Guia Para Atendimento Psicológico Online Durante a Pandemia

Alô psi! No texto de hoje vou abordar as principais questões que tenho esbarrado sobre o atendimento psicológico por meio das tecnologias da informação e da comunicação frente às demandas e implicações da pandemia do novo coronavírus.

terapia onlinePrimeiramente, é importante frisar que esse vírus nos vem como algo inédito, sem precedentes, cujos efeitos já foram caracterizados como um dos maiores problemas sanitários da contemporaneidade e como a maior pandemia da nossa geração. As medidas de prevenção comunitária e a incerteza sobre o futuro atingiram, de forma inesperada, nossos comportamentos e afetos, sendo que, de uma hora para a outra, fomos direcionados a mudar, desde a forma como cumprimentamos e nos relacionamos com as pessoas, até a forma como nos higienizamos, realizamos compras e realizamos nossos serviços.

Essas mudanças repentinas na rotina das pessoas costumam se desenrolar em estresse, sendo que esse, por sua vez, pode carregar ansiedades, amplificar psicopatologias e também mobilizar a pessoa para o crescimento pessoal. Do ponto de vista da saúde mental, tenho percebido que alguns fenômenos que encontramos na prática clínica estão “em alta” devido à situação de pandemia, do qual valem destacar os transtornos de ansiedade e episódios de pânico, hipocondria, TEPT (transtorno do estresse pós-traumático), aumento da violência doméstica, depressão, acúmulos e compulsividades.

Como o nosso trabalho está sendo direcionado para a prática online e isso ainda gera muitas dúvidas entre os profissionais, no texto de hoje pretendo abordar as seguintes perguntas: como realizar os atendimentos psicológicos de forma online? Quais serviços são permitidos? Qual plataforma usar? O que o CFP e os CRPs têm recomendado? Quais as implicações para com o setting e com o sigilo?

Comunicados e regulamentações do CFP – Conselho Federal de Psicologia

Atualmente, temos 2 regulamentações do CFP que direcionam a nossa prática, são elas: a Resolução CFP Nº 11/2018 e a Resolução CFP Nº 04/2020, sendo essa última temporária e diretamente relacionada com o cenário da pandemia.

O atendimento psicológico a distância é permitido desde 2012 (Resolução CFP nº 11/2012), mas a Resolução CFP Nº 11/2018 revogou o que estava apresentado na resolução de 2012. Da resolução de 2018, quero destacar os seguintes pontos (art 2º, art. 5º e art. 9º).

Resolução CFP Nº 11/2018

Art. 2º São autorizadas a prestação dos seguintes serviços psicológicos realizados por meios tecnológicos da informação e comunicação, desde que não firam as disposições do Código de Ética Profissional da psicóloga e do psicólogo a esta Resolução:

I – As consultas e/ou atendimentos psicológicos de diferentes tipos de maneira síncrona ou assíncrona;

II – Os processos de Seleção de Pessoal;

III – Utilização de instrumentos psicológicos devidamente regulamentados por resolução pertinente, sendo que os testes psicológicos devem ter parecer favorável do Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos (SATEPSI), com padronização e normatização específica para tal finalidade.

IV – A supervisão técnica dos serviços prestados por psicólogas e psicólogos nos mais diversos contextos de atuação.

Art. 5º O atendimento de crianças e adolescentes ocorrerá na forma desta Resolução, com o consentimento expresso de ao menos um dos responsáveis legais e mediante avaliação de viabilidade técnica por parte da psicóloga e do psicólogo para a realização desse tipo de serviço.

Art. 9º A prestação de serviços psicológicos, por meio de tecnologias de informação e comunicação, deverá respeitar as especificidades e adequação dos métodos e instrumentos utilizados em relação às pessoas com deficiência na forma da legislação vigente.

Os itens acima nos reforçam a importância de conhecer e seguir o Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP Nº 10/2005) e nos informam quais tipos de serviços psicológicos e instrumentos são permitidos por meio da internet. Vale dizer que alguns testes psicológico utilizados em sessões presenciais não são favoráveis para utilização por meio das tecnologias da comunicação e da informação. Para acessar o Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos (SATEPSI) e encontrar as informações sobre os testes favoráveis, clique aqui.

CLIQUE AQUI para acessar a íntegra da Resolução CFP Nº 11/2018.

Resolução CFP Nº 04/2020

Com base nas recomendações de distanciamento e isolamento social, a prática profissional do psicólogo está, atualmente, direcionada para a atuação à distância e, dessa forma, uma nova e emergencial resolução foi apresentada pelo CFP. De uma forma geral, essa resolução suspende, de forma temporária, alguns artigos encontrados na resolução de 2018 e reforça instruções para o cadastro na plataforma e-Psi (necessária para a prática dos serviços psicológicos realizados por meios tecnológicos da informação e comunicação).

A resolução de 2020 é apresentada em 4 artigos que vou copiar e colar aqui:

Art. 1º Esta Resolução regulamenta os serviços psicológicos prestados por meios de tecnologia da informação e da comunicação durante o período de pandemia do COVID-19.

Art. 2º É dever fundamental do psicólogo conhecer e cumprir o Código de Ética Profissional estabelecido pela Resolução CFP nº 10, de 21 de julho de 2005, na prestação de serviços psicológicos por meio de tecnologias da comunicação e informação.

Art. 3º A prestação de serviços psicológicos referentes a esta Resolução está condicionada à realização de cadastro prévio na plataforma e-Psi junto ao respectivo Conselho Regional de Psicologia – CRP.

§ 1º O psicólogo deverá manter o próprio cadastro atualizado.

§ 2º O psicólogo poderá prestar serviços psicológicos por meios de Tecnologia da Informação e da Comunicação até emissão de parecer do respectivo CRP.

I – Da decisão de indeferimento do cadastro pelo CRP cabe recurso ao CFP, no prazo de 30 dias;

II – O recurso para o CFP terá efeito suspensivo, de modo que o psicólogo poderá prestar o serviço até decisão final do CFP;

III – A ausência de recurso implicará no impedimento e interrupção imediata da prestação do serviço;

IV – Na hipótese de ausência de recurso ou de decisão final do CFP confirmando o indeferimento do cadastro pelo CRP, o psicólogo fica impedido de prestar serviços psicológicos por meio de tecnologias da comunicação e informação até a aprovação de novo requerimento de cadastro pelo CRP.

V – Incorrerá em falta ética o psicólogo que prestar serviços psicológicos por meio Tecnologia da Informação e da Comunicação após indeferimento do CFP.

Art. 4º Ficam suspensos os Art. 3º, Art. 4º, Art. 6º, Art. 7º e Art. 8º da Resolução CFP nº 11, de 11 de maio de 2018, durante o período de pandemia do COVID-19 e até que sobrevenha Resolução do CFP sobre serviços psicológicos prestados por meios de tecnologia da informação e da comunicação.

Antes da pandemia, os cadastros feitos no e-Psi eram submetidos à avaliação e o profissional deveria aguardar a decisão favorável do CRP para iniciar os serviços online. Atualmente, ao finalizar o cadastro no e-Psi, imediatamente o profissional está autorizado a iniciar a prática, todavia, os cadastros continuam sendo analisados e o artigo 2º da Resolução CFP Nº 04/2020 nos informa sobre as possibilidades de indeferimento do mesmo.

(Tela inicial atual do portal Cadastro e-Psi: https://e-psi.cfp.org.br/)

Trocando em miúdos, caso você tenha feito o cadastro no e-Psi e, posteriormente, recebeu parecer negativo do CRP, você tem até 30 dias para recorrer ao CFP e poderá continuar atendendo nesse período. Caso não recorra, em 30 dias, seu cadastro será impedido e você deverá interromper os atendimentos online. Vale reforçar que o profissional que realizar os serviços psicológicos a distância, sem o cadastro no e-Psi, estará cometendo falta ética e estará sujeito às medidas do Conselho.

Conforme viram na resolução 04/2020, ela suspende, temporariamente, os artigos. 3º, 4º, 6º, 7º e 8º da Resolução CFP Nº 11/2018. Vejamos o que informam esses artigos:

Art. 3º A prestação de serviços psicológicos referentes a esta Resolução está condicionada à realização de um cadastro prévio junto ao Conselho Regional de Psicologia e sua autorização.

Art. 4º O profissional que mantiver serviços psicológicos por meios tecnológicos de comunicação a distância, sem o cadastramento no Conselho Regional de Psicologia, cometerá falta disciplinar.

Art. 6º O atendimento de pessoas e grupos em situação de urgência e emergência pelos meios de tecnologia e informação previstos nesta Resolução é inadequado, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial.

Art. 7º O atendimento de pessoas e grupos em situação de emergência e desastres pelos meios de tecnologia e informação previstos nesta Resolução é vedado, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial.

Art. 8º É vedado o atendimento de pessoas e grupos em situação de violação de direitos ou de violência, pelos meios de tecnologia e informação previstos nesta Resolução, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial. 

De uma forma geral, os artigos 3º e 4º foram atualizados por comunicado do CFP e pela Resolução CFP Nº 04/2020, sendo que o cadastro no e-Psi é obrigatório, mas não há necessidade de esperar aprovação do CRP. Já os artigos 6º, 7º e 8º vetavam o atendimento a determinados públicos, mas que agora podem ser atendidos de forma remota.

CLIQUE AQUI para acessar a íntegra da Resolução CFP Nº 04/2020.

Para saber mais e acompanhar as diretrizes do CFP, acesse aqui a página que reúne notícias, podcasts e vídeos.

Cadastro e-Psi

O cadastro na plataforma Cadastro e-Psi é obrigatória para que os profissionais de psicologia possam realizar os serviços por meio das tecnologias da informação e da comunicação. Fica aqui a recomendação do primeiro texto publicado pela Sociedade dos Psicólogos sobre terapia online. O texto foi escrito pelo Psicólogo e Sócio-Colunista Caio Cesar Rodrigues de Araujo (CRP 06/139621), reúne um passo a passo com fotos para compreensão do cadastro e pode ser acessado aqui: Tudo Sobre Terapia Online: Como Funciona? Prós e Contras; Como se Cadastrar? Passo a Passo com Fotos.

Acesso ao portal Cadastro e-Psi: https://e-psi.cfp.org.br/

Qual plataforma usar?

Primeiramente, é importante diferenciar o tipo de atendimento síncrono e assíncrono, sendo que as consultas e/ou atendimentos psicológicos de diferentes tipos nos são garantidas de maneira síncrona ou assíncrona pelo artigo 2º da Resolução CFP Nº 11/2018.

Atendimento síncrono

Esse tipo de comunicação se estabelece quando emissor e receptor estão sincronizados, isso é, em tempo real, por meio de videoconferência ou chamada telefônica, por exemplo. Nesse caso, as principais plataformas utilizadas são: WhatsApp, Skype, Zoom, Whereby, Google Duo, Facebook Messenger e FaceTime (esse último exclusivo para Apple).

Atendimento assíncrono

Já na comunicação assíncrona as informações são transmitidas sem que haja um fluxo estável, isso é, sem que ambas partes da comunicação estejam presentes naquele momento, como troca de e-mails, mensagens de texto ou voz no WhatsApp ou Telegram, por exemplo.

Seja para atendimento síncrono ou assíncrono, na hora de escolher a plataforma que você vai utilizar, é importante que você leia os termos de serviço e verifique a questão do sigilo da comunicação. Muitas vezes é necessário passar alguma informação prévia, verificar os conhecimentos do paciente e até instruí-lo a utilizar essas plataformas.

DICA 1 – No caso de utilização de serviços como WhatsApp, Telegram e Facebook Messenger, por exemplo, o profissional deve ter em mente que essas plataformas costumam carregar interrupções e notificações de outras conversas, o que não é ideal durante o atendimento. Dessa forma, é preferível a utilização de plataformas “mais fechadas”.

DICA 2 – É importante também ter um “plano B” das plataformas e para a utilização dessas, uma vez que elas dependem de energia elétrica e acesso a internet. No meu caso, para videochamadas, utilizo, preferencialmente, o Zoom em meu laptop. Caso aconteça algum problema com minha máquina, passo para um tablet e caso esse dê problema ou não haja wi-fi, o “plano C” é utilizar o Zoom pelo smartphone com o 4G. Meu software backup é o Skype, que também está instalado nesses 3 dispositivos.

Como manter o sigilo

Há diferenças significativas do sigilo no atendimento presencial para o online. De uma forma geral, no atendimento presencial, o profissional é o responsável pelo sigilo, o que vai desde a estrutura da sua sala até a guarda dos documentos. Já no atendimento a distância, há a corresponsabilidade, isso é, tanto o profissional quanto o cliente são responsáveis pelo sigilo.

O consultório mudou de lugar e foi para casa. Casa essa que, muitas vezes, comporta mais de uma pessoa, seja do lado do paciente ou do lado do terapeuta. Assim, alguns cuidados são importantes:

  • É dever do psicólogo escolher uma plataforma segura;
  • Ambos devem estar em ambiente reservado para as sessões (por vezes, durante a pandemia, tem sido comum o atendimento em horários mais avançados da noite, pois é o único horário que alguns pacientes se sentem confortáveis e sem interrupções/interferências de outros moradores);
  • Utilização de fone de ouvido (principalmente pelo profissional);
  • Não gravação das videoconferências;
  • Equipamentos protegidos por senhas pessoais;
  • Equipamentos protegidos pro antivírus;
  • Os atendimentos não poderão ser realizados em ambientes públicos, “infocentros” e lanhouses;
  • O profissional que está atendendo em casa deve informar aos demais moradores e, caso ache necessário, pode também colocar uma plaquinha na porta do seu cômodo informando que está em horário de trabalho).

Contrato de trabalho

Contrato escrito e contrato verbal

Apesar das recomendações de se estabelecer um contrato escrito de trabalho, é sabido que muitos profissionais utilizam o chamado contrato verbal em sua prática e relação terapêutica. Todavia, seja no verbal ou no escrito (e recomendo o escrito), é importante que o profissional inclua, para além das informações padrão, as questões sobre o funcionamento online e as plataformas escolhidas, bem como a questão da corresponsabilidade do sigilo, que deve incluir os elementos discutidos no tópico anterior.

Trabalho voluntário e contrato de trabalho

Frente à situação de pandemia, muitos profissionais e grupos tem se organizado para realizar atendimento voluntário gratuito. Sobre isso, vale conhecer algumas diretrizes do CFP que foram reunidas no comunicado publicado em 21/03/2020:

Não há impedimento na legislação profissional em prestar serviços psicológicos de forma voluntária/gratuita. Contudo, não deverá haver referências a valores na divulgação do serviço. Caso se trate de uma gratuidade, esta informação deverá ser disponibilizada individualmente. Ressalta-se, ainda, que as(os) profissionais devem ter uma proposta de trabalho com início, meio e fim, ou que garanta a gratuidade por todo o período da prestação do serviço. Salienta-se que deve haver o compromisso profissional estabelecido, com direitos e obrigações, como em qualquer outra situação de sua prática. Portanto, é necessário atentar aos preceitos do Código de Ética Profissional do Psicólogo e demais normativas do Sistema Conselhos de Psicologia do Brasil, destacando-se:

Art. 1º – São deveres fundamentais do psicólogo:

  1. b) Assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente.
  2. c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional.
  3. d) Prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou de emergência, sem visar benefício pessoal.

Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:

  1. i) Induzir qualquer pessoa ou organização a recorrer a seus serviços.
  2. n) Prolongar, desnecessariamente, a prestação de serviços profissionais.
  3. o) Pleitear ou receber comissões, empréstimos, doações ou vantagens outras de qualquer espécie, além dos honorários contratados, assim como intermediar transações financeiras.
  4. p) Receber, pagar remuneração ou porcentagem por encaminhamento de serviços.

Art. 4º – Ao fixar a remuneração pelo seu trabalho, o psicólogo:

  1. a) Levará em conta a justa retribuição aos serviços prestados e as condições do usuário ou beneficiário.
  2. b) Estipulará o valor de acordo com as características da atividade e o comunicará ao usuário ou beneficiário antes do início do trabalho a ser realizado.
  3. c) Assegurará a qualidade dos serviços oferecidos independentemente do valor acordado.

Com base no exposto, reforço a questão de que não deve haver referencia a valores em qualquer divulgação do profissional de psicologia e que a gratuidade deve ser informada individualmente. A nível do contrato, como trabalho com contrato escrito e tenho realizado também atendimentos voluntários, incluí a seguinte cláusula “O atendimento psicológico não terá custo enquanto perdurar o estado de emergência de saúde pública decorrente da COVID-19”.

Características do setting virtual

terapia onlineComo sabemos, o consultório mudou de lugar. Até então, precisávamos nos preocupar em encontrar uma boa sala, com um bom isolamento acústico, com uma boa localização, com um divã… atualmente, a preocupação é, principalmente, com uma boa plataforma, com uma boa internet e com a adaptação das técnicas para o atendimento a distância.

Não dá pra pensar que a terapia a online é igual a presencial. Ela é diferente e mais desafiadora, sendo que é tempo de nos reinventarmos e de descobrirmos novas possibilidades dentro da prática psicológica. Penso que é um ótimo momento para fazer ciência.

Para o profissional, é hora do trabalho, devemos nos preocupar com os ruídos do ambiente, com a qualidade da transmissão, com a nossa aparência profissional, com os elementos que são captados pela nossa câmera, entre outros detalhes, mas é importante pensar que o paciente pode estar na cama, de pijama, sem camisa, descabelado… e aí, cabe ao profissional e sua abordagem aceitar ou direcionar esses fenômenos vindos do cliente. No caso de haver mais pessoas no ambiente do cliente, o profissional deve informar e apontar sobre as perturbações.

A nível de desafios e possibilidades, vou copiar e colar algumas observações que foram escritas pelo meu xará, Caio Cesar Rodrigues de Araujo (CRP 06/139621), e que estão no texto Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber? e pode ser acessado na íntegra clicando aqui.

Dificuldades:

  • Problemas de conexão que podem causar delay (atraso) no áudio/vídeo, assim como problemas técnicos com microfone e/ou fones de ouvido;
  • Problemas de privacidade, onde o paciente encontra dificuldade em encontrar um local tranquilo, silencioso e que lhe garanta a possibilidade de falar o que quer e/ou precisa. Neste cenário, alguns optam por realizarem a sessão por dispositivos móveis de seus quartos, escritórios, banhos e até dentro de seus carros;
  • Dificuldade de manter o silêncio das sessões, podendo ele eventualmente ser confundido com problemas de conexão;

Vantagens:

  • Possibilidade de maior desinibição de alguns pacientes, pois agora pode haver a sensação de não estar falando diretamente algo a alguém, algo semelhante àquela confiança que muitas pessoas demonstram de maneira mais elevada na internet, cabendo aos terapeutas e analistas a devida atenção à fala e ao conteúdo. Algo longe de ser o caso de casos e também longe de não ser o caso de ninguém;
  • Maior flexibilidade de horários e, em alguns casos até de valores, de forma que fique mais confortável para ambas as partes, pois cada um está em sua residência.

Recomendações gerais

Flexibilidade, flexibilidade e flexibilidade. Iniciei o texto comentado que vivemos algo sem precedentes. Todos nós estamos sendo bombardeados, constantemente, com informes, notícias, recomendações, resoluções e tudo isso causa sensações de instabilidade e imprevisibilidade sobre a nossa prática e sobre o futuro da psicologia. Cabe a nós sermos flexíveis e atentos para poder compreender e conseguir atuar frente ao momento dinâmico que estamos vivendo.

Como recomendações gerais e finais, repito que o terapeuta que anteder online deverá tratar sua hora como trabalho, estando arrumado, fazendo os devidos registros, guardando os documentos, utilizando fones de ouvido e garantindo o sigilo, reservando e arrumando o espaço profissional, colocando a plaquinha na porta, tendo backups e planos B para a utilização dos softwares e aplicativos, mantendo laptop, tablet e celular carregados antes das sessões, configurar senhas para os dispositivos e estar atendo, sensível e estudando, estudando e estudando.

Referências

CFP – Coronavírus: Comunicado sobre atendimento on-line – Disponível Aqui

CFP – Nota Orientativa às(aos) Psicólogas(os): Trabalho Voluntário e Publicidade em Psicologia, diante do Coronavírus (COVID-19) – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 10/2005 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 11/2018 – Disponível Aqui

Resolução CFP Nº 04/2020 – Disponível Aqui

Sociedade dos Psicólogos – Coronavirus (COVID-19) e Psicologia — O que te falta saber?

Sociedade dos Psicólogos – Tudo Sobre Terapia Online: Como Funciona? Prós e Contras; Como se Cadastrar? Passo a Passo com Fotos

Por Caio Ferreira

Winnicott: Holding, Handling e Apresentação dos Objetos

Expoente da chamada escola inglesa de psicanálise, D. W. Winnicott (1986 – 1971) foi um médico pediatra e psicanalista pós-freudiano que conseguiu criar uma dimensão original na psicanálise. Em sua trajetória, entre outros tópicos, destacam-se:

  • o papel e valor do ambiente/cuidador para com o desenvolvimento do indivíduo;
  • as funções de holding, handling e apresentação de objetos;
  • a descoberta do objeto transicional e da zona potencial;
  • os conceitos de verdadeiro e falso self;
  • a teoria da tendência antissocial e delinquência.

Escola britânica de psicanálise e Donald Winnicott

Winnicott foi supervisando de Melanie Klein (1882-1960) – psicanalista austríaca responsável por pioneiras teorias e descobertas acerca do aparelho psíquico do bebê e da criança – sendo que a teoria kleiniana serviu tanto para Winnicott confirmar algumas de suas investigações, como para o guiar e inspirar sua em própria teoria e abordagem, distinta da clínica de Klein.

O olhar de Winnicott mirou o ambiente e os cuidados maternos que cercam o início da vida de alguém. Diferente de Klein, ele nos diz que não é possível compreender a vida psíquica primitiva do bebê olhando apenas para esse e suas fantasias, mas deve-se analisar também o ambiente no qual ele está inserido e como são os cuidados que ele recebe.

Dessa forma, a teoria winnicottiana nos diz que não existe um bebê separado do seu cuidador (There is no such thing as a baby / a baby alone doesn’t exist) Winnicott,

“Se a dependência realmente significa dependência, então a história de um bebê individualmente não pode ser escrita apenas em termos do bebê. Tem de ser escrita também em termos da provisão ambiental que atende a dependência ou que nisso fracassa”.

(Winnicott, 1975, p. 116)

melanie klein e donnald winnicott
(Melanie Klein e Donald W. Winnicott, em jantar para M. Klein, em Londres de 1952).

Dependência e ambiente em Winnicott

Winnicott observou que ao nascer, diferente de alguns outros bichos, o ser humano é completamente dependente de seu cuidador, sendo que, caso esse não provenha alimento e segurança para o bebê, o mesmo certamente morrerá, uma vez que é incapaz de buscar, inicialmente e por conta própria, o conforto no ambiente – ele chamou isso de dependência absoluta.

Na teoria winnicottiana aparecem 3 fases de dependência: absoluta; relativa e rumo à independência. Na dependência absoluta não há separação entre corpo e meio; ainda não existe Eu configurado; o indivíduo é completamente dependente do ambiente. Na dependência relativa começamos a encontrar o self separado do outro; é o início da distinção do ser; há Eu e há outro; envolve a utilização de objeto transicional; o indivíduo começa a buscar o ambiente, mas ainda necessita de cuidados de alguém. No rumo à independência temos o estabelecimento de relacionamentos do indivíduo para com objetos externos baseados no princípio da realidade. Para o autor, o ser humano é um ser potencialmente criativo, que carrega uma tendência inata para a integração e o desenvolvimento, mas cabe ao ambiente oferecer o suporte para que essas potencialidades se realizem. Dessa forma, Winnicott fala de um ambiente facilitador ou suficientemente bom, representado pela mãe suficientemente boa (good enough parent): alguém que consegue, de forma empática, sensível e dinâmica se adaptar aos diversos estágios de desenvolvimento do bebê e responder adequadamente tanto às suas necessidades quanto às suas tolerâncias em suportar a frustração. De acordo com o autor, é função da mãe suficientemente boa: o holding; o handling; e a apresentação dos objetos.

Sustentação (Holding)

Geralmente traduzido como sustentar ou segurar e, por outras vezes, mantido no original “holding”, o termo faz referência ao suporte físico e psíquico oferecido ao bebê pelo seu cuidador. Envolve um padrão empático e uma rotina nos cuidados do bebê e se expressa como um conjunto de comportamentos afetivos relacionados ao alimentar, limpar, proteger, uma vez que o bebê precisa estar fisicamente seguro e psicologicamente acolhido. O holding permite uma certa estabilidade e previsibilidade do ambiente, o que é fundamental para o desenrolar das tendências hereditárias do indivíduo. De acordo com Winnicott, esse processo se dialoga diretamente com a continuidade do ser, com a noção de ilusão e com a integração das partes do self.

“Tudo isso é muito sutil, mas ao longo de muitas repetições, ajuda a assentar os fundamentos da capacidade que o bebê tem de sentir-se real. Com esta capacidade o bebê pode enfrentar o mundo ou (eu diria) pode continuar a desenvolver os processos de maturação que ele ou ela herdaram.”

(Winnicott, 2012, p. 5)

“quando o ato de segurar o bebê é perfeito (e de um modo geral assim é, já que as mães sabem exatamente como fazê-lo),o bebê pode adquirir confiança até mesmo no relacionamento ao vivo, e pode não integrar-se enquanto está sendo seguro. Esta é a experiência mais enriquecedora. Freqüentemente, no entanto, o ato de segurar o bebê é irregular, e pode até mesmo ser desperdiçado pela ansiedade (o controle exagerado da mãe para não deixar o bebê cair) ou pela angústia (a mãe que treme, a pele quente, um coração batendo com muita força, etc.), casos em que o bebê não pode dar-se ao luxo de relaxar. O relaxamento acontece então, nestes casos, apenas por pura exaustão. Aqui, o berço ou a cama oferecem uma alternativa muito bem-vinda.”

(Winnicott, 1990a, p. 61)

Manejo (Handling)

Vibrant Health Mother hugging child – Katie M. Berggren

Traduzido como manejo ou deixado no original “handling”, esse termo deriva de hand (mão) e diz respeito ao contato pele com pele entre bebê e cuidador. Faz referência aos cuidados físicos e envolve o manuseio corporal do bebê durante os suportes básicos como: banho, troca e amamentação, por exemplo. Segundo o autor, o handling auxilia a formar as bordas do corpo, a harmonizar a vida psíquica (realidade interna) com o corpo (esquema corporal), a diferenciar o Eu do outro, e a reconhecer sua própria psique dentro do seu próprio corpo (personalização). Dessa forma, o par segurar-manejar é fundamental para o estabelecimento das bases mínimas que possibilitarão a instauração de um ser saudável e criativo.

“Um bebê pode ser alimentado sem amor, mas um manejo desamoroso, ou impessoal, fracassa em fazer do indivíduo uma criança humana nova e autônoma”.

(Winnicott, 1975, p. 172)

Apresentação de Objetos (Object-presenting)

Por fim, mas não menos importante, a 3ª função que compete à mãe suficientemente boa é a apresentação dos objetos (ou apresentação de mundo), que consiste em oferecer objetos substitutos de satisfação. Relaciona-se com a apresentação da externalidade e da realidade. É fundamental para a avanço da fase de dependência absoluta para dependência relativa, uma vez que possibilita o interesse, curiosidade e a busca por objetos de satisfação para além da cuidadora. A mãe deve apresentar o mundo em pequenas doses, ao passo em que permita a ilusão inicial (onipotência) de que quem criou aquilo foi o bebê. Segundo o autor, essa apresentação carrega a função formativa que permite o estabelecimento das relações objetais.

“O bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma necessidade não-formulada. A mãe, em se adaptando, apresenta um objeto ou uma manipulação que satisfaz as necessidades do bebê, de modo que o bebê começa a necessitar exatamente o que a mãe apresenta. Deste modo o bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato da experiência.”

(Winnicott, 1990b, p.56).

Ambiente e Self

De acordo com o autor, o sucesso dos processos ambientais possibilitará o desenvolvimento e a estruturação saudável do ser (distinto, autêntico e criativo), assim como as falhas ambientais (negligências, intrusões ou desastres) levam ao desenvolvimento adaptativo e reativo de personalidade ao ambiente. O verdadeiro self e a sensação de que a vida vale apena ser vivida, apontada por Winnicott, é a realização da nossa tendência e potencial de desenvolvimento, assim como as estruturações defensivas do self, as neuroses e sensação de futilidade do viver, são características de um falso self que precisou se adaptar e/ou reagir a um ambiente falho.

Para saber mais sobre verdadeiro e falso self, recomendo a leitura do texto Explicando Winnicott: Criatividade Primária, onde abordo mais aspectos do desenvolvimento emocional primitivo e trago algumas relações entre o self e a criatividade primária. Deixo também como recomendação o trecho de “A criatividade humana e a crise contemporânea”, com psicanalista Carlos Plastino, que discorre sobre a temática.

Referências e complementos

Winnicott, D. W. (1975). O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago

Winnicott, D. W. (1990a). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, D. W. (1990b). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.

Winnicott, D. W. (2012). Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.

Por Caio Ferreira

Sociedade dos Psicólogos participa de SIPAT no CDP – Belém I

Na última quarta-feira (23/10/2019) os Psicólogos Caio Cesar Rodrigues de Araujo Santos (CRP 06/139621) e Caio Henrique Ferreira da Costa (CRP 06/147859) participaram da SIPAT que aconteceu no Centro de Detenção Provisória I Chácara Belém, com a palestra “Dependência Química: que droga é essa?”.

Os principais tópicos abordados e discutidos foram:

  • O que é droga?
  • Como chamar quem usa droga?
  • Quem usa droga no Brasil?
  • Internar resolve?
  • Como se livrar da droga?
  • Médico, psicólogo ou igreja?
  • Experimentar vicia?
  • Alterações afetivas e comportamentais do usuário.

Caio Cesar Psicólogo
(Caio Cesar Rodrigues)

As Drogas e suas características

Caio Cesar Rodrigues falou, principalmente, sobre composição, efeitos, características e perfil de usuário, correspondente às substâncias: crack, oxi, cocaína, MDMA, lança perfume, tabaco, maconha, heroína, álcool, cafeína e chocolate (açúcar). Também abordou os tipos de usuários e dependências, bem como os nomes e expressões associadas à esses fenômenos.

expressão facial drogasO afeto e comportamento do usuário

Caio Ferreira expôs os 3 grandes grupos de drogas (depressoras, estimulantes e perturbadoras do sistema nervoso central) e contribuiu, principalmente, com o mapeamento das alterações afetivas e comportamentais da pessoa intoxicada, onde citou a utilização do Facial Action Coding System (FACS) como uma ferramenta auxiliar nos processos de detecção e intervenção.

Leve você também a Sociedade dos Psicólogos para sua empresa/instituição: https://spsicologos.com/servicos/palestras-personalizadas/

Quer saber mais sobre as substâncias psicoativas?

 

 

logo Sociedade dos Psicólogos

Venha emergir como sujeito de sua própria história!

Psicologias da Emoção: teorias e implicações

Psicologia das emoções
(O filme Divertida Mente [Inside Out], 2015, Disney-Pixar, ilustra bem várias questões relacionadas ao desenvolvimento e ao uso das emoções)
Todos os dias e em quase todos os momentos estamos em contato com as nossas emoções e a psicologia científica estuda emoções desde o seu surgimento. Embora muitas estruturas, fenômenos e leis tenham sido investigadas, ainda não há um consenso sobre o que são as emoções e como elas acontecem. Diversos modelos de experiência emocional já foram propostos ao longo da história e, no texto de hoje, vou abordar algumas das principais teorias e descobertas que tocam a vida emocional humana. Quando falamos de emoção, falamos daquilo que é pulsional e mobiliza o comportamento em virtude de uma função (social/comunicação; proteção/sobrevivência); falamos daquilo que te faz sorrir e pular de alegria, de forma involuntária, frente à uma conquista, por exemplo; e falamos daquilo que acontece com você no caso de se deparar com um leão enorme rugindo na sua frente: você paralisa por um instante, sua pálpebra superior se eleva e sua pupila dilata, você encara a fera enquanto seu cérebro cuida de desviar o sangue do seu corpo em direção às suas pernas e, antes que você pense muito, já se percebe correndo/fugindo.

Falar de emoção é também se emocionar, olhar para si, para seus sinais corporais, expressões faciais, pensamentos associados, sentimentos, alterações respondentes (cardíacas, sudorese, enrubescer…). É falar sobre as valências emocionais, isso é, suas intensidades e sensações associadas (positivas ou negativas). É viver emoções primarias (básicas/universais) e secundárias (sociais/culturais). É tentar diferencias emoções, sentimos e afetos. É apreciar a leveza e a paz que um alívio pode trazer e perceber também que o nojo te protege de ingerir algo tóxico e prejudicial. Venha pela trilha emocional e lembre-se sempre que “as emoções determinam a qualidade das nossas vidas” (P. Ekman).

Charles Darwin: o pai do comportamento emocional

O comportamento emocional é essa força viva, universal e involuntária que faz o indivíduo responder de maneira previsível quando o assunto é a experiência emocional genuína/espontânea (quando uma pessoa, de fato, sente uma emoção). O trecho abaixo apresenta alguns exemplos do comportamento emocional.

O sorriso verdadeiro durante a vivência da alegria;
O paralisar, correr ou lutar frente à situação de perigo;
A elevação do pitch vocal e “tremor na voz” durante a sensação de ansiedade;
A dilatação e a contração pupilar referente não a alteração da luminosidade do ambiente, mas à alteração emocional particular de alguém;
O aumento no uso de gestos manipuladores durante a emoção negativa;
O ruborizar durante a vergonha ou raiva, por exemplo.

(Ferreira, 2018, p. 11)

Psicologia das emoções expressão facial duchenne
(Duchenne realizou experimentos de eletroestimulação em músculos da face humana, durante uma investigação sobre a fisiologia das emoções que influenciou Darwin.)

Se hoje podemos falar de comportamento emocional universal, vale lembrar que foi em 1872 que Charles Darwin publicou “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”, onde propôs, de forma pioneira, que as emoções e suas expressões não seriam produto cultural ou decorrente de processos de aprendizagem, mas seriam universais e partilhadas, de maneira comum, por todos os membros de uma mesma espécie. Trocando em miúdos, segundo Darwin, todos os cachorros do mundo expressam raiva e medo da mesma forma e todos os humanos do mundo expressam alegria e tristeza da mesma forma, por exemplo, e isso acontece de forma instintiva – como resultado de uma interação dialética evolutiva entre a espécie, sua sobrevivência e seu meio. Ao longo do livro, Darwin relaciona diversos comportamentos (encolher-se, eriçar de pelos, empalidecer, elevar a pálpebra, abrir a boca, abaixar as sobrancelhas, franzir o nariz etc…) com base em suas funções práticas para lidar com uma situação

Como a surpresa é provocada por algo inesperado ou desconhecido, quando nos assustamos, naturalmente desejamos descobrir a causa tão logo quanto possível. E consequentemente, abrimos bem os olhos, de forma que o campo de visão seja ampliado, e os olhos possam mover-se facilmente em qualquer direção.

(Darwin, 1972/2009 p. 241)

Darwin chegou a essas suas conclusões por meio de suas próprias observações e arcabouços teóricos sobre a evolução e seleção natural, contou também com o aporte de relatos enviados por colegas viajantes que contavam como eram as expressões emocionais das pessoas em diferentes pontos da Terra e também se baseou nos trabalhos do Dr. Duchenne, que em 1862 publicou uma pioneira investigação fotográfica sobre a expressão facial das emoções em seres humanos.

Teoria James-Lange

Uma das primeiras teorias da emoção, dentro da chamada psicologia moderna, foi proposta por William James (1842-1910) e Carl George Lange (1834-1900), que chegaram às mesmas conclusões após trabalharem de forma independente. A premissa básica é que a sensação emocional vem depois de uma excitação fisiológica e, dessa forma, as emoções são vistas como a experiência de conjuntos de alterações corporais que acontecem após um estímulo emocional.

Para exemplificar, se pensarmos em uma situação que envolve um urso raivoso na nossa frente, a tendência é pensar que sentimos medo e então corremos/fugimos, mas a teoria James-Lange aponta uma outra ordem para os comportamentos. Ela vai nos dizer que primeiro há as alterações fisiológicas (elevação dos batimentos cardíacos, dilatação da pupila e comportamento de correr) para depois, com o conjunto disso, ser experienciada a emoção de medo. Trocando em miúdos, diz que não sentimos medo e por isso fugimos, mas fugimos e por isso, sentimos medo. Nessa visão, o princípio vale para todas as emoções e seus comportamentos associados, isso é, ficamos tristes porque choramos e não o contrário. Caso você se pergunte, por exemplo, por que se sente alegre? A teoria de James-Lange diria que, como você está respirando rápido e seu coração está mais acelerado, seu cérebro concluiu que você está alegre.

Estímulo emocional → Padrão de resposta fisiológica → Experiência afetiva

Talvez essa lhe pareça uma teoria absurda (é até considerada contra intuitiva), mas já existem estudos de informação retroativa (facial feedback hypotesys) que apresentam dados sobre como certas mímicas faciais e comportamentos acabam por disparar neurotransmissores específicos relacionados com estados emocionais (assunto esse, para outro post).

Teoria Cannon-Bard

Uma teoria posterior criticou a visão de James-Lange, ao afirmar que as mesmas manifestações fisiológicas poderiam estar presentes em emoções muito distintas, isso é, o medo é acompanhado sim por aumento da frequência cardíaca e sudorese, mas essas mesmas alterações fisiológicas acompanham outras emoções como a raiva, e até estados patológicos, como a febre. Dessa forma, Walter Cannon (1871-1945) e Philip Bard (1898-1977) propuseram que o sistema nervoso central seria o causador, tanto das manifestações fisiológicas, quanto da experiência emocional, e isso ocorreria ao mesmo tempo, como processos paralelos (e não sequenciais, em comparação com a teoria anterior). A teoria Cannon-Bard é conhecida também como uma teoria “talâmica” das emoções, em referência à estrutura cerebral “tálamo”, pois foi Bard quem descobriu que todas as informações sensoriais, motoras e fisiológicas tem que passar pelo diencéfalo (particularmente o tálamo), antes de serem submetidas a qualquer processamento adicional.

Dessa forma, frente ao mesmo urso raivoso, pela teoria Cannon-Bard, as mudanças fisiológicas (elevação dos batimentos cardíacos, dilatação da pupila e comportamento de correr) ocorrem ao mesmo tempo em que a sensação de medo enviada.

James-Lange Cannon-Bard Psicologia das emoções
(Quadro comparativo entre as teorias James-Lage e Cannon-Bard)

O circuito de Papez

sistema límbico papez psicologia emoções
(imagem ilustra os componentes originais do circuito de Papez [interligados por setas grossas], e aqueles acrescentados por outros pesquisadores [interligados por setas finas]. Lent, 2010, p. 720).
A teoria Cannon-Bard foi a primeira tentativa concreta de compreensão das bases neurais emocionais e acabou atraindo a atenção de vários neurocientistas. James Papez (1883-1958) foi um deles e foi responsável por mudar a noção de um “centro emocional cerebral” para um “sistema” ou “circuito cerebral das emoções“, isso é, revendo a literatura da época e apontando um conjunto de regiões associadas à experiência emocional.

Papez percebeu que essas regiões eram conectadas reciprocamente de modo “circular”, o que revelava uma rede neural que ficou conhecida como circuito de Papez. Mais tarde aproveitou-se um termo antigo criado pelo neurologista Paul Broca, e o circuito de Papez passou a ser conhecido como sistema límbico.

(Lent, 2010, p.720)

Paul Ekman: a teoria neuro-cultural

Uma vez que começamos com as propostas universais de Darwin, quero fechar o texto com descobertas emocionais que dialogam com as hipóteses dele. Com fins de recapitulação, Darwin disse, em 1862, que as expressões emocionais são inatas e universais. Com pesquisas transculturais realizadas, principalmente nos anos 1960 e 1970, foi possível validar a afirmação de Darwin para 6 emoções básicas com expressões faciais universais (alegria, tristeza, raiva, nojo, medo e surpresa), isso é, independente de onde nasceu e como foi criada uma pessoa, ao entrar em contato com uma dessas emoções, ela vai movimentar músculos na face que são organizados, conhecidos e previsíveis.

Um dos psicólogos responsáveis por mapear as expressões faciais universais foi Paul Ekman (1934- ) que, em um de seus estudos, comparou a expressão emocional entre japoneses e estadunidenses e percebeu que eles apresentavam as mesmas expressões faciais quando estavam sozinhos assistindo aos vídeos do estudo, mas que os japoneses, mais do que os estadunidenses, mascaravam emoções negativas (medo e nojo) com a exibição de um sorriso. Essa investigação apontou um fenômeno que hoje é conhecido como “regras de exibição” ou “costumes” (display rules) e, sobre elas, Ekman diz:

são socialmente aprendidas, muitas vezes culturalmente diferentes, a respeito do controle da expressão, de quem pode demonstrar que emoção para quem e de quando pode fazer isso. Eis por que, na maioria das competições esportivas públicas, o perdedor não demonstra a tristeza e o desapontamento que sente. As regras de exibição estão incorporadas na advertência dos pais: “pare de parecer contente”. Essas regras podem ditar a diminuição, o exagero, a dissimulação ou o fingimento da expressão do que sentimos.

(Ekman, 2003, p. 22)

Ekman neuro cultural emoções psicologia
(Paul Ekman e nativos Fore na Papua Nova-Guiné)

Em outro estudo posterior, Ekman foi para a Papua Nova-Guiné analisar a expressão emocional de uma tribo socialmente isolada – os Fore. Lá, com máquina fotográfica e fotografias de faces emocionais, ele chegou a conclusão sobre a universalidade de 6 emoções básicas inatas. Vale dizer que outros pesquisadores, como Carroll Izard, estavam, ao mesmo tempo, realizando estudos paralelos e chegaram a conclusões que também apontavam para a existência de expressões faciais universais. Ekman desenvolveu então a teoria neuro-cultural das emoções, que aponta características universais e inatas relacionadas às estruturas e ao funcionamento cerebral, mas também aponta a influência da cultura naquilo que diz respeito à permissividade ou não de uma exibição emocional. Foi só o começo…nos anos 70, uma ferramenta científica de mensuração da ação facial foi criada, o Facial Action Coding System (FACS), que permite analisar e medir qualquer expressão facial realizada por um ser humano. Nos anos 80, novas evidências foram encontradas e a emoção desprezo foi incorporada à lista das emoções básicas universais. Estudos comparativos entre atletas cegos e atletas com visão foram feitos e as expressões forma sempre as mesmas. Por meio das pesquisas de Ekman, hoje falamos também das famílias das emoções, isso é, o saber que a alegria compreende prazeres sensoriais, alívio, diversão, contemplação…. que o medo compreende ansiedade, receio, terror… que a raiva compreende aborrecimento, irritação, fúria… Por meio do legado de Paul Ekman, podemos também nos entreter assistindo o Lie to Me e nos deleitar com o, sempre emocional, Divertida Mente.

Referências

Darwin, C. (2009). A expressão das emoções no homem e nos animais. (Leon de Souza Lobo Garcia, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1872).

Ekman, P. (2003). A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel.

Ferreira, C. (2018). Estudos sobre a mensuração científica da face humana: vol. 1 – o guia do emocionauta. São Paulo: CICEM Ed.

Lent, R. (2010) Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu.

Por Caio Ferreira

Para saber mais (CURSO)

Quer saber mais sobre as emoções humanas? Sua estrutura, função e expressão? Inscreva-se já para o próximo curso presencial Introdução à Psicologia das Emoções. Mais informações aqui: http://cicem.com.br/introducao-psicologia-das-emocoes-sp/

Explicando Seligman: Felicidade Autêntica e Florescimento (Psicologia Positiva)

Quando a psicologia decide investigar a felicidade e o bem-estar (subjetivo) humanos, ela passa, inevitavelmente, sob os terrenos abertos pela Psicologia Positiva e pelo seu fundador, o psicólogo Martin Seligman, PhD. Isso, pois foi a corrente da Psicologia Positiva que conseguiu, de forma pioneira, investigar, compreender e intervir com sucesso sobre as chamadas forças e virtudes do homem e ampliar o foco da psicologia científica tradicional que, até então, partilhava do modelo médico e estava voltada, quase que totalmente, a curar/tratar doenças. É então, com a Psicologia Positiva que não apenas temos hoje estudos sobre os fenômenos e impactos das emoções positivas na vida das pessoas, ou do “estado de flow”, ou do “mindfulness”, ou da resiliência, por exemplo, entre outras contribuições, mas também podemos falar de uma psicologia preventiva e fortalecedora tão sólida quanto a tradicional psicologia reparadora de danos.

Vale dizer que a Psicologia Positiva (PP) está saindo da adolescência, isto é, ela foi fundada em 1998 e, portanto, é um corpus de estudo científico relativamente novo. Para saber mais sobre seus antecedentes, nascimento, propósito e principais contribuições, recomendamos o texto A Psicologia Positiva e o Estudo da Felicidade.

Martin Seligman

Psicólogo Martin SeligmanMartin Elias Pete Seligman (1942 – ) é um Psicólogo estadunidense considerado o pai da da PP. Ele é um dos principais divulgadores internacionais dessa corrente e foi responsável pela sua criação, em 1998, enquanto Presidente da American Psychological Association (APA). Ficou conhecido como “a voz”, ao lado de Mihaly Csikszentmihalyi, conhecido respectivamente como “o cérebro” e também pai da teoria flow. Seligman preparou o terreno para o nascimento da PP, contactou patrocínios, escreveu artigos, livros, desenvolveu ferramentas de mensuração e possibilitou outras tantas contribuições para esse campo. Entre seu legado, vale destacar a obra Character Strengths and Virtues: A handbook and classification (CSV) (sem tradução para a língua portuguesa) que, resumidamente, é o equivalente ao DSM para a PP, isto é, ao invés de catalogar, de forma rigorosa, doenças e tratamentos, cataloga forças, virtudes e as respectivas avaliações e intervenções sob elas.

Felicidade Autêntica

felicidade autêntica martin seligmanUm dos pilares da PP é o estudo das emoções positivas no âmbito pessoal e coletivo (instituições positivas) e, buscando compartilhar sua visão, Seligman estrutura o livro Felicidade Autêntica (Authentic Happiness, 2002) em 3 eixos:

  • Estudo das emoções positivas;
  • Estudo dos traços de personalidade positivos (como forças e virtudes);
  • Estudo das instituições positivas ou aquelas que promovem aspectos positivos no ser humano.

“A crença de que existem maneiras rápidas de alcançar felicidade, alegria, entusiasmo, conforto e encantamento, em vez de conquistar esses sentimentos pelo exercício de forças e virtudes pessoais, cria legiões de pessoas que, em meio a grande riqueza, definham espiritualmente. Emoção positiva desligada do exercício do caráter leva ao vazio, à inverdade, à depressão e, à medida que envelhecemos, à corrosão de toda realização que buscamos até o último dia de vida.”

(Seligman, 2010, p. 16)

Por meio de relatos de pacientes, relatos de pesquisas, questionários, fatos históricos, teorias, estatísticas, porcentagens e muita emoção, Seligman apresenta uma teoria da felicidade. Resumidamente, ele diz que a felicidade é alcançada por meio da emoção positiva, do engajamento e do significado. Falar cientificamente sobre a felicidade não é fácil, mas um avanço foi feito ao correspondê-la em elementos mais bem definidos e mensuráveis.

Esses 3 elementos, por sua vez, fazem referências a 3 tipos de vida:

  • Vida prazerosa ⇒ emoções positivas
  • Vida engajada ⇒ engajamento (flow)
  • Vida significativa ⇒ sentido

Nessa teoria, Seligman não apenas divide a felicidade, mas fala de 3 caminhos que levam à ela. A vida prazerosa é aquela onde temos alta concentração, quantidade, frequência e intensidade de emoções positivas (diversão, orgulho, contemplação, gratidão, serenidade…). Na vida engajada, o sujeito utiliza suas forças pessoais e envolve-se em atividades com ela. Essa felicidade se relaciona diretamente com o estado de flow – um estado em que o indivíduo fica envolvido, concentrado e absorvido, sem sentir fome e/ou perder a noção do tempo, por exemplo, durante uma tarefa (comum em escritores, pintores, músicos, atletas mas alcançável por qualquer pessoal). Na vida significativa, a pessoa valoriza os sentimentos de buscar, servir e pertencer a algo maior ou a algum propósito que envolva suas virtudes.

Florescer

Florescer florescimento martin seligman psicologia positiva9 anos depois da publicação do Felicidade Autêntica, com novas e importantes pesquisas sobre a felicidade, Seligman publica o Florescer (Flourish: a visionary new understanding of happiness and well-being, 2011), onde faz uma mudança teórica significativa, ao deixar de abordar o conceito de felicidade, para abordar o de bem-estar. Com essa mudança, as formas de felicidade anteriormente descritas passam a ser elementos da nova teoria.

O novo modelo é representado didaticamente pelo acrônimo PERMA

  • P – Positive emotion (Emoção positiva)
  • E – Engagement (Engajamento)
  • R – Relationships (Relacionamentos)
  • M – Meaning (Significado)
  • A – Accomplishment (Realização)

Dessa forma, cada elemento contribui, mas não define o bem-estar. A tabela abaixo compara os temas, padrões de mensuração e objetivos correspondentes às duas teorias.

psicologia positiva martin seligman
(Seligman, 2012, p. 19)

Referências e recomendações de leitura:

Achor, S. (2012). O jeito Harvard de ser feliz. São Paulo: Editora Saraiva.

Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press and Washington, DC: American Psychological Association.

Pureza, J. R.; Kuhn, C. H. C.; Castro, E. K. & Lisboa, C. S. M. (2012). Psicologia positiva no Brasil: Uma revisão sistemática da literatura. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. 2012, 8 (2), pp.109-117.

Seligman, M. E. P. (2010). Felicidade autêntica: usando a nova psicologia para a realização permanente. Rio de Janeiro: Objetiva.

Seligman, M. E. P. (2012). Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva.

Para saber mais e já sobre Psicologia Positiva:

Por Caio Ferreira