sonhos, fantasias diurnas, desenhos e limitando a utilização de jogos (Trapiá et al., 2012).

“Anna Freud entendia o brincar como atividade expressiva e não simbólica (pois o simbólico estava ligado ao reprimido) e Melanie Klein via o brincar como alocução e destinado ao analista, pressupondo diferentes níveis de simbolização conforme idade, nível de funcionamento mental, quantidade e qualidade das angústias da criança”

(Reghelin, 2008, pp. 170-171)

Melanie Klein Brincadeira Psicoterapia Infantil Psicanálise
(Melanie Klein e criança)

Klein foi responsável por introduzir uma modificação na técnica básica da psicanálise e substituiu a palavra pelo brincar. Dessa forma, propôs que a brincadeira seria uma via de acesso aos conteúdos inconscientes da criança, equivalendo o meio à linguagem verbal do adulto. “Diferente de Anna Freud, Klein baseia-se na utilização do jogo e continua as investigações de Freud, a fim de construir um arcabouço teórico, a partir da observação de bebês e dos atendimentos com crianças.” (Paula, 2017, p.16). Sua teoria e prática explorou os fenômenos dinâmicos do brincar na cena analítica, trouxe compreensões sobre a técnica do brincar e possibilitou a compreensão da vida mental primitiva (abrindo novos horizontes dentro do campo da psicanálise).”Em 1932, ela notou que a criança expressava suas fantasias, desejos e experiências simbolicamente no brinquedo e acentuou a importância da caixa de brinquedos, que incluía pequenas figuras animais e humanas, pequenos veículos, recipientes, lápis, cola, massa de modelar, fita adesiva, cordão, tesoura… Objetos pequenos e inespecíficos.” (Reghelin, 2008, p. 169).

brinquedos usados por melanie klein caixa lúdica brincar
(Brinquedos utilizados por M. Klein em psicoterapia com crianças)

Não há regras rígidas sobre o que se deve ter dentro de uma caixa de brinquedos, mas é sensato admitir que o analista deve selecionar, além de objetos que não ofereçam risco à saúde do analisando, relacionando com os objetivos da sessão, do tempo disponível e da idade da criança, selecionar objetos que permitam emergir a expressividade dos conflitos emocionais e a potencialidade dos processos criativos. Dentro dessa seleção, a escolha dos objetos feita pela criança, bem como a forma de utilização, deve ser observada como um ato psíquico intencional e comunicacional que revela muito, a nível clínico, sobre seu portador. Trocando em miúdos, estamos falando da possibilidade de observação dos vínculos, situações edípicas, fantasias, desejos, resistências, sentimentos e até questões como os aspectos maturacionais, motores e cognitivos, por exemplo.

“O trabalho tradicionalmente realizado por Melanie Klein com crianças era conduzido através das observações e interações durante o brincar, que permitiam que a criança criasse, tanto através da construção quanto pela destruição. Água, cola, papéis, tintas, tesouras, alguns bonecos e outros componentes provocavam as mais diversas reações nas crianças, permitindo-lhes criar, repetir, gerar angústia e expressar essas questões a partir da maneira como utilizavam esses itens.”
(Leite, 2016, p. 146)

Caixa de Brinquedos / Caixa Lúdica

Quem realmente introduziu o caixa de brinquedos no setting foi Arminda Aberastury. Ela via esse recurso como representação do mundo interno da criança e contingente de suas representações inconscientes e relações objetais (Reghlin, 2008, p. 169). Há psicoterapeutas, por exemplo, que utilizam uma caixa lúdica diferente para cada criança e outros que trabalham com uma caixa em comum para todas elas.

caixa lúdica psicologia psicanáliseNão há regra ou checklist sobre os itens que devem compor a caixa, todavia, além das preocupações clínicas já citadas, é importante uma espécie de antecipação à certos desenrolares possíveis de brincadeiras, isto é, por exemplo, caso escolha colocar pincel e tinta em sua caixa e deixá-los à disposição da criança, provavelmente também será necessário papel e/ou toalha, água, bem como um ambiente que comporte respingos e manchas de tinta. Esse é um adendo que faço, principalmente aos iniciantes. É natural que com a experiência prática, esse tipo de situação seja ultrapassada.

A maioria das caixas lúdicas são feitas de papel, madeira ou plástico e, de uma forma geral, os principais itens encontrados em seus interiores são: papeis sulfite (brancos e coloridos), papel kraft, lápis, lápis de cor, aquarela, apontador, giz de cera, massinha, retalhos, perflex, cola (bastão e/ou líquida), fita adesiva, barbante, jogos (como damas, dominó, jogo do mico ou pega varetas) e brinquedos (como fazendinha, família terapêutica, carrinhos, casinhas, conjunto de cozinha, telefone). Vale citar a preocupação que alguns tem em colocar ou não a borracha e a tesoura dentro das caixas, isto é, a não borracha faz lidar com a frustração de um desenho falho e a não tesoura obriga a utilização de outros meios para separar os objetos, por exemplo. “Klein sugere que os materiais sejam pequenos, permitindo que a criança os manipule, ou seja, tenha controle sobre os mesmos, mas não tão pequenos que possam colocar sua vida em risco.” (Trapiá et al., 2012, p. 239)

A caixa lúdica contempla brinquedos, jogos e materiais lúdicos. Alguns aspectos a serem observados durante a interação da criança para com os itens dizem respeito, por exemplo, a:

  • exploração ou não do material;
  • classificação e experimentação dos materiais;
  • organização e separação dos itens;
  • fixação em algum item ou jogo;
  • resistências;
  • estruturação da brincadeira com início, meio e fim;
  • interrupção de atividades;
  • escolha da brincadeira;
  • temática da brincadeira;
  • regras da brincadeira;
  • papel na brincadeira/jogo dramático;
  • histórias, situações e conflitos emergentes;
  • ações de juntar/colar X ações de separar/cortar;
  • utilização do corpo e do espaço;
  • entre outros…

“A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é.”

(Winnicott, 1975, p. 65)

Espero que o texto tenha auxiliado na sua compreensão sobre alguns fatos e implicações acerca da psicoterapia voltada ao público infantil, bem como na diferença do emprego de brinquedos e na utilização da caixa lúdica em um setting. Também espero que você continue brincando…emocionalmente…sempre e convide outros a brincar consigo. Até breve.

Referências consultadas

Aberastury, A. (1982). Psicanálise da criança: teoria e técnica. Porto Alegre: Artes Médicas.

Leite, R. F. (2016). Caixa lúdica e novas tecnologias. Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte-MG, n. 45, pp. 145–148, julho/2016.

Paula, L. de (2017). Psicanálise infantil: uma intersecção entre a teoria e a prática. Secretaria de Estado da Saúde. São Paulo.

Reghelin, M. M. (2008). O uso da caixa de brinquedos na clínica psicanalítica de crianças. Contemporânea – Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.05, Jan/Fev/Mar 2008, pp. 167-179.

Trapiá, A.; Tagliapietra, C.; Usui, E.; Hammoud, M. & Coelho, T. L. (2012). O psicoterapeuta e a escolha do material no processo de ludodiagnóstico. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 3, n. 2, p. 233-240, dez. 2012.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

Zimerman, D. E. (2004). Manual de técnica psicanalítica: uma revisão. Porto Alegre: Artmed.

Por Caio Ferreira

Implicações do Reconhecimento Automático da Expressão Facial da Emoção

Devemos olhar para faces ou para telas?

Pois ouvi essa semana que “as máquinas leem emoções melhor do que as pessoas, mas elas não têm emoções”

Impressões da Face Humana

Na época da graduação em psicologia, especificamente no último ano (onde há estágios clínicos e disciplinas de supervisão), não era raro ouvir as impressões que meus colegas traziam sobre a face do paciente que estavam atendendo. Impressões essas que vinham na forma de “uma cara fechada”; “uma cara estranha” e até “um semblante péssimo”. É sabido que por meio da comunicação não-verbal (CNV) a pessoa expressa fenômenos como conforto, desconforto, emoções, sentimentos e dor (Ferreira, 2018; Knapp & Hall, 1999), por exemplo, todavia, ainda em uma graduação de psicologia (e pelos menos na que frequentei e nas comparações que colho de meus pares) não há uma disciplina, cuja ementa, vise apresentar, ensinar e discutir a análise da linguagem corporal, da expressão facial da emoções e da paralinguagem (fundamentais tópicos da CNV dos seres humanos).

Uma vez que eu já conhecia algumas questões técnicas e metodológicas acerca da CNV, ficava ouvindo os relatos dos meus colegas estagiários e me perguntando como seria aquela face que eles não conseguiam descrever: “será que as sobrancelhas estavam abaixadas? Será que o olho estava arregalado? Será que havia tensão nas pálpebras? Será que havia algum tipo de pressão nos lábios ou ação na boca?” Por exemplo. Mas não fazia sentido perguntar, pois os meus colegas não estavam observando essas ações e movimentos, mas apenas relatando aquilo que eles haviam experienciado sobre aquela expressão emblemática do paciente, que se configurava para mim como apenas uma silhueta sem forma definida.

expressão facial da emoçãoE, sem descrições e avaliações científicas das ações e movimentos faciais, nunca foi possível, em situações como essas relatadas, trabalhar adequadamente o que aquela expressão facial carregaria consigo, a nível emocional, por exemplo, ou o que ela estaria representando ou o porquê ela está sendo exibida naquele momento. E digo isso, não para expor os meus colegas, mas para expor uma falta de formação específica e que se faz necessária quando o assunto é a expressão facial e a emoção. E digo isso também, pois espero que, com o final desse texto, você possa se atentar um pouco mais para as expressões faciais, na hora de avalia-las e de relatá-las também. Então, quando se deparar com uma “cara fechada”, ou “com uma cara estranha” e até “com um semblante péssimo”, peço que busque começar a treinar o seu olhar para identificar os movimentos faciais que ali estão.

Afinal, a face é a parte do corpo que mais exibimos ao outro durante nossas relações (com exceção de algumas culturas); ela é o nosso 1º sistema de comunicação humano; o choro e depois o sorriso são os primeiros organizadores do psiquismo humano. Sendo assim, é importante compreender como funcionam os comportamentos faciais e para que servem. Vale lembrar que as microexpressões faciais foram descobertas por meio de análises de sessões com psicoterapias que foram filmadas e revelaram, por exemplo, a angustia e o sofrimento de pacientes suicidas, ainda que esses relatasses, pelo canal verbal, melhoras.

Em resumo, a expressão facial da emoção analisada e mensurada, de forma científica, nos permite ver um mundo emocional por de trás de uma face; ela revela o que a pessoa sente e apresenta marcadores universais.

Reconhecimento automático da Expressão Facial da Emoção

Quando comecei a estudar a mensuração da expressão facial em seres humanos (antes de graduação, em meus primeiros contatos com as descobertas de Paul Ekman), lembro que o reconhecimento automático “era o futuro”. Já hoje, é público o fato de as câmeras e softwares apanharem nossas expressões cotidianas, com finalidades de análise e compreensão dos nossos estados internos. É necessário dizer que a análise de imagens digitalizadas permite também aplicações como a autenticação biométrica, mas não é esse o foco do seguinte texto. Falaremos hoje sobre os recursos que identificam emoções (como câmeras em lojas e vitrines que buscam mensurar as reações dos clientes ou plataformas que analisam as emoções dos candidatos em entrevistas de emprego).

Existem inúmeros algoritmos de reconhecimento da face humana e de suas expressões. Cada um possui suas particularidades, mas a maioria deles costuma trabalhar com elementos como: identificação/detecção da face e das principais regiões faciais (olhos, boca e nariz); colocação dos pontos de leitura; calibragem automática ou manual; identificação de rugas; posição da cabeça; posição dos olhos; reconhecimento da expressão facial; e alteração de aparência – marcadores importantes que fazem parte das análises de imagem e/ou vídeo. Quando a máquina busca emoções, esse conjunto de dados é analisado e convertido, de forma automática, em probabilidades dos estados emocionais, geralmente, relacionado às emoções básicas (alegria, tristeza, raiva, aversão, medo, surpresa e desprezo).

Reconhecimento automático facereader emoções face
(Exemplo de reconhecimento automático da expressão facial da emoção, com o software FaceReader, da Noldus – estudo feito no CICEM, por meio de parceria científica pioneira no Brasil, vigente desde 2017).
openface reconhecimento automático
(Exemplo de captação da face, de suas regiões e ações com o Software OpenFace 2.0. Estudo feito no CICEM)

Do ponto de vista teórico, uma série de pesquisadores da computação afetiva apontam que a capacidade da máquina em ler os estados afetivos de seus usuários teria efeitos benéficos (nas melhores hipóteses, falamos de máquinas capazes de reconhecer a expressão facial de alguém e atribuir uma saída condizente com a situação em questão) (Pantic et al., 2006; Picard, 1997; Robinson & el Kaliouby, 2009), entretanto, do ponto de vista prático, o que encontramos à nossa volta são utilizações mais problemáticas relacionadas à violação de direitos do que uma própria melhoria na relação homem-máquina. Raras têm sido as notícias sobre o incentivo das habilidades emocionais, frequentes têm sido os entusiastas da inteligência emocional e mais comuns ainda são os informes de novas inteligências que detectam emoções. Isso acontece pois as pessoas negligenciaram as faculdades emocionais por muito tempo e agora não sabem ler as emoções nos outros e não sabem gerir as próprias emoções em si mesmas.

“Desde o início da Computação Afetiva, os pesquisadores tem buscado formas de permitir que o computador seja capaz de reconhecer e responder as emoções humanas. Encontrando-se hoje uma variedade de grupos de pesquisa na área, muitos deles com trabalhos específicos voltados ao reconhecimento das emoções”

(Leão et. al, 2012)

.

Nem tudo é um pântano. As tecnologias de reconhecimento automático permitem analisar mais imagens em menos tempo (se compararmos com a codificação manual), o que tem grande valor na hora de verificar segmentos de vídeo. Isto é, por padrão (e em grande parte), os vídeos possuem 24 frames por segundo, o que significa 24 fotos/quadros dentro de um segundo. Como a investigação da expressão facial é feita quadro a quadro, há vezes em que o auxílio dos softwares é bem-vindo. Outra contribuição diz respeito ao campo da segurança, uma vez que esse tipo de sistema tem sido usado, por exemplo em aeroportos e terminais, para identificação de suspeitos e contenção de ameaças.

Nos cursos que ministro sobre a expressão facial da emoção, levo informações, aplicações e críticas acerca do reconhecimento automático, sendo que um dos melhores usos para ele, a nível didático, mostrou-se ser a comparação e discussão frente à análise/codificação manual para com a automatizada. Sempre digo aos participantes que só confio na utilização de um software desses por alguém que conheça a teoria e a metodologia que sustenta a análise científica da expressão facial da emoção e que, além disso, conheça bem os algoritmos e peculiaridades do software em questão. Por exemplo, há tecnologias que utilizam elementos do Facial Action Coding System (FACS) em suas programações, mas não empregam todas as AUs do código FACS. Nesse caso, para uma utilização adequada, faz-se necessário conhecer o FACS (de forma analógica) e as AUs compreendidas pelo software (de forma digital).

Levar a emoção para as pessoas

Uma das premissas que me levou a criar o curso de Introdução à Psicologia das Emoções (produzido pelo CICEM – Centro de Investigação do Comportamento das Emoções em parceria com a Sociedade dos Psicólogos) foi que as pessoas são ensinas à andar, falar, comer, estudar, mentir, etc….mas, raramente, são ensinadas a sentir e, uma vez que “as emoções determinam a qualidade das nossas vidas” faz se necessário o debruçar sobre temas como emoção, sentimento e afeto.

“Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto”.

A. Einstein

Vejo que, de certa forma, o ensino e a pesquisa tem, cada vez mais, possibilidades de agregar a emoção como uma de suas principais formas de divulgação. Há vozes emocionais que buscam propagar a importância das emoções para, por exemplo, com nossa aprendizagem, relacionamentos, saúde, produtividade, motivação, entre outros. O estudo científico da alegria ganha holofotes e a psicologia positiva é pop – o que é bom e é ruim, pois ao mesmo tempo em que está sendo amplamente divulgada (o que é bom) também está sendo abordada, muitas vezes, de forma errônea e superficial, além de ganhar mais terreno fora do campo da psicologia (do que dentro dele) – isto é, tem sido mais fácil encontrar, atualmente, no Brasil “especialistas” em psicologia positiva que são empreendedores, coachs e “gurus”, do que, propriamente, psicólogos a falar do tema.

Penso que aqui, novamente, aparece a questão de que o tema das emoções vem ganhando holofotes e atenções, todavia, vem sendo tratado e direcionado de forma, pelo menos, estranha.

Talvez haja, atualmente, maior interesse ou tendência em estudar como as maquinas e as cabras reconhecem a expressão facial da emoção, do que investigar as facilidades/dificuldades humanas e propor soluções. Talvez o reconhecimento automático seja uma “solução” contemporânea, mas é triste que as máquinas – que não têm emoções – leiam a emoção melhor do que você – que é humano.

(mas você pode mudar isso)

Referências

Baltrusaitis, T. (2014). Automatic facial expression analisys. University of Cambrige: Computer Laboratory.

Ekman, P. (2003). Emotions revealed: recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. New York, NY: Times Books.

Ekman, P. & Rosenberg, E. L. (Eds.). (2005). What the face reveals: basic and applied studies of spontaneous expression using the facial action coding system (FACS) (2nd ed.) New York: Oxford University Press.

Ekman, P.; Friesen, W. V.; & Hager, J. C. (2002). The Facial Action Coding System. (2nd ed.) Salt Lake City, UT: research Nexus ebook.

Ferreira, C. (2018). Estudos sobre a mensuração científica da face humana: vol. 1 – o guia do emocionauta. São Paulo: CICEM Ed.

Knapp, M. L. & Hall, J. A. (1999). Comunicação não-verbal na interação humana. São Paulo: JSN Editora.

Leão, P. L.; Bezerra, J. S.; Matos, L. N. & Nunes, M. A. S. N. (2012). Detecção de expressões faciais: uma abordagem baseada em análise do fluxo óptico. GEINTEC. São Cristóvão/SE – 2012. Vol. 2/n.5/ p.472-489.

Pantic, M;. Pentland, A.; Nijholt, A. & Huang, T. (2006). Human computing and machine understanding of human behavior: A survey. In ACM International Conference on Multimodal Interfaces, pages 239–248, 2006.

Picard, R. W. (2009). Future affective technology for autism and emotion communication. Philosophical transactions of the Royal Society of London. Series B: Biological sciences, 364(1535):3575–3584, Dec 2009.

Robinson, P. & el Kaliouby, R. (2009). Computation of emotions in man and machines. Philosophical Transactions of the Royal Society of London. Series B: Biological sciences, 364(1535):3441–3447, 2009.

OpenFace 2.0: Facial Behavior Analysis Toolkit Tadas Baltrušaitis, Amir Zadeh, Yao Chong Lim, and Louis-Philippe Morency, IEEE International Conference on Automatic Face and Gesture Recognition, 2018

Por Caio Ferreira

A Teoria do Desenvolvimento Moral de Lawrence Kohlberg

Uma das influentes teorias sobre o desenvolvimento moral foi apresentada por Lawrence Kohlberg, um psicólogo estadunidense que viveu entre 1927 e 1987, e relacionou o desenvolvimento moral ao desenvolvimento cognitivo da criança.

lawrence kohlberg teoria moral desenvolvimentoEle apontou que por meio de um processo maturacional e interativo, todas as pessoas têm a capacidade de chegar à plena competência moral. Em seu estudo principal, entrevistou 72 garotos de 10, 13 e 16 anos dos arredores de Chicago. Apresentava-lhes uma série de dilemas morais e esses o explicavam como chegavam às soluções, sendo que chegou a acompanhar alguns dos sujeitos por cerca de 20 anos.

Sua teoria apresenta 3 níveis de moralidade, cada um com 2 sub estágios.

Nível 1 (Pré-Convencional)

O NÍVEL 1 é o “Pré-Convencional” (de 2 a 6 anos, aproximadamente) e o 1º estágio é “Obediência e Punição”. Aqui o comportamento é orientado para evitar a punição e são as consequências das ações que determinam o que é certo e errado.

O 2º estágio é “Hedonismo Instrumental Relativista”, onde o raciocínio moral é egocêntrico e o indivíduo segue as normas pensando em interesses próprios

Nível 2 (Convencional)

O NÍVEL 2 é o “Convencional” (idade escolar) e o 3º estágio é o das “Relações Interpessoais”. Aqui o correto é aquilo pautado nas convenções e regras sociais determinadas por pessoas de autoridade, sendo que o que importa é “ser o bom menino/boa menina” para corresponder às expectativas morais dos outros.

O 4º estágio é a “Orientação Para a Lei e Ordem / Autoridade Mantém a Moralidade”. Nesse momento, os deveres, a manutenção da ordem social e da lei orientam a moralidade. Está além da necessidade de aprovação individual exibida no estágio 3.

Nível 3 (Pós-Convencional)

O NÍVEL 3 é o “Pós-Convencional” (adolescência), e o 5º estágio é de “Contrato Social”, onde o indivíduo determina o certo e o errado, com base em parâmetros sociais democraticamente pré-estabelecidos. As leis são consideradas como contratos sociais em vez de um mandamento rígido.

O 6º estágio é de “Princípios Éticos Universais”. Aqui a pessoa transcende sociedades e leis para buscar princípios de igualdade e dignidade, com uma ética válida para todos. Segundo Kohlberg, poucas pessoas atingem esse estágio.

Referências

Bataglia, P. U. R.; Morais, A; & Lepre, R. M. (2010). A teoria de Kohlberg sobre o desenvolvimento do raciocínio moral e os instrumentos de avaliação de juízo e competência moral em uso no Brasil. Estudos de Psicologia; 15(1); 25-32.

Espíndola, M. Z. B. L. & Lyra, V. B. (2005). O desenvolvimento moral em Lawrence Kohlberg: uma revisão. Humanidades em Foco, 6:3.

Ravella, G. J. R. (2010). O pensamento moral em jovens: o juízo moral em Lawrence Kohlberg. [dissertação de mestrado]. Coimbra: Universidade de Coimbra.

Por Caio Ferreira