Lista de Filmes e Séries Para Amantes da Psicologia

O que você gostaria que tivesse no seu serviço de streaming? (Ou que não saísse dele?)

A Sociedade dos Psicólogos preparou uma lista com os principais filmes e séries que abordam temas, diretamente, relacionados ao estudo do comportamento humano, como transtornos psicológicos, de personalidade, emoções, afetos, fetiches, homicídios em série, internações em manicômios e sessões de psicoterapia, por exemplo.

A ideia dessa lista é reunir os títulos e te lembrar daquele filme ou série que você ficou de ver e nunca viu 😉

FILMES

Estamira é um documentário de 2004 que mostra a rotina deplorável de uma moradora do lixão do Rio de Janeiro que ainda apresenta questões psicóticas. (Disponível no Globoplay)

SÉRIES

Sessão de Terapia retrata um psicoterapeuta ao longo de sua semana, atendendo pacientes e realizando também sua supervisão. (Disponível no Globoplay)
  • 3% (2016 – 2020)
  • After Life (2019 – )
  • Atypical (2016 – )
  • Bates Motel (2013 – 2017)
  • Black Mirror (2011 – )
  • Criminal Minds (2005 – 2020)
  • Dexter (2006 – 2013)
  • Freud (2020 – )
  • Hannibal (2013 – 2015)
  • House MD (2004 – 2012)
  • Lie To Me (2009 – 2011)
  • Maniac (2018)
  • Mental (2009)
  • Merlí (2015 – 2018)
  • Mindhunter (2017 – )
  • O Alienista (2018)
  • Perception (2012 – 2015)
  • Sessão de Terapia (2012 – )
  • Sherlock (2010 – 2017)
  • The Sinner (2017 – )
  • Você (2018 –)

E aí, quais desses você já viu? Qual é o favorito? Qual será o próximo? Qual ficou faltando?

Bom cineminha!!

Por Caio Ferreira

Você Conhece o Estado de Flow?

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

(Fernando Pessoa)

Você já realizou uma atividade onde não percebeu o tempo passar? Deixou de comer ou ir ao banheiro? Sentiu extremo prazer e conexão com aquilo que estava fazendo? Provavelmente você já experimentou essa sensação em alguns momentos da sua vida ou mesmo do seu dia-a-dia. Essa experiência vem sendo estudada pela psicologia como flow (ou estado de fluxo) e é sobre ela que vamos falar no texto de hoje 😉

Mihaly Csikszentmihalyi

É um psicólogo de origem croata considerado um dos pais da psicologia positiva (ao lado de Martin Seligman) e o pai da teoria flow. De acordo com sua biografia, teve a família destruída pela 2ª Grande Guerra Mundial e chegou a ser mantido em campo de concentração italiano quando criança. Teria descoberto a primeira “atividade flow” por meio do xadrez, depois pela pintura e fotografia. Durante os estudo de psicologia, chegou a assistir palestra de Carl Jung e interessou-se pela felicidade após conhecer húngaros que estiveram presos na União Soviética e se questionar por que alguns mantinham-se sãos enquanto outros estavam psicologicamente destruídos. Graduou-se no ano de 1959 e recebeu seu doutorado em 1964, ambos pela Universidade de Chicago (Kamei, 2018).

Foi observando pintores durante sua pesquisa de doutorado (sobre criatividade) que percebeu características daquilo que, mais tarde, viria a chamar de estado de flow. Mihaly ficou impressionado como os artistas ficavam imersos, concentrados, envolvido e absorvidos durante o processo de pintura, esquecendo-se também do tempo, das necessidades biológicas, da fadiga e das obrigações sociais, por exemplo. O mais interessante era que isso durava enquanto a pintura estivesse incompleta e sendo construída, pois, assim que o quadro era concluído, os artistas perdiam o interesse por aquela obra e se voltavam para a próxima tela. Ele entendeu que a motivação para a pintura estava no próprio processo de pintar, e não na antecipação frente a um belo quadro pronto – a qualidade da experiência já era suficientemente recompensadora.

Charles Spencelayh (England 1865-1958) The Old Copyist

Buscando explicações para o que estava descobrindo, teve dificuldades em encontrar respostas ou elucidações nas chamadas 1ª e 2ª força da psicologia (behaviorismo e psicanálise), mas encontrou um ponto de partida na psicologia humanista de A. Maslow, que já apontava dois tipos de comportamento criativo (orientado para o produto e orientado para o processo). A proposta de Maslow entendia a autorrealização por meio de experiências culminantes, o que envolvia o descobrimento das potencialidades e limitações do eu a partir das atividades e vivências. Foi o mais perto que Mihaly encontrou sobre o que estava estudando. Por meio da observação de crianças e de pesquisas realizadas com pessoas que despendiam grande parte de tempo em atividades das quais não tinham nenhum tipo de remuneração (como atletas amadores, dançarinos, compositores, alpinistas…), que ele descreveu as características e condições da experiência flow.

“Em um mundo supostamente regrado pela busca por dinheiro, poder, prestígio e prazer, é surpreendente encontrar certas pessoas que sacrificaram todas essas metas por nenhuma razão aparente: pessoas que arriscam suas vidas escalando montanhas, que devotam suas vidas à arte, que despendem suas energias jogando xadrez. Descobrindo por que elas estão dispostas a desistir de recompensas materiais pela elusiva experiência de desempenhar ações satisfatórias, nós esperamos aprender algo que nos permitirá tornar a vida cotidiana mais significativa.”

(Csikszentmihalyi, 1975)

Modelo de Experiência Flow

De acordo com o autor, existem 3 principais condições para a ocorrência do estado de flow: 1) metas claras; 2) feedback imediato; 3) equilíbrio entre habilidades, desafios e oportunidades de ação.

  1. Metas Claras: para o flow, não interessam tanto as metas finais, mas sim a série de pequenos objetivos momento a momento. Como cada nova pincelada em um quadro; como um próximo movimento preciso para a execução de uma dança; como o escrever de algumas palavras para avançar em um texto, por exemplo.
  2. Feedback Imediato: essa condição informa sobre o andamento da performance e se o autor está se aproximando do seu objetivo em cada ação. Em toda pincelada a modificação visual ocorre e isso aproxima ou distancia do efeito desejado; cada nota musical executada ou improvisada informa sobre a qualidade da performance e pode sugerir alteração na dinâmica das próximas notas; cada traço no papel do desenhista; um domínio de bola para um futebolista; uma bela figura inserida em um slide de alguém que monta uma aula…
  3. Equilíbrio Entre Habilidades, Desafios e Oportunidades de Ação: buscando mapear o espectro da experiência flow, Mihaly trabalhou, inicialmente, com 3 experiências: tédio, flow e ansiedade, relacionando-as enquanto correspondentes à combinação entre habilidades (que se possui) e desafios (a serem atingidos) envolvidos em uma tarefa. Em linhas gerais, uma pessoa com grandes habilidades frente a um desafio baixo, vai experienciar tédio, assim como uma pessoa de baixas habilidades frente a um desafio alto, vai experienciar ansiedade. Dessa forma, a experiência flow se encontra no equilíbrio entre as habilidades e os desafios, com base em uma situação de oportunidades de ação (que podem ser bem ou más sucedidas – um saque de tênis, por exemplo). Abaixo está o modelo atual de compreensão do estado de flow.
Modelo de Flow de 8 Canais – Adaptado de Csikszentmihalyi (1997)

Características do Flow

Durante o flow, as pessoas relatam sensações de estar no controle de suas ações frente ao cenário em que a atividade se desenvolve. A atenção é forte e focal, sendo que o contato acontece no aqui e agora e é presente nos fatos, deixando de lado tanto questões ruminativas sobre passado ou futuro, quanto questões relacionadas aos papeis sociais e profissionais – é comum a sensação de unicidade com a criação, o músico e o instrumento são um quando fazem a música; a bailarina e a dança torna-se uma coisa só. Essa experiência também impacta a percepção temporal, sendo que alguns relatos falam sobre o tempo discorrendo de forma muito mais rápida, mas também muito mais lenta. Assim como uma aula de horas pode parecer ter durado alguns minutos para o professor que gosta de lecionar, um movimento coreografado de milésimos de segundo pode parecer uma eternidade na percepção da bailarina. Outra característica foi chamada de experiência autotélica e diz respeito a atividade ser um fim em si mesma, sem depender de fatores posteriores – ela é satisfatória, extremamente agradável, intrinsecamente recompensadora e gratificante por si própria. Abaixo listei as principais características:

  1. Sensação de controle
  2. Concentração profunda
  3. Fusão entre ação e consciência
  4. Foco temporal no presente (aqui e agora)
  5. Distorção da experiência temporal
  6. Perda da autoconsciência social
  7. Experiência autotélica

Aplicando o Flow

Vale dizer que o estado de flow não é exclusivo dos artistas e atletas, ou de pessoas que trabalham diretamente com a criatividade, mas é uma forma de experiência que todos podem alcançar e em diversos afazeres. Em seu artigo de 1975, Csikszentmihalyi defendeu que a aplicação do modelo flow deveria ser urgente nas escolas e trabalhos, uma vez que as pessoas tendem a passar a maior parte da vida nessas instituições. Ao longo de sua obra ele fala sobre o estado de flow acontecendo nas atividades produtivas (como trabalho e estudo), atividades de manutenção (manter o corpo em forma, limpar, descansar) e atividades de lazer (consumo de mídia, conversa, hobbies), e relaciona com consequências no aumento das emoções positivas, no crescimento do self, no fortalecimento da autoestima e no próprio desempenho da tarefa que é executada.

Para empregar o flow, em linhas gerais, é necessário compreender a relação entre as habilidades (que se tem) e os desafios (necessários) para a realização de uma tarefa. Caso a tarefa seja muito difícil, ela deve ser reduzida; caso seja muito fácil, deve ser elevada. E o mesmo acontece para as habilidades de alguém, que dependem de treinamento e prática. Nas primeiras aulas de música, o professor propõe exercícios fáceis e, conforme o aluno vai aprendendo a executá-los, o grau de dificuldade deve subir, caso contrário o aluno tende a se entediar com a experiência. Da mesma forma que se o desafio for muito elevado, desde o início, a experiência tenderá à preocupação, estresse e ansiedade. O flow está no equilíbrio entre as habilidades e os desafios.

Gostou do assunto? Aproveite para assistir à palestra com o Dr. Csikszentmihalyi. Se quiser saber mais, matricule-se no nosso curso EAD sobre psicologia positiva.

Curso EAD Fundamentos da Psicologia Positiva

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Referências e Recomendações

Csikszentmihalyi, M. (1975). Beyond Boredom and Anxiety. Washington: Jossey-Bass Publishers.

Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow. New York: Harper Perennial Modern Classics.

Csikszentmihalyi, M. (1997). The masterminds series. Finding flow: The psychology of engagement with everyday life. Basic Books.

Kamei, H. (2018). Flow e psicologia positiva: estado de fluxo, motivação e alto desempenho. Goiânia: Editora IBC.

Snyder, C. R.; Lopez, S. J. Psicologia positiva: uma abordagem científica e prática das qualidades humanas. Porto Alegre: Artmed, 2009

As 3 Grandes Forças em Psicologia

A Psicologia Positiva e o Estudo da Felicidade

Explicando Seligman: Felicidade Autêntica e Florescimento (Psicologia Positiva)

Lista de 10 Emoções Positivas

Por Caio Ferreira

Sociedade dos Psicólogos Promove Semana Gratuita Sobre Saúde Mental

Em janeiro é realizada a campanha Janeiro Branco – Pacto Pela Saúde Mental e, visando apoiar essa iniciativa, a Sociedade dos Psicólogos está apresentando uma semana com lives e conteúdos gratuitos voltados à comunidade.

Então temos psicólogos, psicanalistas e coachs que vão falar sobre bem-estar, qualidade de vida, estresse, manejo das emoções, violência, e autoconhecimento – tudo com uma linguagem simples e buscando contribuir para a saúde de qualquer pessoa.

Então convide pai, mãe, irmã, sogra, cunhado, amiga, chefe… todos são bem-vindos nessa semana 😉

PROGRAMAÇÃO

APRESENTAÇÕES

As apresentações aconteceram na nossa página de Facebook. Estão disponíveis por lá e também no nosso canal de YouTube

Abertura e 1ª apresentação com o Psicólogo Caio Henrique Ferreira da Costa (CRP 06/147859), que abordou conceitos como felicidade e bem-estar sob a ótica da Psicologia Positiva.
Com o Psicólogo Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos (CRP 06/139621), que falou sobre a importância das várias especialidades frente a compreensão e intervenção para com a saúde do ser humano.
Com o Psicanalista Eduardo Santos, que explorou como as emoções, sentimentos e afetos interferem na nossa saúde e dia-a-dia.
Com Lisiane Fachinetto, psicanalista, professora universitária e doutora em Educação pela USP, que abordou a sobrevivência psicológica para além da sobrevivência física frente à pandemia.
Com o psicólogo e psicanalista Igor Banin Bezerra da Silva (CRP 06/135177), que abordou questões como “Todo mundo precisa de terapia? Todo mundo merece terapia? Todo mundo consegue fazer terapia?”
Com o Master Coach Kaíque Ferreira que explorou possibilidades práticas sobre atividades para realizar em casa, que podem contribuir com a sua saúde mental.
Com a Psicóloga Bruna Barreto Passarelli (CRP 06/163942), que compartilhou reflexões sobre como o trabalho influencia e afeta a nossa saúde mental e, principalmente, nosso sentimento de felicidade e realização decorrente dele.
Com a Psicóloga Paloma Afonso Martins (CRP 06/142277) que abordou temas como vulnerabilidade, rede de apoio e tipos diferentes de violência.
Mesa redonda de encerramento da semana, com o time da Sociedade dos Psicólogos

Guia Para Atendimento Psicológico Online Durante a Pandemia

Alô psi! No texto de hoje vou abordar as principais questões que tenho esbarrado sobre o atendimento psicológico por meio das tecnologias da informação e da comunicação frente às demandas e implicações da pandemia do novo coronavírus.

terapia onlinePrimeiramente, é importante frisar que esse vírus nos vem como algo inédito, sem precedentes, cujos efeitos já foram caracterizados como um dos maiores problemas sanitários da contemporaneidade e como a maior pandemia da nossa geração. As medidas de prevenção comunitária e a incerteza sobre o futuro atingiram, de forma inesperada, nossos comportamentos e afetos, sendo que, de uma hora para a outra, fomos direcionados a mudar, desde a forma como cumprimentamos e nos relacionamos com as pessoas, até a forma como nos higienizamos, realizamos compras e realizamos nossos serviços.

Essas mudanças repentinas na rotina das pessoas costumam se desenrolar em estresse, sendo que esse, por sua vez, pode carregar ansiedades, amplificar psicopatologias e também mobilizar a pessoa para o crescimento pessoal. Do ponto de vista da saúde mental, tenho percebido que alguns fenômenos que encontramos na prática clínica estão “em alta” devido à situação de pandemia, do qual valem destacar os transtornos de ansiedade e episódios de pânico, hipocondria, TEPT (transtorno do estresse pós-traumático), aumento da violência doméstica, depressão, acúmulos e compulsividades.

Como o nosso trabalho está sendo direcionado para a prática online e isso ainda gera muitas dúvidas entre os profissionais, no texto de hoje pretendo abordar as seguintes perguntas: como realizar os atendimentos psicológicos de forma online? Quais serviços são permitidos? Qual plataforma usar? O que o CFP e os CRPs têm recomendado? Quais as implicações para com o setting e com o sigilo?

Comunicados e regulamentações do CFP – Conselho Federal de Psicologia

Atualmente, temos 2 regulamentações do CFP que direcionam a nossa prática, são elas: a Resolução CFP Nº 11/2018 e a Resolução CFP Nº 04/2020, sendo essa última temporária e diretamente relacionada com o cenário da pandemia.

O atendimento psicológico a distância é permitido desde 2012 (Resolução CFP nº 11/2012), mas a Resolução CFP Nº 11/2018 revogou o que estava apresentado na resolução de 2012. Da resolução de 2018, quero destacar os seguintes pontos (art 2º, art. 5º e art. 9º).

Resolução CFP Nº 11/2018

Art. 2º São autorizadas a prestação dos seguintes serviços psicológicos realizados por meios tecnológicos da informação e comunicação, desde que não firam as disposições do Código de Ética Profissional da psicóloga e do psicólogo a esta Resolução:

I – As consultas e/ou atendimentos psicológicos de diferentes tipos de maneira síncrona ou assíncrona;

II – Os processos de Seleção de Pessoal;

III – Utilização de instrumentos psicológicos devidamente regulamentados por resolução pertinente, sendo que os testes psicológicos devem ter parecer favorável do Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos (SATEPSI), com padronização e normatização específica para tal finalidade.

IV – A supervisão técnica dos serviços prestados por psicólogas e psicólogos nos mais diversos contextos de atuação.

Art. 5º O atendimento de crianças e adolescentes ocorrerá na forma desta Resolução, com o consentimento expresso de ao menos um dos responsáveis legais e mediante avaliação de viabilidade técnica por parte da psicóloga e do psicólogo para a realização desse tipo de serviço.

Art. 9º A prestação de serviços psicológicos, por meio de tecnologias de informação e comunicação, deverá respeitar as especificidades e adequação dos métodos e instrumentos utilizados em relação às pessoas com deficiência na forma da legislação vigente.

Os itens acima nos reforçam a importância de conhecer e seguir o Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP Nº 10/2005) e nos informam quais tipos de serviços psicológicos e instrumentos são permitidos por meio da internet. Vale dizer que alguns testes psicológico utilizados em sessões presenciais não são favoráveis para utilização por meio das tecnologias da comunicação e da informação. Para acessar o Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos (SATEPSI) e encontrar as informações sobre os testes favoráveis, clique aqui.

CLIQUE AQUI para acessar a íntegra da Resolução CFP Nº 11/2018.

Resolução CFP Nº 04/2020

Com base nas recomendações de distanciamento e isolamento social, a prática profissional do psicólogo está, atualmente, direcionada para a atuação à distância e, dessa forma, uma nova e emergencial resolução foi apresentada pelo CFP. De uma forma geral, essa resolução suspende, de forma temporária, alguns artigos encontrados na resolução de 2018 e reforça instruções para o cadastro na plataforma e-Psi (necessária para a prática dos serviços psicológicos realizados por meios tecnológicos da informação e comunicação).

A resolução de 2020 é apresentada em 4 artigos que vou copiar e colar aqui:

Art. 1º Esta Resolução regulamenta os serviços psicológicos prestados por meios de tecnologia da informação e da comunicação durante o período de pandemia do COVID-19.

Art. 2º É dever fundamental do psicólogo conhecer e cumprir o Código de Ética Profissional estabelecido pela Resolução CFP nº 10, de 21 de julho de 2005, na prestação de serviços psicológicos por meio de tecnologias da comunicação e informação.

Art. 3º A prestação de serviços psicológicos referentes a esta Resolução está condicionada à realização de cadastro prévio na plataforma e-Psi junto ao respectivo Conselho Regional de Psicologia – CRP.

§ 1º O psicólogo deverá manter o próprio cadastro atualizado.

§ 2º O psicólogo poderá prestar serviços psicológicos por meios de Tecnologia da Informação e da Comunicação até emissão de parecer do respectivo CRP.

I – Da decisão de indeferimento do cadastro pelo CRP cabe recurso ao CFP, no prazo de 30 dias;

II – O recurso para o CFP terá efeito suspensivo, de modo que o psicólogo poderá prestar o serviço até decisão final do CFP;

III – A ausência de recurso implicará no impedimento e interrupção imediata da prestação do serviço;

IV – Na hipótese de ausência de recurso ou de decisão final do CFP confirmando o indeferimento do cadastro pelo CRP, o psicólogo fica impedido de prestar serviços psicológicos por meio de tecnologias da comunicação e informação até a aprovação de novo requerimento de cadastro pelo CRP.

V – Incorrerá em falta ética o psicólogo que prestar serviços psicológicos por meio Tecnologia da Informação e da Comunicação após indeferimento do CFP.

Art. 4º Ficam suspensos os Art. 3º, Art. 4º, Art. 6º, Art. 7º e Art. 8º da Resolução CFP nº 11, de 11 de maio de 2018, durante o período de pandemia do COVID-19 e até que sobrevenha Resolução do CFP sobre serviços psicológicos prestados por meios de tecnologia da informação e da comunicação.

Antes da pandemia, os cadastros feitos no e-Psi eram submetidos à avaliação e o profissional deveria aguardar a decisão favorável do CRP para iniciar os serviços online. Atualmente, ao finalizar o cadastro no e-Psi, imediatamente o profissional está autorizado a iniciar a prática, todavia, os cadastros continuam sendo analisados e o artigo 2º da Resolução CFP Nº 04/2020 nos informa sobre as possibilidades de indeferimento do mesmo.

(Tela inicial atual do portal Cadastro e-Psi: https://e-psi.cfp.org.br/)

Trocando em miúdos, caso você tenha feito o cadastro no e-Psi e, posteriormente, recebeu parecer negativo do CRP, você tem até 30 dias para recorrer ao CFP e poderá continuar atendendo nesse período. Caso não recorra, em 30 dias, seu cadastro será impedido e você deverá interromper os atendimentos online. Vale reforçar que o profissional que realizar os serviços psicológicos a distância, sem o cadastro no e-Psi, estará cometendo falta ética e estará sujeito às medidas do Conselho.

Conforme viram na resolução 04/2020, ela suspende, temporariamente, os artigos. 3º, 4º, 6º, 7º e 8º da Resolução CFP Nº 11/2018. Vejamos o que informam esses artigos:

Art. 3º A prestação de serviços psicológicos referentes a esta Resolução está condicionada à realização de um cadastro prévio junto ao Conselho Regional de Psicologia e sua autorização.

Art. 4º O profissional que mantiver serviços psicológicos por meios tecnológicos de comunicação a distância, sem o cadastramento no Conselho Regional de Psicologia, cometerá falta disciplinar.

Art. 6º O atendimento de pessoas e grupos em situação de urgência e emergência pelos meios de tecnologia e informação previstos nesta Resolução é inadequado, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial.

Art. 7º O atendimento de pessoas e grupos em situação de emergência e desastres pelos meios de tecnologia e informação previstos nesta Resolução é vedado, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial.

Art. 8º É vedado o atendimento de pessoas e grupos em situação de violação de direitos ou de violência, pelos meios de tecnologia e informação previstos nesta Resolução, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial. 

De uma forma geral, os artigos 3º e 4º foram atualizados por comunicado do CFP e pela Resolução CFP Nº 04/2020, sendo que o cadastro no e-Psi é obrigatório, mas não há necessidade de esperar aprovação do CRP. Já os artigos 6º, 7º e 8º vetavam o atendimento a determinados públicos, mas que agora podem ser atendidos de forma remota.

CLIQUE AQUI para acessar a íntegra da Resolução CFP Nº 04/2020.

Para saber mais e acompanhar as diretrizes do CFP, acesse aqui a página que reúne notícias, podcasts e vídeos.

Cadastro e-Psi

O cadastro na plataforma Cadastro e-Psi é obrigatória para que os profissionais de psicologia possam realizar os serviços por meio das tecnologias da informação e da comunicação. Fica aqui a recomendação do primeiro texto publicado pela Sociedade dos Psicólogos sobre terapia online. O texto foi escrito pelo Psicólogo e Sócio-Colunista Caio Cesar Rodrigues de Araujo (CRP 06/139621), reúne um passo a passo com fotos para compreensão do cadastro e pode ser acessado aqui: Tudo Sobre Terapia Online: Como Funciona? Prós e Contras; Como se Cadastrar? Passo a Passo com Fotos.

Acesso ao portal Cadastro e-Psi: https://e-psi.cfp.org.br/

Qual plataforma usar?

Primeiramente, é importante diferenciar o tipo de atendimento síncrono e assíncrono, sendo que as consultas e/ou atendimentos psicológicos de diferentes tipos nos são garantidas de maneira síncrona ou assíncrona pelo artigo 2º da Resolução CFP Nº 11/2018.

Atendimento síncrono

Esse tipo de comunicação se estabelece quando emissor e receptor estão sincronizados, isso é, em tempo real, por meio de videoconferência ou chamada telefônica, por exemplo. Nesse caso, as principais plataformas utilizadas são: WhatsApp, Skype, Zoom, Whereby, Google Duo, Facebook Messenger e FaceTime (esse último exclusivo para Apple).

Atendimento assíncrono

Já na comunicação assíncrona as informações são transmitidas sem que haja um fluxo estável, isso é, sem que ambas partes da comunicação estejam presentes naquele momento, como troca de e-mails, mensagens de texto ou voz no WhatsApp ou Telegram, por exemplo.

Seja para atendimento síncrono ou assíncrono, na hora de escolher a plataforma que você vai utilizar, é importante que você leia os termos de serviço e verifique a questão do sigilo da comunicação. Muitas vezes é necessário passar alguma informação prévia, verificar os conhecimentos do paciente e até instruí-lo a utilizar essas plataformas.

DICA 1 – No caso de utilização de serviços como WhatsApp, Telegram e Facebook Messenger, por exemplo, o profissional deve ter em mente que essas plataformas costumam carregar interrupções e notificações de outras conversas, o que não é ideal durante o atendimento. Dessa forma, é preferível a utilização de plataformas “mais fechadas”.

DICA 2 – É importante também ter um “plano B” das plataformas e para a utilização dessas, uma vez que elas dependem de energia elétrica e acesso a internet. No meu caso, para videochamadas, utilizo, preferencialmente, o Zoom em meu laptop. Caso aconteça algum problema com minha máquina, passo para um tablet e caso esse dê problema ou não haja wi-fi, o “plano C” é utilizar o Zoom pelo smartphone com o 4G. Meu software backup é o Skype, que também está instalado nesses 3 dispositivos.

Como manter o sigilo

Há diferenças significativas do sigilo no atendimento presencial para o online. De uma forma geral, no atendimento presencial, o profissional é o responsável pelo sigilo, o que vai desde a estrutura da sua sala até a guarda dos documentos. Já no atendimento a distância, há a corresponsabilidade, isso é, tanto o profissional quanto o cliente são responsáveis pelo sigilo.

O consultório mudou de lugar e foi para casa. Casa essa que, muitas vezes, comporta mais de uma pessoa, seja do lado do paciente ou do lado do terapeuta. Assim, alguns cuidados são importantes:

  • É dever do psicólogo escolher uma plataforma segura;
  • Ambos devem estar em ambiente reservado para as sessões (por vezes, durante a pandemia, tem sido comum o atendimento em horários mais avançados da noite, pois é o único horário que alguns pacientes se sentem confortáveis e sem interrupções/interferências de outros moradores);
  • Utilização de fone de ouvido (principalmente pelo profissional);
  • Não gravação das videoconferências;
  • Equipamentos protegidos por senhas pessoais;
  • Equipamentos protegidos pro antivírus;
  • Os atendimentos não poderão ser realizados em ambientes públicos, “infocentros” e lanhouses;
  • O profissional que está atendendo em casa deve informar aos demais moradores e, caso ache necessário, pode também colocar uma plaquinha na porta do seu cômodo informando que está em horário de trabalho).

Contrato de trabalho

Contrato escrito e contrato verbal

Apesar das recomendações de se estabelecer um contrato escrito de trabalho, é sabido que muitos profissionais utilizam o chamado contrato verbal em sua prática e relação terapêutica. Todavia, seja no verbal ou no escrito (e recomendo o escrito), é importante que o profissional inclua, para além das informações padrão, as questões sobre o funcionamento online e as plataformas escolhidas, bem como a questão da corresponsabilidade do sigilo, que deve incluir os elementos discutidos no tópico anterior.

Trabalho voluntário e contrato de trabalho

Frente à situação de pandemia, muitos profissionais e grupos tem se organizado para realizar atendimento voluntário gratuito. Sobre isso, vale conhecer algumas diretrizes do CFP que foram reunidas no comunicado publicado em 21/03/2020:

Não há impedimento na legislação profissional em prestar serviços psicológicos de forma voluntária/gratuita. Contudo, não deverá haver referências a valores na divulgação do serviço. Caso se trate de uma gratuidade, esta informação deverá ser disponibilizada individualmente. Ressalta-se, ainda, que as(os) profissionais devem ter uma proposta de trabalho com início, meio e fim, ou que garanta a gratuidade por todo o período da prestação do serviço. Salienta-se que deve haver o compromisso profissional estabelecido, com direitos e obrigações, como em qualquer outra situação de sua prática. Portanto, é necessário atentar aos preceitos do Código de Ética Profissional do Psicólogo e demais normativas do Sistema Conselhos de Psicologia do Brasil, destacando-se:

Art. 1º – São deveres fundamentais do psicólogo:

  1. b) Assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente.
  2. c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional.
  3. d) Prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou de emergência, sem visar benefício pessoal.

Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:

  1. i) Induzir qualquer pessoa ou organização a recorrer a seus serviços.
  2. n) Prolongar, desnecessariamente, a prestação de serviços profissionais.
  3. o) Pleitear ou receber comissões, empréstimos, doações ou vantagens outras de qualquer espécie, além dos honorários contratados, assim como intermediar transações financeiras.
  4. p) Receber, pagar remuneração ou porcentagem por encaminhamento de serviços.

Art. 4º – Ao fixar a remuneração pelo seu trabalho, o psicólogo:

  1. a) Levará em conta a justa retribuição aos serviços prestados e as condições do usuário ou beneficiário.
  2. b) Estipulará o valor de acordo com as características da atividade e o comunicará ao usuário ou beneficiário antes do início do trabalho a ser realizado.
  3. c) Assegurará a qualidade dos serviços oferecidos independentemente do valor acordado.

Com base no exposto, reforço a questão de que não deve haver referencia a valores em qualquer divulgação do profissional de psicologia e que a gratuidade deve ser informada individualmente. A nível do contrato, como trabalho com contrato escrito e tenho realizado também atendimentos voluntários, incluí a seguinte cláusula “O atendimento psicológico não terá custo enquanto perdurar o estado de emergência de saúde pública decorrente da COVID-19”.

Características do setting virtual

terapia onlineComo sabemos, o consultório mudou de lugar. Até então, precisávamos nos preocupar em encontrar uma boa sala, com um bom isolamento acústico, com uma boa localização, com um divã… atualmente, a preocupação é, principalmente, com uma boa plataforma, com uma boa internet e com a adaptação das técnicas para o atendimento a distância.

Não dá pra pensar que a terapia a online é igual a presencial. Ela é diferente e mais desafiadora, sendo que é tempo de nos reinventarmos e de descobrirmos novas possibilidades dentro da prática psicológica. Penso que é um ótimo momento para fazer ciência.

Para o profissional, é hora do trabalho, devemos nos preocupar com os ruídos do ambiente, com a qualidade da transmissão, com a nossa aparência profissional, com os elementos que são captados pela nossa câmera, entre outros detalhes, mas é importante pensar que o paciente pode estar na cama, de pijama, sem camisa, descabelado… e aí, cabe ao profissional e sua abordagem aceitar ou direcionar esses fenômenos vindos do cliente. No caso de haver mais pessoas no ambiente do cliente, o profissional deve informar e apontar sobre as perturbações.

A nível de desafios e possibilidades, vou copiar e colar algumas observações que foram escritas pelo meu xará, Caio Cesar Rodrigues de Araujo (CRP 06/139621), e que estão no texto Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber? e pode ser acessado na íntegra clicando aqui.

Dificuldades:

  • Problemas de conexão que podem causar delay (atraso) no áudio/vídeo, assim como problemas técnicos com microfone e/ou fones de ouvido;
  • Problemas de privacidade, onde o paciente encontra dificuldade em encontrar um local tranquilo, silencioso e que lhe garanta a possibilidade de falar o que quer e/ou precisa. Neste cenário, alguns optam por realizarem a sessão por dispositivos móveis de seus quartos, escritórios, banhos e até dentro de seus carros;
  • Dificuldade de manter o silêncio das sessões, podendo ele eventualmente ser confundido com problemas de conexão;

Vantagens:

  • Possibilidade de maior desinibição de alguns pacientes, pois agora pode haver a sensação de não estar falando diretamente algo a alguém, algo semelhante àquela confiança que muitas pessoas demonstram de maneira mais elevada na internet, cabendo aos terapeutas e analistas a devida atenção à fala e ao conteúdo. Algo longe de ser o caso de casos e também longe de não ser o caso de ninguém;
  • Maior flexibilidade de horários e, em alguns casos até de valores, de forma que fique mais confortável para ambas as partes, pois cada um está em sua residência.

Recomendações gerais

Flexibilidade, flexibilidade e flexibilidade. Iniciei o texto comentado que vivemos algo sem precedentes. Todos nós estamos sendo bombardeados, constantemente, com informes, notícias, recomendações, resoluções e tudo isso causa sensações de instabilidade e imprevisibilidade sobre a nossa prática e sobre o futuro da psicologia. Cabe a nós sermos flexíveis e atentos para poder compreender e conseguir atuar frente ao momento dinâmico que estamos vivendo.

Como recomendações gerais e finais, repito que o terapeuta que anteder online deverá tratar sua hora como trabalho, estando arrumado, fazendo os devidos registros, guardando os documentos, utilizando fones de ouvido e garantindo o sigilo, reservando e arrumando o espaço profissional, colocando a plaquinha na porta, tendo backups e planos B para a utilização dos softwares e aplicativos, mantendo laptop, tablet e celular carregados antes das sessões, configurar senhas para os dispositivos e estar atendo, sensível e estudando, estudando e estudando.

Referências

CFP – Coronavírus: Comunicado sobre atendimento on-line – Disponível Aqui

CFP – Nota Orientativa às(aos) Psicólogas(os): Trabalho Voluntário e Publicidade em Psicologia, diante do Coronavírus (COVID-19) – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 10/2005 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 11/2018 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 04/2020 – Disponível Aqui

Sociedade dos Psicólogos – Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber?

Sociedade dos Psicólogos – Tudo Sobre Terapia Online: Como Funciona? Prós e Contras; Como se Cadastrar? Passo a Passo com Fotos

Por Caio Ferreira

Winnicott: Holding, Handling e Apresentação dos Objetos

Expoente da chamada escola inglesa de psicanálise, D. W. Winnicott (1986 – 1971) foi um médico pediatra e psicanalista pós-freudiano que conseguiu criar uma dimensão original na psicanálise. Em sua trajetória, entre outros tópicos, destacam-se:

  • o papel e valor do ambiente/cuidador para com o desenvolvimento do indivíduo;
  • as funções de holding, handling e apresentação de objetos;
  • a descoberta do objeto transicional e da zona potencial;
  • os conceitos de verdadeiro e falso self;
  • a teoria da tendência antissocial e delinquência.

Escola britânica de psicanálise e Donald Winnicott

Winnicott foi supervisando de Melanie Klein (1882-1960) – psicanalista austríaca responsável por pioneiras teorias e descobertas acerca do aparelho psíquico do bebê e da criança – sendo que a teoria kleiniana serviu tanto para Winnicott confirmar algumas de suas investigações, como para o guiar e inspirar sua em própria teoria e abordagem, distinta da clínica de Klein.

O olhar de Winnicott mirou o ambiente e os cuidados maternos que cercam o início da vida de alguém. Diferente de Klein, ele nos diz que não é possível compreender a vida psíquica primitiva do bebê olhando apenas para esse e suas fantasias, mas deve-se analisar também o ambiente no qual ele está inserido e como são os cuidados que ele recebe.

Dessa forma, a teoria winnicottiana nos diz que não existe um bebê separado do seu cuidador (There is no such thing as a baby / a baby alone doesn’t exist) Winnicott,

“Se a dependência realmente significa dependência, então a história de um bebê individualmente não pode ser escrita apenas em termos do bebê. Tem de ser escrita também em termos da provisão ambiental que atende a dependência ou que nisso fracassa”.

(Winnicott, 1975, p. 116)

melanie klein e donnald winnicott
(Melanie Klein e Donald W. Winnicott, em jantar para M. Klein, em Londres de 1952).

Dependência e ambiente em Winnicott

Winnicott observou que ao nascer, diferente de alguns outros bichos, o ser humano é completamente dependente de seu cuidador, sendo que, caso esse não provenha alimento e segurança para o bebê, o mesmo certamente morrerá, uma vez que é incapaz de buscar, inicialmente e por conta própria, o conforto no ambiente – ele chamou isso de dependência absoluta.

Na teoria winnicottiana aparecem 3 fases de dependência: absoluta; relativa e rumo à independência. Na dependência absoluta não há separação entre corpo e meio; ainda não existe Eu configurado; o indivíduo é completamente dependente do ambiente. Na dependência relativa começamos a encontrar o self separado do outro; é o início da distinção do ser; há Eu e há outro; envolve a utilização de objeto transicional; o indivíduo começa a buscar o ambiente, mas ainda necessita de cuidados de alguém. No rumo à independência temos o estabelecimento de relacionamentos do indivíduo para com objetos externos baseados no princípio da realidade. Para o autor, o ser humano é um ser potencialmente criativo, que carrega uma tendência inata para a integração e o desenvolvimento, mas cabe ao ambiente oferecer o suporte para que essas potencialidades se realizem. Dessa forma, Winnicott fala de um ambiente facilitador ou suficientemente bom, representado pela mãe suficientemente boa (good enough parent): alguém que consegue, de forma empática, sensível e dinâmica se adaptar aos diversos estágios de desenvolvimento do bebê e responder adequadamente tanto às suas necessidades quanto às suas tolerâncias em suportar a frustração. De acordo com o autor, é função da mãe suficientemente boa: o holding; o handling; e a apresentação dos objetos.

Sustentação (Holding)

Geralmente traduzido como sustentar ou segurar e, por outras vezes, mantido no original “holding”, o termo faz referência ao suporte físico e psíquico oferecido ao bebê pelo seu cuidador. Envolve um padrão empático e uma rotina nos cuidados do bebê e se expressa como um conjunto de comportamentos afetivos relacionados ao alimentar, limpar, proteger, uma vez que o bebê precisa estar fisicamente seguro e psicologicamente acolhido. O holding permite uma certa estabilidade e previsibilidade do ambiente, o que é fundamental para o desenrolar das tendências hereditárias do indivíduo. De acordo com Winnicott, esse processo se dialoga diretamente com a continuidade do ser, com a noção de ilusão e com a integração das partes do self.

“Tudo isso é muito sutil, mas ao longo de muitas repetições, ajuda a assentar os fundamentos da capacidade que o bebê tem de sentir-se real. Com esta capacidade o bebê pode enfrentar o mundo ou (eu diria) pode continuar a desenvolver os processos de maturação que ele ou ela herdaram.”

(Winnicott, 2012, p. 5)

“quando o ato de segurar o bebê é perfeito (e de um modo geral assim é, já que as mães sabem exatamente como fazê-lo),o bebê pode adquirir confiança até mesmo no relacionamento ao vivo, e pode não integrar-se enquanto está sendo seguro. Esta é a experiência mais enriquecedora. Freqüentemente, no entanto, o ato de segurar o bebê é irregular, e pode até mesmo ser desperdiçado pela ansiedade (o controle exagerado da mãe para não deixar o bebê cair) ou pela angústia (a mãe que treme, a pele quente, um coração batendo com muita força, etc.), casos em que o bebê não pode dar-se ao luxo de relaxar. O relaxamento acontece então, nestes casos, apenas por pura exaustão. Aqui, o berço ou a cama oferecem uma alternativa muito bem-vinda.”

(Winnicott, 1990a, p. 61)

Manejo (Handling)

Vibrant Health Mother hugging child – Katie M. Berggren

Traduzido como manejo ou deixado no original “handling”, esse termo deriva de hand (mão) e diz respeito ao contato pele com pele entre bebê e cuidador. Faz referência aos cuidados físicos e envolve o manuseio corporal do bebê durante os suportes básicos como: banho, troca e amamentação, por exemplo. Segundo o autor, o handling auxilia a formar as bordas do corpo, a harmonizar a vida psíquica (realidade interna) com o corpo (esquema corporal), a diferenciar o Eu do outro, e a reconhecer sua própria psique dentro do seu próprio corpo (personalização). Dessa forma, o par segurar-manejar é fundamental para o estabelecimento das bases mínimas que possibilitarão a instauração de um ser saudável e criativo.

“Um bebê pode ser alimentado sem amor, mas um manejo desamoroso, ou impessoal, fracassa em fazer do indivíduo uma criança humana nova e autônoma”.

(Winnicott, 1975, p. 172)

Apresentação de Objetos (Object-presenting)

Por fim, mas não menos importante, a 3ª função que compete à mãe suficientemente boa é a apresentação dos objetos (ou apresentação de mundo), que consiste em oferecer objetos substitutos de satisfação. Relaciona-se com a apresentação da externalidade e da realidade. É fundamental para a avanço da fase de dependência absoluta para dependência relativa, uma vez que possibilita o interesse, curiosidade e a busca por objetos de satisfação para além da cuidadora. A mãe deve apresentar o mundo em pequenas doses, ao passo em que permita a ilusão inicial (onipotência) de que quem criou aquilo foi o bebê. Segundo o autor, essa apresentação carrega a função formativa que permite o estabelecimento das relações objetais.

“O bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma necessidade não-formulada. A mãe, em se adaptando, apresenta um objeto ou uma manipulação que satisfaz as necessidades do bebê, de modo que o bebê começa a necessitar exatamente o que a mãe apresenta. Deste modo o bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato da experiência.”

(Winnicott, 1990b, p.56).

Ambiente e Self

De acordo com o autor, o sucesso dos processos ambientais possibilitará o desenvolvimento e a estruturação saudável do ser (distinto, autêntico e criativo), assim como as falhas ambientais (negligências, intrusões ou desastres) levam ao desenvolvimento adaptativo e reativo de personalidade ao ambiente. O verdadeiro self e a sensação de que a vida vale apena ser vivida, apontada por Winnicott, é a realização da nossa tendência e potencial de desenvolvimento, assim como as estruturações defensivas do self, as neuroses e sensação de futilidade do viver, são características de um falso self que precisou se adaptar e/ou reagir a um ambiente falho.

Para saber mais sobre verdadeiro e falso self, recomendo a leitura do texto Explicando Winnicott: Criatividade Primária, onde abordo mais aspectos do desenvolvimento emocional primitivo e trago algumas relações entre o self e a criatividade primária. Deixo também como recomendação o trecho de “A criatividade humana e a crise contemporânea”, com psicanalista Carlos Plastino, que discorre sobre a temática.

Referências e complementos

Winnicott, D. W. (1975). O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago

Winnicott, D. W. (1990a). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, D. W. (1990b). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.

Winnicott, D. W. (2012). Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.

Por Caio Ferreira