O Experimento de Duchenne: um dos primeiros estudos com fotografia em psicologia

Duchenne e paciente; Duchenne experimento estudo
Duchenne e seu paciente mais ilustre no estudo de 1862.

No ano de 1862 um neurologista francês publicou um trabalho de pesquisa chamado “Os Mecanismos da Expressão Facial Humana” (Mécanisme de la Physionomie Humaine), onde buscou estudar expressões faciais associadas à emoções e sentimentos. Esse estudo foi conduzido por G.-B. Duchenne (1806 – 1875) que estimulou eletricamente, de forma isolada e combinada, os músculos faciais de sujeitos, relatando então as alterações de aparência por meio de extensas considerações e registrando-as por meio de fotografias. (Duchenne, 1862).

Embora essa obra só tenha sido publicada em 1862, Duchenne se interessava e estudava a estimulação elétrica desde 1835, debruçando-se sobre patologias como atrofias e distrofias musculares, e propondo técnicas de manejo/intervenção frente a elas. Chegou a publicar, inclusive, um trabalho em 1855 chamado “Sobre eletrificação localizada e sua aplicação na terapia” (De l’électrisation localisée et de son application à la thèrapeutique). Em sua carreira, encontramos mais de 90 trabalhos entre artigos e livros, sendo que a obra que lidamos nesse texto é considerada o primeiro estudo sobre a fisiologia da emoção (Maranhão-Filho & Vincent, 2019).

Em 1835, Duchenne questionou por que uma corrente elétrica produzia uma contração muscular localizada. Sua curiosidade logo se tornou uma obsessão. Ele percebeu que poderia estimular os músculos usando dois eletrodos metálicos (reóforos) aplicados na pele úmida. Ele construiu pacientemente seu próprio instrumento de indução de corrente farádica para estimulação de músculos e nervos. [..] As contribuições de Duchenne incluíram trabalhos sobre o uso da fotografia da histologia microscópica, ataxia locomotora tabética (confundida com a ataxia de Friedreich na época), lesões de células do corno anterior, que causavam poliomielite aguda, e paralisia glosso-labial-laríngea (paralisia bulbar). Ele foi o primeiro clínico a realizar biópsias musculares com a invenção que chamou de l’emporte-pièce (cortador de biscoito).

(Maranhão-Filho, & Vincent, 2019, tradução livre).

O Experimento de Duchenne

Buscando em autores como Platão, Aristóteles, Cícero, Descartes, Hobbes etc, Duchenne elaborou uma lista com 73 termos afetivos, o que inclui estado como: admiração, raiva, tédio, coragem, curiosidade, desejo, nojo, embriaguez, ódio, alegria, risada, amor, esperança, tristeza, medo, surpresa, vergonha, desprezo, entusiasmo, inveja, ciúme, orgulho, dor…

Seu estudo classificou 33 expressões faciais derivadas da estimulação eletrofisiológica, discriminando o músculo ou o conjunto de músculos que produzem a respectiva alteração de aparência. As expressões catalogadas por Duchenne foram: atenção, reflexão, meditação, concentração mental, dor, agressão ou ameaça, choro com lágrimas quentes, choro moderado, alegria, riso, riso falso, ironia ou riso irônico, tristeza ou desânimo, desdém ou nojo, dúvida, desprezo ou escárnio, surpresa, espanto, estupefação, admiração ou surpresa agradável, susto, terror, terror com dor ou tortura, raiva, levado por raiva feroz, reflexão triste, reflexão agradável, alegria feroz, lascívia, delírio sensual, êxtase, grande dor com lágrimas e aflição, dor com desânimo ou desespero

Para qualquer desforra frente as traduções livres, seguem os termos empregados na edição inglesa (uma vez que esse livro não conta com tradução para língua portuguesa): attention, reflection, meditation, intentness of mind, pain, aggression or menace, weeping with hot tears, moderate weeping, joy, laughter, false laughter, irony or ironic laughter, sadness or despondency, disdain or disgust, doubt, contempt or scorn, surprise, astonishment, stupefaction, admiration or agreeable surprise, fright, terror, terror with pain or torture, anger, carried away by ferocious anger, sad reflection, agreeable reflection, ferocious joy, lasciviousness, sensual delirium, ecstasy, great pain with tears and affliction, pain with despondency or despair).

Os resultados gerais do estudo catalogaram diversas alterações de aparência decorrentes dos movimentos musculares, contemplando 84 pranchas individuais e 9 pranchas sinóticas que também abordam outros estados afetivos e expressivos para além do 33 catalogados. Vale dizer também o pesquisador anestesiava seus pacientes antes das sessões e que seu sujeito mais ilustre ficou conhecido como homem velho desdentado (old toothless man) e possuía uma condição patológica peculiar que não lhe permitia sentir qualquer dor na região da face, caracterizando-se assim como a cobaia perfeita para esse estudo.

Homem Velho Desdentado e o Sorriso Duchenne

Foi inclusive com esse sujeito que Duchenne estudou uma das mais importantes expressões humanas, o sorriso, onde encontrou considerações relevantes sobre o que até hoje é conhecido como sorriso verdadeiro (Duchenne smile) e sorriso falso (non-Duchenne smile). O pesquisador descobriu que os sorrisos falsos/simulados envolvem a contração do músculo zigomático maior, que puxa o canto dos lábios para trás e para cima, enquanto os sorrisos genuínos/espontâneos envolvem esse músculo e também a contração do orbicular do olho, elevando as bochechas e apertando as pálpebras (ação que ficou conhecida como o marcador de Duchenne). Mais sobre esse tópico você pode encontrar clicando no texto “Sorriso Falso e Sorriso Verdadeiro (Duchenne Smile)” que escrevi para o blog do CICEM.

O espírito é, portanto, a fonte de expressão. Ativa os músculos que retratam nossas emoções no rosto com padrões característicos. Consequentemente, as leis que governam as expressões do rosto humano podem ser descobertas pelo estudo da ação muscular.

(Duchenne, 1862, tradução livre)

Por curiosidade, como costumamos lembrar e ensinar que S. Freud estudou com M. Charcot, por sua vez, Charcot foi aluno de Duchenne 😉

Você também pode ver outras pranchas do estudo e saber mais sobre com o vídeo a seguir:

Referências e Recomendações

Darwin, C. (2009). A expressão das emoções no homem e nos animais. (Leon de Souza Lobo Garcia, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1872).

Duchenne, G. B. A. (1862). Mécanisme de la physionomie humaine [The mechanism of human facial expression]. Cambridge University Press: 1990.

Ferreira, C (2018). Sorriso Falso e Sorriso Verdadeiro (Duchenne Smile). CICEM.

Joaquim, R. M. (2021). Neuropsicologia das emoções: caracterização, expressão facial & aspectos psicopatológicos. Belo Horizonte: Editora Ampla, 2021.

Maranhão-Filho, P. & Vincent, M. (2019). Guillaume-Benjamin Duchenne: a miserable life dedicated to science. Arquivos de Neuro-Psiquiatria [online]. 2019, v. 77, n. 6 [Accessed 25 October 2022] , pp. 442-444. Available from: https://doi.org/10.1590/0004-282X20190044. Epub 15 00 2019. ISSN 1678-4227.

Curso EAD: Fundamentos da Expressão Facial da Emoção. CICEM.

Por Caio Ferreira

Bons estudos!!

Teste de Rorschach: o teste psicológico das manchas de tinta

Muitos conhecem Rorschach através do HQ “Watchmen” que teve origem nos anos de 1986 e 1987, mas na verdade o Teste de Rorschach vai além dos quadrinhos, ele foi criado nos anos de 1910 pelo psiquiatra Hermann Rorschach.

Rorschach enquanto personagem de Watchmen (reprodução DC Comics)

O que é o Teste de Rorschach?

O Teste de Rorschach é uma técnica projetiva de avaliação psicológica que, consiste em dez pranchas de borrões de tinta, sendo cinco monocromáticas e cinco cromáticas que seguem as mesmas características específicas à simetria.

As pranchas são produzidas e impressas pela editora suíça Hans Huber desde a década de 1920, atualmente conhecida por Hogrefe Publishing Group, ligada à International Rorschach Society.

O teste é um processo de construção de imagens, resultante da ação conjunta das funções afetivas, cognitivas e intelectuais, permitindo o exame dos processos psíquicos superiores como, memória, atenção, percepção, pensamento, emoção e comunicação. Após analisar todo esse processo, temos a estrutura e dinâmica da personalidade.

Entenda de forma ilustrativa como funciona

“A experiência é muito simples, tão simples que a princípio provoca interesse e balanços de cabeça em toda parte”

– Hermann Rorschach

Como nasceu? Quem é o criador do Teste?

O Teste foi criado pelo psiquiatra Hermann Rorschach nascido em 8 de novembro de 1884 em Zurique, Suíça.

Hermann Rorschach começou suas pesquisas em 1911 e sua intenção foi voltada para o diagnóstico psiquiátrico, principalmente da esquizofrenia, nessa época, Hermann era diretor de um hospital psiquiátrico na Suíça, onde coletou dados de diversos pacientes e pessoas saudáveis.

Foram com esses dados que ele elaborou sua tese “Psychodiagnostik” que foi publicada em junho de 1921. Precocemente morrera um ano depois em 2 de abril de 1922 em Herisau, Suíça, por complicações de uma apendicite.

Após a morte, sua pesquisa ficou inacabada, seus estudos permaneceram parados, muitos estudiosos não se mostraram interessados em continuar o seu trabalho, mas com o passar do tempo, Hans Blinder se dedicou a continuar os estudos, mas não só ele, mas Emil Oberholzer, Georgi Roemer, Hans Behn-Eschenburge e Hans Zulliger, onde começaram a especializar outros, como o americano David Levy que foi o responsável por levar o Teste de Rorschach para os Estados Unidos. Também havia o alemão Bruno Klopfer e o polonês Zygmunt Piotrowski.

Testes de personalidade

Atualmente existe uma vasta quantidade de testes de personalidade, além do Rorschach temos:

  • Pfister – O teste das pirâmides coloridas, é um instrumento que fornece o entendimento da dinâmica emocional, maturidade e a personalidade do indivíduo.
  • HTP – O teste da Casa – Árvore – Pessoa, onde conseguimos investigar habilidades cognitivas e aspectos da personalidade humana.
  • Teste Zulliger – Conhecido como teste Z, é uma técnica projetiva, que analisa a capacidade de desempenho, controle emocional, funcionamento do pensamento lógico e outros feitios de personalidade. É um teste parecido com o Teste de Rorschach, ele possui três pranchas com borrões de tinta e pode ser aplicado em grupo, diferente do Rorschach que possui dez pranchas e só pode ser aplicado individualmente.

Vale ressaltar que todos os testes tem sua validade quando aplicado corretamente, e devem ser vistos como uma ferramenta de ajuda para psicólogos, psiquiatras, neurologistas entre outros.

Pode ser aplicado em todos?

O teste pode ser aplicado em qualquer pessoa em qualquer idade, desde que tenha condições de se expressar verbalmente e que tenha suficiente acuidade visual, até mesmo em pessoas daltônicas, onde deve ser informado no rapport antes da aplicação do teste.

A aplicação do Teste de Rorschach é feita individualmente, são apresentadas uma prancha de cada vez, no qual o examinando diz o que vê em cada uma delas, cabe ressaltar que não existe resposta certa ou errada, cada indivíduo vê coisas completamente diferentes umas das outras.

As respostas dadas no teste, revelam o estado da representação da realidade em cada indivíduo, demonstrando dados a respeito do desenvolvimento psíquico, das funções e sistemas cerebrais, dos recursos intelectuais envolvidos na construção das diferentes imagens, das articulações intrapsíquicas e da natureza das relações interpessoais.

Onde é aplicado?

Seu campo de aplicação é vasto, podendo ser aplicado nas seguintes áreas:

  • Antropologia – Pesquisa sobre a visão de realidade em diferentes culturas;
  • Clínica – Diagnóstico clínico, indicação seletiva de tratamento, orientação de família;
  • Jurídica – Laudo jurídico, elucidação pericial;
  • Escolar – Orientação pedagógica e orientação vocacional;
  • Recursos Humanos (RH) – Seleção de profissionais em empresas, avaliação de potencial e desempenho;
  • Esporte – Orientação e Avaliação de Potencial e Desempenho.

Rorschach no Brasil / Escola Silveira

O Teste de Rorschach chegou ao Brasil através do professor e psiquiatra José Leme Lopes, que iniciou suas pesquisas no Rio de Janeiro em 1932 e os resultados foram publicados em 1938.

Com o passar dos anos, o interesse sobre o teste entre psiquiatras e psicólogos cresceu. Em 1952 foi fundada a Sociedade Rorschach de São Paulo por Anibal Cipriano da Silveira Santos, que foi um dos pioneiros da psiquiatria no Brasil e professor de psicopatologia da USP, no qual seu interesse consistia em pesquisar e formar Especialistas.

Ao longo de sua história, os trabalhos desenvolvidos demonstram a importância de aplicar os conhecimentos do psicodiagnóstico de Rorschach aos problemas humanos da modernidade e, proporcionar reflexões para a busca de melhorias em nossas vidas. Existem várias pesquisas em andamento no Laboratório de Pesquisas e Avaliação Psicológica da Sociedade Rorschach de São Paulo, sendo destacadas duas, Adolescentes em conflito com a lei e Rorschach em crianças: normatização da população brasileira, levantando o estado atual do desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.

A escola de Silveira valoriza a importância do estudo das funções cognitivas que colaboram na formação das imagens, das características de personalidade específica de cada indivíduo.

Referência bibliográfica

RORSCHACH, H. Psicodiagnóstico; trad. Marie Sophie de Villemor Amaral– São Paulo: Editora Mestre Jou, 1967.

SEARLS, Damion. Teste de Rorschach; trad. Claudia Mello Belhassof – Rio de Janeiro: Darkside, 2021

SILVEIRA, A – Prova de Rorschach: Elaboração do Psicograma – 2a. ed., Campinas: EDBRAS, 1985.

SOUSA, C. C. O método de Rorschach. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1953.

por Luana de Carvalho Faria, CRP 06/177245

Psicóloga Clínica, Especialista no Psicodiagnóstico de Rorschach, Colaboradora dos Núcleos Clínico e Jurídico do Laboratório de Pesquisas e Avaliação Psicológica da Sociedade Rorschach de São Paulo.
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Psicologia na Antiguidade: as primeiras compreensões da pessoa

Os filósofos gregos – notadamente Sócrates, Platão e Aristóteles – afirmavam ser o distúrbio mental resultante de processos de pensamento desordenados. Prescreviam o método persuasivo de cura por meio da força das palavras.

(Schultz & Schultz, 2014, p. 285)

Nos cursos de psicologia, costumo dizer que podemos falar da história da psicologia desde a antiguidade e dos pensadores da Grécia antiga, mas que, geralmente, nos atentamos à chamada psicologia moderna, que é aquela posterior à fundação do Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade de Leipzig, em 1879, por Wilhelm Wundt – o marco de nascimento da psicologia científica.

Esse marco histórico significou o desligamento das idéias psicológicas de idéias abstratas e espiritualistas, que defendiam a existência de uma alma nos homens, a qual seria a sede da vida psíquica. A partir daí, a história da Psicologia é de fortalecimento de seu vínculo com os princípios e métodos científicos. A idéia de um homem autônomo, capaz de se responsabilizar pelo seu próprio desenvolvimento e pela sua vida, também vai se fortalecendo a partir desse momento.

(Bock et al., 2001 p. 26)

Como os autores antigos não costumam ter muito espaço nos cursos livres, chegou a hora de falar deles por aqui 😉

Os termos e as especulações

Embora a palavra “psicologia” tenha sua origem grega e signifique “estudo da alma” (ψυχή, psyché, “alma” – λογία, logia, “tratado”, “estudo”), esse termo só foi aparecer na obra Psichiologia de ratione animae humanae, datada do séc. XVI, feita pelo poeta e juiz renascentista Marko Marulić. Mas antes disso, para os efeitos desse texto, os gregos abordavam as personalidades, comportamentos, emoções e motivações humanas com os termos “psyché” e “anima“, por exemplo, enquanto compreensões de alma ou mente.

A origem da psicologia não é diferente de muitas ciências, pois ela nasce da filosofia e das indagações realizadas pelos filósofos antigos. Nessa época, era comum a compreensão associada com aspectos teológicos, o que costumava envolver uma visão dualista, onde a alma era diferente do corpo e poderia levar uma vida autônoma, separada e/ou imortal.

Os pré-socráticos

Esse termo reúne um grupo de pensadores que aconteceram antes do referencial filosófico Sócrates e perdurou entre os séculos VI a.C. e V a.C.. Aqui começaram as primeiras especulações cosmológicas e percepções da natureza separando o pensamento mítico do filosófico. Nesse grupo encontramos nomes como Pitágoras, Heráclito, Demócrito, Parmênides, Xenófanes, Tales e Protágoras, por exemplo, sendo que suas ideias nos chegaram, principalmente, por doxografia e fragmentos, uma vez que se perdeu grande parte das obras dos chamados primeiros filósofos.

Ao invés de explicarem a ordem cósmica por meio das compreensões divinas, eles buscaram explicações com base na percepção, na razão e na argumentação de ideias.

Os diferentes filósofos escolheram diferentes physis, isto é, cada filósofo encontrou motivos e razões para dizer qual era o princípio eterno e imutável que está na origem da Natureza e de suas transformações. Assim, Tales dizia que o princípio era a água ou o úmido; Anaximandro considerava que era o ilimitado sem qualidades definidas; Anaxímenes, que era o ar ou o frio; Heráclito afirmou que era o fogo; Leucipo e Demócrito disseram que eram os átomos. E assim por diante.

(Chauí, 2000, pp. 41-42)

Essa physis (elemento primordial, eterno e imortal) daria origem a todos os seres que, por sua vez, são mortais e em constante transformação – mudando de qualidade e de quantidade (Chauí, 2000). A qualidade compreende mudanças como o novo ficando velho, o quente esfriando, o dia se tornando noite, o úmido se tornando seco, o saudável adoecendo e vice-versa em alguns casos. Já a quantidade envolve o pequeno ficando grande, o longe ficando perto, o rio aumentando de volume ou diminuindo na seca, por exemplo. Em resumo, assim como no zen budismo, os filósofos antigos entendiam que o mundo está em constante movimento e transformação.

Esse movimento e transformação foi chamado de devir e explorado por Heráclito de Éfeso, que afirmava que “nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, uma vez que, na segunda vez, as águas não são as mesmas e nós também não somos – tudo flui. O quadro abaixo foi pintado por René Magritte em 1935 e chama “Ponte de Heráclito”. Nele vemos a ilusão de uma ponte interrompida pela névoa, mas cujo reflexo nos revela a ponte inteira. Essa pintura carregas as dúvidas da própria percepção humana e o movimento contínuo de transformação que o rio, a ponte, o reflexo e as névoas passam.

Ponte de Heráclito, por Magritte (1935)

Outro nome relevante entre os pré-socráticos é Pitágoras de Samos, que é geralmente lembrado por nós pelas suas relações com a matemática e pelo seu famoso teorema sobre as relações de comprimentos que encontramos em um triângulo retângulo: “o quadrado da medida da hipotenusa é igual à soma dos quadrados das medidas dos catetos” ou c2 = b2 +a2. Para além dessas observações matemáticas, racionais e em busca de padrões da natureza, Pitágoras é um dos grandes precursores no estudo da música e das relações entre as notas musicais que nos causam conforto e desconforto (os intervalos musicais).

Ele e seus seguidores, os pitagóricos, desenvolveram experimentos com um monocórdio (instrumento musical com uma corda esticada e que possibilita dividi-la em segmentos menores). A depender do comprimento da corda, ao vibrar, essa irá produzir um som e quanto mais você divide essa corda, mais aguda ela ira soar. Foi com base nessas frações que Pitágoras descobriu os intervalos musicais consonantes e dissonantes (utilizados até hoje na nossa música). Ele descobriu que frações específicas nos eram percebidas como confortáveis (consonantes) ou como desconfortáveis/estranhas (dissonantes) – ele inventou as escalas musicais (série harmônica).

Em resumo, a nossa percepção sonora de algo agradável ou desagradável depende desses intervalos rígidos encontrados nos estudos de Pitágoras. Por exemplo, se somarmos uma corda solta, juntamente com seu intervalo de terça maior (5/4) e quinta justa (3/2), vamos obter um acorde maior – que aparece em diversas músicas populares, folclóricas e dançantes. Já, se somarmos o som de uma corda solta com o seu intervalo de sétima maior (15/8), iremos experienciar algum tipo de tensão ou desconforto sonoro. Essa percepção influenciou as composições musicais ao longo dos séculos, fazendo, por exemplo, com que as igrejas católicas compusessem missas e cantos utilizando intervalos consonantes e proibindo o uso de intervalos dissonantes (notas proibidas). Enquanto os grupos pop e a indústria musical tem preferência pelos intervalos consonantes, os dissonantes tendem a ser explorados pelo jazz e pela bossa nova, por exemplo, além de aparecem e serem sustentados nas trilhas sonoras de suspense, terror, mistério e ficção – tendendo a nos causar, por sua vez, algum estado de alerta ou inquietação.

Para Pitágoras a música tinha várias finalidades inclusive as pedagógicas onde se podia controlar a raiva, a agressividade entre outras, assim ele usava a música para criar um ambiente de tranquilidade para passar aos seus discípulos os seus ensinamentos.

(Almeida, 2018, p. 13)
Braço de vioção Di Giorgio n38

Se você lembrar do braço de um violão ou guitarra, vai perceber que ele é todo dividido. Essas divisões acontecem nas frações estudadas por Pitágoras, sendo que a escolha das notas executadas por quem toca vai resultar nos intervalos citados acima (sugerindo percepções de tensão ou relaxamento). Para exemplificar melhor essa relação entre música, escala musica e matemática pitagórica, recomendo que você veja o trecho abaixo, encontrado no curta-metragem Donald no País da Matemágica (1959).

Período Clássico: Sócrates, Platão e Aristóteles

Esse período aconteceu nos séculos V a.C. e IV a.C., onde encontramos tanto os sofistas quanto os três grandes nomes do pensamento grego: Sócrates, Platão e Aristóteles. Esse tempo é também compreendido como um período antropológico, mais orientado para o conhecimento do homem e de sua capacidade para conhecer a verdade (Chauí, 2000), o que ampliou os questionamentos para as áreas da moral e da política (Aranha & Martins, 2016).

no século V a.C., Platão, Aristóteles e outros sábios gregos se viam às voltas com muitos dos mesmos problemas que hoje ocupam os psicólogos: a memória, a aprendizagem, a motivação, a percepção, a atividade onírica e o comportamento anormal. As mesmas espécies de interrogações feitas atualmente sobre a natureza humana também o eram séculos atrás, o que demonstra uma continuidade vital entre o passado e o presente em termos de seu objeto de estudo.

(Schultz & Schultz, 2014, p.17)

Sócrates de Atenas preocupou-se com aquilo que separa o homem dos animais e postulou a razão como a principal característica humana, o que permitiria ao homem sobrepor-se aos instintos (Bock et al, 2001). Ao afirmar “só sei que nada sei“, Sócrates reconhece a própria ignorância e inicia a busca pelo saber. Seu método envolvia o diálogo, a confrontação de ideias e a introspecção, que mais tarde, seria retomada por Wundt (citado no início do texto). Em poucas palavras, introspecção pode ser definida como”autoanálise da mente para inspecionar e relatar pensamentos ou sentimentos pessoais” Schultz & Schultz (2014).

Esse filósofo considerava-se um parteiro de ideias (maiêutica) e buscava o conceito de algo, para além da mera opinião sobre algo. Diz-se que Sócrates conversava com todos, jovens e velhos, nobres e escravos, sendo que, ao perguntar e confrontar as crenças das pessoas, essas ficavam curiosas, irritadas, surpresas ou envergonhadas, uma vez que nunca tinham pensado sobre os valores e ideias que carregavam e expressavam. As indagações de Sócrates levavam a reflexões tanto pessoais quanto sociais e sobre a vida política da polis.

Não deixou nada escrito, sendo que suas ideias nos chegaram, principalmente, por 2 discípulos: Xenofonte e Platão. Foi acusado de não acreditar nos deuses da cidade e corromper as pessoas, o que acarretou em sua prisão e pena de morte.

Que retrato Platão nos deixa de seu mestre, Sócrates?

O de um homem que andava pelas ruas e praças de Atenas, pelo mercado e pela assembléia indagando a cada um: “Você sabe o que é isso que você está dizendo?”, “Você sabe o que é isso em que você acredita?” , “Você acha que está conhecendo realmente aquilo em que acredita, aquilo em que está pensando, aquilo que está dizendo?” , “Você diz” , falava Sócrates, “que a coragem é importante, mas: o que é a coragem? Você acredita que a justiça é importante, mas: o que é a justiça? Você diz que ama as coisas e as pessoas belas, mas o que é a beleza? Você crê que seus amigos são a melhor coisa que você tem, mas: o que é a amizade?”

(Chauí, 2000, p. 44)

Seu discípulo Platão (Arístocles de Atenas) é considerado o primeiro filósofo sistemático do pensamento ocidental. Além de fundar uma escola (Academia de Atenas), seus diálogos abrangeram diversas áreas da filosofia que nascia, referenciavam Sócrates e empregavam mitos ou alegorias que visavam tornar mais concretas suas ideias abstratas (Aranha & Martins, 2016).

Para este filósofo, existem 2 mundos, o sensível (fenômenos) e o inteligível (ideias). O mundo sensível nos chega pelos órgãos sensoriais e seria como uma sombra do verdadeiro mundo, nele encontramos movimento e ilusões – é o mundo das nossas impressões e opiniões. Por outro lado, o mundo inteligível carregaria a verdade das coisas, o que é invisível e somente alcançada pela dialética ascendente, quando nos afastamos dos dados sensoriais, das opiniões e dos preceitos (Aranha & Martins, 2016; Chauí, 2000).

Escola de Atenas, pintura de Rafael, séc. XVI. Nela vemos Sócrates e Platão, ao centro, posados por Leonardo da Vinci e Michelangelo.

É também em Platão que encontramos um “lugar corporal” para a razão, sendo essa, localizada na cabeça – o local da alma. Como um dualista, este pensador separava mente e corpo e dizia que a medula seria responsável por realizar essa conexão. Ele também compreendia o corpo como uma matéria mortal e a alma como algo separado e imortal, que ficava livre após deixar o corpo (Bock et al, 2001).

A psicologia platônica também é considerada uma psicologia erotizada, uma vez que Eros (Ἔρως = amor) tem aparições recorrentes e relaciona-se diretamente com a Psyché (ψυχη = alma) enquanto Dýnamis (δυναμις = poder/força), ou seja, algo que não se vê diretamente mas percebe-se pelos seus efeitos. Em Platão, vemos Eros, não como um Deus, mas como algo que impulsiona a Psiché, que a coloca num processo de buscar coisas boas e belas, dirigindo-se para objetos que podem ser desejados – em outras palavras, tendo um papel de impulso, de potência e de colocar em movimento na direção de um objeto específico. Essa discussão é bem explorada na obra “O Banquete“, onde Platão dialoga sobre o amor, resgatando as ideias míticas e as aparições poéticas, enquanto caminha rumo às compreensões de Fedro, Sócrates, Aristófanes, Diotima e de outros presentes (Silva, 2021).

Diotima: – Corre, entretanto, uma versão segundo a qual erotizados vivem os que procuram sua própria metade. Meu amigo, penso, ao contrário, que Eros não busca a metade nem o todo, se estes não se encontrarem em bom estado. Há quem esteja disposto a perder até mãos e pés, se esses membros lhe parecerem corrompidos. Não é ao próprio que aspiram os homens; exigem que o próprio seja bom, o mal lhes é alheio. De sorte que os homens só se erotizam pelo bem. O que te parece?

(Platão, 2009, p. 99)

Seguindo essa toada histórica, vamos encontrar Aristóteles de Estagira, discípulo de Platão, consolidador do período sistemático, fundador do Liceu, da escola peripatética e compilador de grande parte do conhecimento produzido até então pelo pensamento ocidental, foi também tutor de Alexandre, o Grande.

Sua obra Da Anima, é considerada por alguns como o primeiro tratado de psicologia e já aborda as diferenças entre razão, sensação e percepção. Diferentemente de Platão, Aristóteles compreendia a psiché como indissociável do corpo e como o princípio ativo da vida. Para ele, tudo o que cresce, se alimenta e se reproduz possui psiché, sendo que ele diferencia a alma vegetativa – relacionada aos vegetais e funções de alimentação e reprodução – da alma sensitiva – relacionada aos animais e funções de percepção e movimento – e também da alma racional – exclusiva do homem e à função de pensar. Para esse pensador, o homem teria essas 3 almas, sendo todas mortais e pertencentes ao corpo (Bock et al, 2001).

Foi ele quem estabeleceu as primeiras linhas da lógica, além de questionar os métodos anteriores de apuração da informação (como indução, dedução e analogia). Por meio do silogismo ele apresentou maneiras de encontrar falácias e argumentos não válidos. Sua filosofia também compreende 2 tipos de conhecimentos: o sensível e o racional, que são dependentes um do outro. O conhecimento sensível envolve as abstrações, sensações e percepções de coisas particulares, enquanto o conhecimento racional engloba os conceitos universais. Aqui ele se distancia de Platão, concluindo que não existe intelecto que não tenha passado, antes, pelos sentidos (Aranha & Martins, 2016).

Uma outra compreensão pertinente que aparece em Aristóteles é a noção de ato e potência, sendo o ato aquilo que se apresenta no aqui-e-agora, sua forma e manifestação no tempo presente; já a potência é a capacidade de se tornar outra coisa, é aquilo que pode vir a ser. Não como uma mudança definitiva, mas como um constante processo e movimento, onde um feto pode se transformar em recém-nascido, depois em bebê, criança, adolescente, adulto e idoso. Escrevendo agora, lembro de um exemplo usado pelo professor de filosofia da graduação, Sérgio Barbosa, quando nos contou sobre o ato de uma semente e sua potência em ser árvore e dar frutos.

Recapitulando os conceitos aristotélicos: todo ser é uma substância constituída de matéria e forma; a matéria é potência, o que tende a ser; a forma é o ato. O movimento é, portanto, a forma atualizando a matéria; é a passagem da potência ao ato, do possível ao real.

(Aranha & Martins, 2016, p. 113)

Para os efeitos desse texto, vou encerrar, hoje, por aqui. Não que o conhecimento tenha sido esgotado; muito pelo contrário, há bastante ainda a falar sobre Sócrates e sua dialética, Platão e suas ideias abstratas, Aristóteles e sua ética, ciências e metafísica, para além de outros pensadores do período pré-socrático e também os do período helenístico, como Hipócrates, pai da medicina, precursor da anamnese e quem traçou a teoria dos humores ou dos temperamentos, o que compreende personalidades coléricas, fleumáticas, sanguíneas e melancólicas – assuntos esses para outra publicação;)

Bons estudos!!

Se eu lhe perguntar o que é você, o que você vai me responder?

por Caio Ferreira

Referências

Almeida, L. X. (2018). Matemática e música: uma abordagem através do monocórdio de Pitágoras. (Trabalho de conclusão de curso). Castanhal: UFPA.

Aranha, M.L.A. & Martins, M. H. P. (2016). Filosofando: uma introdução à filosofia. São Paulo: Moderna.

Bock, A. M. B.; Furtado, O. & Teixeira, M. L. T. (2001). Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva.

Chauí, M. (2000). Convite à filosofia. São Paulo: Ed. Ática.

Silva, F. G. S. (2021). Eros e Psiché nos discursos do Banquete de Platão. (Tese de doutorado). Recife: UFPE.

Schultz, D. P. & Schultz, S. E. (2014). História da Psicologia Moderna. São Paulo: Cengage Learning.

A Experiência Psicodélica: estados alterados de consciência

E refletidas no cubículo calado
Pulsam, dilatam-se cadeiras que se movem
Brilham os ratos e bordados nos sapatos
Brilham insetos alimentando sapos

(A Noite Preta – Zé Ramalho / Alceu Valença / Lula Côrtes)

Não me parece fácil descrever e explicar a psicodelia em poucas palavras. Talvez me pareça mais fácil apontar algumas manifestações artísticas que dialogam e/ou buscam retratar a experiência psicodélica, como a música, o cinema, as pinturas e ilustrações e também a literatura que em prosa e em verso tenta nos contar sobre esse mundo diferente e convidativo que algumas pessoas acessam e são marcadas. Ainda assim, vou tentar passar algum histórico e compreensões, para além dos exemplos lisérgicos. Sendo assim, pingue o seu colírio alucinógeno e bora pro texto ; )

Yellow Submarine, filme de 1968.

Possibilidades Psicodélicas

Ainda que muitas pessoas associem a experiência psicodélica diretamente com o uso de substâncias psicoativas, a psicodelia consiste em uma forma particular de experienciar e de se relacionar (perceber e interagir) com o mundo que não depende apenas do uso das drogas psicodélicas. Ela envolve buscas pela expansão da consciência e costuma se relacionar diretamente com alguns estados alterados de consciência, que são obtidos por meio de meditações, da kundalini yoga e também pelo uso de substâncias psicoativas como o LSD, a maconha, o DMT, a ayahuasca e os chamados cogumelos mágicos.

A alteração da consciência relatada durante a experiência com essas substâncias é comumente relacionada à dilatação da percepção temporal, ilusões e/ou alucinações sensoriais, prazeres corporais, ampliação da consciência, elevação e/ou contato espiritual, dissolução do ego e sentimento de pertencimento. Sendo que os usuários que tiveram uma experiência psicodélica tendem a considerá-la entre as mais importantes de suas vidas, uma vez também que conseguem se lembrar do que viram, sentiram e perceberam, diferentemente do mundo alterado dos sonhos, da qual, muitas vezes, nos lembramos de apenas fragmentos.

Estados Alterados de Consciência

Para compreendermos melhor essa experiência, é importante retomar a ideia de estados alterados de consciência. A literatura vai nos dizer que existe um modo normal ou padrão da consciência humana funcionar e que essa envolve sensações e percepções autopsíquicas (percepção de mim), alopsíquicas (percepção do ambiente externo) e temporais mais ou menos conhecidas e previsíveis. Esse funcionamento ordinário está associado à vigília e à saúde mental, enquanto que as alterações são associadas ao sono e fadiga, ao sonho e seu mundo onírico, aos sintomas positivos (delírios e alucinações) como os encontrados em algumas patologias mentais, ao uso de medicação (psiquiátrica ou não), à prática de meditação, ao jejum físico e também pelo uso das sustâncias psicoativas, que podem ser agrupadas em 3 grandes categorias: estimulantes, depressoras e psicodélicas (ou alucinógenas).

“A pesquisa de mestrado de Fernanda, publicada em 2015, investigou com ressonância magnética as conexões entre áreas do cérebro de dez usuários experimentados em ayahuasca. E confirmou, no caso do chá, um efeito conhecido de outros compostos psicodélicos, como LSD, psilocibina, e também da meditação: um redução na atividade da rede de modo padrão, ou DMN (do inglês default mode network).”

(Leite, 2021, p. 22)

LSD, Experimentos e Controle da Mente

Dr. Timothy Leary sendo preso em 1970

O homem vem utilizando sustâncias psicodélicas desde quando há civilização e é possível relatar, por meio, principalmente, dos cactos e dos cogumelos, mas foi apenas em 1938, por Albert Hoffman, que foi sintetizada a dietilamida de ácido lisérgico, conhecida como LSD (descoberta em 1943) e diretamente associada ao movimento hippie e à busca pela expansão da consciência desenfreada pela contracultura estadunidense nos anos 60.

Vale dizer que, mais cedo, nos anos 50, a CIA desenvolveu um projeto denominado MK Ultra, que fez experimentos com mescalina e LSD em seres humanos, visando investigar seus efeitos e suas possibilidades enquanto metodologia para confissões e também para a manipulação das crenças pessoais. Um recorte desse projeto foi incorporado à narrativa do seriado Stranger Things (2016 – ).

Com o avanço da contracultura estadunidense, o fenômeno de massa precisou eleger um ou alguns líderes e um deles foi o doutor em psicologia por Harvard, Timothy Leary, que relatou ter aprendido mais sobre a mente humana durante as 5 ou 8 horas que esteve sob efeito de cogumelos mágicos em viagem no México, do que em toda a sua trajetória acadêmica por Harvard. Foi expulso da universidade após realizar experimentos com substâncias psicodélicas em estudantes, incentivou a utilização de LSD, defendeu a psicoterapia psicodélica e virou uma espécie de guru do movimento hippie. Um pouco mais sobre ele já foi escrito nesse blog e você pode conferir clicando aqui.

Os Hippies e o Ápice da Cultura Psicodélica

Até os Beatles foram afetados pela onda psicodélica

Os anos 60 foram o palco dos primeiros passos e do acelerar de uma marcha hippie e psicodélica, antes que ela fosse, novamente, freada ou dissipada. Em termos visuais estereotipados, no ano de 1964 o mundo ainda era preto e branco e os Beatles se apresentavam de terninho. Em 1965 começam as primeiras cores, as distorções e as novas possibilidades. É importante pensar que a grande cultura internacional psicodélica vai de aproximadamente 1965 até 1969, terminando com o grande festival de Woodstock e mostrando para o mundo que aquela proposta era possível, plausível e havia sido testada por uma multidão que se divertiu, que se amou e que também se acolheu quando aconteceram as adversidades do festival. É entre esses anos que os músicos começaram a utilizar instrumentos não convencionais e técnicas de mixagem inéditas e experimentais, em uma tentativa de externalizar uma música que retratasse aquilo que eles e aquela geração estava experimentando e descobrindo e tentando comunicar. Além das letras hora mais introspectivas, hora descrevendo sensações, visões e experiências provocadas pela viagem lisérgica.

Enquanto os jovens estadunidenses eram convocados para ser bucha de canhão no Vietnã, alguns voltavam e outros se rebelavam. Essa foi a força motriz da resistência da contracultura e resultou na proposta das flores vencendo o canhão. E enquanto a psicodelia fervia na cena de 67, no chamado Summer of Love, e com atenções voltadas para Janis Joplin, Jimi Hendrix, Country Joe & The Fish, Jefferson Airplane, The Doors, Cream, The Byrds e os próprios The Beatles, a onda psicodélica chegou ao Brasil atingindo Os Mutantes e, também se fundindo com o nosso maravilhoso tropicalismo e regionalismo, representado por artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Alceu Valença, Zé Ramalho, Secos e Molhados, Novos Baianos, e O Terço, para citar alguns. E enquanto eles tiveram o Monterey Pop Festival, de 1967, e o Woodstock, de 1969, o Brasil teve os brilhantes festivais de Música Popular Brasileira, que chegou a juntar Gilberto Gil e Os Mutantes no palco para apresentarem a melhor canção que não venceu aquele festival “Domingo no Parque”. E, mais adiante, a hippilandia brasileira, finalmente, se juntou para assistir o 1º Festival de Águas Claras, conhecido como o nosso Woodstock, que aconteceu já no governo militar de Ernesto Geisel. Sobre esse episódio, vale recomendar o documentário “O Barato de Iacanga” (2019), disponível no Netflix.

Renascimento Psicodélico

Tá, mas e a psicologia? Ahh, agora é que a coisa fica mais interessante. Pois estamos vivendo algo que os cientistas estão chamando de renascimento psicodélico e envolve a exploração e testagem, por meio de protocolos científicos de pesquisa, da aplicação de sustâncias psicodélicas em seres humanos. Após anos de tabu e proibição de pesquisas, várias universidades do mundo estão podendo trabalhar com compostos como o LSD, a psilocibina, o DMT e ayahuasca. Resultados favoráveis e perspectivas otimistas estão sendo observadas naquilo que diz respeito à saúde mental, psicoterapia e tratamento de psicopatologias (como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e também adicções).

“A intensidade da depressão dos participantes no estudo da UFRN foi avaliada por meio de dois questionários e escalas padronizadas (HAM-D e MADRS) com intervalos de um, dois e sete dias depois da sessão de dosagem. Dos catorze pacientes que tomaram ayahuasca, nove apresentaram escores mais baixos de depressão já nos primeiros dias e, para surpresa dos pesquisadores, alguns chegaram a ter resultados ainda melhores sete dias depois. No grupo de controle, que ingeriu placebo, quatro manifestaram melhora.”

(Leite, 2021, p. 18).
Recomendação de livro sobre as possibilidades terapêuticas

No geral, essa utilização envolve o acompanhamento de um médico e de um psicoterapeuta, que irá realizar sessões preliminares de psicoeducação e instrução sobre a substância. Então a substância é aplicada em ambiente terapêutico seguro. E após o uso e experiência, sessões subsequentes são realizadas para descrever, contatar e relatar a experiência. Logo, não se trata de uma sessão apenas ou daquilo que as pessoas podem entender como uso recreativo (ainda que esse possa trazer ótimos insights, questões e modificação de padrões). Mas segue o protocolo de um tratamento e envolve um acompanhamento continuado. Uma bela compilação de dados internacionais e nacionais foi apresentada por Marcelo Leite no livro “Psiconautas: viagens com a ciência psicodélica brasileira”, de 2021.

Por fim, ouçam minha música psicodélica e apertem os cintos pois a viagem está só começando.

“Querido Allen,
Ontem à noite tomei o resto da mistura do yage. Eis o que aconteceu: (…) O quarto parece sacudir e vibrar. O passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som.”

(William Burroughs)

Referências

Burroughs, W. & Ginsberg, A. (2008). Cartas do Yage. Porto Alegre: L&PM.

Filho, A. P. C.. (2019). O cenário underground da psicodelia brasileira na década de 1970: aspectos da estética e poética. (Dissertação de mestrado). Goiânia: UFG.

Leite, M. (2021). Psiconautas: viagens com a ciência psicodélica brasileira. São Paulo: Fósforo.

Por Caio Ferreira

Lista de Filmes e Séries Para Amantes da Psicologia

O que você gostaria que tivesse no seu serviço de streaming? (Ou que não saísse dele?)

A Sociedade dos Psicólogos preparou uma lista com os principais filmes e séries que abordam temas, diretamente, relacionados ao estudo do comportamento humano, como transtornos psicológicos, de personalidade, emoções, afetos, fetiches, homicídios em série, internações em manicômios e sessões de psicoterapia, por exemplo.

A ideia dessa lista é reunir os títulos e te lembrar daquele filme ou série que você ficou de ver e nunca viu 😉

FILMES

Estamira é um documentário de 2004 que mostra a rotina deplorável de uma moradora do lixão do Rio de Janeiro que ainda apresenta questões psicóticas. (Disponível no Globoplay)

SÉRIES

Sessão de Terapia retrata um psicoterapeuta ao longo de sua semana, atendendo pacientes e realizando também sua supervisão. (Disponível no Globoplay)
  • 3% (2016 – 2020)
  • After Life (2019 – )
  • Atypical (2016 – )
  • Bates Motel (2013 – 2017)
  • Black Mirror (2011 – )
  • Criminal Minds (2005 – 2020)
  • Dexter (2006 – 2013)
  • Freud (2020 – )
  • Hannibal (2013 – 2015)
  • House MD (2004 – 2012)
  • Lie To Me (2009 – 2011)
  • Maniac (2018)
  • Mental (2009)
  • Merlí (2015 – 2018)
  • Mindhunter (2017 – )
  • O Alienista (2018)
  • Perception (2012 – 2015)
  • Psi (2014 – )
  • Sessão de Terapia (2012 – )
  • Sherlock (2010 – 2017)
  • The Sinner (2017 – )
  • Você (2018 –)

E aí, quais desses você já viu? Qual é o favorito? Qual será o próximo? Qual ficou faltando?

Bom cineminha!!

Por Caio Ferreira